domingo, 14 de novembro de 2010

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector, by Douglas P. Barreiros

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Encontrei por acaso esse texto enquanto fazia uma pesquisa na web para minha próxima postagem. Ando lendo a obra de Isabel Allende, de quem pretendo falar em breve, e foi buscando informações dessa encantadora (e encantada) escritora que me deparei com outras duas grandes mulheres da literatura mundial, Virginia Woolf e Clarice Lispector.

Nunca li Virginia Woolf, e de Clarice conheço pouco, um par de obras lidas na época do colégio. Preciso dar um jeito nisso, mas enquanto não tomo vergonha na cara, vou lendo pequenas passagens aqui e ali, comentários, citações, frases soltas em diários virtuais...

Embora não conheça a obra de Virginia Woolf, sei um pouco de sua biografia por conta de um livro delicioso escrito pelo Antonio Bivar, autor que sempre recomendo e que é membro do Virginia Woolf Society; de suas peripécias pela Inglaterra, no meio da inglesada toda apaixonada pela obra de Virginia, publicou em 2005 Bivar na corte de Bloomsbury. (mais sobre o Bivar aqui)

O texto que você irá ler é uma análise acadêmica de duas obras que marcaram o início da produção literária de Clarice e Virgínia: Perto do coração selvagem e The voyage out. O autor, Douglas Paulino Barreiro, escreve que é uma beleza, sendo sua análise clara e objetiva, como deveriam ser todas as análises literárias.

As duas obras tratam do tema da viagem. O autor escreve que nessas obras a viagem aparece “como construção alegórica que representa o percurso de transformação interior vivido pelas protagonistas”. Primeiro ele trata de analisar o livro da Virginia Woolf, em cuja obra “a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino”; depois é a vez da nossa Clarice, que faz uma viagem diferente, mas que em comum com a narrativa da inglesa tem a jornada rumo ao mar. O objetivo do autor foi o de traçar analogias entre os textos das duas escritoras.

O Douglas não explorou muito algo que a mim me chamou a atenção: o significado simbólico da água. Matriz, de onde surge a vida, a água traz à tona os elementos do inconsciente, é purificadora e tem fortíssima ligação com o feminino, a fertilidade e a fecundidade. E isso só para ficarmos na superfície, claro. Gostoso notar que de uma leitura surgem inúmeras outras, não? Namastê!

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector



Por Douglas Paulino Barreiros



A literatura de viagem tem uma longa história e desde seus primórdios caracteriza-se como o relato de uma vivência proporcionada por um deslocamento físico. Trata-se, portanto, da descrição/narração de uma experiência vivida por alguém que partiu de um lugar conhecido e se dirigiu para um espaço novo, estranho. Essas narrativas, contadas sob a ótica estrangeira do viajante, são uma espécie de ligação entre um mundo vivenciado e um outro desconhecido.

Contar os acontecimentos de uma viagem implica uma tradução do “outro”, do “novo”. Aquele que viaja tem um repertório próprio de imagens, símbolos e concepções. Por isso, a representação da alteridade se faz por meio do afastamento e da aproximação do que é visto pela primeira vez com o que é familiar.

Esses relatos unem aventura, observação, impressões e representações, que constituem um modo único de escrita, um gênero próprio, condicionado a uma prática particular, a viagem. As narrativas de viagens não podem ser consideradas exclusivamente como documentos históricos, literários, ficcionais ou científicos, isso porque, muitas vezes, estes estilos encontram-se reunidos simultaneamente.

Tomando o século XVI, período das descobertas, como ponto de partida, é possível perceber que a literatura de viagem evoluiu gradativamente, passando de um relato descritivo para o registro de uma experiência. Se antes o ponto de interesse era a descrição de um espaço exterior, bem como seu reconhecimento, hoje, a narrativa de viagem firma-se como a escrita de uma vivência pessoal do indivíduo viajante, o que resulta em uma poética de impressões subjetivas.

Essa transição é fruto das transformações ocorridas entre os séculos XVI a XX, como por exemplo, o desenvolvimento cartográfico, as evoluções dos meios de transporte cada vez mais velozes, o surgimento dos meios de comunicação de massa, que além de informar o que se passa ao redor do mundo, conta com a presença de imagens que mostram lugares distantes e inacessíveis. Todas essas questões contribuíram para que na modernidade a literatura de viagem se desenvolvesse como narrativa deixando seu caráter pragmático para trás.

O que importa saber é que o tema da viagem é ainda hoje marca recorrente na literatura universal e se apresenta sob formas diversas, como a viagem real, imaginária, simbólica, fantástica ou alegórica. Dentre essas maneiras de se tematizar a viagem, a alegoria merece atenção especial, pois é possível perceber um número considerável de obras modernas que se utilizam desse recurso narrativo para reeditar o interesse pela viagem. Com o objetivo de proporcionar uma discussão em torno dessa modalidade, partiremos da análise de dois romances modernos cujo tema da viagem é tratado pelo viés alegórico.

Os textos aos quais nos referimos são The Voyage Out, de Virginia Woolf e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector. Estas obras marcam o início da produção literária de ambas as autoras. Acreditamos que a seleção destes escritos é significativa, pois além de tratarem do tema da viagem, eles delineiam as características principais das escritoras.

A partir da leitura e análise dessas obras, é possível perceber que nesses romances a viagem é na verdade uma construção alegórica que representa o percurso de transformação interior pelo qual passam as protagonistas. Essa hipótese pode ser confirmada a partir dos conceitos que João Adolfo Hansen aborda em seu livro Alegoria: construção e interpretação da metáfora.

Para este estudioso, a alegoria está diretamente relacionada com a metáfora sendo que a diferença entre elas seria de ordem estilística. Enquanto a metáfora é uma figura de palavras, a alegoria estende-se ao nível do enunciado, ou seja, a alegoria é na verdade uma metáfora continuada.

Vale ressaltar outra questão tratada por Hansen. Segundo este autor, a alegoria é ordenada em lugares-comuns, sendo a travessia pelo mar o mais usual de todos. Para ele, a viagem assume, de modo geral, o significado de destino pessoal. Conforme apontado, é isto que se percebe na construção dos romances analisados. Em ambos os textos a viagem marítima empreendida pelas protagonistas alegoriza o percurso interior de auto conhecimento e auto transformação.

Iniciaremos os apontamentos pela análise do livro de Virginia Woolf, para em seguida traçar analogias com o texto de Clarice Lispector. O motivo de tal metodologia se justifica por uma questão cronológica, em nenhum momento se pensou em contrapor os textos e traçar hierarquias entre eles.

The Voyage Out é a narrativa de uma viagem realizada por um grupo de ingleses que parte de Londres, a bordo do navio Euphrosyne, em direção a Santa Marina, cidade fictícia localizada na América do Sul, na foz do rio Amazonas. A protagonista do romance é Rachel Vinrace, jovem órfã, cuja educação coube a duas tias, senhoras idosas e defensoras dos padrões tradicionais da sociedade inglesa da época vitoriana.

O desenvolvimento da trama se faz a partir da história de Rachel, cuja vida passa por inúmeras modificações que são metaforizadas na viagem. Desta forma, o romance se estrutura em dois planos distintos: o relato do deslocamento físico, paralelo ao da transformação interior da protagonista.

No começo do romance a personagem é apresentada como um ser frágil, sensível, inocente, além de superprotegida.

Her face was weak rather than decided, saved from insipidity by the large enquiring eyes, denied beauty, now that she was sheltered indoors, by the lack of colour and definite outline. Moreover, a hesitation in speaking, or rather a tendency to use the wrong words, made her seem more then normally incompetent for her years […] Yes, how clear it was that she would be vacillating, emotional and when you said something to her it would make no more lasting impression than the stroke of a stick upon water (WOOLF, 1992, p.13).[1][1]

Essas características são o resultado do tipo de educação recebida e também revelam o caráter simples e interiorano da personagem. Rachel passou a infância, a adolescência e parte da juventude no campo, em Richmond, onde contava apenas com a companhia das tias. Por conta da dificuldade em se chegar a este sítio, a única amiga de Rachel era uma “girl who was a religious zealot, who in the fervour of intimacy talked about God, and the best ways of taking up one´s cross” (WOOLF, 1992, p. 27).[1][2] Essa reclusão é rompida com o convite que Rachel recebe de seu pai, um comerciante, para acompanhá-lo em uma expedição.

As modificações interiores pelas quais a protagonista passa são motivadas pelas relações interpessoais. No navio, as personagens vão sendo descritas física e psicologicamente, é também neste espaço que o narrador apresenta o início da mudança de Rachel. O começo da viagem é explicitado no primeiro parágrafo do capítulo dois, no qual o narrador supervaloriza esta cena. Isso ocorre porque, na verdade, o que se inicia é a “viagem interior” de Rachel. .

The Voyage had begun, and had begun happily with a soft blue sky, and a calm sea. The sense of untapped resources, things to say as yet unsaid, made the hour significant, so that in future years the entire journey perhaps would be represented by this one scene, with the sound of sirens hooting in the river the night before, somehow mixing in (WOOLF, 1992, p. 17).[1][3]

Os capítulos que narram a viagem vão apresentando aos poucos as alterações interiores da protagonista, que passa a interagir com as outras personagens, sobretudo com Helen, uma outra tia que participa da travessia, e posteriormente com um casal – Richard e Clarissa Dalloway – que embarca em Portugal.

Rachel de imediato simpatiza-se com o par, principalmente com Mrs. Dalloway, uma mulher bonita, elegante, extrovertida, astuta e muito inteligente. Durante o primeiro jantar dos Dalloways a bordo do Euphrosyne, Rachel não participa dos diálogos dos personagens, isso porque passa todo o período observando e admirando os gestos, a fala e os trajes de Clarissa. Na mente de Rachel a nova passageira é perfeita e por alguns instantes deseja ser como aquela senhora.

Richard é apresentado como um homem chauvinista. Este senhor assume papel de relevada importância no romance, pois é ele quem “inicia” Rachel no mundo feminino por meio de um beijo. A partir desse acontecimento, a personagem começa e se conhecer como mulher.

Dentre os tripulantes do navio, merece destaque o casal Ridley Ambrose e Helen Ambrose, tios paternos de Rachel. Esta senhora seria uma espécie de “mentora” da sobrinha, exercendo sobre ela uma decisiva influência. Mrs. Ambrose é uma mulher urbana, extrovertida, ousada, além de possuir grande beleza. Seu marido é um homem sério, recluso e conhecedor de filosofia, botânica, literatura e artes.

O fato de a viagem ser marítima é de grande importância, isso porque a água, elemento transformador, pode ser interpretada como o símbolo da mudança de Rachel. Um outro elemento alegórico é o navio que, por meio da personificação, alude diretamente à protagonista: “the ship was a bride going forth to her husband, a virgin unknown of men; in her vigour and purity she might be likened to all beautiful things, for as a ship she had a life or her own”(WOOLF, 1992, p. 25)[1][4]; “[...] the ship seemed to groan and strain as though a lash were descending” (WOOLF, 1992, p.61)[1][5].

Outro grande momento da narrativa acontece após a chegada dos viajantes a Santa Marina, é nesta colônia inglesa, situada na América do Sul, que a protagonista conhece o escritor Terence Hewet por quem se apaixona. Esta paixão é recíproca, porém uma fatalidade interrompe sua plena realização: Rachel é afetada por uma febre que acaba por causar-lhe a morte.

Nesta parte do romance destaca-se a problemática do choque cultural pelo qual passam os ingleses ao chegarem à cidade sul americana. Antes da saída de Londres, Rachel idealizava o vilarejo, pensava nele como um verdadeiro paraíso, onde tudo seria belo e perfeito. No entanto, ao desembarcar em Santa Marina o sonho começa a ser desmistificado pela realidade. O lugar é realmente belo, todavia o clima, a vegetação, a língua dos habitantes e, sobretudo, seus hábitos são muito diferentes de tudo que a personagem aprendeu e vivenciou.

Em Santa Marina, Rachel desembarca como uma nova mulher. Mudanças significativas em seu caráter são apresentadas como resultado da viagem marítima a qual lhe permitiu adentrar no mundo da filosofia e da literatura. Durante a travessia, a protagonista encontra na figura de seu tio, Ridley Ambrose, um instrutor inteligente e perspicaz. Foi este senhor intelectual quem lhe apresentou autores de renome nas áreas filosófica e literária. Rachel pôde conhecer Platão, Sófocles, Gibbon, Swift, Balzac, Coleridge, Pope, Marlowe, Shakespeare, dentre outros.

Assim, a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino, uma vez que o acesso a tais obras não era comum entre as mulheres de seu tempo.

É também neste período de estada em Santa Marina que Rachel empreende outra viagem. Trata-se de uma excursão organizada pelos hóspedes de um hotel do vilarejo. Eles partem em busca de conhecer outras localidades da terra tão exótica na qual se encontram. Enquanto os demais personagens se entregam ao conhecimento dos arredores de Santa Marina, a viagem de Rachel é interior, ou seja, agora seria “the Voyage in”, isto é, dentro do país tropical recém conhecido por ela e, sobretudo, dentro de si mesma. É nesta viagem que ela passa a refletir sobre tudo que se passou no navio: seus diálogos com o tio, o conhecimento e carinho despertado pelos Dalloways, bem como sua paixão por Terence Hewet.

Este jovem escritor a princípio se apresenta como um homem de pensamento moderno no que se refere à diferença dos gêneros. Porém, ao aceitar o noivado, Rachel começa a perceber que Terence é favorável a igualdade entre os sexos apenas na ficção produzida por ele. Durante esta segunda viagem, ‘the voyage in”, a protagonista é acometida por uma doença, acompanhada de longos períodos de delírio conduzindo a personagem à morte.

Conforme dissemos, Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, é outro romance moderno a tratar da viagem como alegoria da transformação interior de uma personagem. Contudo, vale lembrar que, apesar da semelhança temática e alegórica, esse romance traz um diferencial que o singulariza. Para que possamos ilustrar essa questão, partiremos primeiramente da análise do mesmo para na seqüência traçar paralelos entre ele e The Voyage Out.

Perto do Coração Selvagem narra a história de Joana, uma mulher em busca de si mesma e de seu autoconhecimento. Trata-se de uma personagem complexa cuja marca principal é a mobilidade e o desejo de sempre ir além “[...] vou continuar, é exatamente de minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos” (LISPECTOR, 1998, p. 116).

O romance estrutura-se por capítulos que se alternam entre a vida infantil e a adulta da protagonista. As diversas cenas apresentadas acompanham a peregrinação interior da personagem.

Joana, assim como Rachel, fica órfã ainda criança e passa a ser educada por uma tia. Esta por sua vez, não compreende a sobrinha e acaba por enviá-la para um internato, onde, apesar de cercada de outras meninas, sente-se só. Esta solidão é compensada pelas viagens imaginárias que a personagem faz como forma de fuga da realidade que a cerca. Como exemplo, vale destacar o trecho no qual Joana acorda no meio da noite, olha para as camas das outras garotas do internato e se imagina saindo daquele espaço:

Que importa que em aparência eu continue nesse momento no dormitório, as outras moças mortas sobre as camas, o corpo imóvel? Que importa o que é realmente? Na verdade estou ajoelhada, nua como um animal, junto à cama, minha alma se desesperando como só o corpo de uma virgem pode se desesperar. A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo, solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de flor e sonolenta, os pés leves, atravesso campos além da terra, do mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, há ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim (LISPECTOR, 1998, p. 68).
Este parece ser o destino de Joana, a eterna peregrinação, a busca constante por “terras distantes”, ainda que imaginadas. O que move Joana é o desejo de sair de seu estado de inércia, fugir da vida comum que a prende ao passado. Ela aspira a encontrar lugares desconhecidos, metáfora de sua interioridade. Desta forma, o movimento e o translado são as ações que dão sentido a sua vida.

Joana passa por três experiências amorosas que marcam sua existência e contribuem para que ocorram alterações significativas em seu caráter. Na infância, sente-se atraída por seu professor, pessoa sempre buscada por ela em momentos de insegurança e crise. É ele quem aconselha a menina Joana, instruindo-a a respeito da vida e do homem.

Quando adulta ela conhece o advogado Otávio, noivo de Lídia, moça simples cujo sonho maior é se casar e assumir o papel de esposa dedicada a “um homem que disporia de todas as forças da mulher para sua própria fogueira [...], bastava sua presença [Otávio], apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera” (LISPECTOR, 1998, p. 89).

Otávio abandona Lídia e casa-se com Joana. Este casamento fora idealizado pela protagonista como algo que a tornaria plenamente realizada, no entanto, esta projeção é frustrada, pois ela percebe que a inércia e a rotina não fazem parte de sua natureza. Após algum tempo de casada, Joana constrói uma imagem pessimista do casamento:

Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro... Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do leito comum, da mesa comum, da vida comum, preparando e ameaçando a morte comum (LISPECTOR, 1998, p. 149).

A união do casal é fortemente abalada quando Joana descobre que seu esposo mantém relações extraconjugais com Lídia. Entre as duas mulheres, Otávio decide deixar a esposa e assumir seu romance com Lídia, que se encontrava grávida.

O terceiro relacionamento amoroso vivido pela protagonista é com um homem cujo nome sempre fez questão de não saber.

Dissera-lhe: quero te conhecer por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos; nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais (LISPECTOR, 1998, p.188).

O anônimo, assim como o fez Otávio, abandona Joana depois de conviver com ela durante certo período. Este acontecimento marca uma significativa transformação em Joana. Seu pensamento começa a vaguear entre o passado vivido e o presente transformado, neste sentido “morre” uma Joana e “nasce” outra. É significativa uma passagem do romance na qual ela se encontra sozinha em seu apartamento e faz a seguinte reflexão:

Tivera coisas, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelos cortados, uma tia, um professor [...] era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela (LISPECTOR, 1998, p. 173).

Os verbos no passado mostram que algo foi superado e não mais se repetirá, tem-se agora a imagem de uma Joana renovada e pronta para continuar sua incansável busca, desta vez concretizada na viagem pelo mar.

Naquela tarde já velha – um círculo de vida fechado, trabalho findo – naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperança (LISPECTOR, 1998, p. 196).

Conforme apontado, os acontecimentos da vida da protagonista são seguidos de modificações em seu caráter. Parece que cada vez mais a personagem se aproxima de si; porém, a concretização plena de seu desenvolvimento só irá ocorrer no último capítulo do romance, intitulado “A Viagem”. Nele, a busca da protagonista assume um caráter metafísico, resultante da inquietação da personagem no decorrer da obra. Deste modo, a viagem assinala o fim de uma fase da vida de Joana, bem como aponta para um recomeço. Após encerrar um percurso, Joana parte em busca de um novo mundo, que certamente lhe proporcionará novas experiências.

Aqui se encontra um dos diferenciais do romance com relação a The Voyage Out. Em Lispector, a viagem marítima só acontece depois da viagem interior da personagem, ou seja, a protagonista passa por um processo de transformação interior que a prepara para a travessia pelo mar, que como apresentado no romance, será um novo mundo de descobertas. Em Virginia Woolf, a viagem interior é paralela com a viagem pelo mar, esta sendo plena alegoria daquela. Assim, as transformações vão acontecendo na medida em que o navio avança rumo ao seu destino.

Outro ponto a ser destacado é que em The Voyage Out o percurso de Rachel é interrompido, o que impede a personagem de retornar ao lugar de origem e de concretizar os planos que a mesma elaborou para o futuro. O que se destaca em sua história são os vários momentos pelos quais ela passa durante sua viagem. São eles que fazem dela uma nova mulher, madura e pronta para enfim alcançar com seu verdadeiro destino, a morte, prevista desde o início do romance, sendo esta a grande metáfora do livro.

Uma das características da literatura de viagem, em sua estrutura clássica, é o regresso do viajante. No entanto, esse procedimento não ocorre em nenhum dos textos analisados. Em The Voyage Out o regresso não acontece por conta da morte da personagem, ao passo que Em Perto do Coração Selvagem, a narrativa termina em aberto não revelando nem mesmo o destino da protagonista.

[1][1] Seu rosto era antes fraco do que decidido, e só não era insípido por causa dos grandes olhos interrogativos; tendo-lhe sido negada a beleza, agora que estava abrigada dentro de casa, pela falta de cor e contornos definidos. Mais que isso, uma hesitação ao falar, ou uma tendência a usar as palavras erradas, faziam com que parecesse mais incompetente do que o normal para sua idade. [...] Sim, como estava claro que ela seria vacilante, emotiva, e quando lhe dissessem alguma coisa não faria impressão mais duradoura do que o golpe de um bastão na água.(Todas as citações que aparecerem em notas de rodapé, serão retirados do volume traduzido por Lya Luft).
[1][2] garota que era uma fanática religiosa, que no fervor da intimidade, falava sobre Deus e nas melhores maneiras de assumir a própria cruz.
[1][3] A viagem começara, e começara feliz com um céu azul suave e com um mar calmo. A sensação de recursos ociosos de coisas não ditas tornou a hora importante, de modo que em anos futuros toda a jornada talvez fosse representada por esta última cena, com o som de sirenes uivando no rio na noite anterior, de alguma forma misturado nela.
[1][4] O navio era uma noiva avançando para seu marido, uma virgem desconhecida dos homens; no seu vigor e pureza poderia ser comparado a todas as coisas belas, pois como navio tinha uma vida própria.
[1][5] O navio parecia gemer e conter-se como se uma chibata estivesse descendo sobre ele.

REFERÊNCIAS

CÂMARA, Elisabete. Clarice Lispector e Virginia Woolf: Dois enigmas e um mistério. In:PONTIERI, Regina. (org). Leitores e leituras de Clarice Lispector. São Paulo: Hedra, 2004. p.85 – 108.
HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Hedra, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NITRINI, Sandra Margarida. Viagens reais, viagens literárias. In:______.Revista literatura e sociedade. no2, FFLCH, DTLLC, 1997.
SÁ, Olga. Uma escritura metafórico-metafísica: eixos do universo clariceano. In:______.A escritura de Clarice Lispector. 3a ed. Lorena, 2000. p. 212 – 281.
SILVA, Wilton Carlos lima. Viajantes. In:______.As terras inventadas. São Paulo: Unesp, 2003.
WOOLF, Virginia. The Voyage Out. London: Penguin Books, 1992.
WOOLF, Virginia. A Viagem. Trad. Lya Luft. São Paulo: Siciliano, 1993.

Douglas Paulino Barreiros
é mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Desde o ano 2000 atua como professor de Língua Inglesa no Ensino Fundamental e Médio, além de participar de Eventos e Congressos de Língua e Literatura. E-mail: teacherdouglas@ig.com.br
Retirei o texto acima do site do Portal Cronópios.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Passado selado, by J.R.Duran

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Vou postar um artigo que li na Audi Magazine número 79. Nem é o tipo de publicação que me interessa, já que não ligo para automóveis, mas essa edição me chamou a atenção. Na capa, a foto de um tabuleiro de jogo retratando países, do tipo do War, joguinho chato e interminável das tardes chuvosas de infância. O título desse número aparece assim: Movimento - De Moscou a Tóquio, via Vladivostok, por terra e mar.


Hum... já achei interessante. Sem culpa na consciência afanei a revista (não posso dizer de onde senão meu dentista me mata) e li todos os artigos na volta à casa; um deles, em particular, achei a cara do Odepórica e resolvi transcrevê-lo. Bom para vocês, leitores/as, bom para mim também, pois assim alivio um pouco o bad karma ao dividir o fruto do meu afano com outras pessoas. Não podemos ser egoístas, certo?


Pois bem. Quem assina a matéria é o fotógrafo catalão J.R. Duran, famoso por fotografar as peladonas da Playboy. Deve fotografar outras coisas, claro, mas agora só me lembro dele associado à Playboy mesmo. E já não está bom?


O texto é leve, leve, você mal começa e já acaba, o que é uma pena, porque o assunto é muito interessante. Fala das cartas, do ato de escrever durante as viagens, agora cambiado pelo ato de digitar. Não quero parecer tiozinho, mas nunca será a mesma coisa teclar numa LAN house e escrever em qualquer lugar... mas não dá para juntar as duas coisas? Claro que dá, por que não? O bom é deixar para escrever num momento mais contemplativo, entende? Quase como se fosse uma prática de meditação, a postura, a caligrafia, o ritmo, o tempo, as pausas, um trago de cigarro pra quem fuma, um gole de vinho ou café pra quem bebe... e aí é deixar rolar o que vier, cabeça e coração em sintonia. E o punho pra funcionar.


O Duran, fotógrafo, diz que faz isso. O barato dele é escrever cartas em papéis timbrados dos hotéis em que se hospeda, que não devem ser poucos. Segue um ritual - que você lerá no texto dele; sai à caça de selos pelas cidades, pois qualquer selo não serve, tem que ser o mais especial em circulação. E no final, selos lambidos e cartas fechadas, envia tudo para sua casa, em nome de si mesmo, veja só que interessante isso.


Não abre nunca as cartas, as tais que chegam de todas as partes do planeta. Um dia, quem sabe, as lerá. Mas não agora, quando a vida ainda lhe parece infinita. Estão todas lá, como diz, a prender o passado entre folhas de papel.


Gostei disso. E você, não? Namastê.


Passado selado



O filósofo e utópico renascentista Francis Bacon fez uma lista das que seriam, desde seu ponto de vista, as três descobertas mecânicas que tinham “changed the whole face and state of things troughout the world” (“Novum Organum”,1620). Seriam elas: a bússola magnética, a pólvora e o papel. De acordo com ele nenhuma estrela, nação ou seita conseguiu – conseguiria – exercer influência igual na vida das pessoas.
Dificilmente uso uma bússola, apesar de que, confesso, levo sempre uma no fundo da minha mochila, acho que algum dia ainda vai me tirar de alguma enrascada. A segunda descoberta – a pólvora – não me é de grande utilidade direta, penso que serve mais aos exércitos. Já com a terceira descoberta é diferente. Essa é fundamental para mim também. Porque não saio de casa sem um papel e uma caneta. Tenho a memória dispersa, e tanto ideias quanto lembranças de coisas para fazer, me aparecem nas horas mais estranhas. Uma anotação rápida – contanto que legível – resolve o problema.
Bacon não o mencionou em seu tratado, mas os três inventos que ele achou fundamentais são chineses. E é com paciência oriental que venho guardando durante os últimos tempos – na verdade anos – uma série de cartas especiais. São cartas que escrevo para mim mesmo nos hotéis em que tenho me hospedando, seja a trabalho ou de férias.


O conhecimento das reentrâncias e saliências da fotografia me servem para várias coisas profissionalmente, mas, pessoalmente, as utilizo como artimanha para congelar o tempo que, às vezes, parece passar rápido demais. Uma maneira de fixar na memória os detalhes que semanas, anos depois, vão se tornar imperceptíveis.

Pode ser a imagem de um lugar confortável, de um objeto que nunca terei, um sorriso, o prato de um almoço, a sombra que uma árvore projeta na parede. Cenas cotidianas que se repetem, aparentemente iguais – e não se engane, não o são – e que serão, sempre, as primeiras a desaparecer, enterradas na quantidade de informações arquivadas no labirinto da memória.


Alguém me disse que escrevia para não morrer. Ao escrever as cartas não chego a tanto. A razão pela qual escrevo é menos dramática, mais prática e simples. Escrevo, assim como fotografo, para guardar o tempo. Conto nelas como está meu estado de espírito naquele instante e isto se torna o registro de um momento impresso em um papel que, anos depois, funcionará como uma janela aberta capaz de iluminar um pedaço do passado.

Para isso sigo algumas regras que com o tempo fui estabelecendo. Um procedimento mais ou menos comum. Uma delas é a de que as cartas só podem ser escritas em papel timbrado. Ou seja, se o hotel não tiver um logotipo e endereço impresso em papel e envelope, nada feito. Outra é a de que elas têm de ser escritas com caneta na cor preta. Confesso que durante algum tempo as escrevi em tinta verde, como Pablo Neruda. Mas, como o conteúdo das cartas sempre foi mais existencial do que poético, decidi voltar ao preto sobre o branco.


Outra regra é a de, sempre que o tempo permitir, ir até o posto do correio mais próximo, pegar a fila, e pedir para escolher um selo. Grande e bonito. Em alguns lugares é fácil. Em Hong Kong, por exemplo, um dos postos fica a poucos metros do Hotel Intercontinental. Em outros, é mais complicado, mas isso faz parte do ritual.


Em Los Angeles, tive que pedir ao motorista do táxi, a caminho do aeroporto, que parasse um instante na frente de um posto de correios que surgiu no meio da corrida. Felizmente a carta estava à mão. De qualquer maneira, é uma experiência curiosa. Os funcionários dos correios estão acostumados a ter clientes que se preocupam apenas com a urgência das encomendas e ficam radiantes e iluminados ao descobrir que alguém pede para eles o selo mais interessante que estiver em circulação no dia.


As reações são sempre divertidas. Em Asmará, a capital da Eritreia, a mulher saiu de trás do guichê e me convidou para um café enquanto me contava das dificuldades do país. Em Macau, o atendente deixou uma fila esperando atrás de mim e me levou a uma salinha para me mostrar por que os correios da ilha são famosos por produzir selos belos e elaborados.

Às vezes peço a um concierge do hotel em quem confio para colocar as cartas no correio (Durante estes anos todos apenas três cartas não chegaram. Foram as escritas na Índia e entregues nas mãos de três concierges de hotéis luxuosos – da mesma cadeia – ostentando belos turbantes. Não adiantou muito.). Em alguns lugares isso é comum. Em outros, nem tanto. Em Iquique, no Chile, a moça ficou surpresa. Ninguém antes tinha feito uma solicitação como aquela.
Uma outra regra é colocar alguma coisa junto com a carta dentro do envelope. O recibo de um restaurante, o ticket de um filme que assisti ou o ingresso de algum museu que dificilmente voltarei a visitar. Durante alguns anos, antes da fotografia se tornar totalmente digital, polaroids (alguém lembra o que era isso?) serviam como uma espécie de reforço visual para estas cápsulas de memória.


Mas uma coisa as cartas têm, rigorosamente, em comum. Nunca, até agora, elas foram abertas. Enquanto o passado escorre entre os dedos e os neurônios do cérebro, uma parte dele está presa, para sempre, entre duas folhas de papel.