domingo, 22 de janeiro de 2012

Nas trilhas de Quixote, by Fernando Granato

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Um amigo galego que vive em A Coruña, certa vez me disse que todos os espanhóis têm em casa um exemplar de Dom Quixote, mas que somente uma parcela insignificante das pessoas realmente leu, alguma vez na vida, a obra do começo ao fim. Achei exagero, e fui perguntar a outros espanhóis que conheci pelas minhas andanças pelo país.

De fato, todos me disseram o que Jose havia me dito anteriormente, que o Quijote, como todo clássico, é obra que todos conhecem, mas que poucos leem, o que só acontece nas escolas, quando os jovens têm um contato superficial com o livro, lendo as passagens mais conhecidas das aventuras do engenhoso fidalgo. Surpreendi-me com isso por um simples motivo: eu adoro a obra, amo a figura de Quixote e Sancho e não entendo como os próprios espanhóis não sintam o mesmo entusiasmo literário que eu.

E nas minhas andanças, agora pelos sebos do centro velho aqui de Sampa, achei uma pequena publicação que me encheu de alegria: Nas trilhas de Quixote - uma viagem pelos caminhos do Cavaleiro Andante, escrita pelo jornalista Fernando Granato.

O livro é na verdade uma longa reportagem que “pretende trazer ao leitor os cheiros, os sabores, os sons e as imagens que permeiam o universo da grande obra de Miguel de Cervantes”. Isso está escrito na orelha do livrinho (livrinho porque pequenino mesmo) e de lá copio mais um trecho a seguir:




“Nas longas planícies cor de ocre da Mancha ainda se destacam, vez ou outra, os monumentais moinhos de vento que Dom Quixote confundia com gigantes. Na imensidão da planura ainda podem ser vistos os rebanhos de ovelhas que o personagem tomava por exércitos inimigos.”



“(...) Dentro da teoria de que o meio faz o homem, este trabalho pretende conferir se muitas das características quixotescas do personagem existem a partir das condições do seu hábitat natural: um lugar onde os minutos custam a passar e tudo parece permanecer no mais profundo repouso, em uma estagnação que se perpetua há séculos.”

Bela foi a viagem que o Fernando fez de carro pela região da Mancha para colher o material para sua reportagem transformada em livro. Dá vontade de fazer o mesmo. Aliás, isso de viajar pelos lugares que foram cenários, reais ou fictícios, da vida de grandes escritores e escritoras (ou artistas e personalidades em geral) é muito comum mundo afora.





Uma amiga, leitora apaixonada de Jane Austen, viajou à Inglaterra somente para conhecer a casa onde viveu a escritora (figura acima), tão cheia de razão e sensibilidade. Eu mesmo no ano passado passei por uma experiência semelhante, quando fui visitar a casa onde viveu e faleceu
Rosalía de Castro, em Padrón, e posso afirmar que a experiência é gratificante, sensação única de estar no mesmo ambiente em que alguém que você admira viveu, ou mesmo deparar-se com o leito de um quarto onde, no caso de Rosalía, foi palco de seu último suspiro, e onde hoje, sobre um travesseiro, se encontra uma rosa vermelha.




São detalhes como esse que fazem uma viagem ganhar outra proporção; alguns deles aparecem no relato do Fernando Granato sobre sua viagem à região de Castilla La Mancha, uma das 17 comunidades autônomas do Reino da Espanha. O autor recorre ao grande
Unamuno para descrever o povo habitante dessa região:

“É uma casta de compleição seca, dura, tostada pelo sol e curtida pelo frio, uma casta de homens sóbrios, produto de uma larga seleção provocada por um gelado e rigoroso inverno e uma série de penúrias periódicas, produzidas pela inclemência do céu e pela pobreza da vida.”





A aventura do Fernando é linear e começa pelo aeroporto de Barajas, em Madrid, onde aluga um carro e dirige até a encantadora cidade de Toledo, lugar que ninguém deveria partir dessa vida sem conhecer.

O emaranhado de ruas, com piso irregular de pedra, é uma característica típica de uma cidade edificada por árabes, que assim faziam para confundir os inimigos nas perseguições. Alguns desses lugares chamaram a atenção de Cervantes e mereceram menção especial em Dom Quixote.





É o caso da antiga rua dos mercadores, a “Alcaná de Toledo”, onde forasteiros de toda a região se abasteciam de suprimentos, como trigo e cevada. Para dar veracidade a sua novela, Cervantes cita essa rua, muito freqüentada pelos mouros, como sendo o local onde encontrou provas reais da existência de Quixote: documentos elaborados por um tal Cide Hamete Benengeli, “mítico historiador árabe”, sobre a vida do cavaleiro andante.

Essa última passagem explica porque a viagem tem início em Toledo. O autor fez um trabalho muito bem elaborado nesse livro-reportagem: descreve a paisagem do entorno, explica de forma didática e prazerosa os fatos históricos, não foge do tema central – sempre que pode escreve os trechos do Quixote que justificam sua passagem pelos locais (possivelmente) visitados por Cervantes, “um viajante contumaz que antes de passar para o papel sua obra-prima, percorreu grande parte da Mancha colhendo elementos reais para rechear sua ficção.”




E um ponto, mais um, a favor do escritor: nunca deixa de mencionar a mesa espanhola, com suas iguarias que traduzem de maneira autêntica a alma do povo espanhol, que me perdoem o lugar-comum da afirmação. Essa importância sobre a comida, um verdadeiro rito na cultura ibérica, não passa despercebida nesse relato, pelo contrário, ganha até um destaque, cuja cena se passa em Puerto Lápice, “uma pequena vila de casas brancas e varandas em ferro trabalhado, literalmente cortada pela estrada” e destino da primeira saída aventureira de Dom Quixote, como nos informa o autor desse relato:



A gastronomia é um capítulo à parte na obra de Cervantes e merece atenção daqueles que se propõem a refazer a rota de Dom Quixote. Ao longo dos 52 capítulos da primeira parte do livro e dos 74 da segunda, é como se o leitor se sentasse à mesa com o povo espanhol para apreciar o bom vinho e uma culinária baseada nos ingredientes típicos mediterrâneos, como o azeite, os cereais e o famoso jamón, o presunto cru espanhol.





Logo no início, Cervantes descreve a modesta alimentação a que se submete seu decadente fidalgo: “Cozidos, em que havia mais de vaca que de carneiro; guisados na maioria das noites, duelos e quebrantos (que são uma fritada de ovos com torresmo) aos sábados, lentilhas às sextas, uma pombinha a mais nos domingos...”.

Pela maneira como se nutre nosso personagem, já é possível chegar a algumas conclusões sobre seus costumes, sua condição social e sua religiosidade. Os guisados noturnos, por exemplo, nada mais eram do que uma preparação feita à base de cebola, alho, pimenta, vinagre e as sobras do almoço, numa mistura também conhecida na Espanha por “roupa-velha”, um mexido dos fidalgos empobrecidos.



Depois de gastar algumas palavras descrevendo os prazeres pecaminosos da culinária manchega (vale lembrar que a região é a maior produtora mundial do açafrão), Fernando assume que viajar pela rota de Quixote é “compartilhar, invariavelmente, uma mesa de pinho, forrada com uma toalha quadriculada em vermelho e branco. Nela, há sempre um pedaço de pão, um copo de vinho, uma porção de jamón serrano, um prato fumegante e muito tempo para saborear conversas.” Dá vontade de sair correndo prá lá.

Mas de correria essa viagem breve de Fernando pela rota quixotesca não tem nada. O ritmo ali segue a ordem natural das coisas, as prosas com a gente local, que rendem bons papos e algumas informações interessantes que ajudam a dar corpo ao relato e que eu não vou transcrever aqui no Odepórica porque faço questão que você vá comprar o seu exemplar e descubra por conta própria.





É claro que eu poderia transcrever a passagem sobre o homem que inspirou Cervantes a criar Dom Quixote, ou aquela em que lemos sobre a Cova de Medrano, o buraco onde Cervantes esteve preso, ou sobre o roteiro do vinho, que jamais pode ficar de fora em uma viagem por aquelas terras, ou sobre o encontro com um pastor de ovelhas, figura típica (até quando?) dos fundões da Espanha... muitas passagens gratificantes você irá encontrar nessa leitura, vá por mim.

Escolhi o final de um capítulo para encerrar esse post; acho que de alguma maneira consegue em poucas palavras, sob o disfarce das indagações, captar a essência daquilo que o autor buscou em sua viagem pela rota quixotesca.
Buen camino!



Neste final de tarde, Buitrago e Mateos me convidam para ver o pôr-do-sol, “el puente más largo que existe em el mundo entero”. A frase faz parte do poema “A Mi Tierra Natal: La Mancha”,
de autoria do próprio Mateos. O espetáculo se dá atrás de um conjunto de colinas – a Serra Calderina – que impera, soberbo, na imensa planície. Tudo se enche de uma cor dourada, levemente escura, próxima do mate.

O que pensava Dom Quixote quando vagava por essas paragens em seu Rocinante? De que maneira esse cenário influenciou suas ideias? Por onde quer que ande, na Mancha, ficção e realidade estão misturadas de maneira visceral.



Leia: Nas trilhas de Quixote: uma viagem pelos caminhos do cavaleiro andante. Fernando Granato. Ed. Record, 2005.

Na vitrola: Vangelis, com a obra-prima El Greco. Para ouvir e viajar.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Kerouaquianas: deixando o Desolation Peak

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Depois de 63 dias, Jack deixa o posto de vigia de incêndios no Desolation Peak, aliviado (um pouco mais iluminado?) por estar de volta ao mundo.




É engraçado como agora que chegou a hora (na atemporalidade) de deixar aquela odiada armadilha de rocha eu não tenho emoções, em vez de fazer uma oração humilde para o meu santuário enquanto ela desaparece serpenteando atrás das minhas costas arquejantes só o que eu digo é “Pfui – que bobagem” (sabendo que a montanha vai entender, o vazio) mas onde está a alegria? – a alegria que eu profetizei, de rochas novas nevadas reluzentes, e novas árvores sagradas estranhas e adoráveis flores ocultas ao lado da trilha feliz que faz a descida?




Em vez de tudo isso eu penso e mastigo cheio de ansiedade, e o fim do Starvation Ridge, logo que eu perco a casa de vista, as minhas coxas já estão bem cansadas e eu me sento para descansar e fumar – Bom, e eu olho, e lá está o Lago ainda tão distante quanto antes e a vista é quase a mesma, mas ah, o meu coração se contorce ao ver uma coisa – Deus fez com que uma nevoazinha fina cerúlea penetrasse como uma poeira inefável o espetáculo de uma nuvem matinal rósea do norte refletida no corpo azul do lago, e ela parece rosada, mas tão efêmera que quase nem vale a pena falar a respeito e assim tão evanescente a ponto de cutucar a mente do meu coração e me fazer pensar “Mas Deus fez esse pequenino mistério para eu ver” (e ninguém mais está lá para ver) –




A verdade de que é um mistério de partir o coração me fez perceber que é um jogo divino (para mim) e eu vejo o filme da realidade como um desaparecimento da visão numa poça de compreensão líquida e quase tenho vontade de chorar ao perceber “Eu amo Deus” – o caso amoroso que eu tive com Ele na Montanha – Me apaixonei por Deus – Não importa o que aconteça comigo durante a descida da trilha que vai me levar de volta ao mundo tudo vai estar bem porque eu sou Deus e eu estou fazendo tudo sozinho, quem mais?

Enquanto medito,
Eu sou Buda,
- Quem mais?


Anjos da Desolação. Jack Kerouac. L&PM, inverno de 2010.




Na vitrola: George Winston, arrasando no comecinho de carreira, Ballads and Blues, 1972.



domingo, 15 de janeiro de 2012

Notas de viagem sobre a Argélia, by Albert Camus

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Coisa boa é ter em mãos leitura de primeira grandeza. Acabei de ler uma obra encantadora de Albert Camus da qual nunca havia ouvido falar: Núpcias, O Verão. O título estranho tem uma explicação simples: trata-se de duas obras, Núpcias, publicada em 1938, e O Verão, lançada em 1954. Em algum momento alguém sacou que as duas combinavam, daí que juntaram uma com a outra e pronto: leve dois, pague um e viva feliz.

Núpcias (Noces) e O verão (L’été) entram na categoria de ensaios da obra de Camus, mais conhecido na literatura por seus romances de títulos breves e de leitura arrebatadora: O estrangeiro (1942), A Peste (1947), A queda (1956), e O primeiro homem (publicada postumamente em 1995).

Nesses ensaios, relativamente curtos, Camus relata as impressões de suas viagens pela terra natal, a Argélia, num período que vai de 1934 a 1952, evocando lembranças de cidades marcantes em sua biografia, como Tipasa, Djemila, Orã e Argel. Nessas evocações, cenários se repetem: as ruínas, a natureza mediterrânea, o mar. A soma disso tudo ficou para sempre impregnada naquilo que se transformou Camus, e isso serve também para refletirmos sobre como somos afetados pelo lugar em que nascemos, talvez sem termos consciência de como a geografia de um lugar ou região, de alguma maneira, molda o nosso ser.





“À força de indiferença e de insensibilidade, pode acontecer que um rosto se incorpore à grandeza mineral de uma paisagem. Assim como certos camponeses da Espanha chegam a assemelhar-se às oliveiras de suas terras, assim também os rostos de Giotto, despojados das sombras irrisórias onde a alma se manifesta, terminam por incorporar-se à própria Toscana...”

Albert Camus era ainda muito jovem quando escreveu Núpcias, não tinha mais do que 25 anos, mas a pouca idade só serve para atestar a sua genialidade. Quando releio as passagens que fui marcando ao longo da leitura fico fascinado pelo domínio que ele possuía da escrita; a simplicidade de suas palavras e a maneira poética de descrever cenários e paisagens não conseguem esconder a profundidade de sua natureza filosófica, o que confere à sua leitura uma experiência literária fascinante.

Trabalho difícil é escrever sobre Núpcias, O Verão, porque nenhuma resenha sobre essa obra seria justa em relação à grandeza que ali se encerra. É como tentar explicar a um amigo o sentimento de transcendência vivido no alto de uma montanha depois de muitas horas de caminhada; qualquer tentativa será inútil, porque há coisas que só conseguem ser compreendidas através da experiência.

Penso, enquanto digito essas palavras, que tipo de leitor gostará tanto dessa obra quanto eu gostei; tenho o hábito de supervalorizar aquilo que me agrada aos sentidos: uma leitura, um filme, uma música, essas coisas que tocam a gente profundamente dependendo do nosso estado de espírito no momento em que elas aparecem em nosso caminho.

No caso do Camus, acho que me impressionei com esse texto porque o li com especial atenção, fruindo vagarosamente cada parágrafo, tentando captar toda a emoção, por vezes alegre, outras vezes melancólica, de um autor em começo de carreira, já dando sinais de que levava a vida mais a sério do que de fato se deveria levá-la – ou estarei eu errado? Estão ali, pontuando seu texto, as questões sempre presentes em sua obra, a solidão, a morte, o silêncio, o senso de justiça....

A lucidez de suas observações sobre as pessoas e a natureza, aliada à sua privilegiada inteligência filosófica faz com que passagens simples como a descrição de um banho de mar ganhem uma dimensão quase mágica: como alguém pode ser tão bom com as palavras? Camus consegue essa proeza, e com isso, com esse dom que lhe é peculiar, transforma lembranças de viagem em poesia.

O tipo de leitor que apreciará essa obra é aquele que busca entender o mundo para além de suas aparências. Será esse o seu caso? Pois então faça um teste: selecionei algumas passagens de Núpcias, O Verão aqui no Odepórica para que você possa por conta própria verificar se minhas impressões dessa obra são exageradas ou se tenho um pouco de razão naquilo que acabo de escrever. Boa viagem e Namastê.




Núpcias em Tipasa

É preciso que eu fique nu e, depois, mergulhe no mar e que, ainda perfumado de essências da terra, possa lavá-las nas águas desse mesmo mar, estreitando em meu corpo o abraço pelo qual suspiram, lábio a lábio, há tão longo tempo, a terra e o mar. Uma vez dentro d’água, é o sobressalto, a subida de uma viscosidade fria e opaca, depois o mergulho no zumbido dos ouvidos, o nariz a pingar e a boca amarga – o nado, os braços envernizados de água, saídos do mar para se dourarem ao sol e movidos numa torção de todos os músculos, a corrida da água sobre meu corpo, a posse tumultuosa da onda pelas minhas pernas – e a ausência de horizonte.

Na praia, é a queda na areia, abandonado ao mundo, uma vez mais de volta a meu peso de carne e osso, embrutecido de sol, lançando de longe em longe um olhar para os meus braços, onde as poças de pele seca deixam a descoberto, à medida que a água escorre, a penugem loura e a poeira de sal.

Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher é também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. (...)




(...) Ao entardecer, encaminhei-me para uma zona mais bem tratada do parque, toda ajardinada, situada à beira da estrada nacional. Ali, ao sair do tumulto dos perfumes e do sol, no ar agora refrescado pela tarde, o espírito se acalmava e o corpo, distendido, saboreava o silêncio interior que nasce do amor satisfeito.

Sentei-me num banco. Olhava o campo arredondar-se com o dia. Sentia-me saciado. Sobre mim, uma romãzeira deixava pender os botões de suas flores, cerrados e cheios de nervuras como pequeninos punhos fechados que contivessem toda a esperança da primavera. Havia alecrim, atrás de meu banco, mas eu percebia apenas o perfume do álcool. Colinas emolduravam-se entre as árvores e, mais longe ainda, um debrum de mar por cima do qual o céu, como vela enfunada, repousava toda a sua ternura. Sentia em meu coração uma estranha alegria, a mesma que nasce da consciência tranquila.




O vento em Djemila

Há lugares onde o espírito morre a fim de que nasça uma verdade que é a sua própria negação. Quando estive em Djemila, havia vento e sol, mas isso é outra história. O que é preciso dizer, em primeiro lugar, é que ali reinava um vasto silêncio, pesado e compacto – algo semelhante ao equilíbrio de uma balança. Pios de pássaros, o som da flauta de três orifícios, um patear de cabras, rumores que vinham do céu e outros tantos ruídos compunham o silêncio e a desolação desses lugares.

(...) Por esse árido esplendor andáramos a vagar o dia inteiro. Pouco a pouco, o vento, que mal se percebia no inicio da tarde, pareceu-nos crescer com o passar das horas e ocupar novamente toda a paisagem. Soprava de uma abertura entre as montanhas longínquas, a leste, chegava apressado do fundo do horizonte e vinha cabriolar em cascatas por entre as pedras e o sol. Sem parar, zunia com força através das ruínas, girava num circo de pedras e de terra, banhava os montões de blocos devastados pelo granizo, envolvia cada uma das colunas com seu sopro e depois ia derramar-se com gemidos incessantes sobre o foro que se abria ao céu.





Sentia-me estalar ao vento como os mastros de um navio. Esvaziado pela metade, os olhos a arderem e os lábios crestados, minha pele secava a um ponto tal que não mais me pertencia. Antigamente, graças a ela eu decifrava a escritura do mundo. Nela o vento costumava traçar os sinais de sua ternura ou de sua cólera, aquecendo-a com seu hálito de verão ou mordendo-a com seus dentes de gelo. No entanto, tão longamente roçado pelo vento, sacudido durante mais de uma hora e aturdido de tanto resistir, acabei por perder a consciência do contorno do meu próprio corpo.

Tal um seixo polido pelas marés, assim estava eu, polido pelo vento, desgastado até a alma. Sentia-me parcela daquela força que me fazia oscilar; cada vez uma parte maior dela; até que finalmente eu era essa própria força, confundindo as pulsações do meu sangue com as grandes batidas sonoras do coração onipresente da natureza.



(...) Logo, difundido pelos quatro cantos do mundo, descuidado, esquecido de mim mesmo, sou este vento e, no vento, estas colunas e este arco, estas lajes que exalam quentura e estas montanhas pálidas que circundam a cidade deserta. E jamais senti com tanta intensidade, e a um só tempo, o desprendimento de mim mesmo e a minha presença no mundo.



O verão em Argel

(...) Da caixa de Pandora, na qual fervilham os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este. Porque a esperança, ao contrário do que se crê, equivale à resignação. E viver não é resignar-se.

Esta, acima de tudo, é a austera lição dos verões da Argélia. Mas a estação já estremece e o verão oscila. As primeiras chuvas de setembro, após tantas violências e obstinações, são como as primeiras lágrimas da terra libertada, como se, durante alguns dias, todo o país se envolvesse em ternura. Enquanto isso, desprende-se das alfarrobeiras um perfume de amor que invade toda a Argélia. À noite ou depois da chuva, o ventre regado por um sêmen com odor de amêndoa amarga, a terra inteira repousa de ter sido possuída pelo sol durante todo o verão. Então, novamente, esse odor consagra as núpcias do homem e da terra, despertando em nós o único amor verdadeiramente viril deste mundo: perecível e generoso.



O deserto (viagem à Itália)


(...) Não existem muitas verdades das quais o coração tenha certeza. E eu compreendia bem a evidência dessa afirmativa, certo entardecer, quando a sombra começava a afogar as vinhas e as oliveiras dos campos de Florença numa grande tristeza muda. Mas nessa região a melancolia é apenas um comentário da beleza. E no trem que corria pela tarde adentro sentia qualquer coisa desatar-se em mim. Posso hoje duvidar de que aquela sensação, embora tivesse o rosto da tristeza, se chamasse felicidade?

Sim, a lição que seus homens ilustram, a Itália as prodiga também através de suas paisagens. Mas é fácil não atentar na felicidade, porquanto ela é sempre imerecida. Mesmo na Itália. E sua graça, embora súbita, nem sempre é imediata. Melhor do que qualquer outro país, a Itália nos convida a aprofundar uma experiência que dá a impressão de nos oferecer, logo de saída, em toda a sua plenitude. Isso porque, a princípio, é pródiga em poesia, para melhor esconder sua verdade.

Seus primeiros sortilégios são ritos do esquecimento: os loureiros rosados de Mônaco, Gênova cheia de flores e odores de peixe, e as tardes azuis da costa liguriana. Depois, enfim, Pisa, e uma Itália que perdeu o encanto um pouco vulgar da Riviera. Mas ela continua sendo fácil – e por que não cedermos, durante certo tempo, à sua graça sensual?

(...) Florença! Um dos únicos lugares da Europa onde compreendi que no íntimo de minha revolta havia um consentimento latente. Em seu céu, mesclado de lágrimas e de sol, aprendi a submeter-me à terra e a deixar-me abrasar na chama sombria de seus festejos. Eu sentia... mas como expressá-lo? Que desmesura era aquela? De que maneira consagrar a harmonia do amor e da revolta? A terra! Neste grande templo abandonado pelos deuses, todos os meus ídolos têm pés de barro.



Excerto de “O verão”

(...) Nessas praias da Orânia, todas as manhãs de verão parecem ser as primeiras do mundo. Todos os crepúsculos dão-nos a impressão de serem os últimos, agonias solenes anunciadas ao pôr-do-sol através de uma derradeira luz que escurece todos os matizes.

O mar é ultramar; o caminho, cor de sangue coagulado; a praia, amarela. Tudo desaparece com o sol verde; uma hora mais tarde, a lua começa a jorrar das dunas. Nesses momentos, as noites se fazem incomensuráveis sob a chuva de estrelas. Por vezes cruzam-nas tempestades, e os relâmpagos escorrem sobre o dorso das dunas, empalidecem o céu, pondo na areia e nos olhos clarões alaranjados.

Mas nada disso se pode compartilhar. É necessário tê-lo vivido. Tamanha solidão e grandeza dão a esses lugares um rosto inesquecível. Ao nascer da madrugada frágil, passadas as primeiras vagas ainda negras e amargas, é um novo ser o que fende a água da noite, tão difícil de suportar.

A lembrança dessas alegrias não é uma saudade triste; por isso sei que eram boas. Tantos anos depois, ainda persistem em algum recanto de meu coração, que tem dificuldade de ser fiel. E hoje sei que sobre a duna deserta, se eu quisesse retornar, o mesmo céu continuaria derramando sobre mim sua carga de suspiros e estrelas. Porque aqui estão as terras da inocência.

Leia: Núpcias, O Verão. Albert Camus. Meu exemplar, dos anos 80, foi editado pelo Círculo do Livro e custou menos do que uma entrada de cinema. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva.