terça-feira, 14 de agosto de 2012

Pé na estrada

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O texto que você lerá a seguir é o editorial que abre a edição de março de 2012 da revista espanhola Siete Leguas (Viajes del Siglo XXI), excelente publicação sobre a qual escrevi aqui no Odepórica há algum tempo. O título do Editorial, Al mal tiempo, carretera y manta, algo como “se o bicho pegar, pé na estrada”, é um aviso, quase uma ordem: quando você se encontrar numa situação onde nada mais parece funcionar, experimente cair na estrada – nem que a viagem não seja mais longa do que uma volta no quarteirão de casa.

Entre outras coisas, viajar é a melhor maneira de curar uma cabeça confusa e cheia de miasmas emocionais. Às vezes liberta, às vezes até alimenta um sofrimento, mas uma coisa é certa: faz a gente tirar a bunda do sofá e, como diz o Fernando Baeta, ajuda a ampliar nosso campo de visão. É o distanciamento, sempre necessário, para enxergar a vida sob uma nova perspectiva. Namastê!

Somente a imaginação pode fazer com que saiamos do imenso poço anímico no qual estamos imersos. E nada como viajar para inflamar dita imaginação, para suspender o pessimismo que nos arrasta por este laço melancólico que não sabemos onde vai dar.

Quando as coisas não vão bem, caia na estrada: a viagem há tanto desejada, a escapada altamente perseguida, o destino eternamente protelado. Que o pessimismo não nos freie em nosso caminho; que o medo não aniquile nosso desejo de ir, ver e conhecer; que a viagem nunca chegue a seu fim. Não podemos ficar quietos, nada pode paralisar nosso desejo de continuar viajando, de ir mais além, sempre mais além... A viagem abre nossos sentidos, agita nosso intelecto e move nossas pernas. E tanto faz o destino, não há viagem pequena, assim como não há viagem grande. Há apenas a viagem. Há o destino. Há um sonho a ser alcançado.

Não estamos loucos, não. Sabemos que o ânimo enfraquece, e o bolso também; não queremos posar de transcendentais, nem de pretenciosos, de sentimentais ou de extraordinários, apenas queremos lançar um pequeno grito de otimismo, de esperança, de futuro.

Não é hora de nos metermos em nossas conchas e lamentarmo-nos; não é tempo de lágrimas que embacem nosso irresistível desejo de olhar adiante; é chegada a hora de voar, de voar contra o vento se for o caso, mas de voar. É preciso sair, ainda que seja aqui ao lado; é preciso mover-se, nos deixar levar, conseguir com que a distância, longa ou curta, atue como excitante e calmante ao mesmo tempo.

Em qualquer parte deste planeta existe algo nos aguardando; não sabemos o motivo certo, mas ali está, à espera de nossos olhos, nossas mãos, nossas palavras. Não sabemos, mas nesse lugar há quem precise de nós tanto quanto nós necessitamos desse ponto no mapa, essa meta que pode ser em qualquer esquina, essa escapada tão necessária. Viajar amplia nosso campo de visão; viajar não é só um capricho, é uma necessidade, até mesmo uma obrigação.

Ninguém está falando para torrar as economias, de gastar o que não se tem, de ir aonde não se pode chegar; trata-se de não se deixar deter pelo pânico, de não se deixar frear por conta do medo, de que grandes nuvens negras não nos tragam uma chuva imaginária muito antes que a água comece realmente a cair.

Ponha a mão no bolso e invista em quilômetros, em milhas, em sonhos... com a certeza de que estará investindo em algo tão grande e ao mesmo tempo tão intangível como a esperança, algo que não se pode medir mas que é capaz de nos fazer chegar mais longe do que qualquer realidade. Não se detenha jamais. Viaje, viaje e viva. E não se esqueça nunca de que a viagem é praticamente constituída da mesma matéria que forma os sonhos.