sábado, 23 de abril de 2011

Minhas viagens com Heródoto, by Ryszard Kapuscinski

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De onde vêm os navios que vemos no horizonte?
Para Ryszard Kapuscinski, foi para responder a essa questão formulada na infância que Heródoto viajou o mundo e com seus relatos, reunidos numa extensa e magnífica obra, História, deu à luz à primeira grande reportagem da literatura mundial.

Kapuscinski foi um prestigiado repórter e escritor polonês que, assim como Heródoto, perambulou por tudo quanto foi lugar com a missão quase heróica de descrever o mundo que o cercava. Levou a vida itinerante tão a sério que ganhou a alcunha de Heródoto da era moderna.

A vida de Ryszard Kapuscinski, nascido em 1932 e falecido em 2007 é merecedora de uma série da BBC; na função de repórter comeu muitos quilômetros mundo afora, na maioria das vezes cobrindo guerras e situações de grandes riscos. Era muito envolvido com a questão política, a ponto de colaborar com os serviços de Inteligência do Partido Comunista polonês. Isso e muito mais você encontra na
Wikipédia e por isso não tomarei o tempo do leitor e da leitora, já que a biografia do Ryszard fica em segundo plano aqui.


Como escritor, Kapuscinski foi um arraso, ganhou diversos prêmios e o respeito de muita gente de prestígio. Foi dono de uma técnica narrativa considerada sofisticada, interpretando aquilo que via pelo mundo valendo-se de metáforas, do imaginário e dos estados psicológicos das pessoas com as quais se relacionava. Deve ter sido um homem bem astuto, isso sim.


No jornalismo, em particular, recebeu elogios e também muitas críticas. Dizem que de bom teve o hábito de misturar um pouquinho de ficção com um tanto de realidade, dando uma roupagem muito mais interessante aos seus relatos. Mas também dizem que essa sua característica de praticar um jornalismo com a licença da ficção às vezes não pegava bem, porque deixava o leitor meio com a pulga atrás da orelha.


Em algum lugar eu li que o Kapuscinski foi um dos representantes do que se cunhou como “jornalismo mágico”, numa alusão ao “realismo mágico”, estilo literário ligado ao Gabriel García Márquez, que por sinal era chapa do escritor polaco. Esse “jornalismo mágico” pode ser interpretado como uma maneira de escrever sobre um fato real adaptando-o à realidade criada pela mente do autor. A mim me pareceu um lance bem interessante, merecedor de uma pesquisa posterior mais aprofundada.

Mas sigamos pelas estradas kaspuscinskianas... que coisa é essa de viagens com Heródoto? E quem foi esse grego de nome tão careta?




Pois de careta o Heródoto não tinha nada, muito pelo contrário, porque só alguém muito doido, doido de verdade, fez o que esse homem fez há mais de dois mil anos. Um resuminho sobre o grego viajante, que transcrevo da enciclopédia Oxford, dá uma ideia de quem foi Heródoto:

Historiador grego (490-80 a 430-20 a.C.), Heródoto é considerado o ‘Pai da História’. Escreveu a narrativa das guerras greco-pérsicas em nove volumes. O objetivo de seu trabalho, que incluía a narrativa da antiga história do Império Persa e uma longa digressão sobre o Egito, reflete tanto as características de sua mente inquiridora quanto suas longas viagens; visitou lugares tão distantes entre si como Atenas, Babilônia, Egito e o mar Negro. Extraía informações do povo que encontrava em suas viagens e de suas próprias observações. Apesar de ter muitas vezes abonado rápido demais o que escutava, sem sujeitar as narrativas a um exame mais minucioso, sua história, cheia de informações sobre os mundos grego e persa, que lhe eram coetâneos, foi uma realização de grande importância.

Agora as coisas começam a se encaixar; um dia, quando ainda era muito jovem e estava começando na carreira jornalística, Kapuscinski recebe sua primeira missão: uma viagem ao subcontinente indiano, onde escreveria uma série de reportagens que ajudariam a aproximar a Polônia da Índia. De presente da redatora-chefe, Kapuscinski ganha o livro História, de Heródoto, a quem sempre buscará conforto e inspiração durante as longas jornadas:





“À medida que avançava em sua leitura, eu fazia duas viagens ao mesmo tempo, a primeira cumprindo minhas obrigações de repórter, e a segunda seguindo as expedições do autor de História
.”

Heródoto foi sem dúvida alguma a maior fonte de inspiração para Kapuscinski, e, mais do que isso, uma providencial justificativa daquilo que ele próprio viria a fazer no resto de seus dias, como que a se proteger, nem que fosse moralmente, do tipo de jornalismo por ele praticado.

Parece bobagem mas não é. Um jornalista trabalha com fatos e sua ética profissional o obriga a ser fiel à sua fonte, a dizer a verdade e a não manipular ou distorcer a informação resultante de seu trabalho. Mas a partir do momento em que o repórter ou o escritor tomam a liberdade de juntar aos fatos um produto da ficção, a coisa pode complicar, resultando numa realidade distorcida que, dependendo do contexto, acaba gerando conflitos perigosos.



Pode não ter sido esse o caso de Ryszard Kapuscinski, mas certamente foi por essa conduta, digamos, heroditiana, que o levou a ser tão criticado pela turminha do contra. Faz parte do jogo, como sempre.

Mas isso é só um parêntese, necessário para podermos entender a relação de Kapuscinski com seu mestre grego; o que importava para Kapuscinski era viajar, correr o mundo, procurar saber o que existia do outro lado, para além da fronteira. São suas as palavras:

Minhas andanças vez por outra me levavam a vilarejos próximos da fronteira. Isso ocorria muito raramente e, nessas ocasiões, quanto mais eu me aproximava da fronteira, mais a região se mostrava deserta e mais difícil era encontrar pessoas. O vácuo aumentava o mistério da região em si e, como pude constatar, na faixa da fronteira reinava um silêncio sepulcral.
Esse mistério e esse silêncio me atraíam e intrigavam. Sentia-me tentado a ver o que havia mais ao longe, do outro lado. O que se sente numa hora dessas? Em que se pensa?Teria que ser um momento de grande emoção, excitação e tensão. O que havia do outro lado? Teria que ser diferente.

Mas o que significa “ser diferente”? Qual seria a sua aparência? Com que se pareceria? Quem sabe fosse desprovido de qualquer semelhança com tudo o que eu já conhecia e, portanto, seria incompreensível e inimaginável? Na realidade, porém, o meu maior desejo, um desejo que não me deixava em paz e me mantinha em constante estado de excitação, era extremamente modesto: eu queria apenas poder desfrutar do mais simples dos atos – atravessar a fronteira.

Queria apenas poder atravessar uma fronteira, não importava qual delas; para mim, um destino ou uma meta não eram importantes, o que importava era aquele ato quase místico e transcendental de atravessar a fronteira.

Se interpretarmos essa fronteira como uma metáfora, encontraremos um significado muito maior nas palavras do ainda jovem Kapuscinski e seu desejo de atravessar fronteiras. Embora não afirme isso, o que ele buscava de fato era atravessar um limiar, e esse foi o seu chamado à jornada heróica. Kapuscinski, assim como Heródoto, são exemplos clássicos do arquétipo do Herói, tão bem trabalhado nas obras de Joseph Campbell.
Eu poderia gastar muitas linhas mais se optasse por escrever sobre o perfil de Kapuscinski sob a ótica dos arquétipos, mas isso me obrigaria a estudá-lo dentro de um contexto puramente psicológico e não seria justo entrar nessa vereda tendo na bagagem apenas a leitura de uma única obra do autor.

Preferi, como de hábito aqui no Odepórica, transcrever algumas passagens, pequenos trechos da obra que agreguem algum tipo de reflexão bacana e que sirvam de inspiração para a jornada pessoal de quem tem a paciência de ler meus posts longos e por vezes cheios de devaneios. Namastê!

Memórias, viagens, reflexões...





Heródoto confessa que era obcecado pela memória – sabedor de que ela é falível, frágil, limitada, temporária e até ilusória. Ele tinha consciência de que aquilo que a memória continha poderia desvanecer-se, desaparecer sem deixar vestígios. Toda a sua geração, todas as pessoas que viveram naqueles tempos estavam tomadas pelo mesmo medo. Sem memória, não se pode viver, pois ela é o que faz o homem se diferenciar dos animais, é a base da sua alma, mas, ao mesmo tempo, é enganosa, fugaz e traiçoeira.

O homem moderno não se preocupa com sua memória, uma vez que vive cercado de memórias armazenadas. Basta estender a mão – enciclopédias, dicionários, compêndios. Bibliotecas e museus, arquivos e antiquários, fitas de áudio e vídeos, internet. Ele dispõe de reservas infindáveis de palavras, sons, imagens, nas residências, nas revistas, nos depósitos, nos porões e nos sótãos. (...) Nenhuma, ou quase nenhuma, dessas instituições e técnicas existia nos tempos de Heródoto. O homem sabia tão-somente aquilo que sua memória conseguia reter.


No mundo de Heródoto, o único depositário da memória é o próprio ser humano. Para ter acesso a algo que ficou nela guardado, é preciso chegar a um homem e, quando esse homem vive longe de nós, temos que ir ao seu encontro, partir em viagem. Quando o encontrarmos, sentaremos ao seu lado e escutaremos o que ele tem para contar – ouvir, conservar na memória e, se possível, anotar. É assim que começa uma reportagem – é de uma situação como essa que ela nasce.

Portanto, Heródoto viaja pelo mundo, encontra pessoas e ouve o que têm a dizer. Elas lhe dizem quem são e contam suas histórias. Mas, qual é a origem desse saber? Eis a respostas: elas ouviram isso de outras pessoas, principalmente dos antepassados. Foram os antepassados que transmitiram aquele conhecimento que elas, agora, transmitem a outros. Esse conhecimento tem o formato das mais diversas histórias. As pessoas se sentam em torno de uma fogueira e falam. Depois, tudo aquilo que foi dito passa a ser chamado de lendas e mitos, contudo, no momento em que é dito ou ouvido, trata-se da mais absoluta verdade, da mais real das realidades.



(...) A chama é comunidade. A chama é história. A chama é memória. Para Heráclito, mais velho que Heródoto, a chama era o elemento primordial de todas as matérias: tudo, dizia ele, é como o fogo, que está em movimento permanente e se apaga para reacender. Tudo flui, mas ao fluir sofre mudanças. O mesmo acontece com a memória. Algumas de suas imagens se apagam, para surgirem novas em seu lugar. (...) E é essa lei da irrecuperável transformação que Heródoto entende com perfeição e à sua natureza destrutiva ele quer se opor: “Heródoto de Helicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo”.


As pessoas que não gostam de sair de casa e de ultrapassar as cercas de sua propriedade – na verdade elas são a maioria – tratam esses andarilhos como seres excêntricos, esquisitos, desequilibrados. (...) Uma viagem não se inicia quando se cai na estrada e não termina quando se chega ao destino estabelecido. Com efeito, ela começa muito antes e, na prática, nunca termina, já que a fita magnética da memória continua girando no interior da nossa mente, apesar de, fisicamente, permanecermos no mesmo lugar. É sabido que existe um mal – pode-se dizer incurável – costumeiramente chamado de “infecção viageira”.

(...) Heródoto era o protótipo do viajante eterno, aquele que, mais tarde, na Europa medieval, foi chamado de “homem da estrada”. Mas suas andanças não consistiam de deslocamentos levianos e despreocupados; as viagens de Heródoto tinham um objetivo claro e definido: conhecer o mundo e seus habitantes – conhecê-los e, depois, descrevê-los. E, acima de tudo, poder descrever “as grandes e maravilhosas explicações dos Gregos, assim como a dos Bárbaros”.


(...) O centro daquele mundo era o mar Egeu, suas margens e ilhas. É de lá que Heródoto parte em suas expedições. E, quanto mais se aproxima dos limites da terra, mais coisas ele descobre. É o primeiro a dar-se conta da natureza multicultural do mundo. O primeiro a insistir que cada cultura exige aceitação e compreensão e que, para tanto, é preciso primeiro conhecê-las. Em que as culturas diferem umas das outras? Antes de tudo, pelas suas particularidades. Diga-me como te vestes, como te comportas, como são teus costumes, que deuses cultuas – e eu te direi quem és. O homem não somente cria a sua cultura e vive nela; ele a carrega dentro de si – o homem é sua própria cultura.

(...) As viagens de Heródoto não teriam sido possíveis sem a existência da figura do próxeno. Resumidamente, o próxeno era “o amigo do visitante”, uma espécie de cônsul. Remunerado ou não, ocupava-se dos recém-chegados provenientes da mesma cidade que a sua. (...) O próxeno desempenhava um papel particular naquele mundo extraordinário, em que os deuses viviam entre os homens, sem deles se distinguir. Quando chegava um visitante, era preciso recebê-lo com toda a cordialidade, pois nunca se sabia se aquele viajante que pedia comida e teto era um homem ou um deus sob a forma humana.


Outra fonte valiosa e inesgotável para Heródoto eram os guardiões da memória, representados pelos contadores de histórias, por historiadores autodidatas e por músicos ambulantes. Até os dias de hoje, na África, é muito comum encontrar os griôs, viajantes que, nos vilarejos e mercados, contam lendas, mitos e histórias do seu povo, clã ou tribo. Por alguns trocados, ou mesmo por uma refeição e uma caneca d’água, um velho griô, homem de grande sabedoria e imaginação fértil, narra a história de seu país, com todos os acontecimentos, aventuras e milagres envolvidos. Se é verdade ou não, ninguém é capaz de dizer – e é melhor nem investigar.

(...) Qual é a motivação quando, intrépido e infatigável, Heródoto se lança em sua grande aventura? Acho que é uma fé plena, uma fé que nós, homens modernos, perdemos há muito tempo: a de que o mundo pode ser descrito.

Leia: Minhas viagens com Heródoto: entre a história e o jornalismo. Ryszard Kapuscinski. Companhia das Letras, 2006.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caminhos sagrados: aventuras de um peregrino, by Nicholas Shrady

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São poucas as obras publicadas no Brasil que entram de cabeça na temática das viagens sagradas. Quando muito, você encontra nas estantes uma meia dúzia de livros voltados à temática do turismo religioso, que não tem muito a ver com o lance.


Bons estudos sobre turismo religioso há, entre eles cito assim sem compromisso os trabalhos de Pierre Sanchis e Carlos Alberto Steil, pesquisadores que navegam bem nessas águas. Um dia falo deles, mas daí a pegada tem que ser mais acadêmica, um lance mais de pesquisa, de reflexões e isso foge um pouquinho do escopo do Odepórica.


Muito bem, então vamos falar agora desse lance de viagens sagradas. Sem muitas firulas, eu definiria uma viagem sagrada como um deslocamento em direção a um lugar considerado sagrado por alguém. E por sagrado entenda o oposto de profano. Simples assim, e isso não sou eu quem afirma, é o Mircea Eliade, que é uma referência no mundo bagunçado e instigante das ciências da religião.

Uma viagem sagrada, em muitos aspectos, tem ligação direta com rotas de peregrinação e visitas a lugares santos, que podem ser igrejas, templos da antiguidade, bosques, fontes de água, uma árvore, uma rocha, um túmulo, ruínas e por aí vai.


O autor norte-americano Nicholas Shrady, que costuma escrever sobre narrativas de viagem, resolveu um dia visitar seis locais de diferentes tradições religiosas que parte da humanidade considera sagrado: Medjugorje (Bósnia), Rishikeshi e Varanasi (Índia), Santiago de Compostela (Espanha), Terra Santa (Jerusalém) e Konya (Turquia), onde se encontra o túmulo do poeta sufi Rumi. Seis locais, cinco das principais tradições religiosas do mundo: Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Bem interessante.


O livro Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino é de leitura fácil e agradável, embora um tanto superficial. O autor, em alguns momentos, soa meio pretensioso e às vezes lhe falta um pouco de humildade. Um livro nota sete, para um leitor pouco exigente. Mas em meio a tantas publicações esdrúxulas, como aquela obra que virou aquele filme com a Julia Roberts (e se você não sabe do que estou falando nem perca tempo tentando descobrir), sete é uma nota muito boa. Em outras palavras: vale a leitura, principalmente se você curte viajar para esses tipos de lugares com apelo mais espiritual.


Nesse post não vou transcrever passagens de capítulo algum. Optei por copiar na íntegra a introdução feita pelo próprio autor, que de alguma forma me pareceu mais interessante do que os próprios relatos de viagem que compõem a obra. Boa viagem.




O impulso de fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo em delfos e as curas de Asclépio em Epidauro. Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados na América pré-colombiana. A tradição cristã atrai os fiéis, em primeiro lugar, para a Terra Santa, Roma, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e, mais recentemente, Medjugorje, na Bósnia, onde se diz que a Virgem Maria aparece diariamente a um grupo de videntes da aldeia.


No mundo muçulmano, a hajj, a viagem obrigatória do peregrino para Meca, é um dos Cinco Pilares da Fé.



Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a Iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do templo; e os hindus banhavam-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganges. Cada religião tem seus ritos e rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece falar a um movimento instintivo do coração humano. A frase latina ambulare pro Deo, “caminhar por Deus”, é tão válida para o peregrino cristão que parte rumo a Santiago de Compostela quanto para um muçulmano atraído ao santuário de Ka´ba em Meca ou um budista andando em volta de um stupa.



Exploradores e viajantes, sem mencionar turistas, podem viajar por uma rota de peregrinação, mas seus motivos para a viagem, aquilo que eles procuram, assim como a importância do seu destino final, jamais são os de um peregrino. O progresso do peregrino é ao mesmo tempo uma viagem interior, um exercício espiritual e uma viagem física em direção a um local real, mas investido de um caráter divino. A condição do peregrino, aliás, aproxima-se notavelmente da do herói.


Ao abandonarem o ambiente familiar, mundano, ao submeterem-se a agruras físicas e às vezes a considerável perigo, e ao prestarem reverência ou fazerem penitência num lugar sagrado, os peregrinos, como os heróis, sabem que retornarão de sua odisséia renovados de alguma forma, ou pelo menos interiormente mudados.



“O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”, escreveu Cynthia Ozick. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.


Há dez anos atravessei a pé o norte da Espanha pelo Caminho de Santiago de Compostela, onde se diz descansarem os ossos do apóstolo São Tiago na cripta da catedral. Aos poucos venho compreendendo que a viagem de um mês através de 800 quilômetros foi um acontecimento fértil na minha vida.Ao longo da trilha de peregrinação desdobravam-se episódios coma clareza de parábolas.



Invariavelmente, eu era acolhido por pastores, ciganos, padres de aldeia e freira com votos de silêncio. Fui rechaçado por um súdito do arcebispo. Atravessei paisagens intocadas, de imensa beleza, e os bairros medievais, escuros e labirínticos, de Pamplona, Burgos e Leon. Encontrei santos e misantropos. Colhi maçãs e azeitonas, participei de uma festa de casamento e cuidei de um vagabundo durante um ataque de delirium tremens particularmente forte. Porém, mais do que qualquer outra coisa, tive a oportunidade de refletir e meditar. O Caminho de Santiago foi não apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas um exercício espiritual.



Embora eu seja católico de nascença e de criação, minha fé era – e permanece – repleta de profundas dúvidas, mas a peregrinação ajudou realmente a saciar uma sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual. Como cristãos, aprendemos que Deus é onipresente. Na realidade, não existe uma base teológica sólida na peregrinação a qualquer lugar sagrado.


O cristianismo antigo era uma religião sem templos, padres, santuários, rituais e certamente peregrinações. Deus não deve ser adorado em Jerusalém nem em Gerizim, segundo o Evangelho de João, mas em espírito e verdade. No entanto, permanece o fato de que nunca me senti tão perto do Absoluto como quando estava comprometido com um caminho sagrado, não numa igreja, num confessionário ou momento de oração solitária.


Enquanto avançava em direção a Santiago, vim a considerar o mundo convencional, do qual eu estava afastado pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivo; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza do objetivo, apesar das condições frequentemente precárias.



Achei o Caminho pontilhado de epifanias sutis que – eu percebia – eram milagrosas. Se me sentia de alguma forma abençoado, era porque a peregrinação me aproximou da primeira condição da humanidade. Procurei outras rotas de peregrinação, não apenas no mundo cristão, mas também nas tradições budistas, hindus, judaicas e muçulmanas.


Descobri que a ideia de que durante a viagem pode-se alcançar Deus, ou o Absoluto, é quase universal. É significativo, por exemplo, que Iavé signifique “Deus do Caminho” e que o árabe Il-Rah, originalmente usada para significar uma rota de migração, mais tarde foi recolhida pelos místicos sufis para descrever “o Caminho para Deus”. Cristo e seus apóstolos caminharam pelos montes e vales da Palestina.



A busca do zen também é chamada de angya, ou “viajar a pé”. Os antigos budistas eram “esmoleiros ambulantes”, e as últimas palavras do mestre para seus seguidores foram, apropriadamente, “Continuem caminhando!”. O peregrino em potencial dificilmente encontrará conselho melhor do que estas duas palavras.


Leia: Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino. Nicholas Shrady. Ed. Objetiva, 1999.