terça-feira, 29 de junho de 2010

O deserto dentro de nós, by Miguel Sousa Tavares

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Há algum tempo venho colecionando textos sobre desertos, e sempre que puder irei postar algo sobre o tema por aqui. Acho os desertos fascinantes e dentro desse universo das viagens não consigo encontrar metáfora mais poderosa. O Jean Chevalier e o Alain Gheerbrant, que publicaram o Dicionário de Símbolos, um livro que se-você-não-tem-deveria-ter, escreveram o seguinte sobre o simbolismo do deserto (vou pular várias passagens):

“O deserto comporta dois sentidos simbólicos essenciais: é a indiferenciação inicial ou a extensão superficial, estéril, debaixo da qual tem de ser procurada a Realidade.”

“No esoterismo ismaélico, o deserto é o seu exterior, o corpo, o mundo, o literalismo, que a pessoa percorre cegamente, sem perceber o Ser divino escondido no interior dessas aparências. Aliás, o deserto, segundo Mateus, é povoado de demônios. Já para um Richard de Saint-Victor, o deserto, muito pelo contrário, é o coração, o lugar da vida eremítica interiorizada.”

“É por isso que os monges do cristianismo posterior se retiraram para o deserto como os eremitas (deserto se diz, em grego, eremos), para afrontar, aí, a sua natureza e a do mundo unicamente com a ajuda de Deus. O conteúdo simbólico do termo aparece muito bem aí, pois logo se deixou de achar necessário ir materialmente para o deserto, a fim de levar uma vida de eremita.”

Com isso já dá para ter uma idéia mais bacana do potencial revelador que o deserto carrega dentro de uma perspectiva simbólica. Imagine então o poder disso tudo agregado à experiência prática, que coisa maravilhosa e transformadora deve ser, não?

Nunca estive num deserto de verdade, mas posso dizer que já tive um aperitivo dessa aventura nas mesetas espanholas algumas vezes, na condição de peregrino jacobeo. Não é para qualquer um, ainda mais se a caminhada for solitária e as condições climáticas não ajudarem. Mas depois que passa (às vezes bem depois), é uma alegria só; fica marcada na alma para sempre a sensação de haver conseguido chegar ao destino, de vencer obstáculos, sejam estes físicos ou psicológicos, porque dos dois há.

Claro, nada que se compare a uma verdadeira viagem por um deserto imenso, de proporções saarianas, mas a gente faz o que pode com aquilo que a vida nos proporciona, certo? Vale mesmo é a entrega e a vontade de acrescentar algo novo à experiência do viajante.

E por falar em viajante, vou transcrever um trecho pequeno e gostoso de ler que tirei de uma revista publicada pela Folha de São Paulo em 28 de maio passado, intitulada Lugar, com vários artigos bacanas, um deles do escritor e jornalista português, Miguel Sousa Tavares, autor de No teu deserto, lançado aqui pela Companhia das Letras.

O texto do Miguel é o que abre a edição e leva o título, muito sugestivo, de “O deserto dentro de nós”. Vale a pena lê-lo todo, mas postarei aqui a parte de que mais gostei e que diz o seguinte:


“Os verdadeiros viajantes de deserto nunca mais regressaram. Os que não ficaram ou não morreram lá trouxeram consigo o deserto para suas vidas e espalharam à sua volta a incompreensão alheia e a solidão própria. Rimbaud, Isabelle Eberhardt, T.E. Lawrence, Charles de Foucauld – todos os alucinados do deserto carregaram consigo esse desespero, essa solidão sem remédio, esse segredo impartilhável, de quem conheceu o vazio e o absoluto e nunca mais encontrou o caminho de regresso.

Desde sempre, o deserto fascinou os fotógrafos. O desejo de captar o indizível, esse absoluto feito de vazio, essa imensa solidão das pedras e das dunas, torna a fotografia uma compulsão, uma desesperada tentativa de testemunho daquilo que se viu. Como não encontramos palavras nem o desejo delas, fotografamos – na esperança vã de que uma imagem revelada possa revelar tudo o que vimos. Nas minhas primeiras viagens ao deserto também eu fotografei e filmei, sem tréguas nem ordem, caoticamente. No regresso, olhando as imagens, vi que só tinha trazido comigo paisagens – algumas lindas, deslumbrantes, fazendo sonhar os amigos e toda a gente. Mas eu sabia, sempre soube, que é a viagem interior que verdadeiramente conta – a solidão, o medo, o desespero, o desejo de voltar a casa, o cansaço, o vazio, o excesso e a ausência de tudo.

Hoje, quando vou ao deserto, já nem me preocupo em fotografar: só me preocupo em olhar e sentir, sabendo que o que vejo e o que sinto viajarão comigo para sempre, como uma espécie de revelação que nenhuma imagem revelada alguma vez conseguirá descrever.

E, todavia, guardo e acumulo todos os livros sobre o deserto que encontro e olho, vezes sem fim, as fotografias dos livros. E, quanto mais olho, mais desejo voltar lá, porque estas imagens chamam por todos aqueles que sabem ou sentem que o melhor de nós exige uma paisagem como aquela, um lugar como o da Criação do Mundo, onde nada nos distraia nem iluda, onde estamos a sós com os elementos e não nos gastamos aos poucos por entre as ciladas do mundo.

Sem imagens, eu tento com palavras dar o mesmo testemunho que dão os fotógrafos do deserto. Porque, embora sabendo que jamais conseguiremos ser fiéis à evidência do deserto, é preciso dar testemunho para que outros possam também ensaiar esta viagem primordial. Porque ninguém deveria morrer sem ter visto pelo menos uma vez o deserto.” (Miguel Sousa Tavares)


Foto 1: http://www.zhotfire.com/gallery/gallery1/desert_morn_1024.jpg Foto 2:http://www.zhotfire.com/gallery/gallery7/desert_darlings.jpg

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