domingo, 31 de julho de 2011

A Galícia de Rosalía de Castro

.

Me deu vontade, nas últimas semanas, de reler alguns autores espanhóis que há tanto tempo prestigiam minha biblioteca. Não são muitos, mas os poucos que andei pescando nos últimos quinze anos são muito queridos, porque os colecionei em viagens, garimpados em sebos, livrarias e presenteados por amigos.

Tirei três da prateleira e resolvi que ficaria com a pequena e amarelada antologia de Rosalía de Castro. É possível que você não a conheça, mas essa escritora galega foi uma mulher genial nas letras, a primeira poetisa social da Espanha, que para escrever não se apoiou numa ideologia, mas sim na própria experiência, como disse certa vez Torrente Ballester a seu respeito.



Rosalía de Castro (1837-1885) é tida por alguns como uma poeta folclórica, a mulher que cantou as belezas e os costumes da Galícia, mas seria equivocado resumir seu perfil literário assim, de maneira tão reducionista; todo um povo se reconhece em sua obra e por isso Rosalía se transformou em um mito galego. “Nenhum poeta espanhol”, informação que tiro do prólogo dessa antologia, “jamais alcançou um fervor tão unânime e entusiasta como o que o simples nome de Rosalía desperta no povo da Galícia”.



Também pudera: o livro de Rosalía, Cantares (Vigo, 1863), foi a primeira obra importante publicada na língua galega depois de quatro séculos de silêncio quase absoluto; se não foi de fato a primeira, como observam alguns estudiosos, foi seguramente a obra que marcou o renascimento pleno da língua galega.

Não irei mais longe do que isso porque meu propósito não é o de esmiuçar a vida e a obra de Rosalía, merecedora sem dúvida de uma boa leitura, sobretudo se você se interessa por poesia. Deixarei no final do post alguns links interessantes, ok?

Quis apenas contextualizar você antes da leitura que virá a seguir. É preciso saber que as críticas pesadas de Rosalía (sobre algumas províncias espanholas, sobretudo a de Castilha) nessa introdução feita à sua obra Cantares Gallegos tem que ser entendida dentro daquele contexto social da Espanha do século dezenove, quando a Galícia, praticamente, sequer era reconhecida como uma região digna de pertencer ao país, e sua gente, tão pobre, tão sofrida, era tratada tal como os párias na Índia, sem dignidade e sem identidade. Retirantes, como numa tela de Portinari, os galegos sem espaço em seu próprio país buscaram outras terras e muitos vieram parar na América do Sul.

Coube a Rosalía a tarefa de trazer de volta ao seu povo a dignidade e identidade outrora perdidas, e a coisa toda funcionou de verdade. A força de sua poesia e sua voz se fez ouvir e viajou mundo. Rosalía não é mais Rosalía: é a própria Galícia, em corpo e alma.



Seria a poesia a forma mais poderosa da arte? A arte mais sublime? Como subestimar o poder da poesia sendo ela capaz de devolver a identidade a um povo? Outro dia, vendo um documentário sobre a vida e obra de Bob Dylan (No Direction Home, genial) anotei o que Allen Ginsberg (excepcional poeta da geração beat) disse sobre poesia. Achei sua definição de uma genialidade ímpar: “a poesia é feita de palavras poderosas que tocam profundamente e que reconhecemos instantaneamente como uma forma de verdade subjetiva que tem uma realidade objetiva, porque alguém a percebeu. A isso se chamará poesia mais tarde.”

Verdade e realidade, objetividade e subjetividade, palavras citadas por Ginsberg que encontram eco na poesia de Rosalía de Castro, com seus cantos de amor e queixa, como escreverá Unamuno mais tarde. A leitura que faço agora, enquanto leio os poemas saudosos e belos de Rosalía, me fazem pensar em outras hipóteses interpretativas, entre elas a de que a Galícia também pode ser uma metáfora, assim como o sertão, ou os desertos das obras de outros grandes escritores e poetas. Mas isso são especulações minhas que não vêm ao caso aqui.

E onde, afinal, em se tratando de um blog sobre literatura odepórica, vamos encaixar os poemas de Rosalía de Castro com o ato de viajar? Pois... vamos fazer isso, mas dessa vez de uma maneira mais sutil, porque de fato não estamos lidando com uma narrativa de viagem. Tudo isso foi para que você partisse comigo para a Galícia, e falar de Galícia sem falar de Rosalía de Castro é como, sei lá, falar das Minas Gerais sem citar Guimarães Rosa, fazendo um paralelo assim, de improviso.

Nesse ponto acho que vem ao caso compartilhar algumas estrofes de um poema de Rosalía (tradução minha, não repare), um dos que mais gosto, escrito em 1884. Chama-se Orillas del Sar, que pode ser traduzido como “Às margens do Sar”, rio que nasce lá para os lados de Santiago de Compostela e desemboca em Iria Flávia (antiga Padrón), cidade onde Rosalía viveu seus últimos anos de vida.





Através da folhagem perene
De onde se ouve estranhos rumores,
E entre um mar de ondulante verdor,
Amorosa mansão dos pássaros,
Vejo desde a minha janela
O templo que tanto amei.

O templo que tanto amei...
Mas já não sei dizer se o amo,
Que no rude vaivém que sem trégua
Se agitam meus pensamentos,
Tenho dúvida se o rancor austero
Vive unido ao amor em meu peito.

Outra vez! Depois da luta exaustiva
E da amarga incerteza
Do viajante que errante não sabe
Onde dormirá amanhã,
Em seus lares primitivos
Encontra um breve descanso a minha alma.

(...)
Como se me encontrasse em solo estrangeiro
Tímida e rude, contemplo
Desde longe os bosques e as alturas
E as floridas sendas,
Onde em cada canto me aguardava
A esperança sorrindo.

Ouço o toque sonoro que então
Ao meu leito a chamar-me vinha
Com seus ecos, que o alvorecer anunciava;
Que como doce carícia
Um raio de sol dourado
Iluminava minha estância tranqüila.

O ar puro, a luz rosada,
Que feliz despertar!
Eu via entre nuvens de incenso
Visões com asas de ouro
Que levavam a venda celeste
Da fé sobre os seus olhos...

Esse sol é o mesmo, mas elas
Não acodem ao meu conjuro;
E através do espaço e das nuvens,
E das águas nos limbos confusos,
E do ar na transparência azul,
Ai! Já em vão as chamo e as busco.

Branca e deserta a via
Entre as frondosas sebes
E os bosques e arroios que ladeiam
Suas margens, com grato mistério
Parece atrair-me e brindar-me
A seguir sua linha sem término

Desçamos, pois, que o caminho
Antigo há de surgir,
Ainda que triste, escabroso e deserto,
E assim como nós mudado,
Ainda cheio dos brancos fantasmas
Que em outro tempo adoramos.






Perceba que na poesia de Rosalía a natureza tem uma dimensão quase mágica, como se suas palavras sacralizassem tudo aquilo que seus olhos pudessem enxergar. E quem conhece a Galícia, terra de verdes bosques, e rios de águas frescas e translúcidas e suas montanhas lambidas de brumas, as ruínas dos antigos castros, quem a conhece não consegue deixar de encantar-se.

Uma sugestão que dou ao leitor/a que me acompanhou até aqui é a seguinte: se o seu bolso permitir e se o seu tempo não for suficiente para caminhar por muitas semanas, uma viagem inesquecível e encantadora é a seguinte: tome um avião até Madri e de lá vá de trem ou de ônibus até a cidade de Villafranca del Bierzo. De Villafranca a Santiago você caminhará uma média de duzentos quilômetros no total, ou seja, vinte quilômetros por dia, o que não é nenhum exagero, mesmo para os sedentários.





Em dez dias você terá conhecido uma das regiões mais bonitas da Espanha, com paisagens indescritíveis, culinária deliciosa, bons vinhos se gosta de beber, entre tantos outros prazeres. Ficando nos albergues, a viagem não pesará no seu bolso e sua alma sairá de lá mais leve do que você imagina. Eu diria, por experiência própria, que se o seu comprometimento com o Caminho for sério, sua experiência será tão profunda e marcante quanto a dos que optarem por caminhar os mais de setecentos quilômetros desde os Pirineus.

O texto abaixo, traduzido por mim da introdução de Rosalía para Cantares Gallegos mostra, sem exagero algum, um perfil da Galícia que ainda hoje, passados mais de cem anos, é possível de ser observado pelos peregrinos que continuam se aventurando naquelas paragens que em muitos momentos parecem ter parado no tempo. Boa viagem.



É um grande atrevimento, sem dúvida, para um talento pobre como o que me cabe, dar à luz um livro cujas páginas deviam estar cheias de sol, de harmonia, e daquela naturalidade que, unida a uma profunda ternura, a um arrulho incessante de palavras meigas e sentidas, formam a grande beleza de nossos cantos populares.

A poesia galega, toda ela música e vagueza, toda queixas, suspiros e doces sorrisos, murmurando umas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, brilhando outras com o raio de sol que cai sereno sobre as águas de um rio caudaloso e grave que corre sob os galhos dos salgueiros em flor, precisava, para ser cantada, de um espírito sublime e cristalino, se pudermos assim dizer.

Uma inspiração fecunda como a vegetação que embeleza esta nossa terra privilegiada, e sobretudo um sentimento delicado e penetrante para dar a conhecer tantas belezas de primeira ordem - fugitivo raio de beleza como o que se desprende de cada costume, de cada pensamento escapado a este povo a quem muitos chamam de estúpido e a quem talvez julguem insensível, alheio à divina poesia.

Mas ninguém menos do que eu possui as grandes qualidades necessárias para levar a cabo uma obra tão difícil, e nem tampouco se pode encontrar alguém animado por um grande desejo de cantar as belezas de nossa terra naquele dialeto suave e meigo que querem tomar por bárbaro os que não sabem que sobrepuja as demais línguas em doçura e harmonia.

Por isso, ainda encontrando-me fraca e sem forças, e não tendo aprendido em outra escola que não a de nossos pobres aldeões, guiada apenas por aqueles cantares, aquelas palavras carinhosas e aquelas construções nunca esquecidas, que tão docemente ressonavam em meus ouvidos desde o berço em que foram recolhidas por meu coração como herança própria, atrevi-me a escrever estes cantares esforçando-me em dar a conhecer como alguns de nossos costumes poéticos ainda conservam certo frescor patriarcal e primitivo e como nosso dialeto doce e sonoro é tão adequado como o primeiro para toda classe de versificação.

(...) Canções, lágrimas, queixas, suspiros, entardeceres, romarias, paisagens, pastos, pinheirais, descampados, ribeiras, costumes, tudo aquilo, enfim, que por sua forma e colorido seja digno de ser cantado, tudo o que teve um eco, uma voz, um rumor, por mais leve que fosse, que chegasse a comover-me, tudo isso me atrevi a cantar neste humilde livro para dizer, pelo menos uma vez, ainda que de um modo acanhado, aos que sem razão nem conhecimento algum nos depreciam, pois nossa terra é digna de elogios e nossa língua não é aquela que degeneram e arranham torpemente as mais ilustres províncias com um riso de mofa, que para dizer a verdade (por mais que esta seja dura) demonstra a ignorância mais crassa e a mais imperdoável injustiça que uma província pode fazer a outra província irmã, por mais pobre que esta seja.

Tenho para mim que o mais triste nesta questão é a falsidade com que são retratados fora daqui tanto os filhos de Galícia como a própria Galícia, a quem geralmente julgam ser a província mais depreciável e feia da Espanha, quando na verdade talvez seja a mais formosa e digna de elogio.

(...) Mas eu, que atravessei repetidas vezes aquelas terras solitárias da Castilha que dão a ideia de um deserto; eu, que percorri a terra fértil da Extremadura e a extensa região da Mancha, onde o sol cai como chumbo iluminando monótonos campos onde a cor da palha seca empresta um tom cansado à paisagem que rende e entristece o espírito, sem uma moitinha que distraia o olhar que se perde em um céu sem nuvens, tão igual e tão cansado como a terra que cobre.

Eu, que visitei os celebrados arredores de Alicante, onde as oliveiras, com seu verde escuro, semeadas em fileira e de raro em raro, parecem chorar por encontrarem-se solitárias, e vi aquela bela zona de terras irrigadas da Murcia, tão famosa e tão aclamada e que, cansada e monótona como o resto daquele território, mostra sua vegetação tal como paisagens pintadas num esboço, com árvores plantadas simetricamente e em pequeninos caminhos para diversão das crianças.

Não posso deixar de indignar-me quando os filhos dessas províncias que Deus favoreceu em fartura, mas não na beleza dos campos, se burlam dessa Galícia competidora em clima e galanteio com os países mais encantadores da Terra, esta Galícia onde tudo é espontâneo na natureza e onde a mão do homem cede seu posto à mão de Deus.

Lagos, cascatas, torrentes, várzeas floridas, vales, montanhas, céus azuis e serenos como os da Itália, horizontes nublados e melancólicos, mas sempre belos, como os tão aclamados horizontes da Suíça, ribeiras tranqüilas e serenas, cabos tempestuosos que causam terror e admiração por sua gigantesca e ensurdecedora cólera... mares imensos... Que mais posso dizer? Não há pena que possa enumerar tanto encanto reunido.

A terra coberta em todas as estações de ervas e de flores, os montes cheios de pinheiros, de carvalhos e de salgueiros, os ventos ligeiros que passam, as fontes e as torrentes derramando-se rumorejantes e cristalinas no verão e no inverno, seja pelos agradáveis campos, seja pelas profundas e sombrias depressões... A Galícia é sempre um jardim onde se respiram aromas puros, frescor e poesia...

E apesar disso, chega a tanto a tolice dos ignorantes, a tanto o preconceito indigno que contra nossa terra existe, que até mesmo aqueles que puderam contemplar tamanha beleza (e já nem estamos falando dos que se burlam de nós sem jamais nos terem visto sequer de longe), os que penetraram na Galícia e gozaram de suas delícias, se atreveram a dizer que a Galícia era... um chiqueiro imundo!

E estes eram, talvez, os filhos daquelas terras abrasadas de onde até os pássaros fogem... Que diremos disso? Nada mais senão que tais tolices a respeito de nosso país têm alguma comparação com as dos franceses ao falar de suas eternas vitórias sobre os espanhóis, que a Espanha nunca, jamais os venceu, pelo contrário, sempre saiu vencida, derrotada, humilhada; e o mais triste disso é que “vale” entre eles tal infame mentira como “vale” para a seca Castilha, para a desértica Mancha e para todas as demais províncias da Espanha – nenhuma comparada em verdadeira beleza de paisagem como a nossa – que a Galícia é o canto mais desprezível da terra.

Bem que se diz que tudo neste mundo tem sua compensação, e assim vem a Espanha sofrer, de uma nação vizinha que sempre a ofendeu, a mesma injustiça que ela, ainda mais culpável, comete com uma província humilhada de quem nunca se lembrou, como não seja para humilhá-la ainda mais. Sinto demais as injustiças com que nos favorecem os franceses, mas neste momento quase lhes sou grata, pois que proporcionam um meio de tornar mais palpável à Espanha a injustiça que ela, por sua vez, comete conosco.

Foi este o motivo principal que me impeliu a publicar este livro que, mais do que ninguém, tenho consciência de que necessita da indulgência de todos. Sem gramática, sem regras de nenhuma classe, o leitor encontrará muitas vezes falhas de ortografia, construções dissonantes para os ouvidos de um purista.

Porém, para desculpar ao menos em parte estes defeitos, tive o maior cuidado em reproduzir o verdadeiro espírito de nosso povo, e creio que o consegui um pouco... se bem que de maneira débil e frouxa. Queira o céu que alguém mais venturoso que eu possa descobrir com suas verdadeiras cores os quadros encantadores que por aqui se encontram, incluso no canto mais escondido e esquecido, para que assim, ao menos em fama - já que não em proveito - ganhe e seja vista com respeito e admiração merecida esta infortunada Galícia!

Rosalía de Castro na Wikipedia? Clique
aqui.

Página oficial de Rosalía na Web? Clique
aqui.


Fundação Rosalía de Castro, outra boa fonte. Basta clicar bem aqui.

Obras de Rosalía de Castro na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.

Caminho de Santiago- dê uma estudada no trajeto galego através do site do Guia Eroski Consumer. A região da Galícia começa a partir da etapa 24

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: Uma caminhada na floresta, by Bill Bryson

.

Imagine uma rota de caminhada bem grande. Aliás, imagine uma trilha absurdamente grande, cujo percurso ultrapasse os três mil quilômetros de uma ponta a outra, o que equivaleria à distância de Curitiba a Natal, por exemplo. Ou então, só para você ter uma noção do quão cansativa deve ser a aventura, pense em percorrer o Caminho de Santiago, a rota completa desde os Pirineus aos cafundós da Galícia, duas vezes. Ida e volta.

Mas não termina aí não, camarada. Imagine que nessa trilha você terá muitas subidas, perambeiras, muitas montanhas cricris pela frente, algumas delas entre as mais altas do território. Ah, sim, e para dar um toque de aventura, imagine que a qualquer momento você poderá dar de cara com um urso, que tal? E bem na hora do almoço – o dele, é claro. Já imaginou?

Pois o Bill Bryson, um autor estadunidense muito atrevido, não se contentou em imaginar como seria essa trilha doida não. Ele simplesmente resolveu encarar o lance. E olha que nem era tão jovem assim, à época do empreendimento. Contava com 44 anos, estava fora de forma e acima do peso.


Quase que no último momento, às vésperas de cair na estrada, um amigo dos tempos do colégio topou acompanhá-lo. Pior que ele em tudo: mais gordo, menos preparado, sem grana e ex-alcoólatra, ou seja, aquilo que os americanos costumam chamar (mui grosseiramente) de “loser”, um fracassado. Katz, seu nome, a quem o livro é dedicado, pode até ser um desajustado, mas na narrativa do Bill é ele quem faz toda a diferença.

Uma caminhada na floresta: redescobrindo os Estados Unidos pela Trilha dos Apalaches é um dos livros mais divertidos que você irá ler dentre tantos bons títulos da literatura odepórica. Tem tudo na medida certa: informações interessantes, suspense, humor (quase sempre negro, o que é melhor ainda) e um ritmo narrativo que não tropeça em nenhum momento. O autor parece ser o tipo de cara com quem você não hesitaria em passar algumas horas bebendo num bar, rindo de suas aventuras e de seus perrengues.

E o que faz com que nos sintamos próximos do Bill é o fato de ele possuir um senso crítico muito raro de se encontrar em relatos de aventura, onde via de regra o narrador se vê (ou tenta fazer com que você o sinta) como um herói ou como uma vítima frente às adversidades encontradas pelo caminho. Nem um, nem outro, o Bill é uma pessoa tão comum quanto qualquer outra que você conheça e é isso o que faz dele alguém tão diferente. Esquisito, né?




E daí que o livro não começa perdendo tempo. O Bill já nos introduz na trilha botando medo, anunciando que o lance não é para amadores e amadoras não. Sei que é feio rir da desgraça alheia, mas fica difícil evitar, porque nem verdade parece. Estou falando de alguns pequenos relatos que o Bill ouviu ou leu quando começou a pesquisar sobre a Trilha dos Apalaches. Veja só que horror:





Quase todos com quem falei tinham alguma história horripilante para contar sobre um amigo ingênuo que partira para a trilha com grandes esperanças, botas novas, e voltara aos trancos e barrancos dois dias depois, com um lince agarrado na cabeça ou com sangue pingando de uma manga sem braço, murmurando “Urso” com voz rouca, antes de desmaiar.



(...) Coisas literalmente inimagináveis poderiam acontecer a você naqueles lugares. Ouvi a história de um homem que saiu à noite de sua barraca para fazer xixi e foi atacado violentamente por uma coruja míope – a última vez que viu seu escalpo, ele pendia das garras da ave, compondo uma silhueta graciosa contra a luz da lua – e a de uma jovem que foi acordada por uma comichão sinuosa na barriga, espiou dentro do saco de dormir e viu uma cobra venenosa aninhando-se no quentinho entre suas pernas.



Ouvi quatro relatos separados (sempre contados com um risinho de satisfação) de campistas e ursos compartilhando a mesma barraca durante alguns momentos confusos e animados; de gente que, surpreendida durante uma escalada por uma tempestade, evaporava abruptamente, atingida por um raio (“Não sobrou nada dele, só uma marca de queimado”); de barracas esmagadas por árvores, ou jogadas em precipícios pela correnteza produzida pela chuva e que voavam para vales distantes, ou varridas pela parede líquida de uma inundação repentina; de inúmeros excursionistas cuja última experiência foi um tremor de terra e um pensamento desnorteado: “E agora, que porra está acontecendo?”.



Deu pra sentir o que vem pela frente, não? E esses pequenos excertos que você acabou de ler aparecem logo na segunda página, que é pra não restar dúvidas quanto aos imprevistos – se é que podemos chamar essas tragédias de imprevistos – que aguardam os aventureiros/as da Trilha dos Apalaches. Como meu lado masô está menos reprimido hoje, aqui diante desse computador enquanto o sol brilha lindamente do lado de fora desse dia em que o inverno deu uma trégua, não resisto a transcrever outras passagens torturantes que também vão satisfazer o leitor e a leitora masôs:

Depois, havia todas as doenças que espreitavam do mato – infecção intestinal por Giardia lamblia, encefalomielite eqüina, tifo exantemático, síndrome de Lyme, infecções por Helicobacter pylori, Ehrlichia chaffenis, equistossomose, brucelose e desinteria bacilar, para dar apenas uma amostra. A encefalomielite eqüina, causada pela picada de um mosquito, ataca o cérebro e o sistema nervoso central. Se você tiver muita sorte, pode passar o resto de sua vida numa cadeira com um babador no pescoço, mas em geral ela mata. Não há cura conhecida.

Não menos interessante é a síndrome de Lyme, provocada pela mordida de um carrapato de cervo menor que uma cabeça de alfinete. Se não for detectada, pode ficar latente no corpo humano durante anos, até que detona um festival de doenças. Trata-se de uma síndrome para quem quer experimentar de tudo na vida: os primeiros sintomas são dor de cabeça, fadiga, febre, tremores, falta de ar, tontura e dores agudas nas extremidades, depois surgem irregularidades cardíacas, paralisia facial, espasmos musculares, danos cerebrais graves, perda de controle sobre as funções corporais e – nenhuma surpresa, diante das circunstâncias – depressão crônica.





Há também a pouco conhecida família dos organismos chamados de hantavírus, que enxameiam a microatmosfera logo acima das fezes de ratos e camundongos e são aspirados pelo sistema respiratório de alguém azarado o suficiente para enfiar o nariz em algum lugar perto deles – deitando-se, por exemplo, num lugar por onde ratos infectados acabaram de passar.

Em 1993, um único surto de hantavírus matou 32 pessoas no Sudoeste dos Estados unidos, e no ano seguinte a doença fez sua primeira vítima na trilha, quando um caminhante foi infectado após dormir num “abrigo infestado de roedores”. (Todos os abrigos da trilha estão infestados de roedores.) Entre os vírus, com certeza somente o responsável pela raiva, o Ebola e o HIV são mais letais. De novo, não há cura.

Por fim, tratando-se dos Estados Unidos, há sempre a possibilidade de um assassinato. Pelo menos nove excursionistas – o número exato depende da fonte que você consultar e de como você define um excursionista – foram mortos ao longo da trilha desde 1974. Duas jovens morreriam enquanto eu estava por lá.

Mas vamos deixar essa temática deprê prá lá, que a minha intenção não é a de afastar meus parcos leitores desse mal-ajambrado blog. Pé-de-pato, mangalô, três vezes e que nada disso aconteça com a gente em nossas caminhadas por aí.



É claro que o Bill Bryson colocou tudo nesses termos com a intenção de dar à Trilha uma aura ainda mais aventureira, como se os seus três mil e tantos quilômetros já não bastassem para nos deixar com a boca aberta e o queixo bem caído. Encarar esse drama pede doses generosas de espírito aventureiro e, sinto informar, uma também generosa conta bancária, porque essa trilha é impraticável aos aventureiros pés de chinelo, a começar pelo alto custo dos equipamentos e pelos meses de afastamento do trabalho, se o viajante ainda estiver na ativa.

Parece que o que não falta são obras documentais sobre a Trilha dos Apalaches; o autor relata que comprou uma caríssima coleção intitulada Guias da Trilha dos Apalaches, composta por onze pequenos livros e “59 mapas de diferentes tamanhos, estilos e escalas, cobrindo toda a trilha, da montanha Springer ao monte Katahdin”. (veja o mapa da trilha abaixo)

Acho que eu disse que não transcreveria passagens como as anteriores sobre os percalços da longa rota, de modo que para seu desapontamento (ou alívio, vai saber), vou pular o capítulo em que o Bill discorre longamente sobre ataques de ursos, não tão raros na Trilha dos Apalaches segundo ficamos sabendo em seu relato. Mas não consigo evitar um momento de humor negro (meu tipo de humor predileto); é uma passagem onde Bill responde à pergunta, absurda embora plausível, de como reagiria caso quatro ursos invadissem seu acampamento, um fato ocorrido de verdade e documentado em uma obra sobre os ataques desses animais gigantescos. É sua praia? Então anote o nome da obra: “Ataques de ursos: suas causas e como evitá-los”, de um professor universitário canadense chamado Stephen Herrero. Diz aí, Bill, o que você faria se topasse com quatro ursos no acampamento?



“Que diabos eu faria? Ora, eu morreria, é claro. Literalmente, me borraria até morrer. Iria estourar meu esfíncter como uma língua-de-sogra – ouso dizer que com um apito festivo – e sangraria até ter uma morte imunda em meu saco de dormir.”

Nojento, não? Mas o Bill tem esse lado escatológico peculiar que eu simplesmente adoro. Prossigamos. No capítulo 2 ficamos conhecendo Stephen Katz, o amigo da juventude em Iowa, terra natal de Bill, e com quem já havia perambulado pela Europa um par de décadas atrás.



Katz, dono de uma personalidade apatetada, traz ao relato e à viagem de Bill um colorido indispensável a toda e qualquer aventura. É o tipo de cara sem noção de nada, desencanado, às vezes meio melancólico, outras vezes radiante de felicidade (com coisas simples como poder assistir na TV de um motel de estrada a um capítulo de Arquivo X, “o melhor seriado de todos os tempos”) e, acima de tudo, companheiro fiel e destemido, sem nunca perder a pose frente às agruras da jornada. Um contraponto perfeito à personalidade mais equilibrada de Bill. Se fôssemos migrar o relato de Bill para os quadrinhos, ele seria o Mickey e Katz, o Donald.



Embora a narrativa do autor seja linear, vez ou outra ele sai da trilha e gasta algumas linhas divagando sobre peculiaridades que sempre têm alguma relação com a viagem pelos Apalaches; a começar pela trilha propriamente dita, que ficamos sabendo foi terminada formalmente no ano de 1937, com a abertura de um trecho de três quilômetros nas florestas do Maine. Obviamente, o traçado original sofreu, e continua sofrendo, constantes modificações ao longo das décadas. Hoje a Trilha dos Apalaches não é a mais longa trilha pedestre do mundo, embora continue sendo a mais ilustre. (perde por pouco para as trilhas da Crista do Pacífico e da Divisória Continental, no Oeste americano).



Não dá para falar de trilhas sem falar de florestas, certo? No capítulo 4 Bill nos diverte falando delas e sua opinião me pareceu muito interessante e peculiar:

As florestas são fantasmagóricas. Independentemente da ideia de que possam esconder animais selvagens e sujeitos armados e geneticamente desafiadores que atendem pelo nome de Zeke ou Festus, há algo intrinsecamente sinistro nelas – uma coisa inefável que o faz pressentir uma atmosfera de perdição e de fim potencial a cada passo, deixando-o profundamente consciente de que você está fora de seu meio e precisa manter as orelhas em pé.



Embora diga para si mesmo que é ridículo, você não consegue afastar por completo o sentimento de que está sendo observado. Quer ficar calmo – é apenas mato, pelo amor de Deus -, mas na verdade está mais apreensivo do que um xerife covarde com o revólver na mão. Todo ruído súbito – o estalido de um galho, o barulho de um veado em fuga – faz você girar assustado e conter um pedido de clemência.



Depois disso ele divaga um pouquinho mais e chama Thoreau (Henry David Thoreau, autor do clássico Walden) de cagão, (bem, não usou exatamente esse termo, mas a ideia foi exatamente essa), presunçoso e tedioso, mas isso é a opinião do Bill, que Deus o perdoe. Prossegue no parágrafo seguinte citando Daniel Boone:



Mas mesmo homens muito mais durões e afinados com o mundo selvagem do que Thoreau ficavam sóbrios e sensatos diante de sua ameaça estranha e palpável. Daniel Boone, que não só lutava com os ursos como tentava namorar as irmãs deles, descreveu as regiões meridionais dos Apalaches como “tão agrestes e horríveis que é impossível contemplá-las sem terror”. Se Daniel Boone fica apreensivo, você sabe que está na hora de tomar cuidado.

E eu que pensava que Daniel Boone fosse tão real quanto o Zé Colméia me vi surpreso com a citação acima. Vivendo e aprendendo. Aliás, aprender com Bill faz parte do jogo em sua leitura. Sempre há alguma coisa interessante sobre um fato, algum dado científico, algumas estatísticas pseudo-acadêmicas que parecem surgir por lá como quem diz, “Hey, veja só, relato de viagem também é cultura, você definitivamente não está perdendo seu tempo aqui, amigão!”. O pior (ou melhor) é que é isso mesmo.

Bill e Katz não encontram muitas pessoas as quais possam ser nominadas nesse relato; entretanto, há uma figura que ganha boas páginas de destaque na primeira metade da viagem. Seu nome é Mary Ellen, uma jovem caminhante gorducha, metida e irritante que ganha a seguinte descrição de Bill:



Sei há muito que faz parte dos planos de Deus que eu passe algum tempo com cada uma das pessoas mais estúpidas da face da terra: Mary Ellen era a prova de que, mesmo nas florestas dos Apalaches, eu não seria poupado.

Não, ele não está exagerando nem um pouco ao referir-se desse modo a Mary Ellen, se levarmos em consideração a veracidade dos acontecimentos ocorridos naquela viagem. Para nós, leitores, todas as Mary Ellens são bem-vindas, claro, pois que graça tem uma viagem sem esses tipos estranhos pelo meio do caminho?

Para quem alguma vez já fez longas caminhadas por trilhas, como o Caminho de Santiago ou a Trilha Inca ou as já bem divulgadas por aqui e inspiradas na rota jacobea como os Caminhos do Sol, da Fé, da Luz, das Missões, Passos de Anchieta entre outros tantos, é interessante notar como várias situações vividas por Bill em sua viagem pelos Apalaches fazem parte de um tipo de padrão comum a viagens dessa magnitude (com elementos comuns entre si: a viagem a pé, longa duração, grandes etapas, solidão, sofrimento físico, mudança de valores conforme a viagem avança...).



Depois de cinco dias caminhando e acampando na floresta, relata Bill, “uma estrada asfaltada, o barulho de carros passando e uma casa de verdade podem parecer coisas emocionantes e estranhas”.
Continua:

Só o fato de passar por uma porta, estar dentro de algum lugar, cercado por quatro paredes e um teto, era inusitado. (...) Eu estava começando a aprender que a característica central da vida na Trilha dos Apalaches é a privação, que o ponto essencial da experiência é afastar-se tão completamente das comodidades da vida cotidiana que as coisas mais comuns – queijo pasteurizado, uma lata de refrigerante gelado – o enchem de encanto e gratidão. É uma experiência inebriante tomar Coca-Cola como se fosse a primeira vez e ser conduzido à beira do orgasmo por uma fatia de pão branco. Faz todo o desconforto valer a pena.


Sobre as regras de civilidade, estas também se alteram numa viagem desse porte, onde o mote principal é, e sempre será, o de seguir, seguir, seguir, até onde suas forças permitirem; tomar banho diariamente, assoar o nariz com um lenço descartável, lavar as mãos após usar o banheiro (banheiro?) isso tudo faz parte de um passado muito distante. Um exemplo breve pincelado da narrativa de Bill, quando ele e Katz passam uma noite terrível num abrigo infestado de roedores:



“Nada como uma boa noite de sono, e esta noite não foi nada parecida com uma boa noite de sono”, concluiu, bufando, quando se mexeu. Descobri mais tarde que ele estava feliz porque matara sete camundongos, e sentia-se muito orgulhoso – para não dizer cheio de si, achando-se um gladiador.

Um tufo de pelos e restos de uma coisa cor-de-rosa e carnuda estavam grudados no fundo de seu cantil. Notei quando Katz o levou aos lábios. De vez em quando me perturbava ao perceber – suponho que isso aconteça com todos os excursionistas – o quanto somos capazes de esquecer as regras normais de civilidade quando estamos na trilha. Aquele foi um desses.


Muitas coisas ainda virão pela frente nesse relato, porque, apesar de tudo o que você já leu até aqui, não contei nem um quinto de tudo o que você irá encontrar pela frente caso decida se jogar de cabeça nas 280 páginas da edição brasileira da obra. É tanta coisa legal e divertida que eu mesmo já li esse livro três vezes e sei que voltarei a lê-lo outras tantas. Para finalizar (é claro que não contarei como essa aventura termina) quero transcrever uma passagem em que o autor fala do contraste que sente aquele que sai de um ambiente cheio de energia e sacralizado, como o de uma floresta, e entra no feio e desconectado ambiente metropolitano, profanado e de certo modo destruído pelas mãos do próprio homem. Um insight surpreendente e lindo de Bill Bryson:





Lembro ter lido certa vez sobre alguns índios da Idade da Pedra que viviam na floresta tropical brasileira que nem pensavam que existisse um mundo fora da selva. Eles foram levados para São Paulo e para o Rio e, quando viram os edifícios, os carros e os aviões que passavam, acabaram mijando nas calças, profusamente e em uníssono. Eu tinha alguma ideia de como se sentiram.

É um contraste muito estranho. Quando você está na trilha, a floresta é seu universo, infinito e inteiro. É tudo o que você vivencia, dia após dia. Por fim, é quase tudo o que você consegue imaginar. Você tem consciência, é claro, de que em algum lugar do horizonte existem cidades imensas, fábricas movimentadas, rodovias congestionadas, mas ali naquela parte do país, em que as árvores cobrem a paisagem até onde seus olhos podem ver, é a floresta que dá as ordens.





Mas ao sair da trilha e ir de carro até um lugar qualquer – era isso o que estávamos fazendo – você percebe que tudo não passava de uma grande ilusão. As montanhas e florestas eram apenas um pano de fundo – familiar, conhecido, próximo, não mais altivo ou notável do que as nuvens que corriam rapidamente sobre suas cristas. Aqui, o mundo real estava bem perto de você e era ele quem dava as ordens: postos de gasolina, Wal-Marts, K-marts, Dunkin’ Donuts, Blockbusters, um desfile incessante e hediondo de estabelecimentos comerciais.

Até mesmo Katz ficou nervoso com aquilo. “Putz, como tudo isso é feio”, suspirou, pasmado, como se nunca tivesse visto nada igual, olhei por sobre seus ombros e vi um vasto shopping center com um estacionamento do tamanho de uma pradaria. Concordei. Era horrível. E então, profusamente e em uníssono, mijamos nas calças.

Leia: Uma caminhada na floresta: redescobrindo os estados Unidos pela Trilha dos Apalaches. Bill Bryson. Companhia das Letras, 1999.

Para ir direto à página oficial do Bill Bryson, clique bem aqui

Para descobrir o que o Bill tem feito de bom, outro site dele, mas com foco nas obras. Dê uma espiada clicando aqui

Sites sobre a Trilha dos Apalaches:

www.appalachiantrail.org
www.appalachiantrail.com