terça-feira, 15 de novembro de 2011

Viagens pictóricas: a arte de Thais Beltrame

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Conheci Thais Beltrame na empresa onde trabalho e desde que a vi notei que aquela menina de saias e tatuagens tinha algo diferente, não só na aparência, mas no conteúdo humano. Acho que o que nos aproximou mais de imediato foi descobrir que ela curtia música folk, que eu adoro, e daí começamos a prosear e minha simpatia por ela só fez aumentar.

Um dia Thais me mostrou um pequeno caderno sem pautas, onde, entre uma tarefa e outra, ela esboçava desenhos de uma sutileza e criatividade arrebatadoras. Não demorou nem um minuto, virei fã do trabalho dela imediatamente. Logo descobri que aquela moça tinha um talento muito maior do que eu supunha; Thais havia vivido sete anos nos Estados Unidos, com formação em Artes pela City College de San Francisco.



Desenha desde meninota, e como costuma acontecer com escritores e poetas, ama a atividade solitária da criação. Seu suporte é o papel e a tinta, suas cores o branco e o preto, o que me faz refletir que Thais busca na arte equilibrar o ying e o yang da vida.

Viaja muito a menina, tem que ver, até já foi parar na China, uma viagem que a marcou profundamente. Seu ofício a leva para outras terras, expõe nos States e também na Inglaterra, ganha reconhecimento mais do que merecido, porque seu sucesso é fruto de muito esforço e dedicação. Mas nem por isso perde a simplicidade, e nem poderia, porque é esta a qualidade que mais marca a sua obra, como você pode conferir nessas amostras que ela tão gentilmente me permitiu reproduzir aqui no Odepórica.




Thais gosta que gosta de desenhar crianças, um tema recorrente em sua produção artística e li em alguma entrevista dela que isso ocorre porque se sente atraída pela espontaneidade dos pequenos. E quem não se sente? E o barato é que a artista consegue passar para o papel esse sentimento de maneira bastante singular: uma vez que você tenha visto um desenho dela, sempre será capaz de reconhecer seus traços, sua marca, prova de seu estilo autoral.




Hoje mesmo respondi um email da Thais e escrevi que sua obra, caso pudesse ser “transportada” para as palavras resultaria em preciosos haikais. Daí que me deu vontade de tirar alguns livros do Leminski da prateleira, e achei dois escritos, um poema e um haikai que tiro da obra O ex-estranho que se encaixa tão bem com o desenho da Thais que até parece foram feitos um para o outro. Tomei a liberdade de mostrar aqui no blog, veja se você não concorda comigo:

este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor






casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor



por mais que eu ande
nada em mim imagina
o que é que menina
tão pequena está fazendo
numa cidade tão grande






Não ficou bonito? Coisas da arte, alimento d’alma... e eu poderia ficar aqui rasgando elogios e catando haikais a tarde inteira porque a chuva lá fora convida a gente a fazer aquilo que gosta e se eu pudesse não pararia de escrever.


E por falar em escrever, a Thais além de pintar e desenhar também escreve pequenos textos em seu site, alguns deles falando de suas deambulações, suas viagens reais e imaginárias... lembrou-me um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, que já passeou por aqui naquele post sobre o programa da Mirna, você sabe qual.


Portanto, passo agora o bastão peregrino para Thais, e estou seguro que você irá se encantar com o trabalho maravilhoso dessa brasileira que tão bem tem representado nosso país no circuito das artes. Namastê!

ERROS

Na primeira exposição que eu participei em outro país, um homem chegou pra mim na noite de abertura e disse que não tinha gostado do meu trabalho porque achava que era perfeito demais. Claro que na hora eu fiquei um pouco desconcertada com a sinceridade dele, mas com o passar do tempo entendi o que ele quis dizer, e entendi o valor da crítica construtiva.


Aquilo me fez pensar que talvez eu estivesse encarando de forma errada o meu desenho. Quando as linhas não acompanham direito a mão, ou o nanquim desvia do seu curso, eu achava que tinha cometido um erro. E trabalhar em papel e nanquim significa que aquele traço será único, que não tem volta.Mas viver não é isso? Não tem volta para os passos que a gente deu, os caminhos que escolhemos, as palavras que dissemos. É fugaz. O tempo não vai voltar e o seu caminho uma vez trilhado é o único caminho.

CHINA, JARDIM MEU.




Uma das coisas mais interessantes sobre viajar, na minha opinião, é que você nunca vai fazer uma viagem igual a de ninguém. Acho que nem que você queira e se junte a um grupo guiado, cada pessoa vai ter uma experiência única. Mesmo que alguém te indique lugares pra ir, ou que faça tudo que estiver em um guia de viagem. E quando você volta é como se conseguisse guardar um pedaço do lugar nos seus bolsos e gavetas, pra sempre.

A China é um lugar muito estimado pra mim, que usou muitas das minhas gavetas e pra onde eu fujo mentalmente quando preciso de silêncio profundo. Fiz essa viagem há quatro anos com um amigo muito querido, que tirou todas as fotos. Hoje compartilho algumas dessas recordações de uma China que é só minha.

NOSSA MÚSICA, NOSSA HISTÓRIA.




Não lembro de nenhum artista que eu conheça que não tenha uma relação intensa com música; acho que a ligação entre arte e música é tão direta e misturada que um acaba alimentando o outro. No colegial era a fita cassete que rodava de mão em mão, que gerava certa ansiedade até chegar a minha vez de ouvir. Até hoje mantenho a mesma curiosidade e vontade de procurar música que me estimule a produzir.




Como a maioria das crianças, eu cresci escutando o que os meus pais escutavam, e como a maioria dos adolescentes, passei a rejeitar tudo que eles escutavam e comecei a me interessar pela música que o meu irmão escutava. Lembro dele vestido de preto voltando pra casa com discos e mais discos, e as capas já eram o prelúdio pra o que viria na vitrola. Lembro daquela que mais me encantava, que continha um dos discos que a gente mais escutava; o Creatures of the Night do Kiss.


A parte mais legal antes de escutar o disco era o ritual que tínhamos de colocá-lo debaixo do sofá onde era escuro, pra ver os olhos brilhando - e brilhavam mesmo! Retratei esse momento em uma edição da
Revista +SOMA, onde artistas eram convidados a recriarem uma capa de disco de importância pra eles.


Ainda falando sobre música, num desses encontros inusitados da vida recebi um email de uma dupla de música pop da Inglaterra,
Ash Before Oak, que viu meu trabalho em um livro, e uma identificação direta com a música que eles fazem. Cedi então uma imagem pra que eles usassem para a capa do CD deles, escrevi os nomes das músicas à mão.



As pessoas incríveis que encontramos no caminho, quando passamos a dar o nome certo às coisas. Obrigada, Mark e Pete!

YANGSHUO

Eu parei de enxergar quando cheguei em Yangshuo, o que não quer dizer que fiquei cega. Eu parei de enxergar com os olhos que mentem tanto. Os olhos que contam das cores e linhas e formas que você vê no mundo na verdade te distraem das cores e linhas e formas que já existem dentro de você.

NÃO TEM NINGUEM AQUI



Lembro uma vez quando estava viajando a trabalho e não muito feliz por ter que ficar longe por tanto tempo percebi que não estar em algum lugar pode ser mais importante do que estar. Ou seja, não fazia tanta diferença onde eu estava, mas sim onde eu não estava.



Estar longe tem dessas vantagens; em poder ver com distância a própria vida, o que te ajuda a pesar seus valores, repensar relações e voltar a olhar só pra aquilo que realmente importa. É um pouco como se reencontrar.







E foi nesse último não estar que, durante o longo caminho que é voltar consegui repensar muitas coisas e recomeço o ano voltada somente para aquilo e aqueles que realmente importam.

O PASSADO É UM LUGAR


Que você pode visitar. Só não se demore muito por lá.

ENCONTRANDO BELEZA

Quando eu morava em Chicago, trabalhava de dia em uma firma de advocacia no centro da cidade, saía à noite e fazia um lanche rápido antes de ir pra faculdade pra ficar lá até bem tarde. Tinha que acordar muito cedo -meu ponto fraco- e todo dia pegava o metrô, que sempre estava lotado de gente segurando café, jornal e o próprio corpo. Era especialmente durante os dias de desesperança, quando o sol não se mostrava por muitos dias curtos de inverno, que uma pequena placa pintada à mão se destacava no trajeto do trem, pendurada no quintal da casa de alguém. Ela dizia: “encontre beleza.”

Sempre que eu via essa placa sorria por uns segundos, sentia como se fosse um sopro de vida dentre os prédios cinzas e rostos cansados. Passei a esperar que essa plaquinha passasse por mim, pra que eu sorrisse, nem que fosse por dentro.
Um gesto tão simples, você pensa, vindo de um estranho, fazia uma baita diferença no meu dia.

EU GOSTAVA DE VIAJAR SOZINHA


Gostava de ter um mapa dobrado no bolso. Gostava de me perder nas cidades até me encontrar. Gostava de entrar em um lugar qualquer e pedir um café. Gostava de sentar na varanda do albergue à noite e conversar com um estranho. Gostava de não saber o nome das coisas. Gostava de comer comidas estranhas. Gostava de viajar de ônibus sem destino. Gostava até de aeroporto. Acho que ainda gosto disso tudo.

Mas de não ter com quem dividir nada a não ser as fotos, disso eu não gostava.
Eu não quero mais viajar sozinha. A ausência, eu não quero mais.
Eu não pude dividir muita coisa e agora sinto que talvez seja tarde demais.

E você também entende que só existe um único ponto de partida, e que você continuará movendo adiante, não importando quantas vezes você pegue aquele avião de volta.

TODAS AS COISAS FEITAS À MÃO





Dias desses recebi pelo correio não uma conta de luz, não uma cobrança de banco, não uma propaganda de tv à cabo, não um menu de pizzaria mas um cartão postal. Um cartão postal escrito à mão por um querido amigo, enviado quando ele estava na Turquia. Confesso ter ficado chocada com a minha reação, como se tivesse encontrado um diamante ao meio de um monte de lixo – que era, de fato.


Me tocou pensar que ele se deu ao trabalho de anotar meu endereço, escolher um cartão, pegar uma caneta, escrever algumas palavras simpáticas, colocar um selo e mandar pelo correio. E me assustou pensar que uma coisa que era tão comum e que justamente tinha o propósito dentre outras coisas, de aquecer o coração, é cada dia mais rara nos dias de hoje. Dedico este post a todas as coisas feitas à mão, e que elas não se percam como tantas coisas que já perdemos pelo caminho.

O SOM DO SILÊNCIO



Dia desses um amigo me falou de sons do espaço que a sonda Voyager da NASA vem gravando ao longo dos anos, desde que foi lançada em 1977. Claro que vim direto pra casa e comecei a procurar na internet, e encontrei desde o som de hélio líquido até os anéis de Saturno. Vai ser difícil parar de ouvir uma vez que você começar.




Existe algo de muito frio e vazio no universo, ou pelo menos até onde conseguimos alcançar. O fato é que nossa casa ainda é este planetinha azul, que na minha opinião é o que tem o som mais bonito, talvez porque seja o som de nós todos.







Todos os textos e desenhos desse post foram retirados do blog da Thais e de sua página do Flickr. As ilustrações inseridas nos textos foram feitas de forma aleatória por mim e não seguem a mesma ordem no site da autora.


Para visitar o blog, clique aqui.
Para viajar com os desenhos nos álbuns do Flickr, clique
aqui.

2 comentários :

  1. Muito legal a arte da Thais. Alguns dos bonequinhos lembram aqueles do encarte do Ok Computer (Radiohead), cuja estética muito me agrada.

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