domingo, 29 de agosto de 2010

La Paz existe? By Osman Lins y Julieta de Godoy Ladeira

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Sabe aquela viagem, aquela em que nada dá certo, ou quase tudo sai errado, em que desgraça pouca é bobagem? Já passou por isso? Pois quem viaja muito certamente deve colecionar alguns episódios, senão uma viagem inteira em que nada do que havia sido previsto saiu da forma tal como imaginada ou sonhada.

O interessante é que quase sempre aqueles “programas de índio” acabam se tornando seus melhores relatos de viagem, aqueles que os amigos sempre pedem para você repetir numa roda de papo descontraído entre um chope e outro. A bem da verdade, ninguém está interessado naquela sua viagem interessantíssima a Manaus ou a qualquer capital de estado, muito menos nas suas impressões sobre determinado museu, estádio de futebol, ruína arqueológica de nome impronunciável, nem mesmo de seus mergulhos fantásticos nas águas claras das Antilhas ou de Fernando de Noronha. Todos fingimos interesse, essa é a verdade.

Em contrapartida, todo mundo quer saber daquele fora que você deu na casa de um parente que mora no exterior, do medo que sentiu ao se meter numa favela mexicana, das bizarrices que testemunhou no submundo de um inferninho qualquer de um país do leste europeu, da roubada em que se meteu quando achou que era tudo de bom passar um mês entre os habitantes de uma tribo no Pará, e por aí vai. Estou mentindo? Claro que não, exagerando um pouco, talvez.

Já li muitos relatos de viagem em que a narrativa ganha fôlego quando o viajante consegue descrever com emoção uma das etapas duras do caminho; quanto mais o fulano ou a fulana sofrem no percurso, mais a gente tem vontade de saber como se dará o desfecho, via de regra torcendo para que tudo termine bem. Essa atração que temos em ler ou ouvir a respeito dos perigos e percalços de uma viagem alheia não é masoquismo nem sadismo, mas um sentimento de empatia que tem origem em camadas profundas do nosso inconsciente.

Rites of passage. By Pauline Murray

De um modo geral, toda viagem possui uma dinâmica básica que obedece às estruturas de um rito de passagem: a partida, o período limiar e a chegada. Na partida percebe-se o momento da separação, quando aquele que viaja abandona temporariamente seu lar, sua família e tudo o que faz parte de sua vida cotidiana; o período limiar, ou a liminaridade, é aquele em que a viagem de fato acontece, a fase intermediária entre a partida e a volta ao lar; finalmente, temos a chegada, o período de agregação, quando aquele que partiu volta transformado após a experiência vivida na liminaridade. A viagem, portanto, é uma facilitadora desse processo de transformação.

É claro que nem toda viagem se enquadra nesse esquema, proposto de maneira singular por Victor Turner, um antropólogo muito bacana que publicou um estudo fantástico sobre o tema, O processo ritual, infelizmente fora de catálogo e difícil de achar em sebos. Se antropologia é sua praia, essa obra é um must.

Quando falamos de ritos de passagem, ou ritos de transformação, podemos relacionar o processo à ideia da jornada do herói, tema magistralmente abordado pelo mitólogo norte-americano mais extraordinário de todos os tempos, o Joseph Campbell, autor que deveria ser lido e estudado em todas as escolas desde os primeiros anos da adolescência.

O herói, (sempre alguém que viaja!), parte em busca de um tesouro e tem como objetivo principal o de estabelecer a ordem (simbolicamente, a ordem interior – seus conflitos, e a exterior, que ocorre geralmente como conseqüência); durante a jornada, muitas dificuldades irão aparecer, dragões simbólicos que devem ser enfrentados para que o ciclo se complete. Vencendo os dragões, o herói volta ao lar fortalecido e transformado, daí a ideia de que aquele que parte nunca é o mesmo que retorna.
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Isso tudo explica, ou tenta explicar, o porquê de nossa atração pelas narrativas de viagem cheias de situações de risco e de obstáculos a serem superados; inconscientemente, colocamo-nos no lugar do herói ou da heroína e torcemos para que consigam enfrentar e vencer os dragões que vez ou outra surgem pelos caminhos vida afora. Uma delícia poder sacar essas metáforas...

Em La Paz existe?, pequeno e divertido relato de viagem escrito a quatro mãos por Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira temos um exemplo clássico de uma viagem que saiu totalmente do controle, apesar de toda a programação antecipada do casal junto a um agente de turismo.

O título do livro, um trocadilho genial, entrega o destino: La Paz, Bolívia. A história, um arraso, literal e metaforicamente falando: um casal de escritores decide visitar a capital da Bolívia, La Paz, depois de uma rápida excursão cheia de contratempos ao Peru. Corria o ano de 1977, de modo que você já pode ir imaginando o que deveria ser uma viagem, de ônibus, há mais de trinta anos, pelas estradas montanhosas de países pobres como o Peru e a Bolívia.

Excursão paga, saem da cidade de Cuzco em direção a La Paz:


“Tínhamos pago, em Cuzco, uma excursão através do lago Titicaca, coordenada com transporte terrestre e assistência até La Paz, incluindo condução para o hotel. Mas para que tudo desse certo era preciso estar no embarcadouro, em Juli, antes das nove e meia, quando saía o hydrofoil.”

Tudo teria corrido bem se (sempre há um “se”) de fato o casal conseguisse chegar a tempo de embarcar no hydrofoil (sabe-se lá o que é isso!), a embarcação que faria a travessia do sagrado Lago Titicaca.

Daí que surge a surpresa dessa narrativa, ora contada por Osman, ora por sua mulher, Jul, cujas reflexões vão pontuando oportunamente o texto, num ying/yang literário cheio de frescor. A viagem, enfim, acontece num outro plano de ação, onde o turismo empacotado dá lugar a uma aventura quase agoniante; o casal de escritores, como que querendo exorcizar a malfadada viagem, surpreende seus leitores com uma narrativa anti-viagem, retratando um episódio que de certa maneira não passaria de uma banalidade, o que só não acontece porque ambos dominam muito bem a arte da escrita. São de Jul as palavras transcritas abaixo, que bem servem como amostra:

Família de qarwas. By Roberto Mamani

“Volto o rosto. Não quero que se saiba até que ponto minha resistência cede. A resistência, como um balão, pode ir sendo mantida com sopros até certo ponto. Nunca se sabe qual. Recordo um filme onde o encontro desse ponto obsedava um homem até a loucura. A fraqueza tem escalas, oscilações. O ponto extremo flutua. O barco se aproxima do pontão.”

O primeiro entrave na viagem acontece quando chegam ao povoado de Puno e descobrem que deveriam haver obtido, em escala anterior, um visto para poderem atravessar o lago. Sem o visto, nada feito. O jeito era voltar todo o caminho outrora percorrido com muito desconforto. Jul não se conforma em recuar, e afinal de contas, qual viajante não se sente extremamente frustrado em ter que refazer, por conta de alguma adversidade, um trecho não prazeroso de uma etapa de viagem?

“O que vejo, à minha frente, são estradas de ir. Não sei se existirão, mas cada instante aqui parece-me perdido, temos que ir, o dia avança, devemos avançar com ele. Para mim, todo caminho de volta é como se tivesse deixado de existir.”

A solução aparece de maneira incerta numa viagem de táxi a Desaguadero, rumo à fronteira. O dinheiro, assim como o tempo de que dispõem para as formalidades burocráticas, é bastante curto. Ainda assim, sobram momentos para reflexões, e algumas cenas, percebidas da janela de um velho automóvel, ajudam a dar um pouco de cor à narrativa. São de Osman as palavras que se seguem:

“Mal saíramos, vimos um grupo de índios, mulheres e homens, que dançavam ao ar livre. Chegava à estrada o som dos instrumentos, flautas, pandeiros, tambores, um som campestre, fresco, antigo, os dançarinos erguiam pernas e braços, batiam com os pés, saltavam, meneavam o corpo, todos de roupas novas, o chão de barro e as paredes de adobe realçavam o colorido das vestes, todos agitavam borlas e bastões de cor, as saias enfunavam-se, fitas ondulavam no ar, era uma cena virgem e que evocava – nas cores, no movimento, na força – as que vemos em certos quadros de Bruegel, como a Dança de Camponeses ou a Dança Nupcial.”

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The wedding dance. By Pieter Bruegel

“O que agora recordo aconteceu a seguir? Antes? Mais tarde? Acreditei ver nuvens muito altas, sobrepostas, de formas singulares. Logo supus que me enganava e que as nuvens, de fato, eram uma alta montanha. Enganava-me ainda: eu via o Titicaca, que, de certo nível e por um efeito ótico, uma insólita incidência da luz, parecia, dada a sua extensão, erguer-se, voar sobre si mesmo. A visão do lago, aliás, naquela rota que em grande parte o contornava, mudava a cada instante, de modo que qualquer descrição, aqui, estaria sempre muito aquém da verdade. Posso dizer apenas que eram visões grandiosas, nas quais a superfície lacustre e cumes elevados trespassavam-se; e que, apesar da grandeza, essas visões confrangiam pela ausência de vida e movimento: o que se movia era a paisagem mesma.”

Lake Titicaca. By Martin Gray

O interessante nessa narrativa é que a viagem, tal como deveria ter acontecido, não se realiza; por conta dos contratempos, do tempo curto de que dispunham para visitar os locais agendados na excursão, da falta de dinheiro, nada mais importava a não ser chegar ao destino final da jornada, a capital La Paz.

Ainda assim, com a habilidade de quem sabe observar e narrar os acontecimentos que se sucedem, Osman consegue a proeza de transmitir com muita clareza e senso crítico a realidade de uma gente sofrida, que em muito se assemelha à nossa, visto na obra pelas comparações que faz entre o povo andino e o brasileiro. Numa dessas passagens, porém, o autor comenta que das inevitáveis diferenças existentes entre os dois, não chegou a presenciar, em nenhum momento, gente pedindo esmolas, como se por lá não existisse o triste e comum hábito da mendicância tão presente na cultura brasileira.

Tanto Osman quanto Jul percebem no povo andino uma dignidade ímpar, proporcional talvez à sofrida realidade de sua vida; as mulheres nunca pedem dinheiro ou qualquer tipo de ajuda nesse sentindo, embora oportunamente insistam para que os turistas lhes comprem seu artesanato típico, única maneira de arrumar algum capital para obter aquilo que não conseguem produzir.
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Bolivian woman. By Clarke Spin

“Desço o vidro do carro. Ar de chuva, cheiro de lama. E elas passando, centenas, com seu andar lento e certo. As índias: bonitas, em geral com boa pele, aspecto saudável. Nada do raquitismo, do corpo judiado, do rosto prematuramente gasto do brasileiro pobre. Nenhum defeito físico, nenhuma face cavada, nenhum olhar de fome. Imagino que todo o dinheiro ganho seja para a comida. Mas ainda assim. Como conseguirão? Não se deve pensar em termos de todo o dinheiro, mas do pouco dinheiro, entre nós sempre insuficiente para a manutenção, para a preservação de um mínimo de saúde. Tipo de alimentação mais forte? É possível.”

Woman of La Paz. By Clarke Spin

“Parecem distante e salvas (até quando?) da febre consumista. A moda não afeta nem altera suas roupas. Pouco se distingue do corpo de cada uma. As pernas, hastes frágeis, surgem de muitas saias como de um grande e crespo repolho. Essas pernas curtas e finas não combinam com o rosto nem com a imponência do corpo – mas dão caráter à figura, um traço de Goya quebrando todo o equilíbrio do que seria quase um Da Vinci. Os rostos ovalados. Todos.”
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Boliviana mucho lôca

E assim vai transcorrendo a viagem que parece nunca terminar. Nos dois últimos capítulos dessa breve narrativa, o casal passa apuros numa longa jornada de ônibus, que em determinado momento, após sucessivas travessias perigosas pelos Andes, resolve não mais prosseguir: acabara o combustível. A esperança de chegar a La Paz ainda naquela noite já estava quase perdida até que um outro carro aparece para salvá-los do pesadelo. Algumas horas depois, chegavam ao final da viagem. Depois do banho tomado e da fome saciada, Osman, já estirado na cama do hotel diz a Jul que assim que chegar a casa irá escrever um relato sobre a viagem dos dois.

“Eu pensei ainda que afinal havíamos chegado, que estávamos na cidade, uma cidade para nós desconhecida, cujo nome expressava o que o homem sempre busca e nunca, nunca chega a conquistar: La Paz.”

Salt Lake. Uyuni. Bolívia


Leia: La Paz existe?. Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira. 116 págs. Editora Summus, 1977. Está fora de catálogo, mas no site da Estante Virtual há vários exemplares disponíveis.

Mais de Osman Lins? Postei aqui no blog um outro relato de viagem desse maravilhoso autor pernambucano. Para ir direto ao outro post, clique bem aqui.

Mais sobre Bolívia? Vale visitar o blog http://brokeinbolivia.blogspot.com/ - é de lá a linda foto do Salt Lake aí de cima.





quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Leitura Essencial: A arte de viajar, by Alain de Botton

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Rooms by the sea. 1955
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Dos livros já publicados, entre aqueles que contemplam a viagem como um processo de transformação interior, A arte de viajar, escrito pelo filósofo inglês Alain de Botton, figura entre os mais instigantes e inovadores dos últimos anos.

Leitura aprazível, oferece insights memoráveis que o ajudarão a repensar até as pequenas atitudes vividas no dia a dia rotineiro pelas quais todos passamos. Não que isso fará muita diferença em sua vida, mas serve bem para fazê-lo notar que momentos simples, atitudes corriqueiras que acontecem a todo instante, quando bem observados, podem dar um significado especial à sua própria existência.

E o que isso tem a ver com as viagens? Bom, te respondo aquilo que já comentei em outras oportunidades aqui no blog, que é o fato de estarmos mais abertos ao novo quando nos desligamos, ainda que momentaneamente, da rotina da vida cotidiana, quando muitas vezes agimos ligando nosso piloto automático assim que saímos da cama.

Muito do que de Botton escreveu nessa obra irá tratar da maneira como o viajante interage com o seu entorno enquanto se desloca, mas um olhar mais apurado saberá interpretar esse deslocamento como um processo natural da própria existência, retomando a velha, embora sempre adequada, noção da viagem como metáfora da vida.

Talvez, ao examinar o que nos inspira a sair de casa e por os pés na estrada, o autor tenha buscado uma resposta que explique a tese de que nossas vidas são dominadas pela busca de um sentimento de felicidade; à viagem cabe o mérito de facilitar esse processo, porque talvez seja essa uma das poucas experiências capazes de aproximar alguém desse estado ilusório de felicidade, por conta do afastamento da vida ordinária.

A arte de viajar é uma obra que reúne 9 ensaios em 5 temas principais: Partida, Motivos, Paisagens, Arte e Retorno. De Botton une a filosofia com a arte e a literatura juntamente com anedotas de suas próprias deambulações pelo planeta. O resultado dessa mistura certamente vai lhe agradar se você gostar de uma leitura inteligente, escrita por um homem culto e bem humorado, pois é essa a imagem que se tem do Alain de Botton. Há um equilíbrio saudável na sua escrita, que é o de tratar a filosofia como algo acessível a qualquer um, mas sem parecer didático ou superficial demais.

Ao examinar os nossos motivos para viajar e as nossas expectativas em relação ao desconhecido, de Botton vem acompanhado com uma trupe das boas para ajudar a construir seus ensaios, de poetas e pintores a exploradores e naturalistas, de tudo um pouco: Baudelaire, Edward Hopper, Gustave Flaubert, Alexander von Humboldt, van Gogh, só para citar alguns.

Para esse post, optei por transcrever trechos de um capítulo que o Alain de Botton escreveu num momento de muita inspiração, “Dos locais dedicados aos viajantes”. Os companheiros dele nessa jornada foram o poeta francês Charles Baudelaire (que, para T.S. Eliot, foi o primeiro artista do século XIX a dar expressão à beleza dos lugares e máquinas da viagem moderna, “um novo tipo de nostalgia romântica”) e o pintor norte-americano Edward Hopper (1882-1967), cujas telas me fascinaram desde que as vi, pela primeira vez, numa visita ao Instituto de Arte de Chicago, há alguns anos (e que você irá apreciar em meio à leitura desse post, todas elas obras de Hopper ).

Achei que de Botton foi muito feliz ao usar a arte de Hopper para divagar sobre os lugares que ele acredita são dedicados aos viajantes, em particular aos que seguem suas jornadas de maneira solitária. Repare como a arte desse genial pintor norte-americano toca fundo na sensibilidade do observador. Sua obra, como um todo, dialoga profundamente com a questão da solidão, mas de uma maneira tão poética - e por vezes sutil, que faz com que nos esqueçamos de seus aspectos mais aflitivos; a solidão, quando não imposta, é uma experiência que enriquece a vida.

Enfim, deixo-o (a) com a leitura encantadora dessa obra a que sempre irei buscar inspiração quando dela precisar. Tenho convicção que irá lhe agradar também. Namastê!



(Excertos do Cap. II: Dos lugares dedicados aos viajantes)

Nighthawk. 1942

Além da auto-estrada, não havia mais nenhuma rodovia que ligasse o posto de combustível a outros lugares, nem mesmo uma trilha para pedestres. Ela parecia não pertencer nem à cidade nem ao campo mas, sim, a alguma terceira esfera, como um farol à beira do oceano.

Esse isolamento geográfico reforçava a atmosfera de solidão no restaurante do posto. A luz era impiedosa, realçando a palidez e imperfeições da pele. As cadeiras e bancos, pintados de cores de uma vivacidade infantil, tinham a alegria forçada de um sorriso amarelo. Ninguém falava; ninguém admitia sentir curiosidade ou simpatia. Passávamos nosso olhar vazio, indiferente aos outros, até o balcão de servir ou até a escuridão lá fora. Poderíamos estar sentados em meio a rochas.

Fiquei num canto, comendo palitos de chocolate e tomando eventuais golinhos de suco de laranja. Estava me sentindo só mas, pelo menos dessa vez, era uma solidão de um tipo delicado, até mesmo agradável porque, em vez de se desenrolar diante de um cenário de risos e camaradagem, no qual eu sofreria com o contraste entre meu estado de humor e o ambiente, ela estava ocorrendo num local em que todos eram desconhecidos, em que as dificuldades de comunicação e o anseio frustrado por amor parecem ser reconhecidos e brutalmente celebrados pela arquitetura e pela iluminação.

Hotel Room. 1931

A solidão coletiva trouxe-me à lembrança certas telas de Edward Hopper que, apesar da desolação retratada, não eram elas mesmas de aparência desolada. Pelo contrário, permitiam ao observador presenciar um eco de sua própria dor e, com isso, sentir-se menos perseguido e assolado por ela em termos pessoais. Talvez sejam os livros tristes, que mais nos consolem quando estamos tristes; e talvez seja para os solitários postos de combustível que nos devamos dirigir quando não houver ninguém para abraçar ou amar.

Em 1906, aos vinte e quatro anos de idade, Hopper foi a Paris e descobriu a poesia de Baudelaire, cuja obra haveria de ler e recitar pelo resto da vida. Não é difícil entender a atração: havia um interesse comum pela solidão, pela vida urbana, pela modernidade, pelo alívio proporcionado pela noite e pelos lugares dedicados ao viajante. Em 1925, Hopper comprou seu primeiro carro, um Dodge de segunda mão, e saiu de casa em Nova York para ir até o Novo México. Daí em diante, passou alguns meses na estrada a cada ano, fazendo esboços e pintando no caminho, em quartos de hotéis de beira de estrada, no banco traseiro de automóveis, ao ar livre e em lanchonetes.

Self-portrait, Edward Hopper. 1903-1906

Entre 1941 e 1955, ele cruzou os Estados Unidos cinco vezes. Hospedava-se em hotéis de beira de estrada da Best Western, Del Haven Cabins, Álamo Plaza Courts e Blue Top Lodges. Era atraído pelos letreiros em néon que piscam “Quartos, TV, Banho” da beira da estrada, pelas camas com seus colchões finos e lençóis engomados, pelas janelas amplas que dão para estacionamentos ou para pequenos trechos de gramados bem tratado, pelo mistério dos hóspedes que chegam tarde e partem ao amanhecer, pelos folhetos com as atrações locais na recepção e pelos carrinhos das arrumadeiras estacionados em corredores silenciosos.

Para suas refeições, Hopper costumava parar em lanchonetes, em Hot Shoppe Mighty Mo Drive-Ins, Steak ‘N’ Shakes ou Dog ‘N’ Sudds – e abastecia o carro em postos com os logos da Móbil, Standard Oil, Gulf e Blue Sunoco.

Compartment C, Car 293. 1938

E nessas paisagens esquecidas, geralmente desprezadas, Hopper encontrava poesia: a póesie des motels, a póesie des petits restaurants au bord d’ une route. Seus quadros (e seus títulos repetitivos) sugerem um interesse constante em cinco tipos diferentes de lugares dedicados ao viajante: hotéis, estradas e postos de combustível, lanchonetes e restaurantes de auto-serviço, vistas de trens, vistas do interior de trens e de equipamento rodante.

A solidão é o tema dominante. As figuras de Hopper parecem estar longe de casa. Estão sentadas ou em pé, sozinhas, olhando para uma carta na beira de uma cama de hotel ou bebendo num bar; com o olhar perdido na janela de um trem em movimento ou lendo um livro num saguão de hotel. Suas expressões são vulneráveis e introspectivas. Talvez tenham acabado de deixar alguém ou talvez tenham sido abandonadas. Estão à procura de trabalho, sexo ou companhia, à deriva em locais transitórios. Com frequência é noite, e de outro lado da janela estão a escuridão e a ameaça dos grandes espaços abertos ou de uma cidade desconhecida.

Automat. 1927

Em Automat (1927), uma mulher está sentada sozinha tomando uma xícara de café. É tarde e, a julgar pelo chapéu e pelo casaco, faz frio lá fora. O salão parece amplo, bem iluminado e vazio. A decoração é funcional, com uma mesa com tampo de pedra, cadeiras pretas de madeira e paredes brancas. A mulher parece constrangida e ligeiramente receosa, pouco acostumada a ficar sentada sozinha num local público. Parece que algo deu errado. Involuntariamente ela convida o observador a imaginar histórias para ela, histórias de traição ou perda. Ela está tentando não deixar a mão tremer ao levar a xícara de café à boca. Podem ser onze da noite, em fevereiro, numa grande cidade da América do Norte.


Automat é um quadro de tristeza – e no entanto não é um quadro triste. Ele tem o vigor de uma admirável peça musical melancólica. Apesar da aridez da mobília, o local em si não parece desolado. Outras pessoas no salão podem também estar sozinhas, homens e mulheres tomando café sem companhia, ensimesmados da mesma forma, da mesma forma distanciados da sociedade: um isolamento comum com o efeito benéfico de reduzir a opressiva sensação no íntimo de cada pessoa de que somente ela estaria só. Em lanchonetes de beira de estrada, em restaurantes de auto-serviço, tarde da noite, em saguões de hotel e bares de estação, podemos diluir a sensação de estar isolados num local público solitário e com isso redescobrir uma nítida noção de comunidade.

A inexistência do calor doméstico, as luzes fortes e a mobília anônima podem acabar sendo um alívio em relação ao que costuma constituir os falsos confortos do lar. Pode ser mais fácil entregar-se à tristeza aqui do que numa sala de estar com papel de parede e fotos em molduras, a decoração de um refúgio que nos decepcionou.

Hopper convida-nos a sentir empatia pela mulher em seu isolamento. Ela parece digna e generosa, só talvez um pouco confiante demais, um pouco ingênua – como se tivesse inesperadamente se defrontando com uma situação difícil no mundo. Hopper alicia-nos para o lado dela, o lado do desconhecido em contraste com os conhecidos. As figuras na arte de Hopper não são adversárias do lar per se. Trata-se simplesmente de que, sob uma variedade de aspectos indefinidos, parece que o lar as teria traído, forçando-as a sair pela noite adentro ou a por o pé na estrada. A lanchonete aberta vinte e quatro horas, a sala de espera da estação e o hotel de beira de estrada são refúgios para aqueles a quem Baudelaire poderia ter conferido a distinção de chamar de “poetas”.


Railroad Sunset. 1929

Enquanto o carro segue por uma estrada sinuosa através de bosques ao entardecer, seus faróis fortes iluminam momentaneamente trechos inteiros de prado e de troncos de árvores, e de forma tão intensa que a textura da casca de árvores e os talos separados de capim podem ser discernidos numa luz branca, mais adequada numa enfermaria de hospital que numa região de bosques, e então os mergulham de volta na obscuridade indiscriminada, quando o carro faz uma curva e os faróis voltam sua atenção para outro trecho de terreno sonolento.

Há poucos outros automóveis na estrada, só um ocasional par de luzes que se movem no sentido contrário, afastando-se da noite. O painel de instrumentos do carro lança um fulgor arroxeado sobre a escuridão interior. De repente, numa clareira mais adiante, aparece um espaço iluminado: um posto de gasolina, o último antes que a estrada avance por seu trecho mais longo e mais denso de florestas, e a noite acabe de encobrir a terra – Gasolina (1940).


Gas. 1940

O encarregado saiu de seu posto para verificar o nível de uma bomba. Faz calor lá dentro, e uma luz brilhante como a do sol do meio-dia se espalha pelo pátio da frente. Um rádio pode estar tocando. Pode haver latas de óleo arrumadas com perfeição numa parede, além de doces, revistas, mapas e flanelas.

Como Automat, pintada treze anos antes, Gasolina é um quadro sobre o isolamento. Um posto de gasolina sozinho na escuridão iminente. Nas mãos de Hopper, no entanto, o isolamento mais uma vez torna-se pungente e sedutor. A escuridão que se espalha como um nevoeiro a partir da direita da tela, um arauto do medo, contrasta com a segurança do posto. Com o pano de fundo da noite e de bosques ermos, nesse último posto avançado da humanidade, pode ser mais fácil surgir uma sensação de afinidade que nos locais iluminados da cidade. A máquina de café e as revistas, símbolos de pequenos desejos e vaidade humanas, opõem-se ao vasto mundo não-humano lá fora, aos quilômetros de florestas nos quais galhos estalam de vez em quando, pisados por ursos e raposas. Há algo de comovente na sugestão – feita num cor-de-rosa gritante na capa de uma revista – de que pintemos as unhas de roxo nesse verão, bem como no apelo acima da máquina de café para que provemos o aroma do café recém-torrado. Nessa última parada, antes que a estrada penetre na floresta interminável, é o que temos em comum com os outros que se avulta mais do que o que nos separa.


As viagens são parteiras do pensamento. Poucos locais são mais propícios a conversas do que um avião, um navio ou um trem em movimento. Há uma correlação quase estranha entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que nos podem ocorrer: grandes pensamentos à s vezes exigem grandes panoramas, novos pensamentos, novos lugares. Reflexões introspectivas que têm a propensão a bloquear-se recebem ajuda para prosseguir, com a passagem ininterrupta da paisagem. A mente pode relutar em pensar direito, quando pensar é tudo o que é preciso que faça. A tarefa pode ser tão paralisante como ter de contar uma piada ou imitar um sotaque a pedidos.

Morning Sun. 1952

O pensamento melhora quando se atribuem outras tarefas a partes da mente; quando elas são encarregadas de ouvir música ou de acompanhar uma fileira de árvores. A música, ou a paisagem, distrai por um tempo aquele setor nervoso, crítico e prático da mente que tem uma tendência a se trancar, quando percebe que algo difícil está vindo à tona na consciência, e que foge apavorado de lembranças, anseios, idéias introspectivas ou originais, preferindo, em vez disso, o aspecto administrativo e impessoal.

De todos os meios de transporte, talvez o trem seja o que mais auxilia o pensamento. As paisagens não têm sinal da monotonia em potencial das paisagens de navios ou aviões. Passam com rapidez suficiente para que não nos exasperemos, mas com a lentidão necessária para que identifiquemos objetos. Elas nos oferecem vislumbres breves e inspiradores de propriedades particulares, permitindo que vejamos uma mulher no exato momento em que tira uma xícara de uma prateleira na cozinha, para então nos levar a um pátio, em que um homem está dormindo, e em seguida a um parque, onde uma criança está apanhando uma bola jogada por alguém que não conseguimos ver.

Numa viagem por terreno plano, penso com uma rara falta de inibição na morte de meu pai, num ensaio que estou escrevendo sobre Stendhal e numa falta de confiança que surgiu entre dois amigos. Cada vez que minha cabeça se esvazia, tendo atingido uma ideia difícil, o fluxo de minha consciência é auxiliado pela possibilidade de olhar pela janela, agarrando-se a um objeto e o acompanhando por alguns segundos, até que uma nova espiral de pensamento esteja pronta para se formar e possa desenrolar sem pressões.

A fim de horas de devaneios num trem, podemos ter a sensação de termos sido devolvidos a nós mesmos – ou seja, trazidos de volta ao contato com emoções e idéias de importância para nós. Não é necessariamente em casa o melhor lugar para encontrar nosso verdadeiro eu. A mobília insiste em que não podemos mudar porque ela não muda; o cenário doméstico mantém-nos atrelados à pessoa que somos na vida comum, mas que pode não ser quem somos na essência.

Leia: A arte de viajar. Alain de Botton. Ed. Rocco, 2003.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Passeio em Minas

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Não resisto e mais uma vez trago para cá um artigo de jornal fresquinho, que saiu hoje na Folha de São Paulo. Vem da coluna semanal da Nina Horta, que escreve com muita competência sobre gastronomia.

O artigo que você vai ler trata disso sim, de gastronomia, mas a inspiração de quem escreve, que não é a Nina mas um leitor assíduo dela, vem de uma viagem pelas Minas Gerais. Eu que amo Minas e que vez ou outra me arrisco na cozinha, me amarrei nesse texto, creditado a Luiz Paulo Portugal. E o cara escreve realmente bem, você quase pode sentir aquele aroma gostoso de couve refogadinha na manteiga com alho e torresminho...nham nham nham!

É por isso que eu considero a literatura odepórica tão bacana: até mesmo as artes da culinária lhe servem como objeto de referência. Afinal, vale tudo na hora de colocar no papel as impressões da vida colhidas durante uma viagem, ocasião em que nossos sentidos estão ligeiramente mais apurados.

Enfim, sem mais milongas, vamos ao que interessa, que está quase na hora da janta e esse papo todo me abriu um apetite danado. Namastê!



Foto: Elderth Theza


Passeio em Minas

Não estou de preguiça, só resolvi mostrar mais uma carta de leitor. Esse já frequenta a coluna há um bom tempo e, pasmem, só o conheci na semana passada, assim, de relance. Escreve do jeito que eu gosto. É o Luiz Paulo Portugal.

"Cheguei ontem de Minas, com queijos, mudas, presentinho de tia, azia, no porta-malas um bololô de traquitanas. Passamos por Tiradentes para almoçar com um sol castigando a turistada fora do peso nas ruas intransitáveis de carrões e com o cheiro de refogado gritando pelas portas de bibocas que vendem "comida típica ensebada mineira" aos incautos.


As estradas que levaram e que nos tiraram de Tiradentes, essas sim, uma lindeza. Fazendolas, matinhas, picos pedregosos, murundus, gaviões e aqueles piares de passarinhos que, mesmo com o carro em movimento, penetram fundo nos miolos. Uns cheiros repentinos que desalojam memórias enterradas, um milharal adolescente com o feijão começando a subir, brejos, traíras.


Conhecemos até Lagoa Dourada, a capital mundial dos rocamboles horríveis vendidos por toda parte como secções de um imenso intestino entupido de doce de leite. Parece que a moda é viajar e trazer um rocambole-terror, como alardeia toda parada ao longo das estradas de Minas. Pão de queijo com linguiça, darling? So last season...


Em Belo Horizonte não escapo de mim, ruminante memorioso. Mãe bem de saúde, com aqueles queixumes genéticos de mineiro, inofensivos, industriosa e contadora de causos: - Sabe "Lizpaulo", Celina (a empregada ) agora deu para arrumar cozinha de luz apagada porque diz que luz fluorescente faz cair cabelo e vai arear panela até gastar do lado de fora no tanque, que fica tudo com cheiro de ovo, alho nos panos, uma coisa. Gasta uma lata de soda cáustica por semana, tá "imanicada" por limpeza e eu dou com a canela no frizi na escuridão que tô toda roxa e eu desbaratei um ninho de quenquém que comeu meu jasmim em uma noite, ponho remédio e nada (note a indistinção entre remédio e veneno), e Petrina (ex-nossa babá) trouxe uma farinha de macaco (milho torrado moído e frito, parecido com o "pinole" mexicano) muito boa de Ponte Nova, mas não posso, a vesícula, o quibe da Lourdinha (tia) na festinha de Marininha (sobrinha) nem comi, tava com cheiro de boca de cachorro, sabe? Assim, não refogou o recheio, uma carne cor de pano de pó e a empadinha curuz! Galinheiro molhado. Blá, blá, blá...Assim pulando de assunto, sem cansar.



Foto: Henry Yu


E fui para o mercado-masmorra de BH que é uma coisa apertada, com umas gentes saídas de uma pintura de Bosch, nas sombras do labirinto de lojinhas minúsculas abarrotadas de tudo o quanto há. Tudo empilhado, numa mistura de cheiros danada. Galinhas, patos, pavões, pombos, passarinhos-vivos e engaiolados.


Muito queijo. Muito. Como agora a moda é o Canastra (90% beiço, logro), suei um pouco para achar um Serro supostamente legítimo para curar em casa, para fazermos o teste do pão de queijo. Minha intenção principal era trazer queijos e polvilhos de todos os tipos para testar as receitas da gougère tabajara e a eterna contenda entre a turma do polvilho doce, a turma do polvilho azedo e a turma peemedebista da mistura dos dois.


Encontrei o lendário polvilho (doce e azedo) de Bom Despacho e já podemos marcar uma conversa na copa entre beberagens estimulantes e pães de queijo axiomáticos." L.P.P


A foto da paisagem lá de cima não é mesmo linda? Foi tirada nas montanhas de Gonçalves, no sul de Minas, onde estive com meus amigos Joani y Andrea, no feriado de 09 de julho.

domingo, 1 de agosto de 2010

O Caminho do Xamã, by Michael Harner

. Peyote prayer. By Beatin Yazz aka: Jimmy Toddy, Navajo, s/d


Em minha recente viagem ao Canadá, onde fui visitar minha irmã que vive em Vancouver, tive o prazer de visitar o MOA, o Museu de Antropologia da Universidade da Colúmbia Britânica. Não tínhamos ideia da grande surpresa que nos aguardava: foi um dos programas mais interessantes de nossas férias, num mês de maio nublado e chuvoso, por isso mesmo bom para passeios indoor.

Se um dia você se encontrar em Vancouver não deixe de reservar uma tarde inteira para visitar o museu. Inteira mesmo, porque há muito o que se ver e fotografar (liberadíssimo). O acervo contempla peças, obras de arte, máscaras e indumentárias do mundo todo, com ênfase na arte nativa canadense, belíssima por sinal.

Bueno, mas não usarei este espaço para falar do MOA – para isso há a página do museu na internet,
www.moa.ubc.ca , mas de um tema que sempre me fascinou e o qual voltei a pesquisar depois da visita ao museu: o xamanismo.

Tenho algumas obras sobre xamanismo em casa e outro dia me deu vontade de reler A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda. Fui todo empenhado buscar o livro na prateleira e para minha tristeza não o encontrei (tenho o péssimo hábito de manter amigos que não devolvem livros emprestados!). Daí que fiquei com mais vontade ainda de reler essa obra clássica que mexeu com a cabecinha de muita moçada na época de seu lançamento, incluindo a minha. Fiquei tão alucinado com aquela história toda que quis me tornar um xamã antes mesmo de acabar a leitura da obra. Só desisti porque tenho verdadeiro pavor de répteis e se meu animal de poder fosse um sapo ou um jacaré eu estaria perdido de verdade.

Enfim, desisti da prática (nenhum esforço para quem vive em Sampa afinal) e me consolei com a teoria e com a arte, pois com o tempo montei uma pequena e boa coleção de música nativa e xamânica (não resisto: ouça qualquer trabalho do R. Carlos Nakai e corra o risco de “viajar” no primeiro sopro de flauta).

E como não achei por aqui o meu Castañeda, reli outros títulos com a mesma sintonia, um deles que novamente me encantou: O Caminho do Xamã, de Michael Harner. O resumo dessa pequena obra inspiradora copio da sobrecapa:

“O antropólogo Michael Harner leva-nos com este livro a viver uma odisséia pessoal até a fonte da cura xamânica, o nosso eu mais profundo. Passo a passo, ele ensina ao leitor técnicas e exercícios simples para alcançar os estados alterados de consciência sem drogas – o caminho do xamã para a integridade psicofísica e a cura. No xamanismo, antigo sistema pouco conhecido no Ocidente, está um auxiliar inestimável da medicina moderna, e um trabalho cativante de investigação psicológica e espiritual.”

Morning Vision. By Tennyson Eckiwaudah, Comanche. 1912.

A proposta de Michael Harner é muito interessante por conta, principalmente, de iniciar (nos pontos fundamentais da prática, como sugere o estudioso) a pessoa comum no mundo mágico do xamanismo sem o uso de substâncias alucinógenas, quase sempre presentes nos rituais xamânicos de qualquer cultura que seja. Por aqui, só para citar um exemplo, ficou comum o uso do Daime, bebida feita à base um cipó (ayahuasca) com propriedades alucinógenas, conhecido pelos índios há centenas de anos e que hoje é tomado por pessoas de diversas partes do país, incluindo centros urbanos como São Paulo, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro. Particularmente, nunca tive vontade de me aventurar no Daime (por temer os prováveis efeitos colaterais), mas conheci várias pessoas que embarcaram nessa e sempre ouvi relatos interessantíssimos de suas experiências. Quem sabe um dia.

Da obra de Harner, quero destacar uma passagem do Capítulo I, intitulado “A descoberta do Caminho”. Nela você irá ler a experiência de um homem, acadêmico, em sua primeira viagem xamânica (ocorrida no ano de 1961), uma viagem transcendental rica em simbolismos e contada com muito detalhe por alguém que sabia muito bem onde estava se metendo – mas que não poderia imaginar até onde essa iniciação o levaria.

Em tempo: me empolguei e não escrevi sobre o significado de xamã. Arrumo minha falha agora, com as palavras do próprio autor, Mr. Harner:

“Xamã é uma palavra da língua dos povos Tungus da Sibéria e foi adotada amplamente pelos antropólogos para se referirem a pessoas de uma grande variedade de culturas não-ocidentais, que antes eram conhecidas como ‘bruxo’, ‘feiticeiro’, ‘curandeiro’, ‘mago’, ‘mágico’ e ‘vidente’. (...) O xamã é um homem ou uma mulher que entra em estado alterado de consciência – quando quer – para ter contato com uma realidade habitualmente oculta, usando-a para adquirir conhecimento e poder e, com isso, ajudar outras pessoas. O xamã costuma ter, pelo menos, um – quase sempre mais de um – ‘espírito’ a seu serviço pessoa.”

Com essa introdução ao tema, já podemos encarar a leitura desse emocionante relato de ‘viagem’. Namastê!


A descoberta do caminho

Morning peyote. By Rance Hood, Comanche. 1969


Entre os Conibo e os Jivaro, tive duas experiências que foram fundamentais para que eu descobrisse a arte do xamã nessas duas culturas, e eu gostaria de partilhá-las com vocês. Talvez elas transmitam algo do incrível mundo oculto que é aberto ao explorador xamânico.

Vivi a maior parte do ano numa aldeia dos índios Conibo, ao lado de um lago afastado, à direita de um afluente do rio Ucayali. Minhas pesquisas antropológicas sobre a cultura dos Conibo tinham ido bem, mas as tentativas de obtenção de informações sobre a sua religião não tiveram sucesso. O povo era amistoso, mas relutante em falar no sobrenatural. Finalmente, disseram-me que se eu quisesse de fato aprender, devia beber da bebida sagrada dos xamãs, feita de ayahuasca, o “vinho da alma”. Concordei, com curiosidade, e também com certa apreensão, porque eles me avisaram que a experiência seria muito assustadora.

Na manhã seguinte, meu amigo Tomás, o bondoso chefe da aldeia, foi para a floresta a fim de cortar raízes de determinada planta. Antes de partir disse-me que jejuasse: um desjejum leve e nada de almoço. Voltou ao meio-dia com raízes de ayahuasca e folhas de cawa, suficientes para encher uma bacia de quinze galões. Cozinhou essas raízes e plantas durante toda a tarde, até que apenas um quarto de líquido escuro remanesceu. Esse líquido foi transferido para uma velha garrafa, e o chefe deixou que ele esfriasse até o pôr-do-sol quando, segundo ele, poderíamos beber.

Os índios puseram açamo nos cães da aldeia para que não latissem. O ruído dos cães poderia enlouquecer um homem que tivesse bebido a ayahuasca, foi o que me disseram. As crianças tiveram a recomendação de se manterem quietas, e o silêncio se fez sobre a pequena comunidade, com o pôr-do-sol.

Mother´s prayer. By Archie Blackowl, Cheyenne. 1965

Quando o breve crepúsculo equatoriano foi substituído pela escuridão, Tomás pôs um quarto do líquido numa cabaça e disse-me que bebesse. Todos os índios observavam. Senti-me como Sócrates entre os compatriotas atenienses, aceitando a cicuta – pois me ocorrera que um dos nomes alternativos que o povo do Amazonas peruano dava à ayahuasca era “a pequena morte”. Bebi a poção rapidamente. Tinha um sabor estranho, ligeiramente amargo. Então, esperei que Tomás também bebesse, mas ele disse que afinal resolvera não participar.

Amarraram-me na plataforma de bambu, sob o grande teto feito de colmo da casa comunal. A aldeia estava silenciosa, exceto pelo cricrilar dos grilos e os guinchos do macaco ruivo, nas profundezas da selva.

Enquanto olhava para cima, na escuridão, tênues linhas de luz apareceram. Tornaram-se mais nítidas, mais intricadas e explodiram em cores brilhantes. De muito longe vieram sons, como os de uma cascata, e foram se fazendo cada vez mais fortes, até encherem meus ouvidos.

Peyote Vision. By Doc Tate Nevaquaya, Comanche. 1973

Minutos antes eu me sentira desapontado, certo de que a ayahuasca não ia ter efeito sobre mim. Agora, o som da água em movimento inundava meu cérebro. Meu maxilar começou a ficar entorpecido, e aquele entorpecimento ia subindo para as têmporas.

Sobre a minha cabeça, as linhas indistintas formavam um dossel que se parecia um mosaico geométrico de vidro pintado. A brilhante tonalidade violeta formava um teto que se expandia sem cessar sobre mim. Dentro daquela caverna celestial, ouvi o som da água aumentar e pude ver figuras nebulosas, que faziam movimentos espectrais. Quando meus olhos se ajustaram ao escuro, a cena movimentada reduziu-se a algo que se assemelhava a um imenso parque de diversões, a uma orgia sobrenatural de demônios. Ao centro, presidindo as atividades, e olhando diretamente para mim, havia uma gigantesca cabeça de crocodilo mostrando os dentes, de cujas mandíbulas cavernosas jorrava uma enxurrada torrencial de água. Lentamente, a água foi subindo, até que a cena transformou-se em simples dualidade de céu azul sobre o mar. Todas as criaturas se haviam desvanecido.

Night of a Spiritual Vision. By Tennyson Eckiwaudah, Comanche. 1964

Então, da posição onde eu estava, próximo à superfície da água, comecei a ver dois barcos estranhos, vagando de cá para lá, flutuando no ar em minha direção e aproximando-se cada vez mais. Lentamente, juntaram-se, formando uma só embarcação, com imensa cabeça de dragão na proa, não muito diferente de um barco viking. No meio do navio erguia-se uma vela quadrada. Aos poucos, enquanto o barco serenamente flutuava de cá para lá sobre mim, ouvi um som rítmico sibilante e vi que se tratava de uma galera gigantesca, com centenas de remos, movendo-se em cadência com o som.

Tornei-me consciente, então, do mais belo cântico que tinha ouvido em minha vida, em alto som, e etéreo, emanando de miríades de vozes a bordo da galera. Olhando com mais atenção para o convés, pude distinguir grande número de seres com cabeça de gaio azul e corpo de homem, bastante parecidos com deuses do antigo Egito, com cabeça de pássaro, que eram pintados nas sepulturas. Ao mesmo tempo, uma essência de energia, advinda do navio, começou a flutuar em meu peito. Embora eu pensasse que era ateu, fiquei inteiramente certo de que estava morrendo, e de que aquelas cabeças de pássaro tinham vindo buscar a minha alma para leva-la ao barco. Enquanto o fluxo da alma continuava a sair do meu peito, percebi que as extremidades do meu corpo iam fazendo-se entorpecidas.

Começando pelos braços e pelas pernas, vagarosamente, tive a impressão de meu corpo estar se tornando de concreto. Eu não podia me mover, nem falar. Aos poucos, esse entorpecimento fechou-se sobre o meu peito, na direção do coração, e tentei usar a boca para pedir ajuda, para pedir um antídoto aos índios. Por mais que tentasse, entretanto, não conseguia dominar a minha força o bastante para pronunciar uma palavra. Simultaneamente, meu abdômen parecia se tornar de pedra, e tive de fazer um tremendo esforço para manter meu coração batendo.

Comecei a chamar meu coração de amigo, meu mais querido amigo, a falar com ele, a encorajá-lo a bater, com toda a força que ainda me restava.


Peyote Ceremony. by Fred Cleveland, Navajo, s/d

Fiz-me consciente do meu cérebro. Senti – fisicamente – que ele tinha sido dividido em quatro níveis distintos. Na superfície superior estava o observador, o comandante, consciente da condição do meu corpo e responsável pela tentativa de manter o coração funcionando. Percebi, mas apenas como espectador, a visão que emanava do que pareciam ser as partes mais profundas do cérebro. Imediatamente abaixo do nível mais alto, senti uma camada entorpecida, que parecia ter sido posta para fora de ação pela droga, e ali não estava. O nível seguinte era a fonte de minhas visões, inclusive a do barco da alma.

Agora, eu me sentia virtualmente certo de que estava para morrer. Enquanto tentava avaliar meu destino, uma parte ainda inferior do meu cérebro começou a transmitir mais visões e informações – “disseram-me” que esse novo material me estava sendo apresentado porque eu ia morrer e, portanto, estava “pronto” para receber aquelas revelações. Informaram-me que se tratava de segredos reservados aos agonizantes e aos mortos. Apenas vagamente, pude perceber os que me transmitiam esses pensamentos: répteis gigantes, repousando apaticamente na mais ínfima região da parte de trás do meu cérebro, no ponto onde ele encontra a parte superior da coluna espinhal. Eu só podia vê-los de forma nebulosa e, assim, pareciam-me profundezas sombrias, tenebrosas.

Depois, eles projetaram uma cena diante de mim. Primeiro, mostraram-me o planeta Terra tal como era há uma eternidade atrás, antes que nele houvesse vida. Vi o oceano, a terra nua e o brilhante céu azul. Então, flocos pretos caíram do céu, às centenas, e pousaram diante de mim, na paisagem nua. Pude ver que esses “flocos” eram, na verdade, grandes e brilhantes criaturas negras, com reforçadas asas que assemelhavam-se às dos pterodáctilos e imensos corpos como o da baleia. Suas cabeças não eram visíveis a mim. Tombaram pesadamente, mais do que exaustas pela viagem feita, que durara épocas infinitas. Explicaram-me, numa espécie de linguagem mental, que estavam fugindo de alguma coisa, no espaço. Tinham vindo ao planeta Terra a fim de escapar desse inimigo.



Peyote Dream. By Lee Monett Tsaloke, Kiowa, s/d


Essas criaturas mostraram-se, então, como haviam criado a vida sobre o planeta, com o intuito de se ocultarem sob diversas formas e assim disfarçar sua presença. Diante de mim, a magnificente criação e a especificação das plantas e dos animais – centenas de anos de atividade – foram feitas em tal escala, e com tamanha intensidade, que me é impossível descrever. Aprendi que essas criaturas semelhantes a dragões estavam, assim, dentro de todas as formas de vida, inclusive no homem. Eram elas os verdadeiros senhores da humanidade e de todo o planeta, foi o que me disseram. Nós, humanos, não passávamos de seus receptáculos e servos. Por isso é que podiam falar comigo de dentro de mim.

Surgindo a partir das profundezas da minha mente, essas revelações alternavam-se com as visões da galera flutuante que quase terminara por levar minha alma para bordo. O barco, com sua tripulação de cabeças de gaio azul no convés, ia aos poucos se afastando, puxando minha força de vida com ele, enquanto seguia em direção a um grande fiorde, flanqueado por algumas colinas erodidas e áridas. Eu sabia que tinha apenas um momento para viver e, estranhamente, não sentia medo daquele povo de cabeças de pássaro, não me importava ceder-lhe a minha alma, se a pudesse manter. Receava, entretanto, que de alguma forma a minha alma não pudesse se manter no plano horizontal do fiorde, mas, por meio de processos desconhecidos, embora sentidos e temidos, fosse capturada, ou recapturada pelos alienígenas das profundezas, com seu aspecto de dragões.


Peyote Chief. By Alfred Whiteman Jr., Cheyenne. 1969

Subitamente senti, de maneira clara, a minha condição de homem, o contraste entre a minha espécie e os antigos répteis ancestrais. Desatei a lutar contra a volta dos antigos, que começavam a parecer cada vez mais alienígenas, e que seriam, possivelmente, perversos. Voltei-me para o auxílio humano.

Com um último esforço, que não pode sequer ser imaginado, mal pude balbuciar uma palavra para os índios: “Remédio!”; vi que corriam para preparar o antídoto e senti que não conseguiriam prepará-lo a tempo. Eu precisava de um guardião que pudesse derrotar os dragões e, desesperadamente, procurei evocar um ser poderoso para proteger-me contra aqueles répteis alienígenas. Um deles apareceu diante de mim e, nesse momento, os índios abriram à força minha boca e nela derramaram o antídoto. Aos poucos, os dragões desapareceram, recuando para as profundezas. O barco das almas e o fiorde já não existiam. Eu, aliviado, relaxei.

Peyote People. By Jeff Yellowhair, Kiowa, s/d

O antídoto melhorou radicalmente o meu estado, mas não evitou que viessem novas visões, de natureza mais superficial. Com estas podíamos lidar, eram agradáveis. Fiz viagens fabulosas, à vontade, através de regiões distantes, mesmo para fora da Galáxia, criei arquiteturas incríveis, usei demônios de sorrisos sardônicos para realizar as minhas fantasias. Muitas vezes, dei comigo rindo alto, pelas incongruências das minhas aventuras. Finalmente, adormeci.


Se você quiser saber como essa viagem toda irá acabar, terá que ir atrás da fonte: O Caminho do Xamãum guia de poder e cura. Michael Harner. Editora Cultrix, 1989.

As pinturas destacadas nesse post foram todas elas retiradas de um site que recomendo de verdade, o do Native American Church Art.


Para saber mais sobre o xamanismo, indico um portal bacana em português: http://www.xamanismo.com.br/