sexta-feira, 31 de julho de 2009

Andaluz, desvendando os mistérios da Espanha moura

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Andaluz, ou Al-Andaluz, foi o nome dado à Península Ibérica pelos mouros no século VIII. Os moros, de origem árabe-berbere, chegaram à Península vindos da região do Saara ocidental e da Mauritânia, o que explica a origem do termo “mouro”, do latim tardio “mauri”. Com o tempo, mouros e sarracenos foram termos que se utilizaram para designar as pessoas de origem árabe e/ou muçulmana, embora esses vocábulos tenham surgido antes do nascimento de Maomé (séc.VII), portanto antes da era islâmica.




Partindo dessa origem, a da ascendência árabe na Península Ibérica, é que Jason Webster constrói seu relato de viagem. Andaluz é o segundo livro escrito por esse travel writer californiano; nascido em 1970, Jason Webster graduou-se em árabe e história islâmica pela St. John’s College em Oxford, não tendo seguido a carreira acadêmica; ao invés disso, foi bater pernas pelo mundo e acabou se apaixonando pela Espanha, onde vive atualmente com a esposa, uma professora de flamenco, em Valencia.

Webster fez bem ao trocar a academia pela literatura de viagens, gênero ao qual se apegou. Se a academia perdeu um professor competente, nós leitores ganhamos um bom contador de histórias. Quando entrevistava um professor de história medieval, especializado em cultura árabe, percebeu que este ficou incomodado quando a conversa “acadêmica” tomou um rumo mais focado na situação dos árabes cada vez mais presentes em sua cidade natal, como se o discurso acadêmico não tivesse nada a ver com a realidade prática cotidiana. Veja o que Jason escreveu:

“Parecia típico da abordagem acadêmica: uma cultura inteira reduzida a algum minúsculo aspecto da linguagem árabe, um poeta esquecido, ou um período de história enterrado em livros empoeirados e debaixo de dunas de areia. Muito poucos pareciam ter um contato vivo com o mundo árabe, e você ficava se perguntando se alguns deles conseguiriam sequer travar uma conversa de verdade com um árabe comum, ou se cuidadosamente evitavam ter que falar a língua, como os professores do corpo docente em Oxford, com os quais estudei. Existiam algumas exceções notáveis e incomuns, mas frequentemente eu me questionava se um ambiente acadêmico não acabava sendo inadequado para o que pretendia ter como objetivo: a compilação e a transmissão de conhecimento.”

O relato de Jason começa com ele se infiltrando em um ambiente que poucos de nós, acredito, imaginamos existir num país como a Espanha. Trata-se de grandes fazendas ao longo da costa espanhola que abrigam gigantescas estufas feitas de plástico projetadas para o cultivo de frutos durante todas as estações do ano. A mão de obra é em sua maioria composta por imigrantes marroquinos, que entram ilegalmente no país e acabam trabalhando nessas fazendas como verdadeiros escravos do século XXI. Foi nesse ambiente que Jason começou a procurar suas primeiras fontes de pesquisa, em parte pela facilidade em encontrar uma quantidade grande de marroquinos, os mouros que o ajudariam a construir a sua tese. Mas sua entrada ilegal na fazenda quase lhe custou a cabeça, e foi exatamente um desses moros, um jovem marroquino chamado Zine, que lhe salvou a vida literalmente.

Evidentemente, Jason e Zine conseguem fugir da fazenda, e é dessa relação, de dois estrangeiros que se encontram fora de seus países, embora sob condições completamente distintas, que nasce uma amizade forte que ajuda a fazer dessa viagem algo além de uma simples pesquisa histórica.

O relato de Jason, agora acompanhado do marroquino Zine, nos leva a conhecer os lugares mais marcantes da presença árabe na Espanha: Valência, Alzira, Almería, Granada, Córdoba, Sevilha, Toledo... em todos eles, o que Jason busca, com a ajuda de Zine, é uma confirmação à sua teoria, que aparece explícita na seguinte passagem:

“- De que trata essa sua viagem, Jasie? Uma caça ao tesouro, você disse.
Por um minuto eu apenas mantive os olhos na estrada. Sentia-me um pouco relutante de contar muito a ele, mas ao mesmo tempo, me descobrindo me abrindo com ele.
- Eu tenho uma teoria de que a Espanha ainda é, na realidade, um país mouro. Só que isso está escondido, disfarçado por trás de uma fachada extrema católica e européia. Vou sair por aí e ver que provas eu consigo encontrar.
- A Espanha um país mouro?
- Alguns mouros podem ter partido, mas muitos ficaram. Eles apenas se tornaram cristãos e mantiveram muitos de seus costumes árabes: cozinha, ditados, arquitetura, música. Esse tipo de coisa. “Olhe para os rostos – estou sempre vendo pessoas nas ruas que me lembram amigos árabes ou até iranianos.”

O que torna o relato de Jason cativante é a maneira como ele conduz essa teoria, conseguindo fazer com que a história não fique parecendo uma aborrecida aula de termos e cultura árabe (você irá aprender muitas coisas interessantes nesse sentido) dentro de uma narrativa de viagem. O deslocamento dos personagens pelo território mouro espanhol é tão relevante quanto as descobertas que nos vão sendo feitas entre as conversas de Jason, Zine e outros personagens que aparecem ao longo da viagem. Por quê? Porque se você procura uma resposta, se algo lhe inquieta de verdade a alma, então você precisa ir aonde sua intuição lhe diz “vá até lá, vá verificar com seus próprios olhos”, e é isso o que Jason faz, e é isso o que todos deveríamos fazer ao menos uma vez na vida.

Talvez alguém ao ler a história de Jason, que vale lembrar não é nem de longe um viajante leigo na temática árabe, faça críticas quanto à maneira na qual ele vai tecendo suas interpretações, às vezes um tanto superficiais (teria essa impressão se estivesse lendo um texto acadêmico), mas isso seria uma bobagem total. A questão não é a de provar ao leitor que sim, sim, a Espanha é mais moura do que os espanhóis poderiam imaginar. E muito mais do que, verdade seja dita, poderiam aceitar. Um exemplo disso aparece na narrativa, quando Jason descobre que um espanhol não aceita de modo algum o fato de que duas das palavras mais conhecidas de seu belo idioma, Hola! e Olé! têm origem no termo árabe wallah, que significa “por Deus” (Allah). Quer outra? O vocábulo Ojalá, em espanhol (Oxalá, em português), “Se Deus quiser”, provém do árabe “in sha’Allah”. E paramos por aqui porque esse negócio vai longe.

Para encerrar, escolhi uma passagem de que gostei muito, não pelo fato de ser algo poético, inovador, surpreendente, nada disso. Mas achei que o autor conseguiu, num momento de abstração enquanto tomava um refresco numa praça em Barcelona, sintetizar o espírito de toda a sua busca pelo legado mourisco espanhol. Note como ele vai costurando os acontecimentos corriqueiros, que você mesmo está cansado de enxergar no seu dia a dia (e talvez por isso mesmo já nem enxergue mais), com tudo o que assimilou da cultura árabe. Veja se você não concorda comigo:

“Enquanto bebericava um suco de laranja, olhei para as pessoas sentadas ao nosso redor no bar, e prestei atenção no que estavam comendo e bebendo, em suas roupas, no que estavam fazendo: um homem de meia idade sentado numa mesa ao nosso lado vestia calças de algodão e uma camisa de seda, chupando os lábios e gengivas como se tivesse acabado de limpar os dentes; em outra mesa um casal estava comendo almôndegas num molho grosso de tomate e cebola, com arroz e uma salada de espinafre; um outro homem, de cabelos pretos, lustrosos de gomalina, penteados para trás, à moda de muitos espanhóis de direita, lia a matéria de primeira página de um jornal sobre a mais nova geração de foguetes prestes a serem usados contra os iraquianos. Ele parecia desinteressado, entretanto, e logo passou para a página de horóscopos, bebericando um refresco gelado, num copo duplo, com bastante gelo. Apenas a poucos metros de distância dois homens idosos estavam debruçados sobre seu jogo de xadrez, um deles, distraidamente, mexendo o açúcar em seu café com um ruído de tinque-tinque-tinque contínuo, enquanto tentava decidir a próxima jogada. Três mulheres do outro lado tagarelavam sem cessar, mas, por um segundo, a conversa entre elas inexplicavelmente se acabou.
- Deve ter sido um anjo que passou no céu – disse uma.

E comecei a ver. Talvez por causa de minha visita ao príncipe, ou como resultado de minha jornada, enquanto eu absorvia o ambiente que me cercava, as peças começaram a se encaixar em minha mente, o quadro que eu estava tentando compreender há tanto tempo. Antes me parecia algo apenas fora de meu campo de visão. Porém, agora, eu me dava conta do quanto daquela cena na Barcelona moderna vinha diretamente dos mouros. Mesmo assim a conexão era quase invisível.

Perguntei a mim mesmo se o homem vestindo calças de algodão saberia que o algodão foi plantado em grande escala pela primeira vez na Espanha pelos mouros, e que então se difundiu pela Europa. A palavra “algodão” – algodón, em espanhol, vinha do árabe al-qutun. O conhecimento da manufatura da seda foi trazido para o mundo árabe depois de 840, quando o astrólogo e poeta Yahya al-Ghazal, ou João, a Gazela, visitou Bizâncio. Clandestinamente, ele trouxe consigo as técnicas quando voltou a viajar para o norte. A pasta de dentes chegou à Espanha de Bagdá, no século IX; almôndegas, arroz e espinafre todos vieram para a Espanha através dos mouros; o papel em que o jornal era impresso era um legado direto da primeira fábrica de papel em Játiva; a tecnologia de foguetes foi construída sobre a matemática avançada traduzida para o latim do árabe em Toledo; horóscopos, astrologia e com eles a astronomia, foram trazidos para a Europa através da Espanha mourisca – hoje em dia astrônomos ainda se referem às muitas estrelas usando seus nomes originais árabes, como, por exemplo, a Betelgeuse.

Refrescos servidos com gelo eram mencionados no livro As mil e uma noites, no qual eram servidos ao califa Harun al Rashid – a palavra árabe para bebidas geladas, sharba, ainda era lembrada na palavra espanhola sorbete, e nas inglesas sherbet e sorbet, bem como em syrup (xarope). O primeiro europeu a descobrir a fórmula para fazer vidro foi um espanhol andalusi, no século IX, chamado Ibn Firnas – a Espanha mourisca, subsequentemente, tornou-se uma produtora de vidro e o exportou para seus vizinhos cristãos. Ziryab, o músico de Bagdá que ditava tendências, introduziu o xadrez na Espanha no século IX. Por volta da mesma época, uma porção de superstições persas tornaram-se comuns na Espanha islâmica – dentre elas estavam as idéias de que anjos passando acima no céu faziam cessar conversas em andamento, que quebrar espelhos era algo ruim e que o número treze dava azar. A Espanha mourisca também havia introduzido o açúcar na Europa – o açúcar era mencionado na Espanha já em 714, apenas três anos depois da invasão moura, e o açúcar tornou-se um dos principais artigos de produção da Península Ibérica. Laranjas eram virtualmente desconhecidas na Europa antes da conquista árabe. Vi tudo isto em um único e compacto segundo.”



Leia: Andaluz: desvendando os mistérios da Espanha moura. Jason Webster; tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. Vale lembrar que o primeiro trabalho de Jason Webster, Flamenco, foi publicado no Brasil pela mesma editora. Estou lendo-o no momento e me parece tão bom quanto Andaluz.

sábado, 25 de julho de 2009

Via Láctea: relato de viagem de um peregrino brasileiro no Caminho de Santiago

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A literatura odepórica jacobea contabiliza, no Brasil, mais de uma centena de obras de peregrinos que percorreram o Caminho de Santiago a partir dos anos 1990. É um número bastante significativo, ainda mais em se tratando de um tema tão específico quanto este. Talvez poucas pessoas saibam, mas houve um momento em que o Brasil era um dos países mais presentes, em número de peregrinos, no Caminho de Santiago, e foi justamente nesse período que a maioria dos relatos de viagem (diários) foram escritos.


O relato mais famoso, como todos sabem, é na verdade uma narrativa ficcional, pois é assim que Paulo Coelho cataloga seu Diário de um mago, de 1987. Ficção, mas baseada num fato real (a peregrinação de fato aconteceu) que acabou por construir todo um imaginário místico em torno do fenômeno dessa peregrinação milenar, para horror de alguns e diversão de outros.


Depois de Coelho, alguns autores ainda seguiram relatando suas aventuras pelo Caminho de Santiago como pano de fundo para uma experiência iniciática, esotérica, recheada de elementos próprios dos novos movimentos religiosos, vulgarmente denominados de Nova Era, uma tendência que ainda perdura em alguns relatos. Muitos deles divertidíssimos, se você não for um leitor preconceituoso e muito exigente – literariamente falando. Nesse universo dos relatos de viagem, um pouquinho de esquisitice é sempre bem-vindo.


Hoje, depois de haver lido uma centena desses diários, quando alguém me pede para indicar apenas um, não tenho dúvida: indico sem medo a obra que considero a mais prazerosa de todas: Via Láctea: pelos Caminhos de Santiago de Compostela, editada em 1999 pelo fotógrafo Guy Veloso, brasileiro de Belém do Pará.


O autor percorreu o Caminho em 1993, numa época em que a rota começava a ganhar notoriedade depois de anos de quase ostracismo. Peregrinar naquela época, em que celular e GPS eram coisas exóticas (já existia GPS?) era uma experiência diferente da de hoje, mais simples em alguns sentidos. Mas sem romantismos bobos: ainda que hoje o Caminho esteja mais saturado e com “mais turistas e menos peregrinos”, isso não invalida, de forma alguma, a peregrinação de ninguém. Como julgar a experiência de alguém?


O relato de Guy Veloso é daqueles que você não consegue largar facilmente, por vários motivos. Primeiro, porque ele escreve bem, é direto, não se perde em devaneios e sabe dosar o drama com o humor de maneira correta. Tem o lado místico também? Tem sim, mas aí vai depender daquilo que você entende por “místico”, e isso de certa forma se aplica a qualquer relato sobre peregrinações, porque invariavelmente todos eles apresentam doses generosas de subjetividade.


Embora ainda fosse bem jovem na época em que peregrinou a Santiago (23 anos), percebe-se que o autor tinha maturidade suficiente para questionar seu papel dentro daquela experiência transformadora. Verdadeiro rito de passagem, o Guy que partiu não foi o mesmo que retornou de Compostela. O Caminho deixou uma marca profunda nesse viajante, em parte porque ele estava aberto ao novo, ao desconhecido, embora em alguns momentos pontuais chegasse a questionar se o que vivenciava era mesmo um sinal, uma resposta do universo às suas indagações, um milagre. No final do livro, se você topar o convite de lê-lo algum dia, irá se surpreender com o “milagre”, que fecha a narrativa de maneira fascinante.


Guy Veloso hoje é um fotógrafo premiado, tendo seu trabalho reconhecido no Brasil e no exterior. O interessante é que você consegue perceber facilmente a influência do Caminho de Santiago em sua obra. Como? Basta conferir em http://fotografiadocumental.com.br/, já destacado nos sites indicados pelo Odepórica. Na apresentação do site em algum momento você irá ler o seguinte: “Seu trabalho enfoca a religiosidade brasileira, em especial o ‘uso do corpo como transcendência’.” Interessante, não? De certa forma, isso resume de maneira satisfatória a experiência da peregrinação.


Deixei para terminar esse pequeno texto com um excerto de Via Láctea, para dar um pequeno aperitivo ao leitor que chegou até aqui. Não me decidindo por nenhuma passagem em especial, recorri à manjadíssima técnica de abrir a obra e deixar o acaso decidir por mim. Acho que não poderia ter sido melhor, veja se você não concorda comigo:

“Após merecida siesta, fomos todos chamados para uma reunião íntima no claustro da abadia, cujas paredes e colunas são contemporâneas das grandes expedições marítimas ibéricas.
Éramos doze andarilhos sentados em círculo, além do hospitaleiro que saudou os visitantes e pediu que cada um falasse sobre suas experiências naqueles dias de peregrinação.
Ouvi testemunhos emocionantes, de pleno desabafo de alma. Pessoas que se despiam das comuns amarras e barreiras do dia-a-dia e em poucos minutos resumiram suas vidas. Na minha vez, todos fizeram questão de que eu falasse em minha língua-mãe, embora já estivesse bem acostumado ao castelhano. Pausadamente, em português mesmo contei-lhes de minhas dores, dúvidas e alegrias nesta jornada que já se tornava porção essencial e inseparável de minha história.
Na verdade, não sei se fui entendido em tudo que disse. Pensando bem, aquelas palavras, naquele momento, não precisavam fazer sentido algum. A emoção do grupo disposto em círculo e a aura de um lugar santo e muito antigo sobrepujavam quaisquer verbalizações. Era aquela a nossa língua.
Esse desabafo me reanimou, já que foi a primeira vez em semanas que pude exteriorizar minhas sensações. Além disso, descobri que não era o único a passar por tudo aquilo. Que havia pelo menos mais onze pessoas que atravessavam experiências semelhantes e, com elas, construíam algo novo em suas vidas.
Ainda juntos, ouvimos à missa ao lado da tumba do santo de Ortega. O celebrante, Dom José Alonso, outra figura carismática e famosa do Caminho, conduzia a liturgia de forma incomum, gesticulando e conversando diretamente com os fiéis, quebrando quaisquer barreiras entre o altar e a assistência, acompanhado de dois jovens peregrinos belgas – os quais eu não sabia serem eclesiásticos – que concelebraram o ofício.
Ao jantar, sentamos todos em uma ampla mesa da cantina do mosteiro junto com o hospitaleiro e os curas. Sem que nada fosse combinado, cada um botou sobre ela toda a comida que guardava.
Assim, quem só tinha bocadillos, tomou sopa. Salames foram trocados por pedaços de pão. Quem ofereceu chocolates – o meu caso – também comeu carne de peru. Todos esbanjaram-se e saciaram-se.
E de tudo o que passei durante a Rota Peregrina, esta foi talvez a maior lição que tive. Na verdade, algo que, de tão simples, passa muitas vezes ao largo, à margem.
Pois é certo que cada um dos homens e mulheres que fazem o Caminho de Santiago aprende, inevitavelmente, a grande arte de compartilhar.
“Seja comida, seja sentimento.”

Esse texto foi postado no dia 25 de julho, dia de Santiago.

Leia Via Láctea: pelos caminhos de Santiago de Compostela, de Guy Veloso. Editora Tempo d’imagens, Fortaleza. Caso compre o seu através do site Estante Virtual, procure por volumes a partir da 2ª edição, já que a 1ª edição da obra não veio contemplada com as fotografias do autor.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Diários de Viagem

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.Foi publicado no periódico espanhol La Vanguardia (01/07/2009) um interessante artigo que trata de um tema que tem tudo a ver com o universo do Odepórica: os diários de viagem. A matéria, que traduzimos na íntegra, aborda o tema dos diários de viagem priorizando os autores espanhóis, mas isso não tira o interesse da leitura; pelo contrário, dá vontade de pesquisar mais profundamente o trabalho de autores brasileiros que, diga-se de passagem, publicaram- e continuam publicando - muito material contemplando a arte de viajar. Quem sabe, depois de ler o artigo abaixo, você não ganhe inspiração para levar, na sua próxima aventura, um pequeno caderno de notas transformado em diário de viagem. Experimente. Sua forma de ver o mundo pode ganhar um sentido muito mais interessante do que você imagina.



Diários de viagem


Títulos como “El món sobre rodes”, de Albert Casals ou “Bueno, me largo”, de Hape Kerkeling, significativos êxitos editoriais recentes, demonstram a vitalidade de um gênero, o diário de viagem, cultivado historicamente por nomes tão diversos como Cristóvão Colombo, Montaigne, Cinto Verdaguer ou Charles Darwin. O fato é que a viagem e o diário – escrito ou desenhado – quase sempre caminharam juntos.

“Partimos na sexta-feira 3 de agosto de 1492, da barra de Saltes, às oito horas...” Assim começa o diário de viagem mais famoso do mundo, o de Cristóvão Colombo, que registra que na noite de 11 para 12 de outubro, “às duas horas após a meia-noite apareceu a terra...” É claro que não cabe a todos os viajantes fazer descobertas tão sensacionais, mas foram - e ainda são - muitos os que, a cada noite, se empenham em deixar escrito aquilo que foi visto e vivido durante o dia.

O diário de viagem é um gênero antigo e bem definido; foi praticado por navegantes, como Colombo; naturalistas, como José Longinos (Diário das expedições às Califórnias) ou Darwin (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo); peregrinos, como Jacinto Verdaguer (Dietari dún pelegrí a Terra Santa), escritores testemunhas de guerra, como George Sand ou Pedro Antonio de Alarcón, e simples viajantes. Pode tratar-se de um documento puramente pessoal, o equivalente escrito aos antigos desenhos ou às modernas fotografias (que também podem ser incorporadas), ou pode ser algo mais: o embrião de um livro.

Assim, Javier Reverte, seguramente o principal escritor de viagem espanhol, confessa trabalhar em três fases. A primeira consiste em tomar notas em uns “cadernos pequenos, de folhas quadriculadas e de espiral metálica” que leva sempre no bolso. (Os escritores, e ainda mais se forem viajantes, se mostram especialmente maníacos quando se trata de cadernos. Bruce Chatwin chegava ao extremo de comprar os seus exclusivamente em Paris: eram os Moleskine que graças a ele estão tão na moda hoje). À noite, no hotel (ou compartimento de trem, ou camarote, ou barraca de campanha), Reverte passa a limpo as notas dos pequenos cadernos em outros cadernos, estes de tamanho mediano, que “vão sempre na minha mochila, não me separo deles nem para ir ao banheiro”. E, já em Madrid, reelabora o material para convertê-lo em livros como El corazón de Ulises, El rio de la desolación ou a Trilogía de África.

Um método parecido usa Rosa Regás, com a única diferença de que a segunda fase – a de passar as “notas curtas, desconexas, importantes ou não, mas que me chamaram a atenção” a algo mais legível tem como suporte não o papel, senão o computador portátil com o qual sempre viaja. “É então quando deixo correr a imaginação e a lembrança, atiçada pelas notas, se torna mais poderosa e me ajuda a mergulhar de cheio naquilo que estou contando”: a descoberta da Síria (Viaje a la luz del Cham) ou a América Central (Volcanes dormidos, prêmio Grandes Viajeros 2005).

Também José Ovejero (China para hipocondríacos, premio Grandes Viajeros 1998) toma notas, ainda que não seja em diários – “demasiadamente desalinhavadas” – nem servem forçosamente para escrever um relato de viagem, “podem tomar parte de outras narrativas”. A grande época dos diários de viagem é sem dúvida o século XIX. Depois dos conquistadores, colonizadores, missioneiros dos séculos anteriores, vêm agora os cientistas. O mais notável, com certeza, Charles Darwin, que não se atenta apenas às espécies, senão que relata a navegação, as paisagens, os encontros com os indígenas... Este é, por exemplo, o sumário do capítulo sobre a Terra do Fogo: “Baía do Bom Sucesso. – Relato dos fueguinos a bordo. – Entrevista com os selvagens. – Aspecto dos bosques. – Cabo de Hornos. – Condição miserável dos selvagens. – Canibais. – Matricídio. – Sentimentos religiosos. – Grande tempestade. – Construção de cabanas. – Glaciares.” (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo).

Mas o século XIX não é somente o século dos viajantes científicos, senão do início do turismo em seu sentido atual. Com a melhora dos transportes, a viagem se generaliza: deixa de ser um perigo, uma aventura; é relativamente cômodo e seguro, sem com isso deixar de ser pitoresco. A Espanha é um dos destinos mais atrativos. Em 1800, por exemplo, Wilhelm von Humboldt nos visita e anota meticulosamente suas observações sobre as mais variadas facetas da vida do país, desde as finanças até a colombofilia, passando pela situação linguística: “O catalão se fala como língua oficial do país e sem paralelo a não ser com o valenciano em Valencia”, se bem que, “em todas as reuniões sociais as pessoas educadas, ainda que raramente as mulheres, falam castelhano.” (Diário de viaje a España).

Algumas décadas mais tarde, em 1872, outro viajante, o famoso escritor italiano Edmundo de Amicis (o autor de Corazón), retrata assim os camponeses catalães: “Iam vestidos dos pés à cabeça de veludo negro e usavam em volta do pescoço uma espécie de xale com listras brancas e vermelhas, sobre a cabeça um gorro de um vermelho intenso, e umas polainas de couro ajustadas até os joelhos; outros, sapatos de tecido, com a sola de corda, abertos à frente e amarrados ao redor dos pés com faixas negras cruzadas; um vestir, no conjunto, garboso e elegante e, ao mesmo tempo, austero”. (España. Diario de viaje de un turista escritor). E haverá muitos outros viajantes-escritores que anotarão suas impressões sobre o nosso país, como Georges Borrow com La Bíblia en España ou André Gide em seu diário.

A imprensa escrita, fenômeno do século XIX, ajudou a modificar o diário de viagem, criando assim um gênero híbrido, o do diário que à medida em que se escreve se publica em um jornal. Assim, em 1859-1860, o romancista espanhol Pedro Antonio de Alarcón (autor de El sombrero de tres picos) envia à revista El Museo Universal crônicas vivas da guerra entre Espanha e Marrocos; e Jacint Verdaguer acrescenta, a seus ofícios de poeta e sacerdote, o de correspondente para um semanário de Vic, quando em 1886 peregrina à Terra Santa. O texto resultante, Diari d’un pelegrí a Terra Santa, era considerado por Josep Pla o melhor texto em prosa catalã do século XIX. E no século XX? A função de reportagem que o diário cumpriu com tanta eficácia nos séculos XVIII e XIX, mediante a palavra e com freqüência a ilustração (Napoleão, em sua expedição ao Egito, levava ilustradores, e o mesmo faziam alguns viajantes românticos de bom poder aquisitivo), herda a fotografia e logo o cinema. Forçosamente, a viagem se transforma - generalizando-se a idéia de que toda viagem é primordialmente interior – e com ela, o diário, que se torna algo íntimo, tanto ou mais do que a própria viagem: é esse o caso de Gide, com seus périplos pela Bretanha ou Argélia, ou o de Mircea Eliade, autor de Diario íntimo de la Índia.

Já não se aspira tanto a recopilação de informações objetivas como a que Paulina Fariza - editora do selo barcelonês Alba – chama de “subjetividade documentada”. Ainda que o gênero não tenha se dissipado muito em nosso país, existem alguns marcos literários. Tomás Escuder anota, por exemplo, suas impressões de um périplo pelas pequenas ilhas pertencentes à Irlanda (Diario de Aran), Miguel F. Martín nos conta como percorreu 5.000 kms pela África (La ruta del Okavango), Virginia Calvache e Javier Campos narram sua expedição ao Pólo Norte Magnético (Las huellas de Nanuk), Mercedes Rosúa conta seu ano como professora de espanhol em uma cidade no interior da China, na época da República Popular (Diario de China)...

Dois viajantes jovens, o catalão Albert Casals e o alemão Hape Kerkeling foram capazes de retomar o gênero enfrentando cada um deles uma dificuldade particular: o primeiro, viajando em uma cadeira de rodas, e o segundo, dar um novo fôlego a algo tão velho como a peregrinação a Santiago de Compostela, prova de que, com mais de cinco séculos às costas, os diários de viagem nunca morrem.
by Laura Freixas, La Vanguardia

O texto original pode ser acessado através do site La Vanguardia

sábado, 18 de julho de 2009

Fé em Deus e pé na tábua, por Donald Miller

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Há três coisas que você não irá encontrar no relato de viagem de Donald Miller: drugs, sex, and rock’n roll. Faço esse comentário por uma razão que me pareceu óbvia antes da leitura de Fé em Deus e pé na tábua: descobrindo a essência da vida em uma Kombi: o enredo da aventura. Veja se você não concorda comigo: dois jovens na faixa dos vinte anos, duros e desencanados da vida, resolvem atravessar o interior dos Estados Unidos numa Kombi caindo aos pedaços, bem ao estilo Miss Sunshine. Esse, evidentemente, é apenas o pano de fundo da narrativa, mas o que se pode esperar de dois caras viajando por aí num carro velho, mais ou menos sem destino certo? Garotas, muita cerveja, e quem sabe um baseado para fazer a cabeça, certo?


Errado. Nessa história o mote é diferente desse lugar comum típico dos road movies a que estamos acostumados a assistir. Donald, o narrador, é aquele tipo de cara que todo mundo conheceu em algum momento na adolescência: meio gordinho, bom papo, agradável, comum em todos os aspectos. Seu companheiro de viagem, Paul, faz um tipo diferente, estilo surfista bronzeado, bonito, atlético, meio caladão e desapegado de tudo, o que lhe confere um charme peculiar. Em comum, os dois possuem uma característica que de certa forma dá o tom desse relato, que é a busca da simplicidade. E, mais profundamente, o que faz com que se tornem íntimos, é a busca de ambos por um sentido às suas vidas.


Há um leve discurso religioso (cristão) nas divagações de Don, mas quando ocorre é condizente com sua visão da vida, com sua busca, e nunca algo panfletário. A viagem dos dois pelo interior, com paisagens muitas vezes desérticas (o que sempre favorece à introspecção), parece convidar às reflexões dessa ordem. Há passagens muito interessantes, de questionamentos que Don se faz acerca do sentido da vida que eu poderia transcrever aqui, mas a beleza do momento se perderia fora do contexto em que foram escritas. Aliás, essa é uma questão interessante: quantas vezes evitamos contar aos amigos certos episódios de uma viagem porque sabemos que a emoção experimentada só tinha sentido para quem a havia vivido naquele contexto particular? Ao relatá-los, muitas vezes, esses episódios perdem grande parte da graça original, inclusive para quem os viveu.


Mas há uma pequena observação, de cunho generalista, que Don elaborou sobre o conservadorismo norte-americano que merece ser transcrita (seu relato vem carregado de certa crítica à sociedade norte-americana e seus valores). Os rapazes estavam quase chegando a Dallas, “uma grande cidade republicana evangélica”, quando Don se sai com essa: “Quando você constrói uma cidade perto das montanhas e longe do oceano, o que se consegue é materialismo e religião tradicionalista. As pessoas têm tempo demais e inspiração de menos.” Não é preciso lembrar que o antecessor de Barak Obama conseguiu a maioria dos votos da região central do país, sendo rechaçado pelos habitantes das cidades costeiras.


Porém a leitura mais interessante sobre esse relato não se encontra nos questionamentos de conteúdo espiritual de Don, mas sim na relação de amizade que se estabelece entre ele e Paul. O interessante nisso é que, ao conhecer melhor o outro, Don acaba se descobrindo mais e melhor, conseqüência natural das grandes amizades.

“Paul e eu temos histórias parecidas. Ambos crescemos em lares desfeitos; ambos descobrimos a fé ainda moços; ambos temos entusiasmo por arriscar a sorte. Mas ele é mais evoluído em altruísmo, o que sempre considerei uma espécie de brilhantismo emocional. O que quero dizer é que a maioria de nós está sempre preocupada com que os outros estão pensando. Esta preocupação se infiltra em nossas palavras, nossos atos, sonhos e sentimentos, e Paul parece estar acima disso – ou abaixo, não sei. Apenas não é afetado. Ele não se preocupa muito com nada, o que me impressiona como se fosse uma espécie de milagre. (...) Quando uma pessoa está com Paul, é confrontada com a idéia de que a vida pode ser muito mais fácil do que o resto de nós acredita ser, de que a maioria das coisas com a qual nos aborrecemos, que uma conta bancária zerada e roupas fora de moda não dão câncer. E é exatamente isso o que às vezes sinto: que um saldo bancário lá embaixo ou uma posição social inferior me dará câncer.”

Uma das atitudes que chamam a atenção no relato de Don é o total desprendimento com que ele fala de si próprio, sem medo de elencar os defeitos (na opinião dele) de sua personalidade, de sua inabilidade com as coisas, ao mesmo tempo em que potencializa, sem nenhum resquício de rancor, as virtudes alheias. Isso faz com que sintamos por ele uma empatia imediata, e a leitura vai se tornando mais e mais interessante conforme os quilômetros vão passando.


Há outras passagens nessa narrativa que merecem um olhar um pouco mais atento, porque tratam de um tipo de situação recorrente na literatura odepórica, principalmente em relatos cujo contexto tenha alguma relação com a espiritualidade, como por exemplo, nos relatos de peregrinos, embora isso possa acontecer com você em qualquer situação de sua vida, e não exclusivamente no decorrer de uma viagem.


Sabe aquele momento em que você se encontra numa enrascada? Quando perde o passaporte e todo o seu dinheiro? Quando se desespera ao perceber que tomou lá atrás uma trilha errada e não tem a mínima idéia do rumo a seguir? Daí, do nada, aparece alguém que lhe salva, alguém que encontrou sua carteira em cima de um balcão de loja, alguém que o aborda indicando a trilha certa que lhe salvará de um bando de lobos famintos ao cair da tarde... são os sinais, aqueles sinais que parecem dizer que “Alguém lá em cima” olha por você, independentemente de você acreditar ou não nessa hipótese.


Para Donald e Paul, situações desse tipo aconteceram com uma freqüência tal que fez com que parassem para refletir sobre a sincronicidade dos fatos que parecem acontecer com a intenção oculta de afirmarem sua fé em Deus. Alguns dos momentos em que essas situações ocorreram estão relacionados com a Kombi, que teimava em enguiçar nos lugares mais inóspitos mas sempre apareceu alguém disposto a ajudar – pelo simples fato de ajudar alguém necessitado. Estamos falando sobre a bondade, palavra que hoje parece não fazer parte do cotidiano de muitas pessoas.


Que lições, afinal, Don aprendeu nessa breve incursão de três meses ao interior dos Estados Unidos? Muitas, mas sem dúvida a principal delas foi o fortalecimento de sua fé em Deus. Parece um pouco piegas, mas não é. É de fato muito interessante descobrir, na loucura dos dias que correm, que ainda há jovens por aí que se ocupam desse tipo de busca espiritual; acho mesmo que pouco a pouco uma nova geração irá levar isso a sério, digo isso me referindo à questão da espiritualidade, porque há evidências de que uma nova maneira de se relacionar com o sagrado está surgindo nos últimos anos (procure saber sobre as obras e as pesquisas de Paul Heelas, especialmente seu texto, sem tradução para o português, The spiritual revolution).


Para os rapazes, a viagem que fizeram juntos - como eles mesmos concluíram no final da jornada - foi uma peregrinação, por isso mesmo, um rito de passagem.

“Meses atrás, eu teria dito que a vida é uma questão de fazer acontecer, de fazer truques como um cão amestrado, de impressionar as outras pessoas, e meus atos teriam mostrado que isso se consegue comprando bens, mantendo uma boa imagem ou indo à igreja. Já não acredito nisso. Acho que devemos ficar nos desertos e nos maravilhar em ver como o sol se ergue. Acho que devemos amar nossos amigos e apresentar as pessoas a essa história, ao pacífico e sereno porquê da vida. Acho que a vida é espiritualidade.”

Fé em Deus e pé na tábua: descobrindo a essência da vida em uma Kombi. Donald Miller. Trad. de Alexandre Martins Morais. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007. Título original em inglês: Through painted deserts: light, God, and beauty on the open road.

sábado, 11 de julho de 2009

As viagens de Loreena: uma jornada musical

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Todas as viagens, principalmente aquelas que nos levam a visitar uma cultura diferente da nossa, guardam características peculiares que encantam e marcam nossa memória por toda a vida। Podemos facilmente nos esquecer de como era o interior de uma catedral que apenas conseguimos situar na memória de maneira nebulosa, quando muito। Ou de um pequeno e simpático povoado onde paramos para abastecer o carro alugado e tomar um café acompanhado de um doce típico, cujo nome jamais voltaremos a pronunciar, mas que naquele instante nos pareceu o mais saboroso de toda a nossa vida।

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Entretanto, percebo que há duas coisas que fazem com que uma cena específica de uma viagem retorne como que por encanto à memória. Uma delas é o olfato. O cheiro de um pão de queijo assado, misturado com o aroma de um café recém coado pode te levar imediatamente para aquela pousadinha simpática de uma cidadezinha do sul de Minas, ou não? Claro que isso vai depender do seu histórico de vida, de como essa imagem tenha a ver com o contexto de suas lembranças.


Além do olfato, a audição tem um papel fundamental no que tange à memória de uma viagem. A música, a sonoridade da língua, o timbre de um instrumento musical, tudo isso tem muita relevância numa viagem. Tudo isso, de algum modo, nos ajuda a reviver momentos passados, cenas vividas num tempo-espaço que parece congelado em algum ponto de nossa existência.
E o que dizer, então, de uma música que nos transporta a lugares que nunca estivemos, mas que nos parecem estranha e melancolicamente familiares? Alguns artistas conseguem essa proeza. A canadense Loreena Mckennitt é uma delas.


Loreena vem se dedicando há alguns anos a divulgar a musicalidade celta, mas seu trabalho é muito mais rico e complexo do que, por exemplo, o de outra artista muito conhecida, a irlandesa Enya, a quem sempre é comparada. Enquanto esta última parece repetir a mesma fórmula em todos os seus trabalhos, Loreena surpreende seus ouvintes com álbuns de uma riqueza sonora admirável. Grande parte do potencial criativo dessa artista canadense provém do contato que ela e sua equipe mantêm com outras culturas; seus álbuns não trazem apenas a melodia do imaginário celta irlandês, mas apresentam também a musicalidade árabe, marroquina, ibérica, numa mistura que surpreende o ouvinte desde o primeiro acorde.


As viagens têm um papel fundamental no trabalho de Loreena. Nos encartes dos álbuns ou em textos publicados em seu site, journey é uma palavra recorrente. De fato, a audição de sua música pode servir como pano de fundo de uma jornada pelo imaginário celta, e essa fuga momentânea da realidade faz muito bem à alma.


Mas o que nos levou a escrever sobre Loreena Mckennitt foi o papel da viagem em sua obra e nada melhor do que irmos direto à fonte para sabermos como as viagens influenciaram seu trabalho. Os pequenos textos abaixo, fragmentos dos diários de suas viagens, foram retirados do encarte de alguns discos e do website da artista, cujo conteúdo pode ser acessado através do link http://www.quinlanroad.com/

Notas de viagem de Loreena Mckennitt

“O meu olhar vagueou através da janela aberta sobre a Espanha do século XV, através dos tons do Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, e foi atraído para um mundo fascinante de história, religião, fertilização inter-cultural... Desde o território mais familiar da costa Oeste da Irlanda, através dos trovadores em França, atravessando os Pirineus em direção a Oeste através da Galiza, descendo através da Andaluzia, para além de Gibraltar e Marrocos... As Cruzadas, a peregrinação a Santiago de Compostela, os Cátaros, os Templários, os sufistas do Egito, as Mil e Uma Noites na Arábia, as imagens sagradas Celtas de árvores, o Evangelho Gnóstico... quem foi Deus? O que é a Religião e o que é o espiritualismo? O que foi revelado e mantido em segredo?”

“Granada, Espanha... ao anoitecer... as luzes da cidade envolvem o corpo de Alhambra; nas ruas estreitas pairam os odores de lenha queimada e comida. Passeei pela área Muçulmana da cidade; comprei um pequeno espelho de ouro, um vaso para queimar incenso e um pequeno frasco de perfume... Continuo a ler o livro de Idries Shah intitulado “Os Sufistas”, cujo prefácio é de Robert Graves... sendo uma tradição secreta por detrás de todos os sistemas religiosos e filosóficos, os Sufistas influenciaram significativamente o Oriente e o Ocidente.”


“Outubro de 1990. Annaghmakerrig, Irlanda... tenho tentado criar composições e a configuração para o (álbum) The Visit. Trouxe comigo vários livros de letras de música, poemas e outras influências: a tapeçaria de unicórnio, o ramo de ouro. Converti em música algumas letras tradicionais; estou sendo atraída pelo som da harpa e a essência de uma fábula onde uma menina, afogada pela sua irmã ciumenta, reencarna primeiro como um cisne e depois é transformada em uma harpa... a região campestre da municipalidade de Monaghan seria um local ideal para uma interpretação visual, com os seus lagos, florestas e campo ondulado.”

“16 de março de 1993. Cheguei esta noite em Marrakesh e estou hospedada numa esquina próxima ao mercado. Deu-se início ao Ramadã e há muita atividade por toda parte. Estou chocada com as feições fisionômicas dos homens sendo cobertas conforme eles passam pelas claridades e escuridões: eles se parecem com monges. Cavalos, carruagens, carros, bicicletas e milhares de pessoas estão envolvidos na confusão das atividades noturnas, uns sons desafinados... Eu me retiro para o telhado de um café para olhar atentamente enquanto bebo meu chá de hortelã... Muitos círculos de vinte ou mais pessoas estão espalhadas por toda parte do mercado, cada um envolvido em seu próprio drama de música, contos de histórias, macacos nos ombros de homens, ou cobras sendo bajuladas para “dançar” nos tapetes; preparações “mágicas” de ossos, sementes, pedras e temperos sendo vendidas... As mulheres estão cobertas razoavelmente... Estou impressionada pelo sentido de intriga que o ambiente cria, tanto quanto é escondido como é revelado...”

“Ao lançar a rede de inspiração como artistas, ficamos familiarizados com a humildade que advém da constatação de que os nossos melhores planos resultaram em algo não pretendido ou de que os nossos registros se tornaram em algo diferente do esperado. Assim, partimos para Roma... e acabamos em Istambul. Partimos para o Japão... e acabamos num trem atravessando a Sibéria. A viagem, e não o destino, torna-se uma fonte de fascínio.”

“Afinal, pergunto-me se uma das mais importantes fases da nossa viagem não será aquela na qual jogamos fora o mapa. Ao nos vermos livres dos grilhões criados pelas nossas idéias preconcebidas talvez estejamos em melhor posição para revelar os verdadeiros segredos de cada local, para recordar que somos todos extensões de nossa história coletiva.”

“Outubro de 1996, Casa de Cecil Sharpe, Londres: Ao estudar a música do Oriente Médio, deparei com estas palavras provenientes de um filósofo do séc. IX, Abu Sulaiman al-Davani: ‘A música e o canto não criam no coração aquilo que não se encontra lá. ’ Outros contemporâneos de uma data mais recente sugeriram: ‘Aqueles que são afetados pela música podem ser divididos em duas categorias: aqueles que ouvem o significado espiritual e aqueles que ouvem os sons materiais. Existem resultados bons e maus em ambos os casos. ’”.

“18 de dezembro, 1995, Caminho de Ferro Trans-Siberiano. É o quinto dia da minha viagem de trem através da Sibéria. Viajando sozinha, é estranho não ser capaz de conversar com alguém mas aprendemos assim o quanto pode ser transmitido através das nossas ações, linguagem corporal, um olhar... vi alguns homens na estação hoje e um deles parecia-se mesmo com o meu pai. Tinha cabelo ruivo e uma cara muito celta que eu esperaria encontrar apenas na Irlanda e não na Rússia...”

“Placas de sinalização para Roma, um desvio para Munique, um engarrafamento a caminho de Hamburgo, um posto de gasolina na auto-estrada nos arredores de Barcelona, Páscoa em Bruxelas, ônibus e caminhões que viajam durante a noite. Vôos para Montreal, Nova Iorque ou Los Angeles, as luzes dos aeroportos, auto-estradas e estradas... a mistura exótica e eclética de experiências, desde o sublime ao ridículo, desde o tocante ao irritante, desde o rejuvenescedor ao cansativo, a nossa motivação para viajar está constantemente sendo posta à prova e reexaminada de diferentes perspectivas.”

“O meu primeiro ponto de partida nessa jornada de descoberta foi a minha investigação sobre o povo celta e suas histórias, e inclusive sobre os muitos caminhos que começaram deles, tanto historicamente quanto geograficamente. É com uma visão nessa história que este documento musical desenvolveu-se, com reflexões em temas humanitários universais sobre a vida e o amor, a conquista e a morte; sobre o lar, a identidade, as migrações dos povos e a evolução das culturas. Eu acredito que os nossos caminhos podem ser diferentes, mas as nossas buscas são compartilhadas: o nosso desejo de amar e ser amado, a nossa sede pela liberdade e a nossa necessidade de ser apreciado como indivíduos exclusivos dentro da nossa sociedade coletiva.”

“As minhas viagens em preparo para esta gravação me conduziram à hospitalidade e ao conhecimento das pessoas de vários locais, incluindo uma família nômade no interior de Mongólia e o povo uighur no noroeste da China onde se acredita que os predecessores dos celtas tenham sido encontrados. Eu visitei as grandes planícies no interior da Anatólia e Éfeso na Turquia; andei entre as flores inebriantes das laranjeiras na ilha grega de Chios; e na Jordânia, escutei os ecos das vozes circassianas e vi as rochas da antiga cidade de Petra. Conforme fico pensando sobre todos os séculos de história que nos permitem extrair lições de antigas vozes, acabo ficando convencida que somos uma culminação das nossas histórias coletivas. Eu acredito que deveria ter algo mais que nos unisse ao invés de nos afastar. Além disso, eu continuo esperançosa que conforme buscamos uma diversidade harmoniosa e integrada, seremos instruídos por convicções coletivas que são, em sua essência, afirmações sobre a vida.”

“Mansão Perleas, Chios, Grécia, 23 de abril de 2005. É o aroma das flores de laranjeiras que me faz pensar no passado, de todos aqueles séculos de primaveras e a nova vida despertando. Na distância, os pássaros, os galos, as crianças brincando e os cachorros latindo contribuem com as suas presenças para uma história sem fim. Como eu não havia estudado literatura clássica anteriormente, um dos objetivos que eu designei para mim mesma nessa viagem é de compensar por este fato. A minha busca é para compreender a identidade e o conceito do lar. Em um mundo que agora é tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, a nossa percepção dessas palavras tem sido comprometida e precisamos redefini-la.”

“Enquanto escuto um livro-áudio sobre a Odisséia de Homero, eu fico pensando sobre as jornadas que muitas pessoas fizeram em tempos antigos. As jornadas eram difíceis, muitas vezes longas e a perspectiva de nunca retornar sempre foi uma possibilidade. De fato, essas não são simplesmente experiências antigas, mas também contemporâneas. E quando pensamos em termos de jornadas, não escutamos somente as vozes daqueles que partem – para lutar nas guerras, para fugir da perseguição, ou simplesmente indo à busca de uma vida melhor – mas também as vozes daqueles que ficam para trás.”

“A minha esperança é de que este trabalho possa estimular a curiosidade do mesmo modo que os melhores livros de viagens. As melhores recordações de todas as viagens, sejam elas imaginárias ou reais, são aquelas que nos recordam que as vidas das pessoas são fortalecidas pela família e amigos, pelas nossas tentativas de criar a vida de alguém como se cria uma obra de arte e os nossos esforços para conciliar as nossas necessidades materiais com a importância das nossas relações com os outros.”

É isso. Se você ainda não conhece o trabalho de Loreena Mckennitt, no site acima indicado há links para vídeos e informações detalhadas sobre cada um de seus álbuns. Se ficou inspirado para comprar ou presentear alguém, indico três títulos irretocáveis em minha opinião: The Visit, The mask and the mirror, e The book of secrets. Boa viagem!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os funerais de "anjinho" na literatura de viagem, por Luiz Lima Vailati

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Está disponível no site da Revista Brasileira de História, vol.22 no.44, 2002, um excelente artigo acadêmico escrito pelo historiador Luiz Lima Vailati intitulado Os funerais de “anjinho” na literatura de viagem que merece nossa atenção por dois motivos principais: primeiro, porque o autor enfatiza a importância das narrativas de viagem que, “quando submetidas a um crivo criterioso, têm se revelado fontes fundamentais para o desenvolvimento de temas como a família, as relações de gênero, a alimentação, as práticas religiosas, as formas de convívio e sociabilidade, dentre outras.” O segundo motivo é a maneira como o autor se valeu das narrativas dos viajantes do século XIX para estudar o cotidiano do Brasil dos oitocentos, em particular, como o próprio título entrega, o tema da morte das crianças e os rituais que se seguiam em torno dessa ocasião.


Embora seja um texto acadêmico, a leitura do artigo de Lima Vailati não assusta o leitor pouco habituado a esse tipo de produção. Pelo contrário, torna-se mesmo difícil abandonar a leitura das vinte páginas, repletas de informações que tratam basicamente do olhar estrangeiro sobre a nossa cultura e os nossos costumes. A morte, não se pode negar, é um tema que chama a atenção de qualquer pessoa, e ainda que estejamos à mercê de uma mídia que explora essa temática de maneira intensa e desavergonhada, vendendo-a como um produto vulgar, ainda assim estamos diante de um tabu, o que talvez ajude a explicar o fascínio/terror que desperta entre os seres humanos.


Há várias passagens interessantíssimas sobre como eram os ritos funerários infantis, verdadeiros espetáculos que se distinguiam dos cerimoniais fúnebres dos adultos, e que causavam perplexidade nos viajantes estrangeiros que aqui se encontravam de passagem. Iremos transcrever dois pequenos excertos desse texto apenas para que você, leitor, se sinta impelido a ler o artigo completo cujo link aparece no final dessa postagem.

O "ANJINHO"


Afora essas impressões mais gerais, o que os viajantes nos informam, de fato, dos funerais infantis? Apesar do grande número de viajantes que se interessaram em registrar suas experiências dos enterros de "anjinho" no Brasil, não temos nenhum que tenha feito uma descrição completa com todos os eventos que se seguiam à morte de uma criança. É possível afirmar que, de modo geral, estes relatos se concentram em dois momentos particulares do cerimonial fúnebre de criança: um deles, que diz respeito à forma como se apresentava o cadáver à visitação, nos informando sobre como o corpo era preparado e sobre o aparato material que o acompanhava; o outro é a procissão fúnebre, sendo que vez por outra fazem descrições sobre os lugares e formas de enterramento e alguns cuidados pós-sepultamento.


Sobre o "anjinho", os visitantes estrangeiros se mostraram favoravelmente surpresos pelo esmero em que esses pequenos defuntos eram arrumados e expostos. "Prazerosamente", "ricamente" são os termos por meio dos quais homens como John Lucccock, já no começo do período estudado, e mais tarde Daniel Kidder, lançam mão para descrever a maneira pela qual eram preparadas as crianças. Nesse fato se encontra, dentro do conjunto das práticas fúnebres, a primeira manifestação de que às crianças mortas não se votava qualquer tipo de menosprezo. Diferentemente do que hoje isso nos possa parecer, essa dimensão do gestual funerário está bem longe de ter uma importância secundária, restrita ao plano estético, conforme parece ter sido interpretada por esses estrangeiros. Tendo origem em tempos nos quais a crença na separação entre corpo e alma após a morte não era algo bem definido, a idéia de que a forma como se era enterrado e também como se entraria no além resistiu por muito tempo aqui. Assumindo uma dimensão de insondável importância, devia-se cuidar do aspecto pelo qual o corpo se ia apresentar no reino dos mortos, e disso dependia mesmo a direção que a alma irremediavelmente tomaria na geografia do outro mundo. De tal modo a escolha da última roupa interferia nos destinos da alma, que todo aquele que testava procurava informar em detalhe como queria estar vestido nessa ocasião.


Residindo no Brasil em meados da década de 1840, Thomas Ewbank mostrou-se particularmente interessado por esse aspecto do cerimonial fúnebre no Brasil. No caso das crianças, ele nos informa que em alguns casos as crianças eram vestidas como santos:
As crianças com menos de 10 e 11 anos são vestidas de frades, freiras, santos e anjos. Quando se veste de São João o cadáver de um menino, coloca-se uma pena em uma das mãos e um livro na outra. Quando é enterrado como São José, um bordão coroado de flores toma o lugar da pena, pois José tinha um cajado que florescia com o de Araão. A criança que tem o mesmo nome que São Francisco ou Santo Antônio usa geralmente como mortalha um hábito de monge e capuz. Para os maiores, São Miguel Arcanjo é o modelo. Veste-se então o pequeno cadáver com uma túnica, uma saia curta presa por um cinto, um capacete dourado (de papelão dourado) e apertadas botas vermelhas, com a mão direita apoiada sobre o punho de uma espada. As meninas representam "madonas" e outras figuras populares
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O CORTEJO FÚNEBRE

(...) Durante grande parte do século XIX brasileiro, rezava o costume de realizar o translado do corpo à igreja para ali ser enterrado (hábito que, por dois séculos, será debaldadamente combatido pelas autoridades eclesiásticas e médicas, até que fosse definitivamente abandonado) à noite
. Ora, segundo experiência também compartilhada por outros viajantes, o francês Arago, vagando pelas ruas da Corte, foi surpreendido, ao dobrar uma esquina, com um cortejo fúnebre "en plein jour": tratava-se de um pequeno defunto com destino ao cemitério. Com efeito, esse diferença não passou despercebida a Kidder que, ao enumerá-las, lhe ocorreu mencionar, em primeiro lugar, a questão do período do dia em que essas cerimônias aconteciam. Estamos novamente diante de uma prática que relaciona a morte da criança a um acontecimento cujo sucesso já se conhece de antemão. As cerimônias de um adulto eram noturnas, com tudo aquilo que a noite encerra de mistérios e perigos, em bastante conformidade com o que se acreditava serem os primeiros momentos que presidiam a passagem para o além. O dia, por sua vez, é o lugar do cotidiano, daquilo que é familiar. Se o defunto adulto realizava sua última viagem nas trevas, como referência ao seu decisivo e desafiador trajeto para o outro mundo, onde até os mais pios poderiam se perder, para a criança morta esse transportar-se não comportava risco ou surpresa. As procissões diurnas eram índice de que se dava por garantido sua salvação.

Interessante, não? A matéria completa pode ser acessada no seguinte endereço eletrônico:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000200006&lng=en&nrm=iso

domingo, 5 de julho de 2009

Viagem ao Oriente, por Hermann Hesse

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Viagem ao Oriente não é o tipo de livro que vai agradar a qualquer leitor, nem mesmo àquele que se apaixonou por Sidarta, uma das mais belas obras de Hermann Hesse, merecedora de várias e várias releituras. Entretanto, para quem não sofre de preconceito contra aquilo que podemos chamar despretensiosamente de romance místico, sugerimos dar uma chance a Hesse porque seu relato de viagem é... uma viagem, boa em todos os sentidos. Mas antes, uma dica: programe-se para ler o texto de uma sentada, assim, sem interrupções, numa tarde de domingo. Faça dessa leitura um exercício de meditação, que tal? Se você for um leitor pouco distraído, não levará mais do que duas horas para terminar as cem páginas desse pequenino romance.

O romance é narrado em primeira pessoa por um músico chamado H.H., membro da Confraria, uma espécie de liga secreta formada por artistas, filósofos, escritores, poetas, entre outros, que se dedicam a participar de uma jornada sem um destino certo, numa espécie de peregrinação rumo ao Oriente. H.H. inicia a viagem com um grupo de membros da Confraria, cada qual com seu objetivo. Aliás, ter um objetivo pessoal para empreender a jornada, afirma o narrador, é uma das obrigatoriedades de cada membro. Aqui já encontramos a primeira das muitas chaves de leitura desse relato: não se faz a viagem sem um objetivo pré-determinado. Isso tem muito sentido se formos pensar na viagem como uma oportunidade de busca pessoal, e nesse ponto já temos em mãos uma segunda chave de leitura: a viagem ao Oriente é uma viagem simbólica, portanto uma viagem interior.

O objetivo de H.H em sua jornada era o de encontrar uma bela princesa chamada Fátima, e se possível conquistar o seu amor. Um outro buscaria um tesouro, por ele denominado “Tao”, e outro, ainda, desejava capturar uma serpente chamada Kundalini, à qual atribuía poderes mágicos. Qualquer um que já tenha estudado ou lido um pouco sobre a espiritualidade oriental consegue decifrar a linguagem simbólica desses objetivos. Os membros, para serem admitidos na Confraria deveriam persistir na fé, ter coragem frente ao perigo, e amar os semelhantes.

Quem já passou por algum tipo de experiência mística, ou pelo menos viveu algo que se assemelhe a isso, sabe como é difícil relatar a alguém aquilo que palavra alguma consegue captar com a mesma intensidade da experiência vivida. Trata-se do inefável, e numa passagem, logo no começo do relato, lemos um pensamento que H.H. atribui a Sidarta:

“As palavras não conseguem expressar os pensamentos com precisão; de imediato as coisas se tornam distorcidas, tolas. E mesmo assim agradam-me, e julgo que seja certo, que aquilo que para um homem parece válido e sábio, para outro caracteriza o absurdo.”

A seguir, H.H. cita uma estrofe expressa por um dos membros da Confraria que também discute essa questão:

“Quem empreender longínquas jornadas verá muitas coisas
Distantes daquilo que considera a Verdade.
E ao relatá-las, chegando a casa,
Será muitas vezes desacreditado,
Pois os empedernidos não acreditarão
Naquilo que não vêem ou sentem distintamente...”

Assim que H.H. é aceito como membro da Confraria, inicia uma peregrinação junto a um pequeno grupo, com direção ao Oriente. Diz que às vezes caminhava em pequenos grupos, às vezes sozinho, outras em multidão, com membros das mais diversas partes. Em alguns momentos, confessa, sente dificuldade em narrar os fatos porque “[...] não vagávamos somente através do espaço, mas também do tempo. Nosso destino era o Oriente, mas também viajávamos para a Idade Média e para a Idade do Ouro; percorríamos a Itália ou a Suíça, mas muitas vezes passávamos a noite no século X, em companhia dos patriarcas ou duendes.” E a terceira (e principal) chave de leitura vem a seguir: “[...] Pois nosso objetivo não era unicamente o Oriente, ou melhor, o Oriente não era apenas um país ou um fato geográfico, era também o lar e a juventude da alma, estava em toda parte e em parte nenhuma, era o conjunto de todas as eras.”.

O relato vai beirando ao fantástico, as descrições daquilo que H.H. observa conforme a peregrinação avança nos faz lembrar de uma viagem alucinógena, como se o observador tivesse experimentado algum tipo de erva ritualística, mas não se trata disso, nem desse tipo de viagem, porque quem relata a experiência demonstra ter um total controle psíquico daquilo que está vivendo. Um pequeno excerto, para apreciar:

“Jamais esquecerei o brilho mortiço da cauda dos pavões sob o luar, surgindo entre as árvores altaneiras, nem as sereias que emergiam cintilantes, com o corpo prateado, nas margens sombrias, por entre as rochas. Dom Quixote, de pé sob a castanheira ao lado da fonte, em sua primeira vigília noturna, enquanto as derradeiras velas romanas do espetáculo pirotécnico caíam suavemente sob as torres do castelo, e meu companheiro Pablo, ornado de rosas, tocava o órgão persa para as donzelas.”

Em determinado momento, ficamos sabendo que com o grupo da Confraria seguia um criado, por todos estimado, chamado Leo. Sábio, fiel, amável, de belo rosto, sua aparição no relato por um momento nos remete ao anjo de Pasolini. No segundo capítulo, quando o grupo chega ao desfiladeiro de Morbio Inferior, num dia qualquer do mês de outubro, descobre que Leo os abandonara. A partir desse fato a história ganha uma outra dimensão; H.H. desiste da viagem, tornando-se um desertor, e seu desejo a partir de então será o de elaborar a descrição da jornada por ele vivida junto à Confraria, “visando salvar sua vida, dando-lhe novamente sentido”, atitude que terá uma conseqüência profunda no desenrolar dessa história. Já não podemos prosseguir com a análise da obra, porque o que se seguirá daqui em diante é a alma de todo o relato, a surpresa que aguarda o leitor até o último momento dessa jornada fascinante.

Viagem ao Oriente trata da busca espiritual, sem dúvida, mas também pode ser decifrado através de uma leitura psicanalítica junguiana (com a qual Hesse foi muito familiarizado), quando aquilo que H.H. vivencia, sofre, questiona, alude ao processo de individuação, ao encontro com o Self. Mas isso é apenas parte de uma leitura pessoal, e pode nem mesmo ter muito sentido para aqueles que não se interessam por essa temática. Porém, nada disso importa, porque temos convicção de que cada um sairá dessa leitura tocado de alguma maneira muito especial. Experimente.

Nosso exemplar de Viagem ao Oriente, de Hermann Hesse, foi garimpado num sebo por um preço bem baixinho. É uma segunda edição, de 1971, publicado pela Editora Civilização Brasileira.