terça-feira, 29 de junho de 2010

O deserto dentro de nós, by Miguel Sousa Tavares

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Há algum tempo venho colecionando textos sobre desertos, e sempre que puder irei postar algo sobre o tema por aqui. Acho os desertos fascinantes e dentro desse universo das viagens não consigo encontrar metáfora mais poderosa. O Jean Chevalier e o Alain Gheerbrant, que publicaram o Dicionário de Símbolos, um livro que se-você-não-tem-deveria-ter, escreveram o seguinte sobre o simbolismo do deserto (vou pular várias passagens):

“O deserto comporta dois sentidos simbólicos essenciais: é a indiferenciação inicial ou a extensão superficial, estéril, debaixo da qual tem de ser procurada a Realidade.”

“No esoterismo ismaélico, o deserto é o seu exterior, o corpo, o mundo, o literalismo, que a pessoa percorre cegamente, sem perceber o Ser divino escondido no interior dessas aparências. Aliás, o deserto, segundo Mateus, é povoado de demônios. Já para um Richard de Saint-Victor, o deserto, muito pelo contrário, é o coração, o lugar da vida eremítica interiorizada.”

“É por isso que os monges do cristianismo posterior se retiraram para o deserto como os eremitas (deserto se diz, em grego, eremos), para afrontar, aí, a sua natureza e a do mundo unicamente com a ajuda de Deus. O conteúdo simbólico do termo aparece muito bem aí, pois logo se deixou de achar necessário ir materialmente para o deserto, a fim de levar uma vida de eremita.”

Com isso já dá para ter uma idéia mais bacana do potencial revelador que o deserto carrega dentro de uma perspectiva simbólica. Imagine então o poder disso tudo agregado à experiência prática, que coisa maravilhosa e transformadora deve ser, não?

Nunca estive num deserto de verdade, mas posso dizer que já tive um aperitivo dessa aventura nas mesetas espanholas algumas vezes, na condição de peregrino jacobeo. Não é para qualquer um, ainda mais se a caminhada for solitária e as condições climáticas não ajudarem. Mas depois que passa (às vezes bem depois), é uma alegria só; fica marcada na alma para sempre a sensação de haver conseguido chegar ao destino, de vencer obstáculos, sejam estes físicos ou psicológicos, porque dos dois há.

Claro, nada que se compare a uma verdadeira viagem por um deserto imenso, de proporções saarianas, mas a gente faz o que pode com aquilo que a vida nos proporciona, certo? Vale mesmo é a entrega e a vontade de acrescentar algo novo à experiência do viajante.

E por falar em viajante, vou transcrever um trecho pequeno e gostoso de ler que tirei de uma revista publicada pela Folha de São Paulo em 28 de maio passado, intitulada Lugar, com vários artigos bacanas, um deles do escritor e jornalista português, Miguel Sousa Tavares, autor de No teu deserto, lançado aqui pela Companhia das Letras.

O texto do Miguel é o que abre a edição e leva o título, muito sugestivo, de “O deserto dentro de nós”. Vale a pena lê-lo todo, mas postarei aqui a parte de que mais gostei e que diz o seguinte:


“Os verdadeiros viajantes de deserto nunca mais regressaram. Os que não ficaram ou não morreram lá trouxeram consigo o deserto para suas vidas e espalharam à sua volta a incompreensão alheia e a solidão própria. Rimbaud, Isabelle Eberhardt, T.E. Lawrence, Charles de Foucauld – todos os alucinados do deserto carregaram consigo esse desespero, essa solidão sem remédio, esse segredo impartilhável, de quem conheceu o vazio e o absoluto e nunca mais encontrou o caminho de regresso.

Desde sempre, o deserto fascinou os fotógrafos. O desejo de captar o indizível, esse absoluto feito de vazio, essa imensa solidão das pedras e das dunas, torna a fotografia uma compulsão, uma desesperada tentativa de testemunho daquilo que se viu. Como não encontramos palavras nem o desejo delas, fotografamos – na esperança vã de que uma imagem revelada possa revelar tudo o que vimos. Nas minhas primeiras viagens ao deserto também eu fotografei e filmei, sem tréguas nem ordem, caoticamente. No regresso, olhando as imagens, vi que só tinha trazido comigo paisagens – algumas lindas, deslumbrantes, fazendo sonhar os amigos e toda a gente. Mas eu sabia, sempre soube, que é a viagem interior que verdadeiramente conta – a solidão, o medo, o desespero, o desejo de voltar a casa, o cansaço, o vazio, o excesso e a ausência de tudo.

Hoje, quando vou ao deserto, já nem me preocupo em fotografar: só me preocupo em olhar e sentir, sabendo que o que vejo e o que sinto viajarão comigo para sempre, como uma espécie de revelação que nenhuma imagem revelada alguma vez conseguirá descrever.

E, todavia, guardo e acumulo todos os livros sobre o deserto que encontro e olho, vezes sem fim, as fotografias dos livros. E, quanto mais olho, mais desejo voltar lá, porque estas imagens chamam por todos aqueles que sabem ou sentem que o melhor de nós exige uma paisagem como aquela, um lugar como o da Criação do Mundo, onde nada nos distraia nem iluda, onde estamos a sós com os elementos e não nos gastamos aos poucos por entre as ciladas do mundo.

Sem imagens, eu tento com palavras dar o mesmo testemunho que dão os fotógrafos do deserto. Porque, embora sabendo que jamais conseguiremos ser fiéis à evidência do deserto, é preciso dar testemunho para que outros possam também ensaiar esta viagem primordial. Porque ninguém deveria morrer sem ter visto pelo menos uma vez o deserto.” (Miguel Sousa Tavares)


Foto 1: http://www.zhotfire.com/gallery/gallery1/desert_morn_1024.jpg Foto 2:http://www.zhotfire.com/gallery/gallery7/desert_darlings.jpg

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Viagem a Portugal. Homenagem a Saramago (1922-2010)

. Painting by John Lautermilch


Portugal tem tudo para ser o destino ideal de um bom viajante: uma história fascinante, um povo simpático e caloroso, paisagens belíssimas e diversificadas, mesa farta e saborosíssima... tudo de bom que se pode querer tem lá, dos peixes aos legumes frescos, os azeites e os embutidos, as castanhas saboreadas no inverno, as sardinhas no São João, e o vinho, maravilhoso, a qualquer momento.

Terra de grandes escritores, teve no passado lá longe Camões, que sempre tive vontade de ler mas ainda não o fiz; compensei com Fernando Pessoa, que veio bem depois, e que eu li, e li, e li, e continuo lendo hoje e sempre, porque Pessoa emociona, inspira e vicia. E depois do poeta lisboeta, temos José Saramago, que provavelmente foi o último dos gigantes da literatura portuguesa a ir para o andar de cima.

Confesso que Saramago não faz a minha cabeça, acho que não consigo me identificar com seu estilo pouco convencional de escrita sem pontuação e frases intermináveis. Um dia, quem sabe, eu mude de opinião (mudar é sempre bom). Por hora fico só na superfície e por isso vou postar uma reflexão do escritor que anda circulando bastante pela net a título de homenagem por conta de seu passamento. Chegou a mim através de um email. Não resisti e resolvi postar aqui no Odepórica.

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir. E para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

[José Saramago, Viagem a Portugal, 1980]

Não é mesmo lindo? Se você se interessou, leia abaixo a sinopse da obra, lançada no Brasil em 1997 pela Companhia das Letras.


Em Viagem a Portugal, o pacto de Saramago com a língua se materializa com tanta clareza que chega a parecer um destino - é como se as coisas e as pessoas estivessem estado à espera de seu escritor. Um milhão de viajantes viram os rios, as encostas e as florestas que Saramago viu. Entraram nos mesmos castelos e igrejas. Pediram informação àquele pastor, à fiandeira e ao velho da encruzilhada. Todos deram pasto à vista e à imaginação. Nenhum deles, entretanto, teve como levar a viagem para casa, refazê-la por escrito e escolher que iria partilhá-la infinitamente.Conhecemos, neste livro, que nome se dá às coisas em Portugal, qual é a comida que vai para a mesa, quem pintou o teto daquela capelinha, quando é que chove, de que cor são os olhinhos de Nossa Senhora da Cabeça, o que aconteceu com as flores das amendoeiras que o rei mouro mandou plantar para a sua princesa nórdica, quanto custa passar o tempo nas ruas de Serpa, até que ponto são rápidas as águas do Pulo do Lobo, de que modo se conserva a seriedade perante o são Sebastião sorridente e orelhudo de Cidadelhe, por que morreu Inês, a amante de Pedro, o Cruel, o Cru, o Filho-Inimigo, o Tartamudo, o Dançarino, o Vingativo, o Até-Ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado.

Boa Viagem, Saramago.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

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A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/






quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teoria da viagem: poética da geografia, by Michel Onfray

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Quer ler um livro excepcional sobre a arte de viajar? Pois então não perca tempo e corra atrás desse pequenino ensaio que é uma jóia: Teoria da viagem: poética da geografia. O autor é um jovem filósofo francês cinqüentenário, Michel Onfray, que escreve como ninguém sobre as sutilezas da experiência mágica da viagem.

O Michel tem tanta coisa boa escrita nesse livro de cento e onze páginas que nem sei por onde começar. Mais uma vez me sinto frustrado por ter que deixar muitas passagens geniais de uma obra de lado, mas a concisão é uma necessidade, de modo que tentarei selecionar aquilo que imagino irá inspirar os leitores e as leitoras do Odepórica a comprar o livrinho do filósofo francês (como sempre, não estou lucrando nada com isso, palavra).

Os sete tópicos desse estudo são diretos e instigantes; leitura agradável, consegue a proeza de equilibrar o discurso acadêmico com o popular, sem nunca parecer pedante ou superficial. Vamos ler a seguir algumas passagens, na verdade insights cheios de sabedoria e atitude. Veja o que pensa Onfray sobre:

A escolha de uma destinação:

“Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”

“Uma palavra, um lugar legíveis no mapa retêm, então, a atenção. Nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral, se reconhecem de súbito numa emoção desencadeada por um nome guardado na memória: ir ao tibete, ver o rio Amur, escalar o monte Fuji ou o Etna, caminhar nas colinas de N´Gong, nadar no oceano Pacífico (...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, numdia melancólico ao fundo da classe.”

Os livros:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino.”

“Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. (...) Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela.”

O começo da viagem:

“Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, a leitura, certamente tudo isso define o projeto; mas a viagem mesma, quando se pode dizer que começou? É quando decidimos partir para um lugar e não um outro? Quando fechamos a mala, afivelamos a mochila? Não. Pois há um momento singular, identificável, uma data de nascimento evidente, um gesto signatário do começo: é quando giramos a chave na fechadura da porta de casa, quando fechamos e deixamos para trás nosso domicílio, nosso porto de matrícula. Nesse instante preciso começa a viagem propriamente dita.”

A amizade:

“Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. (...) No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.”

A memória da viagem:

“Pouco importa o suporte, desde que a memória produza lembranças, extraia quintessências, elabore referências com as quais organizar mais tarde o conjunto da viagem. No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental. Mais tarde, quando o tempo do acontecimento estiver longe de nós, restam instantes congelados em formas capazes de reativação imediata.”

“(...) um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.”

A diferença entre viajantes e turistas:

“Viajar supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma, em apreender seus epifenômenos, de longe, como espectador engajado, militante de seu próprio enraizamento; o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado, buscando nem rir nem chorar, nem julgar nem condenar, nem absolver nem lançar anátemas, mas pegar pelo interior, que é compreender, segundo a etimologia. O comparatista designa sempre o turista, o anatomista indica o viajante.”

A busca:

“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser.”

O nomadismo:

“Não há viagem sem reencontro com Ítaca, que dá sentido ao deslocamento. Um exercício perpétuo de nomadismo sairia dos limites da viagem para entrar na errância permanente, na vagabundagem. Os próprios nômades praticam um tipo de sedentarismo, pois percorrem trajetos habituais, se instalam na rotina de um deslocamento, sempre o mesmo, servem-se das mesmas referências, ramagens secas, montes de pedras, linhas e rastros feitos por animais, leem sempre do mesmo modo o mapa das estrelas ou dos movimentos do sol, mas também porque vão a lugares onde têm seus hábitos, suas práticas tribais e rituais na arte de ocupar os solos.”

“Assim como o sedentarismo contínuo não me agradaria, o nomadismo permanente não me seduz: as raízes, o local, a vida há muito tempo num lugar idêntico não podem ser consideradas sem um recurso regular a deslocamentos ao redor do planeta (...) entendo a viagem como um momento num movimento mais geral – não como um movimento por si só. Tanto mais porque o reencontro com o domicílio dá um sentido, o seu sentido, ao nomadismo – e vice-versa.”

Leia: Teoria da viagem: poética da geografia. Michel Onfray. Trad. De Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.