quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Histórias de um viajante, por Marina Colasanti

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Perambulando por um sebo aqui em São Paulo, achei quase que por acaso um livro de contos muito bom de uma escritora que eu só conhecia de nome, Marina Colasanti. Fui pesquisar e descobri que essa autora, de origem ítalo-brasileira, já nasceu com os pezinhos na estrada, e que apesar de viajar muito, escolheu o Brasil para viver e construir seus sonhos. Sorte nossa.

O livro que o destino me pôs nas mãos numa manhã calorosa de um sábado de dezembro tem o sugestivo título de 23 histórias de um viajante e descansava na prateleira de guias de viagem, quando deveria estar na prateleira de contos ou romances, mas quem frequenta sebos adquire um sexto-sentido na hora das buscas por um título; já achei, só para se ter uma ideia, livros de relatos de viagem em seções como culinária, romances, esotéricos, comunicação, geografia, poesia... e acho que se tivesse paciência, ainda encontraria literatura odepórica nas prateleiras de administração e marketing ou engenharia mecânica, vai saber.

E nessa caçada literária, deparei-me com a boa surpresa do dia que foi o texto da Marina. Suas histórias de um viajante são narrativas cheias de poesia e simbolismos, muitos deles, imagino, melhor compreendidos numa segunda ou terceira leitura. Escrevendo como quem costura uma colcha de retalhos, Marina Colasanti começa sua narrativa contando a história de um príncipe que vive num reino cujo castelo se encontra cercado por altas muralhas. Numa manhã um viajante chega a cavalo e, para seguir o seu destino, precisa ultrapassar as fortificações que protegem as terras do príncipe e que lhe impedem de prosseguir caminho.

- Quem bate? – perguntaram.
- Sou um viajante – respondeu. E era verdade, vinha de longe, e longe ia.
- O que deseja?
- Passagem por essas terras.
- E que mais?
- Nada mais.
A seteira foi fechada. Os mensageiros partiram rumo ao castelo. Está desarmado e só quer passagem, foi dito ao príncipe. E o príncipe ouviu sem interesse. É um viajante, foi acrescentado.
A palavra abriu caminho na atenção do príncipe, e era cheia de portas. Um viajante, disse seu pensamento, um homem que anda pelo mundo, um homem para quem o mundo é um leque que se pode abrir.


O príncipe permite que o viajante entre e pernoite no castelo. Durante o jantar, o jovem monarca pede ao viajante para contar algumas das histórias que este certamente deveria haver escutado ou vivenciado em suas andanças. E o viajante contou.

E nesse imaginário medieval, Marina vai narrando, pela boca do viajante, aventuras e situações que nos levam a refletir um pouco mais aqui e ali sobre as múltiplas faces da vida, tanto daquele que viaja, quanto daquele que se isola dentro de suas muralhas, seja por opção, seja por necessidade. A estrutura escolhida pela autora me fez refletir mais uma vez sobre a força que possuem essas narrativas imaginárias de viagem; mesmo após centenas de anos, ainda hoje nos encantamos com esse universo mítico dos viajantes, dos mistérios que carregam, do poder que possuem de transformação não só de si mesmos mas também do outro, se este outro estiver aberto ao novo. Um viajante é um estrangeiro, é um peregrino e é, como sugere Marina, um destino.

E como tenho, mais uma vez, que escolher uma passagem (nesse caso, um conto) para postar aqui no Odepórica, peguei a mais linda, na minha opinião, das histórias desse viajante solitário. Eu, que não conhecia o texto de Marina Colasanti, me encantei com a maneira suave com que ela trabalha as palavras, às vezes beirando à poesia, outras vezes mais misteriosa, meio mulher esfinge... uma preciosidade que procurarei conhecer melhor e convido você leitor e leitora desse blog a fazer o mesmo.
Boa viagem.

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A 23ª história: No caminho inexistente

Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.

Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranqüila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

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Leia: 23 histórias de um viajante. Marina Colasanti. São Paulo: Editora Global, 2005. A Marina Colasanti tem uma vasta carreira literária, com muitas obras publicadas aqui e acolá. E de tudo há um pouco: contos, crônicas, artigos, ensaios, literatura infanto-juvenil e poesia. Dos vários prêmios que recebeu, quatro Jabutis, pela Câmara Brasileira do Livro.

sábado, 26 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte 3, final.

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O carrossel das viagens iniciáticas (cont.)

Foi nos Estados Unidos que Helena encontrou, finalmente, condições adequadas para dar o grande passo que consistiu na fundação da Sociedade Teosófica. Em 1874, dentro de sua atividade jornalística, foi enviada para presenciar os estranhos fenômenos espíritas que ocorriam na casa da família Eddy, em Vermont. Os dois irmãos Eddy, diante de quaisquer testemunhas, conseguiam produzir materializações de fantasmas e um grande número de outros fenômenos de tipo mediúnico. Naqueles dias a opinião pública americana fervilhava de interesse pelas manifestações espíritas que aconteciam em muitos lugares do país.

Na casa dos Eddy, Helena Blavatsky conheceu o coronel Henry Steel Olcott, num encontro que seria decisivo para sua atividade futura. Olcott, ex-combatente da causa abolicionista na guerra civil americana (1861-1865), era um bem sucedido homem de negócios, com grande penetração nos meios culturais e governamentais dos Estados Unidos. Residia em Nova York, onde dividia seu tempo livre entre lojas maçônicas e grupos espíritas. Ele fora a Vermont com o mesmo objetivo de Helena, para escrever um artigo sobre os Eddy encomendado pelo jornal New York Graphic.

O encontro foi prosaico. Olcott narra que durante uma refeição na casa dos Eddy, a 17 de setembro de 1874, ele viu entrar no refeitório uma mulher de tipo mongol, sem idade nem encanto, vestida com uma chocante túnica escarlate. Surpreendido, ele voltou-se para um seu companheiro e, rindo, exclamou: “Veja esse espécime! Ah, não, por favor!”.

No transcorrer do mesmo dia travou amizade com aquela senhora tão excêntrica. Blavatsky tinha um grande charuto apagado entre os dedos, e ele, aproximando-se, ofereceu-lhe fogo. Entabularam conversação e, desde os primeiros minutos, o coronel deixou-se subjugar. Não porque se sentisse atraído por aquela mulher tão pouco insinuante, “mas por uma espécie de brilho que ela desprendia e que colocava seus interlocutores num ambiente quase sobrenatural”.

Olcott tornou-se, em Nova York, freqüentador assíduo do número 16 de Irving Place, onde Blavatsky residia e celebrava as reuniões mais insólitas da cidade. Durante muitos meses participou das sessões de tipo espírita que a anfitriã dirigia, fazendo aparecer espectros de todo tipo, produzindo música e ruídos de sinos e campainhas no ar, ou materializando sobre a mesa objetos ou exatamente o tipo de fruta requisitada pelos participantes. Parece não haver dúvidas quanto à autenticidade desses fenômenos, tão grande é o número de depoimentos daqueles que, assombrados, os testemunharam.

A produção de fenômenos paranormais foi o meio encontrado por Blavatsky para atrair a atenção das pessoas, mas não era em absoluto o objetivo final de seu interesse. O plano era conquistar dessa forma um número razoável de adeptos para, com eles, constituir uma sociedade ou agremiação. Essa meta foi, de certa forma, alcançada, embora mais tarde Blavatsky lamentasse amargamente esse período em que, para chamar a atenção sobre sua pessoa inicialmente, e logo após suas idéias, ela se dispôs a usar seus poderes paranormais. Procurava satisfazer a curiosidade insaciável dos presentes, atendendo a todos os seus pedidos, e isso causou grande desgaste de suas energias vitais, comprometendo-lhe inclusive a saúde. Sem contar que, anos mais tarde, suas capacidades paranormais foram postas em dúvida, atraindo sobre ela muita calúnia e agressões.

No decorrer desse período, de forma persistente mas quase imperceptível, ela iniciou o coronel Olcott nos mistérios das filosofias orientais, no ocultismo e no espiritualismo. Acendeu nele uma chama que só iria apagar-se em 1907, quando Olcott morreu.

Olcott não era um homem contemplativo. Seu temperamento o empurrava para a ação prática, para a conquista e o proselitismo. Ele acabou criando, com o consentimento e a colaboração de Blavatsky, um “Clube dos Milagres”, que foi a semente inicial da Sociedade Teosófica, esta última fundada oficialmente em dezembro de 1875. Tratava-se de um grupo esotérico cujos membros se comprometiam a um absoluto silêncio, e que tinha como finalidade a investigação, com métodos “científicos”, de “todas as manifestações paranormais, incluídas as materializações de espíritos”.

O clube funcionou durante algum tempo, mas Helena logo se desiludiu. A maioria dos membros, como comumente acontece em organizações similares, estava unicamente interessada em satisfazer a curiosidade de presenciar fenômenos estranhos. Blavatsky encontrou dificuldades quase insuperáveis para transformar essa gula banal de sensações diferentes numa real inquietude de tipo existencial, filosófico e espiritual. Por outro lado, a paixão pelos fenômenos espíritas, avidamente explorada pela imprensa americana da época, já começava a decair. Vários cientistas e membros das igrejas oficiais manifestavam agressivamente seu ceticismo e suas dúvidas.

Desgostosa, Helena abandona subitamente Nova York, indo para a Filadélfia. Olcott reúne-se a ela nessa cidade e conta, em suas memórias, os incríveis fenômenos de magia que ela produziu para ele e para um ou outro amigo mais íntimo. Entre tantos fatos estranhos, ele constatou que seus correspondentes de vários lugares do mundo remetiam-lhe as cartas para Filadélfia, sem que ele tivesse revelado a ninguém seu novo endereço. Foi também em Filadélfia que Olcott começou a receber correspondência, postada em diferentes lugares, dos mestres ocultos de Blavatsky. Essas cartas continham ensinamentos variados, e também orientação de caráter pessoal.

Embora fundada em Nova York, a Sociedade Teosófica não alcançou, nos Estados Unidos, e nessa época, o prestígio e importância que conquistaria mais tarde. Nesses anos, o acontecimento de maior envergadura na obra de Blavatsky é a produção dos quatro volumes de Isís revelada, seu primeiro grande marco como autora ocultista.

Em 1878 Helena naturaliza-se americana, e parte para a Índia no SS Canadá, em companhia de Olcott. Estabelecem sua base em Bombaim, morando no bairro nativo da cidade.

É na Índia que a Sociedade Teosófica conhece, em curto tempo, um crescimento e expansão inéditos para qualquer instituição similar. Olcott e Blavatsky viajam por todo o país, dando conferências, cursos, criando grupos de estudo. A imensa maioria de seus ouvintes são os próprios indianos, e as autoridades coloniais inglesas vêem com preocupação e suspeita o crescimento avassalador do movimento teosófico.

Em 1882 a Sociedade Teosófica compra uma extensão de terra na localidade de Adyar, perto de Madras, no sul da Índia. Instala-se aí a sede mundial da sociedade, onde permanece até os dias de hoje.

Em 1884, cansada pela atividade incessante e com a saúde seriamente abalada, Blavatsky recebe um rude golpe. Um casal de origem francesa, de nome Coulomb, entrega a missionários ingleses declarações assinadas onde acusam Blavatsky de fraude na produção dos fenômenos paranormais. Afirmam inclusive ter colaborado com ela na criação de truques destinados a enganar as pessoas. Soube-se depois que esse casal, que Blavatsky abrigara no próprio recinto da Sociedade, já que chegara a Adyar completamente desprovido de recursos, havia se incompatibilizado com a direção da casa devido a seu comportamento em desacordo com as normas estabelecidas. Os Coulomb tiveram de abandonar a sede, e a denúncia que fizeram em seguida contém, assim, todos os ares de uma vingança. Mas até que tudo isso fosse esclarecido, a tragédia estava armada. De posse daquelas declarações, os missionários as encaminharam para a grande imprensa indiana, criando um escândalo de proporções nacionais.

Em 1885, dentro desse quadro, Blavatsky adoece a ponto de todos pensarem na sua morte. Subitamente volta ao normal, e logo depois deixa a Índia para nunca mais voltar. Na presidência da Sociedade Teosófica permanece o coronel Olcott.

Na Europa, instala-se em Wurzburg, Alemanha, e mergulha firme na elaboração de A doutrina secreta. Mas a sua fase de adversidade não havia terminado. Certa manhã, ela recebe uma cópia de um relatório da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, de Londres, onde é acusada de charlatã. Nesse relatório, que fora publicado havia pouco na Inglaterra causando outro grande escândalo, o pesquisador Richard Hodgson afirma que todos os fenômenos produzidos pela atuação de Blavatsky seriam forjados. Blavatsky se defende, procurando por todos os meios provar sua inocência, mas a calúnia é insidiosa e iria durante anos refletir-se na sua imagem. Só depois de sua morte é que outras investigações afastaram a possibilidade de fraude.

Muitos amigos e seguidores a desertaram, e ela permanece na Alemanha em companhia exclusiva da condessa Wachtmeister. Cai gravemente enferma, mas reúne todas as suas forças e continua a trabalhar. Em 1887 termina finalmente A doutrina secreta, e viaja para Londres.

Nos anos seguintes, quase inválida, dedica-se à formação de um núcleo esotérico da Sociedade Teosófica. Escreve ainda duas obras capitais, A voz do silêncio (que seria traduzida em Portugal pelo poeta Fernando Pessoa), e A chave da teosofia. Vive ainda para ver publicada A doutrina secreta, cuja primeira edição de quinhentos exemplares esgota-se rapidamente.

A 8 de maio de 1891, dois meses antes de completar sessenta anos, Blavatsky falece tranquilamente em Londres.


"O homem interior é o único Deus que podemos conhecer". HPB

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Fonte: Madame Blavatsky, de Luis Pellegrini. T.A. Queiroz ed. 1986. O capítulo aqui postado na íntegra teve sua publicação gentilmente autorizada pelo autor. Grazzie Pellegrini!


Há muito o que se ver sobre Blavatsky no Youtube. Selecionei um vídeo-documentário de sete minutos em português de autoria de Rosane Viola do blog theosofical.blogspot.com. Quer dar uma olhada?



Um outro, bem legal, em inglês:





quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte II

. (Ilustração: Una Woodruff 1981 from the book Witches, by Colin Wilson)
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Continuando com o tema do post anterior, as viagens de Madame Blavatsky, vamos ler um capítulo do ótimo livrinho (porque pequenino) que Luis Pellegrini escreveu sobre a fundadora da Sociedade Teosófica. Um título bonito e sugestivo: O carrossel das viagens iniciáticas. Não repare, nele você irá encontrar muitas das informações já publicadas no post anterior, a parte I. Mas aqui o autor deu um trato nas informações sobre as viagens de HPB, deixando a leitura mais fluída, além de agregar outras passagens de interesse.

E não é que, relendo o texto do Pellegrini, dei por mim que noventa por cento da biografia de Helena Blavatsky se resume às viagens que ela fez ao longo de toda sua vida? Não lhe parece interessante?
Boa viagem.


O carrossel das viagens iniciáticas

Helena Petrovna nasceu prematuramente à meia-noite de 30 para 31 de julho (12 de agosto pelo calendário ocidental) de 1831, em Ekaterinoslav, no sul da Rússia. Uma terrível epidemia de cólera disseminava o terror em boa parte do país, exatamente nessa época. Muitos membros da família desapareceram na catástrofe.

Esse nascimento, num momento tão trágico, foi seguido por vários acontecimentos singulares, nos quais as pessoas simples e supersticiosas acreditaram ver signos inequívocos de um destino invulgar. Na cerimônia de batismo da pequena Helena, enquanto seus padrinhos, de acordo com o costume da época, cuspiam ao redor para afastar os maus espíritos, alguém, por descuido, incendiou com uma vela a batina do padre. Ele sofreu queimaduras de certa gravidade, e na desordem que se seguiu outras pessoas ficaram feridas. Neste e em outros incidentes viu-se o presságio de que a vida de Helena seria marcada por influências “diabólicas”, fazendo com que os servidores e as amas que se ocuparam dela a tratassem como um ser distinto, possuidor de dons sobrenaturais.

Certo dia, já menina, Helena revelou um caráter voluntarioso, rebelde e independente. Muito inteligente, chocava as pessoas e inquietava a família com um comportamento que denotava total desprezo pelas convenções sociais e pela etiqueta típica do seu meio. De qualquer forma, absorveu a refinada educação que lhe foi proporcionada, e que visava encaminhá-la, como as irmãs e primas, a um destino convencional de dama da aristocracia.

Revelou muito cedo possuir também uma grande variedade de capacidades psíquicas ou paranormais, como telepatia, premonição e clarividência, para assombro e preocupação ainda maior dos que a cercavam.

A morte da mãe, aos onze anos, foi um rude golpe que a obrigou a viver com os avós, os Fadeef, num antigo e vasto solar na cidade de Saratov. Passou a adolescência ali, junto a muitos outros membros da família e grande número de criados e servidores. Seu avô era o governador da província de Saratov.

A vida no solar foi determinada pela presença de Helena e pelos constantes fenômenos psíquicos que produzia. Ela se dizia (e, segundo os relatos, o demonstrava) dotada da faculdade de comunicar-se com os habitantes de outras esferas ou mundos invisíveis, bem como com os espíritos dos mortos. Essa potencialidade natural seria posteriormente disciplinada e desenvolvida, adquirindo grande importância nos processos que lhe permitiram criar e consolidar a sua obra.

Aos dezessete anos considerou encerrados os estudos, demonstrando talento apenas para a música – era exímia pianista – e para os idiomas. Falava correntemente, além do russo, inglês, francês e alemão, embora com forte sotaque. Nessa época, era uma rapariga dotada de um físico não privilegiado, pele muito branca, cabelos ruivos e crespos, olhos cinza azulados e muito brilhantes. Sua fisionomia revelava traços asiáticos, era robusta, e carente de feminilidade e encanto.

Não se preocupava com as questões amorosas, e seus parentes a julgavam incapaz de seduzir um homem. Não suportava sequer as conversas das amigas sobre noivados e galanteios. Apesar disso, em 1848, com a idade de dezessete anos, casou-se com o general Nicéforo V. Blavatsky, governador da província de Erevan, que já beirava, na época, os setenta anos. Existem muitas versões sobre as razões desse casamento. Alguns relatos dizem que ela foi obrigada a aceitá-lo por imposição da família. Mas é mais plausível que ela o tenha feito por vontade própria, num gesto impulsivo de protesto contra o pai. Este, certo dia, lhe teria dito que ela era tão pouco feminina que seria incapaz sequer de conseguir que aquele “velho corvo” se casasse com ela. Helena tomou isso como um desafio e, com certas manobras, fez com que o ancião se apaixonasse. Quando ele lhe pediu a mão, ela aceitou. Converteu-se assim em Helena Petrovna Blavatsky, conseguindo um sobrenome que haveria de conservar até o fim.

Mas, desde o primeiro dia, o casamento não foi do seu agrado. Da mãe e da avó, ambas batalhadoras pelo voto feminino, herdara não apenas os dotes intelectuais, mas também um ferrenho espírito de luta em prol dos direitos da mulher. Não podia suportar um casamento feito nos moldes tradicionais, em que a vontade da mulher nada contava. Não quis se entregar ao marido e, segundo consta, poucos dias após as bodas tentou subornar um soldado cosaco da guarda do marido para que a conduzisse à Pérsia. O soldado a denunciou ao velho Blavatsky, que se enfureceu e a considerou sua prisioneira. Helena foi encerrada em casa, sob severa vigilância. Três meses depois ela conseguiu fugir. Refugiou-se na casa da família, que a remeteu ao pai. Mas temendo que este a obrigasse a voltar para junto do marido, desviou a rota e foi para o porto de Odessa, no Mar Negro, onde embarcou num veleiro inglês rumo a Constantinopla, na Turquia. Mais tarde, com a ajuda do pai, que lhe remeteu dinheiro, foi para o Egito. Termina aqui sua biografia como jovem dama da aristocracia russa. No mesmo ponto onde começa a trajetória de uma vida fascinante, tanto no sentido mundano como no espiritual.

A ruptura de Helena com o marido não foi seguida de divórcio, já que a lei russa o proibia. O general negou-se a proporcionar-lhe qualquer subsídio, mas seu pai, de forma mais ou menos velada, enviou-lhe regularmente uma pensão vitalícia a todos os lugares onde esteve. A essas quantias juntaram-se, ao longo dos anos, algumas heranças deixadas por tias e outros parentes, e todo esse suporte financeiro permitiu que ela realizasse, durante duas décadas, um impressionante número de viagens. Sua vida, nesse período, mais parece uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões. Nesse sentido a biografia de Helena Blavatsky é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de freqüentes mudanças de um lugar para outro. Por um lado, essa característica está relacionada com uma particular inquietude de alma que distingue tais seres dos homens comuns. Por outro, é axioma bem conhecido no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto. Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do esoterismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto.

Helena Blavatsky não fugiu a essa regra. Em 1849, no Cairo, logo após a estada na Turquia, encontra seu primeiro instrutor espiritual. Era um idoso letrado de religião copta, que tinha fama em todo o país de ser mago e ocultista de talento, além de bom conhecedor da antiga religião faraônica. O encontro modificou a vida de Helena, despertando-lhe inquietudes de natureza filosófica e espiritual e preparando-a para contatar, pouco mais de um ano depois, seu guru, em Londres. Foi esse instrutor copta quem a teria iniciado nos mistérios do culto arcaico da deusa Isis, fazendo-a apreender o verdadeiro significado do feminino universal.

Nenhum dos numerosos biógrafos de Blavatsky conseguiu traçar o exato itinerário de suas andanças no período que vai de 1851, quando viaja para o Canadá, até 1873, quando se instala em Nova York. Encontramos traços de sua passagem por uma tribo indígena próximo de Quebec, logo depôs vai estudar a comunidade Mórmon instalada em Utah, nos Estados Unidos; a seguir, pesquisa ritos vodu na região de Nova Orleans. Visita as ruínas aztecas e maias na América Central. Viaja para o Oriente, passando um bom tempo no Ceilão e na Índia. Sabe-se que em 1853 faz uma primeira tentativa para entrar no Tibete, território proibido aos estrangeiros. E presa pelos ingleses e trazida de volta para a Índia. Vai para Singapura e Java, de onde retorna à Inglaterra.

No verão de 1854 atravessa os Estados Unidos e, na Califórnia, embarca de novo para o Oriente. Chega ao Japão, onde encontra os membros da mais esotérica das seitas daquele país: os iamabuchis. Em 1856 está novamente na Índia, visitando a Cachemira e Ladakh, na fronteira com o Tibete. Passa cerca de três anos recebendo instruções num mosteiro lamaísta da cidade de Shigatsé.

No outono de 1867 chega à Itália, em Bolonha, envolvendo-se com os revolucionários italianos. Luta ao lado de Garibaldi na batalha de Mentana e é gravemente ferida em combate no dia dois de novembro.

Em 1868 vai mais uma vez ao Tibete, encontrando-se com seus mestres. Até 1870 permanece em vários mosteiros tibetanos, recebendo treinamento intensivo. Há uma carta misteriosa entregue a uma sua tia, em Odessa, na Rússia, que diz: “Os nobres parentes de Madame Blavatsky não têm qualquer motivo para preocupação. Sua filha e sobrinha não deixou este mundo. Está viva e deseja que aqueles que a amam saiba que está bem e sente-se muito feliz neste distante e desconhecido local que escolheu para si. Esteve muito doente, mas já está boa; graças à proteção de Sehor Sang-Gyas encontrou amigos devotados que tomaram conta dela material e espiritualmente. Que as senhoras, portanto, fiquem calmas. Antes de dezoito novas luas terem surgido, ela voltará a sua família.”

Nos últimos dias de 1870 Blavatsky deixa a Índia, retornando à Europa pelo canal de Suez. No verão de 1871 parte para o Egito, procedente do porto grego do Pireu, a bordo do SS Eunomia. O navio explode durante a viagem, entre as ilhas de Doxos e Hidra, no dia 21 de junho. Este fato é comentado em certas biografias assinadas por autores teosofistas, como sendo um atentado destinado a assassinar Blavatsky. A bomba que explodiu no navio, causando seu naufrágio, teria sido colocada pelos chamados “homens de negro”, pertencentes a uma outra confraria de desígnios contrários aos da Fraternidade Branca. Sabedores de que Helena estivera no Tibete em contato com instrutores dessa última confraria, sendo por eles iniciada no conhecimento secreto, procuraram matá-la com aquele atentado. Seja como for, Helena foi uma das sobreviventes da catástrofe, tendo recebido assistência do governo grego, que a enviou para Alexandria, no Egito.

No outono de 1871 ela funda uma sociedade espírita no Cairo, para a investigação dos fenômenos mediúnicos. Fracassa no empreendimento. Vai para a Síria e a Palestina, entrando em contato com judeus e cabalistas e com a comunidade drusa no Líbano.

Em 1872, no verão, retorna a Odessa, para visitar a família, antes de terem passado as dezoito luas, como foi indicado na carta citada. Mas não permanece na Rússia por muito tempo.

Em 1873 já está em Bucareste, na Romênia, de onde segue para Paris. Parte subitamente para os Estados Unidos, onde chega no dia 7 de julho.

Em Nova York recebe a notícia da morte do pai, bem como a da interrupção das remessas em dinheiro que a mantinham. Passa por dificuldades financeiras. Trabalha na imprensa, traduz livros, escreve artigos para jornais russos. Começa a ficar conhecida e é intensa a curiosidade que desperta em todos os circuitos que freqüenta na grande metrópole americana.


domingo, 20 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte 1

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(Foto: Enrico Resta. Londres, 1889.)
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Helena Petrovna Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica (1875), foi a mulher mais interessante que passou por esse planeta no século dezenove. HPB realizou proezas que poucas pessoas seriam capazes de realizar mesmo nos dias de hoje. Proezas, aliás, que lhe trouxeram alguns desgostos, como ter sido considerada uma impostora quando na realidade havia dedicado toda a sua vida à causa pela qual lutou até o fim, a de demonstrar, através do estudo dos grandes textos sagrados, de que não existe religião superior à verdade.

É sabido que as pessoas que vivem à frente de seu tempo, que nascem para quebrar paradigmas, para contestar os padrões vigentes, não vivem uma vida tranquila e vulgar. São incompreendidas, julgadas, sofrem preconceitos e acabam sendo tomadas por loucas ou no mínimo excêntricas, o que dá quase no mesmo. Helena passou por tudo isso: interessou-se desde jovem pelo ocultismo, foi considerada espiã russa, falava diversas línguas (40, segundo alguns relatos), viajou para os lugares mais distantes e exóticos do planeta, produziu fenômenos paranormais, escreveu obras que ainda hoje espantam os estudiosos por sua imensa erudição, e, cereja do bolo, era mulher. Parece pouco? Pois Madame Blavatsky quebrou muitos tabus, veja só alguns:

- querer ser verdadeiramente mulher, totalmente emancipada e não uma boneca escrava dos homens para ser utilizada como mera fábrica de prazer ou trabalho;

- viajar constantemente pelo mundo, numa época em que as comunicações eram difíceis e o sentido de informação praticamente não existia;

- possuir poderes psíquicos de grande desenvolvimento e que provocavam, inúmeras vezes, grande curiosidade em torno de si;

- ter repudiado publicamente o Cristianismo e se convertido ao Budismo. Contra ela caía a cólera dos missionários que tentavam em vão converter os “infiéis”;

- apresentar ao mundo o valor imenso do conhecimento tradicional da Índia. Foi ao ler os livros de Helena Blavatsky que Gandhi encontrou a sua vocação (documentado em sua autobiografia);

- não possuir título universitário e ter a coragem de escrever contestando inúmeras idéias em vigor na época.

Além de Gandhi, citado acima, Luis Pellegrini lembra-nos que HPB também influenciou nomes importantes de nossa história recente: Fernando Pessoa, Yeats, Albert Einstein, Thomas Edison, Carl Jung, Bernard Shaw, Rudolf Steiner, Krishnamurti, Kandinsky, Aldous Huxley, Mondrian e o dramaturgo brasileiro Plínio Marcos, para valorizar o que é nosso, e que sobre Helena escreveu o seguinte:

“... de repente, Blavatsky me arrebatou de vez. Viajei com ela. Viajei de várias maneiras. A favor, contra, junto. Com amor, ódio, paixão inflamada, desprezo, escárnio. Sempre conduzido por ela. Doida visionária, poeta utópica, embusteira de mil e um truques dignos de ilusionistas de mafuá, mas sempre grandiosa e de extrema generosidade. Sempre no caminho. Ansiosa por se encontrar e sem nenhum medo de se perder. Ansiosa para despertar o próximo, sem nenhum medo da solidão. Ansiosa para promover a concórdia universal, sem nenhum medo de semear conflitos e aguçar contradições. Eu fui compreendendo a Blavatsky. E então, ela me levou para uma região de total silêncio. Ali, sem nenhum sentimento, sem ternura e sem rancor, sem emoção, eu escrevi sobre a Blavatsky. Não com as regras de um pesquisador acadêmico. Escrevi sobre a Blavatsky com a percepção do meu espírito parado diante do dela.”

Não é mesmo bela essa declaração de Plínio Marcos? Quanto à obra de HPB há muito o que ser dito, explicado, estudado, entendido, esmiuçado, revelado, relembrado, contestado, questionado, tudo isso e muito mais. Sua obra mais grandiosa, a Doutrina Secreta, composta de seis volumes (editadas aqui pela Pensamento) possui tantas citações e referências que, como escreveu Pellegrini, segundo cálculos, para conseguir ter acesso a todas as informações ali documentadas, HPB deveria ter lido sem parar por mais de um século! O espantoso é que HPB não só citava suas fontes como também as páginas dos livros nos quais as passagens foram retiradas, de obras muitas vezes só encontradas em acervos de bibliotecas restritas como as do Vaticano ou do Museu Britânico ou a de alguma coleção de um mosteiro perdido nos Himalaias. Os que conviveram com ela, como a fiel companheira Condessa Constance Wachtmeister que a secretariou em seus últimos anos de vida, afirmam que Blavatsky não carregava em sua biblioteca particular mais do que uma dezena de obras, uma “pequena estante de livros ordinários”, segundo Olcott. Um cientista britânico, C. Carter Blake chegou a declarar o seguinte, depois de um encontro com HPB: “Madame Blavatsky possuía, sem dúvida, fontes originais de informação (ignoro sua natureza) que transcendiam o conhecimento de especialistas em seus próprios campos.” De onde, então, HPB tirou todo esse conhecimento? São delas as palavras:

“O que eu faço só posso descrever como uma espécie de vácuo que se delineia no ar diante de mim. Fixo meu olhar e minha vontade nesse vácuo e logo em seguida cenas, uma depois da outra, começam a desfilar diante de meus olhos, como quadros sucessivos de um diorama. Se preciso de uma referência ou informação de algum livro, concentro minha mente no objetivo e a contrapartida astral do livro surge diante de mim e dela retiro o que preciso.”

Obviamente, muitos são os que contestam esses poderes paranormais de HPB; dizem que ela era uma médium bastante evoluída em termos práticos, principalmente na arte (mágica) da materialização, o que trouxe consequências graves à sua saúde cada vez mais fragilizada no passar dos anos, por conta do enorme desgaste energético de suas práticas “pouco convencionais”. Madame Blavatsky era uma mulher obesa, sedentária, se alimentava perigosamente (amava ovos banhados em manteiga derretida) e fumava muito, incluindo o haxixe, que além do prazer também lhe ajudava num sentido mais “xamânico”, por assim dizer. Também não era vegetariana e dos excessos civilizatórios nesse campo da alimentação, o álcool em sua mesa não tinha vez, pois era abstêmia. Percebe-se com tudo isso que HPB estava longe de qualquer tentativa de enquadramento dentro dos padrões espiritualistas de sua época (ou de qualquer outra que seja).

Quanto aos poderes - meros detalhes se comparados à grandiosidade de sua obra e erudição - HPB se fez valer deles intencionalmente para chamar a atenção à uma causa maior, muito maior do que os fenômenos que produzia, o que de fato aconteceu. A Condessa Wachtmeister escreveu o seguinte sobre isso:

“Tivesse Madame Blavatsky se apresentado no início como simples professora de Filosofia, poucos discípulos teria atraído para junto de si, pois vinte anos atrás muita gente não havia chegado ainda ao ponto a que se chegou. (...) A instrução estava em nível inferior ao atual e havia necessidade de algo que atraísse, por exemplo, o gosto pelas coisas maravilhosas, para despertar um interesse inicial que levasse as pessoas a refletir com mais profundidade. Assim, os fenômenos deram início à Sociedade, mas uma vez introduzido esse elemento, seria difícil desfazer-se dele depois de ter servido com tanta utilidade. Todos chegavam ávidos de satisfazer seu gosto maravilhoso e, se fossem desapontados, afastar-se-iam aborrecidos e indignados.”

Entretanto, com o tempo, ela mesma se valeu de artifícios enganosos para ludibriar aqueles que iam visitá-la, sem se preocupar muito com isso, mas ao ser flagrada aqui e ali em algumas ocasiões, todo o seu histórico fenomênico foi questionado, e com o tempo sua reputação extremamente abalada. Se por um lado ela pouco se importava com o que diziam sobre si, por outro uma profunda tristeza lhe abateu ao ver sua obra – a obra de seus Mestres – ser tratada sem o respeito que lhe era merecido. Mas mesmo quanto a isso HPB estava preparada, pois costumava dizer que sua obra só poderia começar a ser compreendida um século após a sua partida do plano terrestre.

Enfim, se fôssemos começar a esmiuçar cada detalhe interessante da vida de Helena Blavatsky, teríamos que teclar por dias e noites sem fim, mas para isso, leitor e leitora, há bons livros que depois indico. Neste espaço virtual, o aspecto que procuro destacar é o do universo encantado e encantador das viagens, então, antes de seguirmos para uma leitura muito bacana que separei para o Odepórica (a ser postada depois desta), vejamos um resumo impressionante das viagens de HPB pelo mundo, que tirei de um livrinho publicado na coleção O Pensamento Vivo, da Martin Claret:

1849-50 – Cruza a Turquia, a Grécia, o Egito e atinge a França.
1851 (outono) - Parte para o Canadá, para investigar a maneira de viver dos índios; reúne-se a uma tribo próximo a Québec e permanece durante algum tempo estudando a medicina natural. Vai a Illinois para conhecer a comunidade Mórmon, que tinha se deslocado para Salt Lake City, no Utah.
1851 (inverno) – Vai a Nova Orleans estudar os rituais de feitiçaria do Vodu. Parte para o Texas em direção à América Central, via México.
1852 – Chega ao Peru, descrevendo com detalhes vários templos na sua obra Isis sem Véu.
1852 (verão-inverno) – Encontra-se nas Índias Ocidentais; chega à África de navio e depois segue para o Ceilão.
1852-1853 – Tenta entrar no Tibete, mas é presa pelos ingleses e trazida de volta à Índia. Vai para o sul do país e daí para Singapura e Java de onde volta para a Inglaterra.
1854 (verão) – Nova Iorque e Chicago. Cruza os EUA e chega à Califórnia.
1855-1856 – Parte para o Oriente. Atinge o Japão e encontra-se com membros de uma seita esotérica, os Yamabuchis, notáveis por seus poderes de cura. No mesmo ano vai à Índia e a Java.
1857 – Retorna à Europa.
1858 – Passa pela França, Alemanha e Rússia, onde passa o Natal com sua irmã.
1863-1864 – Passagem na região do Cáucaso.Viaja para Imeretia, Guriya e Mingreliya mas florestas virgens da Abhasia.
1865 – Finalmente entra no Tibete, onde recebe instruções num mosteiro na região de Chigadze.
1867 – Vai à Europa Oriental. Jornada de barco pelo Danúbio. No outono é encontrada em Bologna, na Itália, onde está envolvida com revolucionários italianos. Lutou ao lado de Garibaldi na Batalha de Mentana, onde foi ferida no dia 2 de novembro.
1868 – Viaja a Florença, depois Belgrado e Constantinopla. Depois de um tempo na Turquia, dirige-se mais uma vez à Índia.
1869 – Volta ao Tibete em companhia de seu mestre.
1870 – Volta à Índia retornando à Europa pelo Canal de Suez.
1871 – Parte para o Egito, saindo do porto grego de Pireo. O navio em que estava explode e HPB é uma das poucas sobreviventes (este seria o segundo naufrágio a que sobreviveria). No outono parte do Cairo para a Síria e a Palestina.
1873 – Encontra-se na Rumânia, em Bucareste, de onde parte para Paris.
1874 – Volta aos EUA para presenciar os estranhos acontecimentos espíritas em Vermont. Nessa viagem conhece o Coronel Henry Steel Olcott, co-fundador da Sociedade Teosófica.
1876 – O corpo do barão de Pal (membro do Conselho da Soc.Teosófica) é cremado em Washington. Foi a primeira cremação nos Estados Unidos, fato que provocou controvérsias e manchetes nos jornais.
1878 – Naturaliza-se norte-americana. Viaja à Índia com Olcott e resolve morar um tempo em Bomabaim.
1880 – Recebe a consagração como budista no Ceilão.
1882 – É fundada a Theosophical Society em Madras, sede internacional da Sociedade Teosófica (na localidade de Adyar). Em setembro desse ano Blavatsky e alguns monges budistas vão até um monastério na fronteira entre o Butão, Sikkim e Tibete.

Helena continua viajando incessantemente pela Índia e pela Europa. Estabelece-se no final da vida em 1887 numa residência em Londres, onde veio a falecer em 08 de maio de 1891. HPB foi uma mulher tão extraordinária que um dos Adeptos fez a seguinte afirmação: “Uma mulher como Blavatsky aparece no mundo apenas a cada 10.000 anos”. Sinceramente, é difícil discordar. Nesse campo das coisas do espírito, com a mesma profundidade de Helena eu só consigo me lembrar de uma personagem histórica tão marcante quanto ela: Hildegard von Bingen, de quem oportunamente falarei aqui no Odepórica.

As fontes que eu utilizei nessa postagem são as seguintes:

O Pensamento Vivo de Blavatsky, edição ilustrada, da Martin Claret. O livro é interessante pela facilidade em se buscar uma referência básica sobre HPB, além das fotos que a ilustram. Peca pela qualidade precaríssima da publicação em papel jornal, cujas folhas se soltam facilmente numa leitura posterior.

Reminiscências de H.P. Blavatsky e de A Doutrina Secreta. Condessa Constance Wachtmeister (e outros). Editora Pensamento. Adoro essa obra, que tem como mérito uma autora que conviveu na intimidade com Madame Blavatsky. Além do mais, é um documento sobre os costumes da segunda metade do século dezenove.

A Esfinge Helena Blavatsky. Marina César Sisson. Editada em 2003 pela autora. (email:
msisson@terra.com.br). A autora enriqueceu sua obra ao publicar diversas correspondências entre HPB e membros da ST. De quebra, o livro traz em suas 307 páginas umas fofoquinhas (sem maldade) bem interessantes sobre HPB. Recomendadíssima.

Madame Blavatsky. Luis Pellegrini. T. A. Queiroz Editor, 1986. Coleção Transcendência. Do Luis Pellegrini o Odepórica já postou uma resenha, Os pés alados de Mercúrio. Neste livrinho (tem somente 67 págs) o autor dá conta do recado como ninguém. Um dos capítulos, que trata das viagens de HPB, você irá ler na íntegra na minha próxima postagem.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O caminho de Avalon, by Jean Shinoda Bolen

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Quando comecei a estudar os relatos de viagem de peregrinos brasileiros pelos caminhos de Santiago notei que o número de escritoras brasileiras era muito inferior ao de escritores. Por que será? Novamente, aqui no Odepórica, tenho blogado textos em sua maioria baseados em obras de escritores do gênero masculino. Por isso decidi dar uma equilibrada terminando o ano priorizando as mulheres, e escolhi sem receio uma autora fantástica que há anos vem trabalhando com o feminino dentro de sua área de atuação, a psicologia analítica junguiana.

Jean Shinoda Bolen é médica psiquiatra e seu trabalho tem como diferencial o ênfase na dimensão espiritual do ser, sobretudo no que diz respeito às mulheres. Seus livros são usados nas universidades nas áreas que se dedicam aos estudos de gênero, psicologia da mulher, mitologia, espiritualidade, e temas afins. Só por aí já podemos imaginar que um papo com a senhora Bolen deve ser muito prazeroso, não?

Em O caminho de Avalon: os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, Jean Bolen relata sua peregrinação pelos sítios relacionados à lenda do Santo Graal, ou mais propriamente, aos lugares mágicos associados à literatura do ciclo arturiano. Como feminista, a autora se deixou influenciar abertamente pela obra de Marion Zimmer Bradley, famosa por suas Brumas de Avalon, que , para quem não leu, faz uma releitura do mito arturiano sob a ótica das mulheres, o que não agradou um montão de gente, mas que eu particularmente achei uma delícia de ler.

O ponto de partida da autora é interessante mesmo, veja você: há algumas décadas a “Deusa” vem ressurgindo em todos os lugares. Aqui, caro leitor, cara leitora, você deve entender essa “Deusa” num sentido arquetípico, uma imagem arquetípica, o que Jung define como sendo um padrão ou motivo universal originado no inconsciente coletivo, e de onde sai o conteúdo básico das religiões, das mitologias, das lendas e dos contos de fadas. Prosseguindo: com o ressurgimento da “Deusa”, o planeta vive uma espécie de ressacralização, como se o Graal estivesse retornando ao mundo. O Graal, aquele cálice onde Jesus bebeu vinho na última ceia junto com seus apóstolos, se você for pesquisar, carrega uma simbologia muito rica e interessante.

Por ter sido usado por Jesus, e numa ocasião de profunda significação espiritual para os cristãos, o Graal ganhou um status de objeto sagrado e dotado de poderes fantásticos. Na Idade Média ficou também associado à saga dos cavaleiros arturianos, cuja missão maior era a de encontrar o Santo Graal, numa demanda cheia de aventuras e mistérios. É preciso saber interpretar essa busca, e é preciso saber interpretar esse Graal, então preste atenção ao que diz o Dicionário de Símbolos (Chevalier & Gheerbrant):

“A Demanda do Graal inacessível simboliza, no plano místico que é essencialmente o seu, a aventura espiritual e a exigência de interioridade, que só ela pode abrir a porta da Jerusalém celeste em que resplandece o divino cálice. A perfeição humana se conquista não a golpes de lança como um tesouro material, mas por uma transformação radical do espírito e do coração.”

Para Jean Bolen, existe um movimento espiritual feminino acontecendo no mundo todo, não de uma maneira organizada e tampouco seguindo tradições rígidas; a mudança tem ocorrido de modo intuitivo e as mulheres estão fazendo espontaneamente aquilo que sentem ser o correto. É um modo de dizer que estamos vivendo um período onde o patriarcado começa a dar passagem a um outro tipo de conhecimento e manifestação. A preocupação com o planeta, a Terra vista como mãe dos seres vivos que nela habitam, por exemplo, é um indício dessa mudança que vem surgindo aos poucos. Num sentido mais religioso, não podemos deixar de notar a força que vem ganhando em todo o mundo o culto mariano, onde Maria/Nossa Senhora em muitas ocasiões é tratada pelos fiéis mais como Deusa do que propriamente como Santa.

Enfim, tudo isso acabou mexendo com a cabeça de Jean, que aceitou de uma amiga um convite para viajar e sem hesitar partiu como turista em direção às Ilhas Britânicas e voltou como peregrina, com tantas histórias para contar que sentou e escreveu esse livro, um encantado relato de viagem recheado de poderosos insights sobre os mistérios femininos. Em seu roteiro, visitou lugares fantásticos como Chartres, Glastonbury, Findhorn e Lindisfarne, que você depois de ler vai querer sair correndo comprar uma passagem para as próximas férias, posso apostar que sim.

Vamos ler um pedacinho dessa aventura? Escolhi o trecho em que Jean viaja para Glastonbury, porque o local é tão recheado de histórias e lendas encantadas que é impossível não termos a curiosidade de um dia visitar essa região de Somerset, na parte oeste da Inglaterra. Só para você ter uma idéia, Glastonbury teria sido o lugar mais sagrado da Grã-Bretanha antes do cristianismo; foi para lá que José de Arimatéia teria levado o Santo Graal; é lá onde se localizaria a ilha de Avalon, para onde Artur foi levado depois de ferido em sua última batalha; e é lá que se encontra um dos maiores centros de energia do mundo ocidental. Precisa mais? Então vamos ler as impressões que esse mágico lugar causou na peregrina Bolen. Boa viagem.

*
Vislumbrando o pico

Para chegar a Glastonbury, partimos do aeroporto de Heatrow de carro tomando o sentido oeste em uma auto-estrada que nos conduziu para depois de Stonehenge. Após pegar várias estradas menores, estávamos na Shepton Mallet Road, uma estrada estreita, meio sinuosa e margeada por cercas vivas e de outros tipos. A estrada nos conduziu por campos com ovelhas pastando e cruzou parte do polêmico Zodíaco de Glastonbury, cujos defensores afirmam que Glastonbury situa-se dentro de um Círculo Zodiacal com cerca de 16 quilômetros de diâmetro. Os signos são formados por características da paisagem que, segundo se supõe, estão situadas nas mesmas posições relativas ocupadas pelas constelações no céu.

Subitamente, a estrada mudou – por uma mudança na inclinação ou na elevação ou um intervalo na cerca viva – e lá estava o pico de Glastonbury! Digo isso com um ponto de exclamação porque trata-se de um impacto, de algo a ser contemplado. O pico na verdade é apenas uma colina, exceto pelo fato de que não é justo chama-la de colina. Ela é de um verde viçoso e aparentemente terraplanado, com uma torre de sentinela no topo. Como estávamos no final do mês de maio, havia macieiras em flor próximo à base e nos campos em volta. Do primeiro ponto de observação, o pico parecia ter um formato triangular, como uma pirâmide. Mas depois, quando seguimos pela estrada e passamos por ele, sua silhueta mudou, pois o ângulo de um dos declives se alongou.

De qualquer ângulo, o pico emana força e mistério. Existe algo de anormal e escultural em relação a sua forma, com seus terraços em espiral que parecem envolver suas laterais e a torre no topo que se assemelha a um megalito do tamanho de Stonehenge. A torre é a única parte que restou de uma igreja de São Miguel que um dia ocupou o pico. Um terremoto descomunal destruiu a igreja e deixou apenas a torre intacta.

Na Inglaterra, os lugares que um dia foram consagrados à Deusa foram dominados pelos cristãos de uma destas formas: através da construção de igrejas dedicadas a São Miguel, como no pico, ou capelas em louvor a Maria. São Miguel costuma ser representado pisando uma serpente, que era um símbolo da Deusa, e que também representava as correntes energéticas telúricas ou meridianos de energia (ou ley lines, como são chamadas na Inglaterra) que “serpenteiam” sob a terra em lugares sagrados. Na China, essas linhas são conhecidas como lung-mei, os caminhos do dragão. Até hoje, na moderna Hong Kong, as pessoas costumam consultar os geomantes chineses sobre essas correntes do dragão antes de construir edifícios.

As áreas onde a energia é mais intensa tornam-se lugares sagrados ou, na linguagem atual, pontos de energia. As imagens associadas a essa energia são arquetipicamente semelhantes, esteja você na Europa Ocidental ou na China. A cobra, a serpente e o dragão chinês têm corpo ondulante e poder. Mas, enquanto em uma cultura que respeitava a Terra o dragão era considerado benevolente, nas culturas judaico-cristãs, onde a Terra (e as deusas e as mulheres) tinha de ser dominada e subjugada, os dragões, cobras e serpentes tinham de ser temidos – eliminados por São Miguel, expulsos por São Patrício ou mortos por São Jorge.

Isso me levou a pensar que o terremoto que fez desmoronar do pico a abadia de São Miguel pode ter sido uma expressão de uma Deusa-Mãe Terra ofendida que se recusou a ser oprimida. No entanto, São Miguel triunfou, pois a abadia que havia no pico é uma das muitas que ainda existem e está localizada em um meridiano de energia que se estende do pico a sudoeste da Inglaterra até a ilha rochosa do monte de São Miguel, próximo ao cabo Finisterra, na Cornualha.

A segunda maneira de usurpar locais da Deusa era através da construção de capelas ou catedrais em louvor a Maria. Por ser uma expressão feminina da divindade, Maria é arquetipicamente a deusa-mãe. Exceto pelo nome, é dessa forma que ela é adorada em Chartres, por exemplo. Independente dos pontos de diferenciação estabelecidos pelos teólogos, o homem ou a mulher que ore a Maria está se dirigindo à mesma deusa piedosa, cujos nomes eram, entre outros, Deméter, Ísis, Tara ou Kuan Yin, deusas que, como Maria, aprenderam pelo sofrimento. Perséfone, a filha de Deméter, foi raptada e levada para o mundo subterrâneo, e Ísis, a filha de Odin, foi esquartejada. A exemplo do filho crucificado de Maria, Perséfone e Osíris ressuscitaram. Embora sejam construídas capelas de Maria em antigos lugares devotados à Deusa, elas são na verdade locais novamente consagrados a Ela e onde se poderia dizer que Ela continua a ser louvada.

A estrada nos levou para além do pico de Glastonbury, em direção à cidade, à Chalice Hill House (Casa da Colina do Cálice), onde ficaríamos hospedadas. Ao chegarmos, descobri que Geoffrey Ashe, escritor e especialista na história e nas lendas da região estava nos esperando – um encontro que a Sra. Detiger havia preparado. Ele nos conduziu a um local onde pudemos ter uma visão panorâmica da região e vislumbrar na paisagem a figura de uma mulher recostada. Mais tarde, Barri Devigne, um profundo estudioso da lenda do rei Artur, nos levou a Cadbury, o lugar provável atribuído a Camelot. No caminho, ele parou para mostrar características específicas do Zodíaco de Glastonbury. Olhar a paisagem e poder visualizar o que eles descreviam era como olhar as constelações no céu à noite. Identificar os pontos geográficos de referência era tão fácil quanto localizar as estrelas quando alguém as aponta para nós. Mas, o que não era tão óbvio eram as figuras que esses pontos formavam. Em Glastonbury, a paisagem estimula a imaginação, convida as pessoas a enxergar além da realidade comum.

Leia: O caminho de Avalon – os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, de Jean Shinoda Bolen. Editado pela Record/Rosa dos Ventos em 1996, vai agradar muito as mulheres que nunca desistem da Busca. O site da autora, para quem se vira bem no inglês, vale uma espiadinha:
http://www.jeanshinodabolen.com/

Para completar a temática desse post: indico as Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley (virou filme, com a poderosa Anjelica Huston como Viviane do Lago), para uma leitura descompromissadamente romântica e sonhadora. Fácil de sebar, tanto os livros quanto o dvd.

Leitura mais séria? Sem pestanejar, pesquise as obras de Mircea Eliade (em especial: O sagrado e o profano e Tratado de história das religiões) e Joseph Campbell (O Herói de mil faces e também O poder do mito); na área da psicologia há muito, mas como introdução eu indicaria She, a chave do entendimento da psicologia feminina, de Robert Johnson (eu li o He, que é muito bom).

Sobre essa questão da Grande Mãe e das Deusas, um ótimo guia para consulta é o Anuário da Grande Mãe, de Mirella Faur, da editora Gaia; se o seu lance é paganismo, sem dúvida um dia terá que ler A dança cósmica das feiticeiras, de Starhawk, que trata da Religião da Deusa com muita competência.

Finalmente, dos montes de obras que trabalham a questão das mudanças planetárias (no nível consciencial e comportamental) eu li e gostei de duas em particular: Um peregrino em Aquário, de David Spangler (Editora Pensamento) e A conspiração aquariana, de Marilyn Ferguson (Editora Record). Ambas meio datadas, é verdade, mas ainda assim estimulantes. Para quem quer ir mais longe ainda, procure pelas obras de Aldo Natale Terrin (recomendo Nova Era: a religiosidade do pós-moderno e O rito: antropologia e fenomenologia da ritualidade, ambos da Paulus ed.) e de Paul Heelas e Linda Woodhead o estudo sobre a espiritualidade, em inglês, The spiritual revolution: why religion is giving way to spirituality.

domingo, 29 de novembro de 2009

A longa viagem de prazer, by Juan José Morosoli

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Você já comprou algum livro ou cd apenas por ter gostado da capa, do encarte, ou do título da obra? Às vezes eu faço isso, até mesmo pelo prazer da surpresa e nem sempre me arrependo. Na minha coleção de cds, por exemplo, uns trinta por cento foram adquiridos “no escuro”, quase sempre, admito, títulos oferecidos em bancas promocionais, do tipo qualquer coisa por nove e noventa. Acho isso um jogo divertido, pena o bolso não permitir lances mais altos.

Estava caminhando pela Paulista e numa banca de jornal, num daqueles totens que vendem livros de bolso, um pequeno exemplar me fez parar abruptamente em frente à banca: na capa, uma foto meio apagada de um campo de cereais, um céu nublado de um azul claro acinzentado e ao fundo, na linha do horizonte, um pequeno agrupamento de árvores e nada mais do que isso. Em letras grandes e negras, o título: A longa viagem de prazer. O preço de uma revista. Comprei na hora.

Juan José Morosoli, o autor dessa pequena coletânea de contos nasceu no pueblo de Minas, no Uruguai em 1899 e faleceu em 1957. Publicou uma dezena de obras, entre poemas e peças de teatro e pouca coisa há sobre ele na internet, mas o pouco que se consegue saber faz com que tenhamos a curiosidade de conhecer melhor o seu trabalho.

Morosoli foi um especialista no gênero denominado conto curto e sua principal preocupação foi a de retratar os seres anônimos marginais que viviam nos pueblos uruguaios, seres viventes, como ele os denominou, os quais enxergava, em suas humildes condições, uma “grandeza elementar”. Em suma, Morosoli foi um escritor social que se empenhou em sua arte a dar uma identidade àqueles que, afastados da vida moderna, eram ignorados pelo resto da sociedade, uma condição que nós brasileiros também conhecemos muito bem. “Não sou um literato – do qual Deus me livre e guarde – senão simplesmente alguém que põe no papel um pouco do drama de cada homem humilde”, escreveu Morosoli.

Pelo que se percebe, Juan José Morosoli assumiu o compromisso, na sua escrita, de ser uma espécie de porta-voz dos humildes (ou um revelador, como nota Pablo Rocca no posfácio da obra), cabendo-lhe a função de acompanhar, em seus processos mentais, aqueles que são incapazes de mostrar por si mesmos as dimensões de seu espírito; observador minucioso, legou ao mundo a geografia física e humana de sua terra. E como poucos, conseguiu tratar de questões profundas como a solidão e a morte sem o apelo fácil das emoções baratas e superficiais, provavelmente porque ao escrever sobre elas, sentiu um pouco da dor que sentem aqueles que estão fadados a uma existência anônima e solitária.

Fazendo jus ao lema do Odepórica, escolhi dessa vez um relato de viagem imaginário, onde você poderá ler um dos contos mais bonitos dentre os nove que compõem essa coletânea. Não foi o que mais me comoveu, apesar de ter-me encantado com sua narrativa singela, com seu leve humor e melancolia, num equilíbrio emocional que nos cativa de primeira. Se pudesse, teria elegido aquele que, até o momento, foi o conto mais triste que já li na vida e que se chama Solidão. Como será que pode haver tanta beleza na tristeza?

Mas como nosso escopo aqui é falar de viagem, então nada melhor do que um conto que trate especificamente deste tema. E esse conto, por acaso, é o que dá título à coletânea: A longa viagem de prazer. Buen viaje.

A longa viagem de prazer
Si usted quiere ser un escritor, tiene que andar.


Tertuliano ia dar partida no caminhão quando Aniceto chegou.
- Venho te cumprimentar – disse – e desejar que o desfrutes com saúde.
Tertuliano agradeceu os bons votos do amigo e contou, pela centésima vez, como se tornara proprietário do caminhão.
- Era o último número da rifa. O Índio insistindo e eu dizendo que não. Aí chegou o Bruno. Ele me devia um peso, que eu tinha dado por morto há muito tempo. O Índio ficou com o dinheiro e apontou meu nome. E não é que deu? A sorte é fogo. Quando ela quer, sempre dá um jeito.
- Sorte e morte escolhem seu consorte – sentenciou Aniceto.
E ali estava Tertuliano com seu caminhão. Fazia tempo que desejava ter um. Era um desses sonhos que as pessoas vão acalentando para justificar o dia a dia. E um sonho que se torna realidade é uma coisa muito linda.
Aniceto caminhava ao redor do veículo, olhando-o com curiosidade.
- Estou examinando em detalhes – comentou. – Acho que está precisando de uma boa pintura.
Sim, Tertuliano já notara e concordou:
- Está mesmo. Vai levar duas demãos de colorado e uma bandeira em cada lado.
Já o via pintado, rodando velozmente pela estrada.
- Já pensaste? Esse louco pintadinho, andando por aí?
Aniceto fez um esforço e também o viu em sua imaginação.
- A questão – disse – é que não ponhas esse louco a correr, podes acabar de cabeça para baixo.
- Sou dos que acreditam – respondeu seriamente Tertuliano – que o melhor é uma marcha regular. Nem caracol nem andorinha. Sempre fui partidário da moderação, e se algum dia tiver uma empresa, motorista que correr eu boto na rua.
- É um favor que lhe fazes, ele é capaz de se matar.
Calaram-se um minuto, fizeram cigarros e logo Aniceto perguntou:
- Quantos caminhões são uma empresa?
- Se a empresa é pequena, talvez três. Se é grande, qualquer quantidade.
- Era o que eu pensava – disse Aniceto.
Seguiram conversando e Tertuliano revelou que pretendia fazer uma longa viagem, de puro prazer, para conhecer o mundo e nada mais.
- Uma longa viagem?
- Sim, talvez até Rocha.
- Rocha é longe?
- Acho que sim, pois é lá que nasce o sol (*) . E o sol tem que nascer longíssimo... Esta é a informação que posso te dar.
Aniceto calou-se um instante e depois perguntou humildemente:
- Não te conviria levar um ajudante?
Tertuliano considerou que um proprietário de caminhão se rebaixaria um pouco se ele mesmo tivesse de lavar o veículo, trocar a água do radiador e juntar lenha para o assado, e respondeu:
- Pode ser que te leve.
*
O caminhão, um Chevrolet 1929, não estava bem de pintura – já o sabia Tertuliano -, mas estava pior de luz. Um dos faróis fora fabricado com uma lata de óleo, o vidro preso com arame. O outro era “aquele que o Índio sempre ia botar e não botou”. Os pneus estavam gastos, com as lonas à mostra. Mas o principal, o motor, funcionava cada vez melhor, “porque os motores de antigamente são melhores que os de hoje”.
- De longe – confirmou Aniceto.
Tertuliano pintou seu caminhão de colorado, com bandeira nos costados. Pintou-as ele mesmo. Quando o caminhão estava parado, pareciam muito malpintadas, mas em movimento eram bonitas. E além disso muito estranhas.
- De que país são – tinha perguntado Aniceto.
Displicentemente, Tertuliano respondera: -
- Não sei se haverá algum país com essas bandeiras.
Também comprou um farol enorme, com um aro de bronze largo, de quatro dedos – um farol francês, disseram -, e o instalou bem no meio do radiador.
Com essas melhoras, o caminhão ficou pronto.

*
Aquela foi, talvez, a mais bela madrugada do mundo. Chegaram no mercado, compraram pão, carne para assar, e partiram muito antes do nascer do sol.
Tinham rodado mais de hora quando Tertuliano anunciou:
- Vou parar.
- Estamos indo como anda o figurino – disse Aniceto.
- Nunca entendi essa gente que anda ligeiro – disse Tertuliano. – O bom é ir devagar, descer, fumar um cigarro e ver o que ficou para trás.
- O que ficou para trás?
- Claro, pois quem está dirigindo só vê o que está na frente. O negócio é ver tudo, e um dia te surpreendes contando pros amigos tudo aquilo que viste.
Ergueu a cabeça para ver mais longe e respirou fundo.
- Que ar! É porque vem desta quantidade de campo.
- Muito campo e nenhuma alma - disse Aniceto.
Tertuliano estava – como era lógico, pois era dono do caminhão – muito acima da ignorância do companheiro. Considerou necessário ilustra-lo sem diminuí-lo e o tratou de “você”.
- Veja bem, Aniceto, a população aí existe, você pode acreditar. Está longe, mas está aí.
Aniceto olhou para a estrada e perguntou:
- Rocha está longe?
Tertuliano sorriu piedosamente.
- Longe quer dizer longe. E perto, perto. São duas coisas diferentes. Perto quer dizer uma bobagem... e longe – pensou um pouco – quer dizer um mistério.
E para esclarecer melhor, perguntou:
- Você sabe o que é um mistério?
- Sim – disse o outro -, um mistério é uma coisa estranha... uma coisa misteriosa...
- É isso aí.
E continuaram fumando, enquanto a paisagem ia-se tornando nítida à medida que o sol subia. E foi para o sol, precisamente, que Tertuliano falou:
- Dentro de dois ou três dias vamos te ver nascer, tigre velho.

*
Chegaram na cidade. Andaram por algumas ruas e pararam numa praça. Sentaram-se num banco para trocar impressões.
- Considero – disse Tertuliano – que esta é uma cidade que está progredindo, mas te confesso que nada me chamou a atenção.
- E eu só posso concordar – respondeu o outro. – O que viste foi o mesmo que eu vi.
- Antigamente – seguiu Tertuliano -, as cidades não progrediam, era o que dizia meu pai. Todas eram pequenas e as ruas um barral medonho.
- Vai ver que era porque havia muita ignorância. Não achas?
- Pode ser, sim, que tenhas razão.
Passaram a noite numa pensão barata e muito antes da aurora partiram para o Chuy, tomando a estrada que, segundo Tertuliano, terminava justamente “onde terminava o país e começava o Brasil”.
Já perto do fim do caminho encontraram um policial, certamente despertado pelo ruído do caminhão.
- Alto – gritou-lhes.
Eles não ouviram e mantiveram a marcha. O homem correu e tornou a gritar quase no rosto de Tertuliano.
- Parem ou mando bala.
Tertuliano freou o caminhão.
- Pra onde vão e o que levam aí?
- Pra cá mesmo e não trazemos nada – respondeu Tertuliano.
- E o que vêm fazer aqui?
- Ver nascer o sol.
E Aniceto, inocentemente:
- O senhor poderia nos informar onde é mesmo que ele nasce?
- Na delegacia – disse o policial. – Desçam e me sigam.
Mas, pensando que era perigoso ter dois contrabandistas às suas costas, modificou a ordem:
- Desçam e sigam na minha frente.

*
Tiveram de esperar o delegado para que revistasse o caminhão e os interrogasse. Só no meio da manhã terminou a investigação e eles foram liberados.
Na rua, consideraram a situação. Ficariam mais um dia e uma noite esperando ali, sem conhecer ninguém, sem ter com que se distrair? Justamente ali, onde tinham sido afrontados?
- Não – disse Tertuliano -, o sol que me desculpe. Por mim que ele nasça onde quiser, eu não espero.

*
Já estavam em casa. Acabavam de aquentar a água para o mate.
- Hermano – disse Aniceto -, fizemos uma linda viagem, mas vimos pouca coisa, não achas?
- Não. As viagens só começam depois que a gente volta. Te digo isso eu, que uma vez fui a Montevidéu e só voltando, quando comecei a contar pros outros, me dei conta de que aquilo que eu tinha visto era uma coisa bárbara!


(*) O Departamento de Rocha, a leste do Uruguai, tem um brasão cuja legenda é muito popular no país: Aqui nasce o sol da pátria. (N.T.)

Leia: A longa viagem de prazer (El largo viaje de placer). Juan José Morosoli. Tradução: Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2009. Se você se interessou em conhecer um pouco mais da obra e da vida de J.J. Morosoli, sugiro a leitura do texto publicado no site de literatura uruguaia de onde tirei as informações para este post:


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O céu que nos protege, by Paul Bowles (1910-1999)

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Paul Bowles foi um escritor incrível. Em 1949, há exatamente 60 anos, publicava seu primeiro romance, O céu que nos protege (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990. Para muitos, não é apenas o primeiro romance de um grande escritor, mas o primeiro e melhor romance por ele escrito, o que não desqualifica qualquer obra publicada posterior a ela, já que Bowles sempre manejou muito bem a escrita.

Descobri Bowles através do filme de Bertolucci; gostei tanto da filmagem que saí do cinema e comprei o livro e o álbum com a trilha sonora original de Ryuichi Sakamoto (quem também compôs as trilhas para o Pequeno Buda e o Último Imperador) que é uma viagem à parte, altamente recomendada.

O céu que nos protege tem muito da vida de Paul Bowles e sua mulher, Jane. Nascido em 1910, em Nova Iorque, Bowles começou sua carreira literária escrevendo poemas, mas numa viagem a Paris, hospedado na casa de Gertrude Stein (1874-1946) e de sua companheira Alice Toklas, foi totalmente desestimulado pela escritora a continuar com seus poemas, simplesmente porque, para ela, o que ele escrevia não era poesia. Foi Stein quem incitou Bowles a trocar uma viagem pelo litoral francês por uma estadia em Tânger, no Marrocos, cidade que ficaria para sempre associada à obra e à vida do escritor.


Bowles sempre viajou muito, numa época em que viajar era um acontecimento de grandes proporções na vida de quem o fazia, com muitos dias gastos em navios, trens e outros meios de transporte mais precários ou menos glamourosos. Evidentemente, as estadias eram longas e além de ter que contar com um saldo bancário considerável, muitos eram os que se valiam dos laços de amizade para serem bem recebidos ao mesmo tempo em que eram apresentados à sociedade local.

Toda essa dinâmica de relações pessoais construídas ao longo de inúmeras viagens parece ter dado a Bowles a faculdade de desenvolver personagens que o leitor sente terem sido inspiradas em pessoas com as quais o autor realmente conheceu ou conviveu por algum período. Tudo parece muito real, talvez plausível seja o termo adequado, e como nem sempre a realidade é algo agradável, a leitura de Bowles às vezes incomoda, pela crueza com que o escritor mostra a conduta humana em certas ocasiões, o que não deixa de ser uma experiência interessantíssima.

Voltando às viagens, numa passagem de sua autobiografia, Bowles escreve sobre a primeira vez em que viajou ao Marrocos, depois da estadia em casa de Gertrude Stein:

“Quando embarcamos no Iméréthie II, disseram-nos que haveria alteração no itinerário. O navio não atracaria em Tânger, e sim em Ceuta, no Marrocos espanhol. Na madrugada do segundo dia subi ao convés e vi à minha frente a silhueta denteada das montanhas da Argélia. Senti de imediato uma grande empolgação; fiquei muito empolgado; era como se ver a terra próxima tivesse acionado algum mecanismo dentro de mim. Sem nunca formular o conceito, eu havia baseado minha sensação de estar no mundo parcialmente numa convicção absurda de que determinadas regiões da superfície terrestre possuíam mais magia que outras. Se alguém me perguntasse o que queria dizer com magia, provavelmente eu definiria o termo como uma relação secreta entre o mundo da natureza e a consciência do homem, uma passagem oculta porém direta que ignora a mente. (Aqui a palavra-chave é “direta”, porque neste caso equivale a “visceral”.) Como qualquer romântico, sempre tive uma vaga certeza de que em algum momento da minha vida entraria num lugar mágico que, revelando-me seus segredos, me daria a sabedoria e o êxtase – talvez até a morte. E agora, parado no vento, olhando para as montanhas à minha frente, sentia o movimento do motor dentro de mim, e era como se me aproximasse da solução de um problema que ainda não fora colocado. Eu estava incrivelmente feliz, olhando a muralha de montanhas que pouco a pouco ganhavam corpo, mas deixei a felicidade me invadir e não fiz mais perguntas.”

Paul Bowles foi tão enfeitiçado pela magia daquele lugar que viveu em Tânger por mais de cinquenta anos até o último dia de sua vida. Sobre o fato de ter se estabelecido nessa cidade, lemos o seguinte em sua autobiografia:

“Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.”

Além de escrever, Paul Bowles compunha, chegando a ser um compositor com certo prestígio dentro da música erudita, tanto que uma de suas peças, “The wind remains the same” foi dirigida por Leonard Bernstein e outras entraram em peças de teatro e cinema, associadas a nomes de peso como Orson Welles, Elia Kazan e Tennessee Williams.

Bowles em algum momento de sua autobiografia afirma que sua felicidade era proporcional à distância que o separava dos Estados Unidos; seu lar e sua paixão foram para sempre o Marrocos e, por extensão, o deserto, pois “lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio”, palavras suas que encontram ecos num romance de Cees Nooteboom sobre suas andanças pela Espanha, quando afirma que se sentiu atraído pelas mesetas espanholas (grandes planícies desertas) porque seu interior, de alguma forma, se parecia com elas.


O deserto, sempre o deserto. Poucas metáforas são tão poderosas como esta na literatura mundial. Além do mais, em diversos sistemas religiosos o deserto serve de cenário para momentos cruciais de algum acontecimento revelador; são muitas as vezes que para lá se dirigem aqueles que anseiam desesperadamente por uma resposta, um sinal ou uma revelação – dentro de um contexto mais místico.

O deserto, dentro de suas inumeráveis interpretações simbólicas, também significa o lugar onde o ser humano se afasta de Deus; basta lembrarmos das tentações e dos demônios habitantes do deserto, imagem forte na tradição judaico-cristã, para entendermos com mais clareza essa questão da ausência divina. Entretanto, não nos apressemos: pois aquele que conseguir passar pelas tentações e ataques de ordem inferior, terá conquistado a sua salvação, única e exclusivamente através da graça divina, um paradoxo simples de entender: não podendo contar com nada e com ninguém, só Deus é capaz de salvar o homem. E é claro que, novamente, isso também deve ser entendido de forma metafórica: o deserto simboliza o homem interiorizado, estado que se pode atingir de várias maneiras, seja vivendo em comunidade (religiosa ou não), isolado numa floresta, ou mesmo praticando algum tipo de meditação, o suficiente para permitir alguns momentos de isolamento das coisas mundanas.

E o deserto será a chave de interpretação de toda a narrativa de O céu que nos protege. A história é a seguinte: um casal, Port e Kit (alter-egos de Bowles e sua esposa, Jane) partem dos EUA nos anos 40 do pós-guerra, em direção ao Norte da África numa travessia de navio, acompanhados do amigo Tunner. Não há data marcada para o retorno, um fato curioso e revelador: Port não se considera um turista, mas um viajante. A diferença entre ambos é explicada logo no início da narrativa:

“Mesmo durante os curtos períodos de imobilidade na sua vida em comum, realmente raros desde o casamento há doze anos, bastava-lhe ver um mapa, para começar a estudá-lo apaixonadamente. Com grande probabilidade de vir a planejar, em seguida, alguma viagem impossível que às vezes se tornava, de fato, real. Ele não se considerava um turista: era um viajante. A diferença devia-se, em parte, à utilização do tempo, explicaria ele. Enquanto o turista volta correndo para casa depois de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a lugar nenhum, viaja lentamente, durante anos e anos, de uma a outra parte da Terra. (...) Outra importante diferença entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita sua cultura sem questioná-la, o que não é o caso do viajante, que a compara com as outras, rejeitando os elementos que não lhe agradam.”

Os três viajantes não possuem, aparentemente, um roteiro pré-definido, e a impressão que se tem é que a viagem pelo Saara será feita de acordo com as circunstâncias tanto dos viajantes quanto dos serviços demorados e incertos de uma sociedade ainda muito atrasada, e por isso mesmo muito encantadora, sobretudo aos olhos de Port; Kit parece deixar-se levar pelas decisões do marido, o que mais tarde terá conseqüências transformadoras em sua vida, e Tunner aparece como um viajante burguês que não esconde uma forte atração pela mulher do amigo, com quem chegará a ter uma noite de amor embalada por garrafas de champanhe, aproveitando uma breve ausência de Port.

Port e Kit demonstram viver uma relação bastante moderna para a época (anos 40) o que de fato aconteceu com Paul e Jane Bowles (e foi a ela quem o autor dedicou esse seu primeiro romance) que, é sabido, viviam juntos e mantinham seus casos extra-conjugais, incluindo parceiros do mesmo sexo. Em O Céu que nos protege a trama toda gira em torno da relação homem-mulher; Port e Kit levam um casamento de dez anos que já demonstra desgaste, embora ambos pareçam não querer assumir essa realidade, de modo que a viagem, a princípio, pode servir de pretexto para uma fuga dos problemas conjugais. Logo irão perceber que a presença de Tunner foi um erro, e quando surge uma oportunidade conseguem se separar do amigo, o que acabará tendo uma conseqüência nefasta: logo depois Port contrai a febre tifóide e cai gravemente doente num local inóspito no meio do deserto. Caberá a Kit cuidar do marido sob condições das mais precárias até a sua inevitável morte.

É a partir desse fato que a história toma outro rumo: a sobrevivência de Kit. Mas não se trata apenas da sobrevivência física: a morte do companheiro leva junto a própria noção de individualidade de Kit; o grande terror de Port, quando percebeu que não sobreviveria à doença, foi descobrir que o grande erro cometido por ele e por Kit foi que ela viveu toda a sua vida em função da dele. E quando Port finalmente se vai, Kit praticamente enlouquece, porque parte de sua essência estava associada a Port de tal modo que sequer conseguiria visualizar sua existência a partir daquele momento. Num sentido figurado, sem Port sua vida era tão vazia quanto o deserto que a cercava.

“Nem lhe ocorrera, agora, que certa vez imaginara que se Port morresse antes dela, não acreditaria que ele estivesse realmente morto, mas sim que houvesse retornado de algum modo para dentro de si mesmo para ali permanecer e que ele nunca mais teria consciência dela; de modo que, na realidade, teria sido ela a deixar de existir, pelo menos em grande parte. Seria ela a entrar um pouco no reino da morte, enquanto ele prosseguiria, uma angústia dentro dela, uma porta fechada, uma oportunidade irreparavelmente perdida.”

O título da obra tem um sentido bastante profundo dentro da narrativa, e parte de sua compreensão aparece num breve diálogo (e numa linda cena do filme), num momento em que o casal saiu para um passeio de bicicleta a fim de contemplar um maravilhoso pôr do sol no Saara:

“- Sabe – disse Port, e sua voz soava irreal, como acontece com as vozes após um longo silêncio em lugares totalmente isolados -, o céu aqui é muito estranho. Quando olho para ele tenho a sensação de que é sólido lá em cima, protegendo-nos do que está atrás.
Kit estremeceu um pouco ao dizer:
- Do que está atrás?
- Sim.
- Mas o que está atrás? – Sua voz estava muito fraca.
- Nada, acho eu. Só a escuridão. A noite absoluta.”

O que ele quis dizer com a noite absoluta? A morte, provavelmente, porque em certos momentos da história, vemos Kit apavorada com essa ideia, como se pressentisse que algo ruim e triste estivesse para acontecer. Não cometerei o erro de comentar o final dessa história forte, densa, que convida-nos a refletir sobre o papel que desempenhamos em nossas vidas e em nossos relacionamentos íntimos. Mas acho que muitas mulheres irão se surpreender com o desenrolar da trama após a morte de Port, que terá Kit como a principal protagonista do romance.

É preciso dizer que Paul Bowles escreve incrivelmente bem, de modo que seu domínio da escrita dá um peso, um brilho maior à história por ele narrada. Durante a leitura de O céu que nos protege você se sentirá tão ambientado no deserto que em alguns momentos sentirse-á participando de toda a viagem, como se Bowles lhe induzisse, com a sua arte, a sentir não só as angústias dos personagens, mas as mesmas sensações físicas destas: o calor do Saara, o cheiro de suas paragens, a brisa fria da noite estrelada em companhia dos beduínos, o aroma de um chá de hortelã ou de um cigarro de haxixe, o sabor do pão seco numa boca sem saliva... em suma, uma leitura extremamente prazerosa.

Para terminar, escolhi a passagem que mais me tocou nessa obra fascinante; no livro, ela aparece no momento em que Kit se encontra ao lado do corpo sem vida do marido (no filme, foi escolhida para fechar a história). É linda e começa assim:

“A morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites.”

Leia: O céu que nos protege, de Paul Bowles. Lançado em 1990 pela Rocco com tradução de Roberto Grey, a obra foi reeditada em 2009 pela Editora Alfagura. Outros títulos do autor publicados no país: Tantos caminhos- autobiografia (Martins Fontes, 1994); Bem acima do mundo (Nova Fronteira, 1976); Chá nas montanhas (Rocco, 1994); Um amigo do mundo (Rocco, 1995); Que venha a tempestade (Rocco, 1997).

Assista: O céu que nos protege. (The Sheltering Sky) Direção de Bernardo Bertolucci, trilha sonora de Ryuichi Sakamoto. Não deixe de reparar: o próprio Paul Bowles aparece na cena final do filme (sua fisionomia é a mesma da foto postada neste blog)

domingo, 15 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 3, final

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A estrada do arco-íris

Nascido em 31 de maio de 1819, descendente de lavradores ingleses, Walt Whitman morreu em março de 1892, solitário e tranqüilo numa colônia em Nova Jersey. Havia crescido em Brooklyn, então uma pequena aldeia estabelecida em frente de Nova York, do outro lado do East River. Entre as rochas de sua ilha nativa, lia clássicos gregos, Shakespeare, Hegel, Cervantes, Dante e a Bíblia, sempre “na presença total da natureza, solitário sob o sol, em frente à paisagem ampla e o azul distante do mar.” Desta maneira, cresceu disposto a levar uma vida aventureira. Foi professor numa escola primária, carpinteiro, tipógrafo, jornalista e enfermeiro. Mas acima de tudo, aprendeu a amar a estrada: fez duas longas viagens a pé, a primeira até os Grandes Lagos na fronteira com o Canadá, a outra até New Orleans, ao sul. “Como Adão ao amanhecer/ saio do bosque fortalecido pelo descanso noturno”, escreveria num de seus poemas estradeiros. Nenhum deles, porém, pode se comparar ao Canto da Estrada Aberta:

A pé e de coração leve
eu enverdo pela estrada aberta,
saudável, livre, com o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo
levando-me aonde eu queria.
(...)
Ó estrada minha e de todos,
o que posso lhe dizer
é que não tenho medo de deixá-la,
por mais que a ame: você me expressa melhor
do que eu expresso a mim mesmo,
você há de ser para mim
mais do que o meu poema.

Ao final do canto traduzido por Geir Campos, Whitman adverte aqueles que pretendem segui-lo e fazer da estrada sua vocação:

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
você não acumulará riquezas, assim chamadas,
distribuirá com mão pródiga
tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
nem bem chegando à cidade à qual era destinado
dificilmente se há de estabelecer
e ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir (...)

Outro velho andarilho, contemporâneo de Whitman, está na raiz estradeira da América: o fauno, o wildman Henry David Thoreau, nascido em Concord, Massachusets, (nas proximidades da insignificante e têxtil Lowel, de Kerouac) a 12 de junho de 1817. Aos 28 anos, abandonou a cidade e transferiu-se para o lago de Walden, há uns vinte quilômetros de Concord e lá construiu com as próprias mãos uma cabana, onde viveu durante oito anos e dois meses, “para encurralar a vida a um canto e arrancar dela seu sentido mais íntimo”. Antes, durante e depois da estadia em Walden, Thoreau realizou caminhadas inacreditavelmente longas, e extensas excursões de canoa pelos rios límpidos da região. Deixou textos admiráveis, como Walking:

“Desejo dizer uma palavra em nome da liberdade absoluta, em nome da natureza, em nome da amplidão, que contrastam tanto com a liberdade e a cultura opressivas da cidade. Em todo o decurso da minha vida só encontrei uma ou duas pessoas que compreendiam a arte de caminhar, isto é, de andar a pé – que tinham o gênio, por assim dizer, do sautering, palavra esplendidamente derivada de ‘pessoas vadias que erravam pelo país, na Idade Média, sob o pretexto de irem à la Sainte Terre’, até as crianças exclamarem ‘lá vai um Sainte-terrer’. (...) Os que se deixam ficar em casa, quietos e calados, sempre e sempre, podem ser os maiores errantes, mas o saunterrer não é mais errante do que o rio sinuoso cujo propósito é encontrar o caminho mais curto para o mar. (...) Sou capaz de andar facilmente dez, quinze, vinte, qualquer número de milhas, começando da minha porta, sem parar em qualquer casa, sem atravessar uma estrada exceto nos trechos em que as próprias raposas e doninhas são obrigadas a fazê-lo e, do alto das colinas, posso ver a civilização e suas construções. O homem, seus negócios, a Igreja, o Estado, a escola, o comércio, a agricultura, a política – folgo em ver a insignificância do espaço que ocupam na paisagem. Ah, mas cada vez derrubam-se mais florestas, surgem novas cercas... Temo o dia que há de chegar em que não poderemos caminhar pelas matas sem ter que cruzar por propriedades particulares.”

Os beats amam Thoreau, e Kerouac – ao abandonar a Columbia University – parece ter tomado ao pé da letra uma das muitas frases antológicas deste ultra rebelde: “Quanto mais ar e luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor.”

Mais tarde, o espírito estradeiro americano amplia seu raio de ação com a marcha para Oeste, depois capitalizada pelo fascistíssimo princípio do “Destino Manifesto”: a expedição de Lewis e Clark em 1805, a corrida do ouro em 1860, na Califórnia e depois no Alaska, o massacre das tribos selvagens das Grandes Planícies abrem novos espaços para a colonização. Surgem as primeiras grandes estradas continentais americanas: a Bozeman Trail, a Parkman Trail, e os “fios que falam” do telégrafo dividindo o céu límpido da pradaria; as ferrovias do Leste e do Oeste se encontram afinal. O país está unido de costa a costa (apenas o México insiste em atrapalhar um pouco reivindicando a propriedade de seus territórios, o Texas, O Novo México, o Colorado e a Califórnia – uma guerra rápida e fácil termina com essa questiúncula) “Pobre México, tan lejos de Dios, tan cerca de Norte América.”

Bem, e as novas estradas se povoam de andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos, especuladores de terra, jornalistas abelhudos, militares obtusos (“Índio bom é índio morto”), religiosos beatos, vendedores de elixir, caçadores de peles e toda essa fauna impressionante que Hollywood reduziu a estereótipos medíocres – mas que, é claro, existiram de fato e foram estradeiros de primeira.

Na virada do século, os velhos ratos mochileiros começaram a ser enxotados das cidades que ajudaram a fundar, “mas que se tornaram tão prósperas que já não precisavam mais de mochileiros”. Na segunda década do século, a agricultura altamente mecanizada, a concentração de terras e o capitalismo selvagem expulsam milhares de habitantes de Oklahoma e demais estados do Meio Oeste de suas propriedades. Eles partem para a Califórnia formando filas imensas pelas estradas. As fronteiras do estado são fechadas. Lá ninguém entra (pelo menos não sem grana). Muitos colhem algodão e maçãs em troca de um prato de comida.

Por mais indigna que seja uma época, sempre sobram homens íntegros nela: Woody Guthries e Joe Hill são apenas dois exemplos. Bound for Glory, a emocionante biografia de Guthrie (em cujo violão estava escrito à faca: “Essa máquina mata fascistas”) oferece um retrato bastante fiel deste período sombrio, quando o Oeste foi tomado por andarilhos, desempregados e marginais em geral, viajando sobre os trens de carga, enfrentando a fúria dos guardas-freios e dos fura-greves. Na mesma época, as garotas da indústria têxtil de Chicago entram em greve. Seu lema: “We want bread. And roses too.” Várias foram assassinadas pela polícia. Uma tragédia americana, como tantas. A Depressão de 29 aumentou ainda mais a população de estradeiros americanos – a maioria, claro, sem muita convicção na nova atividade.

John Steinbeck, que se declarava andarilho na alma, foi um escritor que penetrou no mundo destes vagabundos de beira de estrada, enxovalhados por um modelo econômico exclusivista. Criou clássicos admiráveis: Ratos e Homens, Tortilla Flat, Cannery Row e a saga atormentada da família Joad em Vinhas da Ira. Em Viajando com Charley (ed. Record, 1979), Steinbeck diz:

“Quando eu era muito jovem e sentia o impulso intenso de estar em algum outro lugar, as pessoas mais velhas me garantiam que a maturidade haveria de curar tal anseio. Quando, com o passar dos anos, pude ser classificado como um homem amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Então, depois dela, afirmaram que mais alguns anos abrandariam minha febre. Agora, aos 58 anos, talvez a senilidade possa dar um jeito. O fato é que nada funcionou. Os quatro apitos roucos da chaminé de um navio ainda deixam meus cabelos arrepiados. O ruído de um jato, um motor esquentando, o som do galope de um cavalo trazem de volta o antigo estremecimento. Em outras palavras: não melhorei nada. Uma vez vagabundo, sempre vagabundo. Receio que a doença seja incurável...”

Portanto (e isso sem citar os naturalistas, caminhantes e escritores John Muir e John Burroughs, o super ídolo beat Jack London, o desertor de navios baleeiros Herman Melville, o jornalista revolucionário John Reed, o implacável assassino de animais selvagens Ernest Hemingway e centenas de outras estrelas norte-americanas com um pé ou uma gota de sangue na estrada), quando os beats arrombaram a cena literária na América, a estrada estava longe de ser uma novidade. Antes deles, porém, ela nunca fora tão importante no ato da criação artística. A não ser talvez, no Japão dos séculos XVI e XVII.

A estrada mística

Luas e sóis são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e que vão são viajantes também. Aqueles que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre em viagem, e seu lar é lá onde essas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos morreram pelos caminhos e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou idéias contínuas de meter o pé na estrada (...) Os espíritos do caminho me fizeram inúmeros sinais, e eu descobri que não podia continuar trabalhando e tinha que partir.

Matsuó Basho (1644-1694) foi o mais célebre dos poetas andarilhos do Japão, e autor do hai-ku inigualável sobre a rã que salta numa antiga cisterna, quebrando o silêncio e provocando uma profunda ressonância. Neste trecho de Sendas de Oku, o mais famoso de seus relatos de viagem, traduzido por Paulo Leminski (publicado pela Brasiliense numa biografia de Basho feita para a coleção Encanto Radical), o venerável poeta fala nos “homens de antigamente”, também estradeiros em busca de um satori (o súbito despertar), como ele próprio.

Essa frase já é suficiente para comprovar que a estrada mística seguida por Gary Snyder, o budista beat da poesia americana, não chega a ser propriamente uma novidade. Por outro lado, poucas vidas beats são tão inovadoras e límpidas como a de Snyder, poucas estradas tão luminosas e repletas de visões, revelações e espíritos mágicos. Ecologista, profundo conhecedor da ecologia tribal dos índios da América, lunático zen, Snyder traçou uma longa e serena trajetória pelas rotas de seu vasto país. Jamais ficou à margem de freeways vorazes onde roncam os motores todos da América: seu caminho foi trilhado entre as florestas do Noroeste, pelas montanhas ao redor de San Francisco (“velhas rotas percorridas por Jack London, há meio século”) nos vales soberbos de rios cristalinos fluindo murmurantes entre rochas recobertas de musgos e liquens e, por duas vezes, esse caminho levou-o ao Japão para o treinamento formal zen. Ao contrário das descrições kerouakianas das periferias da América industrial, os poemas de Snyder transmitem outra vibração:

Terminamos de abrir a última parte da trilha lá pelo meio dia
Lá em cima, no topo do espinhaço
Seiscentos metros acima da enseada
Alcançamos a passagem, e seguimos
Além do bosque de pinheirais brancos,
No ar puro e fresco,
Comemos truta fria e frita
Sob sombras cintilantes
Uma região de gamos gordos
E eles vieram até o nosso acampamento
Na sua própria trilha
Eu segui a minha até aqui
Dez mil anos.

Depois de ter seguido uma estrada bastante semelhante à de Kerouac (provavelmente por influência de seu amante fortuito Neal Cassady), Allen Ginsberg teve o que chamou de “iluminação auditiva de Blake”. Deu então uma guinada em direção a essa estrada mística de Snyder e ela o levaria a fazer uma viagem de dezoito meses pela Índia e países do Oriente bem como aproximar-se bastante do zen-budismo. Em busca da iluminação, porém, o maior poeta beat não se limitou a seguir apenas esse caminho.

A estrada da droga

Na verdade, Allen Ginsberg figura entre os beats mais estradeiros. Sua vida e obra estão repletas de poemas, trechos & visões da estrada. O antológico Long Poem of these States, por exemplo, foi escrito segundo o próprio poeta “num fluxo onírico autoconsciente de carros ônibus aviões, pelas estradas destes Estados”. Seus diários narram também passagens por quase todos os países do mundo. E antes da fama, Ginsberg costumava pegar muitas caronas pela América.

Viajar com a cabeça feita sempre foi uma de suas predileções. Por isso, sempre curtiu as drogas da estrada: haxixe no Marrocos, ópio na Índia, peiote e cogumelos no México, maconha em qualquer lugar, yage no Peru, ácido na Grã-Bretanha e daí pra fora.

Seguindo os passos do mais drogado de todos os beats, William Burroughs, Ginsberg esteve no Peru em 1963 em busca do yage, o poderoso cipó alucinógeno dos índios do alto Amazonas. A correspondência alucinada que os dois mantiveram foi publicada pela L&PM na coleção Alma Beat. Ela mostra os sacrifícios que Burroughs era capaz de fazer pela sensação de experimentar um novo barato. Na sua alma – beat, sem dúvida – Burroughs não é exatamente o que se pode chamar de estradeiro. Mas em busca das droga (com preço barato e qualidade acima de suspeitas) e de sexo (homossexual), passou boa parte de seus jovens anos girando pelo planeta: fixou residência no México e no Marrocos onde obtinha ambos com facilidade. Seus livros, porém falam muito mais em suas estações no inferno do que dos caminhos que percorria para penetrar nelas...


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Esse texto é um excerto da obra Alma Beat, capítulo 5, "Beats e a estrada", de autoria de Eduardo Bueno. Publicado em 1984 pela L&PM, infelizmente encontra-se fora de catálogo.