domingo, 29 de julho de 2012

História dos dois viajantes

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Quando pensamos no Oriente, em termos literários, possivelmente nos lembraremos dos contos fabulosos de As mil e uma noites. Para quem não se recorda, vale a pena relembrar lendo uma sinopse da obra:

A história conta que Xariar, rei da Pérsia da dinastia dos Sassânidas, descobre que sua mulher é infiel, dormindo com um escravo cada vez que ele viaja. O rei, decepcionado e furioso, mata a mulher e o escravo, convencendo-se por este e outros casos de infidelidade que nenhuma mulher do mundo é digna de confiança. Decide então que, daquele momento em diante, dormirá com uma mulher diferente cada noite, mandando matá-la na manhã seguinte: desta forma não poderá ser traído nunca mais.

Passam-se assim três anos durante os quais o rei desposou e sacrificou inúmeras moças, trazidas à sua presença pelo vizir (equivalente a um primeiro ministro) do reino. Certo dia, quando já quase não havia virgens no reino, uma das filhas do vizir, Xerazade, pediu para ser entregue como noiva ao rei, pois sabia de um estratagema para escapar ao triste fim que alcançaram as moças anteriores. O vizir apenas aceita depois de muita insistência da filha, levando-a finalmente ao rei. Antes de ir, Xerazade diz à irmã, Duniazade, que lhe peça que conte uma história quando for chamada ao palácio do rei.


Xerazade, ao chegar à presença do rei, pede-lhe que permita a vinda de sua irmã, para despedir-se. O rei o permite, e Duniazade vem ao palácio e instala-se na câmara nupcial. Após o rei possuir Xerazade, Duniazade pede à irmã que conte uma história para passar o tempo. Após respeitosamente pedir a permissão do rei, Xerazade começa a contar a extraordinária "História do mercador e do gênio", mas, ao amanhecer, ela interrompe o relato, dizendo que continuará a narrativa na manhã seguinte. O rei, curioso com o maravilhoso conto de Xerazade, não ordena sua execução para poder saber o final da história na noite seguinte. Assim, repetindo essa estratégia, Xerazade consegue sobreviver noite após noite, contando histórias sobre os mais variados temas, desde o fantástico e o religioso até o heróico e o erótico. Ao fim de inúmeras noites e contos, Xerazade já havia tido três filhos do rei, e lhe suplica que a poupe, por amor às crianças. O rei, que há muito havia arrependido-se dos seus atos passados e convencido-se da dignidade de Xerazade, perdoa-lhe a vida e faz dela sua rainha definitiva. Duniazade é feita esposa do irmão do rei, Xazamã. (fonte: Wikipedia)

No prefácio da edição francesa de Os mil e um dias, lê-se que essa obra pode ser considerada por alguns como sendo uma imitação de As mil e uma noites, embora nada confirme essa suposição, uma vez que se ignora qual das duas tenha sido compilada primeiramente.


De Os mil e um dias sabe-se o seguinte: Um dervixe chamado Mocles, superior de um convento mevlevi, famosa ordem sufi islâmica, traduziu para o persa as comédias indianas das quais existe uma versão turca na Biblioteca Nacional da França cujo título é Al farady haad al chidda (A Alegria depois da aflição). Em seguida, transformou as comédias em contos e deu-lhes o título de Hezarich Rouz (Os mil e um dias). Mostrou (isso se passou em 1675) o manuscrito desse trabalho a um estudioso orientalista francês, François Pétis de la Croix e graças a ele a obra foi traduzida para o francês e daí para o resto do mundo.


Em uma antiga nota sobre Os mil e um dias, o autor revela que As mil e uma noites “possuem o objetivo de divertir um sultão por meio de contos para impedi-lo de matar sua mulher que os conta. O objetivo de Os mil e um dias é mais razoável (sic): trata-se de provar a uma princesa predisposta contra os homens que eles podem ser fiéis no amor”.

Neste post, você lerá um dos contos de que mais gostei, que por coincidência traz o relato de dois viajantes e que também foi usado por La Fontaine em uma de suas fábulas. Uma preciosidade, sua leitura abre espaço para boas reflexões filosóficas acerca da vida, da dualidade (no sentido daquilo que possui duas naturezas) pela qual somos influenciados e que muitas vezes implica na tomada de uma decisão importante em algum momento de nossas caminhadas. Prosseguir ou desistir? Às vezes não sabemos: uma parte de nós quer seguir adiante, enquanto outra, mais racional, pede que calculemos os riscos, as perdas e os perigos. Vai da história de cada um, e o certo é que entre as duas opções sempre existirá um meio termo. O segredo para ver se essa é a atitude mais correta é simples: se na vida só optarmos pelos meios termos, sem nunca corrermos os riscos que as jornadas impõem, então é hora de revermos nossas ações: pode ser que na próxima vez encontremos um tesouro que nunca imaginaríamos encontrar porque simplesmente deixamos de dar o próximo passo. Salaam Aleikum!



História dos dois viajantes

Permiti, disse no dia seguinte Sutlymeme, que eu vos conte agora uma pequena história que prova que numa viagem não existem somente os perigos. Furrukhnaz quis ouvir e a escrava falou assim.

Salem e Ganem eram amigos e faziam juntos uma longa viagem. Um dia chegaram a uma montanha muito alta e, contornando-a, encontraram uma fonte cuja água fresca era excelente. Perto da fonte havia um canal, margeado e sombreado por ciprestes, pinheiros e plátanos, no meio de um campo salpicado de flores, o que tornava o lugar ainda mais agradável.

Tudo isso convidava os dois viajantes a parar e descansar um pouco, para se recuperarem do cansaço de um deserto árido que acabavam de atravessar. Escolheram um lugar cômodo, onde sentaram-se sobre a relva.
Depois de algum tempo de descanso, passearam ao redor da fonte e ao longo do canal. Aproximaram-se também de um lugar por onde a água da fonte caía em um grande lago. Em sua margem viram um mármore branco ornado com caracteres de lápis-lazúli tão bem feitos que era fácil perceber a excelência do artesão que os gravara. A inscrição era concebida nos seguintes termos:

“Viajante, que honras estes lugar com tua presença, temos uma habitação magnífica para te receber se quiseres ser nosso hóspede, mas com a condição de que atravesses este canal a nado, sem temer a profundeza nem a rapidez da corrente. Quando estiveres do outro lado, colocarás sobre teus ombros o leão de mármore que está aos pés da montanhas, e, sem hesitar, o levarás correndo e de um só fôlego até o pico, sem considerar nem os leões que rugem, que poderias encontrar, nem os espinhos que cobrem os caminhos. Depois de executadas essas tarefas, serás feliz para sempre. Não chega ao abrigo quem não caminha. Quem não trabalha, não consegue o que deseja. A luz do Sol preenche todo o universo; os menos delicados e os mais determinados recebem essa luz e suportam os raios mais vivos e mais ardentes.”

Ao terminarem de ler, Ganem disse a Salem:

- Vem, entremos nesse canal e enfrentemos o perigo que nos é proposto. Façamos o esforço, testemos se a promessa dessa inscrição é verdadeira. Tentemos, vejamos o que nos acontecerá.

- Caro amigo, respondeu Salem, não seria muito sensato expor-se a um perigo tão evidente, por causa de um simples escrito que promete uma felicidade bastante incerta. Um homem sensato não gostaria de colocar sua vida em risco por um bem tão imaginário quanto este. Nunca um sábio se engajaria a um perigo presente e visível, por um prazer que só tem aparência. Acredita em mim, mil anos de delícias não valem o sofrimento de expor sua vida um único momento.

Ganem não se deixou convencer por essas máximas.

- Amigo, replicou ele, a paixão de viver ao bel-prazer sem nada arriscar é o precursor de uma vida desprezível e vergonhosa, mas corremos para a glória e felicidade expondo-nos aos perigos. Quem é fraco não experimenta nem a alegria nem o prazer de haver sofrido, e quem teme a dor de cabeça priva-se da doçura do bom vinho. Quem tem coragem não limita sua felicidade, não leva uma vida miserável de privações. O verdadeiro repouso é aquele que se goza quando se é elevado acima dos outros. Não discutamos mais. É tanto por nossa honra como por nosso interesse em não continuar a viagem sem ter subido ao alto dessas montanhas, apesar da corrente rápida, apesar dos leões e dos espinhos. Sofreremos um pouco, mas, depois disso, pode-se acreditar que em recompensa por nossas dores e pelos desertos pelos quais passamos encontraremos belos campos.

- Faze o que quiseres, replicou Salem. Por mim, vejo-me obrigado a repetir que não existe menos loucura em fazer o que desejas, do que em querer viajar por um deserto do qual não se tem certeza de encontrar logo o fim, ou em navegar num mar no qual não se encontra nunca a terra firme. Em qualquer empreendimento que seja, é importante saber qual é a saída, qual o ponto de partida, a fim de não trabalhar inutilmente e não arriscar a vida, que devemos amar mais do que tudo no mundo. Escuta ainda o pensamento de um sábio que diz: “Em qualquer lugar onde tenhas que entrar, não avances nunca o pé sem que antes tenhas sentido firmemente o lugar onde queres colocá-lo, e sem que a abertura por onde tens que sair não seja larga o bastante.”

Além disso, talvez esse escrito não seja muito correto, ou ainda o tenham colocado aí simplesmente para se divertir e para abusar da simplicidade dos idiotas. Talvez ainda a água seja intransponível, e não seja possível chegar à outra margem. Espero que consigas, mas depois da travessia talvez ache o leão de pedra tão pesado que não conseguirá nem mesmo levantá-lo do chão. E se conseguires levantá-lo, tens certeza de poder leva-lo numa única corrida até o alto da montanha? No final de tudo isso, não sabes qual o resultado da tantas dificuldades. Por mim, declaro que não te farei companhia num perigo dessa natureza. O que posso fazer é convencer-te, como estou tentando, a abandonar um intuito tão mal concebido.

Apesar da insistência de Salem, Ganem resistiu, dizendo:

- Não posso ouvir teu pedido, e nada é capaz de me impedir de executar a decisão que tomei. Nem demônios nem espíritos, sejam quais forem, me desviarão com suas sugestões. Sei que não estás ao meu lado nessa viagem. Não queres me seguir. Vejo que não queres fazer isso por mim. Vem ao menos, aproxima-te somente para ver, e acompanha o que vou fazer com tuas rezas e teus votos. Permite que eu te faça lembrar o que disse um poeta: “Sei que não tens temperamento para beber vinho. Não deixes, no entanto, de vir à taberna e nela entrar, para ver os bebedores com o copo na mão”.

Quando Salem viu que Ganem estava irredutível, disse-lhe ainda:

Por essa zombaria, que me ofende, percebo que meus conselhos não te atingem. Não queres desistir de um desígnio que não tem nenhum fundamento. Não me sinto bastante forte para testemunhar a sua execução com meus próprios olhos. Além disso, não tenho curiosidade para ver um espetáculo pelo qual tenho uma repugnância natural. Assim, deixo-te fazê-lo e me afasto de algo que me faria sofrer.

Após dizer essas palavras, pegou seus pertences, despediu-se de Ganem e retomou o caminho.

Assim que ganem ficou sozinho, recuperou-se do que acontecera. Aproximando-se do canal, disse:

- Tenho que mergulhar neste mar para nele perecer, ou para trazer a pérola que espero.

Com essa resolução, jogou-se na água, que era muito profunda e rápida. Mas dominou a situação tão bem que chegou com sucesso à outra margem. Tomou fôlego, pôs o leão de mármore nos ombros e subiu até o alto da montanha num pé só, apesar das dificuldades que encontrou e do peso do fardo, que colocou por terra ao chegar.

Do outro lado, ao pé da montanha, Ganem viu uma linda cidade, cujos arredores, salpicados de casas bem construídas, com grandes jardins, formavam um belo espetáculo. Enquanto estava distraído, considerando a agradável paisagem, o leão de mármore rugiu de forma tão terrível que ecoou por todo o campo e fez a montanha tremer.

Ao ouvirem o grito, os habitantes saíram em multidão e caminharam na direção da montanha, o que deixou Ganem tão admirado quanto o rugido do leão. Os mais importantes e os mais distintos avançavam à frente dos outros. Rendiam profundos louvores a Ganem e lhe faziam grandes cumprimentos, desejando-lhe toda a prosperidade. Em seguida, apresentaram-lhe um belo cavalo ricamente paramentado. Montou atendendo às suas súplicas. Fizeram-lhe cortejo até a cidade, com todo o povo indo adiante. Conduziram-no a um palácio magnífico e fizeram-no banhar-se em água de rosas. Depois disso perfumaram-no com essências de almíscar e âmbar. Vestiram-no com um manto real e o proclamaram rei, prestando-lhe homenagens.

Até certo momento Ganem não considerara extraordinárias as honras que lhe rendiam. Percebia-as como resultado da consideração singular que esse povo teria em relação aos estrangeiros, mas quando viu que o proclamavam rei, perguntou a razão de sua escolha para comandar e reinar.

- Senhor, respondeu um dos chefes, os antigos filósofos deste país colocaram a inscrição que viste na fonte. Ela é um talismã construído sob as constelações e feito segundo as regras dessa arte. Quando algum valente, depois te ter vencido a água a nado, traz ao alto da montanha o leão de mármore (o que só acontece quando o rei deste lugar morre), a cidade. Como Vossa Majestade pôde ver, vem até ele, ao rugir do leão, e o coloca no trono no lugar do antecessor. Faz muitos anos, até mesmo vários séculos, que esse costume está em uso entre nós.

Por essas palavras, Ganem percebeu que todas as desgraças e todos os sofrimentos que passara foram degraus para chegar a essa alta fortuna. Quando as belas ações têm a glória como objetivo, a glória, por sua vez, faz reciprocamente todo o caminho necessário para tornar-se a recompensa.

Dessa aventura, podeis facilmente concluir que só se pode gozar da doçura depois das amarguras. É uma máxima tão antiga quanto o mundo. Podeis encontrá-la em todos os livros da moral.


Leia: Os mil e um dias: contos orientais. Traduzido para o francês por Pétis de la Croix. Trad. português: Glória Magalhães. Labortexto Editorial: Oficina do Livro, 2001.