domingo, 29 de novembro de 2009

A longa viagem de prazer, by Juan José Morosoli

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Você já comprou algum livro ou cd apenas por ter gostado da capa, do encarte, ou do título da obra? Às vezes eu faço isso, até mesmo pelo prazer da surpresa e nem sempre me arrependo. Na minha coleção de cds, por exemplo, uns trinta por cento foram adquiridos “no escuro”, quase sempre, admito, títulos oferecidos em bancas promocionais, do tipo qualquer coisa por nove e noventa. Acho isso um jogo divertido, pena o bolso não permitir lances mais altos.

Estava caminhando pela Paulista e numa banca de jornal, num daqueles totens que vendem livros de bolso, um pequeno exemplar me fez parar abruptamente em frente à banca: na capa, uma foto meio apagada de um campo de cereais, um céu nublado de um azul claro acinzentado e ao fundo, na linha do horizonte, um pequeno agrupamento de árvores e nada mais do que isso. Em letras grandes e negras, o título: A longa viagem de prazer. O preço de uma revista. Comprei na hora.

Juan José Morosoli, o autor dessa pequena coletânea de contos nasceu no pueblo de Minas, no Uruguai em 1899 e faleceu em 1957. Publicou uma dezena de obras, entre poemas e peças de teatro e pouca coisa há sobre ele na internet, mas o pouco que se consegue saber faz com que tenhamos a curiosidade de conhecer melhor o seu trabalho.

Morosoli foi um especialista no gênero denominado conto curto e sua principal preocupação foi a de retratar os seres anônimos marginais que viviam nos pueblos uruguaios, seres viventes, como ele os denominou, os quais enxergava, em suas humildes condições, uma “grandeza elementar”. Em suma, Morosoli foi um escritor social que se empenhou em sua arte a dar uma identidade àqueles que, afastados da vida moderna, eram ignorados pelo resto da sociedade, uma condição que nós brasileiros também conhecemos muito bem. “Não sou um literato – do qual Deus me livre e guarde – senão simplesmente alguém que põe no papel um pouco do drama de cada homem humilde”, escreveu Morosoli.

Pelo que se percebe, Juan José Morosoli assumiu o compromisso, na sua escrita, de ser uma espécie de porta-voz dos humildes (ou um revelador, como nota Pablo Rocca no posfácio da obra), cabendo-lhe a função de acompanhar, em seus processos mentais, aqueles que são incapazes de mostrar por si mesmos as dimensões de seu espírito; observador minucioso, legou ao mundo a geografia física e humana de sua terra. E como poucos, conseguiu tratar de questões profundas como a solidão e a morte sem o apelo fácil das emoções baratas e superficiais, provavelmente porque ao escrever sobre elas, sentiu um pouco da dor que sentem aqueles que estão fadados a uma existência anônima e solitária.

Fazendo jus ao lema do Odepórica, escolhi dessa vez um relato de viagem imaginário, onde você poderá ler um dos contos mais bonitos dentre os nove que compõem essa coletânea. Não foi o que mais me comoveu, apesar de ter-me encantado com sua narrativa singela, com seu leve humor e melancolia, num equilíbrio emocional que nos cativa de primeira. Se pudesse, teria elegido aquele que, até o momento, foi o conto mais triste que já li na vida e que se chama Solidão. Como será que pode haver tanta beleza na tristeza?

Mas como nosso escopo aqui é falar de viagem, então nada melhor do que um conto que trate especificamente deste tema. E esse conto, por acaso, é o que dá título à coletânea: A longa viagem de prazer. Buen viaje.

A longa viagem de prazer
Si usted quiere ser un escritor, tiene que andar.


Tertuliano ia dar partida no caminhão quando Aniceto chegou.
- Venho te cumprimentar – disse – e desejar que o desfrutes com saúde.
Tertuliano agradeceu os bons votos do amigo e contou, pela centésima vez, como se tornara proprietário do caminhão.
- Era o último número da rifa. O Índio insistindo e eu dizendo que não. Aí chegou o Bruno. Ele me devia um peso, que eu tinha dado por morto há muito tempo. O Índio ficou com o dinheiro e apontou meu nome. E não é que deu? A sorte é fogo. Quando ela quer, sempre dá um jeito.
- Sorte e morte escolhem seu consorte – sentenciou Aniceto.
E ali estava Tertuliano com seu caminhão. Fazia tempo que desejava ter um. Era um desses sonhos que as pessoas vão acalentando para justificar o dia a dia. E um sonho que se torna realidade é uma coisa muito linda.
Aniceto caminhava ao redor do veículo, olhando-o com curiosidade.
- Estou examinando em detalhes – comentou. – Acho que está precisando de uma boa pintura.
Sim, Tertuliano já notara e concordou:
- Está mesmo. Vai levar duas demãos de colorado e uma bandeira em cada lado.
Já o via pintado, rodando velozmente pela estrada.
- Já pensaste? Esse louco pintadinho, andando por aí?
Aniceto fez um esforço e também o viu em sua imaginação.
- A questão – disse – é que não ponhas esse louco a correr, podes acabar de cabeça para baixo.
- Sou dos que acreditam – respondeu seriamente Tertuliano – que o melhor é uma marcha regular. Nem caracol nem andorinha. Sempre fui partidário da moderação, e se algum dia tiver uma empresa, motorista que correr eu boto na rua.
- É um favor que lhe fazes, ele é capaz de se matar.
Calaram-se um minuto, fizeram cigarros e logo Aniceto perguntou:
- Quantos caminhões são uma empresa?
- Se a empresa é pequena, talvez três. Se é grande, qualquer quantidade.
- Era o que eu pensava – disse Aniceto.
Seguiram conversando e Tertuliano revelou que pretendia fazer uma longa viagem, de puro prazer, para conhecer o mundo e nada mais.
- Uma longa viagem?
- Sim, talvez até Rocha.
- Rocha é longe?
- Acho que sim, pois é lá que nasce o sol (*) . E o sol tem que nascer longíssimo... Esta é a informação que posso te dar.
Aniceto calou-se um instante e depois perguntou humildemente:
- Não te conviria levar um ajudante?
Tertuliano considerou que um proprietário de caminhão se rebaixaria um pouco se ele mesmo tivesse de lavar o veículo, trocar a água do radiador e juntar lenha para o assado, e respondeu:
- Pode ser que te leve.
*
O caminhão, um Chevrolet 1929, não estava bem de pintura – já o sabia Tertuliano -, mas estava pior de luz. Um dos faróis fora fabricado com uma lata de óleo, o vidro preso com arame. O outro era “aquele que o Índio sempre ia botar e não botou”. Os pneus estavam gastos, com as lonas à mostra. Mas o principal, o motor, funcionava cada vez melhor, “porque os motores de antigamente são melhores que os de hoje”.
- De longe – confirmou Aniceto.
Tertuliano pintou seu caminhão de colorado, com bandeira nos costados. Pintou-as ele mesmo. Quando o caminhão estava parado, pareciam muito malpintadas, mas em movimento eram bonitas. E além disso muito estranhas.
- De que país são – tinha perguntado Aniceto.
Displicentemente, Tertuliano respondera: -
- Não sei se haverá algum país com essas bandeiras.
Também comprou um farol enorme, com um aro de bronze largo, de quatro dedos – um farol francês, disseram -, e o instalou bem no meio do radiador.
Com essas melhoras, o caminhão ficou pronto.

*
Aquela foi, talvez, a mais bela madrugada do mundo. Chegaram no mercado, compraram pão, carne para assar, e partiram muito antes do nascer do sol.
Tinham rodado mais de hora quando Tertuliano anunciou:
- Vou parar.
- Estamos indo como anda o figurino – disse Aniceto.
- Nunca entendi essa gente que anda ligeiro – disse Tertuliano. – O bom é ir devagar, descer, fumar um cigarro e ver o que ficou para trás.
- O que ficou para trás?
- Claro, pois quem está dirigindo só vê o que está na frente. O negócio é ver tudo, e um dia te surpreendes contando pros amigos tudo aquilo que viste.
Ergueu a cabeça para ver mais longe e respirou fundo.
- Que ar! É porque vem desta quantidade de campo.
- Muito campo e nenhuma alma - disse Aniceto.
Tertuliano estava – como era lógico, pois era dono do caminhão – muito acima da ignorância do companheiro. Considerou necessário ilustra-lo sem diminuí-lo e o tratou de “você”.
- Veja bem, Aniceto, a população aí existe, você pode acreditar. Está longe, mas está aí.
Aniceto olhou para a estrada e perguntou:
- Rocha está longe?
Tertuliano sorriu piedosamente.
- Longe quer dizer longe. E perto, perto. São duas coisas diferentes. Perto quer dizer uma bobagem... e longe – pensou um pouco – quer dizer um mistério.
E para esclarecer melhor, perguntou:
- Você sabe o que é um mistério?
- Sim – disse o outro -, um mistério é uma coisa estranha... uma coisa misteriosa...
- É isso aí.
E continuaram fumando, enquanto a paisagem ia-se tornando nítida à medida que o sol subia. E foi para o sol, precisamente, que Tertuliano falou:
- Dentro de dois ou três dias vamos te ver nascer, tigre velho.

*
Chegaram na cidade. Andaram por algumas ruas e pararam numa praça. Sentaram-se num banco para trocar impressões.
- Considero – disse Tertuliano – que esta é uma cidade que está progredindo, mas te confesso que nada me chamou a atenção.
- E eu só posso concordar – respondeu o outro. – O que viste foi o mesmo que eu vi.
- Antigamente – seguiu Tertuliano -, as cidades não progrediam, era o que dizia meu pai. Todas eram pequenas e as ruas um barral medonho.
- Vai ver que era porque havia muita ignorância. Não achas?
- Pode ser, sim, que tenhas razão.
Passaram a noite numa pensão barata e muito antes da aurora partiram para o Chuy, tomando a estrada que, segundo Tertuliano, terminava justamente “onde terminava o país e começava o Brasil”.
Já perto do fim do caminho encontraram um policial, certamente despertado pelo ruído do caminhão.
- Alto – gritou-lhes.
Eles não ouviram e mantiveram a marcha. O homem correu e tornou a gritar quase no rosto de Tertuliano.
- Parem ou mando bala.
Tertuliano freou o caminhão.
- Pra onde vão e o que levam aí?
- Pra cá mesmo e não trazemos nada – respondeu Tertuliano.
- E o que vêm fazer aqui?
- Ver nascer o sol.
E Aniceto, inocentemente:
- O senhor poderia nos informar onde é mesmo que ele nasce?
- Na delegacia – disse o policial. – Desçam e me sigam.
Mas, pensando que era perigoso ter dois contrabandistas às suas costas, modificou a ordem:
- Desçam e sigam na minha frente.

*
Tiveram de esperar o delegado para que revistasse o caminhão e os interrogasse. Só no meio da manhã terminou a investigação e eles foram liberados.
Na rua, consideraram a situação. Ficariam mais um dia e uma noite esperando ali, sem conhecer ninguém, sem ter com que se distrair? Justamente ali, onde tinham sido afrontados?
- Não – disse Tertuliano -, o sol que me desculpe. Por mim que ele nasça onde quiser, eu não espero.

*
Já estavam em casa. Acabavam de aquentar a água para o mate.
- Hermano – disse Aniceto -, fizemos uma linda viagem, mas vimos pouca coisa, não achas?
- Não. As viagens só começam depois que a gente volta. Te digo isso eu, que uma vez fui a Montevidéu e só voltando, quando comecei a contar pros outros, me dei conta de que aquilo que eu tinha visto era uma coisa bárbara!


(*) O Departamento de Rocha, a leste do Uruguai, tem um brasão cuja legenda é muito popular no país: Aqui nasce o sol da pátria. (N.T.)

Leia: A longa viagem de prazer (El largo viaje de placer). Juan José Morosoli. Tradução: Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2009. Se você se interessou em conhecer um pouco mais da obra e da vida de J.J. Morosoli, sugiro a leitura do texto publicado no site de literatura uruguaia de onde tirei as informações para este post:


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O céu que nos protege, by Paul Bowles (1910-1999)

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Paul Bowles foi um escritor incrível. Em 1949, há exatamente 60 anos, publicava seu primeiro romance, O céu que nos protege (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990. Para muitos, não é apenas o primeiro romance de um grande escritor, mas o primeiro e melhor romance por ele escrito, o que não desqualifica qualquer obra publicada posterior a ela, já que Bowles sempre manejou muito bem a escrita.

Descobri Bowles através do filme de Bertolucci; gostei tanto da filmagem que saí do cinema e comprei o livro e o álbum com a trilha sonora original de Ryuichi Sakamoto (quem também compôs as trilhas para o Pequeno Buda e o Último Imperador) que é uma viagem à parte, altamente recomendada.

O céu que nos protege tem muito da vida de Paul Bowles e sua mulher, Jane. Nascido em 1910, em Nova Iorque, Bowles começou sua carreira literária escrevendo poemas, mas numa viagem a Paris, hospedado na casa de Gertrude Stein (1874-1946) e de sua companheira Alice Toklas, foi totalmente desestimulado pela escritora a continuar com seus poemas, simplesmente porque, para ela, o que ele escrevia não era poesia. Foi Stein quem incitou Bowles a trocar uma viagem pelo litoral francês por uma estadia em Tânger, no Marrocos, cidade que ficaria para sempre associada à obra e à vida do escritor.


Bowles sempre viajou muito, numa época em que viajar era um acontecimento de grandes proporções na vida de quem o fazia, com muitos dias gastos em navios, trens e outros meios de transporte mais precários ou menos glamourosos. Evidentemente, as estadias eram longas e além de ter que contar com um saldo bancário considerável, muitos eram os que se valiam dos laços de amizade para serem bem recebidos ao mesmo tempo em que eram apresentados à sociedade local.

Toda essa dinâmica de relações pessoais construídas ao longo de inúmeras viagens parece ter dado a Bowles a faculdade de desenvolver personagens que o leitor sente terem sido inspiradas em pessoas com as quais o autor realmente conheceu ou conviveu por algum período. Tudo parece muito real, talvez plausível seja o termo adequado, e como nem sempre a realidade é algo agradável, a leitura de Bowles às vezes incomoda, pela crueza com que o escritor mostra a conduta humana em certas ocasiões, o que não deixa de ser uma experiência interessantíssima.

Voltando às viagens, numa passagem de sua autobiografia, Bowles escreve sobre a primeira vez em que viajou ao Marrocos, depois da estadia em casa de Gertrude Stein:

“Quando embarcamos no Iméréthie II, disseram-nos que haveria alteração no itinerário. O navio não atracaria em Tânger, e sim em Ceuta, no Marrocos espanhol. Na madrugada do segundo dia subi ao convés e vi à minha frente a silhueta denteada das montanhas da Argélia. Senti de imediato uma grande empolgação; fiquei muito empolgado; era como se ver a terra próxima tivesse acionado algum mecanismo dentro de mim. Sem nunca formular o conceito, eu havia baseado minha sensação de estar no mundo parcialmente numa convicção absurda de que determinadas regiões da superfície terrestre possuíam mais magia que outras. Se alguém me perguntasse o que queria dizer com magia, provavelmente eu definiria o termo como uma relação secreta entre o mundo da natureza e a consciência do homem, uma passagem oculta porém direta que ignora a mente. (Aqui a palavra-chave é “direta”, porque neste caso equivale a “visceral”.) Como qualquer romântico, sempre tive uma vaga certeza de que em algum momento da minha vida entraria num lugar mágico que, revelando-me seus segredos, me daria a sabedoria e o êxtase – talvez até a morte. E agora, parado no vento, olhando para as montanhas à minha frente, sentia o movimento do motor dentro de mim, e era como se me aproximasse da solução de um problema que ainda não fora colocado. Eu estava incrivelmente feliz, olhando a muralha de montanhas que pouco a pouco ganhavam corpo, mas deixei a felicidade me invadir e não fiz mais perguntas.”

Paul Bowles foi tão enfeitiçado pela magia daquele lugar que viveu em Tânger por mais de cinquenta anos até o último dia de sua vida. Sobre o fato de ter se estabelecido nessa cidade, lemos o seguinte em sua autobiografia:

“Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.”

Além de escrever, Paul Bowles compunha, chegando a ser um compositor com certo prestígio dentro da música erudita, tanto que uma de suas peças, “The wind remains the same” foi dirigida por Leonard Bernstein e outras entraram em peças de teatro e cinema, associadas a nomes de peso como Orson Welles, Elia Kazan e Tennessee Williams.

Bowles em algum momento de sua autobiografia afirma que sua felicidade era proporcional à distância que o separava dos Estados Unidos; seu lar e sua paixão foram para sempre o Marrocos e, por extensão, o deserto, pois “lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio”, palavras suas que encontram ecos num romance de Cees Nooteboom sobre suas andanças pela Espanha, quando afirma que se sentiu atraído pelas mesetas espanholas (grandes planícies desertas) porque seu interior, de alguma forma, se parecia com elas.


O deserto, sempre o deserto. Poucas metáforas são tão poderosas como esta na literatura mundial. Além do mais, em diversos sistemas religiosos o deserto serve de cenário para momentos cruciais de algum acontecimento revelador; são muitas as vezes que para lá se dirigem aqueles que anseiam desesperadamente por uma resposta, um sinal ou uma revelação – dentro de um contexto mais místico.

O deserto, dentro de suas inumeráveis interpretações simbólicas, também significa o lugar onde o ser humano se afasta de Deus; basta lembrarmos das tentações e dos demônios habitantes do deserto, imagem forte na tradição judaico-cristã, para entendermos com mais clareza essa questão da ausência divina. Entretanto, não nos apressemos: pois aquele que conseguir passar pelas tentações e ataques de ordem inferior, terá conquistado a sua salvação, única e exclusivamente através da graça divina, um paradoxo simples de entender: não podendo contar com nada e com ninguém, só Deus é capaz de salvar o homem. E é claro que, novamente, isso também deve ser entendido de forma metafórica: o deserto simboliza o homem interiorizado, estado que se pode atingir de várias maneiras, seja vivendo em comunidade (religiosa ou não), isolado numa floresta, ou mesmo praticando algum tipo de meditação, o suficiente para permitir alguns momentos de isolamento das coisas mundanas.

E o deserto será a chave de interpretação de toda a narrativa de O céu que nos protege. A história é a seguinte: um casal, Port e Kit (alter-egos de Bowles e sua esposa, Jane) partem dos EUA nos anos 40 do pós-guerra, em direção ao Norte da África numa travessia de navio, acompanhados do amigo Tunner. Não há data marcada para o retorno, um fato curioso e revelador: Port não se considera um turista, mas um viajante. A diferença entre ambos é explicada logo no início da narrativa:

“Mesmo durante os curtos períodos de imobilidade na sua vida em comum, realmente raros desde o casamento há doze anos, bastava-lhe ver um mapa, para começar a estudá-lo apaixonadamente. Com grande probabilidade de vir a planejar, em seguida, alguma viagem impossível que às vezes se tornava, de fato, real. Ele não se considerava um turista: era um viajante. A diferença devia-se, em parte, à utilização do tempo, explicaria ele. Enquanto o turista volta correndo para casa depois de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a lugar nenhum, viaja lentamente, durante anos e anos, de uma a outra parte da Terra. (...) Outra importante diferença entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita sua cultura sem questioná-la, o que não é o caso do viajante, que a compara com as outras, rejeitando os elementos que não lhe agradam.”

Os três viajantes não possuem, aparentemente, um roteiro pré-definido, e a impressão que se tem é que a viagem pelo Saara será feita de acordo com as circunstâncias tanto dos viajantes quanto dos serviços demorados e incertos de uma sociedade ainda muito atrasada, e por isso mesmo muito encantadora, sobretudo aos olhos de Port; Kit parece deixar-se levar pelas decisões do marido, o que mais tarde terá conseqüências transformadoras em sua vida, e Tunner aparece como um viajante burguês que não esconde uma forte atração pela mulher do amigo, com quem chegará a ter uma noite de amor embalada por garrafas de champanhe, aproveitando uma breve ausência de Port.

Port e Kit demonstram viver uma relação bastante moderna para a época (anos 40) o que de fato aconteceu com Paul e Jane Bowles (e foi a ela quem o autor dedicou esse seu primeiro romance) que, é sabido, viviam juntos e mantinham seus casos extra-conjugais, incluindo parceiros do mesmo sexo. Em O Céu que nos protege a trama toda gira em torno da relação homem-mulher; Port e Kit levam um casamento de dez anos que já demonstra desgaste, embora ambos pareçam não querer assumir essa realidade, de modo que a viagem, a princípio, pode servir de pretexto para uma fuga dos problemas conjugais. Logo irão perceber que a presença de Tunner foi um erro, e quando surge uma oportunidade conseguem se separar do amigo, o que acabará tendo uma conseqüência nefasta: logo depois Port contrai a febre tifóide e cai gravemente doente num local inóspito no meio do deserto. Caberá a Kit cuidar do marido sob condições das mais precárias até a sua inevitável morte.

É a partir desse fato que a história toma outro rumo: a sobrevivência de Kit. Mas não se trata apenas da sobrevivência física: a morte do companheiro leva junto a própria noção de individualidade de Kit; o grande terror de Port, quando percebeu que não sobreviveria à doença, foi descobrir que o grande erro cometido por ele e por Kit foi que ela viveu toda a sua vida em função da dele. E quando Port finalmente se vai, Kit praticamente enlouquece, porque parte de sua essência estava associada a Port de tal modo que sequer conseguiria visualizar sua existência a partir daquele momento. Num sentido figurado, sem Port sua vida era tão vazia quanto o deserto que a cercava.

“Nem lhe ocorrera, agora, que certa vez imaginara que se Port morresse antes dela, não acreditaria que ele estivesse realmente morto, mas sim que houvesse retornado de algum modo para dentro de si mesmo para ali permanecer e que ele nunca mais teria consciência dela; de modo que, na realidade, teria sido ela a deixar de existir, pelo menos em grande parte. Seria ela a entrar um pouco no reino da morte, enquanto ele prosseguiria, uma angústia dentro dela, uma porta fechada, uma oportunidade irreparavelmente perdida.”

O título da obra tem um sentido bastante profundo dentro da narrativa, e parte de sua compreensão aparece num breve diálogo (e numa linda cena do filme), num momento em que o casal saiu para um passeio de bicicleta a fim de contemplar um maravilhoso pôr do sol no Saara:

“- Sabe – disse Port, e sua voz soava irreal, como acontece com as vozes após um longo silêncio em lugares totalmente isolados -, o céu aqui é muito estranho. Quando olho para ele tenho a sensação de que é sólido lá em cima, protegendo-nos do que está atrás.
Kit estremeceu um pouco ao dizer:
- Do que está atrás?
- Sim.
- Mas o que está atrás? – Sua voz estava muito fraca.
- Nada, acho eu. Só a escuridão. A noite absoluta.”

O que ele quis dizer com a noite absoluta? A morte, provavelmente, porque em certos momentos da história, vemos Kit apavorada com essa ideia, como se pressentisse que algo ruim e triste estivesse para acontecer. Não cometerei o erro de comentar o final dessa história forte, densa, que convida-nos a refletir sobre o papel que desempenhamos em nossas vidas e em nossos relacionamentos íntimos. Mas acho que muitas mulheres irão se surpreender com o desenrolar da trama após a morte de Port, que terá Kit como a principal protagonista do romance.

É preciso dizer que Paul Bowles escreve incrivelmente bem, de modo que seu domínio da escrita dá um peso, um brilho maior à história por ele narrada. Durante a leitura de O céu que nos protege você se sentirá tão ambientado no deserto que em alguns momentos sentirse-á participando de toda a viagem, como se Bowles lhe induzisse, com a sua arte, a sentir não só as angústias dos personagens, mas as mesmas sensações físicas destas: o calor do Saara, o cheiro de suas paragens, a brisa fria da noite estrelada em companhia dos beduínos, o aroma de um chá de hortelã ou de um cigarro de haxixe, o sabor do pão seco numa boca sem saliva... em suma, uma leitura extremamente prazerosa.

Para terminar, escolhi a passagem que mais me tocou nessa obra fascinante; no livro, ela aparece no momento em que Kit se encontra ao lado do corpo sem vida do marido (no filme, foi escolhida para fechar a história). É linda e começa assim:

“A morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites.”

Leia: O céu que nos protege, de Paul Bowles. Lançado em 1990 pela Rocco com tradução de Roberto Grey, a obra foi reeditada em 2009 pela Editora Alfagura. Outros títulos do autor publicados no país: Tantos caminhos- autobiografia (Martins Fontes, 1994); Bem acima do mundo (Nova Fronteira, 1976); Chá nas montanhas (Rocco, 1994); Um amigo do mundo (Rocco, 1995); Que venha a tempestade (Rocco, 1997).

Assista: O céu que nos protege. (The Sheltering Sky) Direção de Bernardo Bertolucci, trilha sonora de Ryuichi Sakamoto. Não deixe de reparar: o próprio Paul Bowles aparece na cena final do filme (sua fisionomia é a mesma da foto postada neste blog)

domingo, 15 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 3, final

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A estrada do arco-íris

Nascido em 31 de maio de 1819, descendente de lavradores ingleses, Walt Whitman morreu em março de 1892, solitário e tranqüilo numa colônia em Nova Jersey. Havia crescido em Brooklyn, então uma pequena aldeia estabelecida em frente de Nova York, do outro lado do East River. Entre as rochas de sua ilha nativa, lia clássicos gregos, Shakespeare, Hegel, Cervantes, Dante e a Bíblia, sempre “na presença total da natureza, solitário sob o sol, em frente à paisagem ampla e o azul distante do mar.” Desta maneira, cresceu disposto a levar uma vida aventureira. Foi professor numa escola primária, carpinteiro, tipógrafo, jornalista e enfermeiro. Mas acima de tudo, aprendeu a amar a estrada: fez duas longas viagens a pé, a primeira até os Grandes Lagos na fronteira com o Canadá, a outra até New Orleans, ao sul. “Como Adão ao amanhecer/ saio do bosque fortalecido pelo descanso noturno”, escreveria num de seus poemas estradeiros. Nenhum deles, porém, pode se comparar ao Canto da Estrada Aberta:

A pé e de coração leve
eu enverdo pela estrada aberta,
saudável, livre, com o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo
levando-me aonde eu queria.
(...)
Ó estrada minha e de todos,
o que posso lhe dizer
é que não tenho medo de deixá-la,
por mais que a ame: você me expressa melhor
do que eu expresso a mim mesmo,
você há de ser para mim
mais do que o meu poema.

Ao final do canto traduzido por Geir Campos, Whitman adverte aqueles que pretendem segui-lo e fazer da estrada sua vocação:

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
você não acumulará riquezas, assim chamadas,
distribuirá com mão pródiga
tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
nem bem chegando à cidade à qual era destinado
dificilmente se há de estabelecer
e ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir (...)

Outro velho andarilho, contemporâneo de Whitman, está na raiz estradeira da América: o fauno, o wildman Henry David Thoreau, nascido em Concord, Massachusets, (nas proximidades da insignificante e têxtil Lowel, de Kerouac) a 12 de junho de 1817. Aos 28 anos, abandonou a cidade e transferiu-se para o lago de Walden, há uns vinte quilômetros de Concord e lá construiu com as próprias mãos uma cabana, onde viveu durante oito anos e dois meses, “para encurralar a vida a um canto e arrancar dela seu sentido mais íntimo”. Antes, durante e depois da estadia em Walden, Thoreau realizou caminhadas inacreditavelmente longas, e extensas excursões de canoa pelos rios límpidos da região. Deixou textos admiráveis, como Walking:

“Desejo dizer uma palavra em nome da liberdade absoluta, em nome da natureza, em nome da amplidão, que contrastam tanto com a liberdade e a cultura opressivas da cidade. Em todo o decurso da minha vida só encontrei uma ou duas pessoas que compreendiam a arte de caminhar, isto é, de andar a pé – que tinham o gênio, por assim dizer, do sautering, palavra esplendidamente derivada de ‘pessoas vadias que erravam pelo país, na Idade Média, sob o pretexto de irem à la Sainte Terre’, até as crianças exclamarem ‘lá vai um Sainte-terrer’. (...) Os que se deixam ficar em casa, quietos e calados, sempre e sempre, podem ser os maiores errantes, mas o saunterrer não é mais errante do que o rio sinuoso cujo propósito é encontrar o caminho mais curto para o mar. (...) Sou capaz de andar facilmente dez, quinze, vinte, qualquer número de milhas, começando da minha porta, sem parar em qualquer casa, sem atravessar uma estrada exceto nos trechos em que as próprias raposas e doninhas são obrigadas a fazê-lo e, do alto das colinas, posso ver a civilização e suas construções. O homem, seus negócios, a Igreja, o Estado, a escola, o comércio, a agricultura, a política – folgo em ver a insignificância do espaço que ocupam na paisagem. Ah, mas cada vez derrubam-se mais florestas, surgem novas cercas... Temo o dia que há de chegar em que não poderemos caminhar pelas matas sem ter que cruzar por propriedades particulares.”

Os beats amam Thoreau, e Kerouac – ao abandonar a Columbia University – parece ter tomado ao pé da letra uma das muitas frases antológicas deste ultra rebelde: “Quanto mais ar e luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor.”

Mais tarde, o espírito estradeiro americano amplia seu raio de ação com a marcha para Oeste, depois capitalizada pelo fascistíssimo princípio do “Destino Manifesto”: a expedição de Lewis e Clark em 1805, a corrida do ouro em 1860, na Califórnia e depois no Alaska, o massacre das tribos selvagens das Grandes Planícies abrem novos espaços para a colonização. Surgem as primeiras grandes estradas continentais americanas: a Bozeman Trail, a Parkman Trail, e os “fios que falam” do telégrafo dividindo o céu límpido da pradaria; as ferrovias do Leste e do Oeste se encontram afinal. O país está unido de costa a costa (apenas o México insiste em atrapalhar um pouco reivindicando a propriedade de seus territórios, o Texas, O Novo México, o Colorado e a Califórnia – uma guerra rápida e fácil termina com essa questiúncula) “Pobre México, tan lejos de Dios, tan cerca de Norte América.”

Bem, e as novas estradas se povoam de andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos, especuladores de terra, jornalistas abelhudos, militares obtusos (“Índio bom é índio morto”), religiosos beatos, vendedores de elixir, caçadores de peles e toda essa fauna impressionante que Hollywood reduziu a estereótipos medíocres – mas que, é claro, existiram de fato e foram estradeiros de primeira.

Na virada do século, os velhos ratos mochileiros começaram a ser enxotados das cidades que ajudaram a fundar, “mas que se tornaram tão prósperas que já não precisavam mais de mochileiros”. Na segunda década do século, a agricultura altamente mecanizada, a concentração de terras e o capitalismo selvagem expulsam milhares de habitantes de Oklahoma e demais estados do Meio Oeste de suas propriedades. Eles partem para a Califórnia formando filas imensas pelas estradas. As fronteiras do estado são fechadas. Lá ninguém entra (pelo menos não sem grana). Muitos colhem algodão e maçãs em troca de um prato de comida.

Por mais indigna que seja uma época, sempre sobram homens íntegros nela: Woody Guthries e Joe Hill são apenas dois exemplos. Bound for Glory, a emocionante biografia de Guthrie (em cujo violão estava escrito à faca: “Essa máquina mata fascistas”) oferece um retrato bastante fiel deste período sombrio, quando o Oeste foi tomado por andarilhos, desempregados e marginais em geral, viajando sobre os trens de carga, enfrentando a fúria dos guardas-freios e dos fura-greves. Na mesma época, as garotas da indústria têxtil de Chicago entram em greve. Seu lema: “We want bread. And roses too.” Várias foram assassinadas pela polícia. Uma tragédia americana, como tantas. A Depressão de 29 aumentou ainda mais a população de estradeiros americanos – a maioria, claro, sem muita convicção na nova atividade.

John Steinbeck, que se declarava andarilho na alma, foi um escritor que penetrou no mundo destes vagabundos de beira de estrada, enxovalhados por um modelo econômico exclusivista. Criou clássicos admiráveis: Ratos e Homens, Tortilla Flat, Cannery Row e a saga atormentada da família Joad em Vinhas da Ira. Em Viajando com Charley (ed. Record, 1979), Steinbeck diz:

“Quando eu era muito jovem e sentia o impulso intenso de estar em algum outro lugar, as pessoas mais velhas me garantiam que a maturidade haveria de curar tal anseio. Quando, com o passar dos anos, pude ser classificado como um homem amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Então, depois dela, afirmaram que mais alguns anos abrandariam minha febre. Agora, aos 58 anos, talvez a senilidade possa dar um jeito. O fato é que nada funcionou. Os quatro apitos roucos da chaminé de um navio ainda deixam meus cabelos arrepiados. O ruído de um jato, um motor esquentando, o som do galope de um cavalo trazem de volta o antigo estremecimento. Em outras palavras: não melhorei nada. Uma vez vagabundo, sempre vagabundo. Receio que a doença seja incurável...”

Portanto (e isso sem citar os naturalistas, caminhantes e escritores John Muir e John Burroughs, o super ídolo beat Jack London, o desertor de navios baleeiros Herman Melville, o jornalista revolucionário John Reed, o implacável assassino de animais selvagens Ernest Hemingway e centenas de outras estrelas norte-americanas com um pé ou uma gota de sangue na estrada), quando os beats arrombaram a cena literária na América, a estrada estava longe de ser uma novidade. Antes deles, porém, ela nunca fora tão importante no ato da criação artística. A não ser talvez, no Japão dos séculos XVI e XVII.

A estrada mística

Luas e sóis são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e que vão são viajantes também. Aqueles que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre em viagem, e seu lar é lá onde essas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos morreram pelos caminhos e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou idéias contínuas de meter o pé na estrada (...) Os espíritos do caminho me fizeram inúmeros sinais, e eu descobri que não podia continuar trabalhando e tinha que partir.

Matsuó Basho (1644-1694) foi o mais célebre dos poetas andarilhos do Japão, e autor do hai-ku inigualável sobre a rã que salta numa antiga cisterna, quebrando o silêncio e provocando uma profunda ressonância. Neste trecho de Sendas de Oku, o mais famoso de seus relatos de viagem, traduzido por Paulo Leminski (publicado pela Brasiliense numa biografia de Basho feita para a coleção Encanto Radical), o venerável poeta fala nos “homens de antigamente”, também estradeiros em busca de um satori (o súbito despertar), como ele próprio.

Essa frase já é suficiente para comprovar que a estrada mística seguida por Gary Snyder, o budista beat da poesia americana, não chega a ser propriamente uma novidade. Por outro lado, poucas vidas beats são tão inovadoras e límpidas como a de Snyder, poucas estradas tão luminosas e repletas de visões, revelações e espíritos mágicos. Ecologista, profundo conhecedor da ecologia tribal dos índios da América, lunático zen, Snyder traçou uma longa e serena trajetória pelas rotas de seu vasto país. Jamais ficou à margem de freeways vorazes onde roncam os motores todos da América: seu caminho foi trilhado entre as florestas do Noroeste, pelas montanhas ao redor de San Francisco (“velhas rotas percorridas por Jack London, há meio século”) nos vales soberbos de rios cristalinos fluindo murmurantes entre rochas recobertas de musgos e liquens e, por duas vezes, esse caminho levou-o ao Japão para o treinamento formal zen. Ao contrário das descrições kerouakianas das periferias da América industrial, os poemas de Snyder transmitem outra vibração:

Terminamos de abrir a última parte da trilha lá pelo meio dia
Lá em cima, no topo do espinhaço
Seiscentos metros acima da enseada
Alcançamos a passagem, e seguimos
Além do bosque de pinheirais brancos,
No ar puro e fresco,
Comemos truta fria e frita
Sob sombras cintilantes
Uma região de gamos gordos
E eles vieram até o nosso acampamento
Na sua própria trilha
Eu segui a minha até aqui
Dez mil anos.

Depois de ter seguido uma estrada bastante semelhante à de Kerouac (provavelmente por influência de seu amante fortuito Neal Cassady), Allen Ginsberg teve o que chamou de “iluminação auditiva de Blake”. Deu então uma guinada em direção a essa estrada mística de Snyder e ela o levaria a fazer uma viagem de dezoito meses pela Índia e países do Oriente bem como aproximar-se bastante do zen-budismo. Em busca da iluminação, porém, o maior poeta beat não se limitou a seguir apenas esse caminho.

A estrada da droga

Na verdade, Allen Ginsberg figura entre os beats mais estradeiros. Sua vida e obra estão repletas de poemas, trechos & visões da estrada. O antológico Long Poem of these States, por exemplo, foi escrito segundo o próprio poeta “num fluxo onírico autoconsciente de carros ônibus aviões, pelas estradas destes Estados”. Seus diários narram também passagens por quase todos os países do mundo. E antes da fama, Ginsberg costumava pegar muitas caronas pela América.

Viajar com a cabeça feita sempre foi uma de suas predileções. Por isso, sempre curtiu as drogas da estrada: haxixe no Marrocos, ópio na Índia, peiote e cogumelos no México, maconha em qualquer lugar, yage no Peru, ácido na Grã-Bretanha e daí pra fora.

Seguindo os passos do mais drogado de todos os beats, William Burroughs, Ginsberg esteve no Peru em 1963 em busca do yage, o poderoso cipó alucinógeno dos índios do alto Amazonas. A correspondência alucinada que os dois mantiveram foi publicada pela L&PM na coleção Alma Beat. Ela mostra os sacrifícios que Burroughs era capaz de fazer pela sensação de experimentar um novo barato. Na sua alma – beat, sem dúvida – Burroughs não é exatamente o que se pode chamar de estradeiro. Mas em busca das droga (com preço barato e qualidade acima de suspeitas) e de sexo (homossexual), passou boa parte de seus jovens anos girando pelo planeta: fixou residência no México e no Marrocos onde obtinha ambos com facilidade. Seus livros, porém falam muito mais em suas estações no inferno do que dos caminhos que percorria para penetrar nelas...


*


Esse texto é um excerto da obra Alma Beat, capítulo 5, "Beats e a estrada", de autoria de Eduardo Bueno. Publicado em 1984 pela L&PM, infelizmente encontra-se fora de catálogo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 2

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Em 1978, tive a sorte de fazer uma viagem de carona de Nova York a San Francisco (depois, é claro, de ter lido On the Road nos bancos amarelos ensolarados de um parque no outono azul de Porto Alegre). A grandiosidade da prosa de Kerouac me envolveu como se tudo fosse um filme em três – ou mais – dimensões. Era tudo tão igual, tão real. Os arredores cinzentos desolados sob a névoa poluída na periferia de Nova York, prédios meio avermelhados de tijolos à vista com escadas de incêndio, troleibus rangendo na manhã desesperançada, o “insólito vazio fosforescente do túnel Lincoln” e o livro ali, no bolso do meu casaco militar (“I touch your book and feel absurd”). Lembram de Ginsberg, comprando imagens, seguindo Walt Whitman entre carnes no frigorífico, delícias congeladas, frutas de néon e bebês nos abacates? Pois era mais ou menos assim...

Depois de “meses delirando em cima dos mapas”, Jack concluiu que o melhor seria seguir por uma única estrada até Frisco. E se deu extremamente mal, como a absoluta maioria das pessoas que cai na estrada pela primeiríssima vez (oh, aquele trevo na saída de Florianópolis, oito horas de espera, a noite úmida, a chuva fina). Mas depois foi tudo uma interminável sucessão de imensos e loucos caminhões com motores potentes roncando dentro da noite americana, caixeiros viajantes com seus Fords e suas opiniões absurdas e conversas chatas (“um dos maiores tormentos de se viajar de carona é ter que falar com incontáveis pessoas, distraí-las, até que elas se convençam que não cometeram um erro ao ter te apanhado”), cowboys motorizados reacionários, sujeitos muito loucos em caminhonetes caindo aos pedaços com o painel coberto de mapas e barras de chocolate meio derretidas, loiras num cupê (com idade suficiente para serem sua mãe), tortas de maçã em bares de beira de estrada cheios de moscas com lento ventilador de hélice, ônibus Greyhound velozes ondulantes passando como num sonho em direção a cidade na qual você daria tudo para chegar.

E trechos como: “A maior carona da minha vida estava prestes a surgir, um caminhão com uma plataforma atrás, o motorista vinha recolhendo toda e qualquer alma solitária que encontrasse por aquela estrada”. (Stop. Rewind. Remind: A periferia de Istambul – algo como Nova Iguaçu com minaretes, Osasco com mesquitas ou Cachoeirinha repleta de bazares turcos – chuva fina, dia gris – vento soprando na manta hindu lilás – cabelos úmidos, gola de casaco levantada junto ao pescoço – parado em frente a uma vulcanizadora, à beira de uma estrada estreita e esburacada, com o acostamento de terra sujo com graxa e cascas de frutas estranhas – um livro de Thoreau num bolso, uma harmônica noutro – de repente, o imenso caminhão verde escuro range os pneus e pára aos solavancos a uns cem metros de distância – corrida descabelada, mochila com 33 quilos, vermelha, às costas, uns quinze livros dentro – pé no estribo do caminhão; motorista loiro, barbudo, jovem sorridente, mãos enormes, pulsos grossos, costas largas, camiseta de física com botão anti-nuclear, cabeça feita – oh, man, demais: ‘Pra onde você tá indo?’ “Pra Basel, Suíça, mas só te levo até a fronteira com a Iugoslávia.” “Legal, vamo nessa!” E lá fomos nós, e o caminhão, pra completar, tinha um gravador, e fitas de Miles Davis e Doors – cruzando lentamente a Turquia e seus campos de papoula, as ruínas de Tróia – entrando na Grécia e todos nós conversando sobre John Huston e Wim Wenders, e Plotino e Diógenes, o cínico – conquistei claro, a carona até onde queria ir, Veneza – a três mil e oitocentos quilômetros da periferia funesta de Istambul – cruzando as montanhas litorâneas recobertas de neve da Iugoslávia (era novembro) – avançando dia e noite – comendo em bares de caminhoneiros que vinham do Iraque – oh, a maior, mais vibrante e inesquecível carona da minha vida, com um americano chamado Michael, um australiano (Bill?), eu e Ron, motrorista suíço que recolhia toda e qualquer alma solitária naquela estrada desamparada.”

Bem, antes que seja tarde demais: claro que importante mesmo foi o que a estrada significou dentro da ruptura que os beats provocaram no panorama até então europeizado da literatura americana; os críticos (mesmo aqueles que desde o início perceberam a importância do grupo na inovação da linguagem literária deste lado do planeta) sempre consideraram que aquilo que realmente valeu no trabalho dos beats foi a forma “espontânea”, o estilo novo com que eles descreveram sua “omnívora percepção dos fenômenos” nas ocasiões em que eram tomados por aquilo que Ferlinghetti chamou de “Febre da Observação” (e isso geralmente acontecia, não por acaso, quando eles estavam justamente na estrada). Mas a estrada como coisa em si, o ato de estar ou cair na estrada sempre foi visto como um fenômeno menor por aqueles que gostam de desvendar um pouco dos aspectos literários do riquíssimo universo beat. Pois bem, o que eu estou a fim de fazer neste texto um tanto desarticulado é justamente o oposto: uma Ode à estrada Aberta, um cântico àquela permanência às vezes absurdamente longa nos acostamentos do asfalto; um elogio à vagabundagem à beira dos caminhos. Algo, aliás, que possui raízes bastante profundas na tradição de rebeldia norte-americana.

Antes de cavoucar nessas raízes históricas, porém, quero terminar o papo sobre Kerouac e sua estrada. E, infelizmente, a conversa acaba de jeito melancólico (como o final de On the Road e de sua própria vida). A última grande viagem de Jack pela América foi no verão de1960, para encontrar-se com Lawrence Ferlinghetti em San Francisco e tratar da publicação do seu Book of Dreams. Em Chicago, apanhou o Califórnia Zephyr, um trem expresso, comprando uma cabine só para si, com sanduíches e café preparados por sua mãe Gabrielle, a Memére. Já bastante abatido pelo álcool, com úlcera estomacal, diarréia e problemas circulatórios, Kerouac não saiu da cabine por três dias e noites. Imaginava como ficariam surpresos os garotos que agora liam On the Road ou Dharma Bums se vissem o quão confortavelmente ele viajava. “Eles devem pensar que eu tenho eternos 26 anos, mantenho o rosto voltado para o vento e para a chuva, sempre escalando montanhas ou pedindo carona à beira de estradas. Sequer imaginam que tenho quase 40, moro com minha mãe e estou à beira de um colapso físico e mental”, escreveu em Big Sur, um relato amargurado.

E já essa primeira parte é dedicada à “estrada dos loucos”, não dá pra deixar de falar em Neal Cassady. Filho de “um dos bêbados mais trôpegos da Larimer Street” de Denver, Neal passou a infância em becos imundos, esmolando na esquina das grandes avenidas e entregando a grana para o pai, que jazia atirado entre garrafas estilhaçadas, cobertores em farrapos em ruas estreitas sem saída na parte baixa do centro de Denver. Aos seis anos, depôs num tribunal para livrar o velho do xadrez. Segundo Kerouac, Neal era “o cara perfeito para a estrada, já que nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City, 1926, num calhambeque caindo aos pedaços.”.

Em 1943, depois de fugir de vários reformatórios, essa “nova espécie de Santo Americano”, fez sua primeira grande viagem. E nas páginas de On the Road ele conta tudo: “Eu trabalhava na lavanderia Nova era, em Los Angeles, aí falsifiquei meus papéis e fui até o autódromo de Indiana, que ficava a uns três mil quilômetros, com a determinação expressa de assistir a clássica corrida de Memorial Day, pedindo carona de dia e roubando carros à noite pra ganhar tempo.” E depois: “No outono seguinte, aos 17 anos, refiz o mesmo percurso para assistir o jogo entre Notre Dame e Califórnia em South Bend, Indiana – e tinha apenas a grana para a entrada, nem um centavo a mais, e não comi absolutamente nada na ida e na volta, a não ser o pouco que consegui mendigar de todos os tipos malucos com os quais ia cruzando pela estrada, e das putas também. Fui o único sujeito em todos os Estados Unidos da América que se sujeitou a tamanhas dificuldades somente para assistir um jogo de baseball.”

Mais tarde, Neal pôde percorrer com mais conforto (mas não menos demência) as estradas da América: conseguiu comprar alguns carros, como o lendário e flamante Hudson 49 de uma das viagens de On the Road, ou o Cadillac que ele e Jack deveriam levar de Denver a Chicago (e realmente levaram, só que o reduziram a escombros – “mais parecia uma bota enlatada do que uma limousine flamejante; pagara o preço da noite), ou o velho Ford modelo 1937 com as portas amarradas por uma corda, no qual ambos viajaram para o México na primavera de 1950.

Maior motorista de todos os tempos (“Cody, como qualquer outro motorista que dirigia por aquelas estradas cheias de buracos e tremendamente perigosas, apoiava o cotovelo na janela e, mais do que ninguém dava a impressão de sentir-se particularmente calmo, tranqüilo e à vontade atrás do volante, com seu pescoço grosso, musculoso, erguido e eficiente – como são os pescoços dos grandes motoristas de ônibus – e era assim que eu o via enquanto olhava por cima de seu ombro para a estrada que à noite mostra apenas uma pequena parte de si mesma”, escreveu Kerouac no sublime Visions of Cody sendo que Cody Pomeroy,claro, é Neal Cassady e o livro, a obra suprema da prosa “espontânea” de Jack), Neal continuou na estrada mesmo depois que Kerouac careteou de vez.

Tornou-se chofer do ônibus mais alucinado de todos os tempos: o ônibus pintado com a bandeira dos Estados Unidos no qual viajavam o escritor Ken (Um estranho no ninho) Kensey e seus Merry Pranksters, além do conjunto Greatful Dead, dando concertos gratuitos e promovendo coloridíssimos happeanings, nos quais aproveitavam para distribuir ácido para todos os participantes, graciosamente.

No dia 4 de fevereiro de 1968, pouco antes de completar 42 anos, Neal Cassady foi encontrado estendido à beira dos trilhos de trem, no deserto mexicano. Misturara (propositadamente?) uma dose descomunal de álcool e anfetaminas. Quando o encontraram, “era puro espírito já.” Foi uma morte bastante diferente daquela que, setenta e seis anos antes levara o maior poeta da América.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 1

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Depois do último post sobre o Kerouac resolvi mergulhar ainda mais na literatura beat e já li tanta coisa interessante que nem sei por onde começar. E tudo tem tanto a ver com a proposta do Odepórica que me dá vontade de ficar o dia inteiro lendo, escrevendo, viajando.... muito bom mesmo, mas é preciso manter um foco, paciência, então vou começar com um texto que vou postar em três partes, um texto muito gostoso de ler – e muito visual, você irá perceber.

O autor: Eduardo Bueno, jornalista e escritor gaúcho, que carrega no currículo a belezura de haver traduzido em 1984, junto com A. Bivar o clássico On the road, nosso Pé na estrada. E pensar que o Brasil demorou tanto tempo para ler Kerouac, um espanto isso. Para nossa sorte e comodidade, Bueno é apaixonado pela cena beat e você encontrará muita coisa traduzida por ele na literatura beat publicada aqui pela L&PM.

A obra: Alma beat: ensaios sobre a geração beat, editada no inverno de 1984 pela L&PM, claro, uma coletânea com artigos de vários escritores, que cito a seguir porque merecem: Antonio Bivar, Cláudio Willer, Eduardo Bueno, Leonardo Fróes, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e Roberto Muggiati. Todos com textos muito originais, com fotos e breves biografias dos autores da geração beat. Foríssima de catálogo, uma pena, o jeito é sebar. Recomendadíssima para os amantes da literatura beat.

Na estrada da beatitude

“Qual a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada da droga, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em algum lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância.” (Neal Cassady)

Visões da América. Refinarias fumegando sob estrelas opacas da noite industrial, água oleosa de rio poluído sem peixes refletindo o céu rubro do entardecer, longas retas de estradas desertas conduzindo em direção a montanhas purpúreas que pertencem a outros estados, imensos céus azuis cristalinos com nuvens brancas silenciosas acima das macieiras carregadas, garota loira gorda de jeans montada num cavalo marrom no acostamento ensolarado à beira da estrada onde uma enorme jamanta vermelho metálico passa levantando poeira e agitando os tufos de capim do deserto escaldante; velhos restaurantes de beira de estrada com a grelha gordurosa fritando hamburgers, e bacon, e ovos sob luz de néon esverdeada na noite cálida do sul da Califórnia; ratos percorrendo caminhos de terra nos fundos de um posto de gasolina onde cães assassinos rosnam por trás de cercas de arame farpado; vagabundos maltrapilhos tomando café numa lata junto a uma fogueira próxima aos trilhos do trem ao lado de um imenso silo amarelo de zinco; luzes e sirenes de viaturas policiais brilhando/zumbindo no silêncio morto da noite como se estivessem fugindo de algum crime inconfessável; um índio parado ao lado de uma máquina de fliperama numa estação rodoviária com o piso recoberto de tickets, baganas e saliva (provocando aquela melancolia que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir), andarilhos desamparados de rosto fino e nariz aquilino cruzando e tornando a cruzar o país – para o sul no inverno, rumo ao norte no verão – carregando um pequeno pedaço de papel amassado com a imagem de Santa Teresa num dos bolsos da mochila. Policiais de óculos escuros e botas reluzentes e rosto macilento aguardando soturnos, sombrios e insondáveis em postos fronteiriços palitando os dentes no calor abafado do meio-dia; um grupo de índios Omaha, pequenos e mirrados, prostados à beira da estrada, com olhos fixos e vazios, acocorados sob a chuva fina, perdidos na imensidão descolorida, sem ter para onde ir ou o que fazer...

Eis aí o que buscavam os beats em sua peregrinação: visões da América ao longo dos caminhos, estradas e trilhas. “Todas essas caronas, todo esse sacolejar ferroviário, todos esses regressos eternos à América!” Longas loucas cenas americanas que pareciam estar ali à espera desde sempre, à margem da super-freeway rasgando o coração industrial de alguma grande cidade da costa Leste, ao lado de extensas estradas de duas pistas cruzando desertos de areia e artemísia, nas trilhas secundárias e tortuosas entre montanhas de pico nevado.

Um bando de garotos inquietos, universitários de saco cheio, intelectuais avessos aos gabinetes e seu imenso país continental com um apelo irresistível: “Toda aquela terra crua e rude se esparramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, e todas as pessoas sonhando nessa imensidão enquanto a estrela do entardecer vai caindo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria...” profetizava Jack Kerouac no final nostálgico, melancólico de On the road, ao pensar em Dean Moriarty, e também no velho Dean Moriarty (o pai que ele e Neal “Dean” Cassady jamais encontraram), ambos perdidos na “pavorosa imensidão da América...”

A estrada dos loucos

Jack, como se sabe, não foi o mais estradeiro dos beats. Mas sem dúvida foi quem criou a mística literária da estrada e incorporou-a definitivamente à narrativa beat. Nunca chegou a viajar tanto quanto gostaria (ou quanto geralmente se imagina que tenha viajado). Além das rotas de On the Road (quatro viagens entre julho de 1947 e abril de 1950, pelo grande triângulo Nova York-San Francisco-Cidade do México, com constantes paradas em Denver, Colorado), houve poucas aventuras estradeiras na vida de Kerouac.

Mesmo antes de virar um barrigudo meio reacionário tomando cerveja e vendo TV na casa da mãe em Massachussets, Jack já tinha abandonado as caronas. Até 1959, porém, continuava tomando velhos ônibus de segunda classe, ou utilizando seus passes ferroviários em pesados e escuros trens de carga, (ou às vezes embarcando num cargueiro lerdo em direção ao Marrocos e a Europa). Esteve várias vezes na Califórnia e no México (onde escreveu Doctor Sax, México City Blues, Tristessa e Desolation Angels). Em Lonesome Traveler, descreve sua “viagem épica” até lá, mais de três mil quilômetros num ônibus “que era uma lata velha, alto e frágil, com os bancos de madeira e passageiros de poncho e chapéu de palha com suas cabras ou porcos ou galinhas, avançando aos trancos e solavancos por uma interminável estrada de terra com breves paradas para desentorpecer as pernas nas cabanas do deserto de Sonora onde grandes índias gordas cozinham tortillas em fogões de pedra enquanto eu aproveitava pra fumar um baseado escondido nos fundos das estações rodoviárias, entre os cactus, acocorado no chão poeirento sob o sol abrasador.”

Mas de carona mesmo, Kerouac fez apenas uma grande viagem: a de Nova York a Denver, e a descreve em ínfimos detalhes nos capítulos 2 a 9 de On the Road. Aos 25 anos, de saco cheio da escola (“minha vida de vagabundagem pelo campus tinha completado seu ciclo e já não significava nada para mim”), recém-curado de “uma doença séria, da qual nem vale a pena falar” e com o “sentimento de que tudo estava morto”, Jack encontrou-se pela primeira vez com o já lendário Neal Cassady, de 21 anos, na época “um delinqüente juvenil envolto em mistério” e que tinha larga experiência pelas estradas da América. Das conversações intermináveis pelos túneis, ruas, cais de Nova York, explode em Kerouac o desejo irresistível de finalmente cair na estrada. “Mais tarde ele (Neal) me abandonaria em sarjetas famintas e camas enfermas, mas o que me importava? Eu era um jovem escritor e tudo o que eu queria era cair fora. Em algum lugar, ao longo da estrada, eu sabia que haveria garotas, visões e tudo mais; em algum lugar a pérola me seria ofertada.”

E assim, em julho de 1947, com 50 dólares no bolso, Kerouac caiu fora em direção à dourada Costa Oeste, a seis mil quilômetros de distância. E o que narra então faz bater os corações (estradeiros ou não) ainda hoje, trinta anos depois que o livro foi escrito e quase quarenta depois de suas cenas terem sido vividas.