domingo, 7 de fevereiro de 2010

Na Patagônia, by Bruce Chatwin

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Bruce Chatwin by Shawn Yu: http://gumkid.blogspot.com/

Eis um livro que podemos classificar como um marco na literatura odepórica moderna: Na Patagônia, de Bruce Chatwin. Publicado em 1977 (no Brasil a primeira edição veio em 1988) foi a primeira obra escrita pelo autor inglês e a que o consolidou como um dos grandes travel writers britânicos de todos os tempos.

O que diferencia essa obra de tantas outras narrativas de viagem? Algumas particularidades, entre elas a habilidade de Chatwin em misturar em seu relato de viagem a ficção com a realidade; essa obra marca um novo olhar sobre os relatos de viagem, onde o narrador sente-se livre para interpretar aquilo que vê e vivencia sem se prender à realidade absoluta das circunstâncias. É claro que isso, em algum momento, poderá desagradar algumas pessoas, particularmente aquelas que fazem parte da história, como de fato aconteceu com Chatwin (alguns dos personagens entrevistados disseram mais tarde que suas conversas com o escritor não aconteceram da forma como foram relatadas).

Na introdução da edição norte-americana (In Patagonia, Penguin Classics), escrita por seu biógrafo Nicholas Shakespeare, lemos que Bruce Chatwin pediu a seu agente nos Estados Unidos para que seu livro não figurasse nas prateleiras como literatura de viagem. Isso nos dá a certeza de que, à parte a importância crucial da viagem em sua narrativa, Chatwin enxergava seu trabalho como algo além da viagem propriamente dita, não por considerar um relato de viagem algo menor, mas por temer que um futuro leitor compreendesse mal o escopo da obra.

Para Chatwin existem algumas chaves de leitura para que se possa captar melhor o propósito de sua obra. Para ele, a Patagônia é o lugar mais distante que o homem caminhou desde o seu local de origem, sendo por essa razão um símbolo de inquietação, de desassossego. Na opinião de Chatwin, a descoberta da Patagônia teve o mesmo efeito na imaginação do homem que a chegada à lua, de forma ainda mais poderosa.

O autor quis deixar o leitor escolher entre duas jornadas: uma à Patagônia em 1975, e a outra “uma viagem simbólica que é uma meditação sobre a inquietude do ser e o exílio”. Todas as histórias foram escolhidas com o propósito de ilustrar algum efeito particular de perambulação e/ou de exílio, isto é, o que acontece quando você fica empacado em algum lugar, impedido de prosseguir seu caminho.

Em outras palavras: a jornada é uma metáfora. E a própria Patagônia, também ela, outra metáfora impactante.

E voltando a falar das particularidades que fazem dessa obra um marco da odepórica, temos o papel fundamental das pessoas que são muitas e que aparecem ao longo de toda a narrativa: há gente de todos os tipos, pessoas sem raízes, fugitivos, foras da lei, exilados ingleses, contadores de histórias, donos de bares sujos de beira de estrada, malucos... de tudo um pouco, e essa mistura de caracteres é o que da a alma a esse texto. Além disso, Bruce Chatwin é um excelente escritor, erudito na medida certa, equilibrado na seriedade e no humor; algumas passagens são primorosas no ato da descrição narrativa, como a cena que você irá ler a seguir:

“O trem começou a andar após dois assovios e um solavanco. Emas saltavam dos trilhos conforme passávamos, suas penas ondulando como fumaça. As montanhas estavam cinza, e a cerração provocada pelo calor as fazia reverberar. De quando em quando um caminhão deixava para trás uma nuvem de poeira na linha do horizonte. (...) Os povoados dos índios se espalhavam ao longo da estrada de ferro, obedecendo ao princípio de que um bêbado sempre poderia chegar em casa. Quando o trem parou na estação do índio, este desceu, trocando as pernas e agarrado à garrafa de gim quase vazia. Em torno dos barracos, garrafas quebradas brilhavam à luz pálida do sol. Um garoto de blusão amarelo se levantou e ajudou o bêbado a andar. Um cachorro, que estava deitado na entrada de um barraco, correu e lambeu todo o rosto dele.”

O começo dessa longa jornada de seis meses pela Patagônia teve início na infância do autor. O escritor puxa pela memória o gatilho de sua paixão pelas distantes terras um dia visitadas pelo primo de sua avó, um marinheiro chamado Charley Milward:

“Na sala de jantar da minha avó havia um armário com porta de vidro e, dentro dele, um pedaço de pele. Não passava de um pedacinho, mas era espesso e áspero, com tufos de um pêlo avermelhado, grosso. Estava pregado a um cartão por um alfinete enferrujado. No cartão havia alguma coisa escrita com tinta preta esmaecida, mas eu era então criança demais para ler.
‘Que é isso?’
‘Um pedaço de brontossauro. ’
Minha mãe conhecia de nome dois animais pré-históricos, o brontossauro e o mamute. Ela sabia que não era um mamute. Os mamutes vêm da Sibéria. (...) Aquele brontossauro específico viera da Patagônia, região da América do Sul, no outro extremo do mundo.”

E assim, de forma bem humorada, Chatwin nos carrega à Patagônia, a princípio em busca de algum sinal daquele animal pré-histórico que marcou sua infância, que logo saberemos não ser um brontossauro, mas um milodonte, ou um preguiça-gigante.

Você tem em mãos, ao ler Na Patagônia, uma obra de trezentas páginas com cerca de cem capítulos, o que dá uma média de três páginas por capítulo. Praticamente, cada capítulo traz uma história, embora algumas delas, como a de Butch Cassidy (pois irá descobrir que o lendário fora da lei andou por lá) ganhem mais espaço. Nessas andanças todas, Bruce Chatwin conhece, como já dissemos, muitas pessoas, como se fosse uma brincadeira daquelas em que uma pedra de dominó derruba outra, que derruba outra, até que todas tenham sido derrubadas, sabe como é? Mas não descobrimos, porque o autor não esclarece, como ele chegou até essas personagens cheias de histórias, nem como ele fazia, com algumas exceções, para ir de um lugar a outro (a pé, a cavalo, de trem, de carro, de bicicleta?), quanto tempo levava, como se virava com o idioma já que não dominava o espanhol, detalhes que gostaríamos de saber se um dia tivéssemos a oportunidade de conversar com ele. Detalhes que não constituem uma falha, que fique claro. O lance aqui, como já ficou esclarecido lá atrás, não é a viagem em si, mas as pessoas que encontramos pelos caminhos, certo?

Veja um exemplo disso nessa pequena passagem, quando o viajante se encontra com um poeta:

“O poeta morava na beira de um solitário curso de água, em meio a um luxuriante pomar de abricoteiros, sozinho numa casinha de dois quartos. Tinha sido professor de literatura em Buenos Aires. Chegara na Patagônia havia quarenta anos e ali ficara. Bati na porta, e ele acordou. Garoava, e, enquanto ele se vestia, me abriguei no alpendre e observei sua colônia de sapos de estimação. Seus dedos agarraram meu braço com força. Ele me encarou com um olhar intenso e luminoso. ‘Patagônia!’, exclamou. ‘É uma amante exigente. Ela enfeitiça. É uma sedutora! Envolve-nos em seus braços e nunca mais nos solta.’ A chuva tamborilava no telhado de zinco. Durante as duas horas que se seguiram o poeta foi minha Patagônia.”

Em Rio Pico, o autor se hospeda num hotel administrado por uma família judia “a quem faltavam as mais elementares noções de lucro”, segundo suas palavras. Aqui o bom humor vem com tudo:

“Na manhã seguinte tive uma tremenda discussão por causa da conta.
‘Quanto lhe devo?’
‘Nada. Se o senhor não tivesse dormido no quarto, ninguém mais dormiria. ’
‘E quanto foi o jantar?’
‘Nada. Como poderíamos saber que o senhor viria? Cozinhamos para nós mesmos. ’
‘Então, quanto foi o vinho?’
‘Sempre oferecemos vinho às visitas. ’
‘E o chimarrão?’
‘Ninguém paga pelo chimarrão. ’
‘Mas então o que posso pagar? Só restam o pão e o café. ’
‘O pão não posso cobrar, mas café com leite é uma bebida de gringo, e isso o senhor vai pagar.’ ”

Em meio a diálogos como esse, o autor intercala passagens históricas e lendárias relacionadas aos lugares pelos quais vai deambulando, e isso contribui muito para que se crie em nossa mente o imaginário de uma Patagônia quase mítica, como se essa região do planeta fosse de fato um fim de mundo para onde se dirigem todos os exilados do planeta, para onde vão aqueles que já não encontram mais seu espaço na sociedade. Para esses, a vida só tem sentido na solidão, entendida aqui em seus aspectos mais diversificados (geográfica, social, familiar, espiritual...). Uma obra grandiosa, Na Patagônia é uma lição para quem quiser aprender como escrever um relato de viagem com muito estilo e categoria.

“Esta manhã não tenho nenhuma religião em especial. Meu Deus é o Deus dos Caminhantes. Se alguém caminhar o suficiente, é bem provável que não necessite de nenhum outro Deus.”


Bruce Chatwin faleceu em 1989, aos 48 anos de idade. Escreveu cinco obras, todas elas lançadas no Brasil pela Companhia das Letras:

Colina Negra (2005)
O Rastro dos Cantos (1996)
Utz (1990)
Na Patagônia (1988)
Vice-Rei de Uidá (1987)

A página do escritor na internet pode ser acessada aqui.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, gostei da forma que o Bruce Chatwin escreve, é o estilo que prezo. A passagem do Hotel em Rio Pico é divertida, vamos p/ lá? Também fiquei deslumbrada com as ilustrações do Shawn Yu. Beijocas, Paula

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  2. Oi Pá! Conhecer a Patagônia é um sonho antigo, quem sabe um dia! Entrei no site do ilustrador depois de ler o seu coment, adorei as pinturas de bules que ele fez, sensacionais. Veja que mexi nos marcadores...obrigado pelo help! Beijins, pc

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  3. Oi, gostei, ajudou-me a fazer o trabalho de português! Obrigada!!!!

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