sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O país inventado de Isabel Allende

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Bom demais! Assim começo esse post, pelo entusiasmo que sinto cada vez que leio um texto de Isabel Allende. Aliás, comecei a ler a obra dessa premiada autora chilena (bueno, uma chilena nascida no Peru...) esse ano e quase que não me perdôo pelo atraso da descoberta. O único contato que tive com a obra de Isabel Allende foi através do filme baseado em seu romance mais famoso, A casa dos espíritos. Muitos anos depois cai em minhas mãos Mi país inventado, que devorei de um fôlego só e de quem vamos falar daqui a pouco.

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.

Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.

Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:

Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.

Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.

A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.

E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.

A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.

Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.



E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!


O Chile de Isabel



(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.

(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.

Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.

Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.

Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?

Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.

Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.



(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.



Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Irlanda, uma bicicleta e uma tin whistle, by David Wilson

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Embora não seja de fato um problema, costumo ter preguiça de ler romances em inglês e quando o faço é porque o texto realmente me interessa. Domingo retrasado tirei o dia para ler uma obra que descobri ao acaso, por conta do título, navegando pelo site da Amazon: Ireland, a bicycle and a tin whistle, de David A. Wilson.

Como já escrevi aqui no blog, decidi aprender a tocar flauta esse ano e para isso escolhi um modelo dos mais simples que existem, com bocal em forma de apito, muito comum na Irlanda chamada tin whistle (ou penny whistle, ou somente whistle). Em inglês, tin significa latão e whistle, apito. Como “flauta de latão” não tem o mínimo charme, por aqui a rapaziada (os/as whistlers) usa o termo em inglês mesmo, tin whistle. O material já indica: a flautinha custa baratinho, e o som é delícia pura, principalmente nas mãos de quem domina o instrumento.
Mas vamos ao que interessa, começando por um breve resumo da obra: um professor de uma universidade canadense decide viajar pelo norte da Irlanda, durante várias semanas, montado numa mountain bike. Na bagagem, sua inseparável whistle e uma disposição para pedalar e beber e varar noites em pubs de dar inveja a qualquer adolescente notívago (o autor devia estar por volta dos 45 anos à época da viagem). Não é pouca coisa, afinal a Irlanda, como se sabe, é cheia de montanhas. É claro que depois de muitas ressacas ele aprende a dosar as coisas, mas disso a gente fala depois.

Em sua viagem o David, que é professor de estudos celtas, traça um roteiro que privilegia locais de forte presença celta no território (sítios arqueológicos interessantíssimos) e que também ofereçam a oportunidade (aparentemente nada difícil) de visitar os mais insuspeitos pubs irlandeses atrás das famosas sessions.
Sabe o que é uma session irlandesa? Eu conto. É um tipo de evento em que um grupo de pessoas se reúne, em um pub, para beber, conversar e tocar música tradicional. Coisa entre amigos, não tem nada a ver com apresentação em público, já que isso foge totalmente do espírito de uma session. Eu nunca fui (ainda) mas sei como funciona: primeiro chega um, com uma flauta, pede uma Guinness e logo chega um camarada, empunhando seu bodhrán, instrumento de percussão que lembra um tambor.
Vem uma loirinha, a Liz, com o fiddle (violino) e daí já sairia um sonzinho bacana, mas eis que chega o John com sua gaita típica (uillean pipes) e dois colegas seus que tiram bem um som das whistles (Feadóg, em gaélico, só para constar), e aí já era. Música rolando solta no pub, ninguém ouve mais ninguém, aquela fumaceira de cigarro e várias canecas de chopp (pint, como dizem por lá) goelas irlandesas abaixo. O mais parecido por aqui, acho eu, seria uma roda de samba, ou de chorinho, ou de pagode (argh!) em que todos tocam um instrumento em volta da mesa, bebendo cachaça e cerveja e petiscando gordurosos acepipes de boteco. Quem não tem instrumento batuca o tampo da mesa mesmo, chacoalha caixinha de fósforo, essas coisas e tal. Cada cultura se vira com o que tem, ué.
E chega de enrolação porque senão isso vai longe que já me conheço muito bem. Vamos apreciar então a narrativa de viagem do fellow David Wilson, right? Right.

A viagem começa em Whitehead, povoado na Irlanda do Norte onde o autor nasceu. Viveu pouquíssimo no país, com meses de vida sua família já se havia mudado para a Inglaterra e depois para o Canadá, onde de fato se criou (diz o autor que no século 19 havia tantos irlandeses no país que Toronto era conhecida como a Belfast do Canadá). Um canadense de ascendência irlandesa é o que ele é. Mas isso nunca o afastou de suas origens, tanto que trabalha envolvido com isso. A viagem à Irlanda parece ter sido uma volta ao ninho, ao útero, e isso ele deixa claro quando afirma que “de certa maneira, voltar a Whitehead era como voltar para casa”.
A narrativa começa tratando de duas coisas que se repetirão algumas vezes ao longo de toda a viagem: o conflito religioso tão cheio de ranço entre católicos e protestantes, mostrando que a tensão religiosa entre os dois grupos está longe de terminar, e as bebedeiras nos pubs, dando até a impressão de que o álcool lhe serviu de combustível para pedalar. Sério. Mas isso até que é divertido, e David chega a escrever, meio que tentando se justificar, que o fato de estar pedalando uma bike lhe dá a chance de queimar as calorias e de manter algum tipo de equilíbrio entre as canecas de cerveja consumidas e as milhas percorridas. Beleza.
Sobre a questão do conflito religioso, onde geralmente impera a violência, é difícil achar alguma graça, mas o David conseguiu fazer parecer divertido um episódio que no fundo é patético, quando sua segurança pessoal dependia da religião por ele professada:

Nas raras ocasiões em que surgia o tema religião, eu dizia que era agnóstico, o que era, na verdade, entendido como uma maneira covarde de evasão. “Ok, ok”, você ouvia alguém murmurar, “mas você é um agnóstico protestante ou um agnóstico católico?” O que eu poderia dizer? Ser agnóstico é pior do que ser ateu numa escala de desaprovação porque, pelo menos, os ateus têm coragem de assumir suas convicções naquilo em que não crêem.

A narrativa começa a ficar boa a partir do segundo capítulo, quando David se desloca até a Península de Islandmagee, lugar de poucos visitantes com um passado pré-histórico interessante que muitos de nós, posso apostar, gostaríamos de conhecer. Diz que no alto de uma colina, bem no topo da Península, há um altar, onde aconteciam antigas cerimônias de sepultamento - Druid’s Altar é o nome do lugar, em cujo horizonte se avista o mar da Irlanda. Não parece incrível? Claro que um lugar com esse cenário não passaria incólume nos anais das fantásticas histórias lendárias da humanidade. E o David conta uma delas:
A Península poderia ser facilmente confundida como sendo um fragmento da Escócia - a conexão com esse país continua forte, prova disso são as tradições folclóricas que ali permanecem.

“Em nenhuma parte da Irlanda”, diz um relatório governamental de 1830, “as pessoas são mais inveteradamente supersticiosas do que aqui”. Há histórias de assombrações, canções de fadas, videntes, feitiço e contra-feitiço. Para que suas vacas não fossem enfeitiçadas, você tinha que pendurar uma “pedra da bruxa” acima de suas cabeças no estábulo. Para proteger a si mesmo dos feitiços você tinha que espargir cravos de defunto no pátio de sua fazenda no Dia do Trabalho.
Antes de mudarem para Whitehead, meus pais passaram vários anos em Islandmagee, vivendo no chalé de um fazendeiro sem eletricidade e sem água corrente. Mesmo sendo estrangeiros, vindos de um mundo moderno, industrial, urbano, não demorou muito para que começassem a sucumbir ao sobrenatural. “Se alguma vez você vir uma vaca com duas cabeças”, disseram a meu pai, “você estará frente a frente com o próprio Diabo em pessoa”. Ele não pensou mais nisso até que, numa noite, voltando a pé para casa sozinho, viu ao longe, imóvel, contra a escuridão do céu noturno, a silhueta de uma vaca, com a cabeça onde deveria estar uma cabeça, e outra cabeça onde deveria haver um rabo. “E o que foi que o senhor fez?” – eu perguntei – “Eu corri pra cacete!”, ele disse, “e não parei de correr até chegar em casa e fechar a porta atrás de mim, com as chaves bem guardadas no meu bolso”.
Rememorando fatos da infância, certamente influenciado pela visita à cidade natal, David conta alguns episódios interessantes ali vividos pelos pais enquanto ele ainda era um bebezinho e um episódio, que à primeira vista parece desprovido de qualquer conteúdo simbólico chega-me cheio de significado, talvez porque algo semelhante tenha se passado comigo há alguns anos.

Como foi dito, a ilha em que viviam era um lugar isolado; sua mãe, uma mulher que já havia vivido em Londres, não entendia a movimentação entre os habitantes locais quando da chegada do ônibus que diariamente passava pela península vindo de Belfast. Achava aquilo tudo muito excêntrico, mas depois de algumas semanas ela também era uma das que esperava ansiosamente a passagem do coletivo. Aquilo, escreve David, se tornara um dos momentos mais aguardados do dia, a espera pelo ônibus, a conversa com os vizinhos e eventualmente um chá com biscoitos na casa de algum conhecido. Só alguém que já viveu em um local isolado pode entender o significado mais profundo dessa passagem.

No momento em que o narrador chega ao pequeno povoado de sua infância, o leitor percebe que em sua viagem o passado tem um grande peso no chamado à aventura; buscar elementos que o façam resgatar parte desse passado é importante para ajudá-lo a compreender quem é – e no que se transformou o homem com o passar do tempo e a distância da terra natal.
E o pedal vai comendo os quilômetros. Muitas vezes, certamente inebriado pela beleza das paisagens irlandesas, desce da bike e senta-se para tocar algumas velhas melodias folk em sua whistle. Como imaginei, antes mesmo de ter o livro em mãos, a arte de tocar uma whistle ganha na obra um duplo sentido: o literal, que é a própria identificação com o objeto, o instrumento musical, a arte que ajuda a afirmar sua identidade cultural, e o metafórico, que é o processo de aprendizagem do whistler, do artista. Vou transcrever um trecho da obra que me encantou e que faz exatamente menção ao que acabo de escrever:

Na localidade de Garron Point, tirei a tin whistle do alforje, pulei por sobre uma cerca, sentei na relva áspera e comecei a tocar. Uma suave melodia soprou pelos campos, indo flutuar pela superfície do mar – uma peça composta três séculos atrás pelo harpista cego Turlough Carolan para Fanny Power, a filha de um de seus patrões.
Depois toquei um jig (originário das “gigas” medievais italianas, semelhante à valsa), “Out on the Ocean”, saltando sobre as águas, leve como um dia de verão. A música é feita de movimentos sinuosos, e estes dependem do astral do ambiente – do estado da sua mente, da direção do vento, dos sons que vêem do mar. Um jig ou um reel (música tradicional bastante animada) jamais soarão exatamente da mesma maneira duas vezes; as ornamentações, elaborações e os sincopasses vão rolar, dar voltas através da melodia, mudando sua natureza ao ser tocada. Existe a melodia, e há também o modo como você toca a melodia. Assim também existe um mapa, mas é você quem decide a maneira que irá viajar.

Você poderia percorrer a Irlanda em um carro, permanecendo fiel às rotas principais; mas se você pega uma bicicleta, e respira o ar puro, e se perde pelas estradinhas vicinais, você chega mais perto do espírito do lugar. Você poderia aprender música tradicional através dos livros, ficando fiel às notas principais de uma melodia; mas se você toma nas mãos uma tin whistle, soprando o ar para fora, passeando pelas inúmeras possibilidades de variações, você estará muito mais perto do espírito de uma composição. Dirigir uma bicicleta ou tocar uma whistle faz com que a jornada se torne mais do que atingir o final de um destino; torna-se o fim em si mesmo, o seu próprio destino.
Uma tin whistle tem beleza e simplicidade, um limitado alcance de notas mas uma extensa gama de sentimentos. Há slow airs (“ária”, do italiano, canções leves e introspectivas) que fariam as lágrimas rolarem pelas suas pernas, mas também as melodias de dança capazes de fazer seu espírito bailar para bem alto. Às vezes, nas sessions, os músicos mudam de uma melodia deprê direto para um set de canções animadas (reels) só pra mandar a tristeza embora.

Hora de partir; ponho a tin whistle de volta na bagagem. Acima de tudo, a whistle é um instrumento ideal para carregar numa viagem, muito mais fácil de se levar numa bicicleta do que um violão, por exemplo, ou um piano. A whistle é também o mais democrático dos instrumentos musicais; pelo preço de dois canecos de cerveja (que é a moeda corrente universal dos vadios e dos menestréis), você tem acesso ao mundo das jigs e dos reels, das canções e dos lamentos. E enquanto você segue viagem, vai aprendendo a música ao ouvir as pessoas tocando, e você absorve o espírito da coisa indo aos locais onde essas pessoas tocam – as cozinhas, os pubs, os festivais, em cidades e vilas ao redor de todo o país.

E de nota em nota, pub em pub, David vai seguindo em frente. Em Tiveragh Hill, para acalmar os sentidos (e aliviar uma ressaca brava), sai caminhando pelo lugar onde viviam as fadas. É sabido que pelas manhãs, antes dos humanos despertarem, elas emergiam das encostas e jogavam hurley nas ladeiras. Parece que o autor se interessa mesmo pela vida desses pequenos elementais, herança mitológica dessas místicas ilhas britânicas. Não são poucas as vezes que surgem comentários fazendo referência a esses seres:
De volta à parte mais alta da estrada, você pode caminhar, com o coração saindo pela boca, pelo campo coberto de urze até o cume de Fair Head, onde a terra desaparece para dar lugar ao oceano. Aqui, na extremidade da existência, criaturas estranhas e imprevisíveis, habitantes dos rochedos, fizeram o seu lar – um bando de elfos e duendes brincalhões. Eles o ajudarão, caso o escolham para isso, mas também o machucarão se você passar sobre eles. Um duende pode dar assistência a um velho fazendeiro na hora de debulhar o milho, mas se o fazendeiro deixar do lado de fora de casa um pouco de pão e de leite como forma de agradecimento, o duende, percebendo que sua presença foi detectada, nunca mais retornará.
(...) Tal como as fadas de Islandmagee, os duende e elfos vivem em anéis mágicos ao redor de arbustos espinhentos, e a má sorte cairá sobre aqueles que o perturbarem. Um fazendeiro de Fair Head certa vez cortou um ramo de um arbusto espinhento para abrir o caminho onde a terra seria arada. No dia seguinte, ele notou que faltava o rabo de uma de suas vacas, que foi eventualmente encontrado pendurado no arbusto, no exato local de onde o ramo havia sido cortado. Sorte pior veio a seguir: ao trabalhar na forja, no dia seguinte, enquanto afiava seu arado, uma faísca voou da forja e lhe cegou um olho. Só Deus sabe o que poderia ter acontecido a ele caso tivesse botado todo o arbusto para baixo. De qualquer forma, os ciclistas que quiserem evitar um pneu furado ou coisa pior devem ficar bem atentos e manter distância dos arbustos espinhentos nas redondezas de Fair Head, só por precaução.
Mais à frente o viajante dá um tempo nessa questão dos seres não tão bonzinhos da natureza, e passa a dedicar-se com mais intensidade às sessions, quase como uma obsessão. Num momento de reflexão, em que analisa com bastante clareza o papel social dessas sessões musicais, afirma que a alta demanda do turismo contradiz o espírito das sessions. O turismo requer “ordem e regularidade – com um aviso postado na janela do pub: Música Tradicional às 21:30”. Desse modo, esclarece, as pessoas saberão quando e onde as coisas estarão acontecendo.

Mas as sessions são, por natureza, imprevisíveis e espontâneas, como que surgindo assim, do nada. Os músicos se reúnem, bebem uma cerveja, riem, conversam, ganham uma rodada na faixa, ensaiam algumas melodias mas, acima de tudo, estão ali por conta do encontro com amigos e pela diversão, onde o importante é compartilhar o momento. E se outras pessoas quiserem compartilhar também, tanto melhor.
Não resta dúvida de que o turismo tem ajudado muito o ocidente; ele traz dinheiro e também providencia alguma renda a músicos que ainda têm que dar duro para serem reconhecidos, além de trazer uma vida nova à região a cada verão. Mas, de acordo com o Princípio de Heisenberg, o ato de observar muda a característica daquilo que está sendo observado. Uma vez que uma session é apresentada para uma audiência, deixa de ser aquilo que sempre foi. Já não é mais uma session.

O que o David diz, com muita razão por sinal, é que o turismo pode alterar sutilmente uma cultura ao transformá-la em produto de mercado. Se por um lado, no caso da Irlanda, o turismo traz como promessa uma nova energia e vida às localidades outrora desconhecidas, por outro tem como perigo transformar o país no maior parque temático da Europa. Triste, mas verdadeiro.

Nas páginas que se seguem David vai se transformando em um viajante mais contemplativo, mais filosófico até. Continua enchendo a cara, mas pega um pouco mais leve; toca muito sua whistle em campos abertos, aproveitando o melhor daquilo que a natureza tem a lhe oferecer. Nem tudo é sonho, claro, afinal uma viagem sem perrengue também não tem a mínima graça; quase é atacado por um grupo de adolescentes delinqüentes, amargura uma infecção intestinal das boas (mão do destino, quem sabe, dizendo “vai devagar, filho, d-e-v-a-g-a-r....”) que o obriga a descansar uns dias antes de pegar a trilha novamente. E de volta à estrada, um pneu furado, e a graça em conhecer um David totalmente desajeitado.

E se você curte música tradicional irlandesa, o que vem pela frente é uma delícia, o autor conta passagens da vida de alguns músicos famosíssimos por aquelas bandas do mar do norte, entre eles Turlough Carolan, o maior harpista que a Irlanda já viu nascer. “Se uma nova religião houvesse de surgir na Irlanda”, escreve David, “Carolan deveria ser seu líder espiritual, e sua música a sua inspiração”. Carolan, que viveu entre os séculos 18 e 19 começou a tocar harpa aos dezoito anos, quando ficou cego por causa da varíola; muitos harpistas itinerantes eram cegos, porque a música era a única maneira que possuíam de ganhar a vida.
Por ter começado a tocar relativamente tarde, Carolan nunca foi um virtuoso em sua arte; sua grandeza reside muito mais em suas composições do que em sua técnica instrumental, “no poder dos ouvidos, mais do que no poder das mãos”, como escreve David. “Meus olhos” – disse Carolan em uma ocasião – “foram transplantados em meus ouvidos”. Viajou pelas duras terras irlandesas montado em um cavalo e tocava sua harpa nos povoados em que pernoitava. Naqueles tempos, a hospitalidade era coisa séria e ninguém ousava negar abrigo a um bardo, sob o risco de ver seu nome ridicularizado em canções ao redor de todo o país.
Carolan compôs sua última melodia, “Farewell to music” em 1738 e morreu durante o sono, na mesma casa onde aprendeu a tocar sua harpa e de onde partiu para pegar a estrada. E são muitas as lendas que surgiram após sua morte, as quais valem a pena conhecer se você curte contos no melhor estilo Twilight Zone...

David ainda aprontou muito e se divertiu bastante depois do episódio do pneu furado. Teve tempo, durante a viagem, de fazer um curso de whistle com um velhote assustador, só para descobrir que no final das contas a whistle só se aprende de verdade ouvindo – e entrando no espírito da música. É de se pensar em quantas coisas na vida a gente não aprende da mesma forma, apenas se entregando de corpo e alma àquilo que deseja conquistar. Estar atento ao foco, é isso o que parece dar certo.
O fim da viagem se dá após a chegada a Belfast, seguida da volta à cidade natal. Um simbólico roteiro circular. As últimas palavras de David são simples e bonitas, como uma melodia suave tocada na whistle.

Peguei minha bicicleta e a whistle e mais uma vez andei pela costa, pelas cavernas e pelos rochedos de Blackhead. Casais de idosos passaram por mim, sorrisos enrugados em faces rosadas. No local em que a senda segue para cima, em direção ao farol, resolvi descer com a bike e sentei-me junto às rochas em frente ao mar e ali permaneci em silêncio. As ondas batiam contra as pedras; gaivotas circulavam na brisa marítima. Havia um vento leve que vinha do sul, o último sinal do verão que já se despedia. Eu me virei em direção ao mar da Escócia, de modo que o sol pudesse aquecer minhas costas e a whistle protegida dos respingos da água do mar. Um dia retornarei a esse lugar. Comecei a tocar “South Wind”, uma melodia lenta, suave e melancólica, um lamento e uma canção, enquanto as notas eram levadas pela corrente e se dissolviam para dentro do mar.

Ireland, a bicycle and a tin whistle
. David A. Wilson. Illustrated by Justin Palmer. Mcgill-Queen´s University Press, Canada, 1995.