quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sobre homens e montanhas: reflexão

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Sou apaixonado por relatos de viagem de montanhistas e aventureiros que escrevem sobre suas fantásticas experiências de longas travessias e escaladas de picos e montanhas espalhados pelas esquinas desse castigado planeta.



Gosto em particular do Jon Krakauer, que provavelmente é o melhor escritor sobre montanhismo dos últimos tempos; editor da revista Outside, o Krakauer é jornalista, escritor e alpinista experiente e só por esse currículo já dá para ver que o cara é uma referência nesse campo. Se o nome não lhe diz nada, saiba que foi ele quem escreveu o ótimo Na Natureza Selvagem, o excelente No Ar Rarefeito, o genial Sobre Homens e Montanhas e o indispensável Pela Bandeira do Paraíso. Os adjetivos entregam: eu adoro o Krakauer.



Mas nem é sobre ele que vou escrever, apenas me referi a esse autor norte-americano porque o texto que você lerá a seguir, resgatado da edição de hoje do Caderno de Turismo da Folha de São Paulo me chamou muito a atenção e senti uma súbita vontade de compartilhá-lo com os leitores/as do Odepórica.




Foge um pouco daquilo que costumo postar, mas o que li nesse artigo, escrito por um jornalista do periódico britânico The Guardian, Jon Henley, fez com que eu parasse para refletir sobre muitas coisas: viagens, ambição, natureza humana, compaixão.



Remeti ao Krakauer porque ele, mais do que ninguém, entende muito sobre a relação, por vezes doentia e absurda, do ser humano com a natureza, tema que percorre grande parte dos seus escritos, em particular o já citado Sobre Homens e Montanhas.




O artigo do Jon Henley, publicado no dia 28 de maio no The Guardian online, tem até o momento 47 comentários, em sua maioria repudiando a atitude dos escaladores do Everest. Não é o caso de julgar, mas sim de parar para refletir: até que ponto pode chegar a ambição humana? Leia e tire suas próprias conclusões. Namastê.



Foto: Mountaineer Leanna Shuttleworth: passed the bodies of several mountaineers on her way to the summit of Mount Everest. Photograph: Msl Group/PA

Questões de ética cercam escaladores no Everest



Debate se baseia em torno de ajuda a montanhistas morrendo na subida



Socorro de alpinistas salvou vidas; não há orientação formal sobre situação, e há quem siga sem prestar auxílio




By Jon Henley, The Guardian




Desde o primeiro registro de mortes no Everest, em 1922, 233 pessoas perderam a vida tentando alcançar o pico mais alto do mundo. Com a maior experiência dos organizadores de expedições e o desenvolvimento dos equipamentos, a taxa de fatalidades diminuiu.




O aumento do número de pessoas escalando o Everest, porém, significa que 70 mortes ocorreram desde 2000, incluindo dez neste ano. A situação mais mortal ocorre quando um grande número de escaladores decide tirar vantagem do clima favorável e tentar subir o pico de uma vez. Isso pode levar a congestionamentos de duas horas ou mais, especialmente no lado sul, mais popular.




Foi o que aconteceu quando Leanna Shuttleworth, 19, e seu pai, Mark, começaram a subir o Everest neste mês. Cerca de 200 outras pessoas tiveram a mesma ideia; seis delas perderam a vida.




"Havia corpos presos nas linhas fixas, e tivemos de contorná-los", relatou depois Shuttleworth. "Um casal ainda estava vivo."




Ela descreve o encontro com um homem que pensou estar morto. "Enquanto passávamos, ele levantou o braço e nos olhou", disse. "Ele não sabia que tinha alguém ali. Ele estava quase morto. Estava morto quando nós descemos." O guia que os acompanhava conseguiu salvar uma das pessoas ainda vivas que eles encontraram.




O debate sobre ética no Everest recrudesceu desde 2006, quando cerca de 40 alpinistas passaram por um britânico morrendo sem parar. Uma semana depois, um montanhista norte-americano e sua equipe desistiram da escalada para coordenar o resgate de um australiano abandonado. Ele sobreviveu.
No final de semana da escalada de Shuttleworth, um alpinista israelense, Nadav Ben Yehuda, carregou uma mulher em suas costas por oito horas até um local seguro.




Então, os Shuttleworths deveriam ter parado e tentado ajudar? Não há orientação formal para os alpinistas, e não sabemos o risco que isso poderia ter trazido às suas próprias vidas.




Mas pode ser correto, nas palavras dos líderes montanhistas Chris e Simon Holloway, que os alpinistas "sigam até o topo, enquanto há gente morrendo atrás deles?".




Ben Yehuda, um ex-soldado, descreveu sua decisão de parar como "automática". Para outros, claramente não é. Em uma época em que subir o Everest virou uma forma de turismo radical aberta para qualquer um com US$ 10 mil, a vida humana vale menos que realizar uma ambição pessoal?