quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Notícias de um país distante, by Christian Schwartz (Gazeta do Povo)

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Foi publicada no jornal paranaense Gazeta do Povo, uma excelente matéria intitulada Notícias de um país distante, assinada por Christian Schwartz, que brinda o leitor com um texto de alta qualidade, tanto pela escrita quanto pelas fontes por ele utilizadas.


Schwartz conseguiu fazer uma abordagem muito clara sobre a literatura odepórica (o jornalista adota o termo inglês travel writing) apresentando alguns autores pontuais dentro desse gênero ainda pouco tradicional em nosso país, como ele mesmo notou, além de levantar questões fundamentais sobre a literatura odepórica tais como: Existe futuro para a literatura de viagem? Existe algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet?

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Vou postar a reportagem na íntegra; os três primeiros textos são de Christian Schwartz e o último, intitulado Saint-Hilaire e as trilhas da identidade foi escrito por Marcelo Lima, que publicou um livro que leva o mesmo título de seu artigo e que parece ser interessantíssimo levando-se em conta a riqueza de informações encontrada na matéria que você irá ler aqui no Odepórica. Boa viagem.

Notícias de um país distante


Livros de viagem, que antes se ocupavam de falar dos lugares, cada vez mais se voltam para os relatos que tratam de pessoas.



Publicado em 16/01/2010 Christian Schwartz, especial para a Gazeta do Povo

É tempo de viajar. Aeroportos e rodoviárias abarrotados, destinos turísticos tentando comportar o dobro ou o triplo de sua população normal, cada vez mais gente pegando a estrada: por terra mesmo, mas também por céus e, por que não, mares – na onda dos cruzeiros a preços acessíveis até à chamada “classe C emergente”.


Mas houve época em que ir conferir in loco a boa-nova de terras distantes era impossível, ou coisa para muito poucos.


Em lugar do guia de viagem de hoje – livros de utilidade prática que pressupõem a repetição de um percurso e se dedicam a facilitar a vida de quem vai fazer o mesmo passeio de um “desbravador” – havia o relato de viagem, que não se limitava, vale dizer, ao diário de bordo. Toda uma tradição se formou em torno do que, em inglês, passou a se chamar travel writing. Nasciam um tipo de autor e um gênero de texto: os aventurosos escritores-viajantes e sua colorida literatura de viagem, cheia de imaginação, pois era preciso deslumbrar um leitor que jamais botaria os pés naqueles mesmos lugares.


A tradição remonta aos gregos – e o que mais é a Odisséia, de Homero, senão uma jornada por terras distantes? – e às peregrinações de Abraão no Velho Testamento, com escalas obrigatórias no Oriente dos épicos de Gilgamesh e Mahabharata, ou ainda nos relatos de grandes aventureiros como Marco Polo e os descobridores portugueses e espanhóis – basta lembrar os diários sobre o Novo Mundo deixados por um Pero Vaz de Caminha ou um Américo Vespúcio.


Os séculos seguintes foram de exploração das colônias por seus respectivos impérios. E, particularmente entre franceses e ingleses, surge a figura do escritor-viajante munido de curiosidade científica – não à toa muitos naturalistas, como Saint-Hilaire em sua passagem pelo Brasil, e até mesmo Darwin deram suas “voltas ao mundo” para desbravar novas paisagens e espécies. Deixaram o tipo de relato que pode ser considerado ancestral direto do que viriam a fazer – ou, em alguns casos, já começavam a publicar – aventureiros típicos do século 19 e início do 20.


Essa literatura de viagem que tem um pouco de antropologia, outro tanto de cartografia – afinal, nem todos os mapas estavam desenhados, àquela altura – e muito de reportagem foi a tônica entre os escritores-viajantes que, aproveitando-se de sua condição de “civilizados”, oriundos das metrópoles, iam buscar impressões sobre a gente e os lugares mais “exóticos”. Existirá hoje algum recanto intocado, habitado por povo tão peculiar, que ainda justifique esses escritores e suas aventuras?


Ou, conforme se perguntou, em artigo recente, o escritor William Dalrymple, ele próprio um dos expoentes da atual literatura de viagem em língua inglesa: “(...) existe realmente algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet, quando é possível obter informação confiável, e instantânea, sobre qualquer lugar do globo?”


Dalrymple aponta que, durante quase uma década, entre os anos 70 e 80, a literatura de viagem foi a vedete. “Ela reemergiu num momento de desencanto com o romance”, explica, “e parecia estar se tornando uma séria concorrente para a ficção. Um escritor poderia continuar a usar as técnicas do romance – era possível desenvolver personagens, selecionar e delinear a experiência da viagem numa série de cenas e episódios, ordenar a ação de modo a conferir à narrativa uma forma e um ritmo – mas escrevendo sobre fatos reais. E, além disso, ao contrário da ficção, a literatura de viagem vendia bem.”


Foi, entre as muitas “épocas de ouro” da literatura de viagem, só a mais recente, cujos marcos se deram, quase ao mesmo tempo, com a publicação de dois livros: O Grande Bazar Ferroviário (Objetiva), de Paul Theroux, que percorreu o planeta, quase literalmente, usando o meio de transporte que um dia revolucionou os deslocamentos; e Na Patagônia (Cia. das Letras), de Bruce Chatwin, um mergulho no mundo selvagem contado com sutil poesia. Ao lado dos dois, estavam no auge nomes menos conhecidos – e até hoje praticamente inéditos no Brasil – como Leigh Fermor.


Por fim, já em 1984, a prestigiosa revista literária britânica Granta dedica um número inteiro à literatura de viagem – inspiração também, ainda que não declarada, da Granta brasileira em sua edição número dois, no primeiro semestre de 2008, intitulada Longe daqui. As memórias de viagem de Edmund White, outro assíduo freqüentador da travel writing, sobre o deslumbramento de um americano na Europa valem a edição.


William Dalrymple lança o desafio: “existe futuro para a literatura de viagem?” Ele responde que sim, há uma excelente nova geração de escritores-viajantes na ativa, mas ressalva: “Se, no século 19, a literatura de viagem era principalmente sobre lugares – tratava-se de preencher certas lacunas nos mapas descrevendo lugares remotos que poucos haviam visitado – a melhor literatura de viagem do século 21 é quase sempre sobre pessoas: explora a extraordinária diversidade que ainda existe no mundo sob a superfície da globalização”.


Para o filósofo francês Michel Onfray, autor de Teoria da Viagem (L&PM), a palavra escrita, além do mais, é insubstituível como veículo da memória de quem viaja – uma apologia às diversas formas assumidas pelo relato de viagem: o atlas, o poema, a prosa em suas diversas vertentes, até mesmo os “utilitários” guias... “Os lugares do mundo convergem para as telas informáticas ou televisivas, tristemente semelhantes à sua realidade, mas engaiolados (...)”, protesta Onfray. “Qualquer linha de um autor, mesmo medíocre, aumenta mais o desejo do lugar descrito do que fotografias, muito menos filmes, vídeos ou reportagens. Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras.”


Viagens pelo coração do Brasil revisitadas




A literatura de viagem não tem no Brasil a mesma tradição que lá fora, sobretudo nos mundos de língua inglesa – pródigo em aventureiros que são, ao mesmo tempo, grandes prosadores do idioma – e francesa, que deu ao mundo alguns dos principais poetas-viajantes (Rimbaud talvez o principal deles) e outros tantos pensadores e filósofos do ato de viajar.


Há, claro, muitos relatos de estrangeiros sobre a terra brasilis – não à toa, de novo, além de portugueses e espanhóis por razões óbvias, ingleses e franceses. Muitos deles, como se sabe, patrocinados no século 19 pela curiosidade do imperador D. Pedro II – ele também viajante contumaz.


Coincidência ou não, alguns dos melhores relatos de viagem escritos por autores brasileiros que resolveram percorrer a imensidão do próprio país são remakes de viagens anteriores. Duas expedições, uma recente e outra nem tanto, dão a medida dessa tendência.


As viagens pelo interior do Brasil feitas, entre 1927 e 1929, pelo escritor modernista Mário de Andrade, e mais tarde relatadas em O Turista Aprendiz, foram repetidas pelo jornalista Miguel de Almeida, então um jovem repórter da Folha de S. Paulo, no início dos anos 80. O resultado da experiência – na época publicado em capítulos regulares no jornal – acaba de ganhar relançamento no livro Na Trilha dos Trópicos (Lazuli), editado pela primeira vez logo após a viagem.


Euclides da Cunha, muito conhecido pelo trabalho como correspondente de guerra na campanha de Canudos e pelo clássico daí resultante, Os Sertões, se aventurou também pela Amazônia. Engenheiro de formação e ex-militar, Euclides foi nomeado chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus e, durante alguns meses do ano de 1905, comandou uma expedição cheia de percalços ao Acre. Chegou a passar fome e sofreu com surtos de malária, experiência que resultou nos textos de À Margem da História (Martin Claret) – na verdade, apenas a parte que conseguiu concluir, antes de ser assassinado, de um volume maior que deveria se chamar Um Paraíso Perdido.

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O itinerário de Euclides foi refeito, por ocasião do centenário de morte do escritor, no ano passado, pelo jornalista Daniel Piza e pelo fotógrafo Tiago Queiroz, de O Estado de S. Paulo. O relato alimentou, por alguns dias, o blog de Piza, além de render material para um documentário dirigido por Felipe Machado. Um resumo da saga desses viajantes, seguindo os passos de Euclides da Cunha na Amazônia, está disponível na internet:
www.estadao.com.br/pages/especiais/euclides (CS)

Peregrinos, andarilhos, vagabundos e “vagamundos”





Por que viajar? Há viajantes de todos os tipos nos dias de hoje, pela facilidade de transportes, claro, mas igualmente porque os destinos possíveis, conhecidos, são muitos, e nem sempre foi assim.


O paradoxo é que, como manda o clichê, o mundo hoje fica logo ali, “à distância de um clique no mouse”. Até existem aqueles que preferem o conforto do sofá de casa ou da tela do computador para uma volta ao mundo particular, mas são minoria. A informação abundante – e, sobretudo, as imagens exuberantes – dos quatro cantos do mundo, para não falar de tudo mais que se encontra pelo caminho, desperta o impulso da viagem.


Além disso, o mundo dito globalizado e suas assimetrias incentivam – quando não obrigam – a migrar. A informação, mais uma vez, sobre destinos que possam garantir um futuro que a terra natal lhe recusa é o que impulsiona, muitas vezes, o migrante.


Para o filósofo francês Michel Onfray, em seu belíssimo ensaio Teoria da Viagem (L&PM), as raízes do desejo de se largar no mundo são mais profundas: “Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi”, escreve Onfray, poética mais até do que filosoficamente.


Mas, a quem decide viajar, outra inquietação se impõe de imediato: “Todas as destinações se tornaram possíveis – questão de tempo. Nesse campo dos possíveis, como escolher um lugar? O que escolher? A que renunciar? E por que razões? Nas combinações pensáveis, qual preferir, e por quê?”, reflete o pensador francês, que mais uma vez junta razão com alguma poesia para responder: “(...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras da infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, num dia melancólico ao fundo da classe”, escreve. “Existe uma cartografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”


Num bonito texto sobre os dilemas da identidade no mundo atual (From Pilgrim to Tourist, “do peregrino ao turista” – sem tradução para o português), o sociólogo Zygmunt Bauman, polonês radicado na Inglaterra, fala da inevitabilidade da viagem.


Depois de lembrar que a idéia de peregrinação é, no mínimo, tão antiga quanto o Cristianismo, Bauman afirma: “Para os peregrinos de qualquer época, a verdade está em outro lugar; o verdadeiro destino está sempre a certa distância, a certo tempo de viagem daqui. Onde quer que o peregrino esteja agora, não é onde deveria estar, e não é o lugar aonde sonha ir”.


Mais recentemente, porém, quando a palavra de ordem – mais do que simples necessidade – é evitar fixar-se (e até mesmo adotar uma identidade única e imutável), nada restou “remotamente parecido com o senso de propósito e aferrada determinação do peregrino”. Daí a norma: “não planeje viagens muito longas – quanto mais curta, maior a chance de ser concluída”; ao que se poderia acrescentar: para logo viajar para outro lugar. Instaura-se a ditadura do turismo.


Bauman identifica alguns tipos de viajantes que, em busca de definir-se, perambulam pelo mundo, entre eles o “andarilho” – outra tradução possível é “vagabundo” ou, para usar o neologismo já um pouco gasto, mas aqui cheio de sentido, “vagamundo”, aí incluído o migrante que às vezes viaja à força, em fuga; e o próprio turista. Sempre em movimento, como o “andarilho”, o turista se move com um propósito: ter novas experiências; ao contrário do “andarilho”, porém, não se depara com realidades duras e difíceis (apenas com a “vida estetizada e esculpida”) e, principalmente, tem uma casa para onde voltar.


Já Michel Onfray identifica dois tipos de “temperamento” no que diz respeito à necessidade humana de se pôr em movimento: de um lado, há o turista, de novo ele; mas, de outro, em absoluto contraponto, fica o “viajante”.


“O turista compara, o viajante separa”, define Onfray. “O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma (...); o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado (...).”


Há quem se ressinta da predominância do turista sobre o viajante – uma separação também adotada por outro, mais do que filósofo (que de fato ele foi), poeta: Émil Cioran, romeno radicado na França. Conforme lembrou o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em artigo recente, Cioran gostava das praias da Normandia e da Bretanha no verão. Mas se desesperava com as hordas de turistas: “Num desses momentos, ele escreve que os ‘novos bárbaros’ (os turistas) tomaram o lugar dos ‘viajantes’, pessoas que amam conhecer o mundo pra se ‘espantar’ com ele, e não torná-lo seu ‘churrasco na laje em Paris’”, resumiu Pondé, impiedoso. (Christian Schwartz)


Saint-Hilaire e as trilhas da identidade


O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire percorreu, entre 1816 e 1822, cerca de 8 mil quilômetros pelas principais províncias brasileiras do centro ao sul do país, caminho comum de diversos viajantes que, beneficiando-se da abertura concedida com a vinda de d. João VI, fizeram expedições para catalogar as “terras e as gentes” do Brasil para a expansão dos domínios europeus.


Diferentemente da primeira leva de viajantes e cronistas, que aportaram no Brasil com os portugueses, a geração de Saint-Hilaire valorizava a racionalidade. Os naturalistas da época de Saint-Hilaire eram como repórteres, que, munidos de equipamentos da ciência, relatavam a “vida como ela era”; já os cronistas como Pero Vaz de Caminha, Magalhães Gandavo e Jean de Léry, que chegaram ao Brasil dois séculos antes, podem ser comparados a poetas: sob um imaginário religioso e mágico, em muitos casos tinham uma visão da realidade que contava com elementos fantasiosos.


A geração de Saint-Hilaire foi responsável por mostrar uma visão objetiva do Brasil para as nações modernas que se formavam na Europa. O perfil geológico, botânico, a fauna e os recursos naturais foram contabilizados por esses viajantes, que dominavam vários conteúdos.


Além do estudo da natureza, os viajantes registraram a vida social daquela época. Se quisermos ter uma visão sobre a sociedade no Brasil do século 19, a melhor fonte são os relatos dos viajantes. Os ensaístas que fizeram, a partir do início do século 20, as grandes interpretações do país, serviram-se de maneira abundante das observações dos viajantes. O que estes escreveram sobre o Brasil ajudou a construir a identidade, apesar de ser um olhar de fora, do europeu falando do seu “outro”.


Em janeiro de 2001, refiz o percurso de Saint-Hilaire no Paraná, por onde ele passou em 1820, quando o território integrava a Província de São Paulo. O resultado foi o livro Nas Trilhas de Saint-Hilaire, um diário de viagem em que procurei registrar lugares e pessoas. As fotografias foram feitas por Antonio Liccardo, geólogo e fotógrafo que, três anos mais tarde, fez um livro sobre o percurso do viajante francês em Minas Gerais.


Os 181 anos que separam minha passagem e a de Saint-Hilaire por algumas cidades do Paraná marcam diferenças enormes. Nesse intervalo, o Paraná foi “reinventado”. No território, havia uma meia-dúzia de cidades em 1820, fazendas, escravos, ga­­rimpeiros, tropeiros e proprietários de terra.


À diferença da Província de Minas Gerais e de partes de São Paulo, o território que hoje compreende o Paraná era pouco habitado, mas já tinha algumas marcas de identidade cultural que podem ser observadas até hoje. Trata-se de uma identidade formada por elementos das culturas portuguesa, indígena e negra.


Esses traços foram transformados aos poucos. No final do século 19, o Paraná receberia uma grande leva de imigrantes europeus, trazendo novos elementos culturais ao Estado. Esse dado, no entanto, passou a ser visto como determinante da cultura paranaense. O crítico Wilson Martins, por exemplo, escreveu um ensaio chamando o Paraná de “Brasil diferente”. Nele, afirmou que os elementos europeus não-portugueses foram determinantes na formação da cultura paranaense. A tese de Martins questionava autores que defendiam o papel importante do indígena, do negro e do português na formação do caráter do brasileiro.


A tese de “Brasil diferente” rondou a mente dos paranaenses e foi mote de campanhas oficiais que venderam o Paraná e Curitiba como pedaços da Europa no Brasil. Trata-se de uma identidade cultural que chegou a ser disseminada em livros didáticos, matérias jornalísticas e propagandas oficiais.


Ao percorrer as trilhas de Saint-Hilare, no entanto, descobri um “Brasil diferente” daquele mostrado tanto pelo viajante francês quanto pelo crítico literário. Ele não é mais formado por uma população predominantemente rural, com mesclas de português, índio e negro, tampouco é uma região marcada pela cultura europeia, preconizada na tese de Martins.


Exemplo: um trabalho que vem sendo realizado pelo Grupo Clóvis Moura “descobriu”, recentemente, 87 quilombos no Estado, que, em sua formação, conta com 24% de afrodescendentes. Na região por onde Saint-Hilaire passou – os Campos Gerais, que envolvem cidades como Ponta Grossa, Tibagi, Reserva, Castro e Sengés –, a presença negra chega a 40% da população.


Infelizmente, vêm sendo pouco valorizadas as culturas do negro, do índio e até mesmo do português na formação do Paraná, ocultadas em nome de uma suposta formação europeia, o que, na verdade, revela um certo complexo de inferioridade do Estado e da cidade de Curitiba, até hoje vendida nos guias turísticos pelas suas características europeias. Ações que buscam corrigir esse equívoco devem ser aplaudidas. E a leitura de Saint-Hilaire é um bom começo para mostrar que o Paraná não é um Brasil tão diferente assim.


Marcelo Lima é jornalista e professor. É autor de Nas Trilhas de Saint-Hilaire (2001). A reportagem original publicada no site da Gazeta do Povo pode ser acessada aqui.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Os 20 melhores livros de viagem do século passado pelo The Times

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Ilustração: Blexbolex



São inúmeras as obras da literatura odepórica que inspiraram várias gerações a viajar e a escrever sobre viagens. O jornal britânico The Times publicou uma lista dos 20 melhores livros de viagem do século vinte. Listas, na maioria das vezes, são referências dotadas de grande subjetividade, mas no geral nunca resistimos a dar uma conferida, sempre na expectativa de encontrar nossas próprias preferências inclusas na listagem.

Os livros selecionados abaixo são recomendações de diversos escritores, entre eles Victoria Hislop (“A Ilha”), Colin Thubron (“The Last Heart of Asia; “Shadow of the Silk Road”), Alexander McCall Smith (“Amigos, Amantes, Chocolate”; “O Clube Filosófico Dominical”) e Douglas Kennedy (“O Fotógrafo”; In God’s Country”), além de jornalistas do The Times. Algumas das indicações também vieram de listagens semelhantes feitas por escritores e até mesmo retiradas do twitter.

É apenas uma lista, e o autor do artigo assume que tem plena consciência da ausência de nomes de peso, como o de Jack Kerouac; para ele, o leitor pode pensar que muitas dessas obras são de fato romances históricos, mas se fosse assim teriam sido incluídas as obras de Orwell, Hemingway e Steinbeck. Os livros dessa lista são puramente relatos de viagem que inspiraram gerações futuras – ou ao menos as fizeram encontrar o seu próprio caminho.

Até onde consegui verificar, apenas cinco dessas vinte obras foram editadas aqui. Nenhum autor brasileiro, nem mesmo latino, aparece na lista, mas em compensação quatro delas tratam de viagens pela América do Sul – uma das quais retratando exclusivamente o Brasil.

As obras eleitas abarcam, como se pode supor, várias regiões do planeta. É interessante notar que nenhuma das viagens contempla a América do Norte. Por curiosidade, fui checar os destinos que mais apareceram e cheguei ao seguinte resultado:

Europa: 5 relatos
América do Sul: 4 relatos
Oriente Médio: 3 relatos
Ásia: 3 relatos
África: 2 relatos
Oceania: 1 relato
Volta ao mundo: 1 relato
Outros: 1 relato

Nesse “outros” coloquei a obra do filósofo best-seller Alain de Botton, The art of travel, lançada no Brasil como “A arte de viajar”, que é um ensaio maravilhoso, mas que não se enquadra numa listagem como essa (postarei em breve um texto sobre essa obra).

Vamos à lista? As obras já publicadas no Brasil aparecem com seu título em português. Confira:

20) Full Tilt: Ireland to Índia with a bicycle, by dervla Murphy (1965)

19) A arte de viajar, by Alan de Botton (2002)

















18) A Dragon Apparent: travels in Indo-China, by Norman Lewis (1951)

17) The Granite Island, by Dorothy Carrington (1971)

16) Cut Stones and Crossroads- a journey in Peru, by Ronald Wright

15) Notes from a Small Island, by Bill Bryson (1995)

14) The Silk Road: beyond the celestial kingdom, by Colin Thubron (1989)

13) Love and War in the Apenines, by Eric Newby (1971)

12) Uma aventura no Brasil, by Peter Fleming (1934)












11) Na Patagônia, by Bruce Chatwin (1977)













10) Into the heart of Borneo, by Redmond O’Hanlon e James Fenton (1984)

9) Trieste and the meaning of Nowhere, by Jan Morris (2001)

8) Road to Oxiana, by Robert Byron (1933)

7) Mani- travel in the Southern Peloponnese, by Patrick Leigh Fermor (1958)

6) As I walked out one midsummer morning, by Laurie Lee (1969)

5) Arabia through the looking glass, by Jonathan Raban (1979)

4) O grande bazar ferroviário, by Paul theroux (1975)


















3) A pior viagem do mundo, by Apsley Cherry-Garrard (1922)















2) A winter in Arabia, by Freya Stark (1940)

1) The Danakil Diary: journeys through Abyssinia, 1930-4, by Wilfred Thesiger (1996)

Se você se interessou pelo assunto, sugiro dar uma conferida no site de onde tirei essa matéria. O mais fantástico é que cada uma das 20 obras aqui selecionadas vem com uma breve resenha e com o link direcionando para o Times Archive, com matérias originais da época em que foram publicadas no jornal. In English, of course.

Boa viagem.

Acesse a matéria original aqui.






quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Diário de viagem de Albert Camus (1913-1960)

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Há 50 anos um acidente de automóvel tirou a vida de um dos grandes escritores da língua francesa, Albert Camus. Confesso que pouco conheço de sua obra, a não ser uma leitura para fins acadêmicos de A Peste, numa aula temática sobre a morte de Deus na literatura. Tema profundo, leitura idem.

Em A Peste (publicada em 1947), Camus escreve sobre um acontecimento trágico ocorrido numa pequena cidade argelina chamada Oran. De uma hora para outra começam a aparecer ratos mortos, e logo ficamos sabendo que o povoado foi assaltado por uma epidemia. A primeira conseqüência disso foi o total exílio de seus habitantes: ninguém mais poderia sair da cidade antes que o fim da epidemia fosse decretado. A personagem que narra a história só revela sua identidade nas últimas páginas da obra, uma jogada genial do autor que com essa escolha conseguiu fazer com que o observador assumisse uma atitude imparcial, relatando objetivamente os eventos ocorridos em Oran por conta da peste.

Uma das leituras mais comuns dessa obra fenomenal é a de que Camus, ao narrar sobre a peste, intencionalmente criou uma alegoria sobre o nazismo; a peste, em si, pode ser interpretada como uma metáfora dos horrores praticados na 2ª Guerra, sobretudo no tocante à resistência francesa frente à ocupação nazista.

Outra leitura interessante sobre essa mesma obra segue uma abordagem mais filosófica: o comportamento do ser humano diante da morte, talvez um dos maiores tabus da humanidade. Partindo desse princípio, Camus vai discutir em vários momentos sobre o papel de Deus e da religião, trazendo à tona questões ainda hoje muito atuais. É interessantíssimo, por exemplo, comparar o que se passa na cidade de Oran, tal como narrado na obra de Camus, com os recentes acontecimentos no Haiti por conta do terremoto devastador que atingiu o país no começo deste ano. O comportamento dos que sobreviveram à tragédia haitiana, conforme podemos acompanhar pela imprensa (desespero, violência, exploração comercial), não difere em quase nada daquele narrado em A Peste. Um indício claro de que Camus conhecia muito bem a natureza humana.

Antes de começar a falar sobre os escritos de viagem de Camus, queria escrever sobre uma passagem de A Peste que tem relação com a temática do Odepórica e que aparece logo na abertura da obra. O narrador, antes de começar a contar sobre os acontecimentos curiosos ocorridos em decorrência da epidemia, descreve Oran, “uma cidade ordinária, simples prefeitura francesa na costa argelina”. Continua:

“Cidade feia, de aspecto sossegado. Com o tempo, vemos o que a distingue de tantas outras cidades comerciais, em todas as latitudes. Como supor uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, sem rumor de asas nem cair de folhas, lugar neutro, enfim? Percebemos no céu a mudança das estações. A primavera se anuncia apenas pela qualidade do ar e pelas cestas de flores que pequenos vendilhões trazem dos subúrbios; é uma primavera que se vende nos mercados. No verão o sol incendeia as casas muito secas e cobre os muros de cinza parda; então só podemos viver à sombra, as janelas fechadas. No outono, pelo contrário, há um dilúvio de lama. Os dias agradáveis só chegam no inverno.

Modo fácil de conhecer uma cidade é procurar saber como os indivíduos se comportam no trabalho, no amor, na morte.”

Genial a maneira como é descrita a pequena cidade, não? E a frase do último parágrafo acima é a “deixa” para começarmos a tratar do Diário de Viagem.

Albert Camus visitou a América do Sul em 1949. Veio da Europa pelo mar, e o Brasil foi o primeiro país visitado no continente. Aborreceu-se tanto com essa viagem que teve vontade de matar-se, escreve Otto Lara Resende na edição que tenho em mãos, o que certamente não foi escrito em sentido figurado: é clássica a afirmação de Camus de que “o suicídio é a única questão filosófica séria”.

Não sei se posso afirmar que o relato dessa viagem ao Brasil é uma leitura indispensável, mas estou certo de que essa obra irá interessar a dois tipos de leitores: os que apreciam Camus e sua produção literária, e aqueles que se interessam por literatura odepórica, principalmente as narrativas que contemplam o Brasil, como é o caso dessa. Nesse quesito, há algumas passagens nesse texto que primam por servir de testemunho histórico, de um país que apesar de haver crescido significativamente, ainda continua apresentando os mesmos tristes problemas de décadas passadas. Quer ver duas amostras? Vamos lá:

“Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar.”

“O contraste mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos, com as favelas, às vezes a cem metros do luxo, agarradas ao flanco dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. As mulheres vão buscar água no sopé dos morros, onde fazem fila, e trazem de volta sua provisão em latas de alumínio, que carregam na cabeça como as mulheres kabiles. Enquanto esperam, passam diante delas, numa fileira ininterrupta, os animais niquelados e silenciosos da indústria automobilística americana. Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolentemente mesclados. É bem verdade que, segundo um dos meus companheiros, ‘pelo menos, eles se divertem muito’.”

Meio triste pensar que essas observações sobre a nossa terra foram escritas há sessenta anos e que pouco mudou desde então – isso para não comentarmos o que mudou para pior, como a degradação da natureza e a violência, só para ficarmos na superfície dos problemas.

A chegada ao Rio, pela baía de Guanabara, foi descrita de uma maneira muito bonita e sem afetação, em que se percebe a irrepreensível qualidade literária de Camus. Observe:

“Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima: serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos – velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. Seguimos o litoral, enquanto a noite clareia, a água mal estremece, fazemos uma grande manobra e as luzes agora estão diante de nós, mas longínquas. Volto para o meu camarote. Quando torno a subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o ‘Pão de Açúcar’, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. A cada instante, um ronco acima de nós: um avião decola no dia nascente, confundindo-se, de início, com a terra, elevando-se depois em direção a nós, passando por cima de nossas cabeças. Estamos no meio da baía e as montanhas, à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem calar a todos, uma vez mais. Um instante depois, as cores parecem as mesmas, mas é o cartão-postal. A natureza tem horror dos milagres longos demais.”

Belíssima descrição, para mim uma das passagens mais bonitas dessa obra. Prossigamos com a leitura. A presença de Albert Camus no Brasil foi muito esperada e sua agenda esteve cheia durante todo o tempo de sua estadia. Possivelmente foi o excesso de compromissos que fez com que essa viagem lhe fosse tão cansativa e desprovida de maiores encantos; temos que nos apegar ao fato de que o escritor visitou o país prioritariamente a trabalho, o que ameniza nossa opinião – levando-se em conta apenas aquilo que se lê em seus escritos de viagem – sobre sua personalidade aparentemente antipática. A verdade é que, no fundo, Camus deve ter tido muita paciência para, por conta de sua posição, ter que conversar com tanta gente chata do meio intelectual, ou será que não? (ao ser apresentado a um convidado numa recepção escreve o seguinte: “Um filósofo polonês do qual o céu, se for bom, me preservará”).

Num dos inúmeros jantares a que esteve presente, Camus faz um comentário interessante sobre o comportamento brasileiro; fora levado a jantar num restaurante, quando de sua chegada, por um trio: um jovem biólogo francês “furiosamente simpático” (Letarget), um poeta brasileiro (Augusto Frederico Schmidt) “enorme, indolente, com os olhos franzidos, a boca caída”, e um “señorito”, (não nomeado), para quem o Brasil “é um país onde só se trabalha, nada de viciados, aliás, não se tem tempo, trabalha-se, trabalha-se”, o que para nós chega a ser hilário. Eis a cena passada no restaurante:

“Com a ajuda do cansaço, me vem uma cólera tola e já afasto minha cadeira para retirar-me. Uma gentil intervenção de Letarget e também a simpatia que sinto, apesar de tudo, por esse curioso personagem-poeta, me retêm e faço um grande esforço para acalmar-me. ‘Ah’, diz o poeta, chupando os dedos, ‘é preciso muita paciência com o Brasil, muita paciência. ’ Digo apenas, como única vingança, que a mim não parecia ter-me faltado paciência até agora. (...) Apesar de tudo, o resto da refeição passa-se na calma, se bem que o poeta e o señorito não param de fazer apartes em português, nos quais julgo compreender que reclamam um pouco de mim. Além disso, essa grosseria, essa falta de modos, se expõe de forma tão natural que se torna amável.”

E Camus continua sua jornada carioca, cheia de encontros, alguns até lhe dão prazer, como o jantar em que é apresentado ao “poeta nacional” Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino” e a Kaïmi (Dorival Caymmi), “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”. Não resisto a transcrever um trecho desse encontro:

“Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido.”

No dia seguinte, após um passeio de lancha na Guanabara, conhece Murilo Mendes, por quem sentirá grande afinidade, descrito por ele como “poeta e doente” (era ex-tuberculoso, assim como Camus e Manuel Bandeira), de “espírito fino e resistente, um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui.”.

Ainda no Rio de Janeiro, antes mesmo dos encontros relatados acima, Camus escreve sobre o dia em que foi assistir a um ritual de macumba, no município de Caxias, a quarenta quilômetros da capital fluminense. Como me pareceu particularmente interessante, a visão de um estrangeiro sobre um rito religioso brasileiro, vou transcrever as quatro páginas dessa passagem numa outra postagem.

Do Rio de Janeiro Camus segue para Recife, cidade que lhe agrada, descrita por ele como a “Florença dos Trópicos”; visita Olinda no dia seguinte e na volta a Recife oferecem-lhe uma festa popular, porém os cantos e as danças não lhe causaram interesse, uma “macumba-chique” - anota em seu diário. Nesse ponto da viagem, o escritor adoece com freqüência, e é possível que a gripe e o estado febril tenham lhe tirado ainda mais o ânimo de viajar, que já não era grande. Mesmo assim, fascina-se com um espetáculo do “bomba-menboi”, como escreve, “um balé grotesco, dançado por máscaras e figuras totêmicas, sobre um tema que é sempre o mesmo: a matança de um boi”, e dispara a narrar o acontecimento com a evidente noção de quem gostou do que viu.

De Pernambuco à Bahia, que lhe parece “uma imensa casbah (uma espécie de cidadela marroquina) fervilhante, miserável, suja e bela”; Prefere a baía de Salvador, avistada do seu quarto de hotel, à do Rio de Janeiro, “muito espetacular para o meu gosto”. E continua; “esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. Visita as igrejas da cidade, que são as mesmas de Recife, “um barroco harmonioso que se repete muito”. Diz que é a única coisa a ser vista neste país (a arte barroca) e que isso se vê depressa. Chega a questionar-se: “Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil?”, resposta curta e grossa: “Não”.

A empreitada tropical continua. Volta ao Rio, visita Teresópolis e Petrópolis e pela primeira vez sente-se confortável com o clima do país, já que o calor das cidades (ainda que a viagem tenha ocorrido nos meses de julho e agosto) lhe atormenta. Viaja a São Paulo, “cidade estranha, Oran desmedida” e conhece Oswald de Andrade, que lhe expõe a teoria da antropofagia como visão do mundo.

Com Oswald de Andrade (Camus gostou do modernista) faz a viagem a Iguape, que ganhou certo destaque em suas notas de viagem (dessa ida à cidade, onde pode observar as festividades do Bom Jesus, saiu o material para o conto “A pedra que cresce”, de sua obra O exílio e o reino). Aqui Camus escreve quase em tom de humor a “aventura” do deslocamento, um verdadeiro “programa de índio”, como dizem. Afirma que o motorista se parece com Augusto Comte e passa a se referir a ele dessa forma espirituosa. O carro quebra, claro; Augusto Comte não é bom de mecânica, mas são salvos por um caminhoneiro de passagem. Almoçam em Piedade, “pequena aldeia sem graça”. (...) “Refeição brasileira, que não acaba mais, e que passa graças à pinga” – escreve. Augusto Comte erra o caminho e descobre que dirigiram 60 quilômetros além do destino, o que significava, naquelas condições, mais duas ou três horas de estrada.

Na passagem por Registro, uma nota peculiar: “verdadeira capital japonesa no meio do Brasil, onde tive tempo de ver casas de decoração frágil, e até mesmo um quimono”; chegam a Iguape no começo da madrugada. A viagem de 300 quilômetros levou dez horas. Mesmo cansado da viagem, Camus ainda assim reservou um elogio ao povo brasileiro; ao ser bem recebido pelas autoridades locais (apesar do horário avançado) faz a seguinte anotação: “Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria européia.”.E reclama, duas vezes, dos roncos ferozes e dos espirros de Augusto Comte, que lhe atrapalham o sono.

Depois de todas essas aventuras brasileiras, o renomado escritor ainda viaja ao Uruguai, Chile e Argentina, onde permanece poucos dias, “em pleno conflito psicológico”, como chega a escrever. “Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim, estão as águas esverdeadas, em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia.” Camus tem consciência de que sofre de depressão, mas durante todo o tempo foi um verdadeiro cavalheiro ao tentar, frente a tantos compromissos profissionais aborrecidos, esconder de seus anfitriões os conflitos interiores que lhe atormentavam a alma.

Quarenta e oito dias depois de sua chegada ao Brasil, Albert Camus volta finalmente para casa. As últimas palavras de seu diário não são muito animadoras: “Doente. Bronquite, no mínimo. Telefonam para avisar que partimos esta tarde. Faz um dia radioso. Médico. Penicilina. A viagem termina num caixão metálico, entre um médico louco e um diplomata, em direção a Paris.”


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Leia: Diário de Viagem- a visita de Camus ao Brasil. A cópia que tenho em mãos saiu pela Editora Record, com uma capa horrenda, por volta de 1980 (não consta o ano de publicação) e tem uma boa nota sumária a cargo de Otto Lara Resende. Foi relançada em 1997 (4ª ed.) pela mesma editora.

Se puder e tiver vontade, leia A Peste, de Albert Camus. Procure a edição que venha com a tradução de Graciliano Ramos, daí você sai ganhando duas vezes, certo? A minha, garimpadinha num sebo pelo preço de um picolé, é da Ed. José Olympo, Coleção Sagarana,1973.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Caminho zen: lições de Thich Nhat Hanh

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Uma das atividades que mais gosto de fazer, e que procuro praticar diariamente, é a caminhada sem pressa e sem compromisso, apenas fruindo o momento, aproveitando para observar as pessoas e a natureza, ainda que esta seja tão escassa na capital paulista.

Há alguns anos li um pequeno livro intitulado Meditação andando- guia para a paz interior (Ed.Vozes). Conhece? Foi escrito por um monge zen budista vietnamita chamado Thich Nhat Hanh. Hoje, ao (tentar) dar uma organizada na biblioteca aqui de casa, encontrei-o apertadinho entre uma obra do Paul Brunton e outra do Nicolas Roerich, o artista responsável pela bela pintura que ilustra a página principal do Odepórica. E lá se foi a arrumação da biblioteca... fiz um chá, levei o livro para minha poltrona de leitura e viajei novamente com o monge simpático, já buscando uma brechinha na obra para postar aqui no blog. E não é que eu achei?

Não espere um texto grande, como os que costumo postar aqui; espere sim um grande texto, porque estamos tratando de um bom homem, um monge que viaja o mundo pregando a paz. E o que tem isso a ver com o tema do blog, afinal? Ora, tem tudo a ver, eu te respondo, porque a meditação andando pode - e deve - ser praticada em qualquer lugar, mas possivelmente você sentirá seu efeito transformador quando puder exercê-la num local aprazível, numa praia ou num campo, por exemplo, e já que estamos no período das férias, que tal?

A técnica é fácil e qualquer pessoa pode praticá-la. Vou logo avisando: há de ser feita com C-O-N-S-C-I-Ê-N-C-I-A. Anda-se devagar, de forma descontraída e mantendo um leve sorriso nos lábios. Esteja atento ao ato da caminhada. Preste atenção à sua respiração, que deve ser uma respiração consciente. Para isso, observe quantos passos você dá enquanto seus pulmões se enchem e quantos passos dá enquanto se esvaziam, prestando atenção à respiração e aos passos. O elo, diz o monge, é a contagem. Não tente controlar nada, com o tempo seus passos e sua respiração encontrarão um equilíbrio natural. E não se esqueça do sorriso nos lábios, o leve sorriso do Buda...

Essa é a base da prática, no livrinho você encontra outras variações e o aperfeiçoamento da técnica. De minha leitura, recolhi duas passagens lindas e gostaria que você as lesse com atenção. São duas lições importantes que o Thây (professor, em vietnamita) nos dá, então vamos aproveitar que vale a pena:

O importante é a maneira de andar

Buda imprimia paz, alegria e serenidade sobre a terra a cada passo que dava. Há mais de trinta anos, quando visitei a montanha Gridhrakuta, onde Buda ensinava, andei pelos mesmos caminhos onde ele andou. Pisei o mesmo solo que ele pisou. Sentei-me sobre uma pedra em que ele, provavelmente, se sentou. Contemplando o pôr-do-sol vermelho e brilhante, eu entendi Buda e eu estava contemplando o mesmo sol no mesmo horário.

Se andarmos como Buda, continuaremos o seu trabalho. Nós alimentamos a semente do ser Buda em nós mesmos e mostramos nossa gratidão a Buda não pelo que dizemos, mas pela maneira com que damos passos pacíficos e felizes na terra.

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Eu ando por você

A guerra do Vietnã causou inúmeros ferimentos na mente e no corpo de pessoas de ambos os lados. Muitos soldados e civis perderam um braço ou uma perna e já não podiam juntar as palmas das mãos em reverência a Buda ou praticar a meditação andando. Anos atrás chegaram ao nosso centro de recolhimento duas dessas pessoas e tivemos de encontrar um meio para elas praticarem a meditação andando. Pedi que sentassem numa cadeira, escolhessem alguém que estivesse praticando a meditação andando e se tornassem uma só pessoa com ele, seguindo os seus passos com plena consciência. Dessa forma deram passos pacíficos e serenos com seus parceiros, ainda que eles mesmos não pudessem andar. Vi lágrimas de felicidade em seus olhos.

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Breve biografia de Thich Nhat Hanh



Um dos mestres Zen mais conhecidos e respeitados no mundo de hoje, poeta e ativista da paz e dos direitos humanos, Thich Nhat Hanh (chamado de Thây pelos seus estudantes) tem levado uma existência extraordinária. Nascido no Vietnã em 1926 ele entrou para a vida monástica aos dezesseis anos. A guerra do Vietnã fez com que os monges budistas se confrontassem com uma difícil questão: a de permanecerem aderidos à vida contemplativa, mantendo a prática da meditação nos monastérios, ou sair para ajudar os campesinos vitimados pelas bombas e outras devastações da guerra. Nhat Hanh foi um dos que escolheu aderir a ambos, ajudando a criar o movimento chamado de “Budismo engajado”. A partir daí sua vida tem sido dedicada ao trabalho da transformação interior para o benefício do indivíduo e da sociedade.

Em Saigon, no começo dos anos 1960, Thich Nhat Hanh fundou a Escola de Serviço Social para os jovens, organização assistencial que ajudou a reconstruir vilarejos bombardeados, levantar escolas e centros médicos, assentamento de famílias sem lar, e cooperativas agriculturais organizadas. Tendo reunido mais de dez mil estudantes voluntários, a Escola fundamentou seu trabalho nos princípios budistas da não-violência e da ação compassiva. Apesar da denúncia governamental de sua atividade, Nhat Hanh também fundou uma Universidade Budista, uma editora, e uma influente revista pacifista no Vietnã.

Após sua visita aos EUA e Europa em 1966 em uma missão de paz, ele foi banido de voltar ao Vietnã. Em viagens subseqüentes aos EUA ele fez a cobertura pela paz a oficiais federais e ao Pentágono; acredita-se que tenha mudado o curso da história norte-americana quando persuadiu Martin Luther King Jr. a opor-se publicamente à guerra do Vietnã, o que ajudou a galvanizar o movimento pela paz. No ano seguinte, Luther King o nominou para o Prêmio Nobel da Paz. Logo a seguir, Nhat Hanh integrou a delegação budista nos encontros pela paz em Paris.

Em 1982 ele fundou a Vila das Ameixas (Plum Village), uma comunidade budista exilada na França, onde ele continua seu trabalho de alívio ao sofrimento de refugiados, prisioneiros políticos e famílias inteiras de gente faminta no Vietnã e nos países do Terceiro Mundo. Seu trabalho também foi reconhecido pela ajuda aos veteranos do Vietnã, retiros de meditação e seus escritos prolíficos sobre meditação, atenção mental e sobre a paz. Possui mais de uma centena de obras escritas, entre as quais, publicadas no Brasil, “Paz a cada Passo”, “A arte do poder”, “A energia da oração”, “Aprendendo a lidar com a raiva”, “Caminhos para a paz interior”, “Corpo e mente em harmonia”, “Meditação andando” entre outros, fáceis de encontrar no site da Estante Virtual.

Thich Nhat Hanh continua a viver na Vila das Ameixas, na comunidade por ele fundada, onde ensina, escreve e pratica jardinagem. A chave dos ensinamentos de Nhat Hanh é a de que, através da mente ativa, nós podemos aprender a viver o momento presente, ao invés de ficarmos presos ao passado ou ao futuro. Viver o momento presente é, de acordo com Nhat Hanh, o único caminho real para desenvolver a paz, tanto a individual, quanto a mundial.

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O texto original em inglês pode ser acessado na página de Thich Nhat Hanh, onde você também poderá obter informações sobre a Vila das Ameixas. Anote:
http://www.plumvillage.org/index.php


Sobre budismo, zen-budismo e outras escolas orientais indico um portal excelente em português:
http://www.dharmanet.com.br


Namastê!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Que cheiro é esse? by Paul Lynch

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Num outro post eu escrevi sobre o papel da música na experiência da viagem, de como nossas andanças muitas vezes estão marcadas por uma ou várias trilhas sonoras.

Tão marcante quando o sentido da audição, o olfato também nos traz lembranças imediatas de um lugar, de uma pessoa, até mesmo de um período extenso de nossa vida; o perfume de uma dama da noite, plantada no jardim da casa onde você viveu seus primeiros anos de vida, sempre lhe trará a lembrança de sua infância, ou não? Apenas um exemplo de como somos afetados emocionalmente pelo olfato.

A seguir você lerá um artigo que traduzi de um site que sempre me lembro de acompanhar, já linkado aqui no Odepórica, o World Hum. Um texto leve, curto e simpático que irá lhe agradar.

Que cheiro é esse?


Uma jornada de mil milhas começa com uma simples fungada.
Não é exatamente a famosa citação de Lao Tzu, mas chega bem perto. Dito assim, será que as cidades e os países possuem um odor único?

Uma viagem deve expandir a mente, mas com mais freqüência ela dilata as narinas, dependendo do destino. Você não tem que ter um nariz tão proeminente como o de Cyrano de Bergerac para capturar no ar o cheiro vindo da fábrica de cervejas Guinness em Dublin e também não necessita de um GPS para lhe indicar a direção de Faridabad, a vasta cidade industrial ao norte de Nova Delhi. O fedor vai lhe dizer quando você chegar lá.

De qualquer modo, num teste de olhos vendados, você seria capaz de farejar a diferença entre Marrakesh e Hong Kong? Se você já visitou essas cidades, há grandes chances de que você consiga se lembrar instantaneamente dos aromas. Marrakesh com sua fumaça de lenha, especiarias e resinas aromáticas misturados com o cheiro dos curtidores da Medina – uma mistura pungente que te acompanha muito tempo após a sua partida – e a fragrância saturada de peixe seco dos pratos de macarrão cozido das ruas de Hong Kong.

A cidade do Cairo reivindica o indesejado título de cidade com os mais altos níveis de aroma de hidrocarbono - um termo cientificamente poético de dizer que o ar fede e é poluído, mas você sabe onde você está.

Os odores provêm das moléculas dos objetos; tudo, desde o cheiro forte de um tipo de queijo até o fedor de um gambá morto numa estrada no calor de quarenta graus de uma cidade do interior. Todos esses cheiros colaboram na criação do aroma específico de uma região.

Algumas cidades têm orgulho de sua reputação pungente. Rotorua, na Nova Zelândia, por exemplo, se auto-proclama como a cidade mais insalubre do planeta – os vapores de origem vulcânica sulfúrica são capazes de sufocar um cavalo a cem metros do local. Não há como se enganar que você se encontra ali: basta dar uma olhada na figura do cavalo ofegante no balcão da Air New Zealand.

Felizmente, nem todos os aromas te levam a buscar uma máscara de gás. A suave brisa de verão no final da tarde carrega o cheiro das prímulas do jardim das Tulherias em Paris, ou num passeio à noitinha nos jardins de Tivoli, em Copenhaguem.

Todos nós temos fotografias e vídeos que nos lembram dos lugares visitados, mas o que dizer de um souvenir aromático? Talvez algum dia um sistema de remoção de cheiros irá permitir que os viajantes tenham a chance de provar previamente uma amostra do cheiro da cidade a ser visitada. Algumas virão com uma advertência: “Tenha cuidado ao abrir o lacre da cidade de Vientiane, no Laos, o lar de origem do Cha-om, o vegetal mais fedorento do mundo”.

Seja lá o que aconteça, lembre-se de respirar profundamente quando você for viajar, e deixe as moléculas dizerem onde você se encontra.


by Paul Lynch

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De mala pronta (viajar também transforma as pessoas)

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Ontem fui a uma exposição muito bacana no SESC da Avenida Paulista, intitulada De mala pronta: o viajante do SESC conta a sua história. Trata-se de uma instalação artística composta de painéis fotográficos, depoimentos, vídeos, objetos, cartas e lembranças de viagem recolhidos dos viajantes do programa de turismo do SESC SP.

A exposição está muito bem estruturada e de forma agradavelmente lúdica, desde o corredor de entrada, no hall dos elevadores, quando o visitante encontra um painel intitulado “Fazendo a mala”, como se estivesse em um museu observando objetos de interesse histórico ou antropológico, com alguns itens que comumente aqueles que viajam levam (ou levavam) dentro de uma mala (e uma mala, além do mais, pode dizer muito sobre um viajante).

Na sala de entrada foi criada uma recepção de hotel, ideia bastante criativa e simpática dos organizadores. Passeando pelo espaço, que toma o segundo andar inteiro do edifício, encontramos alguns objetos expostos, como cartas, postais, fotografias e artigos de coleção deliciosamente kitsch, como bruxinhas e bibelôs de sapinhos, ou os tradicionais vidrinhos com pedras, areia ou água dentro, etiquetados com o local de origem da coleta.

Chamou-me a atenção o perfil dos viajantes retratados na exposição: dos dezessete selecionados, todos idosos, e pelo que me lembro, apenas um homem (e justamente o dono dos vidrinhos), mostrando que as mulheres, sabe-se lá o motivo, são muito mais participativas e sociáveis do que os homens quando entram na terceira idade. Outra observação interessante: com a chegada da internet, cartas e postais de viagem viraram artigos em desuso. Eu mesmo, que adorava comprar e enviar postais, já nem os noto quando viajo e senti uma certa melancolia ao me dar conta disso. Perdemos um hábito aparentemente obsoleto, mas o ato de escrever uma carta ou um postal significava muito mais do que apenas registrar a passagem por um local; era uma maneira de dizer que a pessoa que recebia a mensagem era querida e lembrada, coisa que o e-mail também pode fazer, claro, mas sem o mesmo charme e atenção outrora dispensados à escrita.

E entre uma passada de olhos aqui, outra acolá, vamos percebendo, nós que adoramos viajar, como possuímos hábitos semelhantes aos de outras pessoas, como se toda experiência deambulatória implicasse em algum tipo de comportamento inconsciente comum a todos, com espaço, evidentemente, para as diferenças de cada um. Coisas pequenas, como recolher um seixo de um regato, para guardar de lembrança de um lugar especial, enfeitar um canto da casa, o que isso representa de fato? Já parou para pensar? E quando esse simples ato, tão corriqueiro em suas viagens, deixa de fazer parte da sua experiência de vida? Por que deixou de ter sentido? Viajar também abre espaço para filosofar...

E o que me fez sentar aqui na frente desse computador para escrever esse post foi um texto que li antes de entrar na sala da exposição propriamente dita, logo à saída dos elevadores e que também aparece impresso no folder gentilmente oferecido na “recepção do hotel”. Leia que vale a pena.

Viajar (também) transforma as pessoas

Os diários ou relatos de viagem são um tipo de narrativa que têm resistido ao tempo, se renovado e mantido um certo encanto pelo seu caráter lúdico e informativo. Esses registros públicos ou privados estão presentes na história da humanidade desde tempos imemoriais com intenções didáticas, socioculturais, científicas ou fantásticas. Cada viajante é o protagonista de sua aventura-relato e, mesmo que não se dedique a registrar essas experiências, as marcas e o potencial transformador delas já se instalaram nos corações e mentes de cada um deles.

Os avanços tecnológicos propiciam o encurtamento de distâncias, a agilidade e o conforto nos deslocamentos e a redução de custos para um nível acessível a parcelas cada vez maiores da população. Há ainda quem desfrute das viagens virtuais, seja como preparação para o roteiro escolhido, seja simplesmente por ser esta a única alternativa disponível. Entretanto, nada substitui a vivência e as descobertas culturais, sociais e afetivas de uma viagem.

Viajar transforma as pessoas. Desconhecidos se aproximam. Compartilham histórias, vivências e conhecimentos. Mudam-se olhares e visões do mundo. A bagagem que se leva nunca é a mesma que retorna nas malas. Alimentamos o corpo, a mente e o espírito. Cuidamos de aguçar a percepção que temos de nós, da nossa cidade e dos outros. Exercitamos a tolerância e o respeito às diferenças.

Danilo Santos de Miranda
Diretor regional do SESC São Paulo

Tendo a chance, não perca: De mala pronta (o viajante do SESC conta sua história). Até 31/01/2010, das 10 às 19 horas no SESC da Av. Paulista, 119. Entrada franca. (fechado às segundas)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Bethânia odepórica: Tocando em frente

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Gosta de música? Pois Tocando em frente, composta por Almir Sater e Renato Teixeira tem muito do espírito do Odepórica. Fala de viagem, fala da vida da gente. Não dá no mesmo?

E apesar de gostar muito do Almir Sater cantando essa música, me comovo mais com Bethânia, por isso deixei marcado no final desse post o link de um vídeo com a interpretação dela, que de quebra ainda declama Odalisca Andróide, fragmento de um texto do pirado Fausto Fawcet chamado “Disco Voador”:

Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Não há viagem onde não haja uma trilha sonora, qualquer que seja ela. Todos temos uma memória musical: pode ser uma canção de ninar, o hino de um time, a passagem de uma peça clássica que vira e mexe se assobia distraidamente, uma canção romântica, um rock psicodélico dos bons... cada música, uma lembrança: da mãe da gente quando jovem, do programa de rádio ouvido diariamente pela empregada do vizinho, do primeiro beijo, do tapa no baseado fumado escondido na casa de um primo, daquela viagem à praia quando um verão durava uma eternidade... para cada momento e fase da vida, uma canção.

Se a viagem for a um país estrangeiro, então nem se fala: você detesta tango, mas em Buenos Aires acaba enfeitiçado pelo ritmo portenho; salsa e merengue? Nem pensar, mas no Caribe até que dá vontade de sair bailando por las calles, verdad? Música francesa te parece cafona, eu sei, mas em Paris, ah...Paris, não há outra trilha que a substitua e você até compra aquele cd que nunca irá ouvir ao voltar para casa, assim como aqueles que trouxe do México e da Tailândia, claro. Isso acontece com todos nós porque a música muitas vezes tem o poder de resgatar, nem que seja um pouquinho, o espírito de um lugar ou de um momento especial, ou de ambos.

Mas voltando à letra dessa bela canção, lembro-me de tê-la visto impressa num pedaço de papel, pregadinha num quadro de avisos de um albergue de peregrinos no Caminho de Santiago. Fiquei tão contente quando a vi ali, no meio de vários outros pedaços de papéis com mensagens de ânimo em várias línguas, poemas, frases curtas, pensamentos, reflexões... só mesmo longe de casa para nos darmos conta de como nossa língua é bonita e como nosso país é musical. Será por isso que os estrangeiros nos enxergam um povo tão alegre? Pois brasileiro gosta de cantar, isso eu sei. Brazuca peregrino tem sempre um repertório na ponta da língua, pergunte a quem já encarou essa aventura.

E por falar em Caminho de Santiago, não consigo me lembrar de uma canção que consiga traduzir tão bem o ritmo dessa experiência quanto Tocando em frente. E é engraçado, vejo agora que o título dela é a tradução exata de uma expressão muito comum entre os peregrinos jacobeos desde a Idade Média: Ultreya!

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Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia.
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
e no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

*


domingo, 3 de janeiro de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: o Livro das Maravilhas, de Marco Polo

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O Livro das Maravilhas é o nome popular de um dos grandes clássicos da literatura odepórica, Il Milione, obra que retrata as grandes viagens empreendidas por Marco Polo no século XIII. O termo italiano “Milione”, segundo alguns estudiosos, pode ter uma origem jocosa (“um milhão de mentiras”) ou então pode derivar do nome pelo qual Marco Polo era chamado em sua família, “Emilione”.


Sabe-se que Marco Polo ditou as histórias selecionadas nessa obra a um escritor chamado Rustichello de Pisa, durante o par de anos que passou numa prisão em Gênova.


Suas viagens estão divididas em quatro livros, de acordo com o manuscrito original desaparecido: o Livro Um descreve as terras do Oriente Médio e da Ásia Central que Marco encontrou no seu caminho à China; o Livro Dois descreve a China e a corte de Kublai Khan; o Livro Três descreve algumas regiões do Oriente tais como o Japão, Índia, Sri Lanka, Sudeste Asiático e a costa leste da África. Finalmente, o Livro Quatro traz o relato das guerras recentes entre os mongóis e algumas das regiões do extremo norte, como a Rússia.


Separei para este post uma matéria publicada na Revista Planeta, (edição 429, Junho de 2008) que traz um panorama das aventuras de Marco Polo e serve muito bem como introdução à leitura dessa obra singular; o link no final dessa postagem, além de trazer a matéria aqui publicada, agrega outras informações muito interessantes, entre elas o desenho de um mapa com todos os locais pelos quais Marco Polo e sua família perambularam. Apenas uma passada de olhos basta para você se convencer de que só mesmo um aventureiro muito louco poderia empreender tamanha aventura. Buon Viaggio.


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MARCO POLO - O caçador de maravilhas


Primeiro dos grandes viajantes ocidentais, o veneziano Marco Polo encantou um sem-número de leitores com suas aventuras. O Livro das Maravilhas, no qual ele descreve suas peripécias no Oriente, até hoje influencia autores de livros de viagem.


Os empresários ocidentais que viajam à China de olho nas prodigiosas riquezas que podem trazer de lá refazem, de certo modo, uma jornada ocorrida mais de sete séculos atrás. Foi naquela época que os Polo - os irmãos Matteo e Niccolo e o filho deste último, Marco - cruzaram a Ásia para serem acolhidos na corte do imperador Kublai Khan. Pioneiros na literatura de viagem, os relatos de Marco, reunidos no volume O Livro das Maravilhas, viraram um best-seller em sua época, e têm seduzido leitores de tal forma que um deles - Cristóvão Colombo - acabou por descobrir a América na ânsia de chegar à China.


É fato, porém, que a obra de Marco sempre esteve sob algum tipo de suspeita, em especial nos primeiros séculos. Basta lembrar que, quando foi lançada, ela era chamada Livro do Milhão de Maravilhas do Mundo (nome de uma máscara usada no carnaval de Veneza, "Milhão" representava o contador de mentiras). Há dúvidas ainda sobre a real autoria do livro: para alguns, quem o escreveu foi o trovador Rustichello de Pisa, com quem Marco dividiu uma cela por um ano. Mas, tenha sido Marco o autor ou apenas o narrador, e seja ou não um amontoado de mentiras, o fato é que a obra sobreviveu aos séculos e até hoje é lida com prazer por pessoas dos mais variados cantos do mundo.


Marco Polo nasceu em março de 1254, de uma família de nobres originária da costa da Dalmácia. Não se sabe se o local exato foi a ilha de Curzola, onde os Polo tinham um comércio, ou em Veneza. O certo é que ele foi educado na cidade dos canais, o grande centro comercial do Mediterrâneo na época.


Quando Marco tinha 6 anos, Niccolo e Matteo lançaram-se numa arrojada viagem comercial para o leste. O objetivo era Surai, às margens do rio Volga, onde os irmãos fizeram negócios por um ano. Quando pretendiam voltar, porém, uma guerra entre dois governantes mongóis, Mangu e Hulagu, levou-os a fazer um imenso desvio até Bukhara (no atual Usbequistão), onde ficaram retidos por três anos.


Quem os salvou foi um emissário de Hulagu no Ocidente. Mas ele não facilitou seu retorno a Veneza; em vez disso, convenceu-os de que Kublai Khan - neto de Gêngis Khan, irmão de Mangu e imperador de Catai (China) - nunca vira um ocidental e adoraria conhecer um. Estimulados pela aventura, os Polo passaram por Samarcanda, Kashgar, pelo temível deserto de Gobi e, em 1266, chegaram à capital, Cambaluc (Pequim), para encontrar Kublai Khan.


O imperador crivou os irmãos de perguntas sobre sua região do mundo, a Igreja cristã e o papa. Fluentes em dialetos turcos, os Polo responderam a todas as questões de modo claro, e com isso conquistaram a simpatia de Kublai. Depois de um ano na corte chinesa, eles voltaram à Europa com uma carta do imperador ao papa Clemente IV, na qual o remetente solicitava o envio de 100 estudiosos para ensinar aos chineses o cristianismo e a ciência praticada no Ocidente, além de óleo do Santo Sepulcro.


Os Polo chegaram a Veneza em 1269. A esposa de Niccolo havia falecido, e seu filho Marco, aos 15 anos, já tinha uma educação impecável para a época: lera a Bíblia e os autores clássicos, conhecia teologia cristã e falava francês e italiano. Além disso, demonstrava enorme interesse por pessoas, flora, fauna e recursos naturais.


Quando, no fim de 1271, Niccolo e Matteo receberam cartas e presentes do novo papa, Gregório X, para Kublai Khan, não tiveram dúvidas: Marco deveria ir à China com eles. Os três seguiram um caminho diferente do anterior, cruzando a Armênia e a Pérsia e descendo até o Golfo Pérsico a fim de conseguir um barco que os levasse à China. Mas acharam as embarcações tão frágeis que voltaram para o norte, passando pelo litoral do Mar Cáspio, o Afeganistão, o planalto de Pamir e a Rota da Seda.


O grupo chegou ao palácio de verão de Kublai Khan, em Shangtu, em maio de 1275, e logo depois foi levado ao palácio de inverno, em Pequim. Niccolo e Matteo entregaram os presentes enviados pelo papa, recebidos com enorme satisfação, e só depois disso Kublai notou o rapaz que os acompanhava. Niccolo apresentou-o como seu filho e vassalo do Khan.


Kublai concedeu aos Polo o status de nobres de sua corte. Hábil no aprendizado de línguas, o jovem Marco logo se tornou um dos preferidos do imperador e foi incumbido por ele de várias missões, na própria China, na Birmânia e na Índia. Ao longo desse período, ele pôde conhecer bem o país e seu povo.



Marco descreveu a China de Kublai Khan como uma potência econômica e militar muito mais relevante do que a Europa. Exemplos disso eram sua produção de ferro (cerca de 125 mil toneladas anuais, marca que os europeus só alcançariam cinco séculos depois) e de sal (uma única província obtinha 30 mil toneladas de sal por ano). Um amplo sistema de transporte baseado em canais ligava mercados e cidades chineses, e um correio eficiente permitia que uma correspondência imperial percorresse até 500 quilômetros num dia. O uso de papel-moeda na economia local deixou atônitos os comerciantes venezianos.



Outros detalhes que chamaram a atenção de Marco foram o emprego disseminado de carvão para aquecimento e as roupas de amianto. O carvão já era usado na Europa naquela época, mas pelo visto Marco o desconhecia. Graças ao produto, qualquer chinês - um povo bem asseado, segundo o veneziano - podia ter seu próprio banheiro em casa. A resistência das roupas de amianto ao fogo surpreendeu tanto os Polo que eles trouxeram duas peças para o papa.



Niccolo, Matteo e Marco passaram 17 anos na corte de Kublai Khan, durante os quais acumularam muitas riquezas. Só decidiram voltar à Europa quando sentiram que Kublai, já perto dos 80 anos, não teria muito tempo de vida. Relutante, o soberano chinês deixou-os partir, como escolta de uma princesa mongol que iria se casar com um príncipe persa.


A volta durou três anos, incluindo uma longa viagem de navio (na qual centenas de passageiros e tripulantes morreram por causas desconhecidas) e um percurso por terra de Ormuz, no Golfo Pérsico, até o Mar Negro, dali a Constantinopla e enfim a Veneza, onde chegaram no inverno de 1295. De início, os viajantes, barbudos e com roupas esfarrapadas, não foram reconhecidos pelos familiares. Niccolo, Matteo e Marco decidiram então convidá-los para um banquete, no qual deram uma exibição incontestável de riqueza - suas roupas de viagem traziam, costuradas nas barras, uma imensa quantidade de jóias e pedras preciosas. Imediatamente, segundo Giovanni Ramusio (1485-1557), que escreveu sobre os Polo, o grupo de convidados "lhes devotou sinais de estima e de respeito".



Marco envolveu-se na política local e, quando Veneza e Gênova entraram em guerra, em 1296, armou uma galera de combate e comandou a na batalha entre as duas frotas perto da ilha de Curzola. Os venezianos foram derrotados, e Marco, levado para uma prisão genovesa, onde passou três anos. Foi lá que ele conheceu Rustichello de Pisa, e desse encontro saiu o livro que até hoje mobiliza o imaginário ocidental.


Marco morreu no início de 1324, aos 69 anos. Pouco antes de falecer, teria dito que todos os detalhes de seu livro eram verdadeiros, e que não descrevera nem a metade do que havia visto. Mas, pelo menos até o século 16, quando os portugueses se instalaram em Macau, o Livro das Maravilhas era lido mais como diversão. A revisão da obra só começou a ser feita no século 19, com edições críticas e avaliação de seu conteúdo científico. Os relatos foram comparados com fontes chinesas e validados. O resgate mais valioso da credibilidade de Marco veio com a viagem do pesquisador Paul Pelliot entre 1906 e 1908 pelo trajeto indicado pelos Polo, que confirmou muitas das informações descritas.



O link para esta matéria no site da Revista Planeta:


http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/429/artigo93065-1.htm


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