sábado, 25 de fevereiro de 2012

Viagens sonoras: os mantras de Krishna Das

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Foi em um curso sobre orientalismo, ministrado pelo professor Wagner Borges no comecinho dos anos 1990, que ouvi pela primeira vez um mantra. Ouvimos vários, por sinal, já que faziam parte da prática do curso. Enquanto muitos dos participantes relatavam suas visões espirituais, narrando tudo o que haviam visto com seus terceiros olhos bem calibrados, eu ficava lá no meu cantinho no fundo da sala, um impotente psíquico que achava aquilo tudo uma piração. Tendo o terceiro olho míope, tive que apelar para outras habilidades extra-sensoriais. Foi aí que senti, pela primeira vez, a presença pulsante dos chakras e como usar as ferramentas necessárias para trabalhar com esses fantásticos centros de energia. A música, no caso os mantras, foram essas ferramentas, muletas providenciais que auxiliam o aspirante espiritual a percorrer sua jornada rumo à autorealização.



Tudo bem se você não acredita nisso, não tem importância alguma. Também não vou ficar escrevendo sobre isso num blog sobre literatura de viagem, mas comecei assim essa postagem para dizer de onde surgiu minha paixão pelos mantras. O Wagner, que é um cara muito bacana, sempre buscou dividir as coisas boas que caíam em suas mãos; apaixonado pelo Tangerine Dream, gravava fitas k7 com algumas faixas mais “viajantes” desse grupo de rock progressivo para o povo que freqüentava suas palestras usar como música de fundo para práticas meditativas e de visualização.

Numa das aulas, na fase 1 do curso de orientalismo, se a memória não me trai, ele apertou o play do gravador e a turma vibrou com o que ouviu: faixas de mantras arrebatadores, das canções de Robert Gass e On Wings of Song (lembro-me bem da faixa tocada: Hara Hara Gurudeva, linda) ao som etéreo de Singh Kaur e Kim Robertson (harpista) com seus clássicos volumes da série Crimson Collection... e tinha um cara com uma voz grave, profunda, cheia de poder, sem brincadeira, um canadense chamado Patrick Bernard, difícil de encontrar por aqui, que cantava uma música que me dava medo de ouvir no escuro do quarto, um som invocativo, precisa ouvir prá sacar o lance do cara.



Com o tempo fui deixando de ir às palestras, mas nunca deixei de buscar a boa música que conheci através do Wagner e dos programas da Mirna Grzich. Não consigo conceber a vida sem uma boa trilha sonora, você consegue? E aqui vou puxar o gancho para o que me trouxe à frente dessa tela de computador; enquanto lá fora o povo pula o carnaval ao som do samba, eu me isolo aqui e ouço ad infinitum, nesse feriado pagão, o novo álbum de estúdio do Krishna Das. Um dos melhores de toda a sua carreira, na minha modesta opinião, intitulado Heart as Wide as the World, “um coração tão grande quanto o mundo”, traduzindo.

O disco me empolgou muito, tanto que resolvi comprar a biografia do Krishna Das, “Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro” (no original, Chants for a Lifetime: Searching for a heart of gold). Se a sua cultura pop for boa, já deve ter sacado que o subtítulo faz referência a uma canção genial do mestre Neil Young, Heart of Gold, lindíssima e que começa assim: “I wanna live, I wanna give, I’ve been a miner for a heart of gold…” (Eu quero viver/ Eu quero doar/ Eu tenho cavado em busca de um coração de ouro...). (ouça clicando nesse link do
You Tube)

Essa referência rock’n roll tem a ver com a história de vida do Mr Das, nascido Jeffrey Kagel em 1947, nos Estados Unidos, filho de pais judeus. Diz ele que seu sonho quando jovem era o de tentar a carreira na música, de modo que aprendeu a tocar violão, imitando seus ídolos do blues e do folk. Nesse ponto não foi muito longe, mas em compensação o futuro lhe reservava muitas aventuras mundo afora – sendo a música, coisa boa, a mola propulsora de tudo o que viria a lhe acontecer.



Na época dos estudos universitários, super bicho-grilo, conheceu um conterrâneo que voltou transformado da Índia, como muitos malucos na segunda metade dos anos 60, mais velho que ele e que se tornou muito popular depois disso, Ram Dass seu nome iogue. Uma boa influência na vida do jovem Jeffrey, que não sossegou o facho enquanto não foi ele mesmo direto à fonte de todo aquele amor bhaktiniano.




Na primeira de suas inúmeras viagens ao subcontinente indiano, Krishna Dass (KD) esteve ao lado de seu guru por quase três anos. É de impressionar a relação guru-discípulo tal como relatada na biografia de KD; difícil, dificílimo de entender para um ocidental, mais ainda se este for um ser mais racional do que emocional. Questão de fé, entrega total, amor na mais alta expressão que um ser humano pode sentir por outro. Tipo de coisa que só se entende, provavelmente, se vivida na própria carne.

Eu estive na Índia há alguns anos e não cheguei nem perto de algum tipo de experiência numinosa, embora no fundo de minha alma achasse que numa esquina qualquer um velhinho encardido e iluminado fosse apontar para mim e dizer: venha! Que nada, a única vez em que alguém apontou para mim foi para rir da minha cara de ocidental perdido e atrapalhado no meio da multidão sem fim daquele país absurdo e frenético.

E não posso negar que daquela viagem nunca senti saudades, como senti de outros lugares que visitei na vida. Mas o tempo tem uma sabedoria só dele e a distância dos fatos faz com que enxerguemos muitas coisas de um ângulo diferente e, muitas vezes, surpreendente.

Hoje tenho guardado com carinho muitas cenas daquela viagem, e uma delas tem a ver com os mantras. Eu e meu amigo e companheiro de boas aventuras e perrengues, o Clélcio, fomos para o sul do país, numa cidadezinha chamada Puttaparthi, famosa sobretudo por abrigar o ashram (monastério) de um famoso guru, Sai Baba, falecido no ano passado.




Não éramos devotos, de modo que ficamos hospedados num hotelzinho do lado de fora do eremitério e participávamos de algumas poucas atividades, bem poucas por sinal; a multidão de pessoas presentes no ashram era algo assustador, nunca poderíamos imaginar. Participamos de dois ou três darshans, que é algo como ser abençoado somente por estar junto a um ser iluminado, um mahatma, caso de Sai Baba.

Não me senti melhor nem pior por estar perto do guru (bem, por perto entenda uns trezentos metros de distância e umas cinco mil cabeças à frente da sua...). Bem que tentei, meditei, aprumei a coluna, padmasanei, pranayamei, toda essa ioguice, mas nada. Ainda assim, àquela altura, tudo valia a pena.



Mas eis que, no finalzinho de nossa estadia, resolvemos um dia madrugar e saímos por volta das cinco horas da manhã do hotel, para participar de um puja, um ritual de louvor/oferenda, no eremitério. Foi aí que senti, provavelmente, o único momento de verdadeira paz espiritual na Índia. De um lado, homens, de outro, mulheres, todos vestindo branco, uma coisa linda; sentamo-nos no chão, guardando silêncio, cada um na sua e eu na minha, ainda sonolento.

Um som, que a princípio parecia um zumbido abafado e contínuo, começou a ficar mais alto e claro conforme um grupo de devotos que caminhava por detrás de um alojamento se dirigia em nossa direção. Não me lembro se havia homens entre as pessoas, pois minha lembrança é a de ver muitas senhoras indianas, com saris brancos, passando por nós, que continuávamos sentados, entoando mantras e tocando pequeninos instrumentos de percussão (manjirá), algumas levando lamparinas que iluminavam aqueles rostos morenos tão cheios de compaixão.



Uma cena que a gente revive na memória até começar a achar que nunca existiu, já passou por isso? Tudo bonito demais, uma harmonia mandálica que só poderia existir na imaginação de alguém, mas que por um acaso aconteceu comigo na Índia, onde tudo é Maya, ilusão, então tudo bem, somos todos um, let it flow, let it flow...

Deixando essas divagações de lado, volto ao Krishna Das, afinal foi ele quem me inspirou a escrever sobre os mantras. Se você não conhece o moço, vou logo avisando: ele é muito bom no que faz, mas não tem, musicalmente falando, uma voz bonita. Também não é um músico talentoso, faz lá o seu arroz com feijão direitinho e não sai disso. Entretanto, ele tem algo que poucos músicos têm: um carisma extraordinário.



Esse último álbum dele, por exemplo. Impossível ouvir qualquer uma das sete faixas sem cantar junto com ele, coisa que, aliás, faz parte da dinâmica de cantar mantras, que é a repetição do canto puxado pelo condutor (kirtan wala) quando a prática é feita em grupo. É gostoso prá caramba, tem que ver. O lance sempre começa meio tímido, meio baixinho, e depois, da metade para o final, parece que todo mundo fica meio doidinho, mas uma doideira de paz e de alegria, sensação gostosa de yoga, que é união... loucura tem tudo a ver, tantos foram os homens e mulheres, santos e santas, chamados loucos de Deus, veja só o Ramakrishna, a Teresa de Ávila... todos loucos, doidinhos de prazer, queimados pelo fogo do amor.






Já estou eu viajando de novo. Voltando, pois. Disse que gostei demais desse trabalho do KD, e acho que é porque ele nunca me pareceu tão solto numa gravação como nessa. Duas canções me pegaram na primeira audição: a faixa Narayana/ For your love, é uma delas. Sensacional, ele começa mantrando Narayana e sem que você se dê conta, ele entra com o clássico dos Yardbirds, For your love, que você acha que não conhece mas conhece sim. A letra é linda, veja só.

For your love...
I’d give the moon if it were mine to give
I’d give the stars and the sun for I live
To fill you with delight
I’d bring you diamonds bright
Don´t you think it would be excite
If I could dream of you tonight
For your love…




Uau, lindo demais, é preciso ouvir!
Ouça e seja feliz, e depois vá para a faixa 6, Sitaram, e se sentir vontade, e há de sentir, dance e gire feito sufi rodopiante, curta o momento, encontre o seu eixo, aquiete a mente, cante mantra...





Foi dessa maneira que KD encontrou o seu caminho, o sentido para a sua vida, cantando, mas fez isso como uma proposta de vida. Bonita é a passagem, no prefácio de sua biografia, que retrata esse comprometimento dele com sua missão, veja só:

Depois de quase três anos vivendo na Índia, na presença do meu guru, Neem Karoli Baba, ele me pediu para voltar para os Estados Unidos. Sentado ali na frente dele, naquela que seria a última vez que eu o veria, fiquei petrificado.

Quando fui embora do meu país, eu tinha deixado tudo para trás, até os meus jeans. Imaginei que ficaria na Índia para sempre. Agora ele estava me mandando de volta. Para onde eu vou? O que vou fazer? Fiquei pensando essas coisas, em pânico. Eu não queria perguntar a ele o que eu devia fazer quando voltasse, mas de repente soltei, angustiado: “Maharaj-ji! Como posso servira você nos Estados Unidos?”

Maharaj-ji olhou para mim, com desgosto fingido no rosto, e disse: “O quê? Se está perguntando como deve servir, então não serve. Faça o que você quiser”.

Com isso, minha mente entrou em turbilhão. Maharaj-ji deu risada e disse: “Então, como você vai me servir?” Minha cabeça estava vazia. Tinha chegado a hora de ir embora. Eu me levantei e atravessei o pátio. Olhei mais uma vez para ele, de longe, e me curvei. Ao fazer isso, ouvi a minha própria voz, vinda das profundezas do meu coração, dizendo: “Vou cantar para você nos Estados Unidos.”



Foi depois de ler essa passagem acima que resolvi comprar o livro do Krishna Das, porque percebi que não se tratava apenas da biografia de um cantor de mantras que eu admiro, mas sim da história da vida de uma pessoa que praticou aquilo que o satguru Joseph Campbell resumiu como o maior compromisso que alguém pode – e deve - assumir na vida: Follow your Bliss, siga a sua felicidade, corra atrás de sua benção.



Não pense que a vida de KD foi uma mar de lótus, que não foi. Para chegar onde queria, teve que enfrentar muitos obstáculos (depressão, drogas) e muitas dúvidas, você pode imaginar, na senda espiritual. Tudo isso faz parte da jornada do herói, continuando com a associação que fiz acima com o Campbell. Em um nível de compreensão mais amplo, o que se pode perceber hoje é que a postura adotada por Krishna Das, mantendo-se fiel à sua benção, não só foi bom para ele, mas também inspirou, continua inspirando, muitas pessoas que entram em contato com ele através de seu trabalho, que é a sua música. Cantando para o seu guru, Maharaj-ji, ele canta para todos nós, e sua felicidade, ou sua benção, é capaz de contagiar a quem dela se aproxima.




Cantar mantras me mantém aprumado. Faz com que eu retorne para aquele lugar interior profundo. Não faz diferença o número de pessoas que vêm cantar comigo, é sempre a mesma coisa. A todo lugar que vou, a família comparece. Nós cantamos e nós ajudamos uns aos outros a encontrar aquele lugar lá dentro que parece certo.

Minha experiência preferida com Maharaj-ji era quando eu ficava do lado ou atrás dele e podia observar o rosto das pessoas que se sentavam na frente dele. Era fantástico presenciar o peso da vida delas se desfazer e se suavizar na alegria incrível que se experimentava com ele. Testas franzidas se transformavam em sorrisos e lágrimas, em riso. Era a coisa mais linda de ver. Ao viajar por todos os lados e cantar hoje, eu revivo essa experiência, noite após noite. Eu me sinto como se estivesse sentado ali mais uma vez, observando a força e a doçura do amor de Maharaj-ji levar embora a tristeza da vida das pessoas que vêm para cantar. É exatamente a mesma coisa. Eu observo enquanto ele faz tudo.

Nesses momentos de “sanidade temporária”, meu coração não consegue conter minha gratidão por ser capaz de fazer o que eu faço. Nos meus sonhos mais loucos, eu nunca seria capaz de imaginar para mim uma vida com tanta graça divina e tantas bênçãos. Meus olhos chovem uma enxurrada de lágrimas, e eu me vejo sentado na frente de Maharaj-ji mais uma vez, como eu fazia quando estava com ele fisicamente. Eu volto para casa.


Leia: Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro. Krishna Das. Realejo Edições, 2011.


Na vitrola: Heart as Wide as the World. Krishna Das em sua melhor forma. Jai Ram!


Site oficial do KD:
krishnadas.com

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os devaneios do caminhante solitário, by Jean-Jacques Rousseau

.Comprei por impulso, por causa do título, um pequeno volume da coleção pocket da L&PM intitulado Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor que me remetia às aborridas aulas de história da época do ginásio.

Para minha surpresa, o velho e sábio Rousseau me fez mudar radicalmente de opinião, mesmo antes de terminar, com muita satisfação, a leitura de seus devaneios lá no longínquo século dezoito. Uma espiada na cronologia da vida de Rousseau já entrega: ele não passou à toa por esse planeta não. Veja só:

Nasceu em 1712, em Genebra; sua mãe falece poucos dias após o parto e seu pai o entrega a uma família aos dez anos de idade. Aos 16, com os hormônios a mil, é acolhido por uma jovem viúva de 28, senhora de Warens, a quem chamava freudianamente de “mamãe”. Serão amigos e amantes por toda vida, o que não deixa de ser encantador.




Entre 1729 e 1730 vai bater perna pela França e pela Suíça, depois de viver um tempo em Turim, onde troca o protestantismo pelo catolicismo. Nessa vagamundagem passa um tempo em Annecy, Lyon, Fribourg, Lausanne, Neuchâtel, Berna e Soleure. Prá fechar com estilo, no ano seguinte viaja a Paris. Entre as andanças e algumas longas estadias com “mamãe”, Rousseau se dedica ao estudo da música e vai tão fundo nisso que desenvolve um novo sistema de notação musical, na altura em que chegava aos 30. Palmas para ele.




No verão de 1743 acompanha o embaixador da França em uma viagem a Veneza, e aproveita o dolce far niente para publicar sua Dissertação sobre a música moderna. Deixa Veneza no ano seguinte depois de brigar com o embaixador. Esfria os ânimos ao conhecer Thérèse Levasseur com quem se casará duas décadas depois, pobre moça. Dizem que nesse período o irritadinho Rousseau entrega três filhos a um asilo de crianças. E paro por aqui, porque essa história vai longe. É bom saber que sua vida não foi lá muito tranqüila não, à parte as boas viagens e o reconhecimento intelectual celebrado ainda em vida.

Rousseau causou muita polêmica com suas obras na área da política e da educação o que o levou a ser expulso de alguns lugares, forçando-o a uma vida errante por um período. Por ter sido o primeiro escritor de sua época a atacar a instituição da propriedade privada, é considerado um precursor do socialismo moderno.

O autor de Os devaneios é um homem já no finalzinho da vida, mais comedido, mais sábio e mais romântico também. Nos dez capítulos, enumerados por “Caminhadas” (primeira caminhada, segunda caminhada, etc...) vamos conhecer alguns fatos bastante particulares da vida de Rousseau, o que nos leva a ter uma empatia imediata com ele, pelo menos assim se passou comigo.
O legal é que, mesmo não conhecendo a obra desse grande personagem, filósofo, músico e botânico (grande paixão teve pela botânica o Rousseau), não há como não gostar desse texto antigo com boas sacadas sobre a condição humana. A impressão que se tem é a de que ele saía para caminhar e aproveitava os momentos de solidão e prazer em meio à natureza para repensar a vida e quando voltava para casa punha no papel aquilo que sua mente conseguia organizar. Diz ele que “essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distinção, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.”

A tradutora dessa pequena edição em português, Julia da Rosa Simões, tem um quê de dedo-duro, achei até graça nisso; em notas de rodapé vai mostrando alguns dos lapsos de Rousseau quanto a citações de autores clássicos e de algumas localidades, o que mostra que ela fez a lição de casa direitinho, toda aplicadinha.



É na segunda caminhada que a coisa toda começa a acontecer prá valer. Dizem que Rousseau tinha mania de perseguição, um preço a pagar por aqueles que dizem o que pensam sem dosar as conseqüências; caminhar, portanto, era uma chance de despistar os mal aventurados que o perseguiam. “Esses enlevos, esses êxtases que sentia algumas vezes ao caminhar assim sozinho, eram prazeres que devia a meus perseguidores: sem eles nunca teria encontrado nem conhecido os tesouros que carregava em mim mesmo.”

Algumas considerações sobre o ato e o hábito de caminhar compartilhadas por Rousseau me trouxeram à memória os escritos de um grande pacifista, o monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, famoso por ensinar a técnica da meditação em movimento. Já lemos sobre ele aqui no
Odepórica, e vou transcrever um trecho de outra obra desse mestre que ganhei de presente de minha irmã e que é linda, tanto em sua aparência, com ilustrações tocantes de Mayumi Oda, quanto em conteúdo, simples e profundo como um koan budista. O título do livro é “Present moment, wonderful moment”:



“Nossa mente pula de uma coisa para outra, como um macaco pulando de galho em galho sem descanso. Os pensamentos têm milhões de caminhos, e somos sempre levados por eles para o mundo do esquecimento. Se nós pudermos transformar o local de nossa caminhada em um campo de meditação, nossos pés darão cada passo com consciência plena. Nossa respiração estará em harmonia com nossos passos, e nossa mente estará naturalmente em paz. Cada passo que damos irá reforçar nossa paz e alegria e resultará num fluxo de calma energia que fluirá através de nós. Então podemos dizer: ‘A cada passo, sopra um vento suave’.”



Lembrei-me dessa passagem de Thich Nhat Hanh por causa de outra escrita por Rousseau na segunda caminhada, que diz assim:

O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus maces; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz. Há quatro ou cinco anos experimentava essas delícias internas que as almas afetivas e suaves encontram na contemplação.

Na terceira caminhada os pensamentos ganham maior profundidade: Rousseau reflete sobre a morte, afirmando que o estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer e que ficará feliz se conseguir aprender a sair da vida mais virtuoso do que nela entrou.

Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. “Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte”.




Para Rousseau, a sociedade parece ser a origem de todo o mal, no sentido de uma maldade que tem como conseqüência a desconexão do homem com a sua divindade interior, ou Eu superior, como queiram chamar. Suas escapadas, de certo modo, eram o antídoto contra esse mal, trazendo à tona a ideia de que só mesmo a solidão e, se possível, o contato com a natureza, fossem capazes de aliviar o sofrimento de uma alma apartada.

A meditação no recolhimento, o estudo da natureza, a contemplação do universo forçam um solitário a se erguer de maneira constante ao autor das coisas e a procurar com uma dúvida inquietante a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando meu destino me lançou na torrente da sociedade, não encontrei mais nada que pudesse deleitar por um instante meu coração.

Aos quarenta anos, “na maturidade e com toda a força do entendimento” Rousseau determina um turning point em sua vida: a mudança se faz necessária, pois o homem, palavras suas, precisava de “uma regra fixa de conduta para o resto de meus dias”. Essa regra de conduta encontra-se no isolamento, e aqui me lembrei de outra leitura,
Walden, de Thoreau, que também buscou esse afastamento, ainda que temporário, da sociedade.



É dessa época que posso datar minha total renúncia ao mundo e esse gosto vivo pela solidão que não me abandona desde então. A obra que iniciava só poderia ser realizada em retiro absoluto; exigia longas e serenas meditações que o tumulto da sociedade não permitia. Isso me obrigou a levar por algum tempo outro modo de viver, no qual logo me senti tão bem que, tendo-o interrompido apenas à força e por poucos instantes, retomei-o com todo o meu coração e a ele me limitei sem dificuldade assim que pude, e quando a seguir os homens me obrigaram a viver sozinho, descobri que ao me isolarem para me tornar miserável eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo.

Na quarta caminhada é hora de questionar-se sobre a mentira e sua memória volta aos dezesseis anos, fazendo-o sofrer horrores por conta de uma falsa acusação de roubo, episódio de sua vida que só nos resta lamentar. Dessa caminhada anoto um belo ditame: “Se é preciso ser justo com o próximo, é preciso ser verdadeiro consigo mesmo; é uma homenagem que o homem honesto precisa render à sua própria dignidade”. Falou bem.




Quinta caminhada: uma ode ao ócio. Deliciosa seqüência de dias passados às margens do lago de Bienna, na Suíça, uma região “pouco freqüentada por viajantes (...) mas interessante para os solitários contemplativos que gostam de se embriagar à vontade com os encantos da natureza e se recolher num silêncio não perturbado por outro barulho que o grito das águias e o rumor das águas que caem da montanha...”

Não conheço a obra de Rousseau, mas no tocante a esse livro, não veremos tantos momentos de felicidade quanto os que ele descreve naqueles meses de descanso na casa do lago e tudo soa tão bonito, e tão verdadeiro, que temos vontade de viver a mesma experiência por ele vivida ali.

Considero aqueles dois meses o momento mais feliz de minha vida, tão feliz que foi suficiente para toda a minha existência, sem deixar nascer uma única vez em minha alma o desejo de outro estado.
Na sexta caminhada é hora de falar sobre as boas ações e suas observações sobre o ato de fazer o bem ao próximo são bastante lúcidas: “vi que para fazer o bem com prazer seria preciso agir com liberdade, sem coação, e que para perder toda a doçura de uma boa ação bastaria que ela se tornasse um dever”. E filosofa, lá no finalzinho do capítulo: “Nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim em nunca fazer o que não quisesse.”

O momento de maior devaneio, e que mais me surpreendeu, aconteceu na caminhada seguinte, a sétima. O mote desse capítulo é a paixão de Rousseau pela botânica e, por extensão, a natureza em geral. Não fosse Rousseau quem fosse, eu diria que ele andava enamorado de alguma religião ou filosofia oriental; é certo que o homem quando em contato direto com a natureza e afastado da vida mundana se volta mais para o interior, o próprio meio o convida a isso. Não à toa, grandes mestres de variadas ordens religiosas ou espiritualistas buscaram momentos de solidão em ambientes isolados de bosques, montanhas, desertos ou cavernas.

Para alguns, o contato mais íntimo com a natureza pode levar a algum tipo de transcendência (um samadhi, para usar uma expressão do hinduísmo), especialmente se é isso o que se busca. Percebi lampejos desse sentimento de transcendência, não sei bem se é este o termo adequado, em algumas passagens que transcrevo a seguir:




Quanto mais o contemplador tiver a alma sensível, mais se entregará aos êxtases que essa harmonia lhe provoca. Um devaneio doce e profundo se apodera de seus sentidos, e ele se perde com deliciosa embriaguez na imensidão desse belo sistema com o qual se sente identificado. Todos os objetos particulares lhe escapam; ele nada vê e nada sente senão no todo. É preciso que alguma circunstância específica restrinja suas ideias e circunscreva sua imaginação para que possa ver em partes esse universo que se esforçava por abarcar.

(...) Essa maneira de pensar, que sempre reduz tudo a nosso interesse material, que em tudo procura proveito ou remédios e que faria olharmos para toda a natureza com indiferença se sempre estivéssemos bem, jamais foi a minha (...) só encontrei verdadeiro encanto nos prazeres do espírito ao perder de vista os interesses de meu corpo.





(...) Não, nada de pessoal, nada que diga respeito ao interesse de meu corpo pode ocupar de verdade minha alma. Nunca medito, nunca sonho de maneira mais prazerosa do que quando esqueço de mim mesmo. Sinto êxtases, encantamentos inexprimíveis, que me dissolvem, por assim dizer, no sistema dos seres, que me identificam com toda a natureza.

A oitava caminhada eu passo. Vou direto para a nona, bonita caminhada que empeça assim: “a felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo”. Filosofa feito sábio budista ou hindu, algumas linhas mais à frente, quando afirma: “Tudo muda à nossa volta; nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre...”. Depois não diga que não reparou.



Nessa caminhada chama a atenção o fato de Rousseau se dirigir às crianças com enorme carinho, o que me fez pensar se isso não tem alguma relação com os filhos que deu para adoção, embora aqui os sentimentos sejam da mais pura alegria; no final, não deixa de ser uma metáfora: os pequenos são a expressão da felicidade justamente por conta de sua natureza simples e aberta e é isso o que Rousseau tenta nos dizer com essa caminhada, que a felicidade encontra-se nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres, na soma das pequenas alegrias que temos ao longo de nossa existência.

Enfim, chegamos à décima e última caminhada do sábio peregrino solitário. Está inacabada, mas suas palavras se dirigem todas à mulher que primeiro amou, a senhora de Warens. É uma bonita declaração póstuma, onde o autor abre o coração e agradece “à melhor das mulheres”, como ele a chama. Quase sem querer é que percebemos que o gosto pela solidão já estava latente no coração do jovem Rousseau, quando afirma categoricamente: “Preciso me recolher para amar”.





Leia: Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau. L&PM, outono de 2010.

Na vitrola: Eight String Religion, obra prima de David Darling.



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.