domingo, 27 de novembro de 2011

Viagens interiores: Walden, by H. D. Thoreau

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Há pouco tempo acabei de reler Walden, de Thoreau e não tinha intenção de escrever sobre essa leitura por um motivo muito simples: não acredito que haja mais nada a dizer sobre Walden que já não tenha sido escrito em outro lugar, e de forma muito mais competente do que eu seria capaz de fazer.

Mas uma ideia me passou pela cabeça e resolvi colocá-la em ação. Foi assim: estava lendo uma obra no meu Kindle e percebi que há um dispositivo no brinquedo que indica as passagens que foram sublinhadas por outros leitores da mesma obra. E vem lá escrito, “essa passagem foi marcada por x número de pessoas”. Bem, é mais ou menos assim, mas na prática é isso.

Quando pego um livro emprestado ou compro algum usado, a primeira coisa que faço é dar uma folheada rápida prá ver se alguém fez alguma anotação, deixou uma nota, sublinhou uma frase, coisas dessa natureza. E depois fico pensando, por que será que a pessoa marcou essa passagem, que não tem nada de mais, e deixou passar outras tantas muito mais interessantes? A resposta é simples: a leitura é sempre algo muito, muito pessoal.



Com o Thoreau é assim, cada leitor tem a sua passagem favorita de Walden. Às vezes, numa segunda ou terceira leitura outras passagens vão se somando às primeiras e daí o livro vira um punhado de rabiscos prá lá e prá cá, e depois a gente já nem sabe porque aquela passagem da página 27 foi tão marcante a ponto de ser grifada com canetas coloridas e estrelinhas de cinco pontas nas laterais dos parágrafos. Por que será mesmo?

Eu gostei tanto dessa obra que depois comprei pela Amazon uma edição capa dura cheia de fotos encantadoras do lago e seus arredores, os bosques, as plantas e flores, as folhas secas, as pedras, a poesia em forma de natureza. O Thoreau é que era esperto, escolheu a dedo um paraíso para erguer a sua cabaninha. E algo me diz que parte do sucesso dessa obra se deve ao fato de que todos temos, lá no fundo, um desejo imenso de viver algum tempo numa cabaninha à beira de um lago.


Um resuminho da obra prá quem não conhece? Vamos lá, vou transcrever algumas passagens da introdução feita pelo Edward O. Wilson para a edição ilustrada do 150º aniversário da obra, publicada no ano de 2004:


Walden não é um lago que se sobressaia dos demais lagos e bosques do interior da Nova Inglaterra. Ainda que belo e interessante por direito, não possui o impacto das White Mountains ou da vida selvagem do Maine, nem as plantas e animais encontrados por lá, mas uma fatia modesta do grandioso bioma de Massachusetts. Não importa: a grandeza desse lugar não depende de nenhuma singularidade física, ela surge a partir de mente de um homem.

Não há muito a ser dito sobre Henry David Thoreau. Basicamente, sabemos que ele construiu uma cabana pequenina num bosque próximo a uma lagoa chamada Walden (Walden Pond, em inglês), distante 30 minutos de uma caminhada a pé desde a casa de sua mãe, em Concord.


Viveu ali uma vida monacal por dois anos, de 4 de julho de 1845 a 6 de setembro de 1847, e deixou a cabana logo após completar seu aniversário de 30 anos. Seu propósito era o de pensar e escrever com um mínimo de distração, valendo-se de sua educação clássica em Harvard e de uma enorme coleção de anotações.

Em seus longos intervalos de silêncio em Walden, ele estudou minuciosamente a natureza ao seu redor durante as mudanças das estações. Em certo sentido, ele buscou uma epifania, mas apesar de estar mergulhado numa filosofia transcendentalista de forte componente espiritual, ele não teve nenhuma experiência mística.


Thoreau possuía um temperamento reflexivo e analítico; ele chegaria às suas conclusões através de argumentos fundamentados que pudessem ser expressos numa página impressa. Ele era muitas coisas, mas acima de tudo, era um escritor.


Do lado de fora de seu refúgio, seus amigos e vizinhos continuavam com suas vidas comuns em busca de sobrevivência, status e honra. Thoreau escolheu afastar-se e observar de perto o significado de sua própria vida e a dos outros; limitou sua existência física a um nível mínimo de sustento com a intenção de sentir, pela experiência, se isso o levaria a descobrir o sentido da vida e, assim sendo, publicar o resultado dessa descoberta no futuro.

Thoreau não foi um homem que se dissolveu na natureza; ele pretendeu, desde o início, viver uma experiência minimalista com o intuito de relatá-la. Ele se embrenhou na vida selvagem dando pequenos passos; não era biocêntrico, para usar um termo moderno, mas antropocêntrico. Sua paixão era a humanidade, e ele procurou o que pudesse encontrar na natureza com intenção de levar para a humanidade.



Como qualquer pessoa que viveu sozinha num meio selvagem sabe, a mente, nessas circunstâncias se abre para a natureza. Thoreau, ao afastar-se do contato intenso com os residentes de Concord e Lincoln, e livre da maior parte das tarefas cotidianas que consumiam seu tempo, tornou-se um naturalista ainda melhor do que era. Prova disso é que nos anos pós-Walden Thoreau continuou escrevendo sobre história natural, sendo que algumas de suas observações prenunciaram conceitos modernos de ecologia. Se não tivesse morrido tão cedo, aos 44 anos, Thoreau provavelmente teria se tornado um cientista bastante influente.


Na edição da obra em português, relançada há um ano pela L&PM, temos uma introdução bacaníssima escrita pelo Eduardo Bueno, que considera Walden um guia para uma viagem interior. Concordo com ele e indico veementemente a todos leitores que busquem ler essa edição (um pocket a bom preço) com a introdução de Bueno porque ele captou de maneira exemplar o espírito dessa obra, que pede um ritmo de leitura diferente, mais lento e contemplativo, para que se possa entrar no clima e ganhar tempo com o que Thoreau irá escrever nas páginas seguintes; um tempo que, no contexto de Walden, exerce papel fundamental nas conclusões e insights que Thoreau teve durante e após sua permanência no lago.

Deixo com você as passagens que mais me marcaram em minha leitura viageira pelas páginas de Walden. Pode ser que depois dessa leitura você também se anime a dar uma passadinha por lá. Boa viagem.


Quando os homens começam a fazer com o auxílio dos animais uma obra não meramente desnecessária ou artística, mas luxuosa e fútil, é inevitável que alguns cumpram toda a outra parte do acordo com os bois, ou, em outras palavras, tornem-se os escravos dos mais fortes. Assim, o homem não trabalha apenas para o animal dentro de si, mas, como um símbolo disso, trabalha para o animal fora de si. Embora tenhamos muitos casarões de pedra ou tijolo, a prosperidade do agricultor ainda é medida pela sombra que o estábulo projeta sobre a casa.


Um rapaz conhecido meu, que herdou alguns acres, me disse que gostaria de viver como eu, se tivesse os meios. Eu não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe e do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que se orienta pela estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo.


Citando Damodara (Sri Krishna): “Os únicos seres felizes no mundo são os que gozam livremente de um vasto horizonte”.


Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.


Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão, contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar.


Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. (...) O universo responde constantemente, obediente, às nossas concepções: quer andemos depressa ou devagar, o caminho nos está aberto. Passemos nossas vidas, então, concebendo.


De manhã, eu banho meu intelecto na estupenda e cosmogônica filosofia do
Bhagavad-Gita, decorridas muitas eras dos deuses desde que foi composta, e em comparação a ela nosso mundo moderno e sua literatura parecem insignificantes e triviais; e me pergunto se não é o caso de remontar aquela filosofia a um estágio anterior da existência, tão distante está ela, em sua sublimidade, de nossas concepções.


Pouso o livro e vou à minha fonte em busca de água, e eis que ali encontro o servo dos brâmanes, o sacerdote de Brama, Vishnu e Indra, que continua sentado em seu templo no Ganges lendo os Vedas, ou habita ao pé de uma árvore com sua côdea e bilha de água. Encontro seu servo que veio buscar água para seu mestre, e nossos baldes como que se roçam na mesma fonte. A água pura do Walden se mescla à água sagrada do Ganges.


Mesmo que você aprenda a falar todas as línguas e a seguir os costumes de todas as nações, que viaje mais longe do que todos os viajantes, adapte-se a todos os climas e faça a Esfinge dar com a cabeça contra uma pedra, obedeça sempre ao preceito do antigo filósofo, e Explora-te a ti mesmo.

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos. Eu vivia lá não fazia uma semana, e meus pés já tinham calcado um caminho de minha porta até o lago.



(...) A superfície da terra é macia e se deixa imprimir pelos pés dos homens; o mesmo ocorre com os caminhos por onde viaja a mente. Como, então, devem ser gastas e empoeiradas as estradas do mundo, como são fundos os sulcos da tradição e da conformidade!




Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres.




À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces.


Leia: Walden, ou A vida nos bosques. Henry David Thoreau. L&PM Editora, 2010.

Walden: 150th Anniversary Illustrated Edition of the American Classic. In collaboration with The Walden Woods Project. Photographs by Scot Miller. Houghton Mifflin Company, Boston/New York, 2004.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Viagens pictóricas: a arte de Thais Beltrame

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Conheci Thais Beltrame na empresa onde trabalho e desde que a vi notei que aquela menina de saias e tatuagens tinha algo diferente, não só na aparência, mas no conteúdo humano. Acho que o que nos aproximou mais de imediato foi descobrir que ela curtia música folk, que eu adoro, e daí começamos a prosear e minha simpatia por ela só fez aumentar.

Um dia Thais me mostrou um pequeno caderno sem pautas, onde, entre uma tarefa e outra, ela esboçava desenhos de uma sutileza e criatividade arrebatadoras. Não demorou nem um minuto, virei fã do trabalho dela imediatamente. Logo descobri que aquela moça tinha um talento muito maior do que eu supunha; Thais havia vivido sete anos nos Estados Unidos, com formação em Artes pela City College de San Francisco.



Desenha desde meninota, e como costuma acontecer com escritores e poetas, ama a atividade solitária da criação. Seu suporte é o papel e a tinta, suas cores o branco e o preto, o que me faz refletir que Thais busca na arte equilibrar o ying e o yang da vida.

Viaja muito a menina, tem que ver, até já foi parar na China, uma viagem que a marcou profundamente. Seu ofício a leva para outras terras, expõe nos States e também na Inglaterra, ganha reconhecimento mais do que merecido, porque seu sucesso é fruto de muito esforço e dedicação. Mas nem por isso perde a simplicidade, e nem poderia, porque é esta a qualidade que mais marca a sua obra, como você pode conferir nessas amostras que ela tão gentilmente me permitiu reproduzir aqui no Odepórica.




Thais gosta que gosta de desenhar crianças, um tema recorrente em sua produção artística e li em alguma entrevista dela que isso ocorre porque se sente atraída pela espontaneidade dos pequenos. E quem não se sente? E o barato é que a artista consegue passar para o papel esse sentimento de maneira bastante singular: uma vez que você tenha visto um desenho dela, sempre será capaz de reconhecer seus traços, sua marca, prova de seu estilo autoral.




Hoje mesmo respondi um email da Thais e escrevi que sua obra, caso pudesse ser “transportada” para as palavras resultaria em preciosos haikais. Daí que me deu vontade de tirar alguns livros do Leminski da prateleira, e achei dois escritos, um poema e um haikai que tiro da obra O ex-estranho que se encaixa tão bem com o desenho da Thais que até parece foram feitos um para o outro. Tomei a liberdade de mostrar aqui no blog, veja se você não concorda comigo:

este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor






casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor



por mais que eu ande
nada em mim imagina
o que é que menina
tão pequena está fazendo
numa cidade tão grande






Não ficou bonito? Coisas da arte, alimento d’alma... e eu poderia ficar aqui rasgando elogios e catando haikais a tarde inteira porque a chuva lá fora convida a gente a fazer aquilo que gosta e se eu pudesse não pararia de escrever.


E por falar em escrever, a Thais além de pintar e desenhar também escreve pequenos textos em seu site, alguns deles falando de suas deambulações, suas viagens reais e imaginárias... lembrou-me um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, que já passeou por aqui naquele post sobre o programa da Mirna, você sabe qual.


Portanto, passo agora o bastão peregrino para Thais, e estou seguro que você irá se encantar com o trabalho maravilhoso dessa brasileira que tão bem tem representado nosso país no circuito das artes. Namastê!

ERROS

Na primeira exposição que eu participei em outro país, um homem chegou pra mim na noite de abertura e disse que não tinha gostado do meu trabalho porque achava que era perfeito demais. Claro que na hora eu fiquei um pouco desconcertada com a sinceridade dele, mas com o passar do tempo entendi o que ele quis dizer, e entendi o valor da crítica construtiva.


Aquilo me fez pensar que talvez eu estivesse encarando de forma errada o meu desenho. Quando as linhas não acompanham direito a mão, ou o nanquim desvia do seu curso, eu achava que tinha cometido um erro. E trabalhar em papel e nanquim significa que aquele traço será único, que não tem volta.Mas viver não é isso? Não tem volta para os passos que a gente deu, os caminhos que escolhemos, as palavras que dissemos. É fugaz. O tempo não vai voltar e o seu caminho uma vez trilhado é o único caminho.

CHINA, JARDIM MEU.




Uma das coisas mais interessantes sobre viajar, na minha opinião, é que você nunca vai fazer uma viagem igual a de ninguém. Acho que nem que você queira e se junte a um grupo guiado, cada pessoa vai ter uma experiência única. Mesmo que alguém te indique lugares pra ir, ou que faça tudo que estiver em um guia de viagem. E quando você volta é como se conseguisse guardar um pedaço do lugar nos seus bolsos e gavetas, pra sempre.

A China é um lugar muito estimado pra mim, que usou muitas das minhas gavetas e pra onde eu fujo mentalmente quando preciso de silêncio profundo. Fiz essa viagem há quatro anos com um amigo muito querido, que tirou todas as fotos. Hoje compartilho algumas dessas recordações de uma China que é só minha.

NOSSA MÚSICA, NOSSA HISTÓRIA.




Não lembro de nenhum artista que eu conheça que não tenha uma relação intensa com música; acho que a ligação entre arte e música é tão direta e misturada que um acaba alimentando o outro. No colegial era a fita cassete que rodava de mão em mão, que gerava certa ansiedade até chegar a minha vez de ouvir. Até hoje mantenho a mesma curiosidade e vontade de procurar música que me estimule a produzir.




Como a maioria das crianças, eu cresci escutando o que os meus pais escutavam, e como a maioria dos adolescentes, passei a rejeitar tudo que eles escutavam e comecei a me interessar pela música que o meu irmão escutava. Lembro dele vestido de preto voltando pra casa com discos e mais discos, e as capas já eram o prelúdio pra o que viria na vitrola. Lembro daquela que mais me encantava, que continha um dos discos que a gente mais escutava; o Creatures of the Night do Kiss.


A parte mais legal antes de escutar o disco era o ritual que tínhamos de colocá-lo debaixo do sofá onde era escuro, pra ver os olhos brilhando - e brilhavam mesmo! Retratei esse momento em uma edição da
Revista +SOMA, onde artistas eram convidados a recriarem uma capa de disco de importância pra eles.


Ainda falando sobre música, num desses encontros inusitados da vida recebi um email de uma dupla de música pop da Inglaterra,
Ash Before Oak, que viu meu trabalho em um livro, e uma identificação direta com a música que eles fazem. Cedi então uma imagem pra que eles usassem para a capa do CD deles, escrevi os nomes das músicas à mão.



As pessoas incríveis que encontramos no caminho, quando passamos a dar o nome certo às coisas. Obrigada, Mark e Pete!

YANGSHUO

Eu parei de enxergar quando cheguei em Yangshuo, o que não quer dizer que fiquei cega. Eu parei de enxergar com os olhos que mentem tanto. Os olhos que contam das cores e linhas e formas que você vê no mundo na verdade te distraem das cores e linhas e formas que já existem dentro de você.

NÃO TEM NINGUEM AQUI



Lembro uma vez quando estava viajando a trabalho e não muito feliz por ter que ficar longe por tanto tempo percebi que não estar em algum lugar pode ser mais importante do que estar. Ou seja, não fazia tanta diferença onde eu estava, mas sim onde eu não estava.



Estar longe tem dessas vantagens; em poder ver com distância a própria vida, o que te ajuda a pesar seus valores, repensar relações e voltar a olhar só pra aquilo que realmente importa. É um pouco como se reencontrar.







E foi nesse último não estar que, durante o longo caminho que é voltar consegui repensar muitas coisas e recomeço o ano voltada somente para aquilo e aqueles que realmente importam.

O PASSADO É UM LUGAR


Que você pode visitar. Só não se demore muito por lá.

ENCONTRANDO BELEZA

Quando eu morava em Chicago, trabalhava de dia em uma firma de advocacia no centro da cidade, saía à noite e fazia um lanche rápido antes de ir pra faculdade pra ficar lá até bem tarde. Tinha que acordar muito cedo -meu ponto fraco- e todo dia pegava o metrô, que sempre estava lotado de gente segurando café, jornal e o próprio corpo. Era especialmente durante os dias de desesperança, quando o sol não se mostrava por muitos dias curtos de inverno, que uma pequena placa pintada à mão se destacava no trajeto do trem, pendurada no quintal da casa de alguém. Ela dizia: “encontre beleza.”

Sempre que eu via essa placa sorria por uns segundos, sentia como se fosse um sopro de vida dentre os prédios cinzas e rostos cansados. Passei a esperar que essa plaquinha passasse por mim, pra que eu sorrisse, nem que fosse por dentro.
Um gesto tão simples, você pensa, vindo de um estranho, fazia uma baita diferença no meu dia.

EU GOSTAVA DE VIAJAR SOZINHA


Gostava de ter um mapa dobrado no bolso. Gostava de me perder nas cidades até me encontrar. Gostava de entrar em um lugar qualquer e pedir um café. Gostava de sentar na varanda do albergue à noite e conversar com um estranho. Gostava de não saber o nome das coisas. Gostava de comer comidas estranhas. Gostava de viajar de ônibus sem destino. Gostava até de aeroporto. Acho que ainda gosto disso tudo.

Mas de não ter com quem dividir nada a não ser as fotos, disso eu não gostava.
Eu não quero mais viajar sozinha. A ausência, eu não quero mais.
Eu não pude dividir muita coisa e agora sinto que talvez seja tarde demais.

E você também entende que só existe um único ponto de partida, e que você continuará movendo adiante, não importando quantas vezes você pegue aquele avião de volta.

TODAS AS COISAS FEITAS À MÃO





Dias desses recebi pelo correio não uma conta de luz, não uma cobrança de banco, não uma propaganda de tv à cabo, não um menu de pizzaria mas um cartão postal. Um cartão postal escrito à mão por um querido amigo, enviado quando ele estava na Turquia. Confesso ter ficado chocada com a minha reação, como se tivesse encontrado um diamante ao meio de um monte de lixo – que era, de fato.


Me tocou pensar que ele se deu ao trabalho de anotar meu endereço, escolher um cartão, pegar uma caneta, escrever algumas palavras simpáticas, colocar um selo e mandar pelo correio. E me assustou pensar que uma coisa que era tão comum e que justamente tinha o propósito dentre outras coisas, de aquecer o coração, é cada dia mais rara nos dias de hoje. Dedico este post a todas as coisas feitas à mão, e que elas não se percam como tantas coisas que já perdemos pelo caminho.

O SOM DO SILÊNCIO



Dia desses um amigo me falou de sons do espaço que a sonda Voyager da NASA vem gravando ao longo dos anos, desde que foi lançada em 1977. Claro que vim direto pra casa e comecei a procurar na internet, e encontrei desde o som de hélio líquido até os anéis de Saturno. Vai ser difícil parar de ouvir uma vez que você começar.




Existe algo de muito frio e vazio no universo, ou pelo menos até onde conseguimos alcançar. O fato é que nossa casa ainda é este planetinha azul, que na minha opinião é o que tem o som mais bonito, talvez porque seja o som de nós todos.







Todos os textos e desenhos desse post foram retirados do blog da Thais e de sua página do Flickr. As ilustrações inseridas nos textos foram feitas de forma aleatória por mim e não seguem a mesma ordem no site da autora.


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