sábado, 8 de janeiro de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: Sendas de Oku, Matsuo Basho

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Olá! Conhece Basho?
Estou apaixonado pela obra deste maravilhoso escritor e auspicioso andarilho japonês que passou por aqui há muitos e muitos anos. Ele se foi, mas deixou tanta inspiração e luz que quatro séculos não foram capazes de apagar seu rastro. Coisa que só gente bacana é capaz de conseguir. E põe bacana nisso.

Matsuo Kinsaku “Basho” (pronuncia-se Bashô,) nasceu em Ueno, Japão, em 1644 em uma família de samurais. O período histórico em que viveu coincide com o momento em que o Japão se manteve fechado para o resto do mundo; foi durante esse período de aproximadamente 250 anos que o verdadeiro caráter e cultura japoneses emergiram da sombra da influência chinesa.

Aos nove anos Basho é iniciado na arte poética japonesa, na caligrafia e no verso clássico chinês; seus estudos o levam a se aprofundar na arte do haikai. Sabe o que é um haikai (ou haiku)? O Alberto Marsicano é quem explica:


O haikai deriva do clássico tanka, poema japonês de 31 sílabas. Esta divisão gerou o costume de os poetas reunirem-se para elaborar coletivamente os poemas: um criava a primeira parte e outro a segunda. Assim, ludicamente se engendravam longas séries de versos que foram denominados renka. Com o tempo, a primeira parte do tanka, de5, 7 e 5 sílabas, adquiriu autonomia dispensando a segunda. Estes poemas curtos e satíricos, repletos de jogos de palavras, ficaram famosos em todo o Japão sob o nome de renka haikai, ou simplesmente haikai.

Um exemplo para ilustrar, da autoria do próprio mestre Basho:

acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve


E outro, de Shiki, discípulo de Basho, com tradução de Paulo Leminski:

nem vem que não tem
eu penso crisântemo
crisântemo em mim também



Delícia pura, isso é o haikai. Mas deixemos a poesia para depois, de sobremesa. Voltemos ao prato principal. Quando completa 28 anos, tendo já vivido metade de sua vida, Basho parte para Edo, a Tókio de hoje, onde compila uma antologia de haikai, dedicando-a à divindade protetora das letras. Diz o Marsicano que Basho se afasta aos poucos da escola mais tradicionalista, chamada Teitoku, por esta insistir em conter o humor e a liberdade originais do haikai. Além do mais, como escreve Octavio Paz (veja o link no final do post), para Basho o haikai não era apenas poesia em sua forma mais pura, era acima de tudo um exercício espiritual. E na senda espiritual não pode haver limites impostos pela razão humana.


Parece que o mestre Basho se encheu desse lance de ficar buscando escolas com as quais pudesse sentir-se pleno e o caminho, também seguido por outros poetas, foi o de mudar radicalmente de vida.

Em 1682, embora cercado por inúmeros discípulos e admiradores, muda-se para uma pequena choupana às margens do rio Sumida, na periferia de Edo. O retiro despoja nosso poeta das obrigações mundanas e também de boa parte de seus alunos. Esse novo estilo lhe obrigara a viver como eremita ao lado de apenas poucos estudantes. Um deles planta no jardim uma bananeira (Basho - no japonês) que primeiro passa a denominar o local e posteriormente o próprio poeta. É importante frisar que naquela época essa planta era exótica e muito celebrada pelos clássicos chineses devido a sua fragilidade diante dos rigores do clima temperado.



E a roda gira. Em 1681 Basho conhece o mestre zen Bucchô e inicia a prática da meditação sentada, o “zazen”. Por essas e outras o zen budismo irá influenciar bastante a sua obra. Alberto Marsicano explica que Basho foi capaz de “infundir na concisa forma do haikai a amplidão do pensamento zen”. E continua:

O haikai é o olho do furacão, o profundo toque de um gongo de bronze, o iridescente relâmpago que inesperadamente reluz na escuridão da noite. O haikai é o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho.

No final de 1682 acontece o grande turning point na vida de Basho: um incêndio de grandes proporções destrói sua choupana. É a partir daí que o mestre poeta passará em contínua viagem todo o resto de sua vida nesse mundo de ilusões. Nesse momento já era um nome conhecido em todos os cantos, entre os grandes haikaístas do país, e por isso era bem recebido por todos. Basho foi de fato um tipo de monge poeta errante. Ou, simplesmente, um poeta andarilho.

Os relatos de viagem de Matsuo Basho


Na segunda metade de sua vida Basho viajou muito. Deixou alguns relatos de viagem, sendo três os principais:

Visita ao Santuário de Kashima, de 1687. Consiste num conciso relato repleto de haikais. Basho lança-se a pé pelas estradas (apenas os nobres samurais podiam usar cavalos) e atravessa o país com o simples intuito de contemplar a lua cheia nascendo sobre o sagrado templo; ao mesmo tempo aproveita a jornada para recolher inúmeros haikais de poetas que encontra pelo caminho.


Visita a Sarashima
, 1688. Neste relato, que descreve a subida de uma íngreme montanha, podemos vislumbrar todo o processo iniciático do zen budismo, com suas duras provas e dificuldades na trajetória onde o neófito em meio a ferrenha luta consigo mesmo percorre a escarpada senda rumo ao despertar – representado aqui pelo clarão da lua cheia.


O terceiro relato é o mais famoso: Trilha Estreita ao Confim. Trata de uma longa jornada de quatro anos, iniciada em 1689, quando Basho, não resistindo ao chamado dos deuses da estrada, é impelido às remotas províncias do norte, passando por paragens ainda hoje consideradas como longínquas e misteriosas. Certos autores têm a firme convicção de que o poeta percorria estes caminhos tomado por poderes mágicos e uma força espiritual muito intensa que o possuía por completo.

Em 1694 deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos desconfiados do desenlace próximo pedem-lhe que faça seu poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o “poema de morte”. Na mesma noite tem um sonho e ao acordar escreve seu derradeiro poema:

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Levado a casa de um florista, morre cercado de amigos e alunos. Está enterrado às margens do lago Biwa no jardim do tempo Yoshinaka à sombra de uma bananeira.


Oku no Hosomichi: Sendas de Oku



Agora deixo um pouco de lado o texto do Alberto Marsicano, a quem logo retornarei, e trago a você o prestigiado trabalho de Octavio Paz, pioneiro na tradução (1956) em língua ocidental da obra de Matsuo Basho. Apenas uma introdução, mas bastante enriquecedora como você poderá conferir a seguir:

As versões para o inglês dão uma ideia mais realista da viagem de Basho e de seu ponto de destino: norte remoto, povoados distantes, províncias; a tradução francesa, embora mais literal, inclina-se em direção ao simbólico: fim do mundo. Nós preferimos a via intermediária e pensamos que a palavra Oku, por ser estranha ao leitor de nossa língua, poderia talvez refletir um pouco a indeterminação do original.

Oku quer dizer fundo ou interior; neste caso designa a distante região do norte, nos confins do Japão, chamada Oou e escrita com dois caracteres, o primeiro dos quais se lê Oku.

O título evoca não somente a excursão aos confins do país, por caminhos difíceis e pouco freqüentados, senão também uma peregrinação espiritual. Desde as primeiras linhas Basho se apresenta como um poeta anacoreta e meio monge; tanto ele como seu companheiro de viagem, Sora, percorrem os caminhos vestidos com os hábitos dos peregrinos budistas; sua viagem é quase uma iniciação e Sora, antes de cair na estrada, raspa a cabeça à maneira dos bonzos (monges budistas).


Peregrinação religiosa e viagem aos lugares célebres – paisagens, templos, castelos, ruínas, curiosidades históricas e naturais – a expedição de Basho e de Sora é também um exercício poético: cada um deles escreve um diário semeado de poemas e, em muitos dos lugares que visitam, os poetas locais os recebem e compõem com eles esses poemas coletivos chamados haikai no renga.

E o resto nós já vimos no que vai dar. Pé na estrada e bastante inspiração zen pelos caminhos nos confins do Japão. Agora já sabemos que Trilha Estreita ao Confim e Sendas de Oku são a mesma obra. Particularmente gosto mais de Sendas de Oku, por isso preferi esse título ao outro, escolhido pelo Alberto Marsicano e Kimi Takenaka na obra a que tanto me refiro nesse post. Mas isso é só um detalhe sem importância.


Vou transcrever alguns trechos de Sendas de Oku tirados da obra de Marsicano e Takenaka. É essa a primeira tradução de Oku no Hosomichi para o português diretamente de sua língua original, algo a ser celebrado sem dúvida. Entretanto, a primeira passagem – justamente os primeiros parágrafos do relato de Basho – é resultado do trabalho de Paulo Leminski para sua pequena e deliciosa biografia de Matsuo Basho para a coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense. Mais leve no trato com as palavras, Leminski parece ter traduzido Basho como quem escreve sobre um amigo íntimo, enquanto Marsicano e Takenaka optaram por manter o máximo possível a literalidade do texto original, numa atitude mais reverencial em relação ao mestre poeta.

SENDAS DE OKU (Trilha estreita ao confim)


Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou contínuas idéias de meter o pé na estrada.

O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana, às margens do rio, e a limpei das teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos.

Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de me fortalecer as pernas para a viagem, me untei de “moka” (terapia de moxabustão) queimada. Logo a idéia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga da minha choça:

a cabana de ervas secas
(o mundo tudo muda)
vira casa de bonecas



Quando, em 27 de março, me pus a caminho, havia neblina no céu da madrugada. A pálida lua matutina tinha perdido o brilho, mas ainda se podia vislumbrar debilmente o monte Fuji. Em Ueno e Yanaka, os ramos das cerejeiras em flor me despertaram pensamentos tristes ao perguntar-me se algum dia os voltaria a ver.

Meus amigos mais queridos tinham todos vindo à noite na casa de Sampu, para poder me acompanhar durante o curto trecho de viagem que eu faria em barco. Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a idéia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:

primavera
não nos deixe
pássaros choram
lágrimas
no olho do peixe
(PL)

Com este poema comemorei meu errar. E caminhei adiante em minha jornada. Meus amigos acenaram-me adeus, até que desaparecessem de minha vista. Caminhei o dia todo somente desejando voltar, após haver conhecido as misteriosas paisagens do norte distante, porém sem acreditar realmente na possibilidade de realizar tal jornada, pois sabia que uma caminhada como esta, longa viagem através do segundo ano de Genroku, apenas acumularia cabelos brancos sobre a minha cabeça, quanto mais me aproximasse das nevadas regiões.

Quando alcancei a aldeia de Soka ao anoitecer, meus ombros estavam machucados pelo peso da bagagem, que consistia num cobertor para noite, num traje de algodão, numa capa de chuva, material para escrever e presentes ganhos na despedida. Gostaria muito de viajar mais leve, porém existem coisas das quais não nos podemos desvencilhar, por razões práticas ou sentimentais.

(...)

Um grande amigo residia em Nassu-no-Kurobane, na província de Nassu. Porém, para chegar a esta cidade, era necessário atravessar um imenso pântano. Segui por uma estreita trilha, que por milhas e milhas cruzava, como uma reta, o imenso alagado. Já avistava ao longe a pequena cidade quando uma forte chuva começou a cair, e a escuridão da noite encobriu com rápidas pinceladas de nanquim a paisagem.

Passei a noite na casa de um solitário fazendeiro, e me levantei cedo, ao raiar do sol. Ao longe avistei um cavalo pastando e um camponês cortando o mato. Pedi-lhe o grande favor de emprestar-me seu cavalo. Ele hesitou por um momento, porém, finalmente, com um toque de simpatia na face, me disse: “Existem centenas de encruzilhadas por estes caminhos e um andarilho como você poderia facilmente se perder neste emaranhado e labiríntico meandro. Porém, o cavalo conhece bem o caminho. Leve-o e mande-o de volta quando dele não mais precisar”.


Montei, e parti rumo à cidade. No caminho, duas crianças, filhos deste camponês, seguiam-nos acenando. Sora perguntou à menina qual era o seu nome, e ela respondeu: “Kasane, que significa multiplicidade, variedade”. Para o nome de uma criança do campo, este era um nome diferente e Sora escreveu os seguintes versos:

menina Kasane
rósea flor
múltiplas pétalas


Enviei o cavalo de volta a seu dono, não esquecendo antes de colocar uma pequena quantia em dinheiro, amarrada junto à cela. Ao chegar à cidade de Kurobane, fui logo visitar meu amigo Joboji.

Ele ficou muito emocionado ao me ver tão inesperadamente, e conversamos durante vários dias e noites. Seu irmão Tosui aproveitava todas as oportunidades para conversar comigo, levando-me à sua casa para conhecer seus familiares e amigos. Um dia percorremos a periferia da cidade. Vimos as ruínas de um antigo campo de tiro, e, caminhando até o pântano, visitamos o túmulo da Senhora Tamamo, e depois o de Hachiman, sobre o qual o samurai Yoichi tornara-se famoso por alvejar, com uma flecha, um leque suspenso sobre a proa de um barco. Ao escurecer voltamos à casa de Tossui.


Fui convidado a visitar o templo Komyoji, onde encontra-se a estátua do fundador da seita Shugen. Conta-se que ele percorreu todo o país com seus tamancos de madeira, pregando a doutrina búdica.

verão nas montanhas
peço a estes tamancos proteção
em minha longa jornada


Sobremesa do post: haikais do Paulo Leminski

tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro

a palmeira
estremece
palmas pra ela
que ela merece

ameixas:
ame-as
ou deixe-as

prá que cara feia?
na vida
ninguém paga meia

nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando


Para ler, reler e rereler:

Trilha estreita ao confim. Matsuo Basho; tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Imperdível também é a pequenina edição intitulada Matsuó Bashô: a lágrima do peixe, do Paulo Leminski - coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 1983. Infelizmente, super fora de catálogo.



Se você ficou curioso/a com os haikais e quer se envolver um pouquinho mais com o tema, sugiro um site bacana que merece o passeio:
Revista Brasileira de Haicai, com links para outras páginas de igual interesse.

A tradução de Sendas de Oku, do Octavio Paz (de onde tirei os excertos para esse post) está disponível na íntegra no seguinte site:
http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Sendas_de_Oku/frame.html. En español, por supuesto.













































































































sábado, 1 de janeiro de 2011

Jornadas de simplicidade, by Philip Harnden

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Ganhei de natal um livro simplesmente encantador: Journeys of Simplicity: Traveling Light. Simples no tamanho, simples na proposta, simples em tudo. Mas, alto lá: nem sempre as coisas simples são banais ou superficiais, pelo contrário; nos dias que correm, a simplicidade é algo que se conquista com alguma dificuldade, e é esse paradoxo que torna a leitura de Jornadas da Simplicidade uma curtição.

O autor, Philip Harnden, que vive lá pela fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, pertence à religião dos
Quakers e escreve artigos de conteúdo religioso/espiritual. Isso de certa forma explica a presença marcante de algumas personalidade relacionadas ao universo espiritual: Thomas Merton, Bashô, Gandhi, Jesus de Nazaré e Peregrina da Paz, só para citar os mais conhecidos.

Mas o sagrado se mistura deliciosamente ao profano, e daí que aparecem por lá o Werner Herzog, o Marcel Duchamp, o Robert Pirsig e junto com eles gente que só existe nas páginas dos livros, como o Bilbo (do Senhor dos Anéis), o Padre Zossima (Irmãos Karamazov) e o Japhy, o vagabundo iluminado de Kerouac. Uma salada interessante de personagens reais e fictícios que dão à essa pequena coletânea de textos um tempero especial.

E o livro se apresenta assim: para cada personagem, duas páginas; na esquerda uma breve, brevíssima apresentação do fulano ou da fulana, e na página da direita uma lista daquilo que essas pessoas carregaram em suas viagens ou em suas vidas, o que dá quase no mesmo, porque aqui a metáfora da viagem se mistura à realidade da vida (ou seria a realidade da viagem que se mistura à metáfora da vida?).
Jornadas da Simplicidade é um livro que se lê em trinta minutos, não mais do que isso. Mas sua leitura não se aproveita assim, da mesma forma que não se lê um punhado de boas poesias em meia hora e pronto. É preciso ritualizar a leitura, ler e deixar a mente vagar, traçando paralelos com sua própria história de vida. As listas que Philip teve o cuidado de garimpar dizem muito, às vezes quase tudo, sobre a vida e sobre quem foi o personagem ali retratado de maneira tão frugal. O que carregaram os grandes exploradores em suas viagens fantásticas? O que deixaram após sua partida aqueles que pregaram uma vida simples e livre de excessos?

A questão primordial dessa leitura, que parece inspirar uma filosofia da simplicidade, é a de nos fazer refletir sobre o peso que carregamos em nossas viagens e em nossas vidas. Lembro-me sempre de um peregrino jacobeo que certa vez afirmou que a aventura do Caminho de Santiago é proporcional à quantidade de dinheiro que se carrega na carteira; menos grana significa mais aventura, mais emoção e, claro, provavelmente mais provações também. Mas daí a pergunta: quem terá mais histórias para contar, o viajante que caminhou com o mínimo e contando com a ajuda de outras pessoas ou aquele que no final de cada dia relaxava na banheira de uma confortável pousada? Como tudo na vida, uma questão de opção. E viva o “caminho do meio”, certo? Certo.
Mas vamos simplificar esse post. Das quarenta personagens citadas na obra, escolhi meia dúzia. Nem todos os que apareceram na lista do autor são interessantes, (alguns são até bem insossos) mas no fundo todas as listas pecam pelo excesso de subjetividade nelas contidas. Então, que cada um faça a sua, certo? E deixo contigo, leitor e leitora do Odepórica, quatro perguntinhas capciosas que o editor botou na contracapa do livro e que servem de ponto de partida para a próxima viagem que você for empreender em sua vida: Para onde nossas jornadas nos levam? O que deixamos para trás? O que carregamos conosco? Como podemos encontrar o nosso caminho? Boas questões para se iniciar um ano novo, não? Feliz 2011 e Namastê!

Viajando com leveza



Há mil e duzentos anos na China um homem de meia idade chamado P’ang Yün carregou todos os seus pertences em um barco e afundou tudo no lago Tung-t’ing. Depois disso, ficamos sabendo, “ele viveu como uma simples folha”.

Imagine-o lá numa manhã bem cedinho, com os pés mergulhados na água no meio do lago, observando as últimas bolhas subindo das profundezas. O ar fresco e calmo. O lago enevoado e tranqüilo assim como o céu. Depois veja-o partir, dando as costas às margens do lago.

Justine Dalencourt, uma Quaker francesa, foi forçada a abandonar sua casa em Fontaine-Lavaganne quando o exército alemão invadiu a França em 1914. Mas antes de partir ela cultivou a sua horta, dizendo: “Prefiro que eles encontrem algo de comer em minha casa a vê-los roubar dos outros.”
Imagine-a de joelhos, cobrindo com terra a última semente, afofando o solo úmido. O sol caloroso da primavera. O perfume intenso da terra sob suas narinas. Um trovão iluminando o céu ao longe. Depois veja-a, em pé, virando-se e indo embora.

Viajar de maneira leve – imagine o significado disso: uma jornada sem sobrecarga, uma maneira graciosa de viajar pela vida tal como uma simples folha. Agora imagine outra coisa: a luz pela qual nós viajamos, a luz que indica o caminho. A luz da nossa jornada.

O que significa viver como uma simples folha? Uma jornada sem sobrecargas, sem tumultos, sem distrações – uma jornada com foco e intenção? Uma jornada de leveza e luz?
Os Quakers dizem que uma chama brilha dentro de cada um dos seres. De cada ser. Todos os seres. Será que essa Luz seria capaz de fazer-nos lembrar que, após roubarem nossas casas, os soldados estarão famintos? E que para ver essa Luz Profunda – em nós mesmos e nos outros - devemos antes afundar o barco?

Em 1889, aos dezessete anos, meu avô deixou sua família e amigos na Suécia e navegou para a América. Ele empacotou todos os seus bens num pequeno baú de madeira. Hoje eu guardo esse baú próximo à minha escrivaninha. Suas ripas de madeira entrelaçam-se numa moldura retangular; sua tampa faz uma curva ascendente. A madeira, agora quebrada em algumas partes, escureceu com o tempo.
Ponderando sobre esse velho baú, vejo um jovem garoto de fazenda, o medo e a aventura em seus olhos, deixando tudo de lado exceto o essencial ao fazer a mala para sua viagem, vivendo em si uma simplicidade quieta. Vejo-o embarcando num barco nas primeiras horas de uma manhã nublada e rumando em direção às profundezas do oceano.

Eu mesmo não tenho viajado muito, embora guarde algumas belas bagagens em meu sótão. E também duas mochilas cargueiras, uma sacola de tecido, uma maleta, vários sacos de transporte, três sacos de dormir, uma mochila de alpinismo de lona, outra feita de lã e uma ou duas barracas de camping. Olhando para o velho baú de meu avô, percebo que eu mal conseguiria usá-lo para levar o que necessitaria para um pic-nic de verão. E ao contrário de P’ang Yün, não posso imaginar onde encontraria um barco grande o suficiente para acomodar tudo o que possuo no meio de um lago qualquer. Evidentemente, pretendo manter todos os meus bens deste mundo à tona. Por que? Será que me falta a leveza necessária? A Luz necessária?

Há vários anos venho coletando listas sobre viagens leves, triviais. A maior parte originárias de viagens feitas por pessoas de um lugar a outro, de um dia a outro, do nascimento à morte. Cada lista descreve aquilo que foi carregado, às vezes em uma mochila, às vezes no lugar mais íntimo de um viajante. Comecei a coletar essas listas, suponho, porque eu vi a mim mesmo refletido em sua vaga poesia – a poesia do vazio. Eu ainda não compreendo muito bem porque as acho convincente. Será que ouço a voz do meu avô?



Em tempo: depois de afundar todos os seus pertences desse mundo, P’ang Yün devotou o resto de sua vida ao Zen, à poesia e à deambulação. Como uma singela folha.



THOMAS MERTON (1915-1968)


Padre Louis, como Thomas Merton era conhecido pelos seus companheiros monges, viveu seus últimos anos como um ermitão nos bosques próximos à sua abadia cisterciense. Seu eremitério era pequeno e sem adorno, um prédio com blocos de concreto e chão de cimento. Ele cortava sua própria lenha para a lareira, pegava a água da abadia, cozinhava num pequeno fogareiro e lia sob a luz de um lampião a querosene. Mais tarde, quando sua saúde se deteriorou, foi instalada a eletricidade. Despertava tipicamente às 3:15am para o início das orações do dia.

Foi talvez o primeiro ermitão trapista da era moderna. Praticou o voto do silêncio e foi conhecido em todo o mundo pelas suas palavras. Enclausurado com seus irmãos em Kentucky por 27 anos, veio a falecer do outro lado do mundo, em Bancoc, sozinho. Crítico eloqüente da guerra no sudeste da Ásia, seu corpo foi levado de volta a casa desde o Vietnã no compartimento de um jato da Força Aérea Americana.

Entre os pertences de Thomas Merton foram encontrados:

Um relógio Timex,
Um par de óculos escuros com armação de tartaruga;
Dois pares de óculos bifocais com armação de plástico;
Dois breviários cistercienses com capa de couro;
Um rosário (quebrado);
Um pequeno ícone de madeira com a Virgem e o Menino.

JOHN MUIR (1838-1914)
John Muir foi um eterno pacifista que mudou-se para o Canadá durante a Guerra Civil Americana. Foi um mago da mecânica que se recusou a patentear suas invenções porque “todo o progresso e invenções deveriam ser de propriedade da raça humana”. Quando um acidente de fábrica deixou-o temporariamente cego, o jovem Muir resolveu devotar o resto da sua vida ao “estudo das invenções de Deus”. Ao recuperar a visão, ele partiu sozinho numa longa jornada botânica de mil milhas, indo a pé desde o estado de Indiana até o Golfo do México.

“Somente estando sozinho e em silêncio, sem bagagem, é possível de fato entrar no coração da vida selvagem”, ele escreveu. “Qualquer outra viagem é mera poeira e hotéis e bagagem e conversa fiada”.

A caminhada de mil milhas de John Muir ao Golfo do México:

Numa sacola emborrachada

Pente
Escova
Toalha
Sabão
Muda de roupa íntima

Cópia dos poemas de Burn
A obra Paraíso Perdido, de Milton
A obra
Wood’s Botany
Um pequeno Novo Testamento
Um diário
Mapa
Uma prensa de plantas

MARCEL DUCHAMP (1887-1968)
Pintor francês do movimento Dadaísta.

Sua esposa, Teeny Matisse, afirmou certa vez ter ficado perplexa ao perceber “como ele foi capaz de ter ocupado tão pouco espaço em sua vida”.

Viagens de final de semana de Marcel Duchamp

Sem mala.

Duas camisetas, uma vestida sobre a outra
Uma escova de dentes – no bolso de sua jaqueta

WILL BAKER (1935-)

Cineasta, fotógrafo e escritor norte-amerciano

Em 1979 Baker partiu para o Peru com o intuito de conhecer a etnia dos Asháninka, num remoto território da zona central do país. A primeira vez em que ouviu falar deles foi numa velha edição da National Geographic. As fotografias o capturaram.

Um dia, durante a trilha, ele fez uma pausa para comparar a si mesmo com os viajantes locais.

Will Baker na trilha rumo a Puerto Ocopa:

Equipamento do gringo:

Sleeping bag
Rede de mosquitos
Corda de nylon
Fósforos e vela
Facão
Canivete suíço
Calças extras, camisa, meias
Kit de cozinha
Câmera, caderno de anotação
Filme, canetas
Dicionário, mapas
Creme dental, escova, escova de cabelo, barbeador, sabão, toalha, poncho, kit de primeiros socorros, mix de frutas secas, chá, sombreiro.

Equipamento do índio:

Garrafa d’água
Facão

WERNER HERZOG (1942-)
Cineasta alemão cuja obra pouco convencional mistura espiritualidade e pesadelo, ternura e demência épica.

Bruce Chatwin disse certa vez que Werner Herzog era “a única pessoa com a qual eu poderia manter uma conversa sobre aquilo que eu chamaria de aspecto sacramental da caminhada. Tanto eu quanto ele compartilhamos a crença de que andar não é simplesmente uma atividade terapêutica mas uma atividade poética capaz de curar as doenças do mundo.”

Por volta de 1974, Herzog recebeu a notícia de que uma das mais importantes críticas do cinema alemão, Lotte Eisner, estava à beira da morte em Paris. Herzog mais tarde escreveu: “eu disse que isso não poderia ser, não nesse momento, o cinema alemão não poderia continuar existindo sem ela, nós não podíamos permitir a sua morte... eu tracei a rota mais direta a Paris, cheio de fé, acreditando que ela ficaria bem se eu chegasse a Paris com meus próprios pés.

Na pressa, Herzog deixou Munique sem levar roupa de frio ou mesmo um mapa apropriado. Por 21 dias, com chuva e neve constantes, caminhou com muita dificuldade por acostamentos de estradas sombrias, através de campos lamacentos. À noite dormia em hotéis baratos de beira de estrada ou em celeiros e a dor de seus pés cheios de bolhas dentro das botas novas logo foi suplantado pela dor dos tendões e tornozelos inchados.

Quando ele finalmente chegou ao lado da cama onde se encontrava Lotte Eisner, ele a encontrou muito cansada mas em estado de recuperação. Ela ainda viveu por mais nove anos.

“Eu lhe disse: abra a janela, pois por conta destes últimos dias, daqui em diante eu posso voar”.

A caminhada de Herzog de Munique a Paris:

Botas, novas e resistentes
Bússola
Jaqueta
Blusa e cachecol
Um poncho fino de plástico
Um nécessaire

Adquirido ao longo do caminho:

Gorro
Minhocão
Lanterna
Curativos para bolhas
Um mapa Shell de estradas

JAPHET M. RYDER

Bondoso “vagabundo do dharma”- inspirado no poeta Gary Snyder - de uma das mais populares obras de Jack Kerouac.

“Eu admito, tenho medo dessa opulência norte americana, eu sou apenas um velho bhikku e não tenho nada a ver com esse alto padrão de vida, por Deus!, tenho sido um cara pobre toda a minha vida e simplesmente não consigo me acostumar com certas coisas.”

A cabana de Japhy Ryder próximo a Corte Madera:

Uma jarra de barro explodindo com flores colhidas no campo
Esteiras de palha no chão
Sem sapatos
Sem cadeiras
Paredes forradas com sacos de estopa
Gravuras de pinturas chinesas em seda
Mapas
Poemas pregados pelos cantos
No armário: mochila e roupas de segunda mão

Um colchonete fininho
Xale estampado
Saco de dormir, enrolado
Livros em engradados laranja
Sutras budistas,
Suzuki, haiku, poesia
Forno a lenha


Inspire-se: leia Journeys of SimplicityTraveling Light. Philip Harnden. Skylight Paths Publishing, 2003