domingo, 28 de junho de 2009

A Índia, por Bruno Vassel

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Pouco sabemos de Bruno Vassel. Nascido em 1875 na Alemanha, formou-se engenheiro (ou arquiteto) e aos vinte e cinco anos foi trabalhar na Índia, onde viveu vinte anos; também passou um período de doze anos no Brasil, provavelmente entre as décadas de trinta e quarenta do século passado. O prefácio da edição de 1936 que temos em mãos foi escrito pelo autor no Rio de Janeiro e a tradução dos manuscritos do alemão para o português ficou a cargo de Lina Hirsch. Ainda no prefácio temos uma pequena comparação que o autor teceu entre a Índia e o Brasil, a saber:

“A flora das duas regiões apresenta muitas feições iguais. Medram e abundam na Índia, assim como no Brasil: bananas, mangas, abacaxis, e outras fructas assim como o arroz, a canna doce, café, chá, e muitos outros productos. Também existem na Índia muitos animaes conhecidos como espécies do Continente Sul-Americano. Differem, porém, radicalmente, os descendentes dos povos aborigenes da Índia e os do Brasil.

Este contraste revela-se tanto no typo physico dos povos, como no seu desenvolvimento cultural. De um lado vemos que a população aborigene do Brasil está desapparecendo, pela assimilação e pelo progresso nas linhas culturaes do Occidente. Todas as camadas da nação brasileira procuram e conseguem progredir e marchar à frente, contribuindo às victorias da cultura occidental; não se exceptúa nenhum componente do complexo ethnico; patenteia-se este facto em todos os ramos da vida, nas realisações, e nas obras primas creadas por grandes brasilerios. Nas sciencias, na technica, nas bellas artes, nos esportes, na literatura e por toda a parte vê-se a posição do Brasil egual em nível cultural a da Europa e da América do Norte.

Do outro lado observámos a população aborigene da Índia: este typo não desappareceu; nem desappareceram as tradições da antiga cultura da Índia; mas nesse Império do Oriente encontramos um argumento rápido da população rígida, obstinada, e fanática, das formas e idéias infantis, erros absurdos e crenças confusas. A população indígena da Índia é um conglomerado de tribus; cada uma dellas contribuiu com a sua porção de superstições phantasticas, e todas confundiram nas suas próprias idéias as doutrinas dos seus antigos legisladores com os phantasmas de suas superstições.”


Já dá para perceber, nesse curto excerto, que Vassel representa o olhar estrangeiro sobre a cultura alheia - olhar este muitas vezes repleto de preconceitos e julgamentos que, corretos ou não, trazem consigo o peso de duas décadas de convivência. Alguma lição, certamente, o autor tem capacidade para ensinar. A Índia é um relato de viagem interessante por mostrar com detalhes um pouco daquele país de sonhos e de pesadelos. É interessante por que também já viajamos por aquelas terras e muito do que lemos nesse relato, chegamos a vivenciar durante nossa jornada. É interessante por nos mostrar o cuidado que devemos ter antes de julgar uma outra cultura, embora isso não seja absolutamente uma crítica em relação à postura do autor, que se em alguns momentos pecou pelo excesso de julgamentos, também soube valorizar aquilo que viu de bom. É interessante porque os “causos” contados por Vassel emocionam, e acima de tudo porque somente um país como a Índia (ou o Brasil, quem sabe) poderia ser palco para essas histórias tão fantásticas. Interessante por esses e por muitos outros motivos também.

Gostaríamos de transcrever muitas e muitas páginas desse belo exemplar de literatura odepórica, mas comentaremos apenas alguns capítulos, cujos títulos aparecem em negrito com letras maiúsculas (mantivemos sempre a grafia original). No primeiro capítulo, BENARES, o autor fala sobre o episódio em que ocorre a morte do filho de seu empregado, um “Saiz” (guarda dos cavalos). Interessante por nos mostrar o ritual de morte hindu e os preparativos para a cerimônia, da qual extraímos uma pequena passagem:

“Afinal avistei o meu Saiz e sua esposa quasi escondida em véos densos; diante delles andava um homem levando os restos mortaes do pequeno filho, envoltos em pannos. Este homem desceu até á agua. Trez vezes mergulhou o corpo da criança morta nas ondas, e todos os presentes murmuraram as preces prescriptas. O pae espargiu grãos de trigo e flores de jasmim pelo corpo morto e amarrou nelle um vaso de barro cozido, grande e vazio. Depois o companheiro entregou-lhe o pequeno morto, e levando-o com carinho, o pae entrou mais fundo nas ondas. Quando a agua lhe tocou os hombros, elle empurrou o vaso de barro que fluctuou na superfície com o corpo do menino morto; afinal deu-lhe um empurrão forte na direcção para o meio do rio. A correnteza da agua, violenta nesta região, apoderou-se do pequeno navio da morte, e levou-o comsigo rio abaixo. A agua pouco a pouco entra pelo barro poroso, e arrasta o vaso e o morto para o fundo.
Ocorre as vezes, que o vaso de barro continua por certo espaço de tempo, nadando à superfície, e pára afinal num recife ou em dunas de areia. Em todo caso é certo que as partes de carne desapparecem dentro de poucas horas, devoradas por tartarugas, peixes, jacarés e cães bravios; ossos espalhados pelas margens do rio e nas ilhas de areia demonstram a passagem ephemera da vida humana.”

Em FUNCCIONALISMO NA INDIA, lemos sobre as normas e condutas dos funcionários ingleses a serviço do Império Britânico.

“A Grã Bretanha salvou a Índia do caos creado pelos regimens dos principes indígenas, autocratas, tão violentos nas suas façanhas arbitrarias, como isentos de escrúpulos; e, além de salvar estes Estados, a Grã Bretanha desenvolveu sua economia, conduzindo-os, systematicamente ao verdadeiro florescimento. As grandiosas obras de progresso economico e technico, as construcções gigantescas de canaes, e a expansão da rede ferroviaria, já bastariam para demonstrar o valor do grandioso trabalho britannico nessas regiões.”

O autor, valendo-se de um olhar unilateral, exalta sempre que pode o domínio e a superioridade britânica sobre a realidade sócio-cultural dos indígenas, como ele se refere aos indianos. Ao comentar em algumas passagens sobre a religião, alega que esta não passa de uma série de crendices, superstições e fanatismo. Sobre os indígenas e sua noção de superioridade sobre o homem ocidental, escreve o seguinte:

“O funccionario britannico assim como os outros “Occidentaes” que residem na Índia, devem sempre lembrar-se do orgulho, algo fanatico, dos hindús e dos outros indigenas dessa região, attitude mental que impede, ou quasi impossibilita, relações de perfeita confiança entre os representantes de dois mundos diferentes. A casta, a religião especial, as tradições de procedencia da propria familia, exageradas pela vaidade... (...) Na opinião desses indigenas da Índia, elles mesmos são muito superiores a qualquer homem do Occidente, europeu ou americano; e esta supposta superioridade estende-se mesmo até ao além, pois que os conquistadores occidentaes não têm casta, e por essa razão evidentemente não se podem elevar á dignidade de entrar no Nirvana.”

Em RAM GOBIND o autor relata a história de um criado, que perde uma perna e se torna um fakir. No mesmo capítulo ficamos sabendo um pouco sobre a religiosidade hindu através da grande festa do Khumba Mehla, onde “nenhum esforço é considerado inútil ou excessivo quando se trata de pisar o solo sacratíssimo da união dos dois rios venerados, o Ganges e o Djumna.”

No capítulo seguinte, VOLUNTARIOS MILITARES NA INDIA, Vassel narra o momento em que decide servir como soldado no corpo dos voluntários britânicos na Índia. Além de lermos algumas páginas que tratam da violência, é nesse capítulo que temos o autor em um de seus momentos mais preconceituosos da narrativa, como se pode verificar na seguinte passagem:

“Completamente desprovidos de armas neste momento, devíamos enfrentar a raiva das massas. Apesar disso, confiavamos numa defesa efficaz: guardando uma attitude firme, poderiamos esperar que o respeito intuitivo dos povos da India pela energia e superioridade dos homens do occidente, impedisse excessos ruinosos.”

Nessa passagem o autor quase foi morto por uma multidão enfurecida que queria se vingar dos soldados a serviço do Império britânico que levaram à forca presos julgados por um Tribunal de Sentença. Ele e seu companheiro só não foram linchados pela multidão porque no último momento apareceu para salvá-los um homem que o autor, num ato de compaixão, havia desistido de matar naqueles dias.

Em O ALBINO temos um relato de caça (Vassel amava caçar). O albino do título é um garotinho que acompanha o autor numa caçada a um tigre feroz que os habitantes locais acreditam ser a encarnação de um demônio. Emocionante e triste é este relato. O garoto albino, cuja mãe morrera no parto, teria a maldição de carregar a alma perversa de um demônio chamado “Sheher” (tigre). Um sacerdote brâmane havia dito ao pai do garoto para que este fosse sacrificado, a fim de evitar a vingança do demônio contra a família do garoto e de toda a aldeia. O pai, já tomado de amor pela criança, recusou-se a sacrificar o filho e deu-lhe o nome de Sheher. A maneira como a narrativa se desenrola é surpreendente.

O próximo capítulo trata de uma história sobre vingança. Um europeu, amigo do autor, casa-se “informalmente” com uma bela moça hindu, tratada mais como criada do que propriamente esposa. Depois de alguns anos, uma ex-namorada desse homem, que vivia na Europa, decide reatar a relação e casar-se com ele, indo morar na fazenda que ele administrava na Índia. GANGA, a esposa indiana, é informada que será devolvida ao pai, mas esta depois de muito implorar, consegue continuar vivendo na fazenda na condição de empregada. Só não esperavam que Ganga, cheia de rancor por conta da humilhação sofrida, iria se vingar da família. Nessa passagem, a narrativa ganha um contorno policial, onde o autor discorre sobre os mistérios da alma de uma mulher vingativa enquanto busca pistas que comprovem o crime por ela cometido. Momento Agatha Christie, em que o autor assume seu lado Hercule Poirot.

Em UMA AVENTURA, o escritor relata o encontro com um amigo alemão onde o tema da conversa gira em torno das mulheres. O amigo se diz fascinado pela magreza das mulheres indianas, ao contrário do autor, que parece não se sentir atraído pela beleza destas. O interessante nesse capítulo é a maneira como os dois homens falam das mulheres, com acentuado cunho machista. Esse olhar chauvinista aparece com freqüência na narrativa de Bruno Vassel, onde o papel da mulher, principalmente na Índia, é sempre o de ser a sombra seja do marido, seja do pai ou da figura masculina mais próxima. Na realidade, numa análise de gênero, é como se a mulher de fato não existisse enquanto ser social, sendo antes uma representação simbólica, uma Lakshimi, uma imagem que quando muito é reverenciada mas que jamais terá o poder fálico de um Deus, de um Shiva. Temos aqui uma obra que muito poderia contribuir numa leitura sobre o papel da mulher na sociedade e, é triste notar, sabemos que muito pouco mudou nessa questão de um século para cá. Como enxerga o autor a mulher hindu? Vejamos:

“(...) geralmente se nota nessas mulheres da Índia um cheiro horrível de todas as espécies de óleos e de essências com as quais ellas esfregam os cabellos e todo o corpo. (....) e mais desagradáveis achava as damas da Índia hindú, mahometana e brahmanista, quando os seus dedos das mãos e dos pés, os seus braços e o pescoço desappareciam debaixo de um amontoado de aneis, pulseiras, correntes e ornamentos de tatuagem. Pelo caminho não é preciso annunciar a sua approximação pois que o apparelhamento de metal que trazem nestes enfeites, serve de aviso barulhento como a guarnição de campainhas de um cavallo de trenó.”

Não contaremos aqui o que o amigo do autor “aprontou” com uma das funcionárias da fábrica, mas o incidente ilustra perfeitamente o olhar machista do branco europeu sobre a classe dominada, pobre, inculta, feminina, quase não-humana. Para refletir.

Todos os outros capítulos também nos ajudam a meditar sobre diversos aspectos da vida. Em KISMET, (que o autor traduz como destino ou fatalidade) lemos sobre uma comovente história de uma família cujo pai leproso acredita que a cura para a sua doença se encontra nas águas do Ganges. Partem em peregrinação durante meses rumo à cidade sagrada, mas os pais morrem por conta de uma intoxicação alimentar e o casal de irmãos, crianças, vão parar em um abrigo para leprosos e órfãos mantido por religiosos cristãos.
A menina fica e o garoto decide partir em busca de conhecimento espiritual. Histórias como essas atravessam várias páginas da obra de Vassel, que as reconta com a dose certa de emoção, depois de ouvi-las de pessoas com as quais conviveu em suas viagens pelo país. O livro termina com um relato emocionante onde o escritor alemão discorre sobre sua paixão: a caçada. O confronto com o tigre, outra reencarnação demoníaca que quase tirou a vida do autor, soa quase como uma metáfora, e faz com que este, pela primeira vez em seu relato, se questione: “Será tudo superstição? Ou existem, ainda, coisas entre o céu e a terra, que a nossa fraca inteligencia humana não comprehende?”

Se o leitor se interessou, saiba que a obra A India, de Bruno Vassel foi editada em 1936 pela Companhia Editora Nacional, São Paulo, vol. X da Collecção Viagens. Está fora de catálogo mas achamos a nossa num sebo por módicos dez reais, em perfeito estado de conservação. No site Estante Virtual é possível encontrá-la a um preço razoável. Vale a pena.

domingo, 21 de junho de 2009

A arte de bem viajar, por Leland Stowe

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Leland Stowe (1899-1994), jornalista norte americano, ganhador de diversos prêmios, entre eles o Pulitzer, ficou internacionalmente conhecido quando se tornou correspondente de guerra, tendo sido um dos primeiros a reconhecer o caráter expansionista do regime nazista alemão. Seus artigos, escritos em 1933 quando de sua primeira visita à Alemanha, foram considerados alarmistas e por isso não foram publicados, de modo que Stowe os reuniu em um livro intitulado Nazi Germany Means War, (Nazismo alemão significa Guerra) numa evidente alusão aos anos de terror que se seguiriam desde então.

Por conta da guerra, Stowe viajou o mundo, cobrindo 44 países em quatro continentes. Em 1955 iniciou sua carreira acadêmica dando aulas de jornalismo na Universidade de Michigan e no mesmo período exerceu a função de editor e escritor da revista Reader’s Digest (conhecida no Brasil como Seleções). Foi de um artigo dessa revista, escrito por Leland Stowe e publicado em 1960, que retiramos o texto intitulado Arte de bem viajar, da coleção 35 janelas para o Mundo. O leitor perceberá que as opiniões desse viajado jornalista norte-americano sobre a arte de bem viajar continuam, apesar dos anos, incrivelmente atuais, e sobretudo úteis àqueles que levam essa arte a sério.

Arte de bem viajar

Leland Stowe

Não existe aventura mais estimulante, mais instrutiva nem mais compensadora do que descobrir como vive o povo em outras partes do mundo. Primeiro tem-se a impressão superficial de que existem grandes diferenças de um povo para outro; geralmente, porém, compreendemos que no fundo somos todos iguais. E descobrimos também, com um alívio nascido da participação, que não há fronteiras geográficas para o coração humano. Pode-se ser patrioticamente brasileiro, norte-americano, inglês ou francês, e ao mesmo tempo sentir-se dono e parte do mundo. Aproximar-se uma pessoa de gente de tradições e hábitos diferentes dos seus é redescobrir-se e entrar para a categoria de cidadão do mundo.

Apresentamos aqui algumas sugestões para os que desejam realmente transformar as viagens numa constante procura de relações humanas.

Lembre-se de que é um hóspede. Não torne incômoda sua presença. Num café, ou qualquer outro lugar público, tenha em mente que a sua presença é notada pela circunstância de que é “estrangeiro”. Procure não atrair maior atenção. O visitante polido faz-se bem-vindo, unicamente porque o merece.

Não faça uma tragédia de pequenos aborrecimentos. Se você se esqueceu de declarar algumas carteiras de cigarros, a culpa não é do funcionário aduaneiro. O visitante que proclama em altas vozes que “essa gente não sabe fazer café” revela apenas que não é pessoa viajada. Se um motorista de táxi lhe cobrar demais, não se esqueça que em sua terra acontece o mesmo. Quando não puder arranjar o desjejum a que está acostumado.... ora, aqui para nós, por que saiu de casa? Não há ditado mais expressivo do que o velhíssimo “Cada terra com seu uso...”.

Não critique outros povos porque vivem e trabalham de maneira diferente. Eles têm boas razões para fazê-lo. Por que será que os bascos, vivendo em um clima quente, usam grandes boinas em vez de chapéus de palha? Mas é claro: os bascos não dispõem de palha, criam extensos rebanhos lanígeros, e a boina lhes protege tanto a cabeça quanto os olhos. Por que será que os fazendeiros normandos arrancam os galhos das árvores? A lenha é escassa naquela região, e ao se cortar a ramaria inferior das árvores, o tronco permanecerá intato – e assim poderá produzir mais combustível.

Não restrinja suas relações às pessoas de sua profissão ou de seu nível intelectual. Na medida do possível, procure conhecer a maior variedade de pessoas. Conheço um professor que passou um ano em Paris. Seu círculo de amizades nunca se estendeu além de uns poucos intelectuais franceses, e ele conheceu apenas meia dúzia de recantos daquela cidade incomparável. Raríssimas vezes provou a mais deliciosa comida do mundo nos restaurantes. Sua preocupação era juntar dinheiro para comprar um automóvel, quando regressasse. Fico imaginando se ele fez uma idéia de como esse automóvel lhe custou caro! Voltou à Pátria sabendo o mínimo que é possível saber-se sobre a França e os franceses. Gente igual a ele encontra-se em todos os países, insulada por vontade própria em células estanques, perdendo uma oportunidade de enriquecer cotidianamente suas vidas com novos conhecimentos e novos amigos!

Trate as pessoas como iguais. Durante a guerra, um gerente de hotel de Karachi, no Paquistão, me disse dos ingleses: “Eles não sabem tratar as pessoas de igual para igual.” Essa observação tem provado ser verdadeira para a maioria dos colonizadores. Mostrou-se notoriamente verdadeira no tocante aos nazistas. E, com excessiva freqüência, cabe também a norte-americanos em viagem pelo estrangeiro. Em Praga – corria o ano de 1946 – uma jovem tchecoslovaca, de boa cultura, me afirmou: “Pensávamos que somente os alemães se comportassem como raça de senhores. Esperávamos muito mais de seus patrícios; a maioria deles, no entanto, nos olha de cima, só porque somos um país pequeno. Alguns se assemelham aos nazistas em arrogância. Os americanos, que aqui vieram ter, nos causaram uma triste decepção.”

Nada fere mais profundamente do que uma atitude de superioridade, assumida por visitantes. Sinto uma intensa afeição pelo camponês espanhol, porque, já o disse o filósofo Miguel de Unamuno, “os camponeses são os únicos fidalgos legítimos da Espanha”. Recebem qualquer pessoa como igual – e nada além disso! Ao tratarmos com seres humanos, não precisamos de outros recursos. E talvez seja esta a chave mestra para abrir-mos o coração de um estranho.

Demonstre interesse por tudo o que for ou típico ou incomum, nos lugares que visitar. Em sua primeira visita aos Estados Unidos, o atual Rei da Suécia, então Príncipe Coroada, andou em trens subterrâneos, inspecionou linhas de montagem nas fábricas, visitou museus e universidades, assistiu a uma partida de basebol. Os norte-americanos, fazendo-lhe inteira justiça, reconheceram imediatamente que o real visitante sueco era um ótimo camarada e um verdadeiro democrata – que em realidade era e ainda é.

Você pode não achar graça na primeira tourada que vir; mas, a menos que vá a algumas, ser-lhe-á impossível tentar compreender os espanhóis ou os mexicanos. Uma orquestra húngara de música cigana pode desagradar-lhe; mas, se a música de um povo não o comover, você jamais conseguirá sentir-se próximo dele.

Quando conhecer e apreciar realmente a comida, a música e os esportes favoritos de qualquer país, você não só descobrirá o quanto gosta da sua gente, como também verá que a maioria dela o aprecia. O viajante que inspira mais piedade é aquele do qual os anfitriões dizem: Ele não vai com a nossa comida, nem mesmo com a nossa música”, o que significa: “Ele não procura gostar de nós.”

Toda nação é igual a uma caixa de surpresas: compete a você desembrulhá-la. E não há povo sobre a terra que não se sinta satisfeito e lisonjeado quando um estrangeiro deseja conhece-lo em todos os aspectos de sua vida e de seu país.

Mostre boa vontade em admitir que os seus patrícios têm defeitos e limitações – e que você mesmo tem os seus. Em um discurso perante Winston Churchill e os círculos governantes da Inglaterra, em 1951, o então General Eisenhower declarou: “Vejo nesta sala personalidades com as quais, durante a Segunda Guerra Mundial, mantive, por longo tempo, acesas discussões.” E então confessou publicamente haver chegado à “conclusão final de que nem sempre estava certo em minhas posições”. Afirmações dessa ordem exemplificam a humildade honesta e simpática que qualquer cidadão de qualquer país pode muito bem permitir-se onde quer que esteja.

Este texto faz parte de uma coletânea intitulada "Janelas para o mundo", vol35 da Seleções do Reader's Digest, 1960.

domingo, 14 de junho de 2009

On the road com Antonio Bivar

. Foto: Fred Chalub

Se pudéssemos fazer uma comparação, com inúmeras ressalvas, diríamos que Antonio Bivar seria o nosso Jack Kerouac brasileiro, escritor da geração beat que por sinal foi biografado pelo próprio Bivar em 2004. O que ambos têm em comum é a importância que a viagem possui em suas vidas e em suas obras. Não se pode imaginar Kerouac sem a estrada, e o mesmo se aplica a Antonio Bivar, cujo pecado é a pequena quantidade de obras publicadas desde sua estréia literária com Verdes Vales do Fim do Mundo, escrito em 1971 e lançado somente em 1984 pela L&PM (reeditado em 2006 pela mesma editora na coleção L&PM pocket).

Antonio Bivar completa 70 anos em 2009 e seu último trabalho, Bivar na corte de Bloomsbury foi editado em 2005, quando o autor já estava nos seus sessenta e poucos anos. Idade importa? Claro que não, ainda mais para escritores, e é muito interessante notar que o Bivar da terceira idade continua tão jovem quanto aquele que perambulou pela Europa no início da década de 1970. E acreditamos que o fato de estar sempre com o pé na estrada tem muito a ver com isso.

São três as obras em que a viagem é o leitmotif de Bivar: Verdes Vales do Fim do Mundo, Longe Daqui Aqui Mesmo e Bivar na corte de Bloomsbury. As duas primeiras tratam basicamente do mesmo tema: as memórias de um jovem autor de teatro que, ao completar trinta anos, vai fazer o que tantos jovens faziam no final dos anos sessenta e início dos setenta: perambular pelo mundo com uma mochila nas costas, no espírito de Alegria, Alegria de Caetano. É difícil não se encantar pela leitura de Verdes Vales logo nas primeiras linhas; temos ali o relato em primeira pessoa de um momento histórico fascinante e ao mesmo tempo conturbado, afinal o Brasil vivia sob um regime ditatorial. Mas Bivar soube aproveitar muito bem o ano em que passou na Europa para afastar, ainda que temporariamente, o fantasma da ditadura.



A Inglaterra foi o país pelo qual Bivar se apaixonou e onde mais tempo viveu. Com ele vamos conhecendo pouco a pouco a rotina às vezes bucólica, às vezes aventureira, de um viajante aberto às coisas novas: pessoas, lugares, acontecimentos, amores. Entre um baseado e outro, de cabeça feita vai perambulando por Londres, Nova Iorque, Dublin e um pouquinho de Paris. Mas o momento mais marcante acreditamos que tanto para o autor quanto para o leitor, será aquele em que Bivar vai parar no interior da Inglaterra, em Salisbury, no condado de Wiltshire, local marcado pela mitologia arturiana e pela presença da tradição celta. A aura mágica que tantos atribuem àquelas paragens contagia o relato de Bivar, como não poderia deixar de ser, dando um tempero especial à narrativa.

Em todas as viagens, mais especificamente para quem viaja sozinho, existe sempre um momento em que o viajante se sente solitário e sem rumo; é um momento muito marcante, às vezes assustador, quando finalmente surge a pergunta: para onde ir? As circunstâncias podem ou não atenuar a situação: a grana curta, o horário, o local, tudo isso contribui para que a sensação vá de um leve sentimento de abandono até ao desespero total, dependendo do estado emocional no qual o viajante se encontre. Há uma passagem em Verdes Vales que trata exatamente disso, no momento em que o autor se separa de seu companheiro de viagem e não sabe o que fazer após a sua inesperada partida de Salisbury.

"(...) Estonteado com as últimas vicissitudes, peguei a mochila e fui pela rua principal até o jardim da catedral. Sentei-me num banco ainda molhado e pedi a Deus que me orientasse. Devia ficar em Salisbury ou também entrar num ônibus e procurar outro lugar?
Foi então que vi, agachado, sorrindo, procurando meus olhos, uma das criaturas élficas que já tinha avistado na cidade. Sem perguntar nada, mas me captando inteiro, tomou forte minha mão, e com os olhos nos meus ele disse: - Vem comigo.

Foi uma das melhores sensações de toda a minha vida. Foi um ato bonito e bom. Não consegui conter as lágrimas e elas saltaram, cheias, felizes, lavando o rosto e a alma. – Onde? – perguntei, encantado, depois de passada a primeira descarga emotiva, enxugando o nariz na manga do suéter e já pegando a mochila para segui-lo. Com um modo peculiar de falar e um sotaque distinto, ele respondeu: - A uma casa de gente simpática. – Que bom ter alguém para seguir, de repente pensei."

Chegando ao local, o autor descobre que a casa é habitada por jovens que vivem no estilo comunitário alternativo, tão em voga naqueles tempos; passa poucos dias ali, dias muito felizes, partindo sem se despedir, mas antes que o livro termine ainda volta a se encontrar com os amigos que lá deixou.

Tanto em Verdes Vales quanto em Longe Daqui, ao descrever suas andanças e vivências pelo Velho Mundo, morando de favor ali e acolá, alugando pequenos quartos baratos e aconchegantes, convivendo com gente interessante, algumas bastante conhecidas, Bivar nada mais fez, ao publicar essas duas obras, do que deixar documentado um recorte da dinâmica da contracultura no início dos anos setenta. Aliás, se as duas obras pudessem ser comparadas a um filme, Hair (de Milos Forman) seria a escolha ideal, por sua leveza, seu humor e pelo espírito jovem, poético e libertário de sua mensagem. De tudo isso, Antonio Bivar tem um pouco e um tanto mais.


Já em Bivar na corte de Bloomsbury, a pegada é outra. Trata-se também de um livro de memórias, como os anteriores, mas dessa vez as viagens, ao contrário das outras, têm um objetivo previamente determinado: a visita à fazenda de Charleston, em Sussex, Inglaterra, onde Bivar se dirige todos os anos entre 1993 e 2004 para participar da Escola de Verão, voltada a estudiosos da cultura bloomsburiana. Nas palavras do autor:

"Quando se fala no Grupo de Bloomsbury, é o nome de Virginia Wolf que logo emerge como o principal – ou o mais resistente – de seus membros originários. Paralelamente ao meu interesse pela literatura woolfiana, interessei-me pelas ações do grupo a partir da descoberta de um opúsculo, Bloomsbury, escrito por Quentim Bell, sobrinho e primeiro biógrafo de Woolf. (...) Minha curiosidade, tanto por Virginia Woolf (desde 1973 quando li uma tradução brasileira de As ondas) quanto pelo Bloomsbury, fez com que eu fosse atrás de mais e mais sobre eles. Nas minhas muitas e longas temporadas inglesas, tinha de acontecer um dia ir para na Fazenda Charleston e uma vez ciente do que ela oferecia em termos daquilo que eu buscava, não me aquietei enquanto não fui aceito como participante de sua Summer School. Isso foi em 1993. Na época, apesar da idade, me senti como um adolescente, orgulhoso de ser não apenas o primeiro brasileiro, mas também o único latino-americano entre os 22 participantes – a maioria acadêmicos – daquele seu segundo ano como Escola de Verão."

Entre as várias idas e vindas à fazenda de Charleston, Bivar vai relatando em seus diários (pois a obra é a compilação de todos os diários escritos nessas viagens) tudo aquilo que viveu nesse período de onze anos, tanto dentro quanto fora do universo woolfiano. Para quem não conhece a obra de Virginia Wolf, e muito menos a de seus pares, pode parecer que o texto de Bivar seja especificamente voltado ao leitor familiarizado com o universo por ele retratado. De certo modo, é provável que a este leitor a obra encante mais. Porém, aquele que se aventurar em encarar as quinhentas páginas de Bivar na corte de Bloomsbury, mesmo sem nunca ter lido Virginia Wolf, irá se divertir com as tiradas do autor, seus comentários, suas impressões e, de quebra, ainda aprenderá um pouco mais sobre literatura e arte, duas das grandes paixões do escritor.

Os anos que separam o Bivar andarilho do Bivar bloomsburiano, pouco mais de vinte se considerarmos a primeira viagem a Charleston em 1993, mostram que, para quem tem a estrada como companheira, poucas coisas mudam na essência. O corpo envelhece, inevitavelmente, mas a alma permanece jovem e inquieta. Se por um lado o autor percorria a Europa com a sede de querer estar em todos os lugares e conhecer todas as pessoas e viver todos os amores possíveis, por outro a maturidade lhe trouxe um porto seguro onde, mesmo deambulando menos, continuou vivenciando a estrada, agora vista como metáfora de sua própria jornada interior. Para Bivar - percebemos isso na sua obra sobre Bloomsbury - Virginia Wolf é sua Santiago de Compostela, a Inglaterra o seu Caminho de Santiago. A literatura, também ela, possui a sua sacralidade.

Mas entre uma ida e outra a Charleston, Bivar faz alguns desvios: visita a Espanha, Portugal no ano 2000, para onde viaja com a família na tentativa de amenizar o luto pela perda da mãe, e uma breve viagem por terra, no ano de 2004, ao Chile, Argentina e Uruguai. Essa aventura, escreve Bivar, “é para sentir se, aos quase 65 anos, ainda dou conta de sair por aí do jeito que gosto, curtir a liberdade da maneira mais simples e barata”. E ele dá conta sim, e muito bem por sinal.

E é assim que terminamos essa breve caminhada pelo universo viajante de Antonio Bivar, um autor simples, direto, poético, culto e que ainda deve guardar, na longevidade de seus setenta anos, o espírito aventureiro do jovem hippie apaixonado pela Inglaterra, sem nunca ter perdido sua identidade brasileira.

“Em certos momentos da vida não há nada que faça mais bem à alma que viajar.”
Antonio Bivar

Leia a trilogia das viagens de Antonio Bivar:

Verdes Vales do Fim do Mundo e Longe Daqui Aqui Mesmo, foram lançados pela Editora L&PM na coleção pocket.
Bivar na corte de Bloomsbury saiu pela A Girafa Editora em 2005.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A viagem sentimental de Laurence Sterne

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Um dos aspectos mais surpreendentes de Uma viagem sentimental(publicado em 1768, um mês antes da morte do autor) é a noção de que, em se tratando de comportamento humano, três séculos parecem não acrescentar muitas diferenças na maneira de estar no mundo. Não que isso seja bom, afinal nos parece natural pensar em evolução quando comparamos um período histórico a outro. Mas o próprio conceito de evolução já é por si só demasiadamente limitado, ainda mais se o aplicarmos ao âmbito da consciência humana.

Uma viagem sentimental não é um relato de viagem típico; não encontraremos, de fato, o relato de uma jornada por terras francesas e italianas no século 18. Também não teremos conhecimento de grandes aventuras e descobertas e tampouco de muitas linhas descrevendo o itinerário desse viajante passional.

Laurence Sterne escreve o relato em primeira pessoa, assumindo o alter ego de Parson Yorick, um clérigo inglês protestante aparentemente apaixonado pela França e suas mulheres (temos a impressão de que, embora tivesse passado dos cinqüenta anos, o narrador ainda não havia conseguido dominar por completo seus hormônios). O personagem decide empreender viagem pela França e Itália, usando como meio de transporte uma carruagem, mais especificamente um desobligeant, modelo em que só há lugar para um único viajante, informação dada em nota de rodapé. Dessa viagem nascerá um relato, cujo prefácio começa a ser escrito no gangorrar da carruagem.

A visão que Laurence Stern/ Parson Yorick tem dos viajantes é muito peculiar e segundo ele existem três causas gerais que motivam as “pessoas ociosas” a deixarem seu país em direção ao exterior:

1) Enfermidade do corpo;
2) Imbecilidade de espírito;
3) Necessidade inevitável.

Nas palavras do autor:

“As duas primeiras (enfermidade do corpo e imbecilidade do espírito) incluem todos aqueles que viajam por terra ou por mar, padecendo com orgulho, curiosidade, vaidade ou melancolia, subdivididos e combinados in infinitum. A terceira classe inclui todo o exército de mártires peregrinos; mais especificamente aqueles viajantes que partiram em viagem, com direito a foro especial, quer como delinqüentes, viajando sob a orientação de mentores, recomendados pelos magistrados – quer como jovens cavalheiros transportados pela crueldade dos pais e guardiões, e viajando sob a orientação de mentores, recomendados por Oxford, Aberdeen e Glascow. Existe uma quarta classe, mas seu número é tão pequeno que eles não mereceriam uma distinção, não fosse pelo fato de ser necessário a um trabalho dessa natureza usar de maior precisão e cuidado, a fim de evitar uma confusão de personalidade. E estes homens de que estou falando são daquele tipo que cruza os mares e reside, temporariamente, numa terra estranha, tendo em vista economizar dinheiro por vários motivos e sob vários pretextos (...) Assim todo o círculo de viajantes pode ser reduzido às seguintes categorias: Viajantes Ociosos, Viajantes Inquisitivos, Viajantes Mentirosos, Viajantes Orgulhosos, Viajantes Vaidosos, Viajantes Melancólicos. Seguem-se, então, os Viajantes por Necessidade: o Viajante delinqüente e perverso, o Viajante infortunado e inocente, o simples Viajante, e por último de todos O Viajante Sentimental.”

Percebemos que essa categorização do Viajante feita por Stern é bastante insólita, mas no momento em que ele justifica essas categorias (que nos parecem, a bem dizer, quase ilimitadas) encontramos a chave para aquilo que, na leitura que fizemos da obra, consideramos a questão fundamental do relato: a idéia da viagem enquanto processo de aprendizagem. Vejamos:

“É suficiente para o meu leitor, se ele próprio tiver sido um viajante, que, com estudo e reflexão a esse respeito, possa ser capaz de determinar seu próprio lugar e classificação na catalogação – será um passo no sentido de conhecer-se a si mesmo...”.

Será que não podemos, visto dessa maneira, imaginar que cada tipo de Viajante é, na verdade, um tipo psicológico? Pois nos parece interessante analisarmos a maneira como nós mesmos nos comportamos quando pomos os pés na estrada, qual o tipo (ou tipos) de personagem (persona) assumimos numa jornada. Isso pode variar também no tipo de viagem, já que uma peregrinação a Juazeiro do Norte, por exemplo, é completamente diferente de uma viagem com destino a São Paulo. Esse é o tipo de reflexão com a qual mais nos identificamos no texto de Sterne, embora sua leitura seja prazerosa por outros fatores igualmente.
Por exemplo, os costumes da época em que se passa a narrativa, como na passagem em que o personagem, Yorick, se irrita com um adversário, Monsieur Dessein:

“(...) senti, dentro de mim, a sucessão alternada de todos os movimentos inerentes à situação – examinei e reexaminei Monsieur Dessein – observei-o de perfil enquanto andava – em seguida, en face – achei que parecia um judeu – depois um turco – antipatizei com a sua peruca – amaldiçoei-o em nome dos meus deuses – quis mandá-lo ao diabo.”

Em alguns (poucos) momentos, lembrando que estamos diante de um relato de viagem, lemos uma descrição ou outra dos lugares pelos quais Yorick passou pela França (apesar de o título da obra apresentar a viagem sentimental através da França e da Itália, o livro termina sem que o personagem chegue ao território italiano), chamando-nos a atenção a descrição exagerada da bela Pont Neuf de Paris:

“Todo o mundo que já passou pela Pont Neuf deve admitir que, de todas as pontes jamais construídas, ela é a mais nobre – a mais bela – a mais grandiosa – a mais leve – a mais comprida – a mais larga que jamais uniu terra a terra na face do globo terráqueo –”

E o relato vai fluindo dessa maneira, pouco descritivo em se tratando de uma experiência deambulatória, mas cheio de emoção, humor e percepções sobre o caráter humano que encantam o leitor a cada página. Aliás, é dessa emoção, ou melhor, do emocional, que, ao fim e ao cabo, trata a obra. Pois o viajante emocional é aquele que descobre que o melhor de uma viagem é o conhecimento que se adquire, de si e do outro.

“Mesmo que seja ir apenas até o final de uma rua, tenho uma aversão mortal a regressar sem saber mais do que quando parti.” Laurence Sterne.

Leia a obra: Uma viagem sentimental através da França e da Itália. Laurence Sterne. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, introdução e notas de Marta de Senna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.