quarta-feira, 26 de maio de 2010

Viagens culinárias: Índia, por Gordon Ramsay

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Todo mundo sabe que uma viagem à Índia mexe forte com todos os sentidos. Muito provavelmente, o paladar é o que mais se comove com a mudança de endereço. Quando estive por lá nem me liguei nos conselhos que havia lido aqui e ali: não comer nada picante (spicy), nada mal cozido, nada de carne, nada de um monte de coisas e tudo na verdade uma grande bobagem. Cuidados, sim, com a água, mas fora isso fiz questão de provar de tudo um pouco e na maioria das vezes nem sabia o que estava comendo. Não tive nenhum piriri por conta desse atrevimento.

Um conhecido meu, que passou pela Índia há um par de anos, voltou de lá cheio de histórias deturpadas do país. A imagem que ele trouxe de sua viagem foi aquela cheia de preconceitos que muitos turistas têm dos países pobres: sujeira, pobreza, comida ruim e gente feia. “Fiquei duas semanas comendo no Macdonald`s” – disse, como quem se gaba de haver sobrevivido a alguma trágica aventura. Preferi não me intrometer no relato do colega, por mais que aquela conversa toda me incomodasse. A experiência dele, ao fim e ao cabo, é tão válida quanto a de qualquer outra pessoa.

Estou passando as férias em Vancouver, onde vim visitar minha irmã que aqui vive. Cidade linda, clima agradável para os padrões canadenses e muitos cidadãos imigrantes, a maioria de chineses, mas também há uma marcante comunidade de indianos, sobretudo nos distritos de Burnaby e Surrey. Neste último, há uma acanhada Litlle India, duas quadras de comércio e restaurantes indianos, mulheres de saris e cheiro de curry no ar. Nada que lembre muito a Índia, mas dá para sentir um gostinho – sobretudo se você fizer uma parada no All India Sweets & Restaurant para um almoço bom, barato e gostoso.


Isso tudo me faz refletir, mais uma vez, sobre a importância da comida e/ou da alimentação na experiência sensorial dos viajantes. Será possível, de verdade, conhecer a fundo uma cultura sem provar de sua comida típica? Não acho impossível, mas particularmente acho bastante improvável.

Eu adoro comida indiana, e me alegro muito em saber que seus condimentos não só são saborosíssimos mas também agregam um monte de benefícios à saúde. Tem coisa melhor? E a minha irmã, sabendo dessa minha preferência pela comida indiana, trouxe da biblioteca um livro bacana de receitas, de autoria de Gordon Ramsay (o fulano da carinha enjoada aí abaixo), um desses cozinheiros da moda que apresentam programas culinários na Inglaterra.


O livro é uma compilação das cem (!) receitas favoritas da culinária indiana do tal do Gordon. Fotos bacanas, receitas idem e uma introdução que fala de viagem, daí o motivo do post. Não espere ler um relato de viagem cheio de surpresas e novidades; pelo contrário, para mim o cara chove no molhado, mas pode ser que para você não. Minha intenção é trazer para o Odepórica, sempre que houver oportunidade, uma abordagem diferente sobre o mesmo tema, a arte de viajar. Nas passagens que traduzi abaixo você verá que até as coisas mais banais, como por exemplo um prato de curry, podem servir como pretexto para viajar – ainda que o itinerário dessa aventura não seja mais distante do que o trajeto que une a sua residência ao restaurante indiano mais próximo. Namastê!


Desde que saí de casa e comecei a trabalhar, os currys das noites de sexta-feira se tornaram um ritual. Como muitas pessoas, eu tinha meus pratos preferidos, os quais eu pedia com frequência e que me faziam sentir confortável com a comida, a ponto de achar que conhecia razoavelmente bem a cozinha indiana. Como eu estava errado! Eu nunca estivera na Índia antes dessa viagem, e o pouco que eu conhecia sobre o país e sua comida estava baseado em estereótipos generalizados e cheios de preconceitos. Hoje percebo que é impossível sintetizar a comida de um país tão vasto quanto a Índia onde diferentes culturas, religiões, topografia, clima e história influenciam aquilo que se come e a maneira como é preparado o alimento.

Quando veio a oportunidade de uma aventura culinária na Índia, a escolha era simples. Era a chance de uma vida para escapar da rotina diária e descobrir a verdade sobre a cozinha indiana. Eu sabia que a verdadeira comida indiana não seria encontrada em restaurantes de luxo ou em hotéis; pelo contrário, tive que viajar pelo país e comer em restaurantes comuns, indiferente às questões de casta, classe ou diferenças religiosas.

Minha jornada começou no norte, na capital de Nova Delhi, lar de 17 milhões de residentes. Assim que cheguei à cidade a primeira coisa que me deixou perplexo foi o absoluto contraste entre a riqueza e a pobreza severa que estava aparentemente em todos os locais, mas logo notei que não importava qual fosse a situação individual, quase todo mundo apresentava no rosto uma largo sorriso.

Os habitantes de Delhi também pareciam estar trabalhando constantemente, dia e noite; ainda assim, em meio à toda confusão, percebi um senso real de caos organizado como nunca antes havia experimentado. De fato, este foi o sentimento que tive em quase todas as cidades indianas pelas quais passei, mas a Velha Delhi foi certamente o maior choque cultural.

As vistas do Red Fort eram maravilhosas, e havia vários e belos templos por todos os lugares que você olhasse, mas, no meio daquilo tudo, eu me espantava ao ver as fileiras de tendas vendendo de tudo, de telefones celulares a sapatos, comida e motocicletas Honda!

No que concerne à comida, minha refeição mais memorável em Delhi aconteceu no legendário restaurante Moti Mahal em Daryaganj, onde pratos clássicos como tandoori chicken e butter chicken (um dos meus favoritos) foram inventados há mais de 60 anos. Foi lá que conheci Seema Chandra, uma renomada escritora e crítica culinária, que me explicou que a comida na Índia é bem diferente da comida indiana que se come na Bretanha. De acordo com Seema, a verdadeira comida indiana é encontrada nas ruas e nas casas das famílias. Os indianos historicamente não possuem uma cultura de restaurante, ainda que isso agora tenha mudado, e (para aqueles que podem bancar) comer fora se tornou um passatempo popular.

Muitos lares possuem serventes ou mães e avós que preparam refeições frescas e deliciosas para toda a família, três vezes ao dia. Trabalhadores que não têm tempo de voltar para casa para almoçar compram sua comida barata e deliciosa na rua, que os sustentam até que cheguem a casa para o jantar; as crianças levam seus lanches para a escola cuidadosamente embalados em suas lancheiras, enquanto as pessoas em geral comem algum lanchinho na rua mesmo antes de irem comer as refeições principais em casa. Essa ênfase na comida tradicional caseira mostra que as receitas vêm passando de geração a geração e raramente têm sido compiladas, de modo que, se eu quisesse provar da legítima cozinha indiana, teria que sair da toca e botar as mãos na massa.

Uma das primeiras coisas que aprendi foi que a comida é muito importante na Índia. Até o mais humilde encontra um jeito de comer bem com comida barata e saborosa. Compreendi isso a bordo do Mangalore Express quando de minha ida a Lucknow, a principal cidade em termos de comida e de cultura. Consegui um avental e me meti na cafeteria do trem na tarefa de preparo dos legumes. Ali, um time de cinco chefs e vinte garçons preparam e servem comida fresca para mais de 400 passageiros por dia. Por um equivalente a 110 libras mensais, os chefs trabalham 10 horas por dia, 6 dias por semana em meio aos mais desafiadores ambientes de trabalho. Potes barulhentos chacoalhando e o forno portátil deslizando de acordo com os movimentos do trem. Ainda assim, eles tomam grande cuidado para produzir refeições quentes e saborosas para as massas – tudo muito distante da deplorável comida industrializada servida nos trens da Grã-Bretanha.


Depois de experimentar a rica e indulgente comida do norte, saí em busca de uma culinária mais voltada à cozinha básica, e em territórios pouco familiares. Minhas viagens me levaram ao distrito pobre e remoto de Bastar, na parte central do estado de Chhattisgarth. A especialidade local aqui é o chakra, um chutney quente e picante feito de pimentas malaguetas picadinhas, sal, gengibre em pó fresco e um ingrediente secreto local: formigas! Por razões óbvias não incluí a receita nesse livro, mas a tribo local me ensinou o real significado de viver de acordo com os recursos da terra. Cada ingrediente é buscado localmente, e por conta da falta de refrigeração dá-se muita ênfase aos produtos frescos.

A seguir, minhas viagens me levaram às áreas costeiras de Kerala. Com suas belas e exuberantes cidades litorâneas, essa é uma parte mais calma e e muito mais relaxada da Índia – exatamente o que eu necessitava depois de um exaustivo par de semanas perambulando pelo país. Naturalmente, arroz e peixe são a base de seus pratos, porém, por possuírem uma razoável população cristã na área, carnes de porco e de gado acabaram entrando no menu. A comida é mais leve, o leite de coco substituindo a manteiga e o creme de leite, e mais perfumada, por conta do uso liberal de especiarias e folhas frescas de curry.

Nenhuma viagem para Kerala está completa sem uma visita ao mercado das especiarias, e eu fiquei extremamente impressionado com os multi-coloridos mercados de Cochin. A imagem das gigantescas pilhas de gengibre, cúrcuma, canela, cardamomo e açafrão (assim como a fragrância intoxicante do ambiente) ficará marcada para sempre em minha memória.



Foi naquele mercado que me dei conta de que uma das coisas mais importantes para aprender sobre a culinária indiana é a delicada arte das especiarias. Embora o uso dos condimentos varie de acordo com a região, crenças religiosas ou simplesmente preferência pessoal, o uso criativo dos temperos é o elo entre todas as comidas. Os pratos indianos podem nem sempre queimar a sua língua (ainda que alguns façam isso), mas eles sempre serão aromáticos e temperados. O segredo está em saber como extrair os sabores naturais de um condimento ou mudar o padrão básico de seu tempero – seja fritando em óleo, tostanto ou moendo – e usá-lo para acentuar os ingredientes principais de um prato. A combinação das especiarias não pode ser ensinada; você tem que testar e experimentar enquanto vai aprendendo com seus erros e acertos.

Minha aventura culinária terminou em Mumbai (formalmente conhecida como Bombay). A cidade é o centro econômico e cultural do país, onde cerca de 200 línguas ou dialetos são falados em suas metrópoles. À primeira vista foi desanimador ver as aparentemente intermináveis extensões de cortiços envolvendo a cidade. Entretanto, numa inspeção mais apurada, foi espantoso ver que há uma comunidade próspera trabalhando e vivendo dentro das construções com seus telhados de metal ondulado.


Passei um dia inteiro na favela de Dharavati, lar de mais de um milhão de pessoas, aprendendo a preparar o sambar, um prato clássico de lentilhas e legumes delicioso, muito leve e nutritivo. É um dos pratos vegetarianos mais amados no sul da Índia, e é comido tanto com arroz branco quanto com bolinhos de arroz fermentado chamados idli. Eu realmente fiquei impressionado com o cuidado e a atenção aos detalhes no preparo do sambar. E o mais importante: o sabor do prato ficou fantástico (mesmo para um carnívoro radical como eu), muito superior a qualquer comida vegetariana que temos na Bretanha.

Eu posso não ter coberto cada um dos pratos típicos de cada região durante meu relativamente curto tour culinário, mas o conhecimento que eu acumulei dessa viagem é imenso. Sou muito grato a todas aquelas pessoas que me entretiveram, inspiraram e me acolheram durante o que foi, posso afirmar com segurança, a coisa mais excitante que fiz na vida. A Índia é um lugar de paixão – tanto para a comida como para a vida. A cozinha é um reflexo do povo e de sua cultura, que é maravilhosa, vibrante e multifacetada. Jamais esquecerei o tempo que passei nesse país incrível e não vejo a hora de voltar.


domingo, 23 de maio de 2010

T. Enami: mestre japonês da fotografia

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Descobri quase que por um acaso um fotógrafo japonês espetacular ao escrever uma matéria postada anteriormente aqui no Odepórica. Gostei tanto do trabalho dele que até resolvi mudar a foto da abertura lá de cima, a que dá a cara ao blog e que insinua mais ou menos o espírito dos textos que aos poucos vão alimentando esse diário eletrônico. Eu achei o máximo e duvido que você também não se encante com as fotos desse gênio das lentes japonês.

T. Enami, o fotógrafo a quem presto homenagem aqui (o posudo vestido de samurai aí acima), nasceu em Tóquio em 1859 e partiu para o andar de cima em 1929. Foi um dos pioneiros da fotografia no Japão no final do século XIX e início do XX. Começou sua carreira como fotógrafo tradicional mas logo se especializou nas imagens “modernas” dos estereogramas, que são aqueles slides tão comuns e divertidos que fizeram sucesso até poucas décadas atrás.

As cores desses estereogramas (os do Enami) eram todas pintadas a mão. O estereograma funciona de uma maneira simples e peculiar: duas imagens bidimensionais quase idênticas são tomadas de ângulos levemente diferentes que, quando vistas juntas através de um estereógrafo (um tipo de binóculo) parecem ser tridimencionais. Eu tinha um desses quando menino (ainda o mantenho) e adorava passar as imagens daqueles slides trazidos por meus pais do Canadá... quantas viagens não fiz para lá através daquelas lentes!

T. Enami teve estúdios em Yokohama, no Japão, e também em Hong Kong e nas Filipinas. O danado gostava de viajar e suas inúmeras tomadas foram vendidas no mundo inteiro, por conta do sucesso que fazia entre os turistas e viajantes que compravam suas imagens. Por puro preconceito, provavelmente por conta desse lado comercial, T. Enami não teve o merecido reconhecimento de sua arte enquanto vivia (pelo menos não tanto quanto outros fotógrafos japoneses contemporâneos seus), mas o tempo provou sua extraordinária qualidade artística e foi sua a foto de capa de uma edição especial das melhores imagens do século da revista National Geographic.

Eu sugiro que você dê uma olhada no site oficial de T. Enami depois de curtir as fotos que postei aqui no blog. São muitas, por isso visite sem pressa e aproveite para viajar pelas terras de um Japão quase lendário, tão perfeitamente retratado pelas lentes desse gênio. Para ir direto ao site, clique aqui.

Se você quiser fazer um passeio mais rápido e ir direto a uma seleção de imagens cuidadosamente escolhidas por um aficionado em T. Enami, indico o álbum do Flickr de Okinawa Soba. Um show de imagens e informações bacanas.

Veja abaixo algumas das imagens que selecionei desses sites acima. Não são mesmo de tirar o fôlego? Namastê!























terça-feira, 11 de maio de 2010

O olhar dos viajantes: edição especial da Revista História Viva

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Esse post vai interessar àqueles (as) que realmente gostam de literatura de viagem e história. A Editora Duetto lançou recentemente duas edições especiais da Revista História Viva intituladas O olhar dos viajantes: o país descrito por exploradores, cientistas e artistas desde o século XVI. Leitura recomendadíssima.

O vol 1, O Brasil ao Natural, enfatiza a visão dos estrangeiros no que concerne à beleza e exuberância de nossas paisagens tropicais, mostrando como os antigos viajantes registraram suas impressões sobre o Novo Mundo. No texto introdutório, escrito por Jean Marcel Carvalho França (organizador das edições), lemos o seguinte:

“Esta primeira edição é dedicada ao modo como os visitantes estrangeiros descreveram os contornos geográficos,a fauna, a flora, os tipos físicos, enfim, os aspectos relacionados à natureza dos trópicos. Dentro desse universo, os temas são variados: as heranças medievais presentes nas cenas naturais construídas nas narrativas de viagem do século XVI e início do XVII; as características do clima, da flora e da fauna brasileiros contidas nos relatos feitos entre os séculos XVI e XIX; a perspectiva da vida natural dos trópicos legada pelos viajantes luso-brasileiros do século XVIII; as especificidades das viagens de Spix, Martius, Denis, Debret, Liais e Agassiz; os impactos da natureza tropical construída nas narrativas de viagem sobre a história escrita no Brasil do século XIX; e, ainda, a construção de um tipo físico brasileiro, nomeadamente um negro, pelo renomado escultor francês Louis Rochet, um apaixonado por culturas ‘exóticas’.”

Não lhe parece mesmo muito interessante? E o vol. 2, O Brasil e sua gente, consegue ser tão bacana quanto o primeiro volume. Nele você aprenderá um pouco mais sobre o papel das narrativas de viagem na construção da nossa imagem e identidade. É assim que o professor Jean França introduz o volume 2:

“Neste segundo volume das edições especiais de História Viva dedicadas ao Brasil dos relatos de viagem, o leitor é convidado a perceber pequenos, mas importantes fragmentos dessa multiplicidade; a conhecer, por exemplo, a dinâmica das cidades brasileiras coloniais – especialmente Bahia e Rio de Janeiro – segundo o prisma do europeu ou, ainda, a sua perspectiva dos ‘hábitos de civilidade’ dos brasileiros dos Setecentos e dos Oitocentos. (...) Há também ensaios que analisam os pressupostos culturais subjacentes ás descrições dos brasileiros produzidas pelos europeus; a imagem que os relatos constroem dos negros livres e cativos que habitavam as cidades e campos brasileiros; a relação dos políticos locais com as nem sempre simpáticas opiniões sobre o país emitidas pelos estrangeiros; e, escapando um pouco á hegemonia o olhar do Velho Mundo sobre o Novo Mundo, algumas notas acerca da perspectiva que alguns representantes do mundo árabe e do continente americano – notadamente, um uruguaio – legaram das terras tropicais habitadas pelos portugueses e por seus descendentes.”





Aqui em Sampa as revistas ainda estão nas bancas, cada uma valendo R$13,90. Se você se interessou mas não conseguiu comprá-las em sua cidade, tente o site da revista Historia Viva.

Para ir mais longe: Entrevista com o professor Jean Marcel França, o da camiseta azul aí abaixo, clicando bem aqui.









sexta-feira, 7 de maio de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: Zen e a arte da manutenção de motocicletas, by Robert Pirsig

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Há anos tinha vontade de ler essa clássica obra dos anos 1970, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig. Já nem me lembrava mais dela, para falar a verdade, mas circulando pela Livraria Cultura outro dia descobri que havia saído uma nova edição e todo contente fui logo folheando o livro, namorando com o indicador alguns parágrafos, lendo a introdução e as orelhas, e sem medo de ser feliz, tomei coragem e fui passar o livro na maquininha de código de barras e quase tomei um choque, perdi o rumo, fiquei desolado de verdade e pensando, mais uma vez, por que é que no Brasil os livros custam tão caro! Covardia, puxa vida.

Como de hábito, fui vasculhar na internet, naquele bom site dos sebos, e encontrei uns dois volumes, mas um estava com rasuras e o outro valia quase o preço do novo, então deixei pra lá mesmo. Mas não é que o destino foi legal comigo? Pois um dia, caminhando pela Domingos de Morais, topei com um rapaz vendendo de maneira improvisada vários livros distribuídos pela calçada, todos por dez reais, e entre eles, gritando meu nome, o ZAMM (para os íntimos) e em ótimo estado, apesar de ser uma edição de 1984. Beleza.

Fui lá eu todo contente e empolgado devorar a obra. Gostei do comecinho, um cara e seu filho na moto, por uma estrada antiga das planícies americanas, vento úmido e morno na cara, o cheiro dos pântanos entrando pelas narinas enquanto se comem os quilômetros de velhas estradas vicinais... A moto avançando, o fruir da paisagem, vontade louca de fazer o mesmo, saudades da minha XL 95....

Quem já teve moto sabe muito bem o que o Robert quis dizer quando escreveu as seguintes linhas:

“Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro a gente está sempre confinada, e como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance.”

“Já na motocicleta, não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns quinze centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo.”

A história que se seguirá é de certa maneira simples e fácil de resumir: um homem na faixa dos quarenta anos decide, no verão de 1968, empreender uma viagem de moto de Minnesota a São Francisco junto com um casal de amigos, John e Sylvia, levando na garupa seu filho, Chris, na época com onze anos.

É basicamente um romance de estrada, mas não é só isso. Aliás, a estrada, de fato, serve apenas como cenário para uma encenação literária muito mais complexa do que o deslocamento dos personagens. O narrador, em primeira pessoa, não é nomeado na obra, mas você facilmente percebe que quem viveu a história foi o próprio Robert, sendo Chris o seu filho na vida real, assim como o casal de amigos. Definitivamente, estamos diante de uma narrativa de viagem de cunho autobiográfico.

Enquanto a viagem acontece no plano da ação, Robert cria uma regra que determina todo o andamento da leitura. Recorre a uma estranha palavra - chautauqua -, uma espécie de palestra popular em voga no século XIX nos EUA, que visava “edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador”, segundo as palavras do próprio autor, para introduzir alguns conceitos profundos (pelo menos para os não-iniciados) sobre filosofia, ou mais especificamente, sobre o conceito de Qualidade dentro do sistema filosófico.

E aqui, precisamente, temos um problema: se você imaginava, assim como eu, que encontraria nessa obra um tanto de aventura e outro tanto do barato zen, à moda de um Kerouac e seus vagabundos iluminados, pode esquecer. Mas veja lá, o próprio autor adverte em nota que sua obra não trata mesmo disso, de modo que o zen só aparece pincelado, bem de leve, ao longo da narrativa.

Até aí, tudo bem. Mas o que pode assustar uma pessoa desavisada é o peso que tem, no corpo da obra, as longas divagações filosóficas do autor. Devo admitir que, a princípio, fui me aborrecendo com o Robert Pirsig por conta de suas longas e por vezes chatíssimas chautauquas. Muitas delas eu até pulava, porque o que mais me interessava ler era a descrição da viagem e as relações interpessoais, muito mais interessantes para mim.

Claro está que o problema não se encontra na obra, e sim no limite intelectual do leitor, pouco aficionado por filosofia. Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado do livro, não mesmo. Só que, ao envolver-me com a leitura, tomei mais empatia pelos outros personagens do que pelo próprio narrador, a quem considerei – tenho vergonha de admitir – um daqueles caras cuja inteligência avançada é proporcional à falta de charme e chatice; acho que se você também não se empolga muito com esse tipo de gente irá entender o que digo. (Agora, relendo o que acabei de escrever, penso que exagerei um pouco na dose; o narrador não é tão chato e desprovido de charme assim).
Outra peculariedade que causará estranheza é a presença de um personagem crucial na construção da história: o fantasma Fedro, não no sentido caricato que se tem dos fantasmas do além-túmulo, mas um tipo de duplo do narrador, que você mais tarde, na terceira parte da obra, irá compreender melhor de quem se trata. Preste muita atenção na presença de Fedro nesta narrativa, que é uma das chaves de leitura de todos os acontecimentos que compõem os aspectos biográficos do autor.

No meu caso, entretanto, o que mais me chamou a atenção foi a relação do narrador com seu filho Chris. A bem dizer, esta obra trata fundamentalmente da relação narrador(Robert)/Fedro/Chris. Se você é do tipo que curte psicologia, certamente irá aproveitar muito essa leitura.

A relação vivida entre o narrador e seu filho é bastante peculiar. A viagem, em si, já me parece estranha (por conta da presença de uma criança) se levarmos em consideração o ritmo empreendido; são muitos dias de viagem em cima de uma moto, sofrendo as duras instabilidades climáticas, calor e frio alternadamente, dormindo a maior parte do tempo em beira de estradas, sem nenhum objetivo definido. Os planos, para o narrador, “são propositalmente vagos; queremos mais viajar do que chegar a algum destino”.

Fico pensando se esse “queremos” inclui de fato o desejo de Chris; em algum momento da narrativa fica claro que o garoto não parece entender bem a dinâmica da viagem, que aos olhos de um adulto sugere uma aventura encantadora, mas será o mesmo para um garoto de 11 anos? Provavelmente não, e no fundo seu pai percebe isso, embora não pareça se importar muito com a opinião dele. Seguir viagem é o que interessa, e talvez, como sugere o final da obra, haja um motivo para que tudo tenha acontecido daquela maneira.

Ainda assim, a impressão que temos é a de que o narrador é um pai impaciente, que demonstra algumas vezes não se conformar com o fato de que seu filho de 11 anos não tem a capacidade de acompanhar o seu raciocínio lógico; é bem provável que seja isso, que tenha lhe faltado um pouco de psicologia infantil e um olhar mais apurado certamente encontrará outras inúmeras possibilidades de interpretação. A dica, talvez, seja a de ler (ou reler) a obra sob o ponto de vista do garoto, o que me parece uma opção bastante atraente.

Enfim, mesmo com todas as complexidades que envolvem essa trama sob duas rodas, senti uma leve tristeza ao terminar a leitura. Não sei bem explicar o motivo, talvez minha tristeza (ou seria melancolia?) tenha sido causada por conta de algumas passagens meio deprês da obra, relacionadas quase sempre com o passado do autor/narrador. (nota: leia a pequena biografia de Robert Pirsig no final desse post e você entenderá o que estou dizendo. Aliás, entenderá melhor ainda a obra como um todo).

Selecionei pequenos trechos para que você tenha uma ideia do estilo da escrita do autor. Primeiro, sobre a arte da manutenção de motocicletas:

“Nem todos compreendem que a manutenção das motocicletas é uma operação completamente racional. A maioria das pessoas pensa que é uma questão de ‘queda’ ou de ‘afinidade pelas máquinas’. Estão certas, mas essa ‘queda’ é quase inteiramente um processo racional, e a maioria dos problemas são causados por ataques de burrice, falhas no uso apropriado do raciocínio. A motocicleta funciona inteiramente de acordo com as leis racionais, e o estudo da arte da manutenção das motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade.”

Como você pode imaginar, a motocicleta e suas implicações mecânicas (funcionalidade, conserto, manutenção) são metáforas utilizadas pelo autor para introduzir questões profundas de ordem interior. Só que, ao invés de explorar o campo da espiritualidade, Pirsig opta pela sabedoria dos antigos filósofos para atingir algum grau de compreensão mais elevada, no que parece dar-se muito bem. Ainda assim, em alguns poucos trechos da narrativa é possível captar o espírito do zen que, afinal, dá título à obra, como na breve passagem abaixo assinalada, num momento em que o narrador faz alguns ajustes na motocicleta:

“O primeiro tucho está em ordem, não precisa ser ajustado, e eu passo para o seguinte. O sol ainda vai demorar muito para brilhar sobre estas árvores... Quando estou fazendo isso, sinto-me como se estivesse na igreja. O calibrador é uma espécie de ícone sagrado, e estou realizando com ele um rito religioso. É membro de um conjunto denominado ‘instrumentos de precisão’, que tem um profundo significado no sentido clássico. (...) A motocicleta é isso, um sistema de idéias moldado em aço. Nela não há peças nem formas que não sejam fruto do pensamento de alguém...”

Sobre montanhas e viajantes

“Depois de uma boa noite de sono, Chris e eu enchemos as mochilas com o maior cuidado, e já estamos subindo pela encosta há uma hora. Aqui no fundo do desfiladeiro a floresta é formada quase que exclusivamente por pinheiros, com alguns choupos e arbustos de folhas largas. De vez em quando, a trilha leva a uma clareira forrada de relva e iluminada pelo sol, à beira do regato do desfiladeiro, mas em seguida penetra novamente na densa sombra dos pinhais. O chão da trilha está coberto de uma camada fofa e úmida de agulhas de pinheiro. O silêncio é completo.”

“Montanhas como esta, e histórias de viajantes que as escalam, encontram-se tanto na literatura Zen, como nos mitos das mais importantes religiões. A alegoria da montanha física, que representa a escalada espiritual que a alma deve empreender para alcançar seu objetivo é estabelecida de maneira fácil e natural. A maioria das pessoas, como aquelas que moram no vale lá embaixo, ficam contemplando as montanhas espirituais a vida inteira, mas nunca se resolvem a escalá-las, contentando-se em ouvir as peripécias que lhes contam os que lá estiveram; assim, evitam as agruras da subida. Outros viajam acompanhados por guias experientes, que conhecem as rotas mais propícias e menos perigosas para atingir o destino desejado. Poucas dessas pessoas logram êxito, mas às vezes, com força de vontade, sorte e motivação, algumas conseguem chegar ao cume e, uma vez lá, têm o privilégio de descobrir que não há um único caminho nem um número fixo de rotas. Existem tantos caminhos quantas são as almas.”

“Na Índia, Fedro escreveu uma carta sobre uma peregrinação feita por ele, em companhia de um guru e seus seguidores, ao monte Kailas, onde fica a nascente do Ganges e a morada do deus Siva, no alto do Himalaia. Ele não chegou até a montanha. Desistiu no quarto dia, exausto, e a peregrinação prosseguiu sem ele. Para justificar-se, disse que tinha força física, mas que só isso não bastava. Tinha também a motivação intelectual, mas isso também não era suficiente. Ele não achava que tinha sido arrogante, mas que estava fazendo a peregrinação para enriquecer sua própria experiência, para aumentar seus conhecimentos. Estava tentando usar a montanha e a peregrinação para atender a objetivos individuais. Para ele, a entidade visada era ele mesmo, não a peregrinação nem a montanha; ele não estava preparado para enfrentar aquela experiência. Deduziu que os outros peregrinos, que chegaram ao destino, provavelmente captaram a santidade da montanha de maneira tão intensa que cada passo era um ato de adoração, um ato de submissão àquela santidade. A santidade da montanha infundida nos seus espíritos permitia-lhes suportar a jornada com muito mais facilidade do que ele, que era fisicamente mais forte.”

“Aparentemente, não há qualquer diferença entre a escalada egocêntrica e a escalada desprendida. Ambos inspiram e expiram à mesma velocidade. Ambos param quando estão cansados. Ambos prosseguem depois de descansar. Mas como são diferentes! O alpinista egocêntrico é como um instrumento descalibrado. Está sempre atrasado ou adiantado na caminhada. Corre o risco de deixar de ver a beleza dos raios de sol passando através das copas das árvores. Ele prossegue mesmo cansado, a passos trôpegos. Descansa nas horas erradas. Fica olhando para cima, para ver o que o aguarda, mesmo quando já sabe o que existe adiante, porque já olhou para lá há apenas um segundo. Vai muito depressa, ou muito devagar em relação às condições reais e, ao falar, fala sempre sobre outro lugar e outras coisas. Está aqui, e, ao mesmo tempo, não está. Rejeita o presente, não se conforma com ele, quer prosseguir, mas, ao atingir o ponto desejado, fica tão insatisfeito quanto está agora, porque o lugar antes distante se transformou no ‘aqui’, no lugar presente. Aquilo que ele procura, aquilo que ele deseja, está ao redor dele, mas ele não aceita, justamente porque está ali pertinho. Cada passo requer um tremendo esforço, tanto físico quanto espiritual, porque ele imagina que o seu objetivo é externo e distante. Parece que é esse o problema do Chris.”

Pois é, essa emblemática afirmação final refere-se a uma caminhada extenuante nas montanhas onde pai e filho tentaram (sem logro) atingir o cume. Ô Seu Robert Pirsig, o moleque só tem onze anos! E a gente, que só de ler sobre essa escalada já se cansa! Enfim, quem somos nós para dar palpite na educação dos filhos alheios, certo? Pois é, e eu que comecei a leitura empolgado e que de vez em quando desanimava com as divagações filosóficas do motociclista quarentão, acabei sendo pego de surpresa nas últimas páginas, quando parte do mistério sobre o passado do narrador nos é revelado. Claro que não vou entregar o final, mas garanto a você que as últimas linhas desse romance fazem toda a leitura valer a pena – especialmente se você conseguir captar, no último diálogo entre pai e filho, a mensagem cifrada que eu, sinceramente, não sei se foi escrita de maneira consciente pelo autor. Mas isso, para mim, também não tem a mínima importância...

Pequena e descompromissada biografia do Robert Pirsig



Robert M. Pirsig, escritor e filósofo estadunidense, nasceu em 1928. Foi uma criança precoce, com um QI de 170 aos 9 anos de idade. Por conta disso, adiantou-se nos estudos e aos 15 já havia ingressado na Universidade de Minnesota.

Serviu o exército na Coréia. Em 1950 foi para a Índia estudar filosofia oriental em Benares. Entre os anos de 1960-63 foi internado em instituições mentais, tendo sofrido um sério colapso nervoso. Foi tratado a base de terapia de eletrochoque e teve o diagnóstico de esquizofrenia paranóica e depressão.

Do primeiro casamento teve dois filhos: Chris, em 1956 e Ted, dois anos depois. Casou-se pela segunda vez em 1978 e teve uma filha, Nell, em 1981. Publicou poucos livros depois de ZAMM, nenhum deles tendo atingido o mesmo êxito de seu livro famoso.

Raramente aparece na mídia; evita o assédio público e viaja rotineiramente de barco pelo Atlântico, tendo vivido em diversos lugares dos Estados Unidos e em algumas cidades europeias.

Em 1979, contando com apenas 23 anos de idade, Chris é assassinado durante uma tentativa de assalto, à saída do San Francisco Zen Center.

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Leia: Zen e a arte da manutenção de motocicletas – uma investigação sobre valores, de Robert Pirsig. Minha edição tem uma capa muito feinha, é de 1984 e saiu por aqui pela Editora Paz e Terra. A tradução é de Celina Cardim Cavalcanti.
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As fotos que você vê aqui (John, Robert, Sylvia e Chris) foram tiradas pelo autor do livro com sua própria máquina fotográfica durante a viagem em 1968, Ano do Macaco no horóscopo chinês.
A foto lá de cima é a capa de um audiobook lançado lá fora; o cara das unhas sujas lendo o livro, esse eu não sei quem é, mas achei que tem bem o "espírito da coisa"...