quinta-feira, 23 de junho de 2011

Viagens literárias

.A Revista Personnalité, uma publicação trimestral da Trip Editora (em parceria com o Itaú Personalité, daí o nome) em sua edição de março de 2011 trouxe uma reportagem muito bacana que é a cara do Odepórica. A cargo de Daniel Benevides, a matéria intitulada Viagens Literárias, caso fosse ampliada e lapidada, daria um livro deveras interessante.

A introdução do texto já diz a que vem:

“A narrativa de grandes jornadas às vezes estabelece uma relação com o leitor tão profunda que o leva a fazer as malas e pegar a estrada. Ouvimos quatro personagens que fizeram de clássicos da aventura seus guias de viagem.”

Legal, não? Os quatro personagens que o Daniel entrevistou (assim imagino) são os seguintes: J.R. Duran (fotógrafo), Leandro Sarmatz (jornalista), Renato Yada (designer gráfico) e Beatriz Seigner (cineasta). Cada um deles fala um pouquinho sobre uma obra cuja narrativa os estimulou a botar os pés na estrada.

E então ficou assim: o fotógrafo falou da obra Gorillas in the Mist, não publicada por aqui, mas cuja história foi transposta para o cinema com o título de “Nas montanhas dos Gorilas”; o jornalista se amarrou no Bruce Chatwin, naquela obra supimpa que já resenhamos
aqui no blog, Na Patagônia; o designer, que adora pilotar uma moto foi seguir os passos do mestre Kerouac lendo On the road e a moça, que é cineasta e vive perambulando por aí, se encantou com o clássico Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa.

Só coisa boa esse povo andou lendo. Então, sem mais lingüiça, vamos direto ao texto do Daniel, que é um barato e está super gostoso de ler. Boa viagem e Namastê!

J.R. Duran e os Gorilas de Ruanda



Quando fala com seu simpático sotaque catalão, J.R. Duran perde o foco continuamente. O entusiasmo jovial e a memória prodigiosa não parecem deixar que se fixe numa só lembrança. As datas e situações se misturam, uma puxando as outras, formando uma curiosa teia de referências.

Fala principalmente da África, que o fascina desde menino. Conheceu boa parte do continente: Quênia, Namíbia, Uganda, Eritreia, Tanzânia, Somália, a lista é enorme. Sempre a trabalho – condição que considera necessária para deixar o olhar mais aguçado – e sempre inspirado por um ou mais livros.

Tem uma coleção de cerca de 300 livros com relatos de viagem. “Viajar é essencialmente um ato de imaginação. Mas é preciso também informação, que filtra o que há de interessante. E uma noção do passado, para poder enxergar os fantasmas. Você tem de enxergar os fantasmas!”






Foi assim com Gorillas in the Mist, da antropóloga
Dian Fossey, que o deixou instigado a conhecer os gorilas-das-montanhas de Ruanda, ameaçados de extinção. Em 2003, quando leu que o país voltava a abrir as portas, depois do genocídio de 1 milhão de pessoas (descrito em Gostaríamos de Informá-lo que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, de Philip Gourevitch), pegou o mínimo necessário e voou para o centro da África. “É um país muito pequeno, com apenas duas estradas, uma que cruza de norte a sul e outra de leste a oeste.”

Para chegar a 3 metros dos famosos primatas, Duran teve de ser escoltado pelo exército, por conta de caçadores ilegais, o que não esfriou sua curiosidade – ao contrário. O fotógrafo e aventureiro foi ainda à capital, Kigali, e ao lago Kivu, cenários da guerra entre tútsis e hutus.





Kivu fica na fronteira com o Congo, país em que também esteve, atraído pela leitura do clássico O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e pelos relatos do explorador Henry Stanley (1841-1904), que encontrou, em 1871, o então desaparecido David Livingstone, que havia se embrenhado na África em busca da nascente do rio Nilo.

O próprio Duran, estimulado por escritos dos mais diversos, como as biografias do explorador Richard Burton, as aventuras de Corto Maltese e mesmo as anotações de Che Guevara sobre a guerrilha no Congo, publicou Cadernos Etíopes (Cosac Naify) com fotos e textos sobre tribos da Etiópia.

Na apresentação, ele, que também lançou dois romances “noir existencialistas”, Lisboa (W11) e Santos (Francis), escreve: “É bom se perder com a certeza de que é possível voltar para casa”.

Leia: Gorillas in the Mist. Dian Fossey, Houghton Mifflin,1983

Leandro Sarmatz: Quando Nova York vira a Patagônia



E especialidade do jornalista Leandro Sarmatz é escrever, como prova seu excelente livro de contos Uma Fome, lançado pela Record ano passado. É bom de papo também: diverte os amigos como poucos, em noites de libação e trocas de causos, mentiras e pilhérias.

Em viagem recente a Nova York, ele juntou as duas coisas – primeiro, relatou suas impressões em um gravador durante caminhada do Brooklin a Washington Heights, do outro lado da ilha; dias depois, colocou tudo no papel. Para fazer essa “viagem”, inspirou-se em dois livros: Na Patagônia, do britânico
Bruce Chatwin (Companhia das Letras), e O Rumor do Tempo e Viagem à Armênia, do poeta russo Ossip Mandelstam (Editora 34).

“Eles educaram meu olhar e me mostraram que o lado épico de uma jornada não está na quilometragem rodada ou na distância em relação ao meu ponto original, mas, sim, na forma como se encara o percurso desde o início.” E assim começou a jornada por essa avenida que encapsula tempos e espaços de Nova York. “A Broadway é uma espécie de resumo da metrópole: tem partes ricas, pobres, barulhentas, turísticas, barras-pesadas. Imigrantes novos e velhos, ianques de antiga linhagem, choques culturais a granel.”





Para aproveitar cada detalhe desse périplo urbano, antes de sair a campo, Leandro se preparou lendo tudo o que podia sobre a cidade e, assim como os viajantes que estudavam as cartas marítimas, simulou todo o caminho no Google Street View.

De volta a São Paulo, e tendo deixado todas as impressões e informações assentarem um pouco, começou um ensaio sobre essa jornada, buscando seguir as coordenadas deixadas por Chatwin: “Detalhes aparentemente banais ganham no seu texto importância às vezes até maior do que o assunto principal. Também me atrai a forma como ele embaralha os gêneros: ensaio, ficção, relato de viagem, memórias, anedotário, história regional, tudo isso comparece em Na Patagônia, sempre com humor e mão levíssima.”

Entusiasmado, continua: “A Patagônia de Chatwin é um território de gaúchos e cowboys desterrados, galeses transplantados, vidas marcadas por um tipo muito particular de solidão”. De certa forma, a descrição se encaixa também na movimentada Broadway percorrida por Leandro, que ainda cita, entre seus “guias literários”, Claudio Magris e seu Danúbio, o Atlas, de Borges (ambos da Companhia das Letras) e o Marca D’água, de Joseph Brodsky (Cosac Naify), roteiro poético para Veneza.


Leia: Na Patagônia. Bruce Chatwin, Companhia das Letras, 1988.

De Harley, Renato Yada encarna Sal Paradise




Desbravar os Estados Unidos por suas estradas intermináveis era uma obsessão para Renato Yada, designer gráfico, desde que leu On the Road – Pé na Estrada, de
Jack Kerouac (L&PM). “Em 2008, assim como o personagem Sal Paradise, alter ego de Kerouac, eu queria testar os limites do sonho americano. Sal representava o ideal de liberdade, o desejo puro de sair da estagnação e a depressão provocada por uma cidade grande. Então, aluguei uma Harley-Davidson em Miami e pus o pé na estrada para ver no que dava.”

Yada percorreu cenários rurais, desertos infinitos, cidades quase abandonadas, dormiu em motéis de beira de estrada e conheceu personagens estranhamente atraentes. Em 25 dias, rodou quase 4 mil milhas, o equivalente a 6.400 quilômetros. “Tirando o conforto de ter uma moto alugada, a viagem foi um teste de sobrevivência. Eu tinha pouco dinheiro, só o suficiente para gasolina, comida e estada. Chegava a passar quase seis horas em cima da moto sem me comunicar e muitas vezes sem contato visual com nenhum ser humano. Tinha tempo de sobra pra refletir sobre a minha vida inteira.”

No caminho para Graceland, em Memphis, Renato conheceu um sujeito que havia servido o exército junto com Elvis durante a Segunda Guerra (sic). “O velho me disse que, enquanto ele passava frio à noite na trincheira, Elvis estava hospedado num castelo na Alemanha. Pedi um autógrafo pra ele, no verso do mapa do Tennessee.” (nota: na verdade Elvis, que nasceu em 1935, serviu o exército após a 2ª Guerra, entre os anos de 58 a 60)



Entrando na Califórnia, uma cena que, se acontecesse no cinema, pareceria exagero do roteiro. O forte vento fez com que ele perdesse a noção de quanto combustível estava queimando. O tanque esvaziou em pleno deserto do Mojave.

“Caminhei empurrando a moto por mais de duas horas. O sol já estava se pondo e começou a ficar frio. Ninguém na estrada parou quando eu acenei. Fui salvo por uma mulher. Ela surgiu do nada com uma garrafa de água, um cabo de bateria, um galão de gasolina e ferramentas. Seu nome era Faith.”(fé, em português)




Em Amarillo, Texas, outro momento que poderia estar no clássico On the Road. “Entrei num bar e me inscrevi num concurso de sinuca. Ganhei de três cowboys e faturei o prêmio de US100. Consegui comer, beber e ainda pagar uma rodada para os adversários.”

Chegando finalmente a Los Angeles, não parou até ver o Pacífico. “Não podia deixar pro dia seguinte. Já era madrugada quando cheguei ao calçadão de madeira de Venice Beach. Estava muito escuro, mas ouvi o som agradável das ondas. Me lembrei das palavras de Kerouac:

‘Deixamos para trás a América e tudo o que sabíamos da vida. Tínhamos finalmente encontrado a terra mágica no fim da estrada. E a mágica era bem maior do que imaginávamos’. Com certeza, depois dessa aventura, muita coisa em mim mudou”.


Leia: On the road. Jack Kerouac, L&PM, 2010.

Beatriz Seigner mergulha em Grande Sertão: Veredas





A curiosidade e a energia da cineasta Beatriz Seigner parecem não ter limites, especialmente quando se trata de viagens e livros. Aos 17, após ler O Povo Brasileiro, de
Darcy Ribeiro, resolveu viver por um tempo entre os xavantes.

Suas leituras sobre o Oriente a levaram à Índia, onde dirigiu o longa Bollywood Dream, feito com poucos recursos e um talento que não passou despercebido pela crítica. Outro capítulo que marcou suas andanças está em Grande Sertão: Veredas, obra-prima de
Guimarães Rosa. “Sempre choro quando leio esse livro, fico tocada pela beleza das palavras”, diz.

Sem dinheiro, mas determinada a conhecer os grandes sertões e as veredas pelas quais passaram Diadorim e Riobaldo, encarou o “submundo” do centro de São Paulo e vendeu um antigo relógio de ouro da família. Com dinheiro no bolso, no auge de seus 18 anos, fez as malas para Cordisburgo, cidade mineira onde nasceu Guimarães Rosa, em 1908. Encantou-se com as pessoas do lugar logo de cara. “Vi que elas falavam daquele jeito do livro, que não era invenção de linguagem. As palavras do Guimarães faziam parte daquelas pessoas, daquela geografia. Depois de umas duas semanas eu já estava com aquela musicalidade incorporada”.



Andrequicé, mais ao norte, onde viveu e morreu Manuelzão, mítico personagem e amigo de Guimarães Rosa, era a parada seguinte. Bia seguiu o caminho da boiada que o escritor acompanhou em 1952, que passa por Curvelo, cruza o rio Bicudo e tangencia o morro da Garça.

Ela e alguns amigos acamparam na casa da filha de seu Raimundo, capanga que serviu de guia a Guimarães. De lá puderam explorar os arredores, andando em estradas de chão, embrenhando-se no cerrado, descobrindo cenários reais de Grande Sertão: Veredas, como o pequeno rio-de-janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontram.

Ao longe, as serras do morro Vermelho, do Formoso, do Cabral, e o chapadão das Gerais emolduram o sertão-mundo, onde se experimenta, como diz o escritor, “o embevecimento do puro contemplativo”.

Inquieta, com o “compromisso de desafiar o desconhecido”, Bia, hoje com 26 anos, está preparando filme novo, a ser rodado na Colômbia. “Preciso mesmo viajar”, ela diz, sem conter o riso.

“Quanto mais longe você fica, mais você se liberta dos seus condicionamentos culturais e descobre quem você é fora de sua zona de conforto; você se torna mais confiante e corajoso, como os personagens do Guimarães Rosa”.

Leia: Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa, Nova Fronteira, 2001.

domingo, 12 de junho de 2011

A viagem de Pasolini à Índia

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Em 1961, Pier Paolo Pasolini, o genial cineasta (e escritor) italiano, chegava à Índia pela primeira vez. Não viajou sozinho, mas acompanhado do casal de escritores Alberto Moravia e Elsa Morante.

Tanto
Moravia quanto Pasolini escreveram sobre suas impressões daquela viagem realizada há cinqüenta anos; o primeiro veio com a obra intitulada Uma ideia da Índia, com uma pegada crítica e claramente parcial sobre a cultura e o povo indiano, como se percebe na passagem abaixo, tirada de uma edição portuguesa da obra:

«Uma viagem na Índia significa um passeio através [de] cidades em que, à excepção de alguns monumentos muito notórios, mas não excepcionais, tudo é muito semelhante, de tal modo que ter visto uma é o mesmo que tê-las visto todas. Com efeito, a cidade indiana não é mais do que um enorme bazar [...] com aquela monotonia confusa e um pouco irritante que é própria da pobreza e da ausência de qualquer plano urbanístico.»





Já Pasolini, sensível que só ele, se deixa levar pelas emoções e pelos mistérios da viagem, de uma maneira equilibrada, sem deslumbramentos tolos tão comuns em alguns relatos de viagem sobre a Índia, que não raro pecam por dois excessos: o de enaltecer exageradamente a espiritualidade milenar do povo ou, em oposição a isso, o de desqualificar o país que sofre com a miséria e suas conseqüências: sujeira, caos, doenças e desigualdade social.

O primeiro caso é fácil de identificar: fulaninho ou fulaninha chegam à Índia e passam lá duas ou três semanas maravilhosas em um ashram-butique. De tudo um pouco, pura delícia: massagem ayurvédica, alinhamento dos chacras, workshops estrelados, alimentação natureba, limpezas mil de todos os orifícios corporais, uma leitura aqui e acolá do Gita e dos Vedas, e outras coisas mais ou menos místicas, no mais puro padrão new age. Antes de voltar, é claro, muitas comprinhas, de sáris a jóias e imagens, quem sabe um tapetinho pura lã pra usar na volta a casa, na hora da meditação diária.





Não se engane que não estou criticando quem viaja assim; quem me dera de vez em quando poder fazer o mesmo, porque conforto e beleza é bom e mente quem diz que não gosta. Mas que fique bem claro: nada disso tem a ver com a Índia porque, nesses lugares, o que menos se vê são... indianos! Pois é, é mais ou menos por aí.






Mas eis que, do outro lado, há quem faça o contrário: pega o mochilão e pé na estrada, que foi o que eu fiz há alguns anos. Só que botar os pés na estrada, na Índia, não é para qualquer viajante não. Eu mesmo só descobri depois de voltar, na época meio desapontado com o que havia visto. Mas foi um viajante tarimbado, um monge mexicano que encontrei em Rishikesh, quem me abriu os olhos.

A Índia, disse-me o monge, não é um país pelo qual nos apaixonamos na primeira viagem. No começo, seus olhos se voltarão às coisas mais superficiais, como a sujeira e a pobreza das pessoas, o atraso econômico e social, a burocracia dos órgãos públicos, essas coisas que inevitavelmente você irá cedo ou tarde comparar com o seu país de origem. Entretanto, a verdadeira Índia está muito além disso, está nas pessoas e nas tradições passadas pelos mestres e sábios geração após geração. Mas isso você só irá perceber depois de muito tempo, eu mesmo precisei voltar cinco ou seis vezes, em longas estadias, para ser capaz de afirmar que entendo e amo a Índia. Por isso, não julgue aquilo que não teve tempo e oportunidade de conhecer.

Pois é, não demorei em descobrir que o mexicano estava certo e que eu não passava de um viajante despreparado. Mas há coisas que nós só aprendemos com o tempo e com a sabedoria que só chega – quando chega – com a idade.




Em O cheiro da Índia, o relato de Pasolini sobre sua viagem àquele país, encontramos um meio termo entre os dois tipos de posturas costumeiramente adotadas em relação à Índia: a paixão e compaixão, em contraposição à crítica e à rejeição; enquanto um Pasolini se comove com a simplicidade e a humildade de um nativo, outro Pasolini se indigna com a submissão e a resignação do mesmo nativo. Como forças antagônicas que se complementam e criam algo novo e peculiar, a Índia precisa ser compreendida através desses contrastes.

Mas deixemos essas divagações de lado porque o que interessa é o relato do Pasô. E ele começa sem enrolar nem um tiquinho, num penoso estado de excitação (palavras do próprio). A obra que tenho em mãos é uma edição portuguesa e confesso que senti um certo estranhamento em ler Pasolini com sotaque luso, ó pá.

Pasolini e amigos estão hospedados no hotel Taj Mahal, em Bombaim (atual Mumbai). É meia-noite e ele convence o amigo Moravia a sair para dar uma volta pelos arredores do hotel. Pasolini adora perambular e suas primeiras impressões darão o tom de todo o relato de sua viagem:




Assim saímos, para a estreita marginal que corre por de trás do hotel, pela saída das traseiras. O mar está sossegado, não dá sinais da sua presença. Ao longo do parapeito que o contém, há automóveis parados e, perto deles, esses seres fabulosos, sem raízes, sem sentido, carregados de significações duvidosas e inquietantes, dotados de um fascínio poderoso, que são os primeiros indianos de uma experiência que quer ser exclusiva como a minha.

São todos mendigos, ou dessas pessoas que vivem nas imediações de um grande hotel, entendidos na sua vida mecânica e secreta: têm uma faixa branca a envolver-lhes os flancos, uma outra faixa por cima dos ombros, e, alguns deles, outra ainda enrolada à volta da cabeça: são quase todos negros de pele, como que negros, alguns deles negríssimos.


Logo os dois estrangeiros chegam às imediações do porto; antes disso, em meio ao amontoado de corpos que dormem nas ruas, fato ainda hoje observado nas grandes cidades da Índia moderna, Pasolini parece chocado com a visão de um jovem garoto leproso, com seus membros mutilados, como que corroídos, deitado embrulhado em seus panos, diante de um hotel como se estivesse diante de uma igreja. Associação natural para um italiano.







Logo a dor dá passagem ao prazer, quando um canto lhes rouba a atenção naquela caminhada noturna: duas, três vozes que cantam ao mesmo tempo, fortes, constantes, fervorosas:

O tom, o sentido, a simplicidade são as de qualquer um desses cantos juvenis que se podem escutar em Itália ou na Europa: mas trata-se de indianos, a melodia é indiana. Dir-se-ia a primeira vez que alguém canta no mundo. É o que me parece: a mim, que sinto a vida de outro continente como uma outra vida, sem relação com aquela que conheço, quase autônoma, com as suas outras leis internas, virgens.

Tenho a impressão de que escutar esse canto de rapazes de Bombaim, sob a Porta da Índia, se reveste de um sentido inefável e cúmplice: uma revelação, uma conversão da vida.

Já deu para perceber que o italiano escreve bem, com sentimento. Consegue soar poético e gentil mesmo quando suas notas de viagem mostram ao mundo uma Índia escancaradamente pobre e miserável. O que nas mãos de um escritor viajante poderia tornar-se uma descrição óbvia e sem profundidade, sem algo que apresentasse um olhar para além das aparências, nas mãos de Pasolini vira um retrato real, certamente assustador, mas jamais isento de esperança. Veja só:




A vida, na Índia, tem os caracteres do insuportável: não se sabe como se pode resistir comendo um punhado de arroz sujo, bebendo uma água imunda, sob a ameaça constante do cólera, do tifo, da varíola, quando não da peste, dormindo no chão, ou em alojamentos atrozes.

O despertar de cada manhã deve ser um pesadelo. E contudo os indianos levantam-se, com o sol, resignados, e, resignados, começam a ocupar-se das suas coisas: é um girar no vazio durante o dia inteiro, um pouco como pode se ver em Nápoles, mas, aqui, com resultados incomparavelmente mais miseráveis. É verdade que os indianos nunca estão alegres: muitas vezes sorriem, é verdade, mas são sorrisos de doçura, não de alegria.






(...) No meio daquela rua havia uma árvore, despropositada e magnífica, como são muitas vezes as árvores na Índia, e à volta desta árvore, uma espécie de armação de madeira, pintada de vermelho e de outras cores garridas.

Diante da armação, ao passar nas minhas explorações desesperadas, vi um jovem, imóvel, como que de cera, abstracto: mas, nos olhos transtornados, havia uma grande ordem e uma grande paz. Tinha as mãos postas. Aproximei-me para o ver melhor. Estava descalço, tinha os sapatos poisados ao lado na poeira putrefacta.




Estava direito, imóvel, inacessível: feito puro silêncio. Vi o que estava a adorar. Tratava-se de uma rã, com um metro de altura, fechada dentro do pequeno templo, ao fundo, sobre tapetes amarelos e sujos: uma rã de madeira que parecia viscosa, pintada de vermelho no dorso, de amarelo na barriga. Tratava-se, na realidade, de uma degenerescência da habitual vaca sagrada: um verdadeiro horror. Olhei o rosto do jovem que rezava: era sublime.

Perceba que apesar de cometer o deslize de julgar um fenômeno religioso sem o devido afastamento, ou seja, observar um objeto sem compará-lo com os elementos de sua própria cultura, no caso a imagem do sapo que lhe causou horror, Pasolini muda o foco para o devoto, e em seu rosto encontra a beleza, o sublime.




E é esse de fato o foco de Pasolini na Índia: as pessoas; mais do que qualquer outra coisa naquela viagem, o que encantou e fascinou Pasolini foram os indianos e isso dá ao seu relato uma energia vibrante, porque todos nós nos interessamos pela espécie humana, com todas as suas virtudes e defeitos. Pense bem: se no relato de uma viagem o autor se prendesse apenas e exclusivamente à paisagem, à descrição do entorno, que graça teria? É na relação com o outro que o ser humano se realiza, sem isso o homem perde sua condição humana.

Mas voltemos ao relato do Pasô. Diz, e concordo com ele plenamente, que Khajuraho é o lugar mais belo da Índia, “talvez o único lugar que possamos dizer realmente belo, no sentido ‘ocidental’ da palavra”. Se você não sabe, Khajuraho é um pequeno povoado no estado de Madhya Pradesh onde se encontram os famosos templos com representações escultóricas de posições sexuais que tiram o fôlego só de ver, imagina então colocar aquilo tudo em prática. Para poucos.







Um trechinho do relato, liberado para menores:

Um imenso relvado-jardim ao gosto inglês, verde, de um viço pungente, com buganvílias esparsas em grandes maciços redondos, diante das quais os olhos poderiam ficar esquecidos, gozando aquele vermelho paradisíaco durante horas a fio. Filas de raparigas, com os seus saris, muito enfeitadas, tratavam da relva; e, mais adiante, fileiras de crianças, sentadas na relva, enquanto, mais longe ainda, jovens que carregavam, pendurados da extremidade de uma vara, baldes cheios de água: tudo isto, numa paz de Primavera infinita. E espalhados pela relva, os pequenos templos, que são tudo o que de mais sublime se pode ver na Índia.




Gosto dessa passagem porque ela mostra um cenário diferente daqueles que estamos habituados a ler sobre a Índia, quase sempre próximos do exagero e do lugar comum: os cheiros de incenso entupindo os narizes, as cores dos saris ofuscando pupilas ocidentais, a comida apimentada aguçando os paladares, a espiritualidade transformadora dos gurus nos ashrams e por aí vai. E olha que só falei do lado bom. Mas eu quero mais de Khajuraho. Voltemos ao livro:

Não conseguíamos afastar-nos de Kajurao: havia seis templos, pequenos e magníficos, e à volta de cada um demorávamos pelo menos uma hora, sentados nos seus degraus, ou no prado um pouco mais abaixo, a gozarmos aquela paz inesperada, poderosamente cheia de indulgência.




Os templos diante de nós, com os seus dois corpos - um grande, com o lingam no interior, o outro, de frente, mais pequeno, pouco mais do que um tecto para abrigar a magnífica vaca de pedra (na verdade Pasolini se refere ao touro Nandhi, veículo de Shiva) - virada para o lingam no ouro do sol, eram de uma beleza inesgotável. Não pareciam coisas de pedra: mas de um material quase comestível, mais do que precioso, aéreo.

Como eu dizia, Pasolini gosta de escrever sobre as pessoas que a todo momento cruzam seu caminho pela Índia. De todas as que encontrou, um rapaz, de nome Revi, deixou uma marca profunda em sua alma, tanto que a ele dedicou um capítulo exclusivo e cheio de emoção. Também gastou algumas linhas falando sobre a religião hindu e sobre o trabalho belíssimo junto aos leprosos de Calcutá executado por Madre Teresa, ainda viva àquela época. Não se esquece de tratar da política, tema tão caro a ele, e vez ou outra tece suas opiniões contrárias à burguesia – impossível não lembrar de Teorema (1968), uma de suas obras primas na literatura e no cinema.




Observa sempre, é um homem atento e interessado em tudo. Comenta o estranho, porém gracioso hábito dos indianos em mover lateralmente a cabeça de maneira ondulante, no gesto que para nós significa um “não” e que para eles quer dizer “sim”; fala do seu desconforto em andar em um riquixá (rickshaw), e da falta de coragem de ser transportado por um indiano exercendo papel de cavalo “entre aqueles dois horríveis varais repugnantes de sua carroça”.




Não lhe escapa praticamente nada, e isso inclui o tópico delicado e complexo do sistema de castas, “um cancro espalhado e enraizado em todos os tecidos da Índia”, e a absurda, ao olhar do ocidental, condição dos milhões de intocáveis que ali vivem. Veja que passagem linda a que transcrevo a seguir:

De manhã, ao deixarmos o hotel, tínhamos distribuído as gorjetas de costume, pequenas e numerosas. (...) Um dos criados, velho, sério, vestido com um pano à volta dos flancos e outro pano na cabeça, recebeu a moeda que eu lhe estava a dar em silêncio, quase de joelho em terra, com um gesto gracioso quase feminino, ou seja, recuando a perna esquerda, como fazem as meninas que frequentam os colégios bem.



Assim, ao inclinar-se, a cabeça dele ficou muito abaixo da minha, e as mãos estendidas para recolherem a moeda, à altura da sua testa. As mãos estendiam-se, por outro lado, unidas numa concha, para que eu pudesse deixar-lhes a moeda sem as tocar. Era um intocável: velho e que mantinha, por isso, os velhos costumes.

(...) Não consigo desembaraçar-me da imagem curvada desse pobre velho que tinha feito da sua intocabilidade um hábito tão mudo, humilde e absoluto. Voltamos da Índia encharcados, afogados, sujos de compaixão.


Tão interessante quanto a passagem acima é a que se segue abaixo, uma observação do autor sobre o rito da comensalidade. Um pequeno trecho:

A um nível inferior, numa casa de pasto popular, assistir às refeições que as pessoas tomam é um verdadeiro espectáculo. Os hindus, por força do rito, têm de comer com as mãos, ou antes, com uma só mão, não me lembro se a esquerda ou a direita – por isso vêem-se multidões de manetas, que fazem uma bola com o arroz, o ensopam num caril espesso e o levam à boca como se tentassem ganhar uma aposta.





A propósito, eles usam a mão direita para comer, a esquerda é considerada impura porque ela é usada para os hábitos de higiene. E por falar em higiene, não passa batido, como se costuma dizer, as típicas abluções (do latim ablutio, “lavagem”) no Ganges, um programa obrigatório a todos os que visitam a cidade de Varanasi (ou Benares, como alguns ainda a chamam). É realmente um espetáculo fascinante observar o ritual que acontece há tempos imemoriais às margens do Ganges. Palavras de Pasô:




Presumivelmente, nas origens, tanto a intocabilidade como as abluções deverão ter tido um sentido higiênico, embora uma tal presunção possa parecer banal. Temos de andar hoje de barco pelo Ganges, ainda que confortavelmente sentados numa cadeira no alto da ponte, se quisermos ver em que se tornaram as abluções.

Na água do Ganges são mergulhados os cadáveres antes de serem queimados, à água do Ganges são atirados, não queimados, mas entalados entre dois lastros de pedra, os santos hindus, mortos de varíola e os leprosos, pela água do Ganges vagueiam todos os rebotalhos e carcaças de uma cidade que é praticamente um lazareto, porque as pessoas aqui vêm morrer.







Pois bem, nesta água, vêem-se centenas de pessoas que se lavam cuidadosamente, mergulhando com deleite nela, deixando-se estar longamente com água pela cintura e enxaguando-se mil vezes, lavando a boca e os dentes, tudo isto com acompanhamento de gestos mecânicos e neuróticos, feitos com toda a naturalidade e como que com despreocupação, como é sempre o caso nos rituais indianos.








Para mim, o que mais me chamou a atenção no relato de Pasolini foi descobrir como, mesmo passado meio século, suas observações sobre o país continuam praticamente imutáveis, em tudo idênticas àquilo que eu vi e li em outros tantos relatos modernos. Até o costume das esmolas, que em determinada altura da viagem cansa até o viajante mais zen, continua presente, herança talvez de um costume cultural ainda longe de se extinguir:




Sempre que na Índia se visita um monumento, caímos prisioneiros dos guias e, em segunda instância, da turba dos mendigos. Um gota a gota contínuo de rúpias e de moedas pequenas – exasperante porque as moedas nunca são suficientes.

Quero terminar este post com uma passagem belíssima, que por acaso é a mesma que encerra esse relato de viagem. Trata do tema da morte, no local das piras dos mortos, provavelmente o Manikarnika Ghat em Varanasi. Pasolini escreve que essa foi a única hora doce e serena da viagem, justo ele, que anos depois morreria brutalmente assassinado numa praia na cidade de Óstia, em sua terra natal. Achei interessante essa passagem porque é possível, com um pouco de imaginação, enxergar nesse rito de morte uma metáfora poderosa: o fim da vida, a morte, que coincide com o final da viagem. A vida, como sempre, não passa de uma jornada.




Pasolini ainda viajaria muito antes de morrer: em 62 visitou o Sudão e Quênia; no ano seguinte, em 1963, viajou à Gana, Guiné, Nigéria, Jordânia e à Palestina. Voltou à Índia em 1968 e percorreu a África dois anos depois. Deixou este plano no dia de Finados, em novembro de 1975.

Junto às piras dos mortos em Benares



Chegamos abaixo das fogueiras: são duas piras mortuárias – três, das quais duas, muito acima de nós, como ao alto de umas escadas, e uma outra, mais cá em baixo, a poucos metros do rés da água.

À volta das piras vemos, sentados por terra, muitos indianos, com os seus trapos costumados. Ninguém chora, ninguém está triste, ninguém se preocupa com atear a fogueira: dir-se-ia que todos esperam simplesmente que o fogo acabe, sem impaciência, sem o mínimo sentimento de dor, ou dó, ou curiosidade.

Caminhamos pelo meio deles, que, sempre muito tranquilos, delicados e indiferentes, nos deixam passar e chegar junto à pira. Nada se consegue distinguir, só a lenha bem arrumada e atada, no meio da qual foi amarrado o morto. Mas, uma vez que tudo arde, os membros não se distinguem dos pequenos troncos de madeira cortada. Não se sente outro cheiro que não seja o delicado cheiro do fogo.
Porque o ar está frio, Moravia e eu aproximamo-nos instintivamente das piras, e, enquanto nos aproximamos, em breve nos damos conta de experimentarmos a sensação agradável de quem está à volta de um bom fogo, no inverno, com os membros entorpecidos, e saboreia o estar ali, juntamente com um grupo de amigos ocasionais, sobre cujos rostos, sobre cujos farrapos, a chama vai placidamente colorindo o seu laborioso agonizar.



Assim, confortados pelo calor, podemos relancear de mais perto esses pobres mortos que ardem sem sobrecarregar seja quem for. Nunca, em nenhum outro lugar, nenhuma outra hora, nenhum outro acto, de toda a nossa estada na Índia, experimentáramos um sentimento tão profundo de comunhão, de tranqüilidade e, quase, de alegria.


Leia: O cheiro da Índia (L´Odore Dell´India). Pier Paolo Pasolini. Editora 90 Graus. Lisboa, 2007.

Sobre Pasolini, sua vida e obra, indico o site oficial,
pasolini.net, com bons artigos em português.

Escrevi um artigo, para uma revista acadêmica, sobre a obra Teorema, de Pasolini, que talvez possa lhe interessar. O título é Sexo Sagrado: uma divagação orientalista da obra Teorema, de Pier Paolo Pasolini. Na altura em que escrevi o texto não tinha conhecimento dessa ligação de Pasolini com a Índia. Ainda bem, se soubesse disso, acho que teria viajado ainda mais nas ideias.

Para ouvir e viajar: Inside the Taj Mahal, by Paul Horn.





Simplesmente imperdível, Paul Horn é um flautista brilhante e músico de primeiríssima linha. Adorado pela turma da Nova Era que sabe o que é bom, tem como hábito gravar seus álbuns em locais de forte presença espiritual em diversas regiões do planeta: Canyon de Chelly, a Pirâmide de Gizé, Tibet e China são alguns exemplos. Procure pelos álbuns de sua fase “Inside”, absolutamente transcendentais. Por acaso, Inside Taj Mahal foi gravado no mesmo ano em que Pasolini passou por lá, em 1968, quando Paul perambulava pela Índia com os Beatles. Vale a pena visitar a página oficial do músico:
paulhornmusic.com

Assista:
Viagem a Darjeeling (2007).






Além de sair do lugar comum, esse filme tem uma trilha sonora super bacana (a cena com a bela Play with fire, dos Stones, vale todo o filme). Pra quem curte road movie, um must.

Passagem para a Índia (1984). Um clássico do mestre britânico David Lean, para amantes do bom cinema.








HARE OM KRISHNA OM