domingo, 3 de janeiro de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: o Livro das Maravilhas, de Marco Polo

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O Livro das Maravilhas é o nome popular de um dos grandes clássicos da literatura odepórica, Il Milione, obra que retrata as grandes viagens empreendidas por Marco Polo no século XIII. O termo italiano “Milione”, segundo alguns estudiosos, pode ter uma origem jocosa (“um milhão de mentiras”) ou então pode derivar do nome pelo qual Marco Polo era chamado em sua família, “Emilione”.


Sabe-se que Marco Polo ditou as histórias selecionadas nessa obra a um escritor chamado Rustichello de Pisa, durante o par de anos que passou numa prisão em Gênova.


Suas viagens estão divididas em quatro livros, de acordo com o manuscrito original desaparecido: o Livro Um descreve as terras do Oriente Médio e da Ásia Central que Marco encontrou no seu caminho à China; o Livro Dois descreve a China e a corte de Kublai Khan; o Livro Três descreve algumas regiões do Oriente tais como o Japão, Índia, Sri Lanka, Sudeste Asiático e a costa leste da África. Finalmente, o Livro Quatro traz o relato das guerras recentes entre os mongóis e algumas das regiões do extremo norte, como a Rússia.


Separei para este post uma matéria publicada na Revista Planeta, (edição 429, Junho de 2008) que traz um panorama das aventuras de Marco Polo e serve muito bem como introdução à leitura dessa obra singular; o link no final dessa postagem, além de trazer a matéria aqui publicada, agrega outras informações muito interessantes, entre elas o desenho de um mapa com todos os locais pelos quais Marco Polo e sua família perambularam. Apenas uma passada de olhos basta para você se convencer de que só mesmo um aventureiro muito louco poderia empreender tamanha aventura. Buon Viaggio.


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MARCO POLO - O caçador de maravilhas


Primeiro dos grandes viajantes ocidentais, o veneziano Marco Polo encantou um sem-número de leitores com suas aventuras. O Livro das Maravilhas, no qual ele descreve suas peripécias no Oriente, até hoje influencia autores de livros de viagem.


Os empresários ocidentais que viajam à China de olho nas prodigiosas riquezas que podem trazer de lá refazem, de certo modo, uma jornada ocorrida mais de sete séculos atrás. Foi naquela época que os Polo - os irmãos Matteo e Niccolo e o filho deste último, Marco - cruzaram a Ásia para serem acolhidos na corte do imperador Kublai Khan. Pioneiros na literatura de viagem, os relatos de Marco, reunidos no volume O Livro das Maravilhas, viraram um best-seller em sua época, e têm seduzido leitores de tal forma que um deles - Cristóvão Colombo - acabou por descobrir a América na ânsia de chegar à China.


É fato, porém, que a obra de Marco sempre esteve sob algum tipo de suspeita, em especial nos primeiros séculos. Basta lembrar que, quando foi lançada, ela era chamada Livro do Milhão de Maravilhas do Mundo (nome de uma máscara usada no carnaval de Veneza, "Milhão" representava o contador de mentiras). Há dúvidas ainda sobre a real autoria do livro: para alguns, quem o escreveu foi o trovador Rustichello de Pisa, com quem Marco dividiu uma cela por um ano. Mas, tenha sido Marco o autor ou apenas o narrador, e seja ou não um amontoado de mentiras, o fato é que a obra sobreviveu aos séculos e até hoje é lida com prazer por pessoas dos mais variados cantos do mundo.


Marco Polo nasceu em março de 1254, de uma família de nobres originária da costa da Dalmácia. Não se sabe se o local exato foi a ilha de Curzola, onde os Polo tinham um comércio, ou em Veneza. O certo é que ele foi educado na cidade dos canais, o grande centro comercial do Mediterrâneo na época.


Quando Marco tinha 6 anos, Niccolo e Matteo lançaram-se numa arrojada viagem comercial para o leste. O objetivo era Surai, às margens do rio Volga, onde os irmãos fizeram negócios por um ano. Quando pretendiam voltar, porém, uma guerra entre dois governantes mongóis, Mangu e Hulagu, levou-os a fazer um imenso desvio até Bukhara (no atual Usbequistão), onde ficaram retidos por três anos.


Quem os salvou foi um emissário de Hulagu no Ocidente. Mas ele não facilitou seu retorno a Veneza; em vez disso, convenceu-os de que Kublai Khan - neto de Gêngis Khan, irmão de Mangu e imperador de Catai (China) - nunca vira um ocidental e adoraria conhecer um. Estimulados pela aventura, os Polo passaram por Samarcanda, Kashgar, pelo temível deserto de Gobi e, em 1266, chegaram à capital, Cambaluc (Pequim), para encontrar Kublai Khan.


O imperador crivou os irmãos de perguntas sobre sua região do mundo, a Igreja cristã e o papa. Fluentes em dialetos turcos, os Polo responderam a todas as questões de modo claro, e com isso conquistaram a simpatia de Kublai. Depois de um ano na corte chinesa, eles voltaram à Europa com uma carta do imperador ao papa Clemente IV, na qual o remetente solicitava o envio de 100 estudiosos para ensinar aos chineses o cristianismo e a ciência praticada no Ocidente, além de óleo do Santo Sepulcro.


Os Polo chegaram a Veneza em 1269. A esposa de Niccolo havia falecido, e seu filho Marco, aos 15 anos, já tinha uma educação impecável para a época: lera a Bíblia e os autores clássicos, conhecia teologia cristã e falava francês e italiano. Além disso, demonstrava enorme interesse por pessoas, flora, fauna e recursos naturais.


Quando, no fim de 1271, Niccolo e Matteo receberam cartas e presentes do novo papa, Gregório X, para Kublai Khan, não tiveram dúvidas: Marco deveria ir à China com eles. Os três seguiram um caminho diferente do anterior, cruzando a Armênia e a Pérsia e descendo até o Golfo Pérsico a fim de conseguir um barco que os levasse à China. Mas acharam as embarcações tão frágeis que voltaram para o norte, passando pelo litoral do Mar Cáspio, o Afeganistão, o planalto de Pamir e a Rota da Seda.


O grupo chegou ao palácio de verão de Kublai Khan, em Shangtu, em maio de 1275, e logo depois foi levado ao palácio de inverno, em Pequim. Niccolo e Matteo entregaram os presentes enviados pelo papa, recebidos com enorme satisfação, e só depois disso Kublai notou o rapaz que os acompanhava. Niccolo apresentou-o como seu filho e vassalo do Khan.


Kublai concedeu aos Polo o status de nobres de sua corte. Hábil no aprendizado de línguas, o jovem Marco logo se tornou um dos preferidos do imperador e foi incumbido por ele de várias missões, na própria China, na Birmânia e na Índia. Ao longo desse período, ele pôde conhecer bem o país e seu povo.



Marco descreveu a China de Kublai Khan como uma potência econômica e militar muito mais relevante do que a Europa. Exemplos disso eram sua produção de ferro (cerca de 125 mil toneladas anuais, marca que os europeus só alcançariam cinco séculos depois) e de sal (uma única província obtinha 30 mil toneladas de sal por ano). Um amplo sistema de transporte baseado em canais ligava mercados e cidades chineses, e um correio eficiente permitia que uma correspondência imperial percorresse até 500 quilômetros num dia. O uso de papel-moeda na economia local deixou atônitos os comerciantes venezianos.



Outros detalhes que chamaram a atenção de Marco foram o emprego disseminado de carvão para aquecimento e as roupas de amianto. O carvão já era usado na Europa naquela época, mas pelo visto Marco o desconhecia. Graças ao produto, qualquer chinês - um povo bem asseado, segundo o veneziano - podia ter seu próprio banheiro em casa. A resistência das roupas de amianto ao fogo surpreendeu tanto os Polo que eles trouxeram duas peças para o papa.



Niccolo, Matteo e Marco passaram 17 anos na corte de Kublai Khan, durante os quais acumularam muitas riquezas. Só decidiram voltar à Europa quando sentiram que Kublai, já perto dos 80 anos, não teria muito tempo de vida. Relutante, o soberano chinês deixou-os partir, como escolta de uma princesa mongol que iria se casar com um príncipe persa.


A volta durou três anos, incluindo uma longa viagem de navio (na qual centenas de passageiros e tripulantes morreram por causas desconhecidas) e um percurso por terra de Ormuz, no Golfo Pérsico, até o Mar Negro, dali a Constantinopla e enfim a Veneza, onde chegaram no inverno de 1295. De início, os viajantes, barbudos e com roupas esfarrapadas, não foram reconhecidos pelos familiares. Niccolo, Matteo e Marco decidiram então convidá-los para um banquete, no qual deram uma exibição incontestável de riqueza - suas roupas de viagem traziam, costuradas nas barras, uma imensa quantidade de jóias e pedras preciosas. Imediatamente, segundo Giovanni Ramusio (1485-1557), que escreveu sobre os Polo, o grupo de convidados "lhes devotou sinais de estima e de respeito".



Marco envolveu-se na política local e, quando Veneza e Gênova entraram em guerra, em 1296, armou uma galera de combate e comandou a na batalha entre as duas frotas perto da ilha de Curzola. Os venezianos foram derrotados, e Marco, levado para uma prisão genovesa, onde passou três anos. Foi lá que ele conheceu Rustichello de Pisa, e desse encontro saiu o livro que até hoje mobiliza o imaginário ocidental.


Marco morreu no início de 1324, aos 69 anos. Pouco antes de falecer, teria dito que todos os detalhes de seu livro eram verdadeiros, e que não descrevera nem a metade do que havia visto. Mas, pelo menos até o século 16, quando os portugueses se instalaram em Macau, o Livro das Maravilhas era lido mais como diversão. A revisão da obra só começou a ser feita no século 19, com edições críticas e avaliação de seu conteúdo científico. Os relatos foram comparados com fontes chinesas e validados. O resgate mais valioso da credibilidade de Marco veio com a viagem do pesquisador Paul Pelliot entre 1906 e 1908 pelo trajeto indicado pelos Polo, que confirmou muitas das informações descritas.



O link para esta matéria no site da Revista Planeta:


http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/429/artigo93065-1.htm


Se você se interessou em ler as aventuras desse explorador italiano, saiba que há muitas edições publicadas no Brasil, com diversas traduções e adaptações. Com bom preço, procure as editadas pela Martin Claret (As viagens “Il Milione”), pela L&PM (O Livro das Maravilhas) e pela Martins Fontes (As viagens).

14 comentários :

  1. Oi Paulo, fiquei encantada com esta matéria. Vou procurar saber mais, valeu! bjs, Pá

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  2. Eba, quero sim. Obrigada! Mais bjs. Pá

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  3. nunca tinha me enteressado por historia ;mais confesso que ao ler as aventuras de MARCO passei a gostar .foi uma horra conhecer essa fantastica història... VALEUUUUUUUU

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  4. Que legal, Nina, fiquei feliz em saber que o tema lhe tocou. Sempre há um tempo certo para tudo na vida, incluindo nossas leituras, não é mesmo? Namastê! pc

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  5. Acabei de ler uma adaptação do livro comentado, com o título de "Marco Polo e Sua Maravilhosa Viagem à China - Janis Herbet".
    O livro foi adotado como paradidático na escola do meu filho, adolescente. Gostei tanto que pedi "O Livro das Maravilhas da L&PM".
    Buscando os títulos da obra comentada, encontrei seu Blog com o post. Ótimo texto, um incentivo a boa leitura. Parabéns!

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  6. Valeu, Rômulo! Apareça sempre! Saludos peregrinos, paulo

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  7. olá, sou uma diletante medievalista e vc me deu boas referências, o artigo é ótimo, obrigada!

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  8. Prabéns!!! A partir de hoje, vou seguir nessa aventura
    .obrigado pelas palavras.

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  9. Meus caros, eu tinha aproximadamente de 9 a 12 anos quando li este livro: As viagens de Marco polo, confesso que me influenciei muito com as narrativas do livro e considero que foi um dos mais emocionantes que já li

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    1. Concordo contigo, FJF! Saudações peregrinas!

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