terça-feira, 27 de julho de 2010

Conselhos a uma viajante dolorida

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Li hoje no Caderno Viagem do jornal O Estado de São Paulo, um texto muito interessante na coluna do Mr. Miles, conhecido como o homem mais viajado do mundo. Gosto do estilo bem humorado do Mr. Miles, incluindo as cafonices das expressões em inglês que pontuam seus textos em todos os parágrafos, como você logo irá conferir.

O que me levou a querer postar essa matéria foi a maneira como o autor do texto abordou um fato muitas vezes corriqueiro entre os viajantes, que é a vontade que se tem, muitas vezes, de viajar para fugir ou esquecer de algo ou de alguém. Quem nunca teve o desejo, pelo menos uma vez na vida, de largar tudo e sumir do mapa?

A deixa para tratar desse tema foi uma carta que Mr Miles recebeu de uma leitora, aparentemente desiludida e disposta a reencontrar a felicidade perdida em um novo lugar. Ela pede sugestões de lugares ao homem mais viajado do mundo. A resposta você lerá a seguir. Namastê!



CONSELHOS A UMA VIAJANTE DOLORIDA





Querido mr. Miles: vou poupá-lo dos detalhes, mas tenho pouco mais de 30 anos, acabo de sair de uma relação longa, mas sem projetos, e estou disposta a começar a vida em algum outro lugar do mundo. Adoro viajar, mas não gosto de locais quentes e tenho medo ficar deprimida em invernos longos demais. O senhor tem alguma sugestão de lugar onde eu pudesse voltar a buscar a felicidade?
Jana Gomes Meirelles, por e-mail



"Well, my dear Jana: sou melhor como contador de histórias de viagem do que, I presume, como consultor sentimental. Mas sei, porque aprendi com o grande psicanalista e velejador Nelson Dienstag, que o caminho que você pretende trilhar raramente conduz a algum lugar específico ou a uma solução para suas angústias.


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Você pode até esquecer as malas em casa e viajar apenas com a roupa do corpo, para evitar carregar consigo qualquer lembrança física da pessoa de cujas memórias quer (quer mesmo?) escapar. Você pode, of course, escolher mudar-se para o outro lado do mundo, onde sempre haverá uma cidade bonita na latitude que condiz com suas aspirações climáticas.

Mas há um item que embarcará na sua companhia, clandestino e indesejado. Ele estará, quiçá, em sua nécessaire, no bolso de seu jeans ou no forro de sua jaqueta, como um intruso indesejado. Você o verá nos lagos aos pés do Himalaia, nas muitas igrejas da Morávia, nos aromas da Provença ou nos girassóis da Andaluzia.




Trata-se da dor que a levou a viajar. I"m very sorry, my dear, mas ainda que sair mundo afora seja uma experiência enriquecedora, as grandes decepções sempre viajam conosco. Yes, darling, todas as coisas ganham a dimensão adequada quando estamos longe de nossas referências mais próximas. Eis por que os problemas comezinhos do dia a dia, pequenas cizânias de trabalho e frustrações do cotidiano desaparecem num passe de mágica quando saímos de férias para recuperar energias.




However, das dores da alma não se pode simplesmente escapar pelo finger de um aeroporto. Otherwise, a indústria química não ganharia rios de dinheiro criando pílulas que prometem a felicidade e, unfortunately, raramente a entregam.

Se eu fosse você, dear Jana, não carregaria a sua dor para, sobre ela, construir uma nova vida. Acho, até, que você pode levá-la para passear, para testar se a beleza de novas descobertas não a torna menos desagradável, ainda que seja assim apenas por alguns momentos.




Melhor ainda seria se você viajasse com uma pessoa amiga, para trocar impressões, fotos e sorrisos eventuais. O luto por alguém que deixou a sua vida (oh, my God, estou me tornando piegas!), tem o mesmo comportamento de um viajante. Deixa marcas, evoca lembranças. Mas é sempre passageiro.
Do you know what I mean?"










Imagens bonitas, não? Encontrei-as no portal do Photobucket.









sábado, 24 de julho de 2010

As viagens de Benjamin Franklin

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Todas as nações possuem seus representantes dignos o suficiente para serem destacados com orgulho na linha da história. O primeiro que me vem à mente, quase sempre, é Mohandas Gandhi, o Mahatma (grande alma) que fez pela Índia o que nenhum outro personagem daquele país ousou fazer. De quebra, ainda encantou o mundo com sua mensagem de paz e sua conduta de vida exemplar.

Aqui no Brasil também tivemos grandes homens e mulheres que fizeram muito por nós, alguns tidos por heróis, como é o caso do alferes Tiradentes e seus companheiros inconfidentes, da Princesa Isabel, que lutou pelo causa da abolição da escravidão, ou D.Pedro II, que acreditou no Brasil e o amou até o final de sua vida.

Nos Estados Unidos, país que sempre teve importantes figuras no cenário político nacional e internacional, um nome é sempre aclamado, seja pela sua inteligência e cultura singulares, ou pelo fato de haver conseguido conquistar enorme simpatia além-mar: Benjamin Franklin.

Encontrei um texto num blog de viagem (
http://www.gadling.com/) que me surpreendeu pela interessante maneira de apresentar uma personalidade histórica a partir de suas viagens. Um texto leve e ágil, escrito para o público americano (chamam-no de “nosso pai fundador”) e que me fez ficar com muita vontade de conhecer melhor esse “Mahatma” que ajudou a fundar a grande nação dos Estados Unidos da América.

O interessante é que, ao lermos sobre as viagens de Benjamin Franklin, vamos sendo informados sobre diversas passagens históricas importantes que mudaram não só a vida dos norte-americanos como a de todos nós. Você entenderá o que isso quer dizer ao ler o texto completo. Eu gostei muito, e acho que você também irá se encantar com a leitura. Namastê.


Benjamin Franklin, Traveler.

"Viajar é uma forma de alongar a vida", comentou Benjamin Franklin, após voltar de sua primeira visita à França. O cavalheiro da Pensilvânia havia viajado somente por duas semanas, mas sentia que sua temporada em Paris fora tão agradável e enriquecedora que parecia que tinha passado seis meses fora. É assim que deve ser uma boa viagem.

Para Benjamin Franklin , Paris era "como um sonho agradável do qual eu estava arrependido de ser despertado por me encontrar de novo em Londres". Ele achava a Inglaterra "uma pequena ilha" cheia de pobreza e sempre "úmida", mas com “mentes muito mais sensatas, virtuosas e elegantes" do que as que encontraria de volta a casa. Como companhia, preferia os franceses - "Eu não sei quais são os mais ardilosos, os ingleses ou os franceses, mas estes últimos têm, com suas trapaças, mais polidez." Tal polidez tal não foi devolvida por Franklin, que descreveu o Palácio de Versalhes como mal-conservado e surrado: "As fontes não funcionam."

Pode-se dizer que Benjamin Franklin era um pouco obstinado? Talvez, e felizmente esse é um valor americano que sobreviveu. Ele também foi um poliglota que estudou italiano, francês, espanhol e alemão. Infelizmente, esse é um valor americano que não sobreviveu. O jovem Ben Franklin começou sua carreira de viajante aos 17 anos, ao largar um emprego sem futuro fugindo para Nova York, criando um precedente para várias gerações de norte-americanos (Madonna, por exemplo). Isso serviu como um tipo de aprendizagem no exterior que acabou levando-o a fazer sua primeira viagem real – a Londres.


A viagem de retorno foi mais vagarosa - ele já estava com quase 20 anos de idade quando finalmente voltou para casa, descrevendo assim o que viu, "Do lado esquerdo aparece a costa da França ao longe, e à direita está a vila e castelo de Dover, com as colinas verdejantes e os penhascos calcários da Inglaterra." Lutou contra o tédio da longa viagem marítima através da leitura, de longas conversas, jogando damas ou cartas, e bebendo muito; testemunhou seu primeiro eclipse solar e viu um ajudante de cozinha ser chicoteado por haver utilizado demasiada farinha no preparo de uma sobremesa. Apostou com seus companheiros de viagem uma “bowl of punch" (o equivalente, no século 18, a uma rodada de cerveja) que estariam de volta à Filadélfia numa determinada data.... e perdeu. Quando um dos companheiros de viagem de Ben foi pego trapaceando nas cartas, os outros o castigaram amarrando uma corda em volta de sua cintura, e o içaram, deixando-o pendurado “por um quarto de hora”.
Daquele ponto em diante, Benjamin Franklin tornou-se um viajante, correndo para cima e para baixo através das colônias americanas e cruzando o Atlântico, pelo menos, uma dúzia de vezes. Na verdade, ele foi provavelmente o político americano mais viajado naquele tempo - admitiu estar acostumado a pelo menos uma viagem por ano, chegando a se sentir doente por conta do único ano em que havia deixado de viajar.

O pai fundador da nação acreditava veementemente que a viagem melhorava sua saúde e seu espírito, apesar das condições ásperas daqueles tempos. Como postmaster dos Estados Unidos (encarregado dos correios), viajou cerca de 1.600 milhas a cavalo, de carro e a pé, inspecionando as estações de correio da Virgínia do Sul à Nova Inglaterra. Chegou a cair de seu cavalo duas vezes – arranjando uma lesão que se prolongou por toda a vida. A caminho do Canadá (às vésperas da Revolução Americana), atrasou-se por conta do gelo e da nevasca de abril ocorrida ao norte de Nova York. Na Inglaterra e na França, ele geralmente viajava de post-chaise, uma carruagem leve, onde o condutor montava um cavalo atrelado a uma carroça.


Às vezes reclamava; a chuva Escócia o deixou esgotado: "Cheguei aqui enfrentando tempestades e inundações num sábado tarde da noite, e fui alojado numa pousada miserável”. Mas como um bom viajante, lidou de maneira leve com uma situação assustadora, comentando com sarcasmo: "A carruagem era do tipo miserável, com cavalos cansados, numa noite escura, somente nós na estrada; para tornar o percurso mais confortável, o motorista parou perto de um bosque que iríamos atravessar para nos dizer que havia ali uma gangue de dezoito bandidos que, há duas semanas, havia assassinado alguns viajantes naquele exato local em que nos encontrávamos”.

Como viajante, foi muito atento - ele observou que o tráfego em Londres era pior do que em Paris, que os norte-americanos falam muito mais alto quando se dirigem a pessoas que não falam Inglês (como se elas fossem surdas), que os viajantes pegam resfriados "uns dos outros porque respiram o ar alheio ao sentarem-se juntos nas carruagens", que uma certa corrente do Atlântico (a Corrente do Golfo) faz com que a navegação seja muito mais rápida, e que a Inglaterra era muito, muito cara (escreveu à esposa, desde Londres: "Minha despesas aqui me surpreendem").

Franklin era fascinado por tudo o que ele presenciava em suas viagens, dos tipos estranhos de algas que colheu no meio do oceano até a maneira que as senhoras francesas aplicavam seu rouge. Gostava de música escocesa e coletava partituras como se fossem CDs recém-lançados, e cantava aquelas canções no decorrer da viagem ao lado de sua filha. De lembranças, Benjamin comprava livros – possuindo uma vasta coleção, de obras compradas na Alemanha, Holanda e França, livros que “continham um conhecimento que poderia vir a ser útil na América." De regalo a seus anfitriões estrangeiros, oferecia pacotes de maçãs desidratadas da América.


No exterior, Ben Franklin era um apaixonado pela cozinha, dando mais valor à culinária local do que aos enfadonhos monumentos históricos."Se eu pudesse encontrar em qualquer viagem pela Itália uma receita para fazer queijo parmesão, isso me traria mais satisfação do que uma transcrição de qualquer inscrição a partir de qualquer pedra antiga que fosse", escreveu. Quando era embaixador, manteve uma adega particular na França, onde um funcionário contou exatamente 1.203 garrafas – mais de Bordeaux, menos de Burgundy - e várias garrafas de espumantes brancos franceses.

Ben Franklin apreciava o anonimato da viagem – no sentido de que, dessa maneira, um homem ou uma mulher poderiam se libertar das obrigações culturais, desfrutando da liberdade de um outsider. Em 1776, após a América ter sido declarada independente da Grã-Bretanha, Benjamin Franklin foi enviado a Paris como "ministro da França". Viveu na Europa nos oito anos seguintes, forjando tratados importantes, levantando dinheiro para os recém-nascidos Estados Unidos da América, e fazendo o trabalho mundano de um embaixador (como a emissão de um passaporte para o grande explorador Capitão Cook, que precisava passar por um bloqueio armado de navios norte-americanos).

Como um americano novato no estrangeiro, Benjamin Franklin sentiu que era seu dever vender a América para o resto do mundo; falou do milho norte-americano que "encanta os olhos de qualquer viajante observador" e bancou inúmeros jantares onde as novas filosofias americanas eram discutidas. Em 04 de julho de 1778, Franklin comemorou o aniversário da Declaração da Independência convidando seu “frenemy” (amigo-inimigo) John Adams para jantar em sua casa francesa, juntamente com 50 amigos franceses. A mesa contava com abundantes bandeiras americanas. Franklin era famoso na França - muito famoso. Houve uma época em que medalhões e gravuras do busto de Franklin adornavam desde abóbadas sobre lareiras a caixas de rapé em Paris. Foi introduzido em vários clubes particulares e sociedades acadêmicas e convidado a testemunhar as grandes invenções daqueles dias.

Em 1783, Franklin viu o primeiro vôo de um balão de hidrogênio no Champ de Mars, em Paris. Pouco depois, chegaria a investir seu próprio dinheiro em um vôo de balão tripulado, e foi a primeira pessoa beneficiada com uma encomenda via-aérea quando o legalista americano John Jeffries transportou uma carta para ele através do Canal da Mancha a bordo de um balão. O conceito aeroviário deixou Franklin maravilhado e fez com que ele sonhasse com o seu balão privado, que o levaria de um lugar a outro poupando-lhe do cansaço nas pernas.


Com muita frequência, os políticos de hoje sentem a necessidade de exumar e abusar dos nossos pobres pais fundadores, a fim de promoverem suas próprias agendas políticas. Pregam o "patriotismo", esquecendo-se do amplo espectro de patriotas que vieram antes deles, com distintas vidas e opiniões. (Para que fique registrado, Benjamin Franklin foi o único pai fundador que assinou os quatro principais documentos comprovativos da Independência Americana: a Declaração da Independência, o Tratado de Paris, o Tratado de Aliança com a França, e a Constituição dos Estados Unidos. Além disso, John Adams detestava radicalmente Ben Franklin, por achá-lo demasiadamente admirável para ser admirado). Qualquer que seja a convicção política de uma pessoa, se formos confiar no exemplo de Benjamin Franklin, um valor é certo: um patriota é alguém que viaja e amplia sua mente através das viagens.

Sacou? Os verdadeiros patriotas são os que viajam (Real patriots travel, um ditado utilizado pelos norte-americanos que viajam ao exterior). Nada mais apropriado, então, de que seja de Benjamin Franklin, o pai fundador da nação americana que mais viajou, a face representada na nota de 100 dólares.


Quando Franklin finalmente deixou a França, viajou em uma liteira privada e com uma grande caravana suficiente para carregar todas as 128 peças da sua bagagem despachada. Também carregou, em algum lugar de sua bagagem de mão, o seu presente de despedida do rei Louis XVI - um "set" modesto de jóias contendo 408 diamantes.

Em seu diário, Franklin alegremente relata que naquela última viagem de volta à América, ele foi a única pessoa da embarcação a não enjoar.



(Citações retiradas de Autobiografia de Benjamin Franklin, 1791)


Leia o texto original clicando aqui.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dois jeitos de viajar, by Contardo Calligaris

.Adolfo Fava: Gondola nel canale. Venezia

Li hoje na Folha de São Paulo, no caderno Ilustrada, um texto do genial Contardo Calligaris que trata das distintas maneiras de se viver a experiência da viagem. É sempre um prazer abrir o jornal e dar de cara com textos bem escritos como esse, o do Contardo.

E se você gosta de Veneza, ou se sonha em um dia visitar a cidade, então a leitura lhe deixará ainda mais ansioso para realizar o desejo. Ou, se for o caso, de querer voltar. Certos lugares pedem um bis, certo? O legal dessa matéria é a relação de Contardo com os livros e a presença do lugar visitado. Toda viagem, seja lá longe ou aqui pertinho, ganha mais brilho quando se tem um foco definido, um objetivo especial a ser cumprido; explorar um lugar comparando as suas sensações com o olhar de um outro viajante, lendo in loco as experiências já quase esquecidas publicadas num passado distante (esquecidas para os outros, mas não para você) tem um sabor muito especial, algo como uma espécie de arqueologia sentimental.

Lembrei-me de um fato que há muito não me ocorria. Em minha primeira viagem a Ouro Preto, quando ainda curtia os dezessete anos, tive a sorte de fazer amizade com um grupo de estudantes de biblioteconomia da USP que havia decidido percorrer a cidade visitando todos os pontos turísticos presentes no pequeno e delicioso livro de Manuel Bandeira, “Guia de Ouro Preto”. Parávamos em frente a uma das inúmeras igrejinhas e fontes daquelas que encantam nosso olhar na bela cidade mineira e um do grupo lia a passagem no livro correspondente ao local. Pura nostalgia, uma lição e tanto para um adolescente se iniciando na arte de viajar.

Enfim, tudo isso só me faz refletir, uma vez mais, sobre as maravilhosas lições que podemos aprender quando nossos pés decidem trilhar as estradas desse mundão afora. Tem coisa melhor? Boa leitura e Namastê!


Renoir. Piazza San Marco

NO FIM da adolescência, eu não queria mais viajar com meu pai, pois gostávamos de viajar de jeitos diferentes. Eu entendia essa diferença pensando nos estilos opostos de George Byron e John Ruskin, dois grandes amantes de Veneza.Byron dedicou a Veneza o quarto canto de "Childe Harold's Pilgrimage" (a peregrinação do cadete Harold), cujos primeiros versos, "Parei em Veneza, sobre a Ponte dos Suspiros etc.", ainda são declamados por hordas de jovens românticos, quando olham para a dita ponte.

O curioso é que, em "Childe Harold", Veneza é apresentada como uma ruína solene e grandiosa. De fato, Byron não tinha interesse algum pela arquitetura e pelas artes. Ele gostava de acumular experiências e tolerava os monumentos apenas se eles fossem animados por uma boa história.

Lord Byron

Byron ficou em Veneza de 1816 a 1819, primeiro nas Frezzerie, no apartamento de um alfaiate de cuja mulher ele era o amante, logo, a partir de 1818, num palácio, onde acumulou bichos exóticos, carnavais e gonorreias. Mais próximo de sua real experiência veneziana, Byron escreveu "Beppo" (Nova Fronteira), que é um extraordinário e divertido poema narrativo.

Ruskin, 30 anos mais tarde, encontrou uma Veneza totalmente desertada pelos restos da festa do século 18. De qualquer forma, já por índole, Ruskin amava as pedras e as lia como livros, Byron amava a aventura e preferia ler os corpos.
John Ruskin
Todos nós, quando viajamos, somos um pouco Ruskin e um pouco Byron. Mas meu pai era mais Ruskin, e eu, mais Byron.Ora, acabo de voltar de Veneza e, no último dia, tive um encontro do qual Byron teria gostado (Ruskin também, só que menos).

Sou um leitor das aventuras de Corto Maltês, os quadrinhos de Hugo Pratt (em português, pela Pixel). No fim de "Favola di Venezia", Pratt, perdido num emaranhado de personagens e situações, declara que existem, em Veneza, "três lugares mágicos e escondidos: um está na calle do Amor dos Amigos; outro, perto da Ponte das Maravilhas; o terceiro, na calle dos Marranos, perto de San Geremia no Gueto".

Corto Maltese,Venezia

Quando os venezianos estão em apuros, eles procuram esses lugares secretos e, "abrindo as portas que estão no fundo dos pátios, vão-se embora para lugares lindíssimos e para outras histórias". Corto Maltês bate numa porta e diz: "Sou Corto Maltês, deixo esta história e peço para entrar numa outra, num outro lugar". Pronto, ele começa uma nova aventura.

Um propósito de minha estadia veneziana era de encontrar os três lugares. Deixando de lado a calle dos Marranos (que não consigo identificar), entrei em todos os pátios nos arredores da Ponte das Maravilhas e do Ramo do Amor dos Amigos. Mas como saber quais eram as portas mágicas?

O livro "La Guida di Corto Maltese alla Venezia Nascosta" (o guia de C. M. à Veneza escondida), de G. Fuga e L. Vianello (Rizzoli, existe também em inglês), é perfeito para passear por Veneza num estilo mais Byron que Ruskin. Mas a leitura não me ajudou a encontrar as portas.

Finalmente, na tarde de sábado passado, na livraria AcquaAlta, na Longa Santa Maria Formosa, conversei com um senhor de barba branca, que estava folheando uma aventura de Corto Maltês. Imaginei que ele pudesse ter sido um amigo de Pratt, dos anos 1970, companheiro das noites no restaurante Graspo de Uva.

O fato é que ele se lembrava da história dos três lugares de Veneza e, quando lhe perguntei se ele saberia indicar as famosas portas, ele me respondeu: "A mim me parece" (é assim que fala um veneziano) "que, se você as procura, é que você já as encontrou". E logo ele se foi.

Como interpretar essa frase a la Pascal? Entendi assim: se eu acreditava numa ficção a ponto de procurar os lugares que ela inventa, eu não precisava de mais nada para passar de uma história a outra. Pois o segredo é inventar.

Pensei que Ruskin teria gostado da ideia de procurar os lugares mencionados por Pratt, mas só Byron teria aberto as portas. Ele, aliás, não parava de abrir portas e fugir para novas histórias. Vai ver que, em Missolonghi, quando sumiu, aos 36 anos, combatendo pela independência da Grécia, ele não morreu, apenas abriu mais uma porta. E foi para outra.




O texto do Contardo Calligaris (fotografado bem à vontade no sofá da imagem aí acima) foi integralmente transcrito do blog do autor, sem tirar uma única vírgula. Sugiro aos leitores e às leitoras do Odepórica a darem uma navegada por ali. Há tanta coisa boa para se ler que você nem imagina. Para chegar lá rapidinho, clique aqui.

Encontrei um blog espetacular para quem ama Veneza. Em inglês, ótimos textos, belas imagens e longe do lugar-comum dos blogs de viagem. Interessa? Então clique bem aqui.