domingo, 28 de fevereiro de 2010

O rastro dos cantos, by Bruce Chatwin

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Foto: capa da primeira edição norte-americana, 1987
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Devo confessar que nunca tive vontade de visitar a Austrália, embora não haja nada, em absoluto, que me faça querer evitar a viagem. Acho interessante o pouco que sei, através de leituras e documentários vistos em insuspeitos programas de televisão, da cultura aborígine, e da exuberante beleza das praias. O resto é aquela imagem quase sempre ridícula que guardamos na memória dos lugares distantes que nunca conhecemos mas que estamos tão acostumados a ver através das telas (tv/cinema/computador) que parece até que já lá estivemos.

Essas imagens pobres sobre uma determinada cultura são as que primeiro aparecem em nossos pensamentos (por exemplo: pense em Austrália e logo lhe vem à cabeça um canguru, ou um bumerangue ou a fisionomia peculiar dos aborígines); acredito que isso se deva, até certo ponto, à influência de uma memória coletiva que a maioria de nós guardamos sobre certos lugares e acontecimentos. É a mesma coisa, se formos comparar, com o que pensam os estrangeiros sobre o Brasil: país do samba e do futebol, como se somente isso caracterizasse a nossa rica cultura.

Comecei a enxergar a Austrália de maneira diferente depois de haver assistido a alguns filmes que rodaram o mundo fazendo muito sucesso: O casamento de Muriel e Priscilla a rainha do deserto, por exemplo, fizeram muito sucesso e, para mim, mostraram um lado simpático, bem humorado e um tanto amalucado dos australianos.

Na literatura, até onde me recordo, meu primeiro contato direto com a Austrália foi no livro O rastro dos cantos, do escritor e viajante inglês Bruce Chatwin, de quem já postamos matéria aqui no Odepórica, sobre o seu trabalho mais conhecido, Na Patagônia.

Em O Rastro dos cantos Chatwin mergulha profundamente no universo da tradição mitológica dos aborígines australianos. É meio complicada a explicação sobre o rastro dos cantos, mas de modo geral funciona assim: no passado, cada antepassado aborígine, ao viajar pelo país, espalhava um rastro de letras e notas musicais ao longo da linha de suas pegadas, de modo que isso mais tarde funcionaria como um meio de comunicação entre as tribos mais distantes. “Um canto”, escreve Chatwin, “era tanto um mapa como um orientador direcional. Desde que você o conheça, sempre poderá encontrar seu caminho através do país.”

Continuando com as palavras do autor:

“Em teoria, pelo menos, a totalidade da Austrália poderia ser lida como uma partitura musical. Dificilmente haveria uma pedra ou riacho no país que não pudesse ou não tivesse sido cantado. Talvez se devessem visualizar os Rastros de Cantos como um espaguete de Ilíadas e Odisséias, retorcendo-se para um lado e para o outro, onde cada ‘episódio’ poderia ser lido em termos de geologia”.

“(...) Tenho uma visão dos Rastros de Canto se estendendo por continentes e pelos séculos; que, por onde quer que tenha andado, o homem deixou uma trilha de canto (cujo eco podemos, vez por outra, perceber); e que essas trilhas devem levar de volta, no tempo e no espaço, a um bolsão isolado na savana africana, onde o Primeiro Homem, abrindo a boca em desafio aos terrores que o cercavam, gritou o verso de abertura do Canto do Mundo: ‘EU SOU!’ .”

Eu, que nunca havia ouvido falar em algo parecido, achei encantadora essa imagem de um mapa sonoro cobrindo todo um país, já imaginou? Acho que essa imagem combina muito bem com o Brasil, um país tão musical e repleto de cenários maravilhosos... haja canto para tanto!

Mas vamos prosseguir aqui com nossa leitura. Bruce, ao chegar à Austrália, entra em contato com um expert no assunto, Arkadii, um homem culto e apaixonado pela cultura aborígine, que o levará para cima e para baixo no território australiano para compreender melhor como funciona o lance dos rastros. Conhecem muitas pessoas ao longo do caminho, o que parece ser uma marca registrada de Chatwin em seus relatos de viagem, o que confere um brilho todo especial à sua narrativa. Mais uma vez, percebemos que uma das coisas mais importantes e gratificantes de uma viagem são as pessoas com as quais convivemos durante o percurso, por mais superficiais e breves que sejam esses encontros. Às vezes, um simples comentário feito à toa por um residente local em uma cidade pode mudar radicalmente os planos de uma viagem. Daí a importância de se estar aberto ao novo, uma atitude receptiva em relação ao outro contabiliza muito mais ganhos do que uma posição neutra ou fechada.

Mas desse mal não sofre Chatwin, que topa tudo, ou quase, que lhe aparece pela frente. E com a companhia de Arkadii, que assume a posição de um guia de viagem em relação a Bruce, tudo fica mais fácil. Quem é esse Arkadii, um australiano descendente de russos que perambula pela Austrália atrás dos rastros dos cantos? Bruce Chatwin fala um pouco sobre seu amigo logo nas primeiras linhas do livro, embora não fiquemos sabendo exatamente como eles se conheceram ou foram apresentados.

“Era um andarilho incansável, um sertanista. Não pensava duas vezes antes de partir, com um cantil e um pouco de comida, para uma caminhada de cento e sessenta quilômetros pelas montanhas. Depois, voltava para casa, saindo da luminosidade e do calor, puxava as cortinas e tocava a música de Buxtehude e Bach no cravo. As progressões ordenadas dessa música, dizia, adequavam-se aos contornos da paisagem da Austrália Central.

(...) Gostava de aborígines. Gostava de sua coragem e tenacidade, e da habilidade que tinham para lidar com o homem branco. Aprendeu, ou quase, duas de suas línguas e ficou assombrado com o vigor intelectual, as proezas de memória e a capacidade e a determinação de sobrevivência deles. Não eram, ele insistia, uma raça em extinção – embora necessitassem de ajuda, vez por outra, para tirar o governo e as companhias de mineração de suas costas.

Foi durante sua experiência como professor que Arkadii tomou conhecimento do labirinto dos caminhos invisíveis que serpenteavam por toda a Austrália e eram conhecidos dos europeus como ‘Trilhas de Sonho’ ou ‘Rastros de Cantos’; e pelos aborígines, como ‘Pegadas dos Antepassados’ ou ‘Caminho da Lei’.

Os mitos aborígines da Criação falam dos seres totêmicos legendários que vagaram pelo continente no Tempo do Sonho, cantando o nome de tudo o que cruzava seu caminho – pássaros, animais, plantas, pedras, poços – e assim dando existência ao mundo por meio do canto. Arkadii ficou tão marcado pela beleza desse conceito que começou a tomar notas de tudo o que via ou ouvia, não para publicá-las, mas para satisfazer a sua própria curiosidade. No começo, os anciãos waldbiris desconfiaram dele, e as respostas que davam às suas perguntas eram evasivas. Com o tempo, uma vez tendo conquistado a confiança deles, passou a ser convidado a testemunhar suas cerimônias mais secretas, e foi encorajado a aprender suas canções.”

Isso basta para podermos verificar que Bruce teve a sorte de ter como companheiro de aventura um homem extremamente qualificado para o seu projeto, se é que essa pessoa realmente existiu, visto que muitos críticos afirmam que Chatwin inventou muitos fatos e personagens em suas narrativas, ou seja, você nem sempre vai saber quando aquilo que está lendo é fato ou ficção. Não que isso importe, a não ser que você esteja atrás de uma leitura mais comprometida com fatos reais, um estudo de campo, por exemplo. Se for o caso, essa leitura não se aplica, nem mesmo se a sua intenção for a de conhecer mais sobre a cultura dos povos nômades australianos, já que Chatwin não é antropólogo e seus conhecimentos sobre a cultura dos aborígines mostram-se bastante superficiais.

O que merece atenção é o chamado à aventura, é você entrar no mundo desse viajante obstinado, sair um pouco da sua rotina que suponho deva ser muito diferente daquela que se encontra na narrativa de Chatwin e nisso o livro é bom, gostoso de ler.

O Rastro dos Cantos pode ser dividido em duas partes; na primeira vamos acompanhar o autor pelo outback australiano, as áreas de terras áridas e distantes dos centros urbanos. Nessa parte o leitor conhece mais sobre o objeto de estudo do escritor, os rastros dos cantos propriamente ditos. Isso toma dois terços do livro, até que, pego de surpresa, o leitor se depara com o final da narrativa, quando Bruce se separa de Arkadii (que felizmente volta a aparecer no finalzinho da história) e começa a escrever anotações soltas de suas cadernetas de viagem (seus inseparáveis Moleskines) numa longa divagação onde reflete principalmente sobre a natureza nômade do ser humano.

É estranho? É sim, um pouco, mas eu particularmente gostei muito, de verdade. É como se pudéssemos entender melhor a cabeça de Chatwin, uma parada na viagem, que é sempre proveitosa se esta for longa e cheia de informações novas. Parar para descansar, para refletir, para aquietar o corpo e a alma, e para escrever – para quem é dado a isso. Escrever um diário de viagem pode ser um grande exercício de meditação, sabia? E é isso o que se lê nas páginas finais desse livro. Nem tudo é de interesse do leitor, pelo menos foi assim comigo. Nem sempre as notas dos cadernos têm relação com a história, estão mais para divagações, para preencher lacunas de pensamentos soltos. Mas isso não chega a incomodar já que os textos são sempre curtos (do contrário seriam entediantes).

As conclusões de toda essa narrativa sobre os rastros dos cantos aparecem pinceladas em algumas passagens, principalmente mais para o final da obra e merecem ser postadas aqui. Bruce Chatwin estava, no período dessa viagem, lutando contra a realidade da Aids, que o venceria dois anos após essa aventura, de modo que esse foi seu último grande trabalho.

“Tive um pressentimento de que a fase ‘viajante’ da minha vida estava chegando ao fim. Senti, antes que o mal-estar da fixação me invadisse, que devia reabrir aqueles cadernos. Devia colocar no papel uma lista das idéias, citações e encontros que me entretiveram e obcecaram, e com os quais eu esperava poder iluminar o que, para mim, é a questão entre as questões: a natureza do desassossego humano. Pascal, em uma de suas pensées
mais sombrias, dá como sua opinião que todos os sofrimentos originam-se de uma só causa: nossa incapacidade de permanecer quietos numa sala”.

“Todos os Grandes Mestres pregaram que o Homem, originalmente, era um ‘errante pelo deserto seco e árido deste mundo’ – são palavras do Grande Inquisidor de Dostoievski – e que, para redescobrir sua humanidade, era preciso despojar-se das amarras e tomar a estrada”.

Meus cadernos mais recentes estavam cobertos de notas tomadas na África do Sul, onde examinara, em primeira mão, certas provas da origem de nossa espécie. O que lá aprendi – junto com o que agora sei sobre os Rastros de Cantos – parecia confirmar a conjetura que vinha ruminando por tanto tempo: que a seleção natural nos destinou – da estrutura de nossas células cerebrais até a estrutura do dedão do pé – a uma vida de viagens sazonais a pé
através de uma terra impiedosa de espinhos ou do deserto”.

“Se assim o fosse, se o deserto fosse o ‘lar’, se nossos instintos fossem forjados no deserto, para sobreviver aos rigores do deserto – então ficaria mais fácil compreender por que pastagens mais verdejantes nos enfastiam; por que os bens nos esgotam, e por que o homem imaginário de Pascal vê como uma prisão suas confortáveis acomodações”.

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Leia: O Rastro dos Cantos (The songlines). Bruce Chatwin. Foi editado no Brasil em 1996 pela Companhia das Letras e não é difícil de ser encontrado em sebos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Jornada musical: Santiago, com The Chieftains

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Gosta de música irlandesa? Simpatiza com as lendas e o folclore celta? Sente um arrepio ao ouvir as primeiras notas de uma flauta de metal, típica da Irlanda e que tem um nome bonito, pennywhistle (ou tin whistle, numa tradução livre, “apito de latão”)? Se você respondeu sim a alguma destas perguntas (com o perdão do lugar comum!), então sugiro que ouça o trabalho dos Chieftains.

Criado em 1963 e ainda na ativa (no momento estão em turnê pelos Estados Unidos), The Chieftains são tudo o que há de melhor em música irlandesa; respeitadíssimos no mundo inteiro, estão para a música irlandesa como os Stones para o rock, ou seja, chegaram num nível em que se tornam referência e ponto, quer você goste ou não.

Ah sim, preciso dizer que música irlandesa não tem nada a ver com a onda que surgiu há duas ou mais décadas, a da música celta nos moldes de Enya e trilhas como as do Titanic ou Braveheart, por exemplo. Nada (ou quase nada) a ver com isso, a pegada aqui é outra. Os Chieftains são músicos de primeira linha, pesquisadores das tradições de seu país, de modo que seu trabalho tem uma forte sonoridade folk. O tempero, o que os diferencia, é o fato de, sem abrirem mão da tradição, permanecerem abertos ao diálogo com outros músicos e culturas, muitas vezes sem nenhuma ligação com o tipo de música que eles fazem. Já gravaram com Joni Mitchell, Joan Osborne, Diana Krall, Sinead O’ Connor e com os marmanjos dos Stones, claro. Mas também com Van Morrison, Sting, Mark Knopfler e até com o Tom Jones, veja só. Os tiozinhos são ecléticos, e isso é uma coisa boa.

E aí que, com tantos anos de estrada, dezenas de discos no currículo, como poderei dar conta, num único post, de falar sobre os álbuns dos Chieftains? E, claro, como adequar isso à temática do Odepórica? Mas então achei, que bom, um cd de onde posso puxar um gancho para o tema das viagens. Particularmente, nem é o meu preferido, porque este de que vou falar é um dos trabalhos temáticos dos Chieftains, Santiago, onde os músicos homenageiam a influência da música celta galega, região da Espanha onde descansam os restos do Apóstolo peregrino, Santiago (em Compostela).

Se você já visitou essa região da Espanha sabe que a influência celta ali presente é forte ainda nos dias de hoje. Causa um estranhamento delicioso, por exemplo, caminhar pelas ruas de Santiago de Compostela e ouvir o som dos gaiteiros, às vezes ao vivo, numa das quebradas da parte antiga da cidade. É fechar os olhos e imaginar-se nas ilhas britânicas, um barato. Aí você abre os olhos e presta atenção em dois senhores sentados na mesinha de um bar, fumando um cigarro fedido e conversando alto porque, provavelmente, já não escutam mais tão bem um ao outro, e sente outra coisa estranhamente familiar... ah, mas é claro, estão conversando em galego, que é mais parecido com o português do que com o próprio castelhano, outro barato, e a conclusão a que você chega, antes de encher a cara de Ribeiriño, é que a Galícia é mesmo uma delícia, só pra rimar e brincar um pouco com as palavras.

Mas deixando a bobeira de lado, culpa desse calor insano de São Paulo, vamos ao que interessa, ok? No encarte do álbum temos um interessante relato de Paddy Moloney (whistler e líder da banda) introduzindo o trabalho dessa gravação. Não que seja algo espetacular, não vou mentir pra você não. Mas tem de bom o aspecto documental da música, de como chegaram até a Galícia e um pouquinho de história também, que vai te ajudar a entender o que é que a Espanha tem a ver com a cultura celta. Sempre bom aprender um pouquinho, ainda mais no embalo de boa música, não é mesmo?

Santiago

Há mais de vinte anos, meu querido amigo Polig Monjarret me introduziu a maravilhosa música da Galícia, uma região verde e montanhosa do noroeste da Espanha. Galícia, cuja economia se baseou principalmente na pesca e na agricultura, tem sido desde sempre uma das regiões mais pobre da Europa. Os galegos falam seu próprio idioma (mais parecido com o português do que com o espanhol). A cultura, especialmente a música, tem mais em comum com a Bretanha, País de Gales, Escócia e Irlanda do que com a Castilha ou a Andaluzia.

A Galícia foi descrita em outros tempos como “o país céltico menos descoberto”. Em 1984, no velho porto de Vigo, atuei em um festival ao ar livre organizado pela banda galega Milladoiro. Foi ali que me apresentaram a um jovem tranqüilo e cortês chamado Carlos Nuñez. Alguns anos mais tarde, um jovem gaiteiro galego tocou para nós durante nossa visita ao Conservatório de música tradicional de Ploemeur na Bretanha. Fiquei gratamente surpreendido ao descobrir que o mesmo jovem que tocava era aquele que eu havia conhecido em Vigo.

Pouco depois, e com a ajuda de Polig e Fernando Conde, o companheiro igualmente jovem e inteligente do Señor Nuñez, fez os preparativos para que o precoce gaiteiro de Vigo tocasse junto com os Chieftains em uma apresentação. A noite resultou em uma gloriosa reunião de estilos e tradições musicais. A partir desse momento, decidi recriar e desenvolver a experiência para capturar sua essência em uma gravação, tal e como havíamos feito anos atrás com a música bretã no álbum “A Celtic Wedding”.

O projeto desenvolveu-se lentamente, levando-nos por rumos excitantes e novos nunca imaginados naquela noite de Vigo. Carlos se uniu a nós em vários cenários do mundo, como vendo o público com sua destreza sem igual com a flauta e com a gaita. Às vezes, parecia que era o sétimo membro dos Chieftains. Gravamos enquanto viajávamos, a inspiração derivando de nossos movimentos musicais nos lugares que visitávamos ao longo da rota dos peregrinos à catedral encantada de Santiago de Compostela. Os cristãos consideram esse lugar sagrado e acreditam que ali se encontra enterrado o Apóstolo Santiago. As lendas mais antigas, dos tempos celtas, falam de outra peregrinação que seguia as estrelas da Via Láctea até o fim da terra (Finisterre). Transcendendo suas próprias origens misteriosas, a peregrinação continua atraindo milhões de pessoas em todo o mundo em direção a esta terra longínqua.

Durante nossas viagens, provamos das emoções e dos estilos musicais das culturas próximas, desde a bretã até a vasca, da asturiana até a portuguesa e mais além. Há música dos tempos medievais, quando a peregrinação estava no seu auge, e música de uma época mais antiga com origens muito mais obscuras.

A música da história mais contemporânea evoluiu quando os galegos, como muitos de seus primos célticos, imigraram em massa para o novo mundo. Estabeleceram-se principalmente no sul, ancorando suas raízes desde o México até o Caribe e Américas Central e do Sul. Em nossas viagens, só podíamos provar de alguns desses estilos exóticos. Em Cuba com Carlos e nosso bom amigo Ry Cooder e depois no sul da Califórnia com Los Lobos e Linda Ronstadt.

Outros países com a música impregnada na riqueza da tradição galega nos tentaram a seguir com a peregrinação. Infelizmente, por enquanto, o tempo e os horários deram um tempo em nossas viagens. Argentina, Brasil e Venezuela terão que esperar outro momento, outro projeto, outra jornada de regresso a Santiago.
Paddy Moloney, Julho de 1996.

Bueno, se você quiser ser iniciado em Chieftains, há sempre a boa opção de comprar um cd com os melhores sucessos. Lançado no Brasil, o álbum The Chieftains: The wide world over traz dezenove grandes canções, numa coletânea que dá para ter, pelo menos, uma noção do viés musical e da competência dos irlandeses.

Se o seu interesse não vai tão longe, eu entendo, pelo menos baixe algumas canções para ouvir no seu mp3. Vou indicar algumas: The Magdalene Laundries, com Joni Mitchell, que arrasa; I know my love, com os irlandeses do Corrs; Factory Girl, na voz de Sinéad O´Connor, que ficou bem bonita; Shenandoah e a versão de Have I told you lately that I love you, com Van Morrison, que é o máximo, sempre; Morning has broken, linda na voz do Cat Stevens ficou espetacular com Diana Krall e Art Garfunkel; The rocky road to Dublin, com os Stones, um must; pra terminar, se você curte reggae, Redemption Song, com o Ziggy Marley, um pequeno tesouro.

Abaixo, a capa do disco Santiago, de onde tirei o material desse post.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Uma macumba no Brasil, by Albert Camus

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Tela: Djanira, Três Orixás (1966). Pinacoteca de São Paulo
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Como havia prometido em um post anterior, vamos retomar aqui o relato de Camus em seu Diário de Viagem pelas terras brasileiras. Achei importante separar essa passagem das outras porque o tema me pareceu interessante sobre um ponto de vista antropológico. Temos nessa narrativa sobre a macumba a visão de um estrangeiro que parece se esforçar em detalhar de maneira imparcial um rito religioso, o que não quer dizer que seu testemunho esteja isento de preconceitos e visões deturpadas de uma realidade totalmente alheia à sua, como é o caso. Entretanto, na minha opinião, Camus se saiu muito bem.

Nessa passagem, Camus é levado a um ritual de macumba. Para quem não tem muita noção do que se trata, (e porque o termo é muito carregado de preconceitos) podemos de maneira muito simplista definir a macumba como sendo uma prática mágica, muito mais do que religiosa. Própria das religiões que chegaram ao Brasil com os negros africanos, a macumba é um ritual que envolve dança (e o transe a ela associado), cantos e cerimoniais que podem variar entre os grupos de praticantes (ou de escolas iniciáticas). Tem muita importância na macumba a comida, a bebida, os objetos mágicos, o vestuário, as imagens, e a hierarquia dos participantes.

No imaginário popular, a macumba (cujo termo vem do nome de um instrumento de percussão africano) acabou se transformando em sinônimo de feitiço e baixa magia, um “trabalho” que só pode ser anulado com um contra-feitiço. Para muitos, a macumba também serve para designar as religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, um conceito totalmente equivocado. Se Camus usou o termo “macumba” foi porque no Rio de Janeiro se usava (não sei se ainda se usa) essa expressão para aquilo que na Bahia se conhece como Candomblé. Ao que parece, não há uma aplicação pejorativa do termo no contexto dessa narrativa em particular. E pelo que lemos na descrição ritual de Camus, o culto a que ele assistiu foi mesmo o do candomblé.

O ator negro de nome Abdias, quem levou Camus até o local onde se passa a narrativa é o escritor, jornalista e político Abdias do Nascimento, à época diretor do Teatro Experimental Negro, que encenara a peça Calígula, de Camus, com um elenco só de negros (informação que consta da nota sumária).

Para terminar, uma observação que não poderia deixar passar. Camus, ao escrever a seguinte afirmação “Echou (Exu), espírito do mal e deus africano” comete o grande erro de associar Exu com o mal, tal como fazem muitas religiões cristãs. Nem entrarei na questão da origem do preconceito associado a essa entidade da Umbanda. No Candomblé, por exemplo, Exu não é considerado uma entidade mas sim um Orixá, que pode ser interpretado como sendo um semi-Deus, devido a sua importância dentro dessa religião. Não importa a maneira como Exu é visto na Umbanda ou no Candomblé, a não ser o fato de que, sob nenhum aspecto, se deve relacionar Exu com algo negativo ou associado ao mal. Essa idéia não é nada mais do que o fruto da ignorância e do preconceito em relação à religião do próximo.

Boa viagem.

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Uma macumba no Brasil

Quando chego à casa da Sra. M., reina a inquietação. O “pai-de-santo” (padre e primeiro-bailarino), que devia organizar a macumba, consultou o santo do dia, que não deu sua autorização. Abdias, o ator negro, pensa, sobretudo, que ele não prometeu dinheiro suficiente para forçar a boa vontade do santo. Seu parecer é de que tentemos, no entanto, numa expedição a Caxias, aldeia dos arredores, a 40 quilômetros do Rio, e que procuremos uma macumba ao acaso. Durante o jantar, deixo que me expliquem as macumbas. São cerimônias cujo propósito parece constante: obter a descida do deus em si, por meio de danças e cantos. O objetivo é o transe. O que distingue a macumba das outras cerimônias é a mistura de religião católica e dos ritos africanos.

Como deuses ou santos, há Echou, espírito do mal e deus africano, mas também Ogoun, que é o nosso São Jorge. Há também santos Cosme e Damião, etc. ..., etc. ... O culto dos santos está integrado, aqui, nos rituais de possessão. Todo dia tem o seu santo, que não é festejado em nenhum outro dia, salvo por autorização especial do principal “pai-de-santo”. O pai-de-santo tem suas filhas (e filhos, suponho), cujos transes ele é encarregado de supervisionar.

Munidos dessas informações elementares, partimos. 40 quilômetros numa espécie de bruma. São 10 horas da noite. Caxias, que me faz pensar numa aldeia-exposição feita de stands. Detemo-nos na praça da aldeia, onde já se encontram uns vinte carros e muito mais gente do que imaginávamos. Mal paramos e um jovem mulato precipita-se diante de mim, oferecendo-me uma garrafa de aguardiente e perguntando se eu havia trazido Tarrou comigo. Ri às gargalhadas, faz brincadeiras, apresenta-me aos colegas. É poeta. Explicam-me, afinal, que ao saberem no Rio que iriam mostrar-me uma macumba (no entanto, haviam me recomendado segredo, que eu, inocentemente, guardei), muita gente quis aproveitar-se disso. Abdias faz algumas perguntas, e depois não se mexe mais. Ficamos ali, conversando no meio da praça. Aparentemente, ninguém mais trata de nada, e cada um sonha com as estrelas. De repente: precipitação geral. Abdias me diz que é preciso ir até a montanha. Embarcamos, rodamos durante alguns quilômetros por uma estrada esburacada, e, sem razão aparente, subitamente paramos. Espera, sem que ninguém pareça ocupar-se de nada. Depois, continuamos. De repente, o carro faz uma volta de 45 graus e toma um caminho de montanha. O carro sobe, arrasta-se, depois pára: a ladeira é abrupta demais. Descemos e caminhamos. O morro é liso, a vegetação escassa, mas parece que estamos em pleno céu, em meio às estrelas. O ar tem cheiro de fumaça. É tão pesado que se tem a impressão de tocá-lo com a testa.

Chegando ao topo da colina, ouvimos tambores e cantos bastante longínquos, mas que logo cessam. Caminhamos em direção ao som. Nem árvores nem casas, é um deserto. Mas num vão, vemos uma espécie de hangar, bastante amplo, sem paredes, com vigas aparentes. Estendidas pelo hangar há guirlandas de papel. De repente, entrevejo uma procissão de moças negras, que sobem em nossa direção. Estão vestidas de branco, de seda grosseira, a cintura baixa. Segue-as um homem, trajando uma espécie de casaca vermelha, com colares de dentes multicoloridos. Abdias o detém e o apresenta a mim. A acolhida é séria e cordial. Mas há uma complicação. Eles vão juntar-se a uma outra macumba, que fica a vinte minutos a pé, e gostariam que os acompanhássemos. Partimos. Consigo ver, numa encruzilhada, uma vela acesa, fincada em plena terra, umas espécies de nichos, nos quais estão metidas estátuas de santos ou de diabo (aliás, muito toscas e de estilo Saint-Sulpice) e uma cuia de água. Mostram-me Echou, vermelho e feroz, de faca na mão. O caminho que seguimos ondula através dos morros sob o céu cheio de estrelas. Os dançarinos e dançarinas precedem-nos, rindo e brincando. Tornamos a descer uma colina, atravessamos a estrada pela qual viemos e reescalamos um outro morro. Barracos de ramagem e de taipa, cheios de sombras que cochicham. Depois, o início da procissão imobiliza-se diante de um terreiro elevado e cercado de uma parede de bambus. No interior, ouvem-se tambores e cantos. Quando estamos todos reunidos, as primeiras mulheres sobem ao terreiro elevado e atravessam aos tropeços a porta de bambus. Depois, os homens.

Entramos num pátio cheio de detritos. De uma pequena casa de sapê e de taipa, à nossa frente, chegam cantos. Entramos. É uma cabana, bastante grosseira, cujas paredes, no entanto, são caiadas. O teto é sustentado por um mastro central, o chão de terra batida. Ao fundo, o pequeno alpendre abriga um altar, encimado por uma gravura representando São Jorge. Como essa, várias outras, parecidas, guarnecem os tabiques. A um canto, sobre um pequeno estrado, ornado de folhas de palmeira, os músicos: dois tambores baixos e um tambor longo. Havia uns quarenta bailarinos e bailarinas quando chegamos. Nós mesmos somos também uns quarenta, e respiramos, portanto, com dificuldade, espremidos uns contra os outros. Encosto-me num tabique e fico olhando.

Os dançarinos e dançarinas dispõem-se em dois círculos concêntricos, os homens no interior. Os dois pais-de-santo (o que nos recebe está vestido, como os dançarinos, com uma espécie de pijama branco) ficam de frente um para o outro no centro dos círculos. Na sua vez, cada um canta as primeiras notas de uma canção, que, imediatamente, todos retomam em coro, com os círculos girando no sentido dos ponteiros do relógio. A dança é simples: um bater de pés no qual se enxerta a dupla ondulação da rumba. Os “pais”, esses indicam apenas o ritmo. Meu intérprete me ensina que esses cantos rogam ao santo que autorize os recém-chegados no local. Entre os cantos, as pausas são bastante longas.

Perto do altar, uma mulher, que canta também, agita um sininho, de modo quase que ininterrupto. A dança está longe de ser frenética. De estilo medíocre, é pesada. No calor que aumenta cada vez mais, as pausas são quase insuportáveis. Eu observo:

1) que não se nota nos dançarinos a mais leve transpiração;
2) um branco e duas brancas que, aliás, dançam pior que os outros.

Em dado momento, um dos dançarinos adianta-se e me fala. Meu intérprete diz que me pedem para descruzar os braços, já que essa atitude impede o espírito de baixar entre nós. Dócil, fico de braços caídos. Pouco a pouco, as pausas entre os cantos diminuem, e a dança se anima. Trazem uma vela acesa, que se enterra no chão, no centro, perto de um copo d’água. Os cantos invocam São Jorge.

“Ele chega na luz da lua
Ele parte na luz do sol”
E ainda:
“Sou o campo de batalha do deus.”

Na verdade, um ou dois dançarinos já apresentam ares de transe, mas, se posso me atrever a dizê-lo, de um transe calmo: as mãos nos quadris, o passo rijo, o olhar fixo e átono. O “pai” vermelho despeja água em volta em volta da vela em dois círculos concêntricos e as danças recomeçam quase sem interrupção. De vez em quando, um dançarino ou uma dançarina deixa o seu círculo para vir dançar no interior, bem junto aos círculos de água, mas sem nunca atravessá-los. Eles precipitam o ritmo, contorcendo-se sobre si mesmos, e começam a emitir gritos desarticulados. A poeira sobe do chão, sufocante, tornando espesso o ar que já se cola à nossa pele. Cada vez mais numerosos, os dançarinos deixam o seu círculo para virem dançar em torno dos “pais”, que, por sua vez, dançam de forma mais rápida. (O pai branco, admiravelmente.)

Agora, tornam-se violentos, e, de repente, o pai vermelho se solta. Com o olhar inflamado, os quatro membros girando em torno do corpo, com os joelhos dobrados, coloca o seu peso alternadamente sobre cada perna, e acelera o ritmo até o final da dança, quando ele se detém, para olhar toda a platéia com um jeito fixo e terrível. Nesse momento, de um canto escuro, surge um dançarino, que se ajoelha e lhe estende uma espada embainhada. O pai vermelho tira a espada e faz com que gire a sua volta, com um ar ameaçador. Trazem-lhe um enorme charuto. Pouco a pouco, todos acendem charutos e fumam-nos, dançando. Retoma-se a dança. Um por um, os assistentes vêm prostrar-se diante do pai, com a cabeça entre as pernas.

Com o lado sem fio da espada, toca-lhes cada ombro, na diagonal; faz com que se levantem, toca-lhes o ombro esquerdo com o seu ombro direito, e depois inversamente; com violência, empurra-os então para a roda, movimento que, na maioria das vezes, desencadeia a crise, variando conforme os dançarinos: um negro grande, firme nas pernas, olhando para o mastro central, com um ar vago, tem apenas um estremecimento da nuca, que se repete interminavelmente. Vejo nele um ar de boxeador knock down. Uma branca gorda, com uma cara animal, uiva sem parar, mexendo a cabeça da direita para a esquerda. Mas umas jovens negras entram no transe mais terrível, com os pés colados ao chão, e o corpo todo percorrido por sobressaltos cada vez mais violentos, à medida que sobem para os ombros. A cabeça – esta se agita da frente para trás, literalmente decapitada. Todos gritam e urram. Depois, as mulheres começam, a cair.

Levantam-nas, apertam-lhes a testa, e elas recomeçam, até tornarem a cair. Atinge-se o auge no momento em que todos gritam, com estranhos sons roucos, que lembram latidos. Dizem-me que isto irá continuar até o amanhecer, sem mudanças. São 2 horas da manhã. O calor, a poeira e a fumaça dos charutos, o cheiro humano, tornam o ar irrespirável. Saio, trôpego, e respiro afinal deliciado o ar fresco. Amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens.

Fonte:


Diário de Viagem: a visita de Camus ao Brasil. Albert Camus. Editora Record, s/ data, págs 86 a 94.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Na Patagônia, by Bruce Chatwin

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Bruce Chatwin by Shawn Yu: http://gumkid.blogspot.com/

Eis um livro que podemos classificar como um marco na literatura odepórica moderna: Na Patagônia, de Bruce Chatwin. Publicado em 1977 (no Brasil a primeira edição veio em 1988) foi a primeira obra escrita pelo autor inglês e a que o consolidou como um dos grandes travel writers britânicos de todos os tempos.

O que diferencia essa obra de tantas outras narrativas de viagem? Algumas particularidades, entre elas a habilidade de Chatwin em misturar em seu relato de viagem a ficção com a realidade; essa obra marca um novo olhar sobre os relatos de viagem, onde o narrador sente-se livre para interpretar aquilo que vê e vivencia sem se prender à realidade absoluta das circunstâncias. É claro que isso, em algum momento, poderá desagradar algumas pessoas, particularmente aquelas que fazem parte da história, como de fato aconteceu com Chatwin (alguns dos personagens entrevistados disseram mais tarde que suas conversas com o escritor não aconteceram da forma como foram relatadas).

Na introdução da edição norte-americana (In Patagonia, Penguin Classics), escrita por seu biógrafo Nicholas Shakespeare, lemos que Bruce Chatwin pediu a seu agente nos Estados Unidos para que seu livro não figurasse nas prateleiras como literatura de viagem. Isso nos dá a certeza de que, à parte a importância crucial da viagem em sua narrativa, Chatwin enxergava seu trabalho como algo além da viagem propriamente dita, não por considerar um relato de viagem algo menor, mas por temer que um futuro leitor compreendesse mal o escopo da obra.

Para Chatwin existem algumas chaves de leitura para que se possa captar melhor o propósito de sua obra. Para ele, a Patagônia é o lugar mais distante que o homem caminhou desde o seu local de origem, sendo por essa razão um símbolo de inquietação, de desassossego. Na opinião de Chatwin, a descoberta da Patagônia teve o mesmo efeito na imaginação do homem que a chegada à lua, de forma ainda mais poderosa.

O autor quis deixar o leitor escolher entre duas jornadas: uma à Patagônia em 1975, e a outra “uma viagem simbólica que é uma meditação sobre a inquietude do ser e o exílio”. Todas as histórias foram escolhidas com o propósito de ilustrar algum efeito particular de perambulação e/ou de exílio, isto é, o que acontece quando você fica empacado em algum lugar, impedido de prosseguir seu caminho.

Em outras palavras: a jornada é uma metáfora. E a própria Patagônia, também ela, outra metáfora impactante.

E voltando a falar das particularidades que fazem dessa obra um marco da odepórica, temos o papel fundamental das pessoas que são muitas e que aparecem ao longo de toda a narrativa: há gente de todos os tipos, pessoas sem raízes, fugitivos, foras da lei, exilados ingleses, contadores de histórias, donos de bares sujos de beira de estrada, malucos... de tudo um pouco, e essa mistura de caracteres é o que da a alma a esse texto. Além disso, Bruce Chatwin é um excelente escritor, erudito na medida certa, equilibrado na seriedade e no humor; algumas passagens são primorosas no ato da descrição narrativa, como a cena que você irá ler a seguir:

“O trem começou a andar após dois assovios e um solavanco. Emas saltavam dos trilhos conforme passávamos, suas penas ondulando como fumaça. As montanhas estavam cinza, e a cerração provocada pelo calor as fazia reverberar. De quando em quando um caminhão deixava para trás uma nuvem de poeira na linha do horizonte. (...) Os povoados dos índios se espalhavam ao longo da estrada de ferro, obedecendo ao princípio de que um bêbado sempre poderia chegar em casa. Quando o trem parou na estação do índio, este desceu, trocando as pernas e agarrado à garrafa de gim quase vazia. Em torno dos barracos, garrafas quebradas brilhavam à luz pálida do sol. Um garoto de blusão amarelo se levantou e ajudou o bêbado a andar. Um cachorro, que estava deitado na entrada de um barraco, correu e lambeu todo o rosto dele.”

O começo dessa longa jornada de seis meses pela Patagônia teve início na infância do autor. O escritor puxa pela memória o gatilho de sua paixão pelas distantes terras um dia visitadas pelo primo de sua avó, um marinheiro chamado Charley Milward:

“Na sala de jantar da minha avó havia um armário com porta de vidro e, dentro dele, um pedaço de pele. Não passava de um pedacinho, mas era espesso e áspero, com tufos de um pêlo avermelhado, grosso. Estava pregado a um cartão por um alfinete enferrujado. No cartão havia alguma coisa escrita com tinta preta esmaecida, mas eu era então criança demais para ler.
‘Que é isso?’
‘Um pedaço de brontossauro. ’
Minha mãe conhecia de nome dois animais pré-históricos, o brontossauro e o mamute. Ela sabia que não era um mamute. Os mamutes vêm da Sibéria. (...) Aquele brontossauro específico viera da Patagônia, região da América do Sul, no outro extremo do mundo.”

E assim, de forma bem humorada, Chatwin nos carrega à Patagônia, a princípio em busca de algum sinal daquele animal pré-histórico que marcou sua infância, que logo saberemos não ser um brontossauro, mas um milodonte, ou um preguiça-gigante.

Você tem em mãos, ao ler Na Patagônia, uma obra de trezentas páginas com cerca de cem capítulos, o que dá uma média de três páginas por capítulo. Praticamente, cada capítulo traz uma história, embora algumas delas, como a de Butch Cassidy (pois irá descobrir que o lendário fora da lei andou por lá) ganhem mais espaço. Nessas andanças todas, Bruce Chatwin conhece, como já dissemos, muitas pessoas, como se fosse uma brincadeira daquelas em que uma pedra de dominó derruba outra, que derruba outra, até que todas tenham sido derrubadas, sabe como é? Mas não descobrimos, porque o autor não esclarece, como ele chegou até essas personagens cheias de histórias, nem como ele fazia, com algumas exceções, para ir de um lugar a outro (a pé, a cavalo, de trem, de carro, de bicicleta?), quanto tempo levava, como se virava com o idioma já que não dominava o espanhol, detalhes que gostaríamos de saber se um dia tivéssemos a oportunidade de conversar com ele. Detalhes que não constituem uma falha, que fique claro. O lance aqui, como já ficou esclarecido lá atrás, não é a viagem em si, mas as pessoas que encontramos pelos caminhos, certo?

Veja um exemplo disso nessa pequena passagem, quando o viajante se encontra com um poeta:

“O poeta morava na beira de um solitário curso de água, em meio a um luxuriante pomar de abricoteiros, sozinho numa casinha de dois quartos. Tinha sido professor de literatura em Buenos Aires. Chegara na Patagônia havia quarenta anos e ali ficara. Bati na porta, e ele acordou. Garoava, e, enquanto ele se vestia, me abriguei no alpendre e observei sua colônia de sapos de estimação. Seus dedos agarraram meu braço com força. Ele me encarou com um olhar intenso e luminoso. ‘Patagônia!’, exclamou. ‘É uma amante exigente. Ela enfeitiça. É uma sedutora! Envolve-nos em seus braços e nunca mais nos solta.’ A chuva tamborilava no telhado de zinco. Durante as duas horas que se seguiram o poeta foi minha Patagônia.”

Em Rio Pico, o autor se hospeda num hotel administrado por uma família judia “a quem faltavam as mais elementares noções de lucro”, segundo suas palavras. Aqui o bom humor vem com tudo:

“Na manhã seguinte tive uma tremenda discussão por causa da conta.
‘Quanto lhe devo?’
‘Nada. Se o senhor não tivesse dormido no quarto, ninguém mais dormiria. ’
‘E quanto foi o jantar?’
‘Nada. Como poderíamos saber que o senhor viria? Cozinhamos para nós mesmos. ’
‘Então, quanto foi o vinho?’
‘Sempre oferecemos vinho às visitas. ’
‘E o chimarrão?’
‘Ninguém paga pelo chimarrão. ’
‘Mas então o que posso pagar? Só restam o pão e o café. ’
‘O pão não posso cobrar, mas café com leite é uma bebida de gringo, e isso o senhor vai pagar.’ ”

Em meio a diálogos como esse, o autor intercala passagens históricas e lendárias relacionadas aos lugares pelos quais vai deambulando, e isso contribui muito para que se crie em nossa mente o imaginário de uma Patagônia quase mítica, como se essa região do planeta fosse de fato um fim de mundo para onde se dirigem todos os exilados do planeta, para onde vão aqueles que já não encontram mais seu espaço na sociedade. Para esses, a vida só tem sentido na solidão, entendida aqui em seus aspectos mais diversificados (geográfica, social, familiar, espiritual...). Uma obra grandiosa, Na Patagônia é uma lição para quem quiser aprender como escrever um relato de viagem com muito estilo e categoria.

“Esta manhã não tenho nenhuma religião em especial. Meu Deus é o Deus dos Caminhantes. Se alguém caminhar o suficiente, é bem provável que não necessite de nenhum outro Deus.”


Bruce Chatwin faleceu em 1989, aos 48 anos de idade. Escreveu cinco obras, todas elas lançadas no Brasil pela Companhia das Letras:

Colina Negra (2005)
O Rastro dos Cantos (1996)
Utz (1990)
Na Patagônia (1988)
Vice-Rei de Uidá (1987)

A página do escritor na internet pode ser acessada aqui.