quarta-feira, 28 de abril de 2010

Leitura essencial: A arte da peregrinação, by Phil Cousineau. Parte 2

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Dando continuidade ao post anterior, trago a você leitor e leitora do Odepórica a segunda e última parte da nossa “imersão” nessa fabulosa obra “A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado”, de Phil Cousineau. Escolhi uma ou duas passagens de cada um dos sete capítulos que compõem a obra, para que você possa ter uma ideia de como essa leitura é fabulosa. Palavras muitas vezes iluminadas e motivadoras, duvido que depois de ler esse livro você não tenha vontade de tirar a velha mochila do armário e sair por aí, atrás de suas próprias aventuras. Boa viagem.

Excertos do Capítulo I, O anseio.
Tema 1: A arte da peregrinação

Todas as nossas jornadas são rapsódias sob o mesmo tema da descoberta. Viajamos como quem busca respostas que não podem ser encontradas em casa; e logo descobrimos que uma mudança de clima é mais acessível do que uma mudança de coração. A verdade agridoce sobre o verbo viajar está contida na derivação da mais antiga palavra viandar, peregrinar. Em inglês, travel vem de travail, originada do latim tripalium, uma roda medieval de tortura. Como os viajantes de longos percursos e estranhos lugares sabem, às vezes, as viagens são “muito penosas”. Para os beduínos errantes, “viajar é penar”. Os gregos antigos ensinavam que os obstáculos eram formas de os deuses nos testarem. Na Idade Média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção. Se estivermos em férias, viajando a negócios ou numa excursão prolongada, poderemos associar os momentos de provação que surgem como sofrimento ou como oportunidades para nos pôr à prova.

Mas o que faremos se sentirmos necessidade de algo mais em nossas viagens, além dos desafios encontrados e dos prazeres conhecidos? O que acontece quando a busca do novo já não nos basta? O que ocorre quando nosso coração quer algo de uma viagem que desafia uma explicação?

Séculos de sabedoria a respeito de viagens sugerem que quando já não sabemos mais para onde nos voltar, nossa jornada verdadeira mal está começando. Nesse momento, nessa encruzilhada, uma voz apela para a nossa alma de peregrino. É chegado o tempo de nos prepararmos para pisar o chão sagrado – a montanha, o templo, o lar ancestral -, que vai agitar nosso coração e restaurar nossa capacidade de nos maravilhar. É na trilha para o profundamente real que o tempo pára e somos surpreendidos pelos mistérios. Essa é a viagem que não podemos deixar de fazer.

Nessa tortuosa e longa estrada, é fácil perder-se no caminho. Ouça. O velho eremita na beira da estrada sussurra: “Estranho, passe indiferente pelo que você não ama”.

Tema 2: A lanterna do viajante

Durante séculos os peregrinos devotos, que lentamente circundaram a Ilha Shikoku em homenagem ao santo japonês Kobo Daishi, dormiam em humildes hospedarias ao longo do caminho. Além de alimento e hospedagem, os peregrinos recebiam uma lanterna. Os caminhos em torno dos vilarejos nas montanhas eram perigosamente lamacentos e irregulares. A pequena lanterna iluminava a estrada na escuridão, a caminho do calor da hospedaria.

Pensei nessa imagem simples, da iluminação das trevas, por muitos anos. As lanternas estão entre minhas mais queridas lembranças de viagem. Os lampiões de acampamento eram comuns nas viagens que fiz com amigos ao nordeste de Michigan. Meu amigo George Whitman, dono da livraria Shakespeare and Company, em Paris (que foi instalada entre as paredes de um antigo mosteiro), contou-me que as lanternas eram uma venerável tradição que lá existiu por séculos, cabendo a honra de conduzi-la ao “mais especial dos monges”. “As pessoas esperam pela luz”, dizia meu amigo, “e isso é o que fazem os livros da minha loja. Espalham a luz num tempo de trevas. Por isso, uma livraria é o lugar onde o céu e a terra se encontram”.

A mais forte imagem em minha mente é a de uma lanterna de latão empunhada por freiras numa remota hospedaria numa vila de Sagada, ao norte de Luzon, nas Filipinas. Ao tempo de minha primeira visita, lá não havia eletricidade; a noite era absolutamente escura. Aventurar-se a algum lugar na hospedaria ou fora dela exigia que se levasse uma brilhante e clara luz. Eu me achava tomado pela ideia ousada de explorar o grande vale durante a noite com o auxílio de uma lanterna. Na minha mão, ela parecia a lâmpada maravilhosa de As mil e uma noites.
A lanterna dos viajantes é também uma metáfora luminosa para a luz que brilha intensamente a partir da sabedoria dos viajantes que percorreram aquela trilha antes de nós.

Excerto do Capítulo II, O chamado.
Tema 1: O chamado do destino

Brenda Knight é uma estudiosa de Chaucer e autora que se mudou para São Francisco vinda de Nova York no final dos anos 80. Logo depois que chegou ela fez a indispensável peregrinação à livraria City Lights. Sua visita acendeu nela uma paixão pelos poetas da Beat Generation. Uma noite ela consultou as cartas do seu tarô, e a primeira que tirou foi o Bobo, a carta do peregrino. Sentia que devia pegar a estrada, seguir o fio da meada daquela fascinação até Nova York. “Senti-me convocada a fazer a peregrinação até as origens de tudo”, ela disse, “o lugar onde tudo começou para os Beats. Como é que podia entendê-los, a menos que fosse até lá?”.

Em Nova York, ela foi ai refúgio de Allen Ginsberg, a Cedar Tavern, e a todos os lugares de que Pollock, Corso, Jannine Pommie Vega e Kerouac tinham falado. “No apartamento de Ginsberg, olhei sua porta e na moldura havia uma grande marca raspada na pintura, como se tivesse sido feita por alguma criatura desesperada. Havia um ar de angústia ali, mas eu me sentia como se tivesse feito um contato com aquela gente. Continuei minha pesquisa, principalmente quanto a Kerouac. Ele era de fato único. Acreditei que havia uma espécie de destino que nos unia. Seguindo seus passos por Greenwich Village era como ir ao mais sagrado dos lugares – você não precisa ir à igreja se for às fontes da grande literatura.”

Perguntei-lhe como sua peregrinação havia influenciado sua autoria no livro Women of the beat generation (Mulheres da geração beat). “Quando as coisas ficavam difíceis”, ela respondeu, “eu pensava assim: se Kerouac conseguiu, eu consigo. Que melhor modo senão seguir sua trilha para entender o segredo da criatividade de um escritor?”.

Tema 2: As tarefas do peregrino

Um dos meus mais queridos “chamados” aconteceu no momento em que abri um grande envelope, chegado pelo correio com o carimbo de Ottawa, no Canadá. Eu estava confuso, pois não me lembrava de qualquer parente vivo que vivesse por lá. Dentro havia um programa mimeografado de seis páginas para a reunião de 1995 da família monette, a ser realizada em Lake Nipissing, Ontário. Ainda confuso, continuei lendo até descobrir que Cyril e Odile Monette eram as bisavós da minha avó Olive. Uma surpreendente fotografia delas, em preto-e-branco, decorava a primeira página da comunicação, uma espécie de Gótico Canadense: a imagem de dois severos e interioranos ancestrais posando diante de uma cabana de madeira.

A fim de me preparar para a aventura, encontrei um livro chamado Lês Voyageurs (Os viajantes), a história dos caçadores de pele, no sertão do Canadá francês, da qual meu bisavô Charlemagne fazia parte. Pouco depois, encontrei uma fita das cantigas populares que os voyageurs entoavam nas suas longas viagens de canoa. Ouvindo essas cantigas nos meses que antecederam nossa viagem, eu estimulei o aspecto peregrino de minha alma.

Seis meses depois, minha companheira Jô e eu descemos de canoa o Rio Francês, juntamente com 17 dos meus primos, repetindo a viagem original dos colonos meus antepassados. Quando chegamos a Monetville, cerca de setenta quilômetros dali e três dias depois, havia 1500 parentes à nossa espera, apinhados na neblina da madrugada.Nos poucos minutos que custamos para desembarcar, foi como se um século de história da família tivesse sido desenrolado de um projetor de filmes. Voltando ao lado de onde meu pai me trouxe ainda menino, regressando às fontes da história de minha família, como em toda peregrinação, aquilo parecia trazer de volta, em cada sentido que se possa dar a isso, como se eu, de fato, fizesse parte de um todo.

Excerto do Capítulo III: A partida
Tema: Os caminhantes

Imagine de quantas maneiras você pode se preparar para a sua próxima jornada. Você pode pensar num modo de ritualizar sua partida como um peregrino, que escolhe o que vai levar no longo caminho a Santiago? Você tem uma causa sagrada, um propósito inacessível, como o peregrino que marcha pela paz? Você pode focalizar seu destino como um navegante prestes a embarcar numa viagem de 15 mil quilômetros?

Experimente imaginar que você está partindo para uma viagem da qual pode nunca mais voltar. Como você “organizaria” seu tempo? Daria uma festa? Registraria cada momento? Os rituais marcam o tempo, organizam o espaço – duas maneiras de definir o que queremos dizer com o sagrado.

Antes de estar pronto, lembre-se da finalidade de sua jornada. De agora em diante, não há mais qualquer coisa como um ato neutro, um pensamento vazio, um dia sem sentido. As viagens tornam-se sagradas devido à profundidade de suas contemplações. Como no mito, no sonho e na poesia, cada palavra é saturada de significado. Agora é hora de viver sua vida ideal.

Excerto do Capítulo IV: o caminho do peregrino
Tema: A maneira de ver

Se existe um truque para tornar sua viagem significativa, é aprender a ver por si mesmo. Para tanto, tome para si a prática e a crença que isso exige. A diferença entre peregrino e turista está na qualidade da atenção, no propósito da curiosidade.

Nós geralmente não olhamos, nós relanceamos.” Alan Watts.

Excerto do Capítulo V: O labirinto
Tema: Por falta de surpresas

Com o sutil mas expressivo golpe de perspectiva exigido de um peregrino numa viagem sagrada, o que de começo é um emaranhado logo se transforma num teste, e um desapontamento vira um desafio. Théophile Gautier, poeta do século XIX, mostra isso nas suas narrativas de viagens pela Andaluzia, contadas em Waderings in Spain (Vagando pela Espanha):

Viajar torna-se uma realidade, uma ação na qual se toma parte. Numa diligência (um coche) um homem já não é um homem, mas um objeto inerte, um pacote de mercadorias, nada muito diferente de um cabide. Ele é jogado de um lugar para o outro e, assim, pode chegar em casa. O prazer de viajar consiste nos obstáculos, na fadiga e até no perigo. Que encanto alguém pode encontrar numa excursão, quando está sempre certo de alcançar seu destino, quando tem cavalos prontos à sua espera, um leito macio, uma excelente ceia, e todas as delícias e confortos que encontra em sua própria casa? Uma das grandes infelicidades da vida moderna está na falta absoluta de surpresas e na ausência de todo tipo de aventuras. Tudo está tão bem-arrumado, tudo tão bem-combinado e rotulado que o acaso torna-se uma impossibilidade; se continuarmos progredindo dessa forma, a caminho da perfeição, por mais um século, todo homem estará em condições de prever tudo o que lhe acontecerá desde seu nascimento até o dia de sua morte. A humanidade será completamente aniquilada. Não haverá mais crimes, nem virtudes, nem personalidades, nem originalidade. Será impossível distinguir um russo de um espanhol, um inglês de um chinês, um francês de um americano. As pessoas nem poderão se reconhecer umas às outras, uma vez que todas serão iguais. Uma profunda sensação de tédio tomará conta do universo...

Notável esse trecho de Gautier prevendo o que pode acontecer aos viajantes modernos, banindo as diferenças culturais e as nacionalidades, com a perda de todo o prazer numa viagem desprovida de surpresas. Suas observações são um modelo de como introduzir sincronicidade em nossas viagens.

Sem dúvida, está chegando uma época para o viajante em que as rosas vão deixar de desabrochar. Há um desejo generalizado de ficar em casa, ou de aversão a mais uma dessas visitas a lugares “famosos”, com um grupo. Mas como Freya Stark disse em seu livro sobre Alexandre Magno: “Penso que um bom viajante deve prestar atenção a lugares desinteressantes. Estar neles, estar por dentro, como um fio num novelo. O mundo, com sua desconhecida e inesperada variedade, é parte do seu próprio lazer; e essa participação viva é, penso eu, o que separa o viajante do turista, que conserva a mesma distância de um espectador num teatro, sem participar daquilo que a cada instante o espetáculo pode oferecer”.

Excerto do Capítulo VI: A chegada
Tema: A arte de despertar

Muito antes de escrever seu primeiro romance, O pioneers!, Willa Cather fez um percurso resumido do Grand Tour da Europa e mandou de lá vários ensaios sobre o que viu para o Nebraska State Journal. Sua inspiração final veio do interior da França, especialmente de Lê Lavandou, um vilarejo da Dordonha:

Depois de uma longa jornada, em que povos e lugares foram visitados numa longa sucessão, há sempre um lugar de que nos lembramos mais do que outros, se suas características internas ou externas foram capazes de produzir em nós alguma coisa próxima da felicidade. Estou certa de que para mim esse lugar será sempre Lavandou. Nada mais na Inglaterra ou na França me passou esse sentido de posse e de conteúdo imensuráveis. De fato, não sei por que um pequeno vilarejo pesqueiro, sem nada, além de verdes pinheiros, mar azul e um céu de porcelana pôde significar para mim mais do que uma dúzia de outros lugares que sempre quis ver e depois vi em minha vida. Nenhum livro foi escrito sobre Lavandou, nem música, nem pintura jamais chegaram ao meu conhecimento e, no entanto, sei que ainda pensarei naquele lugar, muito depois de ter esquecido de Londres ou de Paris. Não se pode adivinhar ou prever as condições que nos vão produzir felicidade; chega-se a elas por acaso, numa hora de sorte, em algum lugar do fim do mundo, e nos agarramos a elas com o tempo, como fazemos com a fortuna e com a fama.

Eis aqui, em um parágrafo, a essência da chegada. Cather aperfeiçoou em duas direções a arte da atenção. Ela vê o vilarejo, percebe seu sabor agridoce no mundo, e vê também no âmago do seu próprio coração. Então, ela se aquece no braseiro dessa sua reação instantânea. Suas expressões de felicidade parecem as mais delicadas brisas que sopram do mar. Suas palavras são tão simples e suaves quanto as contidas num cartão-postal enviado por um amigo de algum pedaço do paraíso onde ele está passando uns dias. Lê-las é mergulhar na maravilha. Onde está meu Lavandou? E se encontrá-lo, como farei para me lembrar dele?

Excerto do Capítulo VII: Renovando a bênção
Tema: Peregrinos para Angkor, dobrar à direita.

Em nosso último dia em Angkor, meu irmão e eu vagamos pela antiga estrada atrás dos estreitos caminhos de pedra do templo de Ta Prohm. Na margem da rodovia encontra-se o recém-descoberto Abrigo dos Peregrinos. Em meu pequeno e primitivo guia de viagem, comprado por cinqüenta centavos do vendedor de um só braço que encontrei na entrada, li que os principais templos haviam sido descobertos pelos exploradores franceses por volta de 1840, mas aquela construção simples passou despercebida, ali perto da estrada, até 1944.

Durante séculos, peregrinos estiveram lá depois de andar centenas de quilômetros vindos de todo o sul da Ásia, a fim de ver o céu na terra, um paraíso de pedra e água, e os santuários apinhados com dez mil estátuas do Buda. Os peregrinos eram vítimas de ladrões, bandidos e salteadores, assim como de animais selvagens e doenças. Mas tinham todos uma meta. Senti uma grande afinidade com eles.

Ao longo de toda a minha vida adulta tenho me encantado com essas ruínas, como se estivesse vivendo nas imagens daquele livro que meu pai me deu por razões que nunca pude entender. Sentia-me inconsolavelmente solitário, até que me lembrei do velho caçador da Groenlândia que teve a simplicidade de aceitar um presente dado por desconhecidos, recebendo a beleza do mistério.

Tarde naquele dia, andando pelos longos corredores do assombrado templo de Bayon, com seus 54 rostos colossais do bodisatva Avalokiteshvara me fitando com seu sorriso enigmático, lembrei da última conversa que tive com meu pai. Ele me perguntou o que me parecia ser bem óbvio: “Meu amor pelos livros influenciou você?”.

As palavras queimaram como um ferro em brasa, enquanto eu acendia uma vela e bastonetes de incenso em intenção dele, nos corredores vazios de Bayon, e fazia uma oração silenciosa pedindo que seu espírito pudesse encontrar a paz.

A noite começava a cair. Meu irmão e eu corremos de volta para Angkor Wat e subimos os degraus íngremes para o terraço mais alto para ver o pôr-do-sol no horizonte de florestas. Projetados para tornar o peregrino consciente da subida até um nível mais alto, não apenas de altitude, mas de consciência, os degraus tinham sulcos laterais provenientes do desgaste produzido por dez séculos de peregrinos subindo e descendo. Somente no alto pudemos descansar.

(...) O sol ardente sumiu depressa atrás do horizonte. A noite chegou, povoada de insetos e dos estranhos sons da floresta que nos cercava. Nas sombras das vilas próximas, lâmpadas de gás começavam a brilhar. Um a um, os monges e um punhado de viajantes desceram rapidamente os degraus para o longo corredor que levava à calçada, distante um quilômetro e meio da estrada principal.

Antes de começar a descer, vi o brilho trêmulo de uma chama votiva no fundo do corredor, junto à sala dos Budas. Em cada um dos quatro planos da descida, olhei para trás e para cima, e, por um milagre de arquitetura, a pequena chama continuava visível. Como a chama do espírito de meu pai em mim, pensei, enquanto ao mesmo tempo olhava para trás na minha vida e via a pequena e constante luz do seu amor, ainda lá, bruxuleante, espalhando fé e indicando direção na minha trilha.

Ao perceber isso, senti que alguma coisa em mim se completava. Só uma jornada como aquela podia encerrar o círculo de minha vida, e tocar em algo sagrado que podia revitalizá-la.

Andando na escura noite cambojana, minhas sandálias soando nas velhas pedras ao longo do calçamento, um pensamento, surgido num tempo distante, emergia na minha mente. Talvez a gente morra duas vezes. Uma, quando o coração pára. Outra, quando os que nos sobrevivem deixam de contar histórias sobre nós.

Naquele momento, meu coração vibrou de alegria. Minha peregrinação estava completa, a jornada com meu pai havia terminado. Outra se iniciava no momento em que me afastei da pequena chama e nada vi senão a escuridão da floresta que cercava o antigo templo, e já nada ouvia senão o som de um pequeno sino batendo num templo distante. A oferenda fora recebida.

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Leia: A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado. Phil Cousineau. Editora Ágora.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Leitura essencial: A arte da peregrinação, by Phil Cousineau. Parte I

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De todos os livros que já li sobre viagem – e não foram poucos – A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado, de Phil Cousineau, é de longe o que mais me encantou. É também o livro a que sempre recorro antes de empreender qualquer viagem um pouco mais elaborada, como meio de obter inspiração para a nova aventura.

O que faz dessa obra uma leitura indispensável é a maneira como Phil Cousineau tratou a questão da viagem, ou mais especificamente, da peregrinação. E é aqui que ele inovou: escreveu sobre o ato sagrado da peregrinação sem lhe dar necessariamente uma conotação religiosa; é necessário dizer que outros estudiosos já haviam trilhado o mesmo caminho de Cousineau, sendo um bom exemplo o renomado antropólogo Victor Turner, que produziu textos preciosos e fundamentais sobre peregrinação e ritos de passagem. Mas ao contrário de Turner, Cousineau não faz parte do ambiente acadêmico, o que dá ao seu texto uma amplitude e liberdade de abordagens muito maior, atingindo um público bem mais aberto do que o público acadêmico.

O livro de Cousineau é dividido em sete capítulos; a tradução e a apresentação à edição brasileira não poderiam ter sido feitas por alguém mais capacitado do que Luiz Carlos Lisboa, um autor muito procurado aqui no Odepórica, por conta de suas sábias palavras no cult Nova Era. Um trechinho do Lisboa só para matarmos saudades, que tal?

“A história cultural e religiosa dos diferentes povos do mundo – isso que chamam de história da humanidade – parece feita mais de travessias, perambulações e andanças de diversos tipos do que de qualquer outra coisa. Viagens longas e curtas, curtidas na realidade ou sonhadas, em busca de um tesouro ou, talvez, somente da esperada volta ao lar, fizeram em todos os tempos parte inseparável da existência daquele homem que, apesar de tudo o que experimentou e teve vida afora, nunca matou de fato sua fome interior.”


“Qual é o verdadeiro viajante?”, perguntava o persa Shabestari. “É aquele que viaja por si mesmo, esteja em casa repousando ou caminhando no deserto. O que suas pernas fazem pode ser maravilhoso”, prosseguia ele, “mas fundamental, de fato, é para onde sua alma está voltada”.

Essa bonita apresentação já serve para dar uma pista sobre aquilo que você irá encontrar adiante na obra do Cousineau, e a providencial passagem da sabedoria persa escolhida por Lisboa é um resumo perfeito da mensagem que esse livro tenta passar através de seus inúmeros relatos e imagens, pinçados a dedo pelo autor. Não pense que as viagens de Cousineau terão sempre como destino um lugar sagrado de alguma tradição religiosa. Nada disso, embora isso evidentemente faça parte do pacote.

Para isso temos que dar ao termo “sagrado” uma definição bastante abrangente, o que já vem acontecendo há muito tempo e o que, também, fez com que seu uso se tornasse tão banalizado a ponto de muitos evitarem seu uso. Mas como não estamos preocupados com essa discussão aqui, por hora proponho o seguinte: vamos entender como sagrado tudo aquilo que não é profano. Simples? Nem tanto, porque agora é preciso definir o real significado do profano, daí eu teria que pedir para você ler alguns textos do Mircea Eliade, um estudioso romeno que entende como ninguém do assunto, mas isso eu sei que você não fará agora. Então, por hora, entendamos assim: o sagrado é aquilo que, para você, tem o poder de tocar profundamente seu coração – ou sua alma, se você for do tipo mais transcendental. Resolvido? Ok, sigamos em frente que a estrada é longa.

No prefácio da obra, a cargo de Huston Smith, um professor de história da religião da Universidade de Berkeley, na Califórnia, temos uma introdução muito interessante sobre o objetivo das peregrinações, um texto que merece ser destacado aqui. Como tem muito a ver com a egrégora do Odepórica, faço questão de transcrever algumas passagens. Vamos lá:

“O objetivo da peregrinação não é o descanso e recreação – para descansar de tudo o mais. Empreender uma peregrinação é aceitar o desafio de deixar de lado a vida cotidiana. Nada mais interessa, então, a não ser essa aventura. Os viajantes se acotovelam no trem onde farão a jornada que pode durar vários dias. Depois dela, há uma estrada pedregosa a ser vencida a pé – um áspero e duro caminho numa paisagem em que tudo é novo. O brilho nu da montanha sagrada excita a imaginação; a aventura da autoconquista apenas começou. As condições podem variar, mas a essência é sempre a mesma.”

“Viajar traz consigo um tipo especial de sabedoria, se estamos abertos para isso. Em casa ou fora dela, as coisas do mundo nos empurram com tamanha força gravitacional que, se não estivermos alertas nossa vida inteira, poderemos ser tragados por sua força centrípeta. A viagem atenta nos permite perceber isso, porque o cenário constantemente mutável dessa força nos ajuda a ver por intermédio das pretensões do mundo. Com as suas características fantasmagóricas e caleidoscópicas reveladas, podemos vê-la como de fato é – maya se esvaecendo perpetuamente -, o que faz o mundo perder sua sedução. Compreendemos como a perambulação constante pode ser uma vocação espiritual para certos peregrinos dedicados e sannyasins.”

“O que podemos aprender com eles, com esses peregrinos que nos precederam? Muito, mas quero me contentar com uma ou duas coisas. Eles nos aconselham a estar preparados para descobrir que, do ponto de vista espiritual, uma jornada é sempre um pouco uma espada de dois gumes, devido à dispersão que resulta do contato com tanta coisa nova. Não podemos simplesmente nos fechar a essas novidades, ou seria melhor ficar em casa – se vamos viajar, vamos naturalmente aprender alguma coisa. Mas se as novidades ameaçam nos dominar, elas podem às vezes endurecer nosso ego, como se numa reação ao medo de perder a nós mesmos, em meio à dispersão, achássemos necessário reforçar nossa identidade. A pequenez dessa identidade, sem dúvida, traz sofrimento, que começa com sentimentos de impaciência e contrariedade. A arte consiste em aprender a dominar a situação hoje, inevitável, com tanta equanimidade quanta pudermos contar, preparando-nos para enfrentar suas conseqüências amanhã. Ao longo desse treinamento veremos muito claramente como é essencial adquirir um conhecimento da nossa vizinhança pela concentração em nós mesmos, não em algum lugar do mundo exterior.”

Beleza? Bueno. Com aperto no coração deixo de lado algumas páginas da introdução propriamente dita, feita pelo autor, antes dos capítulos iniciais. Gostaria de transcrever linha por linha, mas se agisse assim, acabaria por fazer o mesmo com todo o restante da obra, de modo que vou fazer um pequeno recorte, de um trecho em que Phil escreve sobre peregrinação.

“Ao longo dos anos, participei de muitas formas tradicionais de peregrinação religiosa, assim como das formas modernas e seculares, e segui as trilhas de uma série de viajantes através da história. Estou convencido de que a peregrinação é ainda um autêntico rito de renovação espiritual. Mas também acredito na peregrinação como uma poderosa metáfora de qualquer jornada feita com o propósito de encontrar alguma coisa de profunda importância para o viajante. Com um aprofundamento de foco, cuidadosa preparação, atenção voltada para a trilha sob nossos pés e respeito pelo destino da caminhada, é possível transformar até a viagem mais comum numa viagem sagrada, numa peregrinação. (...) O que os viajantes lendários nos ensinaram desde Pausânio e Marco Polo é que a arte da viagem é a arte de ver o que é sagrado.”

“Peregrinação é o tipo de jornada que estabelece a diferença entre o atento e o negligente, entre o banal e o inspirado. Essa diferença pode ser sutil ou dramática; por definição, ela é fundamental. Significa estar alerta para a ocasião, em que tudo o que se faz necessário numa viagem a um lugar remoto é tão-somente deixar-se perder a si próprio, e estar atento à ocasião, em que tudo o que é preciso é uma jornada a um lugar sagrado, como todos os seus aspectos gloriosos e temíveis para o encontro consigo mesmo.”

Creio que com isso já temos o suficiente sobre a parte mais teórica dessa obra no que concerne ao tema da peregrinação. Mais à frente veremos outros pontos de destaque sobre o tema, mas é chegada a hora da pergunta: a quem se destina “A arte da peregrinação” ? O próprio autor responde:

“Destina-se a viajantes ‘de encruzilhadas’ – aqueles que têm o desejo profundo de fazer uma significativa ou simbólica jornada e precisam de alguma inspiração e de umas poucas ferramentas espirituais para tomarem a estrada. É também para aqueles que, com freqüência, viajam a negócios ou nos feriados, que aproveitariam umas dicas para fazer suas viagens mais inesquecíveis. No âmago deste livro está a crença de que, virtualmente, cada viajante pode transformar qualquer jornada em peregrinação com o desejo de encontrar pessoalmente alguma coisa sagrada ao longo do caminho.”

“(...) A arte da peregrinação destina-se àqueles que desejam embarcar em alguma jornada com uma profunda finalidade em vista, mas estão inseguros sobre como se preparar ou fazê-la durar. Como o título sugere, o livro dá ênfase à arte da peregrinação, que para mim não é mais do que a habilidade para criar pessoalmente sua própria jornada, e a prática cotidiana de apreciar, degustar e absorver cada um dos seus estágios.”

Agora sim podemos, definitivamente, tratar dos capítulos que dão corpo à obra. Achei interessante colher pequenos trechos de cada um deles, para que você tenha uma noção ainda mais aprofundada do livro, embora tudo isso sirva apenas como um aperitivo, pois minha intenção é a de fazer com que você, depois de ler esses posts, saia correndo desesperadamente atrás dessa obra, que já aviso, é facinha, facinha de sebar.

Diz o Phil que os sete capítulos do livro seguem a “rodada” universal da jornada sacra, explorando os caminhos nos quais os ritos comuns da peregrinação podem inspirar os equivalentes modernos dos viajantes de hoje. Como o peregrino famoso de John Bunyan, o livro progride de O anseio para O chamado, que acena para que avancemos, e daí vai para o drama de A partida, O caminho do peregrino e, depois, para O labirinto e A chegada, fazendo antes o círculo completo do desafio de Trazendo de volta a benção. Interessante, não? Mas isso tudo fica para a segunda parte dessa matéria, a ser postada em breve. Enquanto isso, que tal conhecer um pouco melhor o Phil Cousineau? (esse aí da fotinho abaixo com cara de cansado)

Nascido em 1952, na Carolina do Sul, Phil Cousineau cresceu em Wayne, Michigan. Enquanto mantinha um segundo emprego numa fábrica de peças de automóveis, estudou jornalismo na Universidade de Detroit. Sua vida perambulante levou-o a trabalhar como comentarista esportivo, jogador de basquete na Europa, agricultor num kibutz de Israel, pintor de 44 casas vitorianas em São Francisco e guia de aventurosas excursões turísticas ao redor do mundo.

Cousineau é escritor, editor, fotógrafo, guia de viagens, professor e diretor de documentários cinematográficos. Seu fascínio por arte, literatura, história e cultura fez com que participasse de jornadas pelo mundo inteiro. Suas conferências abrangem uma gama variada de temas, da mitologia ao cinema, projetos de preservação do meio ambiente, trabalhos comunitários, criatividade, organização e espiritualidade.

No Brasil, além de A arte da peregrinação (1999) foram lançados somente outros dois títulos de Phil Cousineau: o indispensável A jornada do herói: o trabalho e a vida de Joseph Campbell (1994), biografia de um dos mais renomados mitólogos estadunidenses, de quem Cousineau foi discípulo e amigo, e O ideal olímpico e o herói de cada dia (2004), em que o autor resgata a essência do espírito olímpico. Se você quiser saber um pouco mais sobre o Phil Cousineau e suas obras, acesse o site do moço clicando aqui.
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Ah sim, vamos dar os créditos às fotos? Pois bem, de cima para baixo:
Foto 1: Old Torii Gate, Japan. Circa 1900. Autor desconhecido.
Foto 2: Pilgrim in a forest road. Circa 1900. Autor desconhecido.
Foto 3: Monk descending temple steps. Circa 1900. Autor: Kozaburo Tamamura.
Foto 4: Meandering monk moves through the morning mist. Circa 1900. Autor: Kozaburo Tamamura.
Foto 5: Basket-headed monks. Peregrinos da ordem zen budista Komuso. 1904. Autor: Julian Cochrane.
Foto 6: Peregrinos budistas. Circa 1900. Autor desconhecido.
Todas as imagens foram obtidas na Galeria de Okinawa Soba no Flickr.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sabedoria do deserto: Você tem o relógio, eu tenho o tempo

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Li no blog do Luis Pellegrini um texto que me encantou e que gostaria de compartilhar com os leitores e as leitoras do Odepórica. Trata-se de uma entrevista concedida ao jornalista do periódico espanhol La Vanguardia (em 01/02/2007), Victor M. Amela, pelo escritor tuareg Moussa Ag Assarid. O título original em espanhol, Tú tienes reloj, yo tengo tiempo, já dá uma chacoalhada na gente, não? E é mesmo isso, leitura leve e profunda, faz a gente pensar no rumo que temos dado às nossas vidas nessa passagem pelo planeta azul. Leia e reserve um tempinho para refletir.


Você tem o relógio, eu tenho o tempo.

(tradução: Luis Pellegrini)




- Não conheço minha idade: nasci no deserto do Saara, sem endereço nem documentos…! Nasci num acampamento nômade tuareg entre Timbuctú e Gao, ao norte do Mali. Fui pastor dos camelos, cabras, cordeiros e vacas que pertenciam a meu pai. Hoje, estudo Administração na Universidade de Montpellier, no sul da França. Estou solteiro. Defendo os pastores tuaregs. Sou muçulmano, mas sem fanatismo.
- Que turbante bonito!
- É apenas um tecido fino de algodão: permite cobrir o rosto no deserto quando a areia se levanta e, ao mesmo tempo, você pode continuar vendo e respirando através dele.
- Sua cor azul é belíssima…
- Ela é a razão pela qual chamam a nós, tuaregs, de homens-azuis: o tecido aos poucos desbota e tinge nossa pele com tons azulados.
- Como vocês produzem esse intenso azul anil?
- Com uma planta chamada índigo, misturada a outros pigmentos naturais. O azul, para os tuaregs, é a cor do mundo.
- Por que?
- É a cor dominante: a do céu, a do teto da nossa casa.
- Quem são os tuaregs?
- Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nômade do deserto, um povo orgulhoso: “Senhores do Deserto”, nos chamam. Nossa etnia é a amazigh (berbere), e nosso alfabeto, o tifinagh.
- Quantos vocês são?


- Cerca de três milhões, a maioria ainda nômades. Mas a população diminui… “É preciso que um povo desapareça para que percebamos que ele existia!” denunciou certa vez um sábio: eu luto para preservar o meu povo.
- A que ele se dedica?
- Ao pastoreio de rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos, num reino feito de infinito e de silêncio.
- O deserto é mesmo tão silencioso?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se as batidas do próprio coração. Não existe melhor lugar para quem deseja encontrar a si mesmo.
- Que recordações da sua infância no deserto você conserva com maior nitidez?
- Acordo com o sol. Perto de mim estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as conduzimos onde existe água e grama… Assim fez meu bisavô, meu avô e meu pai… E eu. No mundo não havia nada além disso, e eu era muito feliz assim!
- Bem, isso não parece muito estimulante…
- Mas é, e muito. Aos sete anos de idade, já permitem que você se afaste do acampamento e descubra o mundo sozinho, e para isso lhe ensinam coisas importantes: a cheirar o ar, a escutar e ouvir, a aguçar a visão, a se orientar pelo sol e as estrelas… E a se deixar conduzir pelo camelo; se você se perde, ele lhe conduzirá onde existe água.
- Esse é um conhecimento muito valioso, não há dúvida…
- Lá tudo é simples e profundo. Existem poucas coisas no deserto, e cada uma delas possui grande valor.
- Assim sendo, este mundo e aquele são bem diferentes, não é mesmo?
- Lá, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estarmos juntos! Lá ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já é.

- O que mais o chocou ao chegar pela primeira vez na Europa?
- Ver a gente correr nos aeroportos. No deserto, só corremos quando uma tempestade de areia se aproxima. Fiquei assustado, é claro…
- Corriam para buscar suas bagagens…
- Sim, devia ser isso. Também vi cartazes mostrando moças nuas: por que essa falta de respeito para com a mulher?, Perguntei-me… Depois, no Hotel Íbis, vi uma torneira pela primeira vez em minha vida: vi a água correr… e tive vontade de chorar.
- Que abundancia, que desperdício, não é mesmo?
- Até então, todos os dias da minha vida tinham sido dedicados à procura d’água. Até hoje, quando vejo as fontes e chafarizes decorativos que existem aqui, sinto uma dor imensa dentro de mim.
- E por quê?
- No começo dos anos 90 houve uma grande seca, os animais morreram, nós adoecemos… Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu… Ela era tudo para mim. Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.
- Que aconteceu com sua família?
- Convenci meu pai a deixar-me frequentar a escola. Todos os dias eu caminhava quinze quilômetros para chegar até ela. Até que um professor arrumou uma cama para eu dormir, e uma senhora me dava comida quando eu passava em frente à sua casa. Entendi: era minha mãe que me ajudava…
- De onde veio essa paixão pelos estudos?
- Dois anos antes, o rally Paris-Dakar passou pelo nosso acampamento, e caiu um livro da mochila de uma jornalista. Eu o apanhei e devolvi a ela. Mas ela me deu o livro de presente e disse que ele se chamava “O Pequeno Príncipe”. Naquele instante prometi a mim mesmo que um dia seria capaz de lê-lo…
- E você conseguiu…
- Sim. Foi assim que consegui uma bolsa para estudar na França…
- Um tuareg na universidade!
- Do que mais tenho saudade é do leite de camela. E do fogo de madeira. E de caminhar descalço sobre a areia tépida. E das estrelas: lá, nós as admiramos todas as noites, e cada estrela é diversa da outra, como cada cabra é diversa da outra. Aqui, à noite, vocês ficam vendo televisão.
- Sim. Na sua opinião, qual é a pior coisa que existe aqui?
- A insatisfação. Vocês têm tudo, mas nada lhes é suficiente. Vivem se queixando. Na França, passam a vida queixando-se. Vocês se acorrentam por toda a vida a um banco por causa de um empréstimo, e existe essa ânsia de possuir, essa correria, essa pressa. No deserto não existem engarrafamentos, sabe por que? Porque lá ninguém quer passar à frente de ninguém!
- Relate um momento de felicidade intensa que você viveu no seu distante deserto.
- Esse momento ali se repete a cada dia, duas horas antes do pôr-do-sol: o calor diminui, o frio da noite ainda não chegou, homens e animais retornam lentamente ao acampamento e seus perfis aparecem como recortes contra o céu que se tinge de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
- É fascinante. E então…
- Esse é um momento mágico… Entramos todos na tenda e fervemos a água para o chá. Sentados, em silêncio, escutamos o barulho da água que ferve… A calma toma conta de nós… As batidas do coração entram no mesmo compasso dos gluglus da fervura…
- Que paz…
- Aqui vocês têm o relógio; lá, temos o tempo.



*
Se você se interessou pelo escritor tuareg, saiba que há um livro dele publicado em espanhol que deve ser muito interessante, quem sabe teremos a sorte de vê-lo publicado por aqui. Achei num site espanhol uma pequena resenha da obra. (A tradução do título para o português é “No deserto não há congestionamentos”)

En el desierto no hay atascos
Un tuareg en la ciudad. 3ª Edición ampliada con mapas
Moussa Ag Assarid
Travesías / Editorial Sirpus


Alberto de Satrústegui

Moussa Ag Assarid lleva el viajar en la sangre. Nacido en el norte de Mali hacia 1975, hijo de padres nómadas y primogénito de una familia de trece hijos. Con 23 años, el joven tuareg llega a Francia y cambia los dromedarios de su infancia por el TGV y el metro. Siempre en movimiento e interesado en conocer a los demás, Moussa describe en esta obra su fascinación y perplejidad ante el mundo occidental que va descubriendo: su naturaleza, sus habitantes, sus costumbres y todo aquello que no percibimos porque nos hemos acostumbrado a verlo. Las anécdotas y comentarios que cuenta, como la cama del hotel, tan grande que podrían dormir en ella todos los niños de su jaima, el milagro del agua que sale de los grifos, la magia de las escaleras mecánicas y las puertas automáticas... son a un tiempo divertidos y enternecedores, y además muy lúcidos, sin ocultar a veces la decepción por cosas como la falta de tiempo y de calor humano. Su texto, siempre impregnado por su cultura y por su arte de vivir nómada, constituye para los occidentales una ocasión de sonreír pensando en nosotros mismos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: Marinheiro de primeira viagem, by Osman Lins

.(Imagem tirada do site www.osman.lins.nom.br)

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Eis um relato de viagem diferente. Nada de roteiros previsíveis, narrativas lineares e visões manjadas do mundo. Osman Lins, esse viajante que por acaso também foi um homem das letras, escritor de prestígio, traduzido para o francês, alemão e o inglês, era culto, espirituoso e tinha uma alma poética, coisa que você percebe assim, quase sem querer, entre uma passagem e outra desse relato de viagem publicado originalmente em 1963.

Osman Lins nasceu em Pernambuco no ano de 1924 e faleceu em 1978. Não vou me ocupar de sua biografia aqui, mas indicarei no final desse post um site completo e gostoso de ler sobre a vida e a obra dele, e sugiro que o leitor e a leitora passem por lá depois de acabar aqui. Entretanto, posso adiantar que para Osman, o ano de 1961 foi um dos mais importantes de sua vida. Aos 36 anos de idade, esse escritor pernambucano ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa - a qual soube aproveitar muito bem, dando um giro pela Europa num período de seis meses. Visitou a França, Bélgica, Holanda, Suíça, Itália, Inglaterra, Espanha e Portugal, nessa ordem tal e qual.

Começa o seu relato pelo fim, escrevendo desde um velho quarto de hotel de Lisboa, nada mais melancólico. Melhor: agradavelmente melancólico. Talvez você estranhe, assim como eu, a narrativa em terceira pessoa, adotada pelo viajante:

“Acaba de chegar a Lisboa, está num velho hotel – cujo nome, por displicência ou fadiga, não reteve – e onde jamais voltará a hospedar-se, mesmo que um dia aqui regresse, pois virão em breve demoli-lo, por causa do metrô. Hotel condenado à morte. (Vibram, implacáveis, as perfuratrizes.) É um dos últimos homens a dormir neste quarto.”

Duas ou três páginas e você logo se acostuma ao detalhe da terceira pessoa. Os textos são curtinhos, impressões de uma viagem já guardada na memória, como num flashback cinematográfico cheio de atitude. O autor é muito estiloso, você irá notar logo nas primeiras páginas, e passada aquela estranheza inicial, tudo flui que é uma beleza. Coisa boa é ler um relato de viagem escrito por quem sabe escrever.

Gostei de muitas coisas desse livro do Osman Lins, e a principal delas foi a maneira como o autor expressou seus sentimentos durante o deslocamento pelas inúmeras cidades que visitou. Seus textos são sempre fragmentados, dando a impressão de serem reflexões sobre a vida mais do que especificamente sobre a viagem que está acontecendo, mas ao mesmo tempo, de um jeito simples e poético, entregam de maneira sui generis a alma dos lugares, a essência de uma cidade - o que quase sempre se encontra muito distante dos pontos turísticos obrigatórios. Esse tipo de percepção é comum na linguagem fotográfica e dou um exemplo: uma imagem do Pão de Açúcar ou do Corcovado nos remete a uma ideia bastante óbvia do Rio de Janeiro, certo? Mas uma foto da calçada de Copacabana, com seu peculiar desenho ondulado pode mostrar, de um modo insinuante, muito mais do “espírito” carioca do que o Corcovado, tão associado que está ao papel de cartão postal da cidade.

É isso o que Osman Lins apresenta, não sei se intencionalmente, em seu relato de viagem, o que resulta num texto encantador, como você irá notar em algumas passagens que irei transcrever abaixo, mas antes disso quero comentar sobre outra qualidade que prezo demais nesse relato, algo que o distingue das narrativas de viagem vulgares, dessas que se aproximam mais de um guia turístico do que de literatura propriamente dita: o foco no ser humano.

Poucas são as passagens em Marinheiro de primeira viagem em que o autor não reserva uma observação, por menor que seja, sobre alguma pessoa; pode ser uma criança brincando num parque, um casal de idosos atravessando uma rua, uma babá passeando com um carrinho de bebê, um mendigo pedindo esmolas, um turista atrapalhado com um mapa nas mãos, qualquer coisa parecida com isso, não importa. Há uma necessidade - isso se torna evidente ao longo da leitura - em se observar o comportamento humano, mas de maneira respeitosa, sem julgamentos, quase como se estivéssemos lendo o relato de um voyeur, só que sem a conotação sexual ligada ao termo. Agucei sua curiosidade? Então veja um exemplo do que acabo de escrever acima e diga se não tenho um pouquinho de razão. A cena se passa num museu em Amsterdã. (Môça Olhando Van Gogh)

Sapatos baixos, calças azuis, casaco de lã negro. Bolsa de vime. Um chapeuzinho branco, cônico, trançado. Na mão, um volume de Shelley. No Museu Municipal, vai de quadro em quadro, de sala em sala, senta-se, levanta-se. Contemplação solitária e evidentemente encantada. Até então, vira reproduções ou quadros isolados. Agora, como num gráfico, vê a trajetória do artista, sua busca, os espectros de Milet, Seurat, Cézanne. Vai de quadro em sala, senta-se, levanta-se. O chapeuzinho cônico. Estudo de mãos. (Suas mãos são finas.) Gestos. (Os seus são lentos.) Uma linha estridente, outra que se perde, frágil, num pulso nu. Placidez e crispação. Busca. Também ela, na vida... Gestos. Em sombras e traços. Lavradores. Comedores de batatas. O velho, seu rosto nas mãos, este sombrio e mudo desespero. Amplo, geral e tão familiar, tão o desespero dela mesma, com seu chapéu trançado. Metamorfoses. O ir da sombra para a claridade, nesta arte que aos poucos amanhece, com a luz dos girassóis e dos trigais em fogo. Amarelo, luz, laranja, cadeira vazia. A solidão do cachimbo esquecido junto a um punhado de fumo. O quarto e a intimidade do jarro, a bacia, o pedaço de pão, a toalha pendurada, a janela entreaberta. Um pequeno mundo iluminado, onde os olhos febris, durante inumeráveis noites, longas horas, viram vermelhos e sonhos, verdes espaços, nenhum vazio, o artista que não dorme, debatendo-se entre cores. Amaria este mundo, se dele participara?

Observa o pintor. O chapéu de palha, a barba descuidada. Sente seu olhar que oprime, é como um peso, dor de mão estendida, não para de pedir. Mão que sempre oferece. E as mãos abandonadas das mulheres. E os rostos sofridos. Doçura inicial, rústica e surpresa, angustiada nos últimos retratos. Não nas paisagens, cada vez mais fluidas. Assemelham-se a plantas estes barcos, plantas aquáticas, o bar é lírico, as árvores manchas que fogem. A silhueta da ponte imita a da contempladora. Nuvens. Fumaça. Campos de trigo girando em círculos quentes, céu e labaredas. Levar consigo uma reprodução. Fazer com que caminhe, a sua vida, para uma identificação com a bela verdade do quadro. Tê-lo à sua frente, ali onde bem longe, um dia, a claridade das manhãs encontre alguma paz adormecida, algum desejo satisfeito, um pouco de beleza conquistada.


Lentamente, afasta-se. Calças azuis, casaco de lã. Vai envolvida em céus iluminados, trigais e girassóis, barcos, árvores flamantes. Ecoam docemente, seus passos miúdos, nas largas tábuas do chão. Compra a reprodução, Praia de Saintes-Maries. Admira-se de que, lá fora, Amsterdam esteja fria e que seja tão pálido o seu ar. Lerá talvez em Shelley: “Quando as candeias se apagam, morre a luz desfeita em pó.” Não totalmente. Em parte, apenas. Muito ficará, numa clareira, lembrança cintilante.



Que lembranças mais belas podem haver de uma visita a um museu do que esta que acabamos de ler? Quantas memórias de viagem não guardamos de situações que, objetivamente, não possuem qualquer importância? Somos capazes de lembrar detalhadamente daquela cafeteria onde apenas entramos para beber um cappuccino e descansar as pernas, mas não temos a mínima lembrança de como era, em seu interior, a catedral gótica situada em frente ao estabelecimento, a mesma em que gastamos horas apreciando os vitrais, atentos às informações detalhadas de um prestativo guia bilíngue.

Por isso achei esse texto de Osman Lins tão interessante, por apresentar uma maneira instigante de observar cenas ou situações corriqueiras aparentemente sem nenhum atrativo, mas que em suas palavras se tornam momentos quase mágicos por conta de sua sensibilidade e da beleza de sua escrita. E há outros momentos como esse que acabamos de ler. Separei alguns para sua apreciação. Não deixe de reparar na linguagem poética de alguns deles, na riqueza das descrições, no estilo do autor (e no seu momento cômico na pequena passagem intitulada Chanson). Em sua totalidade, essa obra de Osman Lins serve como um excelente modelo para quem deseja fazer, de suas memórias de viagem, algo que definitivamente mereça ser lido por alguém.

Volendam

Está sentado no barco, ao sol matinal. Vibra um sino, o barco larga as amarras, dirige-se a Volendam, cidade de pescadores, onde, segundo o poético anúncio de viagens, “tudo continua como no tempo de Vermeer”.


Contempla, sentindo a alma leve, as pessoas num restaurante, à beira do cais, as velas dos minúsculos navios, uma igreja bizantina, pombos e gaivotas, a cidade que se afasta. E também ao lado do seu barco, aquela manhã de maio, que navega sobre o mar sereno como ó céu.

Desce do barco, apanha agora um ônibus. A seu lado, vai a moça holandesa. Saia comprida, de listas brancas e azuis, uma blusa negra, cachecol multicor, um xale azul aos ombros. E óculos.

Na paisagem verde e calma, nenhum cartaz de publicidade. Corvos. Vacas de colete vermelho. Por toda parte, gente de pincel na mão, pintando as esquadrias das casas. Como se o país fosse um navio. Associações inesperadas: gaivotas voando sobre um rebanho de ovelhas; vacas e bois deitados entre as tulipas.

Afinal, Volendam. Casas bem cuidadas, envidraçadas, cheias de jarros pesados e com tapetes cobrindo as mesas, como em certos quadros de Rembrandt. Os interiores são mais claros; os tapetes, os mesmos. Anda pelas ruas, sentindo penetrá-lo aquela ordem pacífica. Cruza com mulheres e homens, todas elas vestidas à maneira de sua vizinha de ônibus, e os homens de negro, boné de pala curta, calças balão.

Desce ao porto. Cheiro de peixe, panos secando, gritos de gaivotas. Bandeirolas nas extremidades dos mastros, redes de pescar estendidas, parecendo véus de gaze negra. Mulheres tricotando, à porta das lojas. Os pescadores, com seus sapatos de madeira e o andar bamboleante, seguem ao longo do porto, falam para outros, que respondem dos navios. Um jovem, da proa de um barco, grita para uma mulher que está no cais. Ela é moça, ergue o braço, dá um adeus, sorrindo. E o grito é como que uma âncora lançada. Para sempre.


Quadro

Era domingo e chovia em Antuérpia, mas não naquele instante, em Grote Market. Jorravam, no meio da praça, as águas do chafariz. Em torno, poucas pessoas, todas imóveis. Nas graves fachadas dos prédios, lampiões enormes. Brilhavam, na catedral, os ponteiros do relógio dourado e no extremo da torre a bandeira belga ondulava. No alto de uma casa havia um bergantim, noutra uma águia, um leão noutra, noutra um cão sentado. Então começaram a soar, melodiosos, os sinos da catedral, uma menina surgiu e atravessou a praça, vagarosamente, em trajes de Primeira Comunhão, segui-a um menino de cabeça baixa, seu bandolim às costas, como um anjo músico. Dir-se-ia que era exclusivamente para ela, para a feliz menina de branco, que cantavam os sinos, na manhã de maio.

Sono (em Nápoles)


Viu crianças dormindo sobre uma carroça em movimento, garções dormindo no fundo de um bar, mulheres dormindo na sala, com a porta aberta, homens dormindo nos ônibus. Em certa rua, afastada do centro, uma barraca ocupava toda a largura da calçada. Tinha mesinhas ao lado, era coberta de esteira, com jarros de flores nas mesas, também na coberta. Um menino, com um regador, molhava a calçada e a rua. Depois, molhou um pedaço de sombra, sob a coberta de esteira. Colheu, num jarro, uma flor vermelha, forrou na sombra úmida o jornal, espreguiçou-se e deitou-se, com a flor no peito.

Chanson (em Paris)

Era uma linda tarde de verão, larará-larará, pôs numa sacola sanduíches, La Jalouise, uma garrafa dágua, apanhou o metro, larari, foi para Vincennes, se deitou sob as árvores, ô-laraô, e leu, comeu, bebeu, dormiu e desdormiu, laraí-lararaí, e o parque era como os parques numa tarde estival, crianças brincando, tralalá, vendedores de gelados, tralali, grupos que conversam, lalá, namorados, lalaí-lari, passeantes solitários, lourourô. E luz e sombra entre as árvores, cheiro de folhagem. Et cet aprés-midi fut pour lui une joyeuse chanson. Larará…



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Para conhecer melhor o autor e sua obra acesse o ótimo site da Profa. Dra. Ermelinda Ferreira, da Universidade de Pernambuco (UFPE) clicando bem aqui.
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As obras mais conhecidas de Osman Lins são as seguintes: O visitante (1955), Os gestos (1957), O fiel e a pedra (1961), Lisbela e o prisioneiro (1964), Avalovara (1973).
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Marinheiro de primeira viagem, esse delicioso relato de viagem de Osman Lins, está fora de catálogo. A última edição saiu em 1980, mas não é difícil encomendar um pelo site da Estante Virtual.
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Em 1977, um ano antes de partir para o andar de cima, Osman Lins publicou um outro relato de viagem, intitulado La Paz existe? que foi escrito a quatro mãos com sua esposa Julieta de Godoy Ladeira. Fácil de sebar, paguei pelo meu o preço de um sanduíche de padaria e logo, logo vou falar dele aqui também.


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Veja que cara simpática tinha o Osman:



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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sonho de uma flauta, by Hermann Hesse

. (Carol Bruce. Flute player)

Se você é daquelas pessoas acostumadas a frequentar sebos, ou mesmo se é das que cultivam o hábito de entrar em livrarias apenas para dar uma olhada descompromissada nos títulos dispostos aleatoriamente pelas bancadas, vai entender bem o que aconteceu comigo outro dia.

Estava dentro de um sebo procurando uma obra fora de catálogo do Osman Lins, um autor que logo iremos conhecer melhor aqui no Odepórica, e ao fuçar as obras dispostas na parte de trás da primeira fileira de livros, achei por acaso uma que me despertou interesse pelo título impresso na lombada: Sonho de uma flauta.

Como estou estudando flauta entusiasticamente nesse ano, tirei o livro da prateleira para ver de que se tratava e me surpreendi quando vi que o autor era ninguém menos do que Hermann Hesse, um escritor que admiro bastante. Fui sentar num banquinho no fundo da livraria para folhear com calma a obra e ali mesmo li o conto que lhe dá o título. Uma preciosidade. “Preciso transcrevê-lo no blog” – pensei, e saí contentão da livraria com minhas aquisições, o Hesse, o Osman, e o Lobato, com sua deliciosa obra D. Quixote das crianças (capa dura, ilustrada e por apenas 3 reais, pode isso?).

Certas obras, pensei depois na volta a casa, parecem que se materializam à nossa frente. O que fazia o alemão do Hermann Hesse ao lado do pernambucano Osman Lins? Seria um sinal? Pode ser, quem sabe, afinal a vida não é mesmo cheia de mistérios? Em comum, as duas obras tratam do tema das viagens, embora, no caso do autor alemão, as viagens são sempre mais metafísicas do que físicas. Em comum, também, as duas obras têm as capas, que são feias de doer, como quase todas as capas de livros dos anos 70, você já reparou nisso? Ou será exagero meu?

Enfim, vamos ao que interessa e já vou avisando: o texto aqui transcrito é longo para os padrões eletrônicos blogais, mas é curtinho em se tratando de livro impresso. Talvez valha a pena imprimi-lo, para ler com calma num momento agradável, quem sabe num parque? Os textos do Hesse são assim, mais contemplativos, pedem uma atenção especial, mas em troca deixam na alma da gente uma sensação gostosa de reencontro com a essência daquilo que somos. Experimente, e se quiser comente depois aqui no blog, que tal? Namastê!

Sonho de uma flauta

(Judith Leyster, Young Flute Player)

“Toma” – disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso – “leva isso e não esqueças teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não sabes mesmo nenhum outro ofício e só gostas de cantar, Mas pensa também em só tocar sempre canções bonitas e agradáveis, senão seria pena pelo dom que Deus te concedeu.”

Meu querido pai entendia pouco de música, não era um sábio; pensava que eu tinha apenas de soprar a linda flautinha e tudo estaria bem. Eu não queria decepcioná-lo, por isso agradeci, botei a flauta no bolso e me despedi.

Nosso vale me era conhecido até o grande moinho; depois então começava o mundo, e ele me agradou bastante. Uma abelha cansada do vôo pousou na minha manga, e eu a levei comigo, a fim de que no meu primeiro descanso tivesse um mensageiro para mandar de volta, como um cumprimento à minha terra.

Bosques e prados acompanhavam meu caminho, e o rio corria junto, vigorosamente; eu vi, o mundo diferia pouco de minha terra. As árvores e flores, as espigas de trigo e as moitas de avelã falavam comigo, cantei com elas suas canções e elas me compreendiam, exatamente como lá em casa; com isso minha abelha também despertou, subiu devagar até meus ombros, voou e tornou a cruzar duas vezes comigo, com seu zumbido profundo e doce, e então voltou para a minha terra.

Aí apareceu diante do bosque uma mocinha, que carregava uma cesta no braço e um largo e sombrio chapéu de palha na cabeça loura.

“Bom dia” – disse-lhe eu – “aonde vais?” “Devo levar a comida aos ceifeiros” – disse ela, e caminhou ao meu lado. “E para onde queres ir ainda hoje?” “Vou para o mundo, meu pai me mandou. Ele acha que devo tocar flauta para as pessoas, mas isso ainda não sei direito, preciso primeiro aprender.” “Bem, bem. E que sabes então direito? Alguma coisa é preciso saber.” “Nada de especial. Sei cantar canções.” “Que canções?” “Canções de todo tipo, sabes, para a manhã e para a tarde e para todas as árvores e bichos e flores. Agora, por exemplo, eu poderia cantar uma bonita canção de uma mocinha que vem saindo do bosque e traz comida para os ceifeiros.”

“Podes fazer isso? Então canta um pouco!” “Sim, mas como te chamas mesmo?” “Brigite”.

(Flute Player by The Gr4 yFox)

Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:

“Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.” Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna e ficou me olhando. “Queres cantar ainda alguma coisa para mim?” – perguntou então, quando terminei. “Quero, sim. Que deve ser?” “Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.” “Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a borboleta.” “E do amor não sabes nada?” – perguntou ela, então. “Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.”

Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe fecha a boca com seus lábios.

Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abrir e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio estava refletido ali dentro e um par de brancas flores do prado também.

(Eanger Irving Couse. Flute Player, 1930)

“O mundo é muito bonito” – disse eu – “meu pai tinha razão. Mas agora quero te ajudar a carregar isso para que cheguemos até tua gente.” Tomei-lhe a cesta e continuamos a andar, seu passo combinava com o meu e sua alegria com a minha, e o bosque suave e fresco falava da montanha em volta; eu nunca havia caminhado com um prazer tão grande. Durante longo tempo cantei alegremente, até que tive de parar de tanta satisfação; eram coisas demais que rumorejavam e contavam-se sobre o vale e a montanha e a grama e a folhagem e o rio e a floresta.
Aí pensei: se pudesse compreender e cantar ao mesmo tempo essas mil canções do mundo, das gramas e flores e gente e nuvens e tudo, da floresta velha e do pinheiral e também de todos os bichos, e além disso ainda canções dos mares longínquos e montanhas, e as das estrelas e luas, e se tudo isso pudesse ressoar e cantar em mim ao mesmo tempo, então eu seria o querido Deus, e a cada nova canção deveria ficar no céu como uma estrela.

Mas enquanto eu assim pensava, estava silencioso e maravilhado, porque aquilo antes nunca me ocorrera, Brigite parou e segurou a alça da cesta.

“Agora devo ir lá em cima” – disse ela – “lá no campo está nossa gente. E tu, para onde vais? Vens comigo?” “Não, ir contigo não posso. Preciso ir pelo mundo. Obrigado pelo pão, Brigite, e pelo beijo; vou pensar em ti.”.

Ela segurou a cesta de comida, e sobre a cesta seus olhos novamente se inclinaram para mim em sombras castanhas, e seus lábios prenderam-se aos meus e seu beijo foi tão bom e carinhoso, que quase fiquei triste de tanto prazer. Então gritei rápido: “Vai com Deus” – e marchei apressadamente pela estrada acima.

A moça subiu devagar a montanha, e sob as folhas de faia penduradas na orla do bosque, parou e olhou na minha direção, e quando lhe acenei com o chapéu, ela tornou a balançar a cabeça e desapareceu silenciosamente, como uma miragem, para dentro da sombra do bosque.

(Hendrik Terbrugghen. The flute player, 1621.)

Eu, porém, continuei tranquilamente meu caminho, e estava imerso em meus pensamentos, quando a estrada dobrou numa curva. Lá havia um moinho e, perto, um barco na água; dentro estava sentado um homem sozinho e parecia apenas esperar por mim, pois quando tirei o chapéu e entrei no barco, este, em seguida, começou a andar e deslizou rio abaixo. Eu estava sentado no meio do barco, e o homem atrás, no leme, e quando lhe perguntei para onde íamos, ele levantou os olhos cinzentos e encarou-me com um olhar velado;

“Para onde quiseres” – disse, com uma voz abafada. “Rio abaixo e para o mar, ou para as grandes cidades, podes escolher. Tudo me pertence.” “Tudo te pertence? Então és o rei?” “Talvez” – disse ele. “E, ao que me parece, tu és um poeta, não? Então canta-me uma canção de viagem!”

Fiz um esforço, estava com medo do homem grisalho e sério, e nosso barco deslizava rápido e silencioso pelo rio. Cantei sobre o rio, que carrega o barco e reflete o Sol e rumoreja mais forte nas margens dos rochedos e completa alegremente seu passado.

O rosto do homem continuou impassível, e quando prestei atenção, ele balançava a cabeça como um sonhador. Então, para meu espanto, ele próprio começou a cantar, e também cantava sobre o rio, e sobre a viagem do rio através dos vales, e sua canção era mais bela e poderosa que a minha, mas tudo soava diferente.

O rio, tal como ele o cantava, vinha como um destruidor vacilante pela montanha abaixo, escuro e selvagem; furioso, ele se sentia dominado pelos moinhos, coberto pelas pontes, detestava cada navio que precisava carregar, e, em suas ondas e nas longas e verdes plantas aquáticas, rindo, balançava os corpos brancos dos afogados.

Isso tudo não me agradou, e entretanto era tão belo e cheio de um acento invisível, que fiquei completamente desorientado e angustiado e me calei. Se era certo o que esse velho, sensível e inteligente cantor, cantou com sua voz velada, então todas as minhas cantigas não passavam de tolices e brincadeiras bobas de criança. Então o mundo, por causa delas, não era bom e luminoso como o coração de Deus, e sim escuro e triste, mau e sombrio, e quando os bosques murmuravam, não era de alegria, e sim de martírio.

Seguimos adiante, e as sombras foram longas, e de cada vez que comecei a cantar, meu canto soava menos claro, e minha voz tornava-se mais baixa, e cada vez o cantor desconhecido respondia com uma canção que tornava o mundo ainda mais enigmático e penoso, e me tornava ainda mais tímido e triste.

(James Kitamirike. The flute player)

Minha alma doía e eu me arrependia de não ter ficado em terra, perto das flores ou da linda Brigite, e para sentir-me seguro no crepúsculo que crescia, recomecei a cantar e cantei na luz vermelha da tarde a canção de Brigite e de seu beijo.

Aí o crepúsculo começou, e eu emudeci, e o homem no leme cantou, e ele também cantava sobre o amor e a alegria do amor, sobre olhos castanhos e azuis, sobre lábios vermelhos e úmidos, e era lindo o que ele cantava, cheio de dor, sobre o rio escurecido, mas em sua canção também o amor se tornara sombrio e temível, e um segredo mortal, no qual os homens aflitos e feridos tocavam com seu desejo e sua saudade, e com o qual se martirizavam e se matavam uns aos outros.

Escutei e fiquei tão cansado e aflito, como se já estivesse viajando desde muito tempo e houvesse passado por grande miséria e desgraça. Vinda do estranho, sentia cair sobre mim uma torrente silenciosa e fria de tristeza e receio, a penetrar no meu coração.

“Pois bem, a vida não é o que há de mais elevado e mais belo” – gritei afinal amargamente – “e sim a morte. Então te peço, rei triste, canta-me uma canção da morte!”

O homem no leme cantou somente sobre a morte, e cantou melhor do que eu jamais ouvira cantar. Mas a morte também não era o que havia de mais elevado e mais belo, nela também não se encontrava consolo. A morte era vida e a vida era morte, e elas estavam entrelaçadas numa perpétua e furiosa luta de amor, e isso era a última coisa e o sentido do mundo, e dali vinha um clarão, que parecia querer valorizar toda miséria, e de outro lado vinha uma sombra que perturbava toda alegria e beleza e as envolvia na escuridão, a alegria ardia mais íntima e bela, e o amor queimava mais profundamente nessa noite.

(Sergei Rubinshtein. Flute player)


Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:

“Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.” O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firme.

“Para trás não há caminho” – disse sério e amável. “A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar o mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!”

Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que me pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.

Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.

Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.

Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.

Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.

E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.



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Leia: Sonho de uma flauta e outros contos. Hermann Hesse. Editora Record.