domingo, 31 de julho de 2011

A Galícia de Rosalía de Castro

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Me deu vontade, nas últimas semanas, de reler alguns autores espanhóis que há tanto tempo prestigiam minha biblioteca. Não são muitos, mas os poucos que andei pescando nos últimos quinze anos são muito queridos, porque os colecionei em viagens, garimpados em sebos, livrarias e presenteados por amigos.

Tirei três da prateleira e resolvi que ficaria com a pequena e amarelada antologia de Rosalía de Castro. É possível que você não a conheça, mas essa escritora galega foi uma mulher genial nas letras, a primeira poetisa social da Espanha, que para escrever não se apoiou numa ideologia, mas sim na própria experiência, como disse certa vez Torrente Ballester a seu respeito.



Rosalía de Castro (1837-1885) é tida por alguns como uma poeta folclórica, a mulher que cantou as belezas e os costumes da Galícia, mas seria equivocado resumir seu perfil literário assim, de maneira tão reducionista; todo um povo se reconhece em sua obra e por isso Rosalía se transformou em um mito galego. “Nenhum poeta espanhol”, informação que tiro do prólogo dessa antologia, “jamais alcançou um fervor tão unânime e entusiasta como o que o simples nome de Rosalía desperta no povo da Galícia”.



Também pudera: o livro de Rosalía, Cantares (Vigo, 1863), foi a primeira obra importante publicada na língua galega depois de quatro séculos de silêncio quase absoluto; se não foi de fato a primeira, como observam alguns estudiosos, foi seguramente a obra que marcou o renascimento pleno da língua galega.

Não irei mais longe do que isso porque meu propósito não é o de esmiuçar a vida e a obra de Rosalía, merecedora sem dúvida de uma boa leitura, sobretudo se você se interessa por poesia. Deixarei no final do post alguns links interessantes, ok?

Quis apenas contextualizar você antes da leitura que virá a seguir. É preciso saber que as críticas pesadas de Rosalía (sobre algumas províncias espanholas, sobretudo a de Castilha) nessa introdução feita à sua obra Cantares Gallegos tem que ser entendida dentro daquele contexto social da Espanha do século dezenove, quando a Galícia, praticamente, sequer era reconhecida como uma região digna de pertencer ao país, e sua gente, tão pobre, tão sofrida, era tratada tal como os párias na Índia, sem dignidade e sem identidade. Retirantes, como numa tela de Portinari, os galegos sem espaço em seu próprio país buscaram outras terras e muitos vieram parar na América do Sul.

Coube a Rosalía a tarefa de trazer de volta ao seu povo a dignidade e identidade outrora perdidas, e a coisa toda funcionou de verdade. A força de sua poesia e sua voz se fez ouvir e viajou mundo. Rosalía não é mais Rosalía: é a própria Galícia, em corpo e alma.



Seria a poesia a forma mais poderosa da arte? A arte mais sublime? Como subestimar o poder da poesia sendo ela capaz de devolver a identidade a um povo? Outro dia, vendo um documentário sobre a vida e obra de Bob Dylan (No Direction Home, genial) anotei o que Allen Ginsberg (excepcional poeta da geração beat) disse sobre poesia. Achei sua definição de uma genialidade ímpar: “a poesia é feita de palavras poderosas que tocam profundamente e que reconhecemos instantaneamente como uma forma de verdade subjetiva que tem uma realidade objetiva, porque alguém a percebeu. A isso se chamará poesia mais tarde.”

Verdade e realidade, objetividade e subjetividade, palavras citadas por Ginsberg que encontram eco na poesia de Rosalía de Castro, com seus cantos de amor e queixa, como escreverá Unamuno mais tarde. A leitura que faço agora, enquanto leio os poemas saudosos e belos de Rosalía, me fazem pensar em outras hipóteses interpretativas, entre elas a de que a Galícia também pode ser uma metáfora, assim como o sertão, ou os desertos das obras de outros grandes escritores e poetas. Mas isso são especulações minhas que não vêm ao caso aqui.

E onde, afinal, em se tratando de um blog sobre literatura odepórica, vamos encaixar os poemas de Rosalía de Castro com o ato de viajar? Pois... vamos fazer isso, mas dessa vez de uma maneira mais sutil, porque de fato não estamos lidando com uma narrativa de viagem. Tudo isso foi para que você partisse comigo para a Galícia, e falar de Galícia sem falar de Rosalía de Castro é como, sei lá, falar das Minas Gerais sem citar Guimarães Rosa, fazendo um paralelo assim, de improviso.

Nesse ponto acho que vem ao caso compartilhar algumas estrofes de um poema de Rosalía (tradução minha, não repare), um dos que mais gosto, escrito em 1884. Chama-se Orillas del Sar, que pode ser traduzido como “Às margens do Sar”, rio que nasce lá para os lados de Santiago de Compostela e desemboca em Iria Flávia (antiga Padrón), cidade onde Rosalía viveu seus últimos anos de vida.





Através da folhagem perene
De onde se ouve estranhos rumores,
E entre um mar de ondulante verdor,
Amorosa mansão dos pássaros,
Vejo desde a minha janela
O templo que tanto amei.

O templo que tanto amei...
Mas já não sei dizer se o amo,
Que no rude vaivém que sem trégua
Se agitam meus pensamentos,
Tenho dúvida se o rancor austero
Vive unido ao amor em meu peito.

Outra vez! Depois da luta exaustiva
E da amarga incerteza
Do viajante que errante não sabe
Onde dormirá amanhã,
Em seus lares primitivos
Encontra um breve descanso a minha alma.

(...)
Como se me encontrasse em solo estrangeiro
Tímida e rude, contemplo
Desde longe os bosques e as alturas
E as floridas sendas,
Onde em cada canto me aguardava
A esperança sorrindo.

Ouço o toque sonoro que então
Ao meu leito a chamar-me vinha
Com seus ecos, que o alvorecer anunciava;
Que como doce carícia
Um raio de sol dourado
Iluminava minha estância tranqüila.

O ar puro, a luz rosada,
Que feliz despertar!
Eu via entre nuvens de incenso
Visões com asas de ouro
Que levavam a venda celeste
Da fé sobre os seus olhos...

Esse sol é o mesmo, mas elas
Não acodem ao meu conjuro;
E através do espaço e das nuvens,
E das águas nos limbos confusos,
E do ar na transparência azul,
Ai! Já em vão as chamo e as busco.

Branca e deserta a via
Entre as frondosas sebes
E os bosques e arroios que ladeiam
Suas margens, com grato mistério
Parece atrair-me e brindar-me
A seguir sua linha sem término

Desçamos, pois, que o caminho
Antigo há de surgir,
Ainda que triste, escabroso e deserto,
E assim como nós mudado,
Ainda cheio dos brancos fantasmas
Que em outro tempo adoramos.






Perceba que na poesia de Rosalía a natureza tem uma dimensão quase mágica, como se suas palavras sacralizassem tudo aquilo que seus olhos pudessem enxergar. E quem conhece a Galícia, terra de verdes bosques, e rios de águas frescas e translúcidas e suas montanhas lambidas de brumas, as ruínas dos antigos castros, quem a conhece não consegue deixar de encantar-se.

Uma sugestão que dou ao leitor/a que me acompanhou até aqui é a seguinte: se o seu bolso permitir e se o seu tempo não for suficiente para caminhar por muitas semanas, uma viagem inesquecível e encantadora é a seguinte: tome um avião até Madri e de lá vá de trem ou de ônibus até a cidade de Villafranca del Bierzo. De Villafranca a Santiago você caminhará uma média de duzentos quilômetros no total, ou seja, vinte quilômetros por dia, o que não é nenhum exagero, mesmo para os sedentários.





Em dez dias você terá conhecido uma das regiões mais bonitas da Espanha, com paisagens indescritíveis, culinária deliciosa, bons vinhos se gosta de beber, entre tantos outros prazeres. Ficando nos albergues, a viagem não pesará no seu bolso e sua alma sairá de lá mais leve do que você imagina. Eu diria, por experiência própria, que se o seu comprometimento com o Caminho for sério, sua experiência será tão profunda e marcante quanto a dos que optarem por caminhar os mais de setecentos quilômetros desde os Pirineus.

O texto abaixo, traduzido por mim da introdução de Rosalía para Cantares Gallegos mostra, sem exagero algum, um perfil da Galícia que ainda hoje, passados mais de cem anos, é possível de ser observado pelos peregrinos que continuam se aventurando naquelas paragens que em muitos momentos parecem ter parado no tempo. Boa viagem.



É um grande atrevimento, sem dúvida, para um talento pobre como o que me cabe, dar à luz um livro cujas páginas deviam estar cheias de sol, de harmonia, e daquela naturalidade que, unida a uma profunda ternura, a um arrulho incessante de palavras meigas e sentidas, formam a grande beleza de nossos cantos populares.

A poesia galega, toda ela música e vagueza, toda queixas, suspiros e doces sorrisos, murmurando umas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, brilhando outras com o raio de sol que cai sereno sobre as águas de um rio caudaloso e grave que corre sob os galhos dos salgueiros em flor, precisava, para ser cantada, de um espírito sublime e cristalino, se pudermos assim dizer.

Uma inspiração fecunda como a vegetação que embeleza esta nossa terra privilegiada, e sobretudo um sentimento delicado e penetrante para dar a conhecer tantas belezas de primeira ordem - fugitivo raio de beleza como o que se desprende de cada costume, de cada pensamento escapado a este povo a quem muitos chamam de estúpido e a quem talvez julguem insensível, alheio à divina poesia.

Mas ninguém menos do que eu possui as grandes qualidades necessárias para levar a cabo uma obra tão difícil, e nem tampouco se pode encontrar alguém animado por um grande desejo de cantar as belezas de nossa terra naquele dialeto suave e meigo que querem tomar por bárbaro os que não sabem que sobrepuja as demais línguas em doçura e harmonia.

Por isso, ainda encontrando-me fraca e sem forças, e não tendo aprendido em outra escola que não a de nossos pobres aldeões, guiada apenas por aqueles cantares, aquelas palavras carinhosas e aquelas construções nunca esquecidas, que tão docemente ressonavam em meus ouvidos desde o berço em que foram recolhidas por meu coração como herança própria, atrevi-me a escrever estes cantares esforçando-me em dar a conhecer como alguns de nossos costumes poéticos ainda conservam certo frescor patriarcal e primitivo e como nosso dialeto doce e sonoro é tão adequado como o primeiro para toda classe de versificação.

(...) Canções, lágrimas, queixas, suspiros, entardeceres, romarias, paisagens, pastos, pinheirais, descampados, ribeiras, costumes, tudo aquilo, enfim, que por sua forma e colorido seja digno de ser cantado, tudo o que teve um eco, uma voz, um rumor, por mais leve que fosse, que chegasse a comover-me, tudo isso me atrevi a cantar neste humilde livro para dizer, pelo menos uma vez, ainda que de um modo acanhado, aos que sem razão nem conhecimento algum nos depreciam, pois nossa terra é digna de elogios e nossa língua não é aquela que degeneram e arranham torpemente as mais ilustres províncias com um riso de mofa, que para dizer a verdade (por mais que esta seja dura) demonstra a ignorância mais crassa e a mais imperdoável injustiça que uma província pode fazer a outra província irmã, por mais pobre que esta seja.

Tenho para mim que o mais triste nesta questão é a falsidade com que são retratados fora daqui tanto os filhos de Galícia como a própria Galícia, a quem geralmente julgam ser a província mais depreciável e feia da Espanha, quando na verdade talvez seja a mais formosa e digna de elogio.

(...) Mas eu, que atravessei repetidas vezes aquelas terras solitárias da Castilha que dão a ideia de um deserto; eu, que percorri a terra fértil da Extremadura e a extensa região da Mancha, onde o sol cai como chumbo iluminando monótonos campos onde a cor da palha seca empresta um tom cansado à paisagem que rende e entristece o espírito, sem uma moitinha que distraia o olhar que se perde em um céu sem nuvens, tão igual e tão cansado como a terra que cobre.

Eu, que visitei os celebrados arredores de Alicante, onde as oliveiras, com seu verde escuro, semeadas em fileira e de raro em raro, parecem chorar por encontrarem-se solitárias, e vi aquela bela zona de terras irrigadas da Murcia, tão famosa e tão aclamada e que, cansada e monótona como o resto daquele território, mostra sua vegetação tal como paisagens pintadas num esboço, com árvores plantadas simetricamente e em pequeninos caminhos para diversão das crianças.

Não posso deixar de indignar-me quando os filhos dessas províncias que Deus favoreceu em fartura, mas não na beleza dos campos, se burlam dessa Galícia competidora em clima e galanteio com os países mais encantadores da Terra, esta Galícia onde tudo é espontâneo na natureza e onde a mão do homem cede seu posto à mão de Deus.

Lagos, cascatas, torrentes, várzeas floridas, vales, montanhas, céus azuis e serenos como os da Itália, horizontes nublados e melancólicos, mas sempre belos, como os tão aclamados horizontes da Suíça, ribeiras tranqüilas e serenas, cabos tempestuosos que causam terror e admiração por sua gigantesca e ensurdecedora cólera... mares imensos... Que mais posso dizer? Não há pena que possa enumerar tanto encanto reunido.

A terra coberta em todas as estações de ervas e de flores, os montes cheios de pinheiros, de carvalhos e de salgueiros, os ventos ligeiros que passam, as fontes e as torrentes derramando-se rumorejantes e cristalinas no verão e no inverno, seja pelos agradáveis campos, seja pelas profundas e sombrias depressões... A Galícia é sempre um jardim onde se respiram aromas puros, frescor e poesia...

E apesar disso, chega a tanto a tolice dos ignorantes, a tanto o preconceito indigno que contra nossa terra existe, que até mesmo aqueles que puderam contemplar tamanha beleza (e já nem estamos falando dos que se burlam de nós sem jamais nos terem visto sequer de longe), os que penetraram na Galícia e gozaram de suas delícias, se atreveram a dizer que a Galícia era... um chiqueiro imundo!

E estes eram, talvez, os filhos daquelas terras abrasadas de onde até os pássaros fogem... Que diremos disso? Nada mais senão que tais tolices a respeito de nosso país têm alguma comparação com as dos franceses ao falar de suas eternas vitórias sobre os espanhóis, que a Espanha nunca, jamais os venceu, pelo contrário, sempre saiu vencida, derrotada, humilhada; e o mais triste disso é que “vale” entre eles tal infame mentira como “vale” para a seca Castilha, para a desértica Mancha e para todas as demais províncias da Espanha – nenhuma comparada em verdadeira beleza de paisagem como a nossa – que a Galícia é o canto mais desprezível da terra.

Bem que se diz que tudo neste mundo tem sua compensação, e assim vem a Espanha sofrer, de uma nação vizinha que sempre a ofendeu, a mesma injustiça que ela, ainda mais culpável, comete com uma província humilhada de quem nunca se lembrou, como não seja para humilhá-la ainda mais. Sinto demais as injustiças com que nos favorecem os franceses, mas neste momento quase lhes sou grata, pois que proporcionam um meio de tornar mais palpável à Espanha a injustiça que ela, por sua vez, comete conosco.

Foi este o motivo principal que me impeliu a publicar este livro que, mais do que ninguém, tenho consciência de que necessita da indulgência de todos. Sem gramática, sem regras de nenhuma classe, o leitor encontrará muitas vezes falhas de ortografia, construções dissonantes para os ouvidos de um purista.

Porém, para desculpar ao menos em parte estes defeitos, tive o maior cuidado em reproduzir o verdadeiro espírito de nosso povo, e creio que o consegui um pouco... se bem que de maneira débil e frouxa. Queira o céu que alguém mais venturoso que eu possa descobrir com suas verdadeiras cores os quadros encantadores que por aqui se encontram, incluso no canto mais escondido e esquecido, para que assim, ao menos em fama - já que não em proveito - ganhe e seja vista com respeito e admiração merecida esta infortunada Galícia!

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Fundação Rosalía de Castro, outra boa fonte. Basta clicar bem aqui.

Obras de Rosalía de Castro na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.

Caminho de Santiago- dê uma estudada no trajeto galego através do site do Guia Eroski Consumer. A região da Galícia começa a partir da etapa 24

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