domingo, 20 de fevereiro de 2011

Vagamundos, by Rolf Potts

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Esse post vai agradar aqueles que sonham em um dia sair pelo mundo e perambular pelos quatro cantos do globo sem pressa nenhuma de voltar para casa. Rolf Potts, um norte-americano que escreve sobre viagens independentes para a National Geographic viajou muito pelo planeta e decidiu escrever um guia para ajudar futuros vagamundos na arte do que ele chama de “Long-term world travel”, ou “viagem de longa duração pelo mundo”.

Eu disse vagamundos? Sim, vagamundos, que é como ele denomina esses tipos de aventureiros e aventureiras descolados. Preferi usar o termo vagamundo a vagabundo (na tradução de vagabond) porque este último carrega um sentido muito pejorativo na nossa língua.

O Rolf diz que vagabond é um termo derivado do latim para wanderer, substantivo que em inglês se utiliza para se referir ao viajante que não tem residência fixa. Já o Aurélio é muito mais criativo em sua definição de vagabundo; além de explicar que o vagabundo é aquele (a) que leva uma vida errante, que vagueia, ele arruma uns sinônimos cheios de graça: vadio, inconstante, nômade, andejo, mundeiro, volúvel, leviano, velhaco, pilantra, canalha, biltre, reles, ordinário, desocupado, ocioso, vagamundo, troca-pernas, valdevino, caça-fecho, cafumango, calaveira, calça-fecho, calça-foice, lustra, lustroso, ximbo.
Dessas palavras todas considero vagamundagem a mais apropriada à tradução que fiz para Vagabonding, que é o título da obra do Rolf Potts. Agora chega de explicações e vamos ao que interessa. A obra possui duzentas páginas e o sumário divide-se assim: I) Vagamundagem; II) O começo; III) Pé na estrada; IV) A longa jornada e V) Voltando para casa.

Claro que, num trabalho desse porte, há toneladas de conselhos e dicas de gente experiente. Alguns úteis, outros nem tanto, alguns que a gente lê e pensa com maldade que “é coisa de americano”, e por aí vai. Mas de um modo geral eu gostei do livro do Rolf e também de seu estilo despretensioso e bem-humorado.

Uma ideia bacana do Rolf, que já vi funcionar igualmente bem em outras obras, foi a de colocar no final de cada tópico entre os capítulos de cada uma das cinco seções um pequeno e simpático Vagabonding Profile, ou seja, o perfil de algum vagamundo tomado como modelo ou inspiração (não se esquecendo das pioneiras mulheres vagamundas). E desses perfis surgem nomes de bom quilate: Walt Whitman, Thoreau, Bayard Taylor, John Muir, John Ledyard, Ed Buryn e Annie Dillard, entre outros.

Citações, opiniões de gente desconhecida que caiu na estrada, dicas de leitura e sites de interesse ajudam a enriquecer o trabalho do Rolf, que por sinal mantém um blog bacana criado evidentemente para vender seu peixe – certo está o moço.

Escolhi para o Odepórica o capítulo 5 intitulado “Não estabeleça limites” (Don’t set limits), da seção Pé na estrada. Tomei a liberdade de excluir alguns parágrafos, com o cuidado de não alterar a mensagem e o sentido do texto. Boa viagem e Namastê!


Não estabeleça limites

Os budistas acreditam que nós levamos nossas vidas como se vivêssemos dentro de uma casca de ovo. Assim como uma galinha que ainda não saiu do ovo possui poucas pistas sobre o sentido da vida, a maioria de nós possui apenas uma vaga noção do enorme mundo que nos rodeia.

“Excitação e depressão, fortuna e desventura, prazer e dor,” escreveu Dhammapada Eknath Easwaran, “são tempestades em um pequenino e individual reino de casca de ovo – no qual tendemos a passar toda uma existência. Ainda assim, podemos quebrar essa casca e ingressar em um novo mundo.”
Vagamundagem não é o Nirvana, claro, mas a analogia com o ovo pode ser aplicada aqui. Ao deixar as rotinas e obrigações do lar para trás – tomando aquele resoluto primeiro passo em direção ao mundo – você se verá lançado a um paradigma muito maior e menos constritivo.

Nos estágios de planejamento de suas viagens, esta ideia pode parecer assustadora. Mas uma vez que você entra de cabeça e cai na estrada, logo percebe como tudo rola fácil e de maneira eletrizante. Experiências comuns (como pedir uma comida ou tomar um ônibus) irão de repente parecer extraordinárias e cheias de possibilidades. Todos os detalhes da vida diária que você ignorava quando estava em casa – o sabor de um refresco, o som de um rádio, o cheiro do ambiente – vão repentinamente parecer ricos e exóticos.

Comida, moda e entretenimento irão parecer deliciosamente peculiares e absurdamente baratos. À parte todos os seus preparativos, você invariavelmente se pegará querendo saber mais sobre as histórias e as culturas que o cercam. O tênue murmúrio do desconhecido, assustador a princípio, logo se mostrará viciante: simples incursões ao mercado ou uma ida ao banheiro podem transformar-se em uma aventura; conversas banais podem criar agradáveis laços de amizade. A vida na estrada, você logo descobrirá, é muito menos complicada do que você poderia imaginar, embora intrigantemente mais complexa.
“Viajar, em geral, e vagamundear, em particular, resulta numa enorme experiência de vida”, escreveu Ed Buryn, “...uma provação de incidentes, impressões e detalhes de vida que são ao mesmo tempo estimulantes e exaustivos. Tantas coisas novas e diferentes acontecem com você de maneira tão freqüente, justamente quando você se encontra mais sensível a elas... Você pode ficar excitado, chateado, confuso, desesperado e surpreso, tudo isso num único e alegre dia.”

Se há alguma coisa a ser lembrada e posta em prática em meio à excitação dos seus primeiros dias na estrada, é esta: vá devagar. Para os vagamundos de primeira viagem, essa pode ser a lição mais dura de compreender, já que sempre parecerá que há muito que se ver e experimentar. Entretanto, você tem que ter em mente que o ponto principal de uma viagem de longa duração é ter o tempo para mover-se deliberadamente pelo mundo.
Vagamundear não trata apenas de escolher um período mais ou menos longo de sua vida para viajar, mas sim de redescobrir inteiramente o conceito de tempo. Em sua vida rotineira, você é condicionado a executar seus afazeres, atingir seus objetivos e mostrar sua eficiência a cada momento do dia. Na estrada você aprende a improvisar seus dias, a dar uma segunda olhada em tudo aquilo que vê, e não fica obcecado com os seus horários.
O lance é facilitar sua vida no período da vagamundagem. Aclimate-se primeiro, relaxando em algum lugar mais centralizado. Não tente querer conhecer todos os pontos turísticos locais e nem formule uma lista de “coisas para fazer”. Olhe e escute atentamente o ambiente. Perceba o prazer contido nos pequenos detalhes e diferenças. Veja mais e analise menos; aceite as coisas como elas são. Pratique a sua flexibilidade e paciência – e não decida antecipadamente quanto tempo irá permanecer em um local ou em outro.

Em muitos sentidos, essa transição no contexto da viagem pode ser comparada à infância: tudo aquilo que se vê é novo e mexe com o estado emocional; tarefas básicas como comer e dormir passam a ter um significado potencializado e o entretenimento pode ser encontrado nas mais simples curiosidades e novidades. “De repente você volta a ter cinco anos novamente”, diz Bill Brysson. “Você não consegue ler nada, e apenas possui o mais rudimentar senso de como as coisas funcionam; você nem mesmo pode atravessar uma rua com segurança sem o perigo de perder a vida. Toda a sua existência se transforma numa série de conjecturas interessantes.”
De certo modo, caminhar por lugares novos com os instintos de uma criança de cinco anos é libertador. Você não se encontra mais ligado ao seu passado. Ao viver tão afastado do seu lar, você logo se verá segurando um livro com páginas em branco. Não há melhor oportunidade para livrar-se de velhos hábitos, encarar medos latentes e testar as facetas reprimidas da sua personalidade.

Socialmente, você verá que é fácil se entrosar com as pessoas e manter a mente aberta. Mentalmente, você se sentirá engajado e otimista, pronto pela primeira vez a ouvir e aprender. E, mais do que tudo, você vai encontrar-se alvoroçado com aquele sentimento peculiar de ter o poder de escolher seguir (literal e figurativamente) para qualquer direção no momento que você mesmo determinar.

No início, é claro, você irá cometer erros de viagem. Comerciantes duvidosos podem te burlar, o desconhecimento dos costumes locais pode fazer com que você ofenda as pessoas, e você sempre se encontrará vagando perdido pelas mais estranhas redondezas. Alguns viajantes fazem um esforço enorme para evitar essas mancadas próprias dos neófitos, mas na verdade elas são uma parte importante do processo de aprendizagem. Como diz o Corão Sagrado, “Você achou que poderia entrar no Jardim da Felicidade sem passar pelos mesmos caminhos trilhados por aqueles que caminharam antes de você?” De fato, todo mundo começa como um vagamundo novato, e não há razão para supor que será diferente contigo.

Gafes e decepções


Uma das minhas primeiras gafes como vagamundo aconteceu em Macau, quando encontrei uma pequena inclinação gramada durante uma caminhada debaixo da muralha do forte português daquela localidade. Por ter passado a maior parte da semana pelos confins de concreto de Hong Kong, aquela faixa de grama verde era muito tentadora para passar despercebida.

Joguei minha pequena mochila de lado e me esparramei na grama ainda úmida sob o sol da tarde. Eventualmente, percebi que uma multidão de gente local estava me olhando. Eu acenei, e eles riram. Num primeiro momento eu imaginei que eles estavam encantados com a minha alegre informalidade, até que um estudante que falava inglês se aproximou educadamente de mim.

“Desculpe”, ele disse, “mas não é saudável sentar-se nessa grama”.
“Tudo bem”, respondi. “De onde eu venho nós fazemos isso o tempo todo. É para isso que são feitos os parques; alguns insetos e um pouco de pólen nunca machucou ninguém.”
“Sim”, disse o jovem, ruborizado com minha estupidez, “mas de onde eu venho, a grama serve apenas como banheiro de cachorro.”
Já não me lembro o que respondi depois de ouvir aquela revelação surpreendente, mas o ponto é que todo vagamundo acaba, numa hora ou outra, agindo como um turista idiota.

“Uma das habilidades essenciais para um viajante”, observou o jornalista John Flinn, “é encarar a si mesmo como um tolo extravagante”. Em assim sendo, permita-se rir e aprender com os seus infortúnios. Você não só aprenderá coisas novas sobre si e sobre quem o cerca nesse processo, mas também irá fazer um curso intensivo sobre como funciona a vida de um viajante (que inclui rituais mundanos tais como barganhar por legumes, perambular por lugares desconhecidos com um mapa de guia de viagem, e lavar as suas roupas na pia do hotel). Agindo de maneira apropriada, em poucos dias você estará sintonizado com a vida de vagamundagem.

De maneira geral, você sempre inicia suas viagens fazendo as coisas que sempre sonhou enquanto planejava sua visita. Mas, infelizmente, a vida no circuito das viagens não é uma sucessão interminável de momentos mágicos e de experiências fenomenais – e algumas atrações e atividades acabam tornando-se redundantes depois de um tempo. Além disso, as principais atrações de uma viagem (dos templos de Luxor às festas das praias caribenhas) podem estar tão abarrotadas de gente por conta de sua própria popularidade que fica até difícil poder curtir alguma coisa.
De fato, um dos maiores clichês da viagem moderna é o medo de se decepcionar em um lugar que você sempre sonhou em conhecer. Lembro-me de uma tira de jornal que mostrava um homem numa agência de turismo admirando os pôsteres dos destinos mais famosos do mundo. “Todos esse lugares me parecem demais”, ele diz, “Não vejo a hora de me desapontar!”
Em outras palavras, as atrações turísticas são definidas pela sua popularidade coletiva – a mesma popularidade que tende a desvalorizar a experiência individual dessas atrações.

Mas esse sentimento de desapontamento pouco afeta a estrada; a razão pela qual muitos viajantes se sentem frustrados enquanto visitam os destinos mais famosos do mundo se encontra no fato de que essas pessoas continuam jogando de acordo com as regras de casa, buscando recompensas que só chegam através da velha conduta rotineira e cheia de protocolos. Portanto, na estrada, você jamais deve se esquecer que só a você cabe o controle exclusivo de sua agenda.
Neste sentido, vagamundagem é como uma peregrinação sem um destino ou objetivo específico – não uma busca de respostas, mas uma celebração das questões, um abraço do ambíguo, e uma abertura a tudo o que aparece no seu caminho.

Se você cair na estrada com agendas e metas específicas a serem cumpridas, na melhor das hipóteses você irá descobrir o prazer de realizá-las.

Mas se você viajar com os olhos abertos com uma atitude simples e de curiosidade, você descobrirá um prazer muito mais gratificante – aquele sentimento simples de possibilidade que sussurra em cada direção enquanto você se move de um lugar a outro.




Leia: VagabondingAn uncommon guide to the art of long-term world travel. Rolf Potts. Villard: New York. 2003.

Visite o site do Rolf Potts.
http://www.vagablogging.net/

Outros sites que recomendo com louvor:

Do vagamundo Wade Shepard:
http://www.vagabondjourney.com/travelogue/

E o portal
http://www.vagobond.com/ em especial o tópico Extraordinary Vagabonds , que merece demais uma leitura atenta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Viagem de Sonho, by Gregorio Marañón

.Painting: Time Travel, by Steve Hester
Encontrei no meio de um livro um pedaço de papel amarelado, datado de 1991, com o pensamento de um famoso médico e humanista espanhol chamado Gregorio Marañón.

Fui procurar sobre ele na web e não encontrei muita coisa além do que se pode ler na Wikipedia. Descobri que foi uma grande pessoa, bom de cabeça, bom de coração, exemplar em seu ofício na medicina. Dizem que foi um homem muito generoso e figura entre as grandes personalidades da Espanha, tanto que em Madrid existe uma estação de metrô que leva o seu nome, além de um hospital, vias públicas e instituições educativas.

Parece que viajou bastante. Em 1922 visitou, acompanhado do Rei Alfonso XIII, a região mais miserável da Extremadura, conhecida como Las Hurdes. Como resultado dessa viagem, feita a pé e a cavalo, a região teve imediata melhorias sociais e viu desaparecer uma série de enfermidades endêmicas. Dessa incursão nasceu a obra Viaje a Las Hurdes (El manuscrito inedito de Gregorio Marañón y las fotografias de la visita de Alfonso XIII), publicada em 1993 pela El País y Aguilar.

Sobre essa região quase mítica da Espanha, "marcada por toda clase de estigmas, reales o imaginarios: analfabetismo y salvajismo, pobreza e inopia, paludismo, tuberculosis, alcoholismo, histeria, incesto, poligamia, sodomía, tifus, tiña, viruela, tracoma, sífilis, bocio y cretinismo" indico a leitura do texto em espanhol no site etnografo.com que vale muito a pena conhecer.

Daí que me passou pela cabeça, se o Gregorio Marañón foi capaz de largar a comodidade dos laboratórios médicos, das salas de aula, para ir conhecer in loco essa região tida como o "Tibet hispânico" é porque o homem realmente foi alguém especial. Um mahatma espanhol.

Mais tarde, no final dos anos 1930, veio para as bandas de cá, visitou vários países da América do Sul, incluindo duas passagens pelo Brasil. Seria interessante saber o propósito dessas viagens, vou procurar alguma coisa depois quando sobrar um tempo. Por hora, deixo abaixo o belo pensamento de Dom Gregorio, que no papel amarelado que tenho em mãos leva o título de Viagem de Sonho. Namastê!

Não conseguimos falar em duas direções ao mesmo tempo, mas o que transforma a vida numa coisa agradável é podermos chegar ao destino seguindo por caminhos diferentes.

A arte e a ciência conduzem ao mesmo objetivo: a verdade. O que interessa mais é a viagem. O caminho é aquilo que faz dos dias um entretenimento e das noites um prazer.

A meta é sempre um sonho e talvez a verdadeira meta seja nunca alcançá-la.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Andanças e visões de Miguel de Unamuno

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Miguel de Unamuno, um dos grandes autores da literatura espanhola, nasceu em 1864 num pequeno povoado de Bilbao. Escreveu poesias, romances, artigos, ensaios e dois relatos de viagem: Por tierras de Portugal y de España (1911) e Andanzas y visiones españolas (1920). É deste último que vamos tratar daqui a pouco.

Unamuno formou-se em filosofia em Madrid e sua carreira acadêmica o levou a lecionar língua e literatura grega na Universidade de Salamanca. Deve ter sido um homem muito inteligente, pois em 1901 já havia se tornado reitor da mais prestigiada Universidade espanhola.



Mas Miguel de Unamuno não era apenas um intelectual, era também um homem muito cheio de atitude. Não deixava nada barato e fazia questão de afirmar suas posições políticas, o que lhe causou alguns desgostos durante a vida, entre eles o de ser afastado diversas ocasiões de seu cargo de reitor, e também da vida pública, tendo sido deportado para as ilhas Canárias em 1924. Dois anos depois exilou-se na França, onde permaneceu até o ano de 1930. Seus últimos anos de vida foram passados em prisão domiciliar na cidade que tanto amou, Salamanca, onde veio a falecer, em 31 de dezembro de 1936.

Essa sucinta biografia serve apenas para contextualizar o que você irá ler nos próximos parágrafos. Unamuno gostava imensamente de viajar e desconfio que suas escapadas – ele as chama de excursões – eram a melhor maneira de fugir da insatisfação política que pesava sobre a Espanha naquele período histórico tão conturbado, às vésperas da ditadura de Francisco Franco. Viajar também é fugir e as fugas muitas vezes são estratégias necessárias para poder ganhar força para continuar as batalhas que surgem ao longo da vida.


Andanzas y visiones españolas não foi publicado no Brasil e o volume que estou usando data de 1941, editado em Buenos Aires. A obra é composta de 40 relatos relativamente curtos, de viagens empreendidas pelo autor num período que vai de 1911 a 1921. Em alguns momentos, poucos, sente-se o peso da I Guerra na narrativa do viajante, mas de um modo geral ele preferiu adotar uma postura mais poética, reflexiva e filosófica em seus relatos.

Miguel de Unamuno passa a imagem de um homem nostálgico, desencantado com o ritmo da vida da época em que viveu, o que se percebe ao vê-lo falar do passado. Fico imaginando o que o autor pensaria da Espanha atual, passados já cem anos de suas primeiras excursões pelo interior do país. Mas acho que esse desencanto faz parte um pouco da personalidade das mentes filosóficas, o que não deixa de ser charmoso às vezes - para quem tem estilo, é claro, e Miguel o tem de sobra. Darei um exemplo, de uma passagem em que o autor se encontra no alto de uma montanha, próximo ao santuário de Nossa Senhora de la Peña, na França:



“Ali em cima, envolto pelo silêncio, sonhava com todos os que, havendo podido ser, não fui para poder ser o que hoje sou”.

Bonito isso, não? Coisa de filósofo viajante, que adorava perambular, principalmente para o campo e para as regiões montanhosas, de onde pudesse, desde o alto, contemplar o mundo silencioso logo abaixo; Unamuno, ele mesmo afirma, diz que se nutria dessas paisagens e eu achei essa imagem genial, porque de fato é possível imaginar a força dessa metáfora, nutrir-se de uma paisagem, como quem absorve um alimento para a alma.


“Aquelas paisagens que foram o primeiro leite de nossa alma, aquelas montanhas, vales ou planícies em que se amamentou nosso espírito quando este ainda não falava, tudo isso nos acompanha até a morte e forma como o cerne, o tutano dos ossos da própria alma. Porque a alma possui seu esqueleto, exceto naqueles desgraçados que a têm mucilaginosa, invertebrada, como o polvo ou a esponja marinha. Mas para quem tem alma vertebrada, com ossos que a mantém em pé e mirando o horizonte, esses ossos se nutrem de um tutano que foi feito com as nobres e serenas visões da infância distante.”

Viajar era algo levado a sério por Unamuno, talvez até demais, como se pode notar na posição por ele adotada na passagem abaixo:

Viajar, sim, viajar, mas não somente para poder contar sobre a viagem no sossego de casa aos filhos, aos amigos: “Eu também estive ali!”, pois isso na maioria das vezes não passa de vaidade, como a dos novos-ricos norte-americanos, mas também, sobretudo, para recordar e saborear a sós e para acalentar com a recordação dessas viagens às terras distantes o prazer do apego ao local de nascimento ou de onde se ergue o próprio ninho.


Mas, para que viajam a maioria dos que viajam? Há algo mais atrapalhado, mais molesto, mais prosaico do que o turista? O inimigo de quem viaja por paixão, por alegria ou por tristeza, para recordar ou para esquecer, é o que viaja por vaidade ou por modismo, é esse horrível e insuportável turista que se prende ao asfaltado das ruas, nas maiores ou menores comodidades do hotel e na comida deste.



Porque há quem viaja, me horroriza ter que dizê-lo, para provar das distintas cozinhas. E outros para visitar teatros, cafés, cassinos, salas de espetáculos, que são em todas as partes a mesma coisa e em todas igualmente infectas e horrendas. E há quem viaja, já o disse em outra ocasião, por topofobia, para fugir de cada lugar, não em busca de onde se vai, senão em fuga de onde se parte.

Bom, não vamos julgar o homem, pois não podemos nos esquecer que num relato de viagem tem muito peso o contexto da época em que foi escrito. E não eram tempos fáceis aqueles, como já vimos, lembrando que o turismo, tão desprezado pelo autor na passagem acima, ainda era coisa para pouquíssimos privilegiados no começo do século passado.


Mas os turistas não são as únicas vítimas de Unamuno, que também desce a lenha nos conterrâneos espanhóis, a quem chama muito pejorativamente de “pordioseros”, vocábulo proveniente da típica expressão espanhola “Por Dios”. Nada muito diferente do que ocorre por aqui, veja só:

A pobre gente falava de suas vidas mansas, humilde, resignadamente. Fiquei na dúvida se as queixas eram rituais, eco daquilo que ouviram por toda a vida, ou mais uma forma de nossa característica choramingação espanhola, desta detestável mania de pordioseros de estarem sempre se lamentando de sua sorte e de sua pátria. Fiquei na dúvida de que se tudo isso não era senão a volúpia da queixa.


Fácil perceber que Unamuno tem um olhar crítico sobre tudo, ou quase tudo aquilo que observa em suas andanças: pessoas, lugares, a literatura, a arte, a política, mas isso nem de longe faz dele um ser amargurado, pelo contrário; sua erudição e sua escrita poética tornam sua leitura um prazer. Poucos são os que conseguem narrar a natureza como Miguel, que gosta das alturas e do silêncio.


Ali, no topo, ali sim se parece a vida um sonho e um sopro. (...) Ali em cima, no cume da Peña de Francia (montanha que se localiza a 1723m, ao sul da província de Salamanca), sentia cair as horas, fio a fio, gota a gota, na eternidade, como a chuva sobre o mar. Melhor do que gota eu diria floco a floco, pois caíam silenciosas, como cai a neve, e brancas. É sobretudo do silêncio o que ali se goza.

(...) Me ponho de cara à cidade, que está ali, por sobre aquele pequeno pico escuro. À minha direita, ao nascente, o maciço da serra de Béjar, o Calvitero, com a forma de um gigantesco monte de feno. Brilham algumas casas em Béjar. Cumprimento a montanha irmã, mais alta do que esta na qual me encontro, e onde uma vez, antes de raiar o dia, deitado sobre a terra e sem mais teto que não o céu, vi-me envolto em uma nuvem de tormenta. E foi então quando compreendi ao Deus do Sinai.

(...) Partimos ao amanhecer de Las Erías, subindo em direção a Horcajo. Que panorama estupendo! Lembrei-me da frase de Obermann, de que o sentimento da montanha jamais poderá ser expresso em uma língua criada pelos homens das planícies.

Bacana, não? E é assim que o Miguel vai excursionando pelas terras de Espanha, às vezes até atravessando a fronteira com Portugal, onde guarda boas lembranças e amigos. Não se espera daquelas paisagens nada mais do que a simplicidade e o silêncio, a beleza natural e a ternura dos campesinos, porque isso, somente isso, e um pedaço de pão e de queijo, e um gole de vinho, e talvez um bom livro, são suficientes para alegrar a existência de qualquer pessoa.


Essa Espanha de Unamuno, com certo esforço, ainda pode ser encontrada em algumas paragens mais remotas, nos pequenos pueblos mais afastados das estradas de alto tráfego e de grandes núcleos urbanos. É difícil dizer, sem parecer saudosista ou simplista demais, o que esses lugares têm de especial. Provavelmente, para muitos, para a grande maioria, não haja nada de interessante a ser observado nesses locais. Ruínas seculares? Restos de civilização? Gente velha e abandonada esperando a morte chegar? Isso tudo faz parte do pacote, é verdade.

Mas a poesia está mais no olhar do que no objeto. Daí a beleza de textos como os de Unamuno, pois foram escritos por alguém que sabia exercitar o olhar do viajante. Percebi isso muito claramente quando li o último relato de Andanzas, “Junto à velha igreja”. É curtinho, e vou postá-lo na íntegra, quem sabe você também consiga captar a sutileza – em parte perdida por conta da tradução – da linguagem poética, com um toque de Augusto dos Anjos, desse grande escritor e viajante espanhol. Namastê!



Junto a la vieja Colegiata


Um morcego rondava a cúpula daquele templo românico onde já não mais ressoavam preces nem ardiam os círios. Solitário em seu nicho escuro, um Cristo lívido, sem as almas que outrora sob seus pés lhe suplicavam perdão; do céu fechado do templo – as bóvedas – pareciam gotejar pelas tardes, remotas lendas, filhas da negra angústia apocalíptica dos mais bárbaros séculos, quando a alma tremia, com as asas quebradas, no cárcere da carne, aguardando a morte numa tortura mística, para ver-se assim livre do mundo de odiosas histórias; e na paz do sepulcro do tétrico recinto - de uma fé morta no túmulo - um silêncio de pedra envolvia as velhas memórias.

Do lado de fora do templo, sob o sol vivífico, a abside arredondada coberta por um manto de hera, que ampara os ninhos onde a cada ano ágeis andorinhas nidificam suas crias e, partindo, as levam a alguma mesquita nos limites do Saara. Na torre em ruína uma cegonha hierática, com os olhos sonâmbulos, cochila em pé, e ao cair da tarde, em posição de sentinela, com seu vôo eurrítmico vai da poça às margens do rio buscar a caça que no ninho sua cria devora.

E o Cristo solitário, preso naquele lúgubre interior, entedia-se, e ouve lá de fora o alegre pio das andorinhas e o bater dos dentes das cegonhas, feito prece litúrgica, contando os dias que faltam para o êxodo, aves peregrinas!

ANDANZAS Y VISIONES ESPAÑOLAS. MIGUEL DE UNAMUNO, 1920