domingo, 28 de março de 2010

Viagens fantásticas: a Expedição Langsdorff

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Do diário de viagem de Georf Heinrich von Langsdorff:

18 de Maio de 1825

Na manhã seguinte, apesar de o tropeiro ainda não ter voltado do Paraíba, dei ordens para selarem e carregarem os animais, para partirmos, ainda hoje, para o Paraibuna e Vargem, a 3 boas léguas daqui.

Por volta das 9h, estávamos todos prontos. Todavia, mal havíamos deixado o rancho, novamente os animais causaram confusão e tumulto. Alguns galoparam na frente, dando coices para trás e para frente; outros se embrenharam na mata; alguns correram para frente, outros para trás. Mesmo com todo o pessoal da tropa (cerca de 5 negros), sem o tropeiro, não tínhamos mãos suficientes para controlar os animais. Conseguiram juntar, às pressas, as caixas quebradas e a bagagem espalhada. Os animais foram recapturados e recarregados; os mais selvagens foram conduzidos com rédeas; e assim prosseguimos viagem.

Neste ponto, alguns de meus leitores certamente me diriam que eu não tinha necessidade de vir para o Brasil para presenciar essas cenas no dia-a-dia. A eles eu responderia que, na pátria européia, seria possível evitar cenas desse tipo. Mas quero, com ênfase e insistência, alertar os futuros viajantes para as inúmeras dificuldades a que, inevitavelmente, terão que se sujeitar no Brasil.

A propósito, é bem mais fácil e muito menos cansativo para um leitor, sentado em sua poltrona, ler superficialmente algumas observações, que, quem sabe, até lhe pareçam supérfluas, do que para um viajante no Brasil ter que esperar dias a fio a volta de animais perdidos e fujões, passar por todo tipo de incômodo, ficar sob um sol escaldante, transpirando constantemente e se desidratando, e ainda sujeito a passar fome e sede. Muitas vezes, na melhor das hipóteses, o que se consegue é uma refeição fibrosa, composta de feijão seco, toucinho e farinha de pão – diferente da farinha de mandioca, na medida em que esta é produzida a partir da tapioca ou amido que se obtém espremendo-se fortemente a raiz da mandioca.

Freqüentemente, nem por todo dinheiro do mundo se consegue a mais ordinária das cachaças. Não é raro o viajante ter que deitar seu corpo cansado sobre peles de boi duras, ao invés de sofás macios, sempre correndo o risco de ver destruída, dispersada ou perdida toda a sua bagagem, instrumentos valiosos e material de História Natural colhido.

É impossível fazer uma viagem confortável neste país (
p. 372 de "Os diários de Langsdorff", 1997).

Se você nunca ouviu falar da Expedição Langsdorff, aproveite a oportunidade para conhecer uma das mais extraordinárias viagens de expedição científica já realizadas ao mundo hispano-americano.

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo apresenta e patrocina a sensacional exposição Expedição Langsdorff onde você terá o privilégio de apreciar um rico material iconográfico sobre a população indígena brasileira além de estudos sobre a flora e a fauna do país tal como observadas pelos expedicionários no século XIX. Eu fui à exposição e voltei empolgado para compartilhar um pouco com você, leitor(a), dessa história fascinante. Vou transcrever algumas passagens tiradas de um jornalzinho e de um folder encantador distribuídos gratuitamente aos visitantes (completando com outras informações que encontrei pesquisando na internet). Vamos lá?

Introdução

Com o apoio do czar russo Alexander I e de autoridades brasileiras, o naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorff (naturalizado russo), médico, botânico, zoólogo e antropólogo (1774-1852), então cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, iniciou, em 1821, uma grande expedição de reconhecimento do interior do Brasil.

Imagem: O Barão Langsdorff

Artistas, botânicos, naturalistas e cientistas fizeram parte da empreitada – conhecida como expedição Langsdorff -, que, em oito anos, cruzou o país, partindo da Fazenda Mandioca, no Rio de Janeiro, e chegando até Belém, no Pará. Nesse período, de 1821 a 1829, os expedicionários percorreram cerca de 17 mil quilômetros do território brasileiro, a maior parte por rios, atravessando as províncias de São Paulo (um vilarejo de 15 mil habitantes), Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Amazonas e Pará.

As vicissitudes encontradas, especialmente doenças tropicais e mortes, não impediram a produção de mais de duas mil páginas de anotações manuscritas, além de diários, desenhos, aquarelas e registros cartográficos, nesta que é internacionalmente considerada como uma das mais importantes expedições científicas do século XIX.

Toda a produção foi encaminhada à Rússia e ficou desaparecida até 1930, quando foi encontrada nos porões do Museu do Jardim Botânico de São Petesburgo. A exposição Expedição Langsdorff oferece ao público brasileiro o contato com parte desse material, que traz aspectos da natureza e da sociedade de nosso país, sob a forma de desenhos e aquarelas, pouco conhecidos e em sua maioria inéditos, de Johann Moritz Rugendas (1802-1858), Aimé-Adrien Taunay (1803-1828), que morreu afogado no rio Guaporé, e Hercules Florence (1804-1879), um dos pais da fotografia no Brasil.

Imagem: Hercule Florence

No mundo contemporâneo é muito fácil registrar imagens, sons e textos. Celulares, internet, câmeras digitais e computadores tornaram nossas vidas cheias de informação. Será que podemos imaginar qual era a emoção de ver, no início do século XIX, um desenho de uma paisagem do novo continente? A importância do artista nesta época era diferente? E hoje, o que há de realmente novo para ser registrado?

Impressões de viagem

O ato de viajar comporta duas dimensões opostas, mas diretamente relacionadas: o olhar do viajante que se depara com o novo, e o olhar do morador local. O viajante se perde em paisagens, gestos, gostos, cores, cheiros e roupas diferentes ou estranhas, proporcionando aos sentidos uma multiplicidade de sensações. O residente segue a sua vida cotidiana, alheio ao seu papel de personagem integrante do imaginário do viajante.

Aquarela de Aimé-Adrien Taunay

Desde a abertura dos portos às nações amigas, o Brasil se tornou objeto de desejo dos pesquisadores europeus, muito por ser um lugar quase desconhecido pela Ciência. O alemão Langsdorff, integrante de uma expedição russa, se encantou com a promissora contribuição da exuberante natureza tropical, a ponto de quase se tornar um morador. Além de sua casa no Rio de Janeiro, ele adquiriu uma fazenda para criação de um centro de estudos, visitado, inclusive, por D. Pedro I.

No seu papel de viajante, Langsdorff desbravou matas, colheu amostras e registrou conhecimento. Como um quase residente, buscou melhorias para o Brasil, como o incentivo à proteção da fauna e da flora, a melhor relação com os índios e o desenvolvimento do transporte fluvial. Percorrendo o limite entre o estrangeiro e o morador, Langsdorff mostrou ao olhar do nativo a importância do patrimônio natural, às vezes esquecido por ser tão familiar. (Gustavo Gavião)

O artista viajante

Contando com apoio financeiro do governo russo, em 1821, Langsdorff dá início a sua expedição, tendo entre seus objetivos a realização de pesquisas científicas e a descoberta e estudo de produtos ainda desconhecidos no comércio europeu.

Serra dos Órgãos, de Johann Moritz Rugendas

Com ele viajavam pesquisadores de diversas áreas, como botânica, zoologia e cartografia. Além de anotações e catalogação de espécies da fauna e flora locais, foram realizados registros em desenho e aquarela. A princípio, o artistas Johann Moritz Rugendas é incubido de retratar paisagens, seus habitantes e costumes. No entanto, devido a divergências com o chefe da expedição, Rugendas abandona precocemente o grupo; seu posto é assumido por Aimé-Adrien Taunay que se destaca pela aguda observação dos povos indígenas, retratando-os em seus hábitos e transformações diante do contato com outros povos. Em seguida, Hercules Florence é contratado como segundo desenhista, vindo a produzir os registros de maior precisão e rigor científico. Sem grandes liberdades acerca dos temas que poderiam pintar ou desenhar, esses artistas viajantes seguiam, além dos apontamentos dos cientistas, as indicações de Langsdorff, que determinava o que deveria ser retratado e de que modo fazê-lo.

Resultados da Expedição Langsdorff

Da experiência dessa viagem são produzidos inúmeros relatos acerca da economia e dos costumes locais, tal como estudos da fauna e flora típicas. Além de registrar as informações recolhida com os habitantes das regiões, os participantes da expedição reúnem um incrível acervo botânico e zoológico reconhecido internacionalmente como representativo de regiões tropicais.

Do conjunto das obras produzidas pelos artistas, 358 aquarelas e desenhos encontram-se conservados no Arquivo da Academia de Ciências de São Petesburgo, além de cerca de 700 obras de Rugendas, Taunay e Florence, atualmente sob posse de coleções estatais e particulares. No total, foram confeccionados mais de 1000 desenhos e aquarelas durante a expedição Langsdorff.

Pintura de Johann Moritz Rugendas

Os resultados dos estudos cartográficos possibilitaram a produção de 36 mapas e plantas das cidades por Néster Rubtsov. Este acervo está conservado no Arquivo Naval Russo, em São Petesburgo, e estão apresentados na íntegra nesta exposição.

Os esforços da caça e da taxidermia por Langsdorff, Ménétriès e os caçadores que acompanhavam o grupo propiciaram a reunião de grandes coleções zoológicas, nas quais se incluem mamíferos, aves, peixes, répteis e insetos. No acervo ornitológico encontram-se quase 1000 aves empalhadas contendo o nome de Langsdorff. Este material encontra-se hoje conservado no Instituto de Zoologia da Academia de Ciências em São Petesburgo.

O herbário – com quase 100 mil exemplares e 12 mil espécies – e as coleções dendrológica (estudo de madeiras de plantas lenhosas) e de frutos e sementes – com 5 mil objetos organizados por Langsdorff e Riedel – são considerados únicos no gênero e de imprescindível valor científico. A partir deste acervo, foi possível determinar cerca de 15% das espécies botânicas da flora brasileira. Em homenagem aos pesquisadores, alguns gêneros e quase 30 espécies receberam o nome de Langsdorff; um gênero e seis espécies foram dedicados a Riedel. Tudo isso está conservado no Instituto de Botânica da Academia de Ciências em São Petesburgo.

O estudo das etnias indígenas com as quais se deparam ao longo do percurso é de amplo interesse. A realização de estudos lingüísticos também abrange dialetos, organizando registros de vocabulários indígenas. Foram reunidos cerca de 100 objetos etnográficos da cultura e dos costumes de tribos indígenas. Tal coleção está conservada no Museu de Antropologia e Etnografia da Academia de Ciências, o Kunstkamera, em São Petesburgo.

Aquarela de Hercules Florence

Mais de 4000 páginas de manuscritos incluem dados valiosos para estudo nas áreas de geografia, botânica, zoologia, medicina, economia, estatística, história, etnografia e linguística. Este acervo encontra-se agora conservado no Arquivo da Academia de Ciências em São Petesburgo.

Como você já deve ter percebido, há um material gigantesco para ser explorado sobre o tema, desde os diários de viagem às belíssimas aquarelas e o bom é que parte disso está disponível em livros, alguns esgotados, mas para isso servem as boas bibliotecas, certo? OK. Por isso, uma boa imersão nessa aventura exploratória, que muito acrescenta à nossa história brasileira pode ser feita gratuitamente na exposição Expedição Langsdorff no CCBB de São Paulo até 25 de abril. Após essa data a exposição seguirá para Brasília (11 de maio a 18 de julho) e Rio De Janeiro (03 de agosto a 26 de setembro). Uma dica: antes de percorrer a exposição veja o documentário No caminho da expedição Langsdorff (lá na própria exposição), de Maurício Dias, sobre a viagem que refez a Expedição em 1999, com a presença da simpática artista plástica Adriana Florence, tataraneta de Hercules Florence, o próprio.

Sugestões de leitura:

Expedição Langsdorff: acervo e fontes históricas. Boris Komissarov. Editora Unesp. 1ª edição 1994.

A Expedição do Acadêmico Langsdorff ao Brasil. G.G. Manizer. Editora Nacional. 1967.

Os Diários de Langsdorff. Vols. I, II e III. Danuzio Gil Bernardino da Silva (org). Editora Fiocruz. 1997.

Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas: de 1825 a 1829. Hercules Florence. Edições Melhoramentos. 2ª edição. 1948.

No Caminho da Expedição Langsdorff. Adriana Florence. Ed. Melhoramentos. 2000.

O viajante Hércules Florence: Águas, Guanás e Guaranás. Dayz Peixoto Fonseca. Editora Pontes. 2007.

sábado, 20 de março de 2010

O diário de viagem de D. Pedro II

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O jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria muito interessante sobre um diário de viagem escrito por Dom Pedro II em sua visita à Palestina encontrado por um historiador da Universidade de Jerusalém, Reuven Faingold, em 1995. Sua pesquisa resultou na publicação, em 1999, de uma obra intitulada D.Pedro 2º na Terra Santa (Editora Sêfer, esgotada).

Vou postar o artigo na íntegra. Leitura recomendadíssima, como tudo o que diz respeito a esse grande personagem da história brasileira, D. Pedro 2º, o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos orgulhar e conhecer melhor. Boa viagem.

Diário reconstitui viagem de D. Pedro 2º

Domingo, 14 de março de 2010
Folha de São Paulo, Caderno Mundo pág. A18.
Autor: Marcelo Ninio

Quando desembarcar em Israel, o presidente Lula mergulhará numa realidade política a anos-luz da encontrada por D. Pedro 2º em 1876, na única visita até hoje de um governante brasileiro à região. Mas quem se aventurar a repetir os passos do imperador na Terra Santa, se surpreenderá com as marcas que resistiram ao tempo e aos conflitos nos locais percorridos pela comitiva real.

A passagem do último imperador do Brasil pela Palestina fez parte de uma monumental excursão que durou 18 meses e passou por mais de cem cidades em quatro continentes.

Nunca antes na história do império o monarca havia ficado tanto tempo fora. Foi a mais longa das três grandes viagens internacionais de D. Pedro 2º, que deixou as turbulências abolicionistas da corte para trás e se lançou no mundo.

É possível reconstituir os passos do imperador na Terra Santa graças às descrições deixadas por ele em um detalhado diário de viagem. Em 24 dias, o imperador visitou Líbano, Síria e Palestina, num percurso de 500 km - uma enormidade para uma comitiva de 200 pessoas movida a tração animal.

O diário de viagem foi achado por acaso em 1995 pelo historiador Reuven Faingold, da Universidade de Jerusalém, que dá aulas na universidade FAAP, em São Paulo.

Com uma lupa, ele transcreveu a letra miúda do autor e publicou "D. Pedro 2º na Terra Santa" em 1999 (Ed. Sêfer, esgotado), um diário que joga luz sobre a personalidade despojada do monarca e descreve cenários que se preservaram e hoje são cercados pelo conflito entre israelenses e palestinos.


Após passar por EUA, Europa e Rússia, a comitiva real chegou ao Oriente Médio pelo Líbano, no dia 11 de novembro de 1876. "Chegava-se à Terra Santa por Beirute, que tinha o melhor porto", explicou Faingold, por telefone. "Não existia ainda Haifa, hoje o maior porto de Israel."

De Beirute, o imperador foi para Damasco, onde apreciou os banhos turcos, e seguiu para a Palestina, então sob domínio otomano. Na Terra Santa o objetivo de D. Pedro 2º, cristão devoto e estudante de hebraico, era a peregrinação por santuários, em especial o Santo Sepulcro, onde celebrou seu 51º aniversário com uma missa.

Mas o mais impressionante foi o mosteiro de Mar Saba (também conhecido como Saint Sabbas), edificação encravada nas montanhas isoladas do deserto de Judá. O lugar, visitado pela Folha, fica a 10 km de Belém e continua de difícil acesso, com despenhadeiros e paisagens de tirar fôlego.

Estabelecido há mais de 1.500 anos para abrigar monges reclusos, Mar Saba fica numa área que faz parte da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Para chegar até lá é preciso passar por uma barreira militar israelense e pelo polêmico muro de segurança construído por Israel na divisa com a Cisjordânia ocupada.




Foto: Mar Saba

A comitiva de Lula passará pelo muro quando for visitar Belém, na próxima terça. A caminho de Mar Saba, no dia 29 de novembro de 1876, D. Pedro 2º não encontrou barreiras no cenário praticamente despovoado que era a Palestina otomana, mas passou por um aperto ao descer a ribanceira que leva ao mosteiro.

"O caminho até perto de S. Sabbas é terrível, atravessando-se gargantas horrivelmente pitorescas", escreveu o imperador em seu diário, destacando que as "ribanceiras de pedra têm centenas de pés de altura."

O mosteiro grego ortodoxo é até hoje a única construção no meio da paisagem desértica, que parece intocada há séculos. Algo que também não mudou desde 1876 é a proibição de entrada a mulheres, que obrigou D. Pedro 2º a dividir a comitiva e a deixar a imperatriz Teresa Cristina fora do programa. Também continua não havendo eletricidade ou telefone.

A palmeira mencionada pelo imperador como o símbolo do mosteiro está lá até hoje. "Ela tem poderes miraculosos", diz o grego Anatasius, um dos 16 monges que vivem no local.

Em seu diário, D. Pedro se queixa da falta de hospitalidade e da ignorância dos 60 monges que ocupavam o mosteiro. Com um sorriso tímido, Anastasius arrisca uma explicação para a queda no número de moradores. "Não é fácil viver recluso no deserto", diz.

Não se sabe se D. Pedro 2º deixou registro em Mar Saba de sua visita, mas em Jerusalém ela existe e será exibida em breve. No Hospício Austríaco, que lhe serviu de hospedagem numa esquina da Via Dolorosa, está preservada a página do livro de hóspedes assinada pelo ele - que é divulgada aqui pela primeira vez.

"Estamos organizando uma exposição sobre as celebridades que estiveram aqui e D. Pedro de Alcântara é uma delas", conta Johannes Safron, que trabalha na hospedaria, hoje um local considerado "cult" por mochileiros europeus.


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Para uma pesquisa rápida sobre a vida de Dom Pedro II clique aqui.



Para ler uma sinopse da obra de Reuven Faingold, visite o site do autor clicando bem aqui.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Peregrinas brasileiras: mulheres no Caminho de Santiago

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Houve uma época, lá pelo finalzinho dos anos noventa, início do segundo milênio, em que peregrinos brasileiros eram “figurinhas fáceis” no Caminho de Santiago. Paulo Coelho abriu a porta e muita gente aceitou o convite: vamos lá embora prá Compostela, ver que lance maluco é esse de peregrinação!

E foi aí que, precisamente, nascia um imaginário jacobeo todo especial para nós aqui do Brasil. Gente morena e bronzeada atravessando o mar disposta a percorrer centenas de quilômetros numa terra distante, abrindo mão de conforto e lazer só para dar um abraço no Apóstolo Tiago. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Primeiro foi um, depois foi outro, depois mais um... e quando a espanholada percebeu, uma invasão brazuca tomou conta do Caminho.

Essa brasileirada, no começo, chegou a assustar um pouco os espanhóis mais tradicionais. E por que isso? Bem, você tem que imaginar a seguinte situação: já é meio esquisito para o padrão dos espanhóis que vivem à margem da rota jacobea ver passar pelas portas de suas casas um tipo de gente diferente dos estrangeiros branquelos que há gerações passam por lá: alemães, franceses, holandeses e belgas, em sua maioria, além dos nativos, claro.

Os europeus, para peregrinar, já saem andando da porta de suas casas, não precisam atravessar o mar para isso, mas os brazucas, não. Além disso, chegam ao Caminho “apadrinhados” por um escritor praticante de bruxaria, que foi obrigado, depois de alguns mal-entendidos, a mudar algumas passagens de sua obra onde afirmava que um padre e uma hospitaleira francesa eram bruxos. Uma bobagem para nós, mas não para eles que guardam na memória uma amarga passagem pela Inquisição, certo? Certo.

Daí que, aqueles que foram no embalo do mago, voltaram de suas viagens cheios de coisas prá contar prá gente. Alguns escreveram suas memórias, publicando seus diários de viagem e a coisa toda virou uma festa: paulinhos coelhos e paulinhas coelhas mexendo com a cabeça dos moços e das moças cheios de vontade de ir atrás dos seus sonhos, suas espadas, seus segredos templários e discos voadores imaginários. Tem gnomos e duendes lá? Tem sim, e cães amaldiçoados pelo capeta, e bruxas cheias de poderes e poções, e anjos da guarda disfarçados de pastores. Uma doideira esse tal de Caminho de Santiago, diriam alguns.

Parece exagero? E é, claro, mas só até certo ponto, porque de fato essa salada místico/esotérica por um bom tempo fez parte de tudo aquilo que uma pessoa comum associava ao Caminho. Não que isso tenha acabado, mas podemos dizer que essa imagem já não vende com a mesma força de outrora o “produto” Caminho (e nem vou entrar nessa discussão porque não me interessa mesmo).

Muitos relatos de viagem foram publicados desde o Diário de um Mago. Mais de uma centena, o que me parece um número bastante razoável. Dessa primeira leva de peregrinos escritores, cinco foram mulheres. É sobre elas que quero escrever dessa vez.

A primeira peregrina chama-se Lizia Azevedo, fez o Caminho em 1990 na condição de discípula de Paulo Coelho e publicou sua história, O Poder de Domar do Grande dois anos depois, em 1992.


O livro de Lizia é na verdade uma espécie de diário onde ela relata o seu caminho na senda da magia; é instruída por Paulo Coelho e mais da metade do livro trata disso, das dificuldades de uma mulher comum, mãe de dois filhos, que além das tarefas cotidianas ainda tem que se empenhar nas artes mágicas, uma espécie de Paulo Coelho de saias. Ela só chega à Espanha na página 123, e de lá parte na página 181, por isso, se você quiser ler apenas sobre as experiências de Lizia no Caminho, pode começar dali a sua leitura. E vale a pena?

Bom, depende daquilo que se busca. Como documento histórico, vale sim, afinal foi a primeira dama peregrina a se aventurar na literatura odepórica jacobea. Também vale para aqueles leitores interessados nesse lance mais “pagão” do Caminho. Na realidade, o que mais me agrada nessa e nas outras obras que iremos conhecer aqui no blog é o fato de que todas foram escritas num período chave do Caminho de Santiago, um pouco antes ou um pouco depois do Ano Santo de 1993. Foi uma época de grandes transformações para a história da peregrinação compostelana, quando o Caminho ganhou uma projeção que há séculos não se via. Foi também o mesmo período em que eu peregrinei a Santiago e para mim a leitura tem um gostinho especial porque muitos dos personagens que aparecem nessas obras, alguns já falecidos, eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente.

Vamos ler um trecho do relato de Lizia? A cena se passou no vigésimo sétimo dia da viagem:

O dia estava quente. Caminhávamos pela estrada. O asfalto consumia as energias e tornava monótona essa parte do Caminho. O som distante de um rio era a única coisa que chamava minha atenção. Eu estava cansada e com sede. Uma placa avisando a quilometragem, localizada num lugar afastado do acostamento, permitia que pudesse descansar um pouco ali. Avisei aos meus companheiros que iria procurar o banheiro do peregrino: a mata. Segui por uma trilha estreita que aparecia por detrás da folhagem.

O barulho das águas do rio começou a ficar mais forte. A descida acabava num monte de pedras que se unia a um lago formado por uma bela cachoeira. Meu desejo se realizara. Tirei os sapatos, suspendi minha calça e coloquei meus pés na água. Ela estava me convidando para entrar não só com sentimento, mas também com todo meu corpo.

Olhei ao meu redor. Vi que não seria possível a ninguém chegar até ali. Tirei toda minha roupa e, calmamente, coloquei os pés nas pedras. Quando dei o segundo passo, meu pé esquerdo escorregou no limo. Algo pontudo penetrou entre meus dedos. Pela dor, calculei que o corte fora profundo. Mergulhei, sentindo a água fria em meu corpo. O prazer e a dor se misturaram. O Caminho exigia de mim, além de suor e lágrimas, meu sangue: a consumação dos mistérios da vida.

Ao sair da água, sentei novamente na pedra para olhar o corte. Eu estava certa. Havia sido profundo. Talvez precisasse levar alguns pontos.

Meu pé, então, latejava. Sinal de inflamação. Uma mulher entrou na igreja carregando flores. Ajoelhou-se para rezar. Assim que terminou sua oração, foi ao altar levar as flores para enfeitá-lo. Ela parecia estar em ritmo de festa.

Encolhida de frio, sentada no banco, só escutava os meus próprios soluços. Eu não escondia minha tristeza. Ela não escondia sua alegria. Era o Caminho de cada uma de nós. A solidão da dor era o que eu estava sentindo. Não podia dividi-la com ninguém. Olhei para Jesus. Talvez estivesse sentindo essa mesma solidão, pregado na cruz.

A mulher caprichava na arrumação do arranjo de flores nos vasos. Absorta em meus pensamentos não percebi quando ela saía da igreja. “Bonita” - disse ela segurando meu braço – “ não se preocupe. Tudo o que você quiser vai conseguir.”

Como instrumento de Deus, ela me transmitia Sua mensagem. Eu tinha certeza. Nesse momento, o sol saiu de detrás das nuvens, iluminando a igreja, atrás dos vitrais, em diferentes cores. O céu parecia ter descido com toda a corte celestial. Eu não vi nem escutei, mas minha alma sentia.

Fora as provas que deveria passar, o Caminho sempre se mostrou cheio de surpresas agradáveis. “Não precisa ficar triste para chegar mais perto de Deus” – disse para mim o padre de Burgos.

Levantei e fui beijar os pés de Jesus. Quando olhei para o chão, vi uma rosa vermelha. Procurei por toda a igreja se tinha mais alguma rosa nos vasos. Não havia. Nesse momento uma enorme força tomou conta de mim, dissipando as nuvens de meu coração e me despertando para as lições do Caminho.

Segundo a Tradição, existem quatro maneiras de a mulher se revelar a Deus. Cada uma tem apenas um modo, um determinado anel para cumprir seu papel no mundo. Aquela que usa o anel da Santa se revela através da doação, do servir. A Mártir é aquela cuja revelação é feita através do sofrimento. A Virgem se revela a Deus por meio da solidão. Ela encarna, ao mesmo tempo, o homem e a mulher. Por fim, a Bruxa, cuja revelação se faz através do prazer. Simbolicamente, retirei o anel de mártir, deixando-o para outra, cuja sina fosse usá-lo. Peguei, então, meu verdadeiro anel de revelação, o qual andei tanto para encontrar: o da Bruxa. Ao sair da igreja, o sol ainda estava no céu, mostrando um novo dia e uma nova mulher que despontava dentro de mim.


No mesmo ano de 1990, Dalva Storchi também peregrinou a Compostela. Seu registro, pequenino, intitula-se O Caminho de Alba: descobrindo Deus em Santiago de Compostela. Dalva, assim como Lizia, foi discípula de Paulo Coelho, como ela mesma escreve, “uma iniciada nas Artes da Magia”.




Chama a atenção no relato de Dalva a maneira como sua prática mágica se entrelaça com um profundo contato com a fé católica. São suas as palavras: “(...) ainda que a vida inteira eu houvesse resistido à Igreja Católica Ortodoxa (sic) com seus dogmas e arbitrariedades, e ao seu eterno ar de dona da verdade, ao clero e ao Vaticano, eu por minha livre e espontânea necessidade buscava o sagrado, o meu laço com a Divindade.”

Essa maneira de se relacionar com o sagrado, tirando de cada religião aquilo que lhe interessa – e descartando o que não interessa ou não se aceita – é uma atitude típica dos novos movimentos religiosos, muito difundida entre peregrinos brasileiros. Até certo ponto existe um comprometimento com a Igreja, mesmo porque o Caminho faz parte da tradição católica, mas o modo como o peregrino opera a sua relação particular com Deus (ou com a Deusa, ou com os deuses) está acima de quaisquer dogmas ou compromissos institucionais. A narrativa de viagem de Dalva Storch é das mais curtas entre as inúmeras obras publicadas; sua viagem teve que ser interrompida várias vezes por causa do estado lastimável de seus pés, e algumas etapas foram percorridas de ônibus. Ainda assim, percebe-se que sua peregrinação foi uma experiência bastante transformadora.

Anna Sharp publica em 1993 A Magia do Caminho Real, provavelmente o relato mais lido entre todos os publicados naquele período. A seu favor, Anna tem uma escrita mais atraente e uma proposta que difere da dos demais autores: o uso do Caminho para aprofundar questões de cunho psicológico/espiritual, uma espécie de terapia de autoconhecimento (segue um pouco o modelo dos livros de auto-ajuda, mas de forma mais sutil). Anna Sharp foi uma espécie de fada-madrinha de muitos peregrinos e peregrinas da “primeira leva”. E, também ela, fez o Caminho a convite de Coelho, de quem se desligou ainda durante a caminhada, num momento de saco-cheio-de-tudo.


Seu livro é gostoso de ler e traz capítulos curtos intercalados de uma forma bem peculiar: a mulher, a peregrina e a terapeuta. As partes mais interessantes, opinião minha, são as que se passam no Caminho. Vamos ler uma passagem?

Desdobrei meu saco de dormir na relva macia; sentia-me absolutamente protegida, e adormeci olhando a Via Láctea, experimentando a sensação de entrega total. Descobrira que o meu dom era da “revelação”... que havia sido sempre assim.

As respostas sempre me foram sopradas, pensei sonolenta. Talvez pelos anjos... Escrevi uma carta para o meu marido, falando de meu amor por ele em trinta anos de buscas e agradecendo a paciência com a minha inquietude; somente um homem muito forte e seguro de si poderia viver ao meu lado: ele era assim e, sem perceber, tornara-se a pessoa mais importante de minha vida. Era o meu chão.

Escrevi agradecida outra carta para Paulo, meu querido guia, desligando-me de qualquer compromisso com a Tradição, abençoando-o e a seu Mestre, ainda desconhecido para mim, pela oportunidade de viver aqueles momentos; respeitei-O por sua sabedoria ao exigir que eu fizesse o Caminho da solidão. Por Seu conhecimento, me entregara ao Divino...

Eu não podia ser sua seguidora; sempre havia tido um mestre, um Mestre Interno já contatado há muito tempo, que me guiara e trouxera até aquele momento; sabia agora que não me julgava, que me aceitava e que nunca me abandonaria. A partir daquele momento o Caminho era MEU”!

Nos dias seguintes, percebi que de alguma forma sutil havia entrado em outro Universo. Era como se tivesse passado de uma dimensão para outra, mais leve e integrada. Meu corpo parecia se movimentar diferente: “eu levava” o meu corpo em vez de “ser levada” por ele.

Como um passe de mágica, o mundo se enchera de vida; conheci vários peregrinos nos refúgios, à noite, tendo sempre momentos de “trocas” altamente enriquecedoras. Falávamos uma só língua (entre holandês, inglês, francês, alemão e espanhol): a do “coração”. Nos entendíamos perfeitamente bem e a nossa despedida podendo ser um “para nunca mais”, já que nenhum de nós sabia qual seria a próxima parada. A liberdade total, a solidão durante o caminhar, são a ética do verdadeiro peregrino: aquele que busca Deus em si mesmo.

Numa tarde de muito calor, cheguei absolutamente faminta e sedenta a San Juan de Ortega, povoado medieval e precioso com apenas cinco casas. Encostado à porta da belíssima igreja românica, onde está a cripta que guarda o sepulcro do santo, estava um cura: “Por favor, senhor, sabe onde fica o refúgio?” – perguntei, apoiada em meu bastão. “A uns vinte ou trinta quilômetros daqui” – respondeu, com cara fechada. Fiz também uma expressão zangada ao perceber que estava mentindo, e novamente me dirigi a ele: “O senhor teria uma faca bem afiada para me emprestar?”. Curioso, me perguntou: “E para que quer uma faca?”. “Para cortar meus pulsos! Vou lhe deixar em culpa por toda a eternidade, pois se recusa a dar abrigo a uma pobre peregrina exausta...”

Caímos juntos na gargalhada, e o simpático Padre José Maria me convidou a entrar em sua casa, onde já estava disposta uma farta mesa com pães, queijos e salames que carinhosamente sempre preparava para os peregrinos cansados que por ali passavam.

Algum tempo depois, num ambiente dos mais calorosos, o cura em frente ao fogão nos preparou sua especialidade: uma deliciosa “sopa de alho”, designando tarefas para todos que iam chegando. E, à tardinha, rezou uma missa, mostrando uma relação bastante íntima e calorosa com Deus. Comunguei agradecida. Lentamente se processava em mim um estado alterado de consciência. Observava o mesmo fenômeno em alguns companheiros que já encontrara mais de uma vez.

(...) Uma tarde, depois da chuva miúda, formou-se no céu um lindo arco-íris, símbolo de meus sonhos de infância; compreendi que havia encontrado o “pote de ouro” tão procurado... estava viva e me amava! O amor transbordava de mim para tudo e todos que me rodeavam. Caminhava em êxtase; já não sabia em que dia do mês ou da semana estava. Tudo me parecia certo e perfeito. Há dias e dias que não me olhava num espelho, mas cantando e andando, me enfeitava com as flores que encontrava, colocando-as desordenadamente nos cabelos. Liberdade total! Nada me faltava.

Dentro da mochila, além de uma muda de roupa e um casaco, levava o saco de dormir que me protegia do frio noturno; muitas noites preferia dormir sob as estrelas, protegida pelo escuro ao meu redor e acordava acariciada pelo sol, com a música dos passarinhos em meus ouvidos. Percebi que nunca me havia sentido tão completa e feliz. Pela primeira vez consegui VER com os olhos do coração a Obra Divina. Apenas eu, o Caminho e Deus. Um.


Depois de Anna Sharp, aparece o relato de Baby do Brasil, (Baby Consuelo, a cantora), figura conhecida no meio artístico brasileiro tanto pela sua aparência exótica quanto pelas suas declaradas opções religiosas. Atualmente, Baby do Brasil se considera evangélica, mas sua imagem ficou muito marcada nas décadas de 1970/1980 por sua ligação com Thomas Green Morton, vulgarmente conhecido como o homem do “Rá”.




Com a obra intitulada Peregrina: meu caminho no Caminho, Baby escreveu um relato interessante, dando uma ênfase especial na sua busca espiritual, com características familiares à onda new age, como você poderá notar facilmente na passagem abaixo:

“Todos soltos no ambiente da alma, sintonizando suavemente numa freqüência de aceitação, amor e liberdade, sabíamos que logo que chegássemos à Espanha estaríamos prontos para decolar nessa outra ‘viagem’ rumo ao Eu e a certeza da chegada era o grande Orgasmo Cósmico em que já nos encontrávamos.”

Apesar do nome, Magda von Brixen é brasileira nascida no Rio de Janeiro. Fez a peregrinação na mesma época em que Baby fez a dela, e não por coincidência: ambas foram ao Caminho com o apoio de Anna Sharp, que após sua viagem a Compostela criou um curso chamado Caminho Real, onde entre outras coisas os participantes aprendem que a endorfina, um neurotransmissor capaz de modificar o estado emocional de uma pessoa, é liberada no organismo após a prática de um exercício físico intenso, como a caminhada. Daí para botar o conceito em prática, basta vontade e dinheiro para atravessar o mar e chegar à terra del Quijote.

Em sua obra, Em terra, pisando estrelas, Magda von Brixen propõe analisar o Caminho de Santiago sob a ótica feminina. Dedica uma atenção especial à questão da mulher em seu processo de transformação interior, mas isso não faz de seu texto um relato feminista, quando muito poderíamos classificá-lo como um relato feminino, que é de fato a proposta desta peregrina.


Logo no início de sua jornada, no pequeno povoado de Roncesvalles, Magda escreve uma passagem que me parece interessante por ilustrar o primeiro momento dos peregrinos brasileiros no Caminho no início dos anos 1990:

“Na Colegiata de Roncesvalles, o primeiro encontro sem fronteiras com peregrinos franceses, holandeses, belgas, alemães e espanhóis. Mistura de emoções em todos os idiomas, gestos e risos valendo mais do que palavras. A irreverência de Baby não agradou ao cura, que também não tinha em boa conta o misticismo verde-amarelo: disse em alto e bom som que brasileiros vinham ao Caminho em busca de bruxarias. O catolicismo espanhol é muito conservador e a tradução do livro de Paulo Coelho na Espanha não agrada ao clero local. Mas Javier, que coordenava trabalhos e movimentos na Colegiata, revelou-se mais irreverente que nós:
- Você é o cura?- perguntei, ao chegar.
- No, soy locura... ”

Essa visão que o cura de Roncesvalles tem sobre os peregrinos brasileiros, tal como é apresentada no relato de Magda, é sem dúvida preconceituosa e generalista. Mas, sem querer justificar a atitude do padre, temos que lembrar que, naquele momento, corria o mundo uma obra em que ele próprio era citado como um dos “bruxos” do caminho de Santiago, como já foi dito.

Com os livros de Magda e Baby um ciclo se fecha; até o final de década de 1990 poucos relatos serão publicados, até que em 1999, um Año Santo (assim como 2010, pois 25 de julho, dia de Santiago, cai em um domingo), dá-se o boom de brasileiros e brasileiras no Caminho. Com eles chegarão dezenas de relatos de viagem e uma nova geração de peregrinos pós-Coelho, ainda que, de um modo ou de outro, a pegada “místico/esotérica” continue presente na maioria dos relatos. Mas isso fica para um outro post. Ultreya!




quarta-feira, 10 de março de 2010

Peregrinos de inverno

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Há quinze anos eu completava pela primeira vez a peregrinação a Santiago de Compostela. Foi um inverno razoável o de 1995, alguns poucos dias chuvosos e neve em apenas duas ou três ocasiões. O frio incomodava muito à noite, nas regiões montanhosas, e quase sempre no momento de abandonar o saco de dormir. Hábitos corriqueiros como escovar os dentes e lavar o rosto pela manhã pediam uma certa dose de coragem e, em algumas ocasiões, que não foram poucas, amarrar as botas era tarefa difícil, por causa do tremor das mãos, que não obedeciam o comando da cabeça. Parte dessas e de outras dificuldades foram ocasionadas pela absoluta falta de preparo e material adequado à empreitada.

Hoje é fácil, mas em 1995 poucos brasileiros haviam feito o Caminho de Santiago. Meu único referencial eram os artigos de jornais e revistas que fui colecionando ao longo dos anos, lidos e relidos até quase decorá-los. Embora já existisse para o resto do planeta, a internet ainda não era uma realidade na minha vida; para se ter uma ideia, eu era estudante de jornalismo, e a sala de redação da Cásper ainda era na base da datilografia e no currículo ainda tínhamos que aprender taquigrafia. Na marra.

Bons tempos. Alguns meses antes da viagem consegui ler quatro livros sobre o CS, relatos de viagem de Anna Sharp, Máqui, Lizia Azevedo e Baby do Brasil, todos eles influenciados fortemente pela peregrinação do Paulo Coelho. Esses primeiros viajantes-escritores iriam mais tarde influenciar toda uma geração de peregrinos, sendo chamados jocosamente pelos espanhóis de peregrinos coelhistas. Eu também, admito, fui um deles.

Volto à questão do meu despreparo. Parti do Brasil com uma mochila pesando dezessete quilos, algo totalmente insano se você for levar em consideração que, para uma viagem desse porte, a mochila não deve ultrapassar dez por cento do seu peso corporal. Posso garantir que eu não pesava cento e setenta quilos, a foto está aí em cima para comprovar. Dentro da mochila um absurdo de elementos logo abandonados numa estrada, no segundo dia de caminhada: doze pares de meias, seis cuecas (sete, com a do corpo), seis camisas de manga comprida, um sleeping de dois quilos e meio, um par de tênis, uma nécessaire pesada com artigos de higiene e outra igual com artigos de farmácia, pedras (!) para regalar pessoas, blusa de lã, cachecol e luvas e outras coisas das quais nem me lembro mais.

As botas. Não poderia ter escolhido nada pior para calçar. Botas de couro, tipo coturno do exército, sabe como é? Sem amaciar. Tem idéia do estrago? Bolhas. Muitas bolhas do primeiro ao último quilômetro. E dor nas costas, nos joelhos e as temidas e assustadoras tendinites. O estrago em mim foi grande, ao ponto de, no último terço da viagem, eu só conseguir caminhar com a coluna paralela ao solo, numa média de quatro quilômetros por hora - em terreno plano. Houve um dia em que, ao ver o meu estado ao entrar num pueblo, uma velhinha chegou a chorar, e me levou de mãos dadas até a porta do refúgio.

Naquela época os refúgios no inverno quase nunca tinham água caliente. Ficar sem banho, portanto, era frequente, e meu recorde foi de seis dias. As roupas não secavam, por isso não eram lavadas. Usei a mesma calça (de moletom, vale registrar) trinta dias seguidos. Só trocava as cuecas e as meias, pelo menos a cada dois dias. Hoje penso que minha figura naqueles dias devia ser algo bem patética. Um cara usando um conjunto de moletom vermelho (a ideia era a de chamar a atenção caso eu me perdesse em alguma trilha) e botas pretas, barbudo e magrelo, era uma espécie de papai-noel mendigo e esfomeado, algo assim. Não foi à toa o choro da velhinha.

Mas tudo isso são detalhes, apenas detalhes de uma grande aventura. Fiz o caminho com um amigo e, apesar das brigas (acho que sempre são inevitáveis quando o convívio é longo), a amizade permanece até os dias de hoje. Fizemos a rota completa, desde Roncesvalles até Santiago, em 28 dias. Um grande feito, em que pese a minha condição deteriorada ao extremo.

Iniciávamos a caminhada tarde para os padrões dos peregrinos jacobeos, sempre por volta das nove horas da manhã, porque em muitas regiões, antes desse horário, ainda estava escuro. Em compensação, dificilmente chegávamos ao destino do dia antes das sete horas da noite, algumas vezes bem mais tarde do que isso. Essa rotina nos obrigava, portanto, a carregar um peso extra com alimentos, porque o comércio dos pueblos nunca estava aberto quando chegávamos. Lembro de uma vez em que nosso jantar foi pão seco com fatias de alho cortadas, como aperitivo. Mas o vinho nunca faltava, e era meu combustível até no desjejum. Nunca passei mal por isso e também não fiquei viciado, garanto.

Companhia nos refúgios só em três ou quatro ocasiões; um bêbado, desses que fazem o Caminho ad infinitum, em busca de abrigo e, quem sabe, algo de comer, nos acompanhou duas vezes, depois demos um jeito de despistá-lo. Era poeta, lembro bem disso, e quando lia seus poemas, com sua boca banguela, eu não entendia nada. Aliás, eu sequer arranhava um portunhol e isso irritava o velho, que achava, no devaneio de sua bebedeira, que eu fingia não entende-lo só para me livrar dele. Não era isso, mas devo admitir que usei algumas vezes desse recurso (ainda hoje o faço) para me livrar de pessoas inconvenientes em minhas viagens. Nesse ponto falar português é uma grande vantagem.

Depois do poeta beberrão encontramos dois outros peregrinos. Eram dois judeus estadunidenses estudantes de filosofia em Madrid. Descobriram o CS por acaso e não tinham nenhuma ideia do que estavam fazendo ali. Foram pela aventura e pela economia da viagem, que lhes garantiria abrigo gratuito, embora jamais se permitissem pernoitar nas pocilgas que nós com muito orgulho encarávamos (com inveja, claro, do conforto gozado pelos americanos). No começo não íamos para um lugar melhor para dormir por querer economizar ao máximo, mas depois resolvemos que privação material também fazia parte de nossa aventura.

Agora cheguei onde queria: privação material. Sabe o que é isso? Eu só fui descobrir o real sentido quando senti na pele o desafio. É preciso dizer que existem muitos tipos de peregrinos, assim como também de viajantes. Há os mais aventureiros que encaram qualquer parada, e há os que buscam sempre o conforto e a segurança. E há, também, os que se enquadram entre esses dois extremos, nem muito doidos, nem folgados demais. Acho que nos caso dos peregrinos compostelanos esses são a maioria. Mas naquela viagem de 95, eu e meu amigo nos enquadrávamos no primeiro grupo.


Como disse, no começo a preocupação era com a grana, que tinha que ser esticada ao máximo já que esse tipo de viagem é sujeita a muitos imprevistos. Mas algo em nós foi mudando conforme avançávamos, como se em um momento mágico um arquétipo desse passagem a outro: saía de cena o viajante aventureiro e em seu lugar assumia o peregrino. Mais humilde, mais calado e muito mais contemplativo.

Hoje sei que o fato de caminhar sozinho, sem a presença de outros peregrinos para compartilhar a experiência deambulatória foi decisivo para a profunda e involuntária imersão interior. O clima, por sua vez, também teve um papel fundamental nessa história. Há uma gigantesca diferença entre peregrinar no verão ou na primavera e peregrinar no inverno. Sei disso porque já fiz essa peregrinação nas quatro estações e nenhuma das outras três é tão marcante quanto a do inverno. O verde e o colorido das flores dão lugar a uma vegetação seca, as mesetas se transformam em paisagens desérticas, a relva cede lugar à lama, os pueblos parecem abandonados e o frio pode se transformar em inimigo mortal.

Por outro lado, isso tudo agrega ao Caminho uma dimensão mais mágica, e concordo com o que li certa vez em algum lugar: o peregrino do inverno é o que mais se aproxima do peregrino medieval; nas igrejas, quase sempre vazias nas missas vespertinas, o ritual parece dirigir-se a você, e é impossível não se emocionar quando um pároco lhe chama ao altar e lhe apresenta aos outros como “um verdadeiro peregrino”. E quando perguntam de onde você vem, então, a reação de espanto te enche de orgulho e satisfação: Brasil????? Sim, meu senhor, minha senhora, mas a pé apenas desde os Pirineus, claro...

Quanto às dificuldades, muitos peregrinos discordam do que vou afirmar: a dor física da caminhada potencializa muito o processo de transformação interior. Mas calma lá: não se trata de masoquismo e sim de aceitação, porque de certa maneira a dor nos faz crescer. Há quem fuja da dor e do sofrimento (no Caminho e na vida), de modo que tudo é desculpa para pular uma etapa ou outra (por outros meios que não seja caminhar com os próprios pés) para “poupar” o corpo, afinal peregrinação não é expiação e como sempre a sabedoria está em usar o bom censo.

O lado positivo do sofrimento é que ele, como tudo na vida, um dia passa; isso faz parte desse tipo de jornada, sobretudo se você acredita que a peregrinação é um rito de passagem, e por isso aquele que parte, é sabido, nunca é o mesmo que regressa. Pode procurar: você nunca irá encontrar, em qualquer cultura que seja, um rito de passagem onde não haja uma mínima dose que seja de dor, de sofrimento ou de privação, seja no aspecto físico, emocional ou espiritual. Pois é dessa experiência que o ser humano adquire o poder necessário para superar todos os futuros obstáculos de sua existência nesse plano.

Por isso, quando me perguntam qual a melhor época para se fazer o Caminho de Santiago, fico sempre tentado a responder: depende de quanto você está disposto a pagar; se optar pelo inverno o preço será alto, mas em compensação a recompensa virá em dobro.




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