sábado, 25 de setembro de 2010

Odepórica oracular: O Hexagrama 56, O viajante.

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Às vezes somos atraídos para um determinado tipo de leitura. Uma intuição nos leva a comprar ou tomar emprestada uma obra que, sem sabermos explicar de maneira racional, sabemos que irá nos afetar de uma maneira bastante peculiar. Geralmente são textos de cunho filosófico ou espiritual, ou até mesmo – e imagino que muito frequentemente nos dias de hoje – os títulos da pouco prestigiada literatura de auto-ajuda.

Em meu estudo sobre os relatos de viagem de peregrinos brasileiros no Caminho de Santiago, menciono um acontecimento relativamente comum entre alguns caminhantes, que vem a ser o uso oracular de um livro, quase sempre a Bíblia. Funciona assim: o consulente formula uma questão, mental ou oralmente, e abre o livro ao acaso, de modo que a página aberta trará a (s) resposta (as) à questão previamente formulada. Muitas vezes o resultado surpreende o consulente por conta da sincronicidade entre aquilo que se perguntou e a resposta encontrada na página aberta aleatoriamente.

É esse mais ou menos o princípio do I ching, ou O Livro das mutações, um texto muito antigo escrito no período anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C.); digo “mais ou menos” porque o I ching é muito mais do que um oráculo, ainda mais se formos compará-lo a outros oráculos conhecidos como o tarô ou as runas. Basta abrir uma boa edição que você logo percebe a diferença, já que trata-se igualmente de um complexo sistema filosófico. E aqui se nota uma dicotomia interessante: apesar de sua complexidade, o I ching é de uma simplicidade ímpar. Eu uso e indico com muita segurança a tradução do sinólogo Richard Wilhelm, com o providencial prefácio de Carl G. Jung, que em português é publicada pela Pensamento e de onde transcrevo o texto que você irá ler logo a seguir.

Muitas são as formas de se interpretar um hexagrama e é um fato que cada uma delas varia de acordo com quem consulta o livro. A interpretação, portanto, deve ser feita exclusivamente por quem formula a questão, já que a princípio a resposta se encontra diretamente relacionada ao plano inconsciente do consulente. Parece complicado, mas não é. Basta um pouco de atenção, um local sossegado e deixar a mente divagar sobre a leitura, agindo como um monge zen e seu koan. A resposta pode não aparecer na hora, às vezes chega assim de surpresa, no momento em que você estiver debaixo do chuveiro ou distraído na rotina do trabalho.

Quando pensei em postar esse texto tinha em mente desenvolver um raciocínio sobre o Hexagrama 56, ligando-o ao tema do blog. Mas acabei desistindo da ideia, justamente por conta do que acabei de escrever no parágrafo anterior.

Por isso, cabe a você, leitor (a) que chegou até aqui, quem sabe por acaso, fazer a sua própria interpretação do hexagrama. Se estiver com alguma viagem em mente, ou mesmo prestes a partir, tanto melhor: o texto que se segue pode ter sido, exclusivamente, transcrito para você. Coisas do acaso. Ou não. Namastê!


Hexagrama 56: O Viajante
Sucesso através do que é pequeno.
A perseverança traz boa fortuna ao viajante.

Quando um homem está viajando e é, portanto, estrangeiro, deve evitar ser rude ou arrogante. Ele não dispõe de um grande círculo de relações e não deve, portanto, se vangloriar. É necessário ser cauteloso e reservado; desse modo evitará o mal. Se ele for atencioso com os outros, terá sucesso.

O viajante não tem moradia fixa, seu lar é a estrada. Por isso ele deve procurar se manter íntegro e firme, detendo-se apenas em lugares apropriados e tendo contato somente com boas pessoas. Ele, então, encontrará boa fortuna e poderá seguir seu caminho sem problemas.

IMAGEM

Fogo sobre a montanha: a imagem do VIAJANTE.
Assim o homem superior é claro e cauteloso ao aplicar castigos, e não prolonga os litígios.

Quando o capim sobre a montanha queima, faz-se uma intensa claridade. Porém, o fogo não se demora num só lugar, mas segue adiante em sua procura de novo combustível. Ele é um fenômeno de curta duração. Assim também devem ser as penalidades e os processos; algo passageiro, que não se prolonga indefinidamente. Prisões devem ser lugares em que as pessoas sejam recolhidas só temporariamente, como se fossem hóspedes. Não devem se converter em moradia.

LINHAS

Seis na primeira posição significa:
Se o viajante se ocupa de coisas banais, atrai sobre si a desgraça.

“Um viajante não deve se rebaixar ocupando-se com vulgaridades que encontra em seu caminho. Quanto mais humilde e indefesa for sua situação externa, tanto mais deve ele preservar sua dignidade interior. Pois um estrangeiro se engana ao julgar que, prestando-se a brincadeiras e ao ridículo, encontrará acolhida amigável. Isso só pode lhe acarretar desprezo e tratamento ofensivo.”

Seis na segunda posição significa:
O viajante chega a uma hospedaria. Traz consigo seus pertences. Ele conquista a perseverança de um jovem servidor.

“O viajante aqui descrito é modesto e reservado. Ele não se aliena de sua essência interior e por isso encontra um lugar onde pode repousar. No plano exterior ele não perde a simpatia das pessoas e por isso todos o ajudam na aquisição de bens. Encontra ainda um servidor fiel e de confiança com o qual pode contar, o que é de inestimável valor para um viajante.”

Nove na terceira posição significa:
A hospedaria do viajante incendiou-se. Ele perde a perseverança de seu jovem servidor. Perigo.

“Um estrangeiro violento, que não sabe se comportar, se intromete em assuntos e controvérsias que não lhe dizem respeito. Com isso, perde seu lugar de repouso. Trata a seu servidor de modo distante a arrogante, perdendo assim sua lealdade. Quando um estrangeiro já não tem mais ninguém em que possa confiar, sua situação torna-se muito perigosa.”

Nove na quarta posição significa:
O viajante descansa num abrigo. Ele obtém sua propriedade e um machado. Meu coração não está contente.

“Aqui se descreve um viajante que sabe comportar-se com moderação, apesar de seu temperamento forte e intempestivo. Por isso ele encontra, pelo menos, um abrigo onde pode permanecer. Consegue também adquirir bens, mas mesmo possuindo-os ele não está seguro. Ele precisa estar sempre alerta, pronto para defender-se recorrendo às armas. Por isso ele não se sente à vontade. Está sempre consciente de ser um estrangeiro numa terra estranha.”

Seis na quinta posição significa:
Ele atira num faisão. Este cai à primeira flechada. Ao final isso lhe traz elogios e um cargo.

“Os estadistas que se encontravam de passagem num lugar tinham o hábito de se apresentar aos príncipes da região, oferecendo-lhes um faisão. Aqui o viajante deseja entrar para o serviço de um príncipe. Por esse motivo, ele atira num faisão, abatendo-o ao primeiro tiro. Com isso, encontra amigos que o elogiam e recomendam. Ao final o príncipe o acolhe e lhe confere um cargo. Muitas vezes há circunstâncias que levam um homem a buscar moradia no estrangeiro. Se ele sabe como fazer frente à situação, apresentando-se da maneira correta, poderá formar um círculo de amigos e encontrar uma esfera de atividades mesmo num país estrangeiro.”

Nove na sexta posição significa:
O ninho do pássaro é incendiado. Primeiro o viajante ri, mas depois há de lamentar-se e chorar. Por um descuido perde sua vaca. Infortúnio!

“A imagem de um pássaro cujo ninho se queima indica a perda do lugar de repouso. Esse infortúnio poderá ocorrer a um pássaro se, durante a construção do seu ninho, for descuidado e imprudente. O mesmo pode ocorrer a um viajante. Caso ele se deixe levar por brincadeiras e risos, esquecendo-se de sua condição de viajante, mais tarde terá motivos para chorar e lamentar. Pois se, devido à imprudência, um homem perde sua vaca, isto é, a modéstia e a capacidade de adaptação, as conseqüências serão nocivas.”


Transcrevo a seguir algumas passagens da obra Yin-Yang – polaridade e harmonia em nossa vida, de Christopher Markert (Editora Cultrix). Um texto interessante para quem quer se estender um pouquinho mais no assunto.

A filosofia-mãe de Lao-tsé

Lao-tsé

Confúcio assinalava frequentemente que os seus ensinamentos não eram novos e que se baseavam em grande parte no Livro das mutações. Seu contemporâneo Lao-tsé, fundador do taoísmo, também empregou a noção de equilíbrio cósmico entre yin e yang. Porém, enquanto Confúcio se inclinava mais para a direita, recomendando uma forma suave de patriarcado impregnado de autodisciplina, de etiqueta e hierarquia, o posicionamento de Lato-tsé era mais liberal. Suas concepções sobre o mundo e sobre o papel que nele desempenhamos são narradas em seu livro Tao-te king (O livro do sentido e da vida). Este contém apenas oitenta e um versos breves, e mesmo assim é um dos livros mais conhecidos da literatura mundial. Cada verso está cheio de observações profundas, e diz-se que o próprio Confúcio podia avaliar apenas parte da sabedoria contida no Tao-te king. O famoso sinólogo Joseph Needham o chamou de a mais profunda e bela obra da literatura chinesa.

Lao-tsé descreve a “Mãe Eterna” como a essência do universo inerente no fundo de todas as coisas, efetuando ao mesmo tempo ordem e mutação. Essa força misteriosa é invisível e não tem nome:

O Nome que pode ser pronunciado não é o verdadeiro nome. A Verdade que pode ser descrita com palavras não é a verdade eterna.

Não podemos descrever o começo do Céu e da Terra. As coisas relativas não podem ser definidas com palavras, qualquer descrição é mera comparação.

Quem compreende isso também compreenderá que o que é relativo forma uma Unidade com o Ser Absoluto de Tudo.

Quando reconhecemos uma coisa como bela, desta forma já achamos a outra feia ou má.

Quando consideramos fácil uma coisa, já definimos a outra como difícil.

O Alto e o Profundo são dois aspectos da mesma Harmonia. Portanto, o Sábio age em uníssono com as leis naturais e oculta o seu eu.

Visto de fora, o Tao parece vazio e, no entanto, está repleto de energia inesgotável. Essa energia está à disposição dos que lhe compreendem a essência. O Tao aponta o caminho e destrói a confusão interior e exterior. Ele não tem começo nem fim.


Lao-tsé deu o nome provisório de Tao à força cósmica original, que significa algo como “Caminho” e sugere movimento de seres e ocorrências através do tempo e do espaço. O Tao desenvolve-se de si mesmo, ordena a si mesmo e transforma-se incessantemente segundo leis eternas. É o fundamento de todas as coisas no céu e na terra. Sua força materna tem uma influência suave no curso das coisas, sem entretanto governar abertamente: “...é a mãe inconcebível, a raiz do Todo”. Ao traduzirmos literalmente do chinês os símbolos gráficos do sexto verso, obteremos mais ou menos o seguinte significado: “A vaca (o elemento feminino) misteriosa é imortal, sobre ela repousam o céu e a terra. Semelhante à nuvem, é isenta de forma, está incessantemente em mutação”.

Segundo Lao-tsé, a nossa meta deveria ser viver em sintonia com essa força. Devemos ser modestos, suaves e adaptáveis. Aquele que se intromete com violência no curso natural das coisas prejudica a si mesmo e causa o caos. Nossos pensamentos devem aproximar-se da realidade e ser flexíveis e, se preciso, nossas opiniões devem mudar tanto quanto a temperatura. Devemos nos sentir fortes por meio do nosso contato com o Tao e, no entanto, mostrar-nos interiormente fracos e insignificantes. A mania de buscar o poder, a posse e a fama não traz felicidade, pois essas coisas dependem da boa vontade de terceiros.
Lao-tsé fala dos seus antecessores, os quais conheciam o caminho correto e viviam em sintonia com o Tao. Viviam de modo simples, não precisavam de um governo dispendioso e dispunham de poucas armas. Não nutriam grandes ambições e é provável que não tivessem o progresso técnico em alta conta. Ao que tudo indica, essas culturas foram repelidas no decorrer dos séculos por patriarcados guerreiros, do mesmo modo como as culturas pré-históricas yin na Europa foram repelidas pela nossa atual cultura yang. Muito poucas descrições das antigas culturas e costumes foram preservadas, e no Tao-te king temos talvez o seu exemplo mais puro e abrangente.

O nome Lao-tsé é um título de nobreza cujo significado é “O Velho” ou “Criança Sábia”, pois seu verdadeiro nome é Li Pe-jang. Conta-se que Lao-tsé abandonou sua terra natal em idade avançada. Ao chegar à fronteira, um guarda pediu-lhe para deixar algumas palavras sábias para seus conterrâneos. Ele realizou esse desejo escrevendo, num só dia, a mais bela e profunda obra da literatura chinesa, o Tao-te king. Depois disso, ele se recolheu à sua tão amada solidão e nunca mais foi visto.

I Ching: a família cósmica

Muitos vêem no Livro das mutaçõesI ching, em chinês – um misterioso texto oracular. Outros o consideram uma fonte de profunda sabedoria psicológica e filosófica. Alguns reconhecem nele o modelo de uma ordem cósmica plena de sentido. Outros, ainda, o consideram como uma mistura de sabedoria e de superstições triviais sem muito sentido.


Em seu prefácio à versão traduzida de Richard Wilhelm, C. G. Jung descreve como às vezes ele passava horas debaixo de uma velha árvore, deixando que o livro respondesse a suas perguntas. Os resultados repetiam sempre conhecimentos surpreendentes, e conexões lógicas inesperadas esclareciam procedimentos duvidosos que antes lhe haviam parecido pouco claros. Por vezes, problemas difíceis e de longa data eram solucionados em minutos por intermédio de uma perspectiva obtida dessa forma. Jung explicava esse fenômeno por meio de certo “sincronismo” entre as ocorrências no mundo da matéria e no mundo do espírito. Portanto, se ele obtinha determinado oráculo nem determinado momento, essa determinada ocorrência simultânea correspondia a eventos que aconteceriam no mundo real.

O psicólogo inglês San Gooch menciona o Livro das mutações em vários de seus trabalhos, chegando à seguinte conclusão: “O I ching provavelmente nos possibilita um acesso à dimensão da eternidade, na qual são superadas as fronteiras do tempo e do espaço... Pessoalmente, não tenho a mais remota noção de como se poderia começar a escrever um livro como esse, e ninguém pode me dar essa resposta. O fato é que esse livro misterioso encerra resultados práticos”.

Os primórdios do I ching eram sinais de linhas riscadas em ossos, referentes ao tempo, à colheita, à caça e a outras atividades práticas. Esses ossos, de quatro a cinco mil anos atrás foram encontrados em escavações. Mais tarde, os textos foram apresentados em peles de animais, e o rei Wen deve ter-lhes conferido a versão atual por volta de 1200 a.C. As gerações que se seguiram acrescentaram comentários, e o texto foi reescrito diversas vezes. No decorrer do tempo foram acrescentadas citações das obras de duzentos e dezoito filósofos e eruditos. Atribui-se a Confúcio a redação de vários comentários. Conta-se que usava o seu exemplar com tanta frequência, que foi necessário reencaderná-lo várias vezes.

Confúcio

Seu contemporâneo, Lao-tsé, também encarava o Livro das mutações como o fundamento de sua filosofia, e o mesmo é válido para quase todos os outros filósofos chineses. De fato, todas as áreas da vida chinesa são influenciadas há milênios por esse livro, e, segundo a lenda, há um ser de força sobrenatural oculto entre suas páginas.

Aquele que deseja consultar o Livro das mutações em busca de conselho utiliza cinqüenta varetas ou três moedas para averiguar o hexagrama correspondente àquele momento. A pessoa recolhe-se a um lugar tranqüilo e se concentra alguns minutos na pergunta que deseja ver respondida. Quando se aborda o livro com o enfoque correto, obtém-se, quase sem exceção, uma resposta significativa. O mesmo se pode afirmar naturalmente a respeito dos horóscopos e dos presságios do tarô.


O Livro das mutações, porém, é construído de modo tão hábil e abrangente que produz uma mistura mais rica de interligações de pensamentos, concretizando pressentimentos que jaziam latentes no leitor. O espírito do consulente reconhece as próprias respostas no hexagrama; ele projeta sua verdadeira polaridade no livro. Encontra, em cada página, experiências humanas fundamentais, como amor e ódio, amizade e inimizade, vitória e derrota, revestidos de uma riqueza de símbolos, arquétipos e figuras míticas. O leitor relaciona os elementos dessa constelação de modo totalmente automático com o seu problema atual e com as possíveis respostas.

O livro se delineia através de sua faculdade de liberar temporariamente o consciente do leitor de suas perspectivas estreitas, servindo de mediador para uma experiência de dilatação da consciência, muitas vezes trazendo consigo vislumbres incríveis. É provável que esta seja a razão pela qual os intelectuais ou aqueles que se interessam pela arte encontrem nele mais clareza do que nos outros. Por um lado, enredam-se com maior frequência em construções mentais unilaterais e, por outro, divertem-se mais ocupando-se com os enigmas espirituais, em busca de novas perspectivas.

As respostas mais úteis do I ching são obtidas quando ele só é usado em certas ocasiões para se encontrar respostas a perguntas prementes a que o intelecto, por is só, não pode responder. O livro só foi utilizado na China nesse sentido, e para isso é que o texto foi composto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, by Cesar Augusto de Carvalho

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Tive uma grata surpresa ao deparar-me com a obra Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, fruto de um longo trabalho de pesquisa de Cesar Augusto de Carvalho, sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina. Primeiro, porque o tema me fascina e depois porque o autor teve muita coragem em defender sua tese de doutorado valendo-se, na escrita, de uma linguagem distante das amarras do modelo acadêmico com sua formalidade que muitas vezes (nem sempre, claro) encobre um desenvolvimento intelectual confuso e isento de grandes novidades.

Duas grandes sacadas aqui: a primeira delas foi que, ao optar por uma escrita clara e objetiva, o pesquisador conseguiu ir além da banca de defesa da tese, levando assim o resultado de sua pesquisa a um público muito mais amplo do que o do limitado espaço acadêmico; a outra foi o fato de que, ao agir dessa maneira, o autor se relacionou com seu objeto de igual para igual, pois não há nada mais distante do universo da contracultura do que atitudes formais e caretas, sobretudo no âmbito da comunicação. Aliás, como bem lembra o autor, nem sempre a linguagem científica e racional consegue explicar tudo:

“Não me oponho às metodologias científicas estabelecidas. Dou-me ao direito de propor uma narrativa que pratique a tolerância discursiva, a pluralidade e a relatividade do conhecimento. (...) Se quiser pode chamar minha proposta de rebelde, mas não entenda essa rebeldia no sentido convencional de recusa ou rejeição. Não nego, nem tenho como o fazer, que toda a história da contracultura foi movida por rebeldes. Mas eram rebeldes que radicalizavam sua oposição ao mundo, rejeitando-o, negando-o e procurando viver à margem. A rebeldia proposta é de outra ordem.”

Uma rápida passada d’olhos no sumário da obra adianta um pouco aquilo que você irá encontrar no transcorrer da leitura: antes da viagem, em direção ao centro, a linguagem do silêncio, drogas, dietas e relacionamentos, vida natural, encontrando um rumo.... não entrega muito, é verdade, mas já serve para podermos imaginar do que se trata.

Um resumo da obra vai bem: na segunda metade dos anos 1980 um professor universitário, cheio de questionamentos, interessou-se pela pesquisa sobre os paradigmas do conhecimento e tinha um grande interesse em “pensar alternativas aos dispositivos científicos que pudessem ser criados sem que houvesse o predomínio da lógica racional.” Matutando essa ideia, achou que seria interessante encontrar respostas às suas indagações intelectuais se conhecesse de perto o universo dos jovens que estavam indo morar nos lugares mais distantes do país com a proposta de criar uma sociedade alternativa (inspirados, quem sabe, pela famosa canção de Raul Seixas).

Daí para por os pés na estrada não demorou muito. Grana curta, o lance era traçar um destino easy rider montado numa nada endiabrada motoca 125 cc. Hum, atrevido esse professor. O roteiro foi construído de maneira quase ingênua, confiando numa desatualizada (o que ele só se daria conta depois) edição do Guia do peregrino, lançado pela Editora Três em 1985. Tudo bem, temos que nos atentar ao fato de que naquele período ainda não existia a poderosa ferramenta da internet.

A viagem tinha uma duração pré-determinada de seis meses e em algumas localidades o professor aventureiro poderia contar com a ajuda de colegas quanto à estadia e contatos relacionados com seu objeto de pesquisa. O resto o acaso daria conta.

Os principais lugares visitados foram os seguintes: Campo Grande, Corumbá, Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Porto Velho, Rio Branco e Manaus. Praticamente toda a viagem pode ser enquadrada em dois grandes blocos de acontecimentos: o primeiro, que marca a fase inicial, o “centro” na Chapada, é dedicado ao contato com os remanescentes de comunidades alternativas; o segundo, contemplado com mais intensidade pelo pesquisador, dedica-se ao contato com integrantes de seitas que cultuam o Santo Daime. São essas duas perspectivas que irão nortear toda a narrativa da obra.

Como leitor comum e interessado na temática da contracultura, gostei muito do resultado da obra como um todo. Mas numa visão mais crítica, enquanto pesquisador, achei que a pesquisa teve algumas falhas e que, de certo modo, foi pouco calçada bibliograficamente, levando-se em conta que estamos diante de uma tese de doutorado. Acredito que o autor poderia ter explorado muito mais o seu objeto se contasse com uma orientação mais exigente, causando-me estranheza, nas referências bibliográficas, a quase total ausência de textos estrangeiros.

Mas aqui nada disso tem muita importância, o que nos interessa neste blog são as narrativas de viagem e as reflexões dos autores a respeito da arte de viajar. Nesse ponto gostei do que li e dou nota dez ao Cesar pela sua posição de abertura frente ao novo, ao desconhecido; em muitos aspectos o professor/escritor/pesquisador Cesar Augusto de Carvalho pareceu seguir as diretrizes de um bom trabalho etnográfico, fazendo-me lembrar um pouco da dinâmica do trabalho de campo tal como proposta por Hans-Jürgen Greschat, fantástico pesquisador alemão que se dedica ao estudo das religiões, já citado aqui no blog em um post anterior.

Feita a introdução, vamos agora curtir alguns trechos de Viagem ao mundo alternativo. Como de hábito, escolhi as passagens nas quais o tema da viagem aparece mais evidenciado. Boa leitura e Namastê!

Com o pé na estrada – notas do autor


“A viagem, portanto, seria uma oportunidade única para conhecer as comunidades alternativas, cujas imagens foram formadas pelas informações midiáticas à época. Seria, também, a possibilidade de levantar informações para responder às angústias teóricas e existenciais que me assaltavam. Como todo viajante otimista, isso me possibilitaria dar novo significado ao sentido da vida.”

“Mas nenhuma viagem transcorre sem, pelo menos, a possibilidade de perigos. E o perigo maior não é o que está ligado a eventuais acidentes, mas sim aquele que coloca o viajante em uma rota sem destino, que o faz se perder. E a razão é simples. Em uma viagem excessivamente longa, como a proposta, o meu lar seria a própria estrada. Por mais tempo que permanecesse aqui ou ali, seria impossível o apego a objetos ou pessoas. Estaria em constante deslocamento, exatamente como o fogo que arde rapidamente e consome o mato seco.”


“O fogo não é apenas uma figura de linguagem, é o próprio comportamento do viajante. E a razão disso, hoje, parece fácil compreender. Enquanto se vive em um cotidiano rotineiro, objetos, hábitos e coisas ganham uma significação precisa, ainda que muitas vezes sem vida. Já o constante deslocamento do viajante obriga-o a passar pelas coisas sem lhes dar muita importância. À medida que esses deslocamentos se intensificam, o risco de o viajante não chegar ao seu destino é cada vez maior. E isso só não acontece quando ele encontra o que busca.”

“Acredito ser esta a principal razão que transforma o ato de viajar em um símbolo mítico, porque é constante o processo de mudança de valores. Só o cansaço pode levá-lo a prender-se a algo: ‘ Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém’ (Pedro Almodóvar, 1998)”.

“A própria viagem física, que ocorre entre diferentes pontos geográficos, serve para redimensionar o sentido da vida quando as experiências do viajante o levam a importantes mudanças de mentalidade.”

A temática

Até o final do século XIX, os relatos descrevem de forma objetiva as cenas e objetos que o viajante encontra em seu deslocamento temporal e espacial; no século XX os relatos mudam o foco para os mapas dos conflitos, angústias e dramas que se desenham durante a jornada interior do viajante. Nesta acepção, os deslocamentos não são condições necessárias para produzir mudanças significativas na estrutura de personalidade. Muitas vezes, sem sair de seu quarto, o adolescente se redefine: “Ah... que viagem, estar aqui, parada”, diria Alice Ruiz sobre esse mergulho interior.


Jornada, a viagem é rito de iniciação responsável pela mudança de percepção e de vida do indivíduo. A partir da década de 50, quando ganha amplitude e importância jamais vistas, torna-se marco importante da juventude do pós-guerra. On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac é exemplo clássico: no romance, dois personagens cruzam os Estados Unidos, do Leste ao Oeste. Vagões de trens de carga, motos, carros, ônibus, não importa o veículo a ser utilizado, nem o destino, importa o movimento. O movimento incessante dos personagens, de um lugar a outro, sem parada.

Nos anos 60, a viagem consolidou-se estilo de vida, marca. Cair na estrada era um desejo de qualquer jovem. Receptiva ao novo segmento de mercado, a indústria fonográfica soube aproveitar-se. O sonho de uma Califórnia aconchegante cantado pelos The Mamas and the Papas na música “California Dreamin’” foi sucesso imediato ao ser lançada no Verão do Amor, em 1966.


O universo simbólico apontava para a prática recorrente da juventude: mochila nas costas e o compromisso de estar em movimento. Muitas vezes, o final da viagem se revela surpreendente ao redefinir os rumos de vida e história do viajante. É quando a viagem revela-se rito de iniciação da jornada do herói, o viajante. A viagem de Che Guevara pela América Latina no início dos anos 50 enquadra-se na narrativa típica de construção do herói mítico. Quando Che Guevara, depois de viajar oito meses, separa-se de seu companheiro, reconhecendo a necessidade de manter-se afastado por um tempo, pois precisava assimilar tudo o que havia vivenciado. Sete anos depois ele seria um dos guerrilheiros comandados por Fidel Castro que tomaria o poder em Cuba, e transformaria a ilha no primeiro país socialista da América Latina.


(...) Os diários de viagens de Che Guevara só foram publicados depois de sua morte, mas permitem a compreensão do processo de mudança pelo qual passou em sua busca, em princípio uma simples aventura – “coisa de jovem” -, no final, a construção de um personagem redefinido, com um novo papel no mundo. Antes mesmo de ser morto, Che Guevara já era um modelo de herói a alimentar o imaginário da juventude mundial. E muitos jovens sentiram-se motivados a perseguir sua trilha, que coincidia com o auge do movimento hippie nos anos 60.

Viagem, uma lição ambígua


“A viagem pode começar como uma fuga declarada, movida pela profunda necessidade de mudança interior; o indivíduo vê, como única saída, o cair na estrada, o perder-se, o fugir...”

“Perder-se é uma possibilidade real que o viajante encontra em seu percurso. Sempre em movimento, vivendo como estrangeiro em terras estranhas, com gente estranha, só tem a si próprio como referência. É uma situação perigosa, pois a pior batalha a ser travada é contra si mesmo, segundo os ensinamentos de Buda. Insatisfeito consigo próprio, o objeto de valor a ser encontrado é o desconhecido, o inacessível, o impossível de ser alcançado, e o indivíduo torna-se outsider, o marginal por excelência da literatura existencialista: ‘Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus’ (Ginsberg).”

Drogas e viagens


“Viajar tem também o significado de estar sob o efeito de drogas. E, nesse caso, a jornada interior pode produzir ilusões que, longe de fazer o viajante enfrentar a si mesmo, transformam-se em caminhos de fuga. As drogas alucinógenas, todavia, não foram compreendidas nesse contexto na sociedade pós-guerra. Elas eram muito mais uma possibilidade de abrir as portas da percepção para outros horizontes e, com isso, ajudar o usuário a redefinir seu self. As drogas serviram, assim, para romper os rígidos paradigmas mentais estruturados com base na racionalidade dominante, constituindo-se numa alternativa, não isenta de riscos, de integração social.”



Leia: Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80. Cesar Augusto de Carvalho. Editora Unesp. 2008.

sábado, 4 de setembro de 2010

A literatura odepórica nos anos 30 - texto da Revista Brasil-Europa

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Repasso aqui um texto sobre a literatura de viagem produzida no período de 1930. Vai interessar em particular aqueles que chegam aqui no Odepórica buscando posts com um aprofundamento mais acadêmico sobre a temática do blog.






Diferenças e conotações político-culturais: literatura de viagens nos anos 30

Um problema na consideração de textos de relevância para os estudos euro-brasileiros, em particular da década de 30 do século XX, reside no necessário discernimento do tipo de literatura e da qualificação de seus autores.

Não é suficiente, para estudos culturais mais aprofundados, que se considere indiferentemente textos impressos, apenas dando atenção à quantidade de dados informativos que oferecem. Esses textos não representam apenas "minas de achados", mas oferecem testemunhos do desenvolvimento de determinadas áreas disciplinares ou da imprensa de divulgação, de informação de atualidades ou de entretenimento.

Esse discernimento, porém, indispensável para leituras mais cuidadosas e para a apreciação adequada das fontes, não é sempre fácil e exige formação adequada, especificamente teórico-cultural. Nem todos os textos de pesquisadores legitimamente formados em determinadas áreas dos estudos culturais se caracterizam por linguagem técnica ou pouco acessível, e nem todos os textos de uma literatura de cunho popularizante ou jornalístico oferecem dados pouco fidedignos ou não os interpretam de forma contextualizada e diferenciada.

Houve e há, assim, entre alguns pesquisadores, sobretudo aqueles de formação filosófica, o cuidado de manter a simplicidade na forma de expressão e na exposição dos resultados de suas investigações, evitando um academicismo formal e de linguagem que, em alguns círculos seria recebido como manifestação de pedantismo. Um exemplo que poderia ser citado seria Therese da Baviera que, ao escrever o seu relato de uma viagem que fora verdadeiramente de pesquisa, foi aconselhada a escrevê-lo na forma amena de um diário, o que posteriormente lamentou, uma vez que prejudicou a sua exposição e relativou o valor científico da sua obra (Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reise in den Brasilianischen Tropen, Berlin: Dietrich Reimer, 1897, Prefácio).

Por outro lado, escritores não vindos primordialmente de uma formação específica em etnologia, folclore, geografia, história cultural ou de outra área dos estudos culturais passaram, com conhecimentos ganhos através de leituras e estudos posteriores, a publicar obras nas quais preocupações literárias se mesclam com intuitos de difusão de conhecimentos e de interpretações de fatos e ocorrências.

O surgimento desse tipo de literatura tornou-se particularmente evidente na década de 30 do século XX. Veio de encontro, também, a uma tendência político-cultural que se caracterizou pela procura de tomada de posse de esferas sociais e sócio-culturais por caminhos dos fatos, através de relações individuais em determinados grupos e independentemente de vias mais circunstanciosas, ou seja, pelo caminho de instituições legítimas e personalidades devidamente habilitadas.

O "globo como grande aldeia" já na década de 30

Na Semana do Livro Alemão de 1936, o tema particularmente considerado foi o do jornalismo de viagens. A julgar por comentários, essa semana serviu para salientar o significado dos relatos de viagem para a informação e formação dos leitores.

Partia-se da constatação de que toda a terra havia sido descoberta, quase já não havendo regiões desconhecidas. Apesar de o mundo ter-se tornado pequeno através dos meios de transporte e comunicação, nem todos tinham a possibilidade de visitar países distantes. A ampla literatura de viagens podia, porém, trazer a todos informações das mais recônditas regiões. O mundo, trazido para o homem do povo, tornava-se ao mesmo tempo mágico ou encantado.


Os continentes estão desvendados, as manchas das terras incógnitas nos mapas se tornam cada vez menores e em menor número. Os meios modernos de transporte levam o viajante até o interior de terras longínquas, que até há poucas décadas apenas eram alcançáveis pelo pesquisador, e isso com grandes fadigas e pesados riscos. A rede das linhas aéreas abrange todo o globo de forma cada vez mais densa e as gigantescas distâncias parecem diluir-se gradualmente num nada.

E nós? - Maravilhados contemplamos o espírito do homem ousado, que com a sua força mágica da técnica transformou os conceitos de espaço e tempo e reduziu o globo sob as suas mãos. A nossa ânsia acompanha o descobridor pacífico da era moderna, que cruza voando os oceanos do ar. Nas horas calmas sonhamos no mundo maravilhoso, distante da Índia, que hoje se pode conhecer confortavelmente de ônibus, assim como com a gigantesca silhueta dos arranha-céus norte-americanos, aos quais o moderno viajante pode chegar em poucos dias em hotéis flutuantes.

Vamos, porém, querer afirmar que estamos destinados a nunca viajar na nossa vida às regiões distantes, até os fins do mundo? Em nenhuma época ofereceram-se ao homem tantas ocasiões de deixar atrás de si o seu quotidiano e de se lançar nas suas horas de folga na vastidão do desconhecido que o atrai. Apenas estende a mão, pega um livro e se deixa levar a um mundo encantado." (H.W.Ludwig, "Die ferne Welt - uns nahegerückt", Durch alle Welt 43, 1936, 31)

Diferença entre relatos de pesquisadores e jornalismo cultural



Esses testemunhos da época salientam a extraordinária expansão que então experimentava a literatura de viagens e o correspondente aumento de interesse por esse tipo de publicações.

Na Semana de 1936, tornou-se evidente que a esse crescimento era acompanhado por uma diversificação de tipos literários. Os comentários salientam aqui a diferença entre os relatos escritos por pesquisadores e aqueles textos produzidos por jornalistas.

Segundo esses comentaristas, o jornalismo cultural representava o principal desenvolvimento dos anos 30 na área da literatura de viagens. Diferentemente dos textos de pesquisadores, os jornalistas procuravam descrever situações e fatos comparando-os com os do país natal, ou melhor, vendo-os sob os critérios de seu Estado, mantendo, porém, sempre um tom coloquial e bem humorado.

"O livro de viagem é aquele que deve ser louvado por possibilitar uma abertura do mundo àquela grande parte da humanidade que é presa a seu lar. Desde o início da literatura de viagens, o círculo de leitores cresceu imensamente. Ao mesmo tempo, cresceu o número dos livros de viagem, até então pouco numerosos. E assim como o seu volume, também mudou-se o seu tipo. Pode-se afirmar que hoje há escritores de viagem de todos os tipos.

Apenas uma pequena parte deles escreve como profissão exclusiva. Justamente por isso é que tantos livros de viagem adquirem a sua nota particular. Na obra do pesquisador, o leitor aprende a ver o mundo pelos olhos do investigador e aprende ao mesmo tempo coisas interessantes dessa difícil profissão, o que contribui para enriquecer os seus conhecimentos gerais. Tais leituras, que não precisam ser áridas, são adequadas sobretudo para o leitor que está interessado na exatidão e na objetividade do relatado.



O jornalista está acostumado a ver por assim dizer o seu público diante de si, ele se esforça, através de comparações e cotejos com o mundo da terra natal de expor da forma tão plástica quanto possível o exotismo do visto e vivenciado. A sua descrição, leve, não deve abandonar um tom divertido, tal qual como um velho conhecido que fala coloquialmente sobre as suas impressões de viagem."

Novo tipo do jornalista viajante e "a visão clara do mundo"



Os comentários da Semana do Livro de 1936 salientam o surgimento de um novo tipo de jornalista viajante. Seria aquele que procuraria expor contextos dos países visitados. Os trabalhos aproximar-se-iam dos relatos de pesquisadores, diferenciavam-se porém desses pelo fato de constituirem ainda fundamentalmente produtos de jornalismo, ou seja, tecendo comparações e mantendo um tom divertido.

"Apenas há pouco tempo surgiu um tipo especial de jornalista viajante, que não dirige o seu olhar apenas para aquilo que se encontra à direita ou à esquerda do seu caminho. Como observador atento, possuindo o necessário preparo, procura expor contextos dos países visitados. Aqui, o livro de viagens supera o seu objetivo original e se transforma em exposição de situações populares, políticas e econômicas, além de desenvolvimentos."

Outros tipos de literatura de viagens



Dessas palavras, compreende-se que os produtos desse mais recente jornalismo de viagens transformaram-se em importantes apoios na difusão de visões do mundo e do homem de natureza política.

Comparando situações observadas com as do país natal, onde havia um alinhamento de conceitos e visões, sob o primado da ideologia do partido e do Estado, os relatos adquiriam quase que necessariamente um cunho instrutivo ou "esclarecedor", uma vez que situações que contradiziam aquelas do país natal não poderiam ser apresentadas a partir de seus próprios critérios, mas sim à distância possibilitada pelo tom de humor que caracterizava o jornalismo.

Para os comentaristas, a diversidade que se constatava na literatura de viagens já não era tão relevante; o principal era o surgimento desse novo tipo de jornalismo, caracterizado por uma aparência de objetividade científica.

Os outros tipos de literatura representariam, segundo esses comentários, apenas algumas pedras de mosaico numa obra maior, num quadro panorâmico que se oferecia aos leitores.

"Naturalmente, o amigo da aventura e da sensação na literatura de viagens encontra também o que lhe satisfaz. O caçador o atrai com as suas estórias de proezas, o navegador vivencia temporais perigosos, o voador conta como viu o nosso planeta da perspectiva dos pássaros. Ao lado de todos esses conversadores, contistas e pensadores aparecem também irregularmente livros que não podem ser classificados. Ali é um homem que passou décadas de sua vida entre povos estranhos, ou solitariamente como fazendeiro, até que sentiu o desejo ardente de comunicar as suas impressões ao mundo. Como pedras reluzentes, esses escritos singulares mas nascidos da própria vida introduzem-se num mosaico colorido que nos traz para perto o distante mundo e que nos apresenta como uma imagem que eternamente se renova e nos atrai."

Possíveis lições para o presente



Desse relato pode-se tirar alguns subsídios para a consideração teórico-cultural das revistas da época, sobretudo daquelas de interesse para os estudos referentes ao mundo de língua portuguesa. Dele se apreende que a literatura de viagens, apesar de sua diversidade, passou a ser marcada por um novo tipo de publicações, escritas por viajantes que procuravam dar a seus textos um cunho especializado, aproximando-os daqueles de pesquisadores devidamente formados e que realizavam viagens primordialmente com o escopo de realização de pesquisas.

Para o estudioso de hoje, a distinção nem sempre é fácil, mas necessária. A primeira, um resultado da época totalitária e a serviço do sistema, era escrita sobretudo segundo preceitos dele originados, caracterizados basicamente por humor, leitura divertida ou amena, referenciada segundo com o contexto cultural do leitor. O segundo, poderia ser antes considerado como expressão de uma democratização de conhecimentos.



Essa distinção, a ser ganha de estudos de um desenvolvimento do passado, pode contribuir a um aguçamento da percepção para possíveis problemas do presente. Assim, seria inadequado, e até mesmo inadmissível que uma área designada como "Turismo Cultural", em alguns países até mesmo com posição universitária, fosse confundida com Estudos Culturais no sentido estrito do termo, mesmo que estes tenham uma orientação baseada na observação empírica e em viagens de estudos e pesquisas.
(...)


(Grupo redatorial sob a direção de A.A.Bispo)

FONTE
http://www.revista.brasil-europa.eu/124/Literatura_de_viagens.html


Imagem: Revista Ilustração, no.109, July 1 1930-7. Do blog http://oldadvertising.blogspot.com/