quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Índia, o comedor de excrementos, e o olhar do viajante

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Há poucos anos fiz uma resenha para um periódico acadêmico de um livro excepcional, ainda que introdutório, intitulado O que é Ciência da Religião, de autoria de Hans-Jürgen Greschat, professor de História da Religião da conceituada Universidade de Marburgo, na Alemanha. Muitas coisas me encantaram nessa obra, como a maneira simples e direta do autor, sua paixão declarada pelo que faz, a didática objetiva e inspiradora para quem o lê, e os estudos de casos e situações escolhidos para ilustrar algumas passagens.

Outro dia, ao fazer uma arrumação em minha biblioteca, voltei a folhear as páginas desse estudo, lendo aleatoriamente as marcações coloridas que usei para destacar as passagens mais interessantes. Uma delas me chamou a atenção em especial, porque o que nela está escrito é uma das coisas mais fantásticas que já li sobre um ritual hindu.

Tenho um interesse especial pela Índia no tocante à sua espiritualidade, à sua arte e sua culinária, tendo inclusive visitado o país no ano de 1997, numa breve viagem de três semanas; não faço parte da turma que volta de lá deslumbrada, afirmando que a vida mudou depois de tudo o que viu, da espiritualidade tocante do povo, toda aquela conversa que você já deve ter ouvido alguém relatar em algum programa de televisão. Muitas dessas pessoas ficam encantadas com uma Índia que não existe de fato: chegam ao país e vão direto do aeroporto ao “Ashram”, que na verdade é um spa/hotel que oferece tudo o que a Índia tem de melhor: aulas de yoga (com professores americanos ou europeus), culinária vegetariana (com preços de culinária francesa), massagem ayurvédica, equilíbrio dos chacras e outras tantas novidades que você fica fascinado e morrendo de vontade de experimentar. Tudo bem, e por que não? Para quem pode pagar, deve ser um ótimo investimento, ainda que você possa usufruir de tudo isso, talvez até mais prazerosamente, sem a necessidade de voar tantas milhas. Procure na internet, e procure, de preferência, na região da Califórnia, pois boa parte dessa “Índia nova era” se encontra por lá, incluindo os gurus “indianos da Índia”.

Por isso eu desconfio desses relatos emocionados de quem viaja à Índia e volta transformado com aquilo que viu. Simplesmente porque este é um país que pede tempo para se acostumar a ele, tamanha a diferença cultural entre a nossa cultura ocidental e a deles. Em Rishikesh conheci um monge budista mexicano que não se surpreendeu quando lhe disse que não estava gostando tanto de minha viagem quanto esperava gostar, não pela miséria e pelas dificuldades impostas pela estrada (sempre de praxe nessas aventuras), mas pelo povo de um modo geral, muito diferente da imagem pré-concebida que eu tinha em mente, de um indiano humilde e espiritualizado... ele me disse, Miguel era seu nome, que o meu erro foi o de começar a julgar um povo sem nem mesmo conhecê-lo e que se continuasse agindo assim, jamais iria conseguir conhecer a Índia, entender a Índia, e sobretudo amar a Índia. Eu mesmo, disse-me ele, só fui começar a gostar do país depois de havê-lo visitado quatro vezes, nunca menos do que seis meses em cada estadia.

A partir desse encontro, infelizmente já nos meus últimos dias de passagem pelo país, tratei de mudar o meu campo de visão, deixando o turista para trás e trazendo à tona o viajante que em mim se encontrava adormecido. A passagem que vou transcrever a seguir tem muito a ver com a experiência que vivi naquela viagem que fiz ao subcontinente indiano. O autor dirige-se aos cientistas da religião (que é o meu caso hoje) afirmando que o pesquisador (isso pode se estender a um viajante) tem que ser receptivo às impressões de vida religiosa alheia (que pode ser estendida às impressões de um modo geral). “Um cientista da religião”, escreve Greschat, “quando exerce sua profissão, deve colocar um parênteses em sua fé pessoal, uma vez que, se ela sobressaísse, poderia distorcer o objeto pesquisado”. E continua:

“Tal distorção aparece quando o pesquisador, em vez de olhar e ouvir com a mente aberta – parte para avaliações espontâneas e descontroladas, feitas com a cabeça repleta de comparações. A recepção de algo desconhecido gasta toda a nossa energia. Enquanto passamos por esse processo, deveríamos suspender nossos julgamentos”.

Isso foi escrito para um público acadêmico, mas sem sombra de dúvida serve como ferramenta de viagem para qualquer pessoa disposta a aproveitar ao máximo um país ou uma cultura diferente da sua. Se você puxar pela memória provavelmente irá se lembrar de alguma viagem em que instintivamente agiu dessa forma, deixando-se levar pela situação, pelo momento, sem julgamentos, em um episódio que o marcou em especial, e que você só se deu conta da importância que teria em sua vida algum tempo depois.

Na passagem que você irá ler a seguir, há um exemplo de como não podemos julgar uma atitude sem conhecer seus fundamentos, e muito menos generalizar um fato estendendo-o a toda uma cultura. É como se um estrangeiro viesse ao Brasil, ficasse duas semanas em Salvador e voltasse à sua terra afirmando que os brasileiros são em sua maioria negros de origem africana e que a religião dominante no país é o candomblé. Não seria de fato uma mentira completa, mas também está muito distante da realidade do que é o Brasil. Esse caso foi relatado na obra de um teólogo chamado Klaus Klostermaier que lecionou filosofia na Universidade Vaishnava em Vrindaban, na Índia.

“Vi um jovem nu que estava deitado, com a cabeça para baixo, em uma calha de esgoto. Começou, com a mão em forma de concha, a jogar os dejetos do esgoto sobre si: um ato ritual a que ele se sentira obrigado. Logo depois chegaram os bhangis, ou seja, os lixeiros, membros de uma casta impura. Alguns removiam os excrementos que se acumularam durante a noite varrendo-os com uma vassoura para as canaletas, outros, que carregavam peles de cabra com água, enxaguavam o chão para que as fezes fossem transportadas para o rio. Uma massa consistente, preta, corria pela calha. O jovem encheu sua mão com ela e colocou-a sobre a cabeça. O sumo espesso espalhou-se lentamente e, enquanto escorria, deslizou sobre seu rosto. A seguir, o homem apanhou mais uma porção, levou-a à boca e engoliu com dificuldade. Todavia, o estômago rebelou-se e ele teve de vomitar. Encheu a mão mais uma vez, vergado pelo enjôo. A partir daí o estômago acostumou-se, e o homem devorou uma porção atrás da outra daquela porcaria opaca, preta, malcheirosa.”

“O homem jovem”, explica Hans-Jürgen Greschat, “era um daqueles hindus que acreditam literalmente na doutrina de que tudo é brahman, ou seja, que deus está presente em tudo, tanto no pão quanto nos excrementos. São devotos do deus Shiva que moram nos crematórios e que, às vezes, se alimentam de cadáveres. Enquanto eles existirem, farão parte do hinduísmo.”.

Parece inacreditável, mas essas coisas acontecem, e quantas outras atividades estranhas não devem ocorrer em outras partes do planeta, as quais sequer poderíamos imaginar existirem, como o caso relatado acima? Um viajante desatento, muito provavelmente, ao testemunhar um fato como esse que acabamos de ler é capaz de voltar para casa afirmando, categoricamente, que na Índia as pessoas comem fezes e bebem água de fossa. Com o tempo, se mais e mais pessoas repetirem essa história, será difícil mudar o imaginário popular, e o que era um fato isolado, acaba tornando-se o costume de toda uma população.
Um exemplo prático de como funciona o imaginário: qual é a idéia que se faz da mulher brasileira no exterior? Nem é preciso responder, e posso garantir que conheço algumas que já sentiram na pele as conseqüências dessa visão estigmatizada, preconceituosa e deturpada. Portanto, um bom viajante deve saber como educar o seu olhar e, principalmente, ter em mente que uma viagem, por mais intensa que tenha sido, não lhe dá crédito para tirar conclusões generalizadas sobre qualquer cultura diferente da sua. Esse tipo de atitude é muito comum na literatura odepórica, quando, no calor das emoções, o viajante narra suas impressões sobre um determinado local ou acontecimento e julga toda uma cultura a partir de um fato isolado. O resultado disso nós ouvimos o tempo todo: os franceses são antipáticos, os argentinos idem, os americanos ignorantes, os japoneses falsos, os mineiros desconfiados, os baianos preguiçosos, os cariocas malandros, os europeus nórdicos frios, os latinos “calientes” e a lista não termina nunca. Claro que existem características próprias inerentes a cada cultura, mas isso não significa que estas devam ser entendidas (e tratadas) como um estigma, uma marca indelével. Para refletir.

O livro que me inspirou a escrever esse post foi “O que é Ciência da Religião”, Hans-Jürgen Greschat, Ed. Paulinas, São Paulo, 2005. Altamente recomendado para quem estuda ou apenas se interessa por religião e pesquisas relacionadas a essa área.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A arte de passear, by Karl Schelle

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Acabo de ler uma pequenina obra intitulada A arte de passear escrita pelo filósofo alemão Karl Gottlob Schelle no ano de 1802. Trata-se de um estudo, como o próprio título indica, sobre a arte de passear, num tempo (final do século XVIII) em que o passeio era um sinal distintivo de certas camadas (abastadas) da sociedade, como podemos assistir em vários filmes hollywoodianos que abarcam o período, com as mulheres cheias de rendas e vestidos ajustados, luvas brancas e sombrinhas rococós, ao lado de cavalheiros de cartola e sapatos lustrosos, tudo nos parecendo tão inadequado para o local em que estavam, um campo com o mato na altura dos joelhos, a beira de um regato barrento....como conseguiam?

Enfim, o que Schelle fez com muita classe foi dar a essa atividade, aparentemente tão banal, um status à altura de sua possibilidade de permitir que o passeante (termo meu, não dele) consiga, influenciado pela natureza que o circunda, filosofar sobre a vida. Particularmente, sem querer menosprezar o trabalho do alemão, acredito que não é preciso ser filósofo para saber que uma boa caminhada é um santo remédio para ajudar a por os pensamentos em ordem, a cabeça no lugar, arejar a cuca, essas coisas todas. E se a gente puder tirar uma soneca depois, melhor ainda.

Mas o bacana do estilo de Schelle é a maneira como ele consegue escrever sobre um assunto ordinário, como por exemplo, caminhar numa alameda, ou num pasto, ou num bambuzal, qualquer sítio, e fazer disso um acontecimento com uma aura de complexidade que afugenta qualquer leitor que ache a filosofia um porre. Para ser sincero, eu não tenho muita paciência com textos que me obrigam a ler uma mesma passagem duas ou três vezes, mas sei que isso é uma questão de treino, de se acostumar também com o estilo e o raciocínio do autor. Por isso, dei uma chance ao Schelle (fiquei íntimo dele agora) e não é que me diverti muito com sua leitura? Vai ver que é porque ele faz parte do que chamam de filosofia popular, como leio agora no prefácio (que ganhou o genial título de “Passeios pelos campos da utopia”), que explica que o objetivo dessa filosofia era o de reconciliar-se com o cotidiano, apartando-se do meio acadêmico. Mais sobre a filosofia popular: “A história da filosofia popular remonta na verdade a meados do século XVIII (...) Tratava-se de listar as diferentes disposições e qualidades humanas, de desenvolvê-las e conduzir o espírito humano a nelas aplicar sua reflexão. Não foi por acaso que também nessa época começou-se a ter interesse pela antropologia e pela etnografia e foram publicados numerosos relatos de viagens, alguns dos quais são citados nas notas de Schelle.”

O mérito de Schelle, insinua claramente o autor desse prefácio, foi o de ter sido o primeiro filósofo a teorizar a atividade do passeio. E eu gostei dele mais ainda depois de saber disso, porque estou convicto de que um passeio – que eu também estendo às viagens de um modo geral – são atividades que merecem muito esse olhar mais atento, que me parece acontecer, quase sempre, apenas dentro do contexto capitalista da situação; o mercado das viagens gera grandes riquezas e dividendos, e isso é bom, mas também é importante para nós compreender os outros benefícios do deslocamento, que vão muito mais além do que a simples noção do bem estar físico e mental. Um passeio, uma viagem, até mesmo uma volta no quarteirão da casa em que você vive, quando feitos com a mente aberta, receptiva, podem transformar a vida não só da pessoa que deambula, mas também das que lhe são próximas. Evidentemente isso vai depender dos propósitos, do momento, da capacidade mental, do amadurecimento psicológico, do que Schelle chama de “ocupação do espírito” e de muitos outros fatores. E por aqui paro porque não sou filósofo e nem pretendo filosofar.

Tive, como é de praxe aqui no Odepórica, que escolher uma passagem interessante da obra retratada. Só para situar você que está lendo esse texto, o autor discorre sobre os mais variados tipos de passeios: nas alamedas, em jardins, montanhas, vales, campo, pradaria e floresta e outras situações (passeios a pé, a cavalo, de coche, os fenômenos da natureza, etc.). Escolhi a passagem em que Schelle divaga sobre o passeio pelas montanhas (porque minha irmã que vive próximo às montanhas no Canadá irá gostar), mas qualquer outra segue o mesmo estilo descritivo. Dê uma chance ao alemão e veja como o produto de sua escrita é na verdade um exercício filosófico de difícil execução. Para mim, as reflexões filosóficas de Schelle se aproximam muito de um processo meditativo, uma espécie de meditação em movimento, onde cada passo, cada parada para retomar o fôlego, vêm acompanhados de pequenos momentos de realização interior, que podem ganhar, dependendo do sucesso da empreitada, uma dimensão bem maior do que aquela imaginada antes do início da jornada.

Montanhas (cap. 12)

As montanhas e os vales não são os menores ornamentos de uma paisagem. A natureza não tem aí essa monotonia cansativa que transforma um grande trajeto através de uma região plana em sonolência melancólica. Ao contrário, o espírito fica tenso e revigorado pela alternância de montanhas e vales, e assim fica desperto e animado pela alternância de diferentes impressões.

Em si as montanhas, essas excrescências que dilatam a superfície plana da Terra, não são um ornamento do lugar onde se encontram. Semelhantes aos montículos num prado, elas dão à Terra um aspecto repulsivo, como as pústulas num rosto humano. Vistas de um balão, com uma luneta, elas não deixariam de causar essa impressão repulsiva. Sem contar que são um obstáculo às comunicações, tornadas assim difíceis. Mas o que elas perdem do ângulo da razão, ganham do ângulo da estética. Sua situação elevada ativa a imaginação de forma pouco usual, e torna a natureza atraente pela diversidade e força das impressões.

Na medida em que, segundo o plano da natureza, povoamos a superfície da Terra e não os ares como os pássaros, podemos fazer apenas uma idéia da desordem que as montanhas imprimem à Terra, mas não a experimentamos. As montanhas só nos aparecem na perspectiva que nos coloca face a face com elas, e apenas essa impressão natural dos sentidos determina portanto o julgamento que fazemos delas.

Da mesma forma que as montanhas tornam difícil uma comunidade de vida entre as pequenas cidades que ali estão disseminadas, elas transformam muitas vezes as regiões mais retiradas, na imaginação daquele que, do topo de uma montanha, abarca com o olhar uma grande quantidade de vilarejos e cidades, em uma comunidade abstrata e enganadora. Por esse motivo, elas também têm um efeito favorável pelo viés da imaginação. Como diante do Etna, por exemplo, elas permitem à imaginação reunir, por uma verdade tangível e uma impressão direta dos sentidos, as regiões e os países inteiros que espaços imensos separam. Desse modo elas ampliam ao infinito o campo da imaginação.

Quando, durante um passeio, se sobe uma montanha para, uma vez ao alto, desfrutar de uma vista elevada, percebe-se que a paisagem embaixo realça sempre mais, à medida que se sobe. Aquele que subisse sem parar, nem se voltar, perderia o prazer desse panorama que não pára de se transformar. Ele estaria apenas perseguindo uma meta que se teria fixado, sem imaginar que já poderia saborear numerosos prazeres no caminho. Na verdade, um passeio digno desse nome, que deve portanto evitar degenerar em uma expedição fatigante ou se reduzir a um simples movimento do corpo, deveria convidar a essas pausas, que transformam então a ascensão de uma montanha em um verdadeiro passeio, por uma caminhada tranqüila associada a uma ocupação do espírito. O espetáculo de uma paisagem que se desvenda pouco a pouco é para o espírito um prazer particular.

Os passeios numa montanha ou numa cadeia de montanhas que não apresentam grandes dificuldades e desvendam um amplo panorama elevam o espírito de maneira incomparável. Como poderia ser de outra forma, quando se tem o orgulho de passear nas regiões altas da Terra, diante do céu, sobretudo quando o olhar mergulha no mundo estendido embaixo? Como a imaginação, mesmo a mais indolente, poderia não se sentir tocada por uma tal diversidade de objetos e de pontos de vista, que nenhum outro passeio pode oferecer? Quando não nos demoramos muito tempo no mesmo lugar, usufruímos de uma vista sempre diferente, de um prazer leve que não detém a ação das forças da alma necessárias ao passeio, enquanto o observador imóvel se deixa facilmente levar pela seriedade, pelas quimeras mais loucas, e mergulha numa reflexão que vai além da impressão das coisas.

Da mesma forma que na subida, o panorama se revela, na descida, sob um aspecto particular e sempre cambiante. A única diferença é que, na descida, a paisagem, que se oferecia inteira quando se estava no alto, se subtrai pouco a pouco ao olhar, na mesma medida em que se desvendava na subida. Contudo, a impressão da paisagem se revelando na subida surpreende mais do que o pode fazer a impressão de dissipação progressiva na descida, quando o panorama se comprime cada vez mais e os objetos já nos são conhecidos pela primeira impressão que tivemos na subida. Se quiséssemos reservar-nos ainda a novidade das impressões, teríamos que descer da montanha por uma vertente diferente daquela por onde tínhamos subido. No entanto, descer a montanha pela vertente pela qual se subiu tem também seu encanto, para verificar a impressão que pôde produzir essa montanha sobre o espírito, mas em sentido inverso.

Uma vez de volta, quando nos encontramos novamente no sopé da montanha em que acabamos de subir e olhamos os objetos que a rodeiam, aparecendo do seu topo todos de tamanho reduzido, espantamo-nos de ver que tudo o que parecia até aí convergir e se aproximar do solo se entende, de repente e retoma seu relevo.

Leia: A arte de passear, de Karl Gottlob Schelle. Editora Martins Fontes, 2001. Não é para qualquer um, mas pode ser para você.

sábado, 12 de setembro de 2009

Carma-Cola, by Gita Mehta

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Li duas vezes, num intervalo de tempo relativamente longo, a obra Carma-Cola, de Gita Mehta. Na primeira leitura, achei que havia errado o momento. Isso quer dizer que, de maneira inadvertida, havia começado a ler a obra num momento em que não estava de fato interessado naquele tipo de tema. Acredito que isso deva acontecer com muitas pessoas, o fato de ter um livro bom nas mãos mas não se apaixonar muito pela narrativa. Nove anos depois resolvi dar uma nova chance ao livro e confesso que dessa vez me entusiasmei um pouco mais, embora essa obra não esteja entre as minhas leituras prediletas sobre a Índia. Mesmo assim, valeu a pena pescar algumas passagens bem interessantes sobre os costumes da cultura indiana, e sobre algo que me interessa em especial, que é a leitura que um povo faz sobre o outro quando em contato direto, como costuma acontecer em muitas viagens.


Acho que um dos motivos de não ter aproveitado melhor as impressões de Gita Mehta sobre a Índia tem a ver com o estilo narrativo da autora; há passagens em que você simplesmente não consegue entender a mensagem, geralmente fragmentos soltos de um pensamento em voz alta (uma impressão minha) que, se funciona para alguns escritores, não me pareceu funcionar para Gita em muitos momentos.


Entretanto, há passagens em Carma-Cola que valem o preço pago, principalmente se o leitor tem interesse pela religiosidade hindu e pelas (frequentemente) absurdas histórias que nos chegam da terra de Ganesha quando o assunto é a relação guru/discípulo. Um ponto a favor da autora é que, mesmo sendo de origem indiana, ela consegue manter um afastamento providencial na hora em que se dedica a narrar alguns acontecimentos e incidentes que ela mesma presenciou ou lhe contaram, entre seus patrícios e os ocidentais malucos que perambulam pelo subcontinente indiano à procura de iluminação, quase sempre a qualquer preço. Também é divertido reconhecer alguns gurus que não aparecem nominados na obra, em situações que estão longe da “beatitude” que se espera de um yogue, embora essa visão só seja divertida para os “iniciados” nas leituras dos homens santos da Índia.


Nem sempre as passagens dessa obra são divertidas, muito pelo contrário. Há nesse processo da relação guru-discípulo histórias muito tristes, às vezes até mesmo trágicas, de pessoas que Gita chama de “vítimas do turismo espiritual”.

“... aqueles que visitam a Índia não foram informados vezes suficiente, ou de maneira popularmente compreensível, que a experiência do Oriente simplesmente não é acessível à mente ocidental, a não ser que a pessoa passe por uma reeducação quase total. Contudo, a falácia costumeira de que sentar-se por longos períodos de tempo na posição de lótus tem o efeito de avançar o indivíduo até a metade da roda da existência não só não está sendo negada como é ativamente propagada por muitos ashrams atualmente em voga. Os gurus ignoraram uma diferença primária entre eles e seus discípulos.”

É muito fácil perceber que a escritora está coberta de razão, pois qualquer pessoa um pouco mais esclarecida consegue ver como as religiões/seitas/ordens/grupos hoje identificam-se como produtos muitas vezes prontos para serem consumidos como um fast-food espiritual, numa versão pós-moderna das sacolinhas balançadas às portas das igrejas na Idade Média, amealhando moedas em troca de salvação. Nesse contexto pouca coisa mudou.


A seguir vamos ler algumas das passagens que mais me tocaram e que acredito também lhe parecerão interessantes.

Sobre a Deusa Kali

Outro comerciante, mal discernível em meio a colares de contas, mandalas pintadas em tecido e lamparinas de bronze suspensas por correntes de ferro, tudo pendurado do teto de sua pequena loja, espiou-me preocupado por entre as mercadorias.

“Às vezes me pergunto o que vai ser desses viajantes. Eles não andam com os indianos. São como crianças, sabe. Não somos nós, mas nossos deuses que os confortam. Eles gostam de coisas familiares, como contas de mala (colar/terço) e incenso. Ficam felizes de encontrar tanta variedade, contas de sândalo, contas de marfim. Rosa, jasmim, tantos tipos diferentes de incenso.”

Seu ajudante, um homem mais moço de calça justa e cabelo bem untado, interveio com irritação. “Eles são loucos. Tudo bem, quando sabem o que fazer com essas coisas. Seria melhor que fossem embora, que fossem adorar a Mãe Maria na igreja deles com os malas e o incenso. Mas eles não querem a Mãe Maria. Querem Kali. Isso mostra que têm mau caráter.”
O homem mais velho reconsiderou sua posição.

“Não, eles não são ruins. Mas acho que não gostam mais de beleza. Veja, vem uma mulher, digo, leve a deusa Saraswati tocando vina. Ou Tara, como esta bela peça aqui, com a turquesa na testa. Ou pelo menos leve Durga Mata cavalgando seu tigre. Não, elas querem Kali, com a sua grinalda de crânios, bebendo sangue. Falo que vai assustar os filhos delas. Elas dizem que a Mãe kali mostra a força da fêmea. Me diga, irmã. O que elas querem dizer com isso?”.

Carma-Cola?

Um anúncio publicado em revistas estrangeiras da companhia aérea nacional indiana, que cuida de todo o tráfego aéreo dentro do país, alardeava uma tarifa que oferecia “Nirvana a US$100 por dia”.

Um guru que tem um ashram na Índia ocidental, com um grande número de seguidores estrangeiros, confidenciou a um correspondente da revista Time:
“Meus seguidores não têm tempo. Então dou-lhes salvação instantânea. Transformo-os em neo-sanyasis”.

Um sanyasi na Índia está a meio caminho de ser um santo, um homem que renunciou ao mundo para buscar a verdade, uma renúncia que é tanto social quanto física. Seus votos não são significativamente diferentes daqueles que entram para mosteiros no Ocidente – dedicação à pobreza, castidade, e se o sanyasi tem um mestre, obediência. Mas o hinduísta simplório, quando encontra dois estrangeiros de pele clara no bazar, compartilhando um cachimbo de haxixe enquanto se acariciam, está pronto para pensar que os estrangeiros estão usando os trajes cor de laranja do sadhu como um ato de zombaria agressiva. O hinduísta simples, ao contrário do guru sofisticado, não incorporou conceitos tais como “neo” ou “instantâneo” ao seu vocabulário, tanto diário quanto religioso.

Parece que quando o Oriente encontra o Ocidente, tudo que você consegue é o neo-sanyasi, o Nirvana instantâneo. Chegando ao problema vindo de diferentes direções, ambos os lados acabaram na mesma conclusão, a saber, que a arma mais eficaz contra a ironia é reduzir tudo ao banal. Você fica com o Carma, nós levamos a Coca-Cola, um refrigerante metafísico por um físico.”

Deus existe?

Há outro guru que estimula a fé de seus seguidores num estádio de futebol de Delhi prometendo uma prova da existência de Deus. O homem tem sido visto realizando milagres às pencas, de tal forma que as pessoas estão predispostas a lhe conceder insight sobrenatural na lógica e na semântica. As massas esperam resfolegantes.

O guru lhes informa, por meio de um tradutor simultâneo, que Deus existe porque se você olhar no Dicionário de Inglês de Oxford, na letra G, acabará encontrando a palavra God. Triunfal, o guru ergue seus braços curtos abençoando a platéia perplexa mas crente, sentada em fileiras apertadas no vasto campo onde, seis horas antes, atletas suados correram atrás de uma bola e anuncia:

“Está no dicionário. Aqueles que duvidam da existência do divino, que procurem a prova no dicionário. Como poderia o que não existe estar no dicionário?”.

O número de adeptos desse guru se tornou tão grande nos últimos anos que ele tem agora de dar sua benção de um helicóptero. No seu aniversário, hinos de louvor irrompem das gargantas de um milhão de crentes terrenos, dirigidos à pequena pinta cor de laranja de certeza acenando para eles de uma máquina voadora.

Sobre Benares

Benares está ficando diariamente mais divertida. É a cidade nas margens do rio Ganges, em sua confluência mais sagrada. O coração da Índia hinduísta, com os paradoxos expostos em seqüência perfeita. Primeiro, o rio: mortalidade e imortalidade. Depois, os templos: devoção e profanidade. Depois, os bazares: comércio e caridade. Depois, os mendigos: pobreza e santidade.

“Ouça, querida”, dizia o quebra-galhos da embaixada americana. “Não posso vê-la nesta tarde. Um de nossos rapazes puxou um revólver e matou outro de nossos rapazes num templo perto de Benares. Provavelmente uma briga por drogas, mas tenho de ir até lá e resolver as coisas. Vamos nos encontrar quando eu voltar, certo?”

Foi nessa cidade que se originou a rota do brocado, com seus artesãos levando para o Nepal, o Tibete e a China não apenas seu conhecimento de seda e tecelagem, mas também os segredos da sabedoria hinduísta, até que a maior expansão de terra e gente da terra tivesse ouvido e aceito os conceitos de reencarnação e moksha, libertação.

“Você realmente não vai querer ver o que foi feito de Benares nos últimos anos”, disse o fotógrafo alemão. “Há morfina por toda parte. Feridas nos braços. Gente morrendo nas ruas.”

É a cidade para onde vão as viúvas dos encraves hinduístas conservadores que consideram casar-se com uma viúva uma obscenidade só comparável à necrofilia. Com seus sáris brancos e cabeças raspadas, elas podem ser vistas em todos os templos, pedindo esmolas aos peregrinos que vêm oferecer orações aos seus ancestrais.

Outros mendicantes são sadhus das montanhas, nus e carregando o tridente de ferro para mostrar sua lealdade ao deus Shiva. Alguns mendigos são praticantes do tantrismo, buscando realizar a não-existência do bem e do mal, rompendo tabus ao pedir esmolas para pessoas de qualquer casta. Outros são hippies, garantindo a sobrevivência da maneira mais fácil.

Os hippies originais eram mais do que mendigos. Eram pioneiros que descobriram os ghats (escadarias que dão acesso ao rio) de cremação. A Índia é provavelmente o único país que permite que o turista trate a morte como um esporte a ser assistido, e atualmente cresce o número daqueles que vêm em busca dessa experiência. As viagens ao desconhecido são monogramadas pela sensação – não pela fotografia-, e poucos lugares são mais sensacionais do que os ghats de Benares – o lugar onde todos os devotos hinduístas esperam ser cremados.

Inevitavelmente, aqueles que realizam as cremações exercem seu poder sobre os devotos e alguns deles usam esse poder impiedosamente. Os sacerdotes discutem com as famílias enlutadas o preço e a quantidade de sândalo e de manteiga clarificada a serem usados na pira funerária, para ajudar na ignição e na salvação. Travam-se batalhas em sânscrito enquanto o corpo queima. E quando, finalmente, as negociações se concluem, o corpo está sendo queimado com sucesso e a cabeça do cadáver explodiu, então começa uma nova transação: o preço do guarda que cuidará do corpo até que ele esteja reduzido a cinzas, despesa necessária porque entre o grande número de sadhus presentes nos ghats pode haver algum que esteja tentando erguer-se acima da moral convencional mediante a ingestão de carne humana.



Leia: Carma-Cola: o marketing do Oriente místico, de Gita Mehta. Escrito em 1979, foi editado no Brasil vinte anos depois pela Companhia das Letras, São Paulo. A tradução é de Pedro Maia Soares.