sábado, 26 de março de 2011

Confissões de Darcy Ribeiro, um antropólogo vagamundo

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Pouco antes de morrer, depois de um longo período de luta contra o câncer, o antropólogo Darcy Ribeiro conseguiu reunir forças para escrever Confissões, seu volumoso relato autobiográfico. Terminada a leitura, fica-se com a impressão de que seiscentas páginas servem apenas de introdução à vida de um homem que parece ter vivido muitas vidas numa só.


Darcy Ribeiro realizou tantas coisas importantes que tentar resumi-las em um artigo curto como este parece tarefa impossível. Mas entre tantos feitos, alguns merecem destaque imediato, como é o caso da criação do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, e a colaboração, junto aos irmãos Villas Boas, do Parque Indígena do Xingu. Não é pouca coisa.





Você não precisa gostar de antropologia, ciências sociais ou política para se apaixonar por Darcy Ribeiro; em Confissões, o que comove o leitor é a emoção com que o autor descreve cada momento de sua vida, desde a infância em Montes Claros, sua Moc natal, até os períodos em que viveu exilado, longe da terra que tanto amou e lutou para melhorar, sobretudo no que diz respeito à sociedade indígena. Um homem que tinha paixão pela vida em geral, e pelas mulheres em particular, pois quase não há um parágrafo em que não apareça o nome de um amor, por mais fugaz que seja. Aos amores, Darcy lhes dedica um capítulo. Às mulheres, idem.



E é um barato a maneira como Darcy enfatiza sua necessidade de amar as mulheres quase em tempo integral, e no final das contas sua intenção talvez fosse essa, transformar o leitor em um confessor, ouvindo calado suas aventuras carnais, num sentimento misto de surpresa e inveja. Mas à parte os prazeres da carne, é o amor que verdadeiramente importa. Lá pelas tantas afirma de maneira poética: “Marinheiro neste mundo, amor é o vento que sopra minhas velas nas travessias”.


O perfil donjuanesco de Darcy fica mesmo na superfície: seu amor se estende pela humanidade com a mesma beleza e intensidade dedicadas às mulheres que aninhou em seus braços. Essa paixão intensa pelo Brasil e pelo povo brasileiro pode ser enxergado nos próprios títulos dos capítulos de sua autobiografia. Os primeiros são dedicados ao jovem Darcy construindo sua identidade enquanto homem e durante o processo de crescimento, enquanto etnólogo e antropólogo.


Parte de Montes Claros e vai para Belo Horizonte. Da capital mineira, chega a São Paulo. Aqui já teremos lido três capítulos de um total de dezesseis. Os próximos tratam do seguinte: Índios, Educação, Governo, Exílios e Política, só para dar um panorama geral. Como se percebe, divide sua vida em capítulos que têm relação direta e profunda com seu país e com seu povo (povo mesmo, e não somente as comunidades indígenas). Darcy foi um brasileiro integral, se é que cabe o termo.

Como é de praxe aqui no Odepórica, nosso interesse recai sobre as viagens do autor, e Darcy rodou esse mundo sem parar. Por conta do exílio, na época da ditadura militar, ficou dezesseis anos fora; entre idas e vindas, fixou residência em alguns países latino-americanos: Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Visitou a Europa inúmeras vezes, a perder de conta. Em todos os lugares pelos quais passou deixou sua marca e foi recebido com prestígios e honras maiores até do que as que lhe eram dedicadas aqui. O Brasil tem dessas coisas, a gente sabe.


Em Confissões, o capítulo que Darcy fala sobre os índios é de longe o mais passional e excitante (embora haja poucas referências libidinosas ali). É no encontro com os índios, já amigo e discípulo do mítico Marechal Rondon, que Darcy consegue enfeitiçar o leitor, tal qual um xamã das palavras. O que diferencia Darcy Ribeiro de outros antropólogos e estudiosos que entraram em contato com os índios é a maneira de abordar a cultura aborígine; ao invés de estudar os índios sob a perspectiva acadêmica restrita, priorizando o olhar daquele que vem de fora apoiado numa fundamentação científica, ele tentou inserir-se ao máximo à vida da comunidade, até chegar ao ponto de ser tratado como um igual. Um ato que pede um tanto de audácia e outro tanto de humildade. O resultado não poderia ter sido melhor. Diz o próprio autor:


Com eles aprendi que só uma identificação emocional profunda pode romper as barreiras à comunicação, permitindo a um estranho penetrar a intimidade que atingia praticamente o máximo a que pode aspirar um antropólogo no seu esforço por ver o mundo com os olhos do povo que estuda.


Nos próximos parágrafos você irá ler alguns trechos do capítulo em que Darcy relata seus contatos com os índios. Se esses relatos antropológicos fazem a sua cabeça, saiba que Darcy publicou uma obra especificamente sobre essas convivências, transcritas de seus diários etnográficos e intitulada Diários Índios. Namastê!


Fiquei atado a Rondon pela vida inteira. Ao fim de cada expedição ia vê-lo para contar como estavam vivendo e morrendo os índios que visitara. Algumas dessas expedições foram feitas por mandados dele, principalmente a que fiz a Mato Grosso para participar das cerimônias de sepultamento de Cadete, último grande chefe bororo.


(...) No curso desse cerimonial, o corpo de Cadete primeiro foi enterrado em cova rasa, no meio do pátio de danças, e regado diariamente com potes d’água trazidos pelas mulheres desde o rio. Assim apodrecia rapidamente. De fato, as carnes se dissolviam sobre os ossos. O cheiro ainda hoje me cheira nas ventas. Tremendo. Não era catinga de bicho ou gente morta. Era um poderoso cheiro, fino como um assobio, que cheirava dia e noite. Chegada a hora, os ossos de Cadete foram retirados, lavados cuidadosamente e levados em folhas para a casa dos homens, o baíto. Lá estavam todos os Bororo vivos e mortos, homens e mulheres, crianças e velhos. Eram regidos pelo Aróe-toeráre, intermediário entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ele regia a cerimônia tirando sons suaves de um grande maracá e soprando uma pequena flauta. A seu comando as mulheres todas arrancaram todos os cabelos. A seguir, homens e mulheres sangraram-se abundantemente, escarificando-se com dentes de peixe encastoados numa peça feita de cabaça. Foi terrível de ver.



A provação maior para mim foi beber dois litros de uma cerveja fermentada com seiva de certa palmeira, que Aróe-toeráre bebia em minha frente sem tirar a cabaça da boca. Durante esses rituais, tomaram todos os ossos de Cadete, grandes e pequenos, e recamaram cada um deles com plumas coloridas de diferentes pássaros. Assim, foram postos num cesto novo e levados para a lagoa dos mortos, onde o suspenderam no alto de uma longa vara de ponta enterrada no fundo.


Fascinação

Durante meus dez anos de etnólogo, convivi com diversos grupos indígenas. Exercia então, simplesmente, meu ofício de etnólogo de campo. Só que, ao contrário dos meus colegas que passam alguns meses, um ano no máximo, com sua tribo, eu alonguei, por todo aquele tempo, minha estada com eles. Por quê? Primeiro, porque não realizava uma pesquisa acadêmica, como é corrente.


Trabalhando no órgão de estudos de um serviço governamental de proteção aos índios, eu podia estudar quantos grupos quisesse, por quanto tempo desejasse. Foram, porém, outras as razões maiores de meus longos, belos anos de vida de índio, dormindo em redes e esteiras, comendo o que eles comem, eu só, em suas aldeias, contente de mim e deles. Entre essas razões, sobressai o encantamento em que caí diante dos meus índios e a curiosidade inesgotável que eles despertaram em mim.


Desde então, até hoje, me pergunto o como e o porquê dos seus modos tão extraordinários de serem tal qual são. Repensando agora, tantos anos depois, aquelas vivências minhas, ressaltam certas características distintivas dos índios, visíveis ao primeiro contato, que desencadearam aquele meu encantamento e essa longa argüição. A fascinação que aqui confesso não é, aliás, nenhuma novidade. Já os primeiros europeus que depararam com nossos índios nas praias de 1500 se encantaram com a peregrina beleza de seus corpos e a gentileza de seus modos. Qualquer civilizado que conviveu com uma tribo isolada carrega, pela vida afora, a lembrança gratíssima do sentimento de espanto e simpatia que eles suscitam.



Meditando, agora, sobre esse meu sentimento de fascinação, tantos anos depois, descubro que me encantava nos índios, primicialmente, sua dignidade, inalcançável para nós, de gente que não passou pela mó da estratificação social. Não tendo sido nem sabido, jamais, de senhores e escravos, nem de patrões e empregados, ou de elites e massas, cada índio desabrocha como um ser humano em toda sua inteireza e um ser único e irrepetível. Um ser humano respeitável em si, tão-só por ser gente de seu povo.




Creio mesmo que lutamos pelo socialismo por nostalgia daquele paraíso perdido de homens vivendo uma vida igualitária, sem nenhuma necessidade ou possibilidade de explorar ou de ser explorados, de alienar-se e de ser alienados. Isso me lembra um episódio de que jamais esquecerei. Os índios Xavante, que ocupavam um território imenso do rio das Mortes até o Xingu, tinham sido recentemente pacificados. No entendimento xavante, eles é que tinham estabelecido relações pacíficas com o homem branco. O que mais queriam então era ver, tocar, num desses pássaros de asas rígidas, intocáveis, que cruzavam seus ares.





Sabendo disso, o brigadeiro Aboim decidiu pousar três aviões numa clareira que os Xavante tinham aberto no cerrado. Lá foi. Ao descer do avião, viu que devia dirigir-se a um índio velho, todo encarquilhado, que parecia esperar por ele. Era Apoena, o mais velho dos Xavante e o mais respeitado. Aboim enfrentou Apoena todo vestido numa farda branca, cheia de tiras de ouro. Quem os visse perceberia logo que a dignidade naquele enfrentamento estava com o velho nu, com Apoena. Aboim parecia fantasiado.




Ocorre que Apoena trazia a tiracolo um cesto trançado de palmas verdes, carregado de gafanhotos tostados que ele comia tranqüilo. Aboim escandalizou-se e mandou trazer uma lata de biscoitos cream cracker. Abriu ele mesmo e entregou a Apoena, que recusava, não sabendo o que era. Aboim retirou um biscoito e o mastigou devagar, com boca de quem gosta. Apoena o imitou, tirou um biscoito e o pôs na boca, mas se horrorizou. A seu paladar aquilo era horrível, porque ele nunca havia comido nada tão salgado. Em seguida, limpou a lata dos biscoitos que tinha e passou para ela seus gafanhotos, que continuou comendo.








(...) Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.





Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam como o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele.


Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher da aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez. Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido desejo de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam.


Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas. Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.



Jacarés, piranhas e tourada


Na primeira viagem fiquei uns seis meses com os Kadiwéu. Conheci todas as aldeias, falei com quase todos os homens e mulheres. No ano seguinte voltei por uma temporada igual. Agora casado e levando minha mulher Berta, o que não agradou nada às moças índias, que tinham esperança de casar comigo e me fixar no melhor lugar do mundo para se viver, que são suas aldeias. Completei, assim, a pesquisa, sempre com a familiaridade de um quase Kadiwéu que volta para casa.



Às vezes, eles se impacientavam comigo, como ocorreu com um índio que me mostrava a mais importante de suas constelações. Espantado com a minha incapacidade de ver o que para ele era uma nítida cabeça de ema com os seus dois olhos – e para mim era um pedaço da Via Láctea e, provavelmente, o Cruzeiro do Sul. Minha ignorância espantava meu informante, que acabou me dizendo: “Você é cego, doutor i. Então não vê a ema celeste?”.





Em outra ocasião, eu estava na aldeia só com as mulheres, porque os homens haviam saído para caçar e pescar. Saí com minha espingarda e, num rio perto, dei com um jacaré. Atirei nele e acreditei que tinha morrido. Peguei o bicho pelo rabo e vim puxando para a aldeia. Ele abria e fechava a boca. Quando chegamos, as mulheres se apavoraram de ver aquele jacaré, que não era enorme, mas era mais ou menos grande, levado assim, a ponto de virar e morder minha perna. Fizeram o maior escândalo e, depois, homens e mulheres contavam o caso entre eles e riam desbragadamente da minha façanha infantil.


(...) Duas coisas me impressionaram muito nessa expedição de caça. Um rodeio que os índios decidiram fazer com os jacarés de uma baía, que foi a coisa mais espantosa que vi. Entraram quase todos eles por um lado da lagoa, armados de seus facões e foram gritando e espadanando a água para espantar os jacarés. Os que tentavam voltar eram cortados por eles. Assim foram até o fim da baía, expulsando dezenas de jacarés que lá estavam e que saíram andando. Em outro lugar me mostraram dezenas de caveiras de jacarés que nunca voltam para a lagoa de onde foram expulsos. Andam o quanto suportam e morrem no meio do areal.




Outro episódio inesquecível foi ver uma lagoa coberta de pássaros: tuiuiús, flamingos, garças, outros e outros que, ouvindo um barulho proposital que fez um índio ao meu lado, começaram a voar ali junto. O seu bater de asas matracado despertou outras aves, que voaram também. Afinal, parecia que toda a lagoa saía voando pelo céu. Vi, também, espantadíssimo, uma lagoa brilhando de madrugada, quando o sol a alcançou, como uma barra de ouro. Eram piranhas mortas aos milhões. Depois de comer todos os peixes e esgotar todo o oxigênio da água, cada vez mais escasso, morriam, e o fedor era tremendo.



O mais bonito da caçada foi deparar com um bando de emas enormes. Elas fugiam de nós, correndo com suas altas pernas balançando suas plumas. Os índios cavalgavam junto e as matavam, quebrando as pernas com pauladas. Queriam as penas, boa mercadoria. Eu fiquei olhando um ninho cheio de enormes ovos de ema. Triste.


(...) Aqui é o lugar de contar, creio eu, outro episódio inesquecível. Os índios me falaram dele várias vezes e eu achava quase impossível que fizessem aquilo. Afinal, consenti em comprar um touro para ver a tourada kadiwéu. Tendo vivido muitos anos junto a paraguaios e espanhóis, eles se afeiçoaram às touradas, mas inventaram seu próprio estilo de tourear. O tal touro comprado por mim foi solto no meio de homens e mulheres, que formavam um grande círculo no pátio da aldeia.





Quando o touro investia para um lado, eles puxavam o rabo para o outro lado. O touro ia ficando cada vez mais desesperado, saltando de um lado para outro do círculo de pessoas que o hostilizavam. Isso foi feito durante mais de uma hora, talvez duas. O touro cada vez mais cansado e eles o excitando de todos os modos, jogando coisas nele e obrigando-o a permanecer raivoso, não permitindo que ele parasse, sentasse ou desistisse da brincadeira.




A certa altura, com o touro muito quente e brigão, alguém cortou o tendão da perna dele. Aquela perna estendeu-se imediatamente e ele passou a andar com três pernas, com muita dificuldade. Então, um grupo de homens saltou sobre o touro e assim, em instantes, carnearam o touro vivo, tirando lanhos enormes de carne, do traseiro, da frente, das pernas, de todo lugar, arrancando a carne viva, que jogavam para as mulheres e crianças, que corriam imediatamente para assar em fogos que haviam feito em torno. O espetáculo coroou-se com homens, mulheres e crianças assanhando em cima do touro, tirando suas vísceras e se sujando uns aos outros com a bosta e o sangue do touro. Foi uma tourada fantástica, muito melhor do que as que eu vi na Espanha, mas terrível de ver. Medonha mesmo.



Leia: Confissões. Darcy Ribeiro. Ilustrações de Oscar Niemeyer. Companhia das Letras, 1997.




Para ir mais longe : acesse o site da Fundação Lair Ribeiro. Disponível em http://www.fundar.org.br/

segunda-feira, 7 de março de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: O sol também se levanta, by Ernest Hemingway

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Em um dos diálogos iniciais de O sol também se levanta, um dos personagens, Robert Cohn, diz ao narrador, Jake Barnes: “Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não a vivo realmente”. Resposta de Jake: “Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros.”

A resposta de Jake ao amigo não aparece de bobeira na conversa, assim como nada na narrativa de Hemingway surge sem um propósito muito bem definido. Os toureiros e as corridas de touro em Pamplona, na Espanha, são a metáfora fundamental a qual caberá ao leitor interpretar para alcançar a profunda sensibilidade do autor nesse romance onde a viagem tem um papel de grande destaque – tanto, que o título costuma aparecer com frequência em listas de obras fundamentais que tratam da temática das narrativas de viagem.

A trama de O sol também se levanta (publicado em 1926) se passa no período do pós-guerra e retrata com fidelidade aquela que ficou conhecida como a “geração perdida”; na literatura, o termo é atribuído a Gertrude Stein (lost generation) que se referia a um grupo de escritores e escritoras norte-americanos (mas também artistas e músicos de jazz) que debandaram para Paris e outros pontos da Europa no final da Primeira Guerra Mundial e início da Grande Depressão americana (Crise de 1929). Entre as personalidades encontramos muita gente de respeito: Ezra Pound, Cole Porter, Mae West, Dorothy Parker, F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Vladimir Nabokov, o Ernest Hemingway, claro, e até o mestre Alfred Hitchcock, entre tantos.
E é em Paris que começa a história que Jake Barnes nos irá narrar. Norte-americano veterano de guerra, Jake vive na capital francesa exercendo a função de correspondente de um jornal americano. Relaciona-se com amigos descolados, todos expatriados na faixa dos trinta e poucos anos: Robert Cohn, um escritor a quem Paris não lhe agradava e que sonhava em viajar à América do Sul; Brett Ashley, uma lady, por quem ambos Jake e Robert são apaixonados; Mike Campbell, o noivo guampudo de Brett e amigo de Jake; Bill Gorton, o amigo taxidermista de Jake que o acompanha em sua viagem à Navarra. Estes são os principais personagens, que em comum carregam toda a falta de perspectiva e desilusões próprias da tal geração perdida.
É difícil traçar em poucas linhas a complexa conduta emocional dos personagens, disfarçada de maneira singular por Hemingway numa aparente maneira simplista de narrar a história. De simples, só a aparência. Todos ali estão sofrendo, e para amenizar suas dores, muito álcool - doses exageradas de bebida, e muitas cenas em bares e cafés, onde nenhuma conversa nunca leva a nada. Há uma passagem na obra que ilustra bem o perfil daquela “geração perdida”:
Você é um expatriado. Perdeu o contato com o solo. Torna-se pernóstico. Ficou estragado pelos falsos padrões europeus. Bebe até cair. Deixa-se obcecar pelo sexo. Passa o tempo conversando e não trabalha. É um expatriado, ouviu? Arrasta-se pelos cafés.
Jake, o narrador, voltou da guerra impotente, apesar de ainda manifestar um comportamento lascivo em relação a Brett; entretanto, seu amor por ela jamais poderá ser consumado e isso acaba com ele, mesmo demonstrando conformidade com sua situação, o que parece ter alguma relação com sua formação católica. A impotência de Jake (partindo de uma perspectiva simbólica) também tem um significado profundo, só percebido com o avançar da leitura: a negação da vida e a aceitação passiva da morte. Voltaremos a isso mais adiante.

Brett, mulher distinta, titulada, não passa de uma sedutora, uma mulher liberal que considera a si própria uma prostituta. De fato, deita-se com qualquer um e não esconde nem do próprio noivo as suas conquistas. E enche a cara pra valer. Deixa os homens loucos, mas para ela tudo não passa de um jogo sexual e o único homem a quem realmente parece amar é Jake, justamente aquele a quem ela jamais conseguirá enfeitiçar.

Robert Cohn, judeu, ex-lutador de boxe e escritor ruim é a ovelha negra do grupo. Sua preocupação maior é arrumar companhia para viajar à América do Sul, numa evidente resolução de fuga. Acaba se apaixonando por Brett e depois de ser dispensado por ela passa a viver um verdadeiro inferno interior. Na verdade o papel de Cohn na narrativa serve de contraponto à conduta de Jake e sua disfunção, um ponto importante a ser observado na leitura.
Como dissemos, tudo começa em Paris, cidade onde o autor viveu alguns anos. A descrição da cidade, “onde é sempre agradável atravessar as pontes”, faz referências a diversas localidades facilmente reconhecidas, incluindo os cafés e restaurantes que o próprio Hemingway frequentava. Pelo que se sabe, o escritor colocava em seus romances muito daquilo que ele mesmo vivia em suas viagens.
E Hemingway viajou muito. Antes dos 25 anos já havia visitado a Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Áustria e Turquia. Mais tarde viajou e viveu períodos em Cuba, Hong Kong, Londres, países da África e diversas regiões dos Estados Unidos, sua terra natal. Um bom viajante, o Hemingway.
Voltemos a Paris, que como sempre é um sonho, mas que nem por isso agrada indistintivamente qualquer pessoa. Há uma passagem na narrativa que ilustra isso de uma maneira interessante, quando Jake tenta entender o motivo de Robert Cohn ser incapaz de gostar da cidade:

Creio que é devido a qualquer associação de ideias que certas partes de uma viagem nos parecem assim desagradáveis. Há em Paris muitas outras ruas tão feias quanto o Boulevard Raspail. Não me aborrece andar por ali a pé, mas passar de automóvel é o que não posso suportar. Talvez eu tivesse lido alguma coisa sobre isso. É o efeito que Paris inteira produzia em Robert Cohn.

Mas Paris é apenas o ponto de partida da viagem que marcará definitivamente essa obra. A grande viagem a Pamplona, onde vai acontecer a famosa
festa de San Fermín (ponto culminante da narrativa), colocou para sempre a capital da Navarra na posição dos itinerários mais conhecidos e procurados de festas populares na Europa ocidental.
A fiesta, chamada na Espanha de sanfermines, acontece anualmente em Pamplona no mês de julho e dura toda uma semana. Na obra de Hemingway temos uma descrição bastante fiel da dinâmica, por vezes insana, dessa semana dedicada a San Fermín, co-patrono da cidade. A propósito, Fiesta era a primeira escolha de Hemingway para o título da obra, mantido em sua edição espanhola.
Antes de tomar o rumo a Pamplona, Jake viaja para Burguete com Bill a fim de passar um tempo pescando no Rio Irati. Essa pequena localidade aos pés dos Pirineus (assim como Roncesvalles, que também aparece descrita na obra) é muito conhecida por ser o primeiro povoado, junto a Roncesvalles, visitado pelos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago depois da fronteira com a França, distante poucos quilômetros dali.

A descrição do percurso, efetuado há 85 anos, mostra que pouca coisa, felizmente, mudou por aquelas paragens (escrevo isso porque tive o prazer de estar naquelas mesmas localidades algumas vezes). Vou transcrever essa passagem para que você perceba como a viagem efetuada por um escritor é aproveitada na composição de um romance. É a ficção pegando uma carona com a realidade – o que na condução de um escritor de alto padrão como Hemingway, só pode resultar num texto de grande fruição literária:
Um momento depois, saímos das montanhas. Havia árvores de ambos os lados da estrada, um curso de água e campos de trigo maduro, a estrada continuando, muito branca e reta. Subia em seguida uma pequena altitude e, à esquerda, a certa distância, havia uma colina com um velho castelo, edifícios em torno e um trigal chegando quase às muralhas e ondulando ao vento.
Eu ia na frente, com o chofer, e voltei-me. Robert Cohn dormia, mas Bill olhava e sacudiu a cabeça. Depois atravessamos uma vasta planície e, à direita, vimos um grande rio que brilhava ao sol, entre fileiras de árvores; ao longe avistava-se o planalto de Pamplona, erguendo-se na planície, e as muralhas da cidade, a grande catedral escura e a silhueta irregular das outras igrejas.

Atrás do planalto, havia montanhas, e, de qualquer lado que se olhasse, outras montanhas. Diante de nós, a estrada branca corria através da planície, em direção a Pamplona.
Depois de uma breve estadia em Pamplona, Jake e Bill vão a Burguete sem a companhia de Robert, que desistira da pescaria. Os cinco dias em Burguete serão os mais tranquilos daquela viagem, como se fosse uma recarga de energia preparando o corpo para a agitada semana de sanfermines que virá a seguir. A ida a Burguete é feita de ônibus, e se você fizer hoje a viagem desde Pamplona provavelmente irá ver as mesmas paisagens que Hemingway descreveu em sua obra há mais de oitenta anos:
O ônibus subia sempre. A região era nua e as rochas se erguiam saindo da argila. Não havia ervas, dos lados da estrada. Voltando-nos, podíamos ver o vasto campo, lá embaixo. Muito ao longe, as plantações formavam quadrados verdes e pardacentos, nas encostas.

Montanhas escuras fechavam o horizonte. Tinham formas estranhas. À medida que subíamos o horizonte mudava, e, enquanto o ônibus subia lentamente a estrada, víamos outras montanhas aparecendo, ao sul. Então a estrada passou a crista, tornou-se plana e entrou numa floresta. Era uma floresta de sobreiros, o sol penetrava através das folhas, formando manchas, e o gado pastava entre as árvores.
Atravessamos a floresta, a estrada saiu novamente, contornou uma elevação de terreno e vimos à nossa frente uma planície verde, ondulante, fechada por montanhas escuras, que não se pareciam com as outras, pardacentas e calcinadas de sol, que havíamos deixado para trás. Eram montanhas cobertas de matas e delas desciam nuvens.

A planície verdejante alongava-se, cortada de cercas, e a brancura da estrada aparecia através dos troncos de uma dupla fila de árvores que cruzavam o planalto em direção ao norte. Chegando à borda da crista, avistamos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete, alinhadas na planície, e, ao longe, sobre o flanco da primeira montanha escura, apareceu o telhado cinzento, metálico, do mosteiro de Roncesvalles.
O ônibus rodava em terreno plano, na estrada que vai em linha reta até Burguete. Passamos uma encruzilhada, atravessamos uma ponte sobre um regato. As casas de Burguete margeavam os dois lados da estrada. Não havia transversais. Passamos diante da igreja e da escola, e o ônibus parou.
Em cinco parágrafos Hemingway descreve o percurso de cinquenta quilômetros de maneira tão convincente e bela que quase se torna possível sentir o frescor presente na natureza encantada daquelas paragens. A mesma sensação se tem quando o autor leva os personagens a caminho da pescaria:

Pusemos o almoço e duas garrafas de vinho no embornal e Bill colocou-os a tiracolo. Eu levava às costas a caixa de caniços e as redes. Subimos a encosta e depois de atravessar um prado encontramos um atalho através dos campos na direção da mata, no declive da primeira colina. Atravessamos o campo num caminho arenoso. Os campos eram ondulados e relvosos, mas a grama era curta, porque os carneiros ali haviam pastado. O gado estava mais no alto, nas colinas. Ouvimos os cincerros (campainha que se pendura no pescoço da besta que guia as outras) acima, nas matas.
O caminho atravessava um regato sobre um tronco de árvore, que fora aplainado, e uns galhos, que se haviam encurvado, serviam de parapeito. Num poço, ao lado do regato, rãs pontilhavam a areia. Subimos uma margem escarpada e atravessamos campos ondulantes. Voltando-nos, vimos Burguete: casas brancas, telhados vermelhos e a estrada branca, na qual passava um caminhão levantando uma nuvem de poeira.

Além dos campos, atravessamos outro curso de água, mais rápido. Um caminho saibroso conduzia ao vau e, mais adiante, à mata. O atalho atravessava o regato sobre outro tronco de árvore abaixo do vau e reunia-se à estrada. Entramos na mata.

Era um bosque de faias, de árvores muito antigas. As raízes saíam da terra e os galhos eram retorcidos. Seguimos a estrada entre os troncos espessos das velhas faias, e os raios do sol, através das folhas, deixavam manchas claras sobre a erva. As árvores eram grandes e a folhagem espessa, mas não era lúgubre. Não havia arbustos, mas apenas erva, muito verde e fresca, e as grandes árvores cinzentas, regulares como num parque.
(...) A estrada desemboca, da fresca sombra dos bosques, no sol ardente. Diante de nós, havia um rio no vale e, além do rio, uma colina a pique. Na colina, um campo de trigo-sarraceno. Avistamos uma casa branca sob algumas árvores, na encosta da colina. Fazia muito calor e paramos sob árvores, ao lado de uma barragem que atravessava o rio. Bill colocou o saco de encontro a uma árvores e, depois de montar os caniços e colocar os carretéis, e tendo ligado os pesos, nos dispusemos a pescar.

Não tenho dúvidas de que Hemingway deve ter se apaixonado pela paisagem e natureza das terras navarras, ou não teria gasto tantas linhas descrevendo o cenário da maneira como o fez.

Burguete situa o leitor exatamente no meio da narrativa; a outra metade começa com a chegada dos personagens a Pamplona, onde passarão as festividades de sanfermines. E assim começa a descrição da aventura:
No domingo, 6 de julho, produziu-se a explosão da fiesta. Não há outra maneira de expressá-lo. Durante todo o dia chegara gente do campo, mas todos se dispersavam na cidade e eram por ela absorvidos de modo que ninguém notava. Os camponeses ficavam nos cabarés dos arredores, bebendo e preparando-se para a fiesta. Haviam chegado tão recentemente das planícies e das montanhas, que precisavam habituar-se gradualmente à mudança de valores.
(...) A fiesta começara realmente. E durou, dia e noite, sete dias. A dança continuou, as libações continuaram e o ruído não cessava. Passaram-se coisas que só podiam acontecer mesmo durante a fiesta. Tudo se tornou absolutamente irreal, e semelhava que nada mais poderia ter qualquer consequência.
E deste ponto em diante, o que se segue é uma verdadeira aula de tauromaquia. Hemingway foi um grande entusiasta das touradas, “único espetáculo artístico no qual o artista corre o risco de morrer”, teria dito.

A mensagem, afinal, talvez venha daí, da dicotomia entre a vida e a morte, da celebração e do lamento, porque tudo não passa de uma ilusão, porque tudo é transitório. Um dia somos touros, outra toureiros. Mesmo o sol, com toda a sua magnitude, morre todos os dias e volta a nascer, é o que sugere o título dessa obra, evocando uma passagem bíblica.
Mas isso são apenas considerações gerais, até mesmo vazias se comparadas à rica dimensão psicológica da obra, que é afinal a compreensão do ser humano que narra a aventura toda, Jake Barnes. E tentar compreender o outro, vale ressaltar, é o primeiro passo na árdua tarefa de compreender a si mesmo com mais clareza.

Leia: O sol também se levanta. Ernest Hemingway. A edição que usei aqui é a da Abril Cultural, de 1982. Tradução de Berenice Xavier.