domingo, 31 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 3, final

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A seguir você irá ler a terceira e última parte do post sobre a vida de Vivekananda, transcrição de uma matéria de 1975 da Revista Planeta. Com essas postagens tive a intenção de apresentar ao leitor/leitora do Odepórica uma breve introdução à vida de Vivekananda, um dos mais respeitados homens santos da Índia, ao lado de tantos outros já bem conhecidos aqui no Ocidente, como Paramahansa Yogananda, Sri Aurobindo, Krishnamurti, Osho, Sivananda, Ramakrishna, Mahatma Gandhi, Satya Sai Baba, só para citar alguns e sem nos esquecermos, evidentemente, das mulheres santas que também – ainda que menos alardeadas – têm deixado um forte legado espiritual ao longo dos anos. (sobre as mulheres santas da Índia, sugiro a leitura de duas obra cativantes: Filhas de Deusa: as mulheres santas na Índia de hoje, de Linda Johnson, Ed. Nova Era, e a pequena biografia de Sarada Devi, a Santa Mãe, que foi a esposa de Ramakrishna, mestre de Vivekananda como vimos nos textos aqui postados. Esta última publicada pela Lótus do Saber).

Não somente, devo lembrar, quis trazer ao conhecimento dos leitores/as do Odepórica a vida de Vivekananda, já que para isso poderia ter buscado outras fontes biográficas que certamente enriqueceriam o texto publicado na revista; a intenção, como sempre, foi a de mostrar o papel fundamental das viagens no processo de transformação daquele/a que viaja. No caso dessas grandes figuras, como Vivekananda, as viagens tiveram uma importância tão grande em sua vida que não só mudaram o seu destino, como o de milhares de pessoas em todas as partes do mundo onde suas mensagens chegaram – e continuam chegando - mesmo após um século de sua passagem pelo planeta.

Se Vivekananda não tivesse se deslocado tanto, muito provavelmente seus ensinamentos não teriam sido conhecidos fora de seu país. Sua própria obra, aliás, não teria sido tão rica e cheia de sabedoria caso não houvesse visitado outras culturas, pois foi o fato de observar o outro que deu a ele o material para compreender efetivamente, ainda que à custa de muita dor e sofrimento, a alma de seu povo. Essa troca é o que faz das viagens algo especial e transformador.

Antes de terminar essa introdução, gostaria de pedir a você, que topou a leitura dessas três longas postagens, para tomar cuidado antes de julgar algumas passagens da vida de Vivekananda. Muito do que o pensador declarou tem que ser lido contextualmente, e nisso o autor do texto foi feliz em esclarecer, quando da passagem em que Vivekananda afirma que “a virilidade é a base de tudo”, fazendo alusão à maneira violenta de agir frente às adversidades.

Vivekananda jamais teria simpatizado com qualquer ato de violência; sua conduta, pelo que se sabe de sua vida e obra, sempre foi a de buscar a realização espiritual e a de ajudar ao próximo nessa jornada. Quando fala em um “mal necessário”, quer deixar claro, assim como se lê no Bhagavad-Gita, livro sagrado do hinduísmo, que a inércia, a falta de ação, é pior do que ir à luta, mesmo que isso implique em uma posição de violência. Essa luta faz parte do Karma-Yoga, o yoga da ação, sem o qual o ser não tem acesso ao conhecimento. Diz Vivekananda que “o conhecimento está na mente como o fogo está na pedra; é a fricção que o faz brotar.”

Paro por aqui. No final da matéria indico algumas obras publicadas pelo Vivekananda em português, fáceis de serem encontradas em sebos a preços muito camaradas. Em tempo: Vivekananda, o nome sânscrito que Narendranath Dutt recebeu quando ingressou na ordem dos Swamis tem um significado muito inspirador: Viveka significa “discernimento”, e Ananda, “alegria, felicidade”. A felicidade suprema que só se atinge através do discernimento. Bonito, não? Namastê.


A Índia demorou muito para saber do êxito de Vivekananda no Congresso de Chicago e quando soube, ocorreu verdadeira explosão de júbilo e orgulho nacional. Seis meses depois é que os monges de Baranagor tiveram a notícia. Quase não podiam crer que um de seus irmãos fosse o triunfador tão famoso e em suas comemorações evocavam a profecia de Ramakrishna: “Barém abalará o mundo até seus alicerces”.

Algumas facções políticas pretendiam tirar partido do sucesso de Vivekananda que protestou energicamente, pois jamais desejou tomar parte em movimentos de interesse pessoal e dizia: “pouco me importa a vitória ou o fracasso. Devo conservar a pureza do meu trabalho ou não o faço”. Nada queria com a política e considerava como únicas no mundo, as políticas originárias de Deus e da verdade. As demais não existiam.

Ao contrário do que tinha acontecido em outras peregrinações pela Índia – quando mendigava e muitas vezes era até perseguido – agora ele recebia estrondosas manifestações populares. Por onde passava atiravam-lhe flores e regavam seus caminhos com a água sagrada vinda do Ganges. Aceitava essas honrarias pensando exclusivamente nos bens que poderiam trazer à causa a que se propunha.

Contra seus princípios, precisava participar muitas vezes dos movimentos de caráter nacionalista e tratava, por isso, intensa luta interior. Quando da crise ocorrida nos primeiros dias de outubro de 1898, ele seguiu sozinho para o santuário da mãe Kali, em Cachemira. Ficou horrorizado diante das ruínas e dos sofrimentos decorrentes da guerra. Encontrou também o santuário depredado. Como puderam ter feito aquilo?

Se ele estivesse ali, teria dado a vida para defender a madre (mãe Kali). Regressou transtornado e disse a Nivedita: “desapareceu em mim todo o patriotismo. Tenho sido muito enganado! Ouvi a repreensão da mãe Kali dizendo que alguns incrédulos entraram em seu templo e macularam sua imagem. – O que tem você a ver com eles? – perguntou-me ela. – Acaso é você meu protetor ou sou eu quem o protege? Estava profundamente abatido, e ainda muito mais porque dias antes havia ocorrido brutal abuso de poder por parte da Inglaterra, em relação à Índia. Em seus discursos, entretanto, não deixava transparecer a amargura e as angústias recalcadas em seu coração.

Segunda viagem ao Ocidente


Partindo de Calcutá no dia 2 de junho de 1899, Vivekananda passou por Madras, Colombo, Aden, Nápoles e Marselha, chegando a Londres no dia 31 de julho. Um dia após seguiu de Glascow para Nova York, permanecendo nos Estados Unidos até 20 de julho de 1900, onde percorreu toda a Califórnia. De 1º de agosto a 24 de outubro viajou por Paris, Bretanha, Luego, Viena, os Bálcãs, Constantinopla, Grécia e Egito, regressando à Índia nos princípios de dezembro.

O objetivo principal dessa viagem era o de inspecionar as obras fundadas por ele e ao mesmo tempo ativar o trabalho dessas organizações. Estava acompanhado por Nivedita e Turyananda. Em seu corpo enfraquecido mantinha uma energia incomum e redobrada disposição para a luta, todavia demonstrava profundo desgosto por sentir a despersonalização de seu povo, sempre abatido e desanimado.

Estava arrebatado pelas epopéias históricas da Europa. Em Gibraltar veio à sua lembrança a invasão árabe. Tinha tanto desprezo pela covardia a ponto de admitir o crime, e quando ouvia falar do baixo índice criminal da Índia, exclamava: “oxalá ocorresse o contrário. Quanto mais envelheço, mais cresce minha convicção de que a virilidade é a base de tudo e este é o meu novo evangelho”. Chegou mesmo a dizer que devia ser praticado o mal contra o homem, e, se necessário, que se cometessem crimes em benefício da grandeza e da virilidade. Revoltado pela inércia de seu povo, dizia essas coisas a pessoas de absoluta confiança, pois gente maldosa poderia interpretar diferente, desvirtuar e provocar escândalos.
Quando regressou à Índia, entretanto, estava desapegado da vida e chocado com a violência existente no imperialismo ocidental. Não podia esquecer aquela gente de fisionomias rancorosas, lembrando aves de rapina. Na primeira viagem ficou excessivamente impressionado com o poderio, organização e aparente democracia, tanto da América quanto da Europa. Entretanto, agora, mais afeito aos costumes e linguagem, tinha outra visão. Observou espíritos negocistas e avarentos que colocavam o “deus dinheiro” acima de qualquer coisa e promoviam lutas ferozes e combinações infames para alcançarem o predomínio. “A vida no Ocidente é parecida com o inferno.”

Tinha descoberto a tragédia oculta suportada por aquele povo e disfarçada sob o colorido da frivolidade. Para ele a vida social no Ocidente se comparava a uma gargalhada que tem início num sorriso natural que vai crescendo e acaba num soluço. O entusiasmo e os gestos de cortesia demonstrados, para Vivekananda, estavam apenas na superfície. Já na Índia a aparência é triste e melancólica, porém o interior é vibrante e despreocupado.

Morte física de Vivekananda


Quanto mais analisava o avanço das ciências e da civilização, maior consistência adquiriam suas próprias profecias: “a próxima revolução que dará origem a uma nova era, virá da Rússia ou da China. Não vejo exatamente qual delas... O mundo está em sua terceira etapa, sob o domínio de vaisya (o mercador, o estado livre). A quarta será a de sudra (o proletário)”.

Em determinado instante de sua viagem de volta, teve o pressentimento de que seu velho e fiel amigo, senhor de Sevier, tinha falecido no Ashram do Himalaia. Recebeu a confirmação na chegada. Sem pensar em descanso, seguiu para lá, apesar de todas dificuldades representadas pelo acesso ao Himalaia naquela época do ano, e mais ainda pelo seu estado de saúde. Venceu a tudo e dia 3 de janeiro de 1901 estava cumprimentando e prestando seu conforto moral e espiritual à viúva de Sevier.
Permaneceu ali alguns dias, comemorando inclusive seu aniversário no dia 13 de janeiro (38 anos). Retornou ao mosteiro de Belur no dia 24. Fez a que seria a última peregrinação aos lugares santos de Bengala Oriental, Ossam, Dakka e Shillong, realizando uma série de conferências. Essa excursão por lugares de espírito conservador fanático trouxe à luz, com maior intensidade, suas concepções religiosas, fazendo-o lembrar aos hindus beatos que a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens, sendo totalmente inútil a fixação no passado, por mais glorioso que tenha sido.

A cada dia mais enfraquecido, voltou a Belur para levar uma vida de frade franciscano, em contato com a natureza. Ficava pouco tempo no quarto, apenas para escrever e meditar. Raramente dormia na cama, preferindo deitar no chão. Acompanhado do cão Bagha, da cabra Hansi e de um cabritinho, caminhava pelos campos, quase em êxtase, a cantar sua extraordinária e doce voz. Mesmo assim, encontrava tempo para desempenhar suas funções de reitor e com pulso firme dirigia o mosteiro, a despeito dos terríveis sofrimentos físicos.
A doença avançava e a diabete se transformou em hidropisia. Não conseguia dormir e o médico o proibiu de qualquer esforço, prescrevendo rigoroso regime que o impedia de tomar água. Resignado, suportou esse duro regime durante 21 dias.

Quando pressentiu a morte, chamou a todos os discípulos – até os do outro lado do mar. A tranqüilidade que aparentava enganou a todos, pois acreditavam que ele pudesse viver mais alguns anos. No dia 4 de julho de 1902, sentindo-se mais forte, levantou e foi à capela. Contra seus hábitos, fechou as janelas e a porta, ficando ali desde oito horas até às 11 da manhã.

Quando saiu estava transfigurado, falando sozinho e cantando o hino a Kali. Almoçou com apetite, acompanhado dos discípulos e depois ministrou aulas de sânscrito aos noviços, durante três horas. Posteriormente andou com Premananda cerca de duas milhas, pelos caminhos de Belur, falando do projeto de criação de um colégio para o ensino do Veda.

Às 19 horas as sinetas do convento chamaram para o Avati (culto). Vivekananda voltou ao quarto, contemplou o Ganges e dispensou o noviço que o acompanhava. A seguir mandou chamar os monges, pediu que abrissem todas as janelas e se estendeu no chão, permanecendo imóvel. Acreditavam que meditava. Uma hora depois, emitindo profundo suspiro, morria, fisicamente, o grande Vivekananda. Tinha pouco mais de 39 anos e confirmava assim sua profecia: “Não vou alcançar os 40 anos”.


Vivekananda Rock and Temple in Kanyakumari, Índia

Obras de Swami Vivekananda publicadas no Brasil:
O que é religião – Ed. Lótus do Saber;
Epopéias da Índia Antiga – Ed. Lorenz;
Quatro yogas de auto-realização – Ed. Pensamento;
Karma yoga: a educação da vontade – Ed. Pensamento

Sites que merecem a visita:

Vivekananda.net
Vivekananda.org

Vedanta.org.br
Ramakrishna.org


AGI! DESPERTAI! E NÃO VOS DETENHAIS ATÉ ALCANÇAR A META.
Swami Vivekanandají


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 2

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Consagração em Chicago

Tendo percorrido a Índia toda, foi um tormento deparar com a pobreza e a miséria daquela gente. Diante desse quadro tão desolador, ficou mais convencido da inutilidade da pregação aos desgraçados, sem antes aliviar seus sofrimentos. E pensando mais seriamente na salvação do povo indiano, decidiu buscar recursos em outras plagas, possivelmente na América.

Ouvindo falar sobre um Congresso de Religiões a ser realizado em alguma parte da América, tomou a resolução de participar dele. Dispondo de informações muito vagas, partiu de Bombaim no dia 31 de maio de 1893 e, por mar e terra, com a maior dificuldade, chegou a Chicago onde se inteirou de que o congresso seria realizado ali, depois de 10 de setembro. Todavia, o prazo para inscrições já estava vencido e além disso, nenhuma inscrição poderia ser aceita sem a apresentação de referências oficiais. Abalado, sem saber o que fazer por ser desconhecido naquela terra, não via solução. Tratou de telegrafar a seus amigos de Madras, solicitando a intercessão deles junto às Sociedades Religiosas a fim de conseguir alguma subvenção e as indispensáveis referências. As entidades oficiais, porém, não perdoavam os elementos independentes, tanto que um dos chefes vociferou: “Que esse diabo morra de frio!”.
Contudo o diabo não se rendeu e nem morreu. Com os poucos recursos que lhe restavam, embarcou para Boston e na viagem conheceu uma senhora de Massachusetts que, interessando-se por ele, o conduziu à sua casa e o apresentou ao helenista, J.M. Wright, professor da Universidade de Harvard; impressionado com o talento do indiano, custeou-lhe a viagem de volta a Chicago e providenciou as recomendações à comissão organizadora do congresso, garantindo, inclusive, alojamento. Com essas medidas, Vivekananda teve condições para representar o hinduísmo.

Em 11 de setembro o congresso foi inaugurado sob a presidência do cardeal Gibbons. Ao seu lado, assentava-se o delegado oriental, Protap Chumder Mazumdar, chefe do Brahmosamaj e antigo amigo de Narém. No plenário permaneciam os representantes das mais diversas seitas e religiões. Todos discursavam e, pela ordem, Vivekananda foi o último orador. Era a primeira vez que enfrentava uma assembléia dessa grandeza e mal iniciou seu discurso, saudando os irmãos norte-americanos, centenas de pessoas, de pé, irromperam em calorosos aplausos. Restabelecido o silêncio ele prosseguiu falando de um Deus universal, enquanto os que o antecederam falaram do Deus de suas seitas. Quando terminou foi ovacionado consagradoramente.
Voltou a ocupar a tribuna inúmeras vezes crescendo sempre o seu conceito e popularidade. Sabendo que ele falava por último o público aguardava paciente até o fim da sessão. Os jornais, New York Herald e Boston Evening Transncript, enalteciam a figura do jovem indiano. De um instante para outro estava célebre e isso poderia resultar em benefício para a Índia.

América, estranha e paradoxal

As influências hindus que, direta ou indiretamente, penetraram no espírito norte-americano, no século 19, deve ter contribuído para a formação da estranha mentalidade moral e religiosa dos Estados Unidos, na época de Vivekananda. Para um estrangeiro é difícil compreender a mescla de puritanismo anglo-saxão, de otimismo ianque, de pragmatismo de ciência e do pseudovedantismo. O problema deve envolver aspectos psicológicos que cabe à história da civilização analisar.

Segundo consta, o principal introdutor do pensamento hindu nos Estados Unidos foi Emerson, sob a influência de Thoreau. Outros como Edgard Poe e o poeta Walt Whitman também se inspiraram intensamente nesse espírito. Na realidade, existia na América, antes da chegada de Vivekananda, exemplos patentes de predisposição ao vedantismo.

Vivekananda aprendera a admirar Whitman, através de suas obras e mais tarde teve a oportunidade de conhecer melhor a vida do poeta, tornando-se amigo do famoso orador agnóstico e materialista, Roberto Ingersoll, íntimo de Whitman. Essa amizade significava a penetração de Vivekananda nos círculos mais livres e avançados do pensamento norte-americano. Ainda por intermédio de Ingersoll ficou sabendo que o fanatismo oculto persistia na América.

Esse conjunto de manifestações espirituais reinantes nos Estados Unidos, em ebulição no decorrer do século 19, explicava as reações positivas do povo norte-americano em torno de Vivekananda. Iniciando a série de pregações, acorriam para ouvi-lo centenas de homens e mulheres de todas as classes – gente das universidades e da sociedade, livres pensadores, agnósticos e até mesmo cristãos sinceros.

Vivekananda ficou surpreso – e muitos ficam até hoje – ao verificar que, paradoxalmente, naquela terra “jovem e velha” a esperança e o medo do futuro caminhavam juntos. Penetravam na verdade, participando da falsidade. Demonstravam, de um lado, o desinteresse total e, de outro, se entregavam ao imundo culto ao ouro. Ingenuidade de criança e maldade de fera. Apesar disso, Narém com muita prudência mantinha o fiel da balança conciliando as simpatias e antipatias e reconhecendo, constantemente, as virtudes e energias efetivas dessa América espetacular e estranha.

Encontrando apoio, fundou obras maravilhosas que permaneceram muito mais sólidas que as de outros países. Vivekananda ficava espantado com a facilidade com que os poderes constituídos destinavam verbas para todo tipo de serviço público e social. Na Índia, muito pouco se fazia para solucionar os problemas sociais; e ele, que vinha disposto a condenar o orgulho do Ocidente, rendia-se humilhado e confundido diante dos modelos de obras assistenciais mantidos nesse mesmo Ocidente.

Visitando uma prisão de mulheres observou o tratamento humano dispensado às prisioneiras e lembrou da indiferença dos indianos em relação aos seus presidiários. Nenhuma sociedade esmaga os infelizes, tão desapiedadamente, quanto a sociedade da Índia. A culpa não é da religião mas, sim, dos fariseus e saduceus hipócritas.

No Ocidente, as riquezas materiais deslumbravam Vivekananda, porém o que o embevecia realmente eram os bens sociais e morais. Admirava, também, a aparente igualdade democrática vistas nas menores coisas, como por exemplo, uma pessoa rica e nobre e outra do povo, viajando juntas no mesmo veículo. Isso tinha significação muito maior quando sabia dos preconceitos de castas existentes na Índia. Fazia ainda comparações entre a liberdade de muitas mulheres intelectuais, norte-americanas, e a vida de cativeiro das mulheres indianas. Deixava de lado o amor pátrio para reconhecer a superioridade do Ocidente, em todos os pontos, desejando apenas que essa superioridade pudesse levar benefícios ao seu povo.

Empreendeu na América uma série de campanhas apostólicas visando a propagação das sementes vedânticas e dos impulsos de amor de Ramakrishna. Conseguiu inúmeros adeptos e dentre eles destacou-se o jovem inglês, J.J. Goodwin, cuja conversão ocorreu a partir de 1895, que se dedicou inteiramente a Vivekananda como secretário e principal divulgador do pensamento do mestre.

Os três anos de viagem através do Novo Mundo, em contato permanente com o pensamento e a crença do Ocidente, amadureceram em Vivekananda a ideia de uma religião universal. Tinha pretendido escrever o Maximum Testamentum, o Evangelho Universal, porém para um espírito como o dele, a religião não deve ser firmada eternamente, em textos ou formas, mas deve, isso sim, acompanhar a evolução dos povos e dos tempos. O seu ideal de universalidade preconizava a união do Oriente e do Ocidente, independente de uma doutrina ou de um período. Sonhava com uma união viva e avançada e para isso foi organizada em Nova York a Vedanta Society sob a presidência de Sir Francis Legget. Essa entidade deveria ser o centro de irradiação do movimento vedantista na América e tinha por lema: “Tolerância e universalismo religioso”.

No ambiente frenético de Nova York, o gênio de Vivekananda ardia como tocha. Sua força física, porém, vinha se consumindo no trabalho estafante, comprometendo seriamente sua saúde já relativamente abalada desde a adolescência, quando passou a sofrer de diabete.

Tinha sofrido com o impaludismo (malária) e quase morrera, tempos antes, de difteria. Sem se abater, ele dizia: “minha vida se acaba”. Entretanto, prosseguia teimosamente em sua missão heróica. Acreditava que uma viagem à Europa faria bem. Para onde quer que fosse, continuaria se consumindo no trabalho.

Raça digna de inveja

Esteve na Inglaterra três vezes e numa dessas vezes, em 1895, passou por Paris antes de ir a Londres. A visita foi rápida e viu apenas algumas catedrais, museus e o túmulo de Napoleão. Mesmo assim, teve a impressão dominante de que a França tinha um povo privilegiado, cercado de artistas extraordinários. Voltou à França somente cinco anos depois.

Os efeitos dessas viagens foram muito mais profundos e inesperados do que os alcançados na América. Na Europa encontrou os mestres Max Muller e Pablo Deussen. A grandeza da ciência filosófica e filológica se identificava bastante com o seu gênio e probidade.

A Inglaterra proporcionou-lhe outra grande emoção: chegava como inimigo e se rendia ante a diferente realidade encontrada. Tanto assim que ao regressar à Índia proclamou com toda a lealdade: “ao desembarcar na Inglaterra eu trazia na alma todo o ódio contra a raça inglesa. Agora, porém, duvido que outros possam estimá-la tanto quanto eu”. A um discípulo norte-americano ele também confirmou ter modificado completamente sua opinião a respeito do povo inglês e não cansava de dizer: “raça digna de inveja! Impõe o respeito até mesmo àqueles a quem oprime”. Outras vezes dizia que o Império britânico, com todos os seus defeitos, era a maior de todas as máquinas para a propagação de idéias. Por essa razão tinha certeza de que o seu pensamento transmitido ali seria difundido pelo mundo inteiro.
Na Inglaterra fez amizade com Margaret Noble e com os senhores de Sevier. Margaret tinha 28 anos quando, aceitando as idéias de Vivekananda, seguiu com ele para a Índia a fim de se dedicar à instrução das mulheres. Naturalizou-se hindu e pronunciou os votos de Brahmacharya. Foi a primeira mulher do Ocidente admitida numa ordem monástica indiana e tomou o nome de Sister Nivedita.
Extremamente cansado e com a saúde mais abalada, foi obrigado pelos amigos a uma viagem de repouso na Suíça, onde permaneceu durante todo o verão de 1896. Aparentemente restabelecido, retornou à Inglaterra.

Deixou a Grã-Bretanha em 16 de dezembro de 1896, passando por Dover, Calais e Monte Cenis, dando por encerrada sua estada na Europa com uma rápida excursão pela Itália. Foi a Milão para contemplar a Ceia de Da Vinci e seguiu para Roma que considerava uma espécie de Delhi. Ficou espantado com a semelhança existente entre as liturgias católicas e as cerimônias hindus.

Fracasso no plano material

Impressionou-se vivamente diante das recordações dos primeiros cristãos e mártires, compartilhando da veneração do povo italiano pelas figuras de Jesus Cristo e da virgem Maria e jamais esqueceu desses fatos. Certa noite, num navio, sonhou com um ancião que lhe dizia: “Veja bem este lugar. É a terra onde começou o cristianismo e eu sou um dos que viviam aqui. As verdades que pregamos têm sido apresentadas como ensinamentos de Cristo, porém Ele nunca nasceu e quando fizerem escavações aqui, virão à luz as provas desta afirmação”.

Vivekananda acordou sobressaltado, querendo saber onde estavam e foi informado de que navegavam a 50 milhas da ilha de Creta. Até então ele nunca havia duvidado da autenticidade de Jesus, embora para um espírito como o dele, a realidade histórica de um Deus fosse a menor de todas as realidades. “O Deus que é fruto da alma de um povo é mais real que o nascido do ventre de uma virgem.”

Quando recapitulava os acontecimentos vividos nesse período de quatro anos, ficava convicto de que tinha adquirido enorme tesouro espiritual do qual seu povo iria participar. Contudo, seria isso o que a miséria de seus patrícios reclamava com mais urgência? Positivamente não. Nessas condições, materialmente, a viagem redundara em fracasso.

Necessitava reativar a luta sobre novas bases e refazer a Índia pela Índia. A solução devia sair de si mesmo, tendo que enfrentar um trabalho quase insano. Agora, porém, estava investido da autoridade que não possuía antes de viajar e isso o ajudaria bastante.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 1

.Grandes almas viajam longe. Narendranath Dutt – ou Swami Vivekananda – um dos sábios indianos mais conhecidos fora de seu país, percorreu boa parte do planeta para divulgar seus conhecimentos e sua herança espiritual. A trajetória de Vivekananda em muitos aspectos lembra a de um outro grande sábio indiano, Paramahansa Yogananda, que também saiu da Índia em direção aos Estados Unidos para levar a sabedoria do oriente à gente do Novo Mundo.

Vivekananda nasceu em Calcutá, a 12 de janeiro de 1863. Seu pai, que era advogado notável e político influente, deu-lhe a melhor educação possível, de acordo com os princípios modernos.

Desde muito jovem, Vivekananda foi atraído pela religião e a filosofia; devido, porém, à sua cultura ocidental, tinha o espírito cheio de dúvidas. Há um Deus? É este mundo todo ilusão ou realidade? Estas perguntas oprimiam seu cérebro, sem poder alcançar uma resposta satisfatória. A incredulidade e a sede do divino, alternativamente, tomavam posse de seu intelecto.

Foi neste período de sua vida que um amigo o levou a Sri Ramakrishna, que reconheceu de momento o futuro grande homem que iria comover o mundo. Em tom sarcástico, perguntou o jovem: “Há um Deus?” – “Sim, meu filho”, respondeu Ramakrishna, colocando seus dedos sobre o coração do jovem; e, com isto, desapareceu o jovem cético Narendra e nasceu Vivekananda, o sacerdote e profeta da humanidade. O tumulto de seu coração se havia acalmado.
Vivekananda graduou-se aos 19 anos e se destinava a seguir a carreira da advocacia; porém Ramakrishna o dissuadiu disso. Por morte do seu pai, viveu com seu mestre até o falecimento deste, submetendo-se às severas disciplinas das diferentes Yogas.

Em 1893, como Delegado ao Congresso das Religiões, em Chicago, apareceu, pela primeira vez, ante um público ocidental, empregando, daí por diante, seu tempo a ensinar no Ocidente a verdadeira filosofia oriental. Como fruto de suas conferências, nasceu o extraordinário movimento espiritualista que se nota nas Américas do Norte e do Sul.

Vivekananda passou os últimos dias de sua vida num mosteiro de Calcutá e morreu a 4 de julho de 1902. (notas biográficas retiradas do livro Karma Yoga, Ed. Pensamento).

Já havia escrito uma resenha sobre Yogananda em um artigo acadêmico, retratando o grande mestre indiano como um peregrino yogue, com a intenção de mostrar como as viagens e as deambulações ocupam uma grande parte da vida dos notáveis homens e mulheres que passaram por esse planeta (vide o texto sobre Madame Blavatsky postado aqui). Com Vivekananda não foi diferente; numa época em que o conhecimento não era difundido tão facilmente como nos dias de hoje, o jeito era por os pés na estrada e seguir a linha do horizonte.

Encontrei em um sebo um antigo exemplar da Revista Planeta, de 1975, do tempo em que ela saia no formato quadradinho e quando a maioria de seus artigos ainda prestigiava, diferentemente do que ocorre hoje, textos de cunho esotérico e espiritualista, uma grande reportagem sobre Vivekananda que mostra muito bem a relevância das viagens na vida desse sábio mestre indiano.

Adorei o artigo e não cedi ao impulso de divulgá-lo na íntegra aqui no Odepórica, por considerá-lo um documento essencial àqueles que pesquisam ou se interessam pelo orientalismo. Escrito por José Maria Brandão, o texto que você irá ler em três partes foi condensado do livro de Romain Rolland (A vida de Vivekananda, disponível em formato pdf no ótimo site http://www.estudantedavedanta.net/ ). Boa leitura e Namastê!



O misticismo e a religiosidade na Índia, através dos tempos, têm repercutido no mundo e algumas figuras místicas, dotadas de profundo espírito religioso, conseguem adeptos e seguidores por todas as partes. Nesse particular, talvez, muitos poucos tenham alcançado a projeção de Narendranath Dutt, nascido a 13 de janeiro de 1863 e que mais tarde adotou o nome de Vivekananda.

Descendente de tártaros, se orgulhava tanto disso que muitas vezes afirmou: “os tártaros, na Índia, são o vinho da raça. Tinha constituição atlética e praticava todos os esportes. O brilho dos seus olhos, escuros e profundos, penetrava no íntimo das consciências, seduzindo a todos. Nada escapava à sua visão e aguda perspicácia, captando prontamente os menores gestos ou meias palavras. Onde quer que estivesse, sua figura majestosa pairava acima de qualquer outra. Tinha nascido rei.
Dileto e extraordinário discípulo, tinha recebido a herança espiritual de Rmamakrishna para difundi-la por todo o mundo. Narém, como o chamava carinhosamente Ramakrishna, estava preparado para essa missão. Em sua fé inabalável, impunha a si mesmo duas condições: independência e trabalho. Livre de qualquer injunção e permanecendo só com Deus, socorria os miseráveis, combatia permanentemente a injustiça e o abuso, compartilhando sensivelmente das dores alheias.

O encontro com a miséria humana, principalmente de seus irmãos indianos, provocava em seu íntimo terríveis choques entre o amor, a fé, o orgulho e a ciência. Paralelamente, entretanto, essas convulsões interiores fortaleciam ainda mais o seu ânimo para prosseguir na sublime missão de amparar os desgraçados.

O peregrino da Índia

Em 1888, partindo de Calcutá, iniciou sua primeira viagem através da Índia. Passou por Benares, Daiyodia, Lucnow, Agra, Brindaban, Índia do Norte e Himalaia. Os objetivos dessa e de outras viagens não seriam conhecidos se não fossem relatados por alguns de seus discípulos. Vivekananda tinha o hábito de guardar segredo de suas experiências religiosas adquiridas junto ao povo.

No curso dessa peregrinação conseguiu logo no início a conversão de Sarat Chendra Gupta que passou a ser o primeiro de seus discípulos. Sarat ocupava na época o cargo de chefe da estação ferroviária de Hatras, situada perto de Brindaban. Fascinado pelos ensinamentos de Vivekananda, não teve dúvida em abandonar todos os bens terrenos para acompanhá-lo, fielmente, até a morte, com o nome de Sadananda.
Menos inteligente que Narém, possuía entretanto relativa cultura. Dominava o persa e tinha estudado as influências do sufismo. Alma de artista e de poeta, tanto quanto Vivekananda, tentava penetrar no mais íntimo dos pensamentos do mestre, buscando assimilar com perfeição seus ensinamentos.

Extremamente sensível, lembrava, às vezes, Paramahans, que, vendo um búfalo ser fustigado, viam surgir em seu corpo, imediatamente, as marcas do látego. Era dotado, também, de apurado sentido democrático, resultante, em parte, das influências maometanas. Exercia extraordinário poder sobre os jovens que o adoravam.
Caminhando juntos, Vivekananda e Sadananda, muitas vezes pareciam mendigos. Passaram fome e sede e em algumas ocasiões foram tomados por malfeitores e perseguidos. Certo dia, Sadananda ficou doente e foi carregado às costas pelo mestre através das selvas brutas e perigosas. Logo depois o próprio Vivekananda adoeceu e tiveram que retornar a Calcutá.

Nessa primeira viagem, Vivekananda teve a oportunidade de sentir e de viver a Índia eterna, a terra dos vedas com seus heróis, lendas e glórias. Conseguiu também a unidade espiritual dos árias, mongóis e drávidas.

Frustrado o desejo de solidão

Empreendeu inúmeras viagens ao interior da Índia, pregando, lutando a favor dos fracos e humildes e demonstrando, na prática, a beleza da fraternidade. Procurou incutir na mente de cada um o verdadeiro espírito cristão, fosse qual fosse a religião adotada. O importante é Deus em toda a sua plenitude e magnanimidade.

Vivia em constante luta interior, tentando sufocar as forças malignas que procuravam impedir seus impulsos de bondade. Dentro de si trazia uma avalancha de ambição e sede de domínio como se fosse um novo Napoleão, voltado inteiramente ao trabalho de humanização da Índia e do mundo.

O primeiro ano de Baranagor foi destinado à instrução mútua dos discípulos, que não estavam preparados convenientemente para falar aos humanos. Necessitavam, além do mais, de concentração espiritual para alcançar a realização mística, pois só assim estariam imunizados contra os perigos da vida material. Narém, conhecendo bem a natureza humana, exigia deles intensos momentos de meditação e não admitia qualquer demonstração de preguiça ou de fraqueza.
Tendo alcançado excelentes resultados e consciente da continuação de sua obra, decidiu deixar Baranagor, em julho de 1890, a fim de praticar somente o recolhimento. Antes, porém, foi solicitar a benção e a permissão de Sarada Devi, viúva de Ramakrishna, mulher sensata e nobre, venerada e admirada por todos. Autorizado, seguiu sozinho para o Himalaia onde desejava permanecer indefinidamente, em retiro, renunciando assim a quaisquer sujeições mundanas. Contudo, o mundo aqui fora não permitiu a realização dessa vontade. A notícia da morte de uma irmã, em circunstâncias trágicas, fê-lo voltar à realidade.

Lembrou-se do imenso sacrifício das mulheres indianas, vítimas, como sua irmã, de uma sociedade cruel e desumana, e entendeu que pretender se afastar dos problemas de seus compatriotas era crime imperdoável.

Desaparecem os preconceitos

Vivekananda não parava de trabalhar um instante, buscando sempre o aperfeiçoamento das idéias e experiências através de estudos contínuos. Tanto assim que em Khetri foi aluno do principal gramático em sânscrito, completando sua cultura maometana e jainista em Ahmedabad. Já em Porbandar permaneceu três meses aprofundando-se em filosofia e sânscrito, com pandits sábios e trabalhando com Trigunakita, tradutor dos Vedas.

Nunca estava satisfeito e exigia sempre mais de si mesmo e dos outros. Levava a todas as partes a Imitação de Cristo e com o Bhagavad difundia o pensamento de Cristo, não aceitando os que não perdoavam. O Cristo de suas pregações tinha os braços abertos a toda a humanidade.
Aos 20 anos ele era um fanático desprovido de simpatia e incapaz de qualquer concessão. Evitava passar pelas ruas de Calcutá, próximas ao teatro, com receio de se contaminar espiritualmente. Certa vez, estando hospedado na casa de um marajá de Khetri, foi-lhe apresentada uma cantora. Ele, sem nenhuma humildade e mesmo desdenhoso, fez menção de sair, todavia a pedido do príncipe acedeu em ficar para ouvi-la e um dos versos da canção dizia: “Oh Senhor! Não olheis apenas meus defeitos, pois vós mesmo dissestes: a meus olhos todos são iguais!” Narém ficou transtornado e nunca mais se esqueceu disso. Alguns anos depois, escrevendo a um discípulo, ele dizia que aos 33 anos estava vivendo na mesma casa que abrigava prostitutas.

Seus preconceitos tinham desaparecido totalmente. No Himalaia conviveu entre raças de tibetanos que praticavam a poliandria e quando procurou explicar-lhes a imoralidade daquela prática, eles, revoltados, entenderam que Vivekananda desejava a mulher, exclusivamente, para si. Teve também a companhia de malfeitores, malandros e salteadores, descobrindo entre alguns deles verdadeiros santos em potencial. Um ladrão que havia furtado seu santo “guru”, Pavhari Baba, tocado pelo arrependimento, mais tarde tornou-se monge.
Na Índia Central viveu com uma família de varredores, ficando extasiado ante os tesouros escondidos na alma daquela gente esmagada pela sociedade, e sentiu quanto tinha a aprender para fazer algo de bom. Ao saber que alguns homens morreram de fome, em Calcutá, exclamou: “que temos feito pelos chamados homens de Deus, os sannyasins? Que temos feito?” E deu razão a Ramakrishna quando disse rudemente: “a religião não foi feita para os estômagos vazios”.

As especulações da fé egoísta o irritavam e, segundo seus princípios, o amor ao próximo e a prática de boas ações surtiam melhor efeito que a leitura do Vedanta. “Oxalá pudesse eu viver mil vezes para, através dos homens, servir ao Deus único, soma total de todas as almas. Deus dos malvados, dos humildes, dos perseguidos e dos injustiçados, o Deus infinitamente bom para todas as raças.”

A maioria das fotos foram retiradas do site Vivekananda.net

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mongólia, by Bernardo Carvalho

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Minha última leitura revelou-se uma grata surpresa: Mongólia, de Bernardo Carvalho, brasileiro do Rio de Janeiro que vem produzindo uma respeitada carreira literária. Já de cara adorei a capa do livro: fotos em p&b do próprio autor, dá vontade de ver o que tem dentro; um mapa da Mongólia nas páginas 7 e 8 entrega: temos relato de viagem pela frente. E dos bons.

A narrativa de Mongólia é muito interessante: um diplomata carioca aposentado recebe uma missão especial do Itamaraty. Um jovem fotógrafo havia viajado para a Mongólia há muitos meses e ninguém mais sabia do seu paradeiro. Ao diplomata coube a tarefa de enviar alguém à Mongólia em busca do rapaz aventureiro, um subordinado (também ele diplomata) que, assim que descobre de quem se trata, recusa o trabalho. Mas não era um caso a que se pudesse recusar, de modo que o enviado, chamado pelos mongóis de Ocidental, vai a contragosto cumprir sua missão, relatando os acontecimentos de sua viagem em um diário.

A partir desse ponto o leitor conhecerá a Mongólia através de duas fontes narrativas: o diário do Ocidental, lido pelo narrador principal, e o diário que o rapaz sumido escreveu, lido pelo diplomata que parte ao encontro dele. É através do diário do fotógrafo que o Ocidental tenta buscar as pistas que o levarão ao encontro do rapaz. E é pelo olhar dos dois que o leitor irá conhecer um pouco da cultura e da tradição mongol.

No que se refere às pistas deixadas pelo diário do Ocidental, dos lugares por onde andou, há uma passagem muito interessante em que o autor coloca, na boca de um personagem mongol (Purevbaatar) encarregado de guiar o Ocidental pelas estepes, o significado do termo ‘lugar’, que no contexto da cultura nômade ganha uma dimensão diferente quando comparado com a nossa compreensão da mesma palavra:

“Talvez você não tenha entendido o meu trabalho quando me contratou. Não brinco em serviço. Você me pediu para fazer o mesmo percurso que fiz com ele há seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar. Mudam conforme as estações. Os lugares são as pessoas. Você não está procurando um lugar. Está procurando uma pessoa. Pois é atrás dela que eu estou indo.”

O mérito de Bernardo Carvalho reside na maneira como ele constrói o diálogo entre as personagens através de seus diários de viagem, numa linguagem simples e bastante descritiva. Vale a pena saber que o autor efetivamente viajou pela Mongólia (como bolsista, em 2002), o que de fato acrescenta à narrativa uma sensação de realidade factual que dá à história um frescor cativante.

Não posso dizer muito mais sobre o enredo sem correr o risco de entregar a surpresa guardada para o final. Por isso, vamos analisar algumas passagens que me pareceram interessantes sob o ponto de vista da literatura odepórica. O que nos revela o olhar do Ocidental? Quais foram as impressões anotadas em seu diário pelo jovem fotógrafo? Como a cultura ocidental dialoga com a cultura dos nômades? Respostas a essas questões vão surgindo aos poucos durante a leitura. Provocação, preconceito, curiosidade, temor, julgamento, tudo isso afeta e ao mesmo tempo constrói o olhar do estrangeiro. Lições que podemos aprender, nós que também adoramos viajar. Mais um motivo para encarar, com prazer, as 185 páginas de Mongólia.


Do diário do desaparecido (pág.38)

5 de julho. Voamos de Ulaanbaatar para Khatgal, na região de Khövsgöl, terra de xamãs na fronteira com a Rússia. O Antonov aterrisa aos sacolejos na pista de terra mal nivelada. Os passageiros pulam em suas cadeiras. Alguns estrangeiros se entreolham e riem. É como pousar num campo esburacado. Batnasan, nosso motorista, um homem grande e boa-pinta, nos espera com seu furgão russo ao lado da pista. Vamos para Tsagaannuur, ao contrário dos outros passageiros, que vieram passar o fim de semana às margens do lago Khövsgöl, na tranqüilidade de um campo turístico com uma paisagem alpina e familiar ao fundo. É o começo da minha viagem.

Meu objetivo é fotografar os tsaatan, criadores de renas que vivem isolados na fronteira com a Rússia, entre a taiga e as montanhas. Estão em vias de extinção. Abastecemos em Khatgal. O vilarejo tem jeito siberiano. Não há um bairro de iurtas, como na maioria das cidades da Mongólia. As iurtas – ou gers, em mongol – são tendas circulares, com estrutura de hastes de madeira, cobertas por uma camada de feltro no interior, outra intermediária de tecido impermeável ou plástico e por último uma lona branca, que funcionam como isolantes no calor ou no frio. Mantêm o frescor no verão de trinta graus e o calor no inverno de menos trinta.

A fenda redonda no topo serve tanto de saída para a chaminé do fogareiro central como de ventilação, e é de especial utilidade durante as tempestades de areia mo deserto. Serve também de relógio de sol, deixando entrar os raios que, ao iluminarem progressivamente diferentes pontos, marcam as horas do dia. A porta, de madeira, fica sempre virada para o sul, por causa do sol provavelmente.

Há todo um cerimonial e uma série de regras de comportamento para quem entra numa iurta, a começar pela interdição de bater na porta, que é sagrada. Bater indica hesitação do viajante e, por conseguinte, constitui uma ofensa aos moradores, como se ele não os considerasse dignos de recebê-lo. Fáceis de montar, as iurtas são ideais para os nômades. Não poderia haver arquitetura mais adequada a um país sem árvores, castigado pelo vento e por oscilações extremas de temperatura.

Já nos vilarejos do norte, como em Khatgal, as casas são de madeira, barracões com telhados de chapas metálicas pintados de verde ou vermelho. É uma região de florestas. A população local não é formada pela maioria étnica mongol, os khalk, mas pelos darkhad, que têm um sotaque forte e são orgulhosos de sua identidade, como o nosso motorista. A viagem até Tsagaannuur deve levar dois dias. O terreno é especialmente ruim e acidentado. Quando não são os buracos e as montanhas, são os pântanos. (...)

Geou pela manhã. Chegamos a Tsagaannuur no final da tarde. É um vilarejo conhecido pelos bêbados, perdido às margens de um pequeno lago. Precisamos pegar uma autorização na polícia de fronteira para visitarmos os tsaatan. A polícia fica num barracão de madeira. No interior do barracão, um grande mapa da região ocupa toda uma parede coberta por uma cortina de cetim vermelho. O delegado é um sujeito gordo, sempre acompanhado por dois soldados simpáticos. Toda a situação tem um quê de peça de Gogol. Seguimos viagem à procura do guia que poderá nos levar a cavalo até os tsaatan, pelas montanhas e pela taiga. (...)

Seguimos de carro à procura de um lugar protegido onde armar as barracas. O terreno é pantanoso. Somos devorados pelos mosquitos. Quando finalmente surge um canto que me parece adequado, Batnasan se recusa a se aproximar com o furgão. Diz que ali é impossível, diz que é proibido e aponta para um pinheiro em que está amarrada uma faixa azul. O local é sagrado, está povoado de espíritos. Alguém pode ter morrido ali.

Estamos em terra de xamãs. Quem viaja por toda a Mongólia vai encontrando pelo caminho amontoados de pedras, como pequenas pirâmides com faixas e estandartes azuis fincados no topo. São os ovoos, que marcam os locais onde há maior proximidade entre o céu e a terra e maior facilidade de comunicação com os espíritos. Designados pelos xamãs, em geral ficam em pontos altos da paisagem, mas nem sempre. E é de bom agouro para o viajante jogar uma pedra e dar três voltas em torno do ovoo, em sentido horário, sempre que depara com um. Na Mongólia, a terra reflete o céu. A sombra das nuvens corre pelo deserto e pelas estepes. O céu está sempre tão perto. A paisagem não se entrega. O que você vê não se fotografa.


Reflexões sobre o nomadismo (do diário do Ocidental, pág 137)

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma posta. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência.

É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A ideia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que define o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade de costumes.
Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes, etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão pela estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento.

Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais.
Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada.

Leia:

Mongólia. Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

sábado, 2 de outubro de 2010

Cartas do yage, by William Burroughs & Allen Ginsberg

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Estou todo contente, só porque acabei de ler uma recente publicação sobre a literatura beat. Trata-se de uma pequena e deliciosa coletânea de entrevistas com os mais conhecidos nomes da cena beat, editada pela Azougue Editorial na coleção Encontros (a arte da entrevista). O título, óbvio e básico: Geração Beat, organização de Sergio Cohn. O conteúdo da pequena coletânea de entrevistas não deixa nenhum fã da literatura beat desapontado, bastando dar uma olhada nos entrevistados para saber que o lance é bom: Allen Ginsberg, Gary Snyder, Jack Kerouac, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassady, Will Burroughs, Michael McClure e até Bukowski, que nem era beat mas que sempre aparece no meio dos malucos todos da época.

Cada uma das entrevistas é uma pequena jóia, um documento valioso para quem curte os beats e quer saber um pouco mais de seus escritores favoritos. Para mim, que sou suspeito, Kerouac sempre brilha mais, e a entrevista intitulada “Santo Jack” (1959) é uma curtição só, você se sente ali ao lado dele e do entrevistado, e de sua mãe Gabrielle, que vira e mexe aparece para dar uns pitacos, enquanto Jack entorna uma lata de cerveja atrás da outra (mas sem nunca perder a pose e a lucidez). Vou dizer uma coisa: nas mãos de um autor competente, só essa entrevista renderia uma boa montagem teatral.
Gary Snyder é outro que me surpreendeu; sua entrevista, publicada originalmente em 1977 na revista East West tem o sugestivo título de “Meditar e varrer o jardim”. Para quem não conhece a turma, Snyder (que completou 80 esse ano) é o beat zen da galera, um poeta prestigiado que passou anos no Japão, com formação em antropologia e cultura oriental. Meditou pacas, influenciou Kerouac de montão em sua fase budista e nunca deixou a peteca cair. Embora nem se considere um beat – e de certa forma estava mesmo distante daquela parada toda – foi sempre tratado como tal. Eu diria que a seu modo Snyder foi uma alternativa zen em meio a tantas doideiras praticadas pelos outros, sobretudo no que diz respeito ao uso de drogas, hábito comum a todos, mas incompatível com a proposta espiritual dele. Por essas e outras, Snyder é um homem que brilhou - que ainda brilha, por ter vivido de acordo com suas crenças de forma honesta, sem nenhum tipo de hipocrisia. A entrevista dele faz com que você perceba isso com muita facilidade.
Outro poeta e nome chave da cena beat, Allen Ginsberg, é mais um que merece destaque na coletânea. Assim como Snyder, Ginsberg também foi um homem que viveu de maneira honesta aquilo que acreditava, mas seu barato era outro, e só quem já leu seus escritos e poemas sabe a dimensão porralouquice de sua obra. No bom sentido, sempre. Allen Ginsberg foi genial, de uma cultura e inteligência acima da média e não se pode negar o papel de destaque que as drogas sempre tiveram em sua vida. E também na de William Burroughs, seu grande amigo e outro nome fundamental na história do movimento beat.
E é desses dois camaradas de quem vou agora tratar, só que deixando de lado o Geração Beat (leia, leia, leia!) e tomando nas mãos o pequenino livro intitulado Cartas do yage, que tem a ver com viagem, afinal, e cujo resumo copio descaradamente da capa posterior:

“Em 1953, logo após a controversa morte acidental de sua mulher, William Burroughs (1914-1997) se lançou em uma viagem à América do Sul. Mais especificamente ao Peru e à Colômbia, na busca pelo yage, ou ayahuasca, droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. (...) um pouco diário de viagem, um pouco relato ficcionalizado, contém as cartas escritas ao amigo, amante e poeta Allen Ginsberg (1926-1997) sobre a experiência. Traz também as cartas que este enviou a Burroughs sete anos mais tarde, ao fazer uma jornada similar.”

Simples assim. A obra (lançada originalmente pela mítica City Lights, em 1963) como consta no resumo acima, trata da troca de correspondência entre Allen e Will Burroughs contando suas experiências com o yage no Peru e na Colômbia amazônica. Primeiro foi um, WB em 1953; sete anos depois, é Allen quem vai e daí você que nem leu já pode imaginar o que os dois devem ter aprontado no meio do mato pra poder garantir um barato alucinógeno. Diz o Will (em sua obra Junkie):
"Andei lendo sobre uma droga chamada yage, usada pelos índios da nascente do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário da heroína, que a estreita. Talvez eu descubra no yage o que andava procurando na heroína, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo.”

O yage, do título, é a conhecida ayahuasca, o cipó de onde se produz a mesma bebida que ingerem os membros do Santo Daime, de quem já falamos aqui no Odepórica outras vezes. A diferença entre a experiência destes (Will e Allen) com a dos praticantes dos grupos religiosos é a conduta espiritualmente pouco ortodoxa dos dois escritores; ainda que possa parecer haver algo de espiritual na busca de ambos, por conta do desejo em experimentar uma expansão da mente, fica a noção de que o que buscavam de fato era a pura fruição alucinógena (em particular no caso de Burroughs), sem qualquer preocupação com a sacralidade. A bem da verdade, Burroughs sempre foi um junkie inveterado, tendo feito de seu próprio corpo um templo para todos os tipos de experiências com drogas (ainda assim, apesar de todos os excessos nessa área, o homem teve a proeza de viver 83 anos, um verdadeiro antecessor de Ozzy Ousborne). Allen Ginsberg, diferente de Will, sempre viveu uma profunda - e aparentemente legítima- busca espiritual, o que se nota com clareza ao se comparar os relatos de ambos ao descreverem suas experiências com o yage numa comunidade peruana.
Enfim, não resta muito a ser dito. O livro é curto, as cartas idem. Escolho apenas duas amostras, a título de curiosidade. A primeira missiva escrita por William Burroughs, a outra pelo Ginsberg. Apenas um recorte, bastante superficial, de duas viagens empreendidas por homens que nunca tiveram medo de viver seus sonhos e loucuras - loucuras estas muitas vezes praticadas até o limite no qual a maioria das pessoas jamais ousaria se aproximar.



Lima, 10 de julho de 1953

Querido Allen:

Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Puccalpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva por mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado.

Minaretes, palmeiras, montanhas, florestas. Um lento rio onde pulam peixes defeituosos, enormes parques tomados pelo mato onde os meninos deitam na grama ou jogam. Nenhuma porta trancada na cidade. Qualquer um entra no seu quarto a qualquer hora. O chefe de polícia é chinês, palita os dentes e escuta as denúncias de um louco. Hipsters com os rostos macilentos e flácidos recostam-se nas portas, revirando cabeças encolhidas nas correntes de ouro, rostos inexpressivos com uma calma insetívora jamais vista.

Atrás deles, através da porta aberta, mesas e reservados, bares e quartos, cozinhas e banheiros, casais copulando em fila nas camas de latão, ziguezague de milhares de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor.

Mesas de jogo onde são feitos jogos com apostas incríveis. De vez em quando, um jogador pula dando um grito inumano e desesperado por ter perdido a juventude para um velho ou por tornar-se latah para seu adversário. Mas há apostas mais altas que a juventude ou o latah. Jogos em que apenas dois jogadores no mundo sabem qual é a aposta.

Todas as casas da cidade são geminadas. Casas de barro com mongóis da montanha piscando nas portas enfumaçadas, casas de bambu e de teça, casas de adobe, pedra e tijolo aparente, casas do Pacífico Sul e de Maori, casas em árvores e casas em barcos, casas de trezentos metros de comprimento que abrigam tribos inteiras, casas de caixas velhas e ferro enferrujado onde os velhos vestidos de farrapos podres sentam falando sozinhos e cozinhando calor enlatado, grandes e enferrujadas bastes erguendo-se trinta metros no ar, saindo dos pântanos e do lixo com perigosas repartições construídas sobre plataformas de vários níveis e redes balançando no vazio.

Expedições partem para lugares desconhecidos, com propósitos desconhecidos. Estranhos chegam em balsas de caixotes velhos amarrados com corda podre. Cambaleiam para fora da floresta, os olhos inchados das picadas de insetos. Descem pela trilha da montanha com os pés quebrados e sangrando através dos poeirentos e ventosos arredores da cidade, onde as pessoas cagam em fila ao longo das paredes de adobe e urubus brigam por cabeças de peixe; caem nos parques com pára-quedas remendados. São escoltados por um policial bêbado para se registrarem num enorme banheiro público. Os dados tomados são pendurados por um prendedor e usados como papel higiênico.

Os cheiros da cozinha de todos os países pairam sobre a cidade, uma névoa de ópio, haxixe, a fumaça sinuosa e vermelha do cheiro de comida da floresta, sal, o rio podre, excremento seco, suor e genitais. Floresta de altas montanhas, jazz, bebop, instrumentos mongóis de uma corda, xilofones ciganos e gaitas árabes.

A cidade é visitada por epidemias de violência, e os mortos abandonados são comidos por urubus nas ruas. Não são permitidos funerais nem cemitérios.

Albinos piscam ao sol, garotos sentam-se nas árvores masturbando-se languidamente, pessoas atacadas por doenças desconhecidas cospem nos passantes, mordem-nos, jogam pus, cascas e vários tipos de vetores (insetos suspeitos de transmitir doenças), esperando infectar alguém.

Quando você fica completamente bêbado, acorda com um desses cidadãos doentes na sua cama, que passou a noite exaurindo sua ingenuidade tentando se infectar. Mas ninguém sabe como as doenças são transmitidas ou se são realmente contagiosas. Esses mendigos doentes vivem num labirinto de tocas sob a cidade e surgem de lugar nenhum, quase sempre se arrastando pelo chão de um bar lotado.

Seguidores de ocupações inimagináveis e obsoletas rabiscam em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmina ensopada, junk reduzida ao simples vício de oferecer uma serenidade vegetal precária, líquidos para induzir o latah, antibióticos cortados, soro da longevidade titoniano, negociantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, vendedores de remédios para a doença da radiação nuclear, investidores de infrações denunciadas por calmos e panorâmicos jogadores de xadrez, executores de ordens fragmentárias determinando inomináveis mutilações de espírito anotadas – em taquigrafia hebefrênica, burocratas de espectrais repartições, oficiais de estados policiais não-constituídos, uma anã lésbica que foi recém-operada, a ereção pulmonar que estrangula um inimigo adormecido; vendedores de cilindros de orgônio (*energia vital perceptível sobretudo durante o orgasmo sexual) e máquinas de relaxamento, corretores de sonhos fantásticos e memórias testadas em células sensibilizadas pela fissura e permutados pelos materiais crus da vontade; médicos treinados no tratamento de doenças dormentes na poeira negra das cidades em ruínas, acumulando virulência no sangue branco dos vermes sem olhos, sentindo vagarosamente a superfície e os hospedeiros humanos, enfermidades do fundo do oceano e da estratosfera, enfermidades de laboratório e da guerra atômica, eliminadores da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito.

Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo.
William Lee

Trechos de uma carta escrita por Allen Ginsberg a William Burroughs, contando sua experiência com o yage. (Desenhos de Allen)

Pucallpa, 10 de junho de 1960

(...) A primeira vez foi muito mais forte que a bebida que tomei em Lima; Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar – a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deite-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, fora de sua cabana, onde ele cozinha) comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações, aproximando-se de minha mente como uma grande e úmida vagina, onde fiquei por um tempo, a única imagem que posso recriar é de um grande buraco negro do Deus-Nariz, através do qual vi um mistério – e o buraco negro cercado por toda a criação, especialmente cobras coloridas – tudo real.
Me senti um pouco como o que esta imagem representa, a sensação é tão real.

O olho é uma imagem imaginária, que dá vida ao quadro. Também há uma sensação corporal de grande satisfação, nenhuma náusea. Durou, em fases distintas, umas duas horas – os efeitos desapareceram em três horas – a fantasia durou três quartos de hora depois de beber até mais ou menos duas horas depois.

(...) fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite – dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes (xícara esmaltada, lembrei-me da tua xícara de plástico), então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi.

Vi uma estrela cadente – aerólito -, antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu ... No início, comecei a me dar conta que a minha preocupação com os mosquitos e o vômito era idiota, já que era uma questão de vida ou Morte – Senti-me encarado pela Morte, minha caveira na minha barba num catre num pórtico, rolando para frente e para trás e finalmente parando, como que reproduzindo o último movimento que faço antes de estabelecer a morte real – senti náusea, corri para fora e comecei a vomitar, todo coberto de cobras, como um Serafim-Cobra, serpentes coloridas numa auréola ao redor do meu corpo, senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao empreender o Assassinato do Universo – minha morte por vir – a morte de todos por vir – ninguém está preparado – eu não estou preparado – ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo – vomitando sua vontade de viver, de ser preservado neste corpo, quase – Voltei e me deitei – Ramon veio suavemente como uma enfermeira (ele não tinha bebido, é uma espécie de ajudante para auxiliar os sofredores) e perguntou-me se estava bem e “bien mareado” (bem bêbado) – eu disse “bastante” e voltei para ouvir o espectro que se aproximava da minha mente.
(...) lembro-me que você disse para tomar cuidado com a visão de quem se tem – mas Deus sabe eu não sei a quem me voltar quando finalmente a Sorte tiver baixado espiritualmente e eu tiver que depender da minha própria memória de Ser-Serpente das Alegres Visões de Blake – ou depender de nada e entrar de vez – mas entrar no quê? – Morte? – e naquele momento – vomitando, sentindo-me ainda como um Grande e perdido Anjo-serpente vomitando na consciência da Transfiguração por vir – com o senso radiotelepático de um Ser cuja presença ainda não senti completamente – tão terrível para mim, ainda aceitar o fato da comunicação total com, digamos, qualquer serafim eterno, macho e fêmea ao mesmo tempo – e eu, uma pobre alma perdida buscando ajuda – bem, vagarosamente a intensidade começou a diminuir, fiquei incapaz de me mover em qualquer direção, espiritualmente – sem saber quem procurar – sem confiança para perguntar ao Maestro – apesar de que, na visão da cena, dentre todos era ele o guia espiritual local lógico a quem recorrer – levantei e sentei a seu lado (como Ramon sugeriu suavemente) para ser “assoprado” – isto é, ele cantarola para curar a tua alma e assopra fumaça – uma presença bastante confortadora, apesar de que agora o medo mais profundo tenha passado – ao passar de todo, levantei-me, peguei um mosquiteiro que tinha trazido e fui para casa ao luar, com o gordo Ramon – que disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai – visitar a lua, ver os mortos, ver Deus – ver os espíritos das árvores etc.
Allen Ginsberg

Leia:
Geração Beat. Azougue Editorial, 2010.

Cartas do Yage. William Burroughs & Allen Ginsberg. L&PM, 2a edição, 2008.