terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os devaneios do caminhante solitário, by Jean-Jacques Rousseau

.Comprei por impulso, por causa do título, um pequeno volume da coleção pocket da L&PM intitulado Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor que me remetia às aborridas aulas de história da época do ginásio.

Para minha surpresa, o velho e sábio Rousseau me fez mudar radicalmente de opinião, mesmo antes de terminar, com muita satisfação, a leitura de seus devaneios lá no longínquo século dezoito. Uma espiada na cronologia da vida de Rousseau já entrega: ele não passou à toa por esse planeta não. Veja só:

Nasceu em 1712, em Genebra; sua mãe falece poucos dias após o parto e seu pai o entrega a uma família aos dez anos de idade. Aos 16, com os hormônios a mil, é acolhido por uma jovem viúva de 28, senhora de Warens, a quem chamava freudianamente de “mamãe”. Serão amigos e amantes por toda vida, o que não deixa de ser encantador.




Entre 1729 e 1730 vai bater perna pela França e pela Suíça, depois de viver um tempo em Turim, onde troca o protestantismo pelo catolicismo. Nessa vagamundagem passa um tempo em Annecy, Lyon, Fribourg, Lausanne, Neuchâtel, Berna e Soleure. Prá fechar com estilo, no ano seguinte viaja a Paris. Entre as andanças e algumas longas estadias com “mamãe”, Rousseau se dedica ao estudo da música e vai tão fundo nisso que desenvolve um novo sistema de notação musical, na altura em que chegava aos 30. Palmas para ele.




No verão de 1743 acompanha o embaixador da França em uma viagem a Veneza, e aproveita o dolce far niente para publicar sua Dissertação sobre a música moderna. Deixa Veneza no ano seguinte depois de brigar com o embaixador. Esfria os ânimos ao conhecer Thérèse Levasseur com quem se casará duas décadas depois, pobre moça. Dizem que nesse período o irritadinho Rousseau entrega três filhos a um asilo de crianças. E paro por aqui, porque essa história vai longe. É bom saber que sua vida não foi lá muito tranqüila não, à parte as boas viagens e o reconhecimento intelectual celebrado ainda em vida.

Rousseau causou muita polêmica com suas obras na área da política e da educação o que o levou a ser expulso de alguns lugares, forçando-o a uma vida errante por um período. Por ter sido o primeiro escritor de sua época a atacar a instituição da propriedade privada, é considerado um precursor do socialismo moderno.

O autor de Os devaneios é um homem já no finalzinho da vida, mais comedido, mais sábio e mais romântico também. Nos dez capítulos, enumerados por “Caminhadas” (primeira caminhada, segunda caminhada, etc...) vamos conhecer alguns fatos bastante particulares da vida de Rousseau, o que nos leva a ter uma empatia imediata com ele, pelo menos assim se passou comigo.
O legal é que, mesmo não conhecendo a obra desse grande personagem, filósofo, músico e botânico (grande paixão teve pela botânica o Rousseau), não há como não gostar desse texto antigo com boas sacadas sobre a condição humana. A impressão que se tem é a de que ele saía para caminhar e aproveitava os momentos de solidão e prazer em meio à natureza para repensar a vida e quando voltava para casa punha no papel aquilo que sua mente conseguia organizar. Diz ele que “essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distinção, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.”

A tradutora dessa pequena edição em português, Julia da Rosa Simões, tem um quê de dedo-duro, achei até graça nisso; em notas de rodapé vai mostrando alguns dos lapsos de Rousseau quanto a citações de autores clássicos e de algumas localidades, o que mostra que ela fez a lição de casa direitinho, toda aplicadinha.



É na segunda caminhada que a coisa toda começa a acontecer prá valer. Dizem que Rousseau tinha mania de perseguição, um preço a pagar por aqueles que dizem o que pensam sem dosar as conseqüências; caminhar, portanto, era uma chance de despistar os mal aventurados que o perseguiam. “Esses enlevos, esses êxtases que sentia algumas vezes ao caminhar assim sozinho, eram prazeres que devia a meus perseguidores: sem eles nunca teria encontrado nem conhecido os tesouros que carregava em mim mesmo.”

Algumas considerações sobre o ato e o hábito de caminhar compartilhadas por Rousseau me trouxeram à memória os escritos de um grande pacifista, o monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, famoso por ensinar a técnica da meditação em movimento. Já lemos sobre ele aqui no
Odepórica, e vou transcrever um trecho de outra obra desse mestre que ganhei de presente de minha irmã e que é linda, tanto em sua aparência, com ilustrações tocantes de Mayumi Oda, quanto em conteúdo, simples e profundo como um koan budista. O título do livro é “Present moment, wonderful moment”:



“Nossa mente pula de uma coisa para outra, como um macaco pulando de galho em galho sem descanso. Os pensamentos têm milhões de caminhos, e somos sempre levados por eles para o mundo do esquecimento. Se nós pudermos transformar o local de nossa caminhada em um campo de meditação, nossos pés darão cada passo com consciência plena. Nossa respiração estará em harmonia com nossos passos, e nossa mente estará naturalmente em paz. Cada passo que damos irá reforçar nossa paz e alegria e resultará num fluxo de calma energia que fluirá através de nós. Então podemos dizer: ‘A cada passo, sopra um vento suave’.”



Lembrei-me dessa passagem de Thich Nhat Hanh por causa de outra escrita por Rousseau na segunda caminhada, que diz assim:

O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus maces; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz. Há quatro ou cinco anos experimentava essas delícias internas que as almas afetivas e suaves encontram na contemplação.

Na terceira caminhada os pensamentos ganham maior profundidade: Rousseau reflete sobre a morte, afirmando que o estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer e que ficará feliz se conseguir aprender a sair da vida mais virtuoso do que nela entrou.

Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. “Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte”.




Para Rousseau, a sociedade parece ser a origem de todo o mal, no sentido de uma maldade que tem como conseqüência a desconexão do homem com a sua divindade interior, ou Eu superior, como queiram chamar. Suas escapadas, de certo modo, eram o antídoto contra esse mal, trazendo à tona a ideia de que só mesmo a solidão e, se possível, o contato com a natureza, fossem capazes de aliviar o sofrimento de uma alma apartada.

A meditação no recolhimento, o estudo da natureza, a contemplação do universo forçam um solitário a se erguer de maneira constante ao autor das coisas e a procurar com uma dúvida inquietante a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando meu destino me lançou na torrente da sociedade, não encontrei mais nada que pudesse deleitar por um instante meu coração.

Aos quarenta anos, “na maturidade e com toda a força do entendimento” Rousseau determina um turning point em sua vida: a mudança se faz necessária, pois o homem, palavras suas, precisava de “uma regra fixa de conduta para o resto de meus dias”. Essa regra de conduta encontra-se no isolamento, e aqui me lembrei de outra leitura,
Walden, de Thoreau, que também buscou esse afastamento, ainda que temporário, da sociedade.



É dessa época que posso datar minha total renúncia ao mundo e esse gosto vivo pela solidão que não me abandona desde então. A obra que iniciava só poderia ser realizada em retiro absoluto; exigia longas e serenas meditações que o tumulto da sociedade não permitia. Isso me obrigou a levar por algum tempo outro modo de viver, no qual logo me senti tão bem que, tendo-o interrompido apenas à força e por poucos instantes, retomei-o com todo o meu coração e a ele me limitei sem dificuldade assim que pude, e quando a seguir os homens me obrigaram a viver sozinho, descobri que ao me isolarem para me tornar miserável eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo.

Na quarta caminhada é hora de questionar-se sobre a mentira e sua memória volta aos dezesseis anos, fazendo-o sofrer horrores por conta de uma falsa acusação de roubo, episódio de sua vida que só nos resta lamentar. Dessa caminhada anoto um belo ditame: “Se é preciso ser justo com o próximo, é preciso ser verdadeiro consigo mesmo; é uma homenagem que o homem honesto precisa render à sua própria dignidade”. Falou bem.




Quinta caminhada: uma ode ao ócio. Deliciosa seqüência de dias passados às margens do lago de Bienna, na Suíça, uma região “pouco freqüentada por viajantes (...) mas interessante para os solitários contemplativos que gostam de se embriagar à vontade com os encantos da natureza e se recolher num silêncio não perturbado por outro barulho que o grito das águias e o rumor das águas que caem da montanha...”

Não conheço a obra de Rousseau, mas no tocante a esse livro, não veremos tantos momentos de felicidade quanto os que ele descreve naqueles meses de descanso na casa do lago e tudo soa tão bonito, e tão verdadeiro, que temos vontade de viver a mesma experiência por ele vivida ali.

Considero aqueles dois meses o momento mais feliz de minha vida, tão feliz que foi suficiente para toda a minha existência, sem deixar nascer uma única vez em minha alma o desejo de outro estado.
Na sexta caminhada é hora de falar sobre as boas ações e suas observações sobre o ato de fazer o bem ao próximo são bastante lúcidas: “vi que para fazer o bem com prazer seria preciso agir com liberdade, sem coação, e que para perder toda a doçura de uma boa ação bastaria que ela se tornasse um dever”. E filosofa, lá no finalzinho do capítulo: “Nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim em nunca fazer o que não quisesse.”

O momento de maior devaneio, e que mais me surpreendeu, aconteceu na caminhada seguinte, a sétima. O mote desse capítulo é a paixão de Rousseau pela botânica e, por extensão, a natureza em geral. Não fosse Rousseau quem fosse, eu diria que ele andava enamorado de alguma religião ou filosofia oriental; é certo que o homem quando em contato direto com a natureza e afastado da vida mundana se volta mais para o interior, o próprio meio o convida a isso. Não à toa, grandes mestres de variadas ordens religiosas ou espiritualistas buscaram momentos de solidão em ambientes isolados de bosques, montanhas, desertos ou cavernas.

Para alguns, o contato mais íntimo com a natureza pode levar a algum tipo de transcendência (um samadhi, para usar uma expressão do hinduísmo), especialmente se é isso o que se busca. Percebi lampejos desse sentimento de transcendência, não sei bem se é este o termo adequado, em algumas passagens que transcrevo a seguir:




Quanto mais o contemplador tiver a alma sensível, mais se entregará aos êxtases que essa harmonia lhe provoca. Um devaneio doce e profundo se apodera de seus sentidos, e ele se perde com deliciosa embriaguez na imensidão desse belo sistema com o qual se sente identificado. Todos os objetos particulares lhe escapam; ele nada vê e nada sente senão no todo. É preciso que alguma circunstância específica restrinja suas ideias e circunscreva sua imaginação para que possa ver em partes esse universo que se esforçava por abarcar.

(...) Essa maneira de pensar, que sempre reduz tudo a nosso interesse material, que em tudo procura proveito ou remédios e que faria olharmos para toda a natureza com indiferença se sempre estivéssemos bem, jamais foi a minha (...) só encontrei verdadeiro encanto nos prazeres do espírito ao perder de vista os interesses de meu corpo.





(...) Não, nada de pessoal, nada que diga respeito ao interesse de meu corpo pode ocupar de verdade minha alma. Nunca medito, nunca sonho de maneira mais prazerosa do que quando esqueço de mim mesmo. Sinto êxtases, encantamentos inexprimíveis, que me dissolvem, por assim dizer, no sistema dos seres, que me identificam com toda a natureza.

A oitava caminhada eu passo. Vou direto para a nona, bonita caminhada que empeça assim: “a felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo”. Filosofa feito sábio budista ou hindu, algumas linhas mais à frente, quando afirma: “Tudo muda à nossa volta; nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre...”. Depois não diga que não reparou.



Nessa caminhada chama a atenção o fato de Rousseau se dirigir às crianças com enorme carinho, o que me fez pensar se isso não tem alguma relação com os filhos que deu para adoção, embora aqui os sentimentos sejam da mais pura alegria; no final, não deixa de ser uma metáfora: os pequenos são a expressão da felicidade justamente por conta de sua natureza simples e aberta e é isso o que Rousseau tenta nos dizer com essa caminhada, que a felicidade encontra-se nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres, na soma das pequenas alegrias que temos ao longo de nossa existência.

Enfim, chegamos à décima e última caminhada do sábio peregrino solitário. Está inacabada, mas suas palavras se dirigem todas à mulher que primeiro amou, a senhora de Warens. É uma bonita declaração póstuma, onde o autor abre o coração e agradece “à melhor das mulheres”, como ele a chama. Quase sem querer é que percebemos que o gosto pela solidão já estava latente no coração do jovem Rousseau, quando afirma categoricamente: “Preciso me recolher para amar”.





Leia: Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau. L&PM, outono de 2010.

Na vitrola: Eight String Religion, obra prima de David Darling.



5 comentários :

  1. Estou lendo isso após ter chegado de uma viagem, na qual uma das partes mais legais foi uma boa caminhada em meio à natureza (depois sai alguma coisa lá no blog). Ótimos comentários os seus, e mais uma boa dica de leitura. Abraço.

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  2. Beleza, 3F! Tô aguardando o relato da sua trip!Saludos.

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  3. Adorei sua explanação sobre esse escrito, da mesma forma que você, Jean-Jacques Rousseau era um distante filósofo e depois que por curiosidade fui ler essa obra fiquei tão grato à tamanha riqueza de comportamento humano revelada por esse distinto escritor.

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    1. Valeu, Marcos. Também fiquei muito grato ao Rousseau por esse escrito tão encantador. Namastê!

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  4. Adorei ler o seu texto. Foi bem prazeroso e deixou uma vontade de conhecer a obra. Parabéns!

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