quinta-feira, 22 de novembro de 2012

No teu deserto, by Miguel Sousa Tavares


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Há coisa de seis anos ganhei um livro intitulado Sul: viagens, escrito pelo jornalista português Miguel Sousa Tavares, autor que já foi citado anteriormente aqui no Odepórica, num post sobre desertos.

O livro é uma coletânea de textos e fotos de diversas viagens do Miguel, que se intitula um contador de histórias a quem pagam para percorrer o mundo e contar o que viu. Sorte a dele. Nesse livro de bonita edição, o português relata o que viveu em suas perambulações pelo sul do planeta, que em sua definição engloba países da África, Ásia, América do Sul, Europa e Caribe. Um sul abrangente, como se vê.

Gostei do livro, das fotos e do jeito que o Miguel escreve, embora nunca me sentirei confortável de verdade com a gramática e o vocabulário lusitano, tanto que raramente compro edições de autores publicadas na ortografia de Portugal. Acho que eles devem sentir o mesmo em relação à nossa escrita, e nisso nada há de mal.


Mas há uma coisa que não me encanta muito ao ler os relatos do viajante português: sua escrita está mais para o jornalismo do que para a literatura; percebe-se o cuidado dele ao narrar aquilo que viu com detalhes mais ou menos precisos, como se ele escrevesse já pensando no leitor (o que se espera de um bom jornalista, de fato), e não como se estivesse viajando com o leitor. Percebi em seus textos uma narrativa muito linear, quando esperava encontrar um relato de viagem com as surpresas que surgem durante o trajeto, os desvios e as divagações que tiram o leitor da monotonia das viagens por estradas retas e bem asfaltadas, quando a paisagem passa rapidamente pelo lado de fora do automóvel. A máxima que diz que “viajar é perder-se” também vale, parcimoniosamente, para a viagem narrativa. Uma questão de gosto, pode ser.

Por uma dessas coincidências bobas do destino, enquanto terminava a leitura de Sul: viagens, vi numa banca de jornal outro título do Miguel, desses livros de capa dura que saem em coleções temáticas; a coleção em questão, editada pela Folha de São Paulo chama-se “Literatura Ibero-Americana” e coube ao Miguel Tavares o volume de número 17, intitulado No teu deserto (2009).



É dessas obras ligeiras de cem páginas, de capítulos curtos que se lê com prazer numa tarde de folga. Mais uma vez o Miguel se volta para o deserto, cenário que parece inspirá-lo mais do que qualquer outro. Diz ele que já visitou o Saara mais de dez vezes e isso já demonstra algum tipo de obsessão, não fosse o mundo tão grande e à espera de inúmeros lugares a serem explorados. Não estou julgando o moço, de forma alguma, porque também sou do tipo que gosta de repetir viagens e cenários, então estamos em casa.

Agora vou ser didático. O livro tem doze capítulos; até o capítulo V, quem narra a história é o Miguel. Do capitulo VI ao XII a coisa muda de figura, e então começa o jogo de troca narrativa: uma vez o Miguel, a outra a Cláudia - sua companheira de aventura, depois o Miguelito, depois ela novamente e assim vai. Parece uma troca de cartas, e a coisa quando bem feita fica até interessante e divertida. A história? Pois. É simples, vamos lá: um jornalista, que é o Miguel, viaja com uma caravana para o Saara para fazer uma reportagem para um programa de televisão português.



A caravana de 15 jipes e 4 motos vai percorrer a rota saariana por mais de um mês, mas o Miguel só poderá encontrar seus companheiros de viagem alguns dias depois, em um local combinado previamente, por conta dos trâmites burocráticos para poder filmar na Argélia. A viagem aconteceu no final dos anos oitenta, tempo em que os viajantes e aventureiros ainda não contavam com as facilidades de hoje, como o GPS e a internet. Sim, isso deve ser levado em consideração quando o assunto é aventura e risco.

Começa escrevendo entre parênteses (literalmente) que, no final da história, sua companheira de viagem, a jovem Cláudia, morre. Pá-pum. Juro que não entendi qual foi a do Miguel, entregar assim aquilo que deveria ter sido deixado para o final do relato. Se um dia eu me encontrar com ele por aí, juro que lhe darei um peteleco na orelha.



O gatilho que fez com que resolvesse escrever sobre aquela viagem de 87 foi uma fotografia largada num fundo de gaveta, junto a tantos outros velhos retratos. A lembrança da jovem, a saudade de sua presença (nada mais lusitano do que a saudade) surgida ao olhar para uma foto de Cláudia, fez com que resolvesse escrever sobre a história deles dois, ambientada nas areias saarianas.

Bom, agora você deve estar achando, como ocorreu comigo, que teríamos pela frente uma narrativa de viagem com pitadas de romance, um tipo de viagem de aventura com direito a longos diálogos sobre relacionamento homem/mulher ao estilo Antes do amanhecer/Antes do pôr-do-sol, filmes memoráveis nesse quesito, que nem todo mundo gosta mas que eu curto de montão (aliás, quando li No teu deserto eu imaginei a personagem de Cláudia com a cara da Julie Delpy).



Nada disso, nenhum romance à vista; fica no ar se rolou alguma coisa entre Miguelito e Cláudia. Será? Ninguém sabe, mesmo quando ambos dormem juntos na barraca. Ou não aconteceu nada, biblicamente falando, ou o Miguel agiu mui cavalheirescamente, por respeito à memória da amiga. Não pude deixar de pensar assim: se o jornalista fosse um brasileiro narrando a aventura, duvido que deixaria de fora um affaire no meio do deserto, compartilhando noites geladas com uma gata dentro de uma barraca de camping. Você duvida?

Deixando essas bobagens de lado, vamos ao que interessa, que é a viagem em si. Um crítico da Folha escreveu que nessa obra reconhecem-se os rastros deixados por escritores como Hemingway, Camus e Paul Bowles, meus ídolos literários.  Se tais traços existem, então eles se encontram bem apagadinhos, bem mesmo. Mas não digo isso para desmerecer o texto do Miguel Tavares, só o faço porque decidi comprar o livro por conta desse comentário escrito na capa de trás da obra e não encontrei ligação entre esta e outras obras dos autores citados, a não ser as coincidências geográficas e o cenário do deserto (a Oran e as travessias de navio, de Camus, o deserto e o povo árabe, de Bowles...)  


Há bons e maus momentos na narrativa do Miguel Tavares. Vamos aos bons, àquilo que faz valer a pena a leitura: a fluidez narrativa, a descrição dos locais, os muitos perrengues pelos quais passaram os viajantes e que dão ao relato uma boa dose de adrenalina, os capítulos enxutos com ganchos que incitam a continuar com a leitura página após página, e o capítulo V, o qual gostei muito e que você poderá ler um trecho logo abaixo.

O que me causou estranheza e me fez torcer um pouco o nariz foi justamente a construção da personagem de Cláudia, que é real e que, falecida, jamais poderá contar a sua versão dos fatos. Entenda: se o relato não é uma ficção, até que ponto o autor tem o direito (ou pelo menos a capacidade) de expressar os sentimentos de um terceiro? Meio delicado, embora o narrador não tenha absolutamente tratado a companheira com um mínimo de leviandade, muito pelo contrário, a impressão que se tem é que a jovem que o acompanhou era mais madura do que ele próprio, homem viajado e muito mais vivido.



E como acontece com tantos escritores, há de se ter um domínio muito bom da escrita e uma percepção muito perspicaz da mente humana para poder caracterizar com autenticidade a identidade do gênero oposto ao daquele que escreve. Há nuances que diferenciam o pensamento e a maneira de agir de homens e mulheres que poucos (as) são capazes de captar. É uma vereda traiçoeira, e o risco é o de não conseguir convencer o leitor de que as palavras que saem da boca da personagem soem verossímeis.

No caso do Miguel Tavares, não consegui deixar abstrair que os pensamentos de Cláudia não eram dela, mas uma projeção do próprio autor (o que sempre será de fato, mas que não deveria ser tão facilmente percebido); em algumas passagens, por exemplo, temos a impressão de que o autor é um tanto egocêntrico, quando não arrogante - outro perigo de falar de si próprio através da boca de outro personagem.

Para completar, não gostei da maneira como o Miguel elaborou a questão da perda, da morte da amiga (que não se sabe se foi amante)... Teria Cláudia cometido suicídio? A história é boa, talvez algumas páginas a  mais tratariam de dar mais corpo à narrativa, talvez ele pudesse explorar mais a questão da solidão, de como uma travessia pelo deserto mexe com os sentimentos do viajante, com sua participação no mundo, como tão magistralmente escreveu Paul Bowles em O Céu que nos protege...

Enfim, de um modo geral, mesmo com alguns tropeços, é leitura que vale a pena essa a do Miguel Sousa Tavares. Fecho o post com um excerto do capítulo que mencionei acima, na única passagem onde pude sentir de verdade o Miguel entregue de corpo e alma à magia do deserto. Namastê!



Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?

Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. Mas, naqueles dias, eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim, por função. Só não tinha pressa à noite, depois de montado o acampamento, cozinhando o jantar, revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando, enfim, me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara.

Um dia, porém, depois de mais uma paragem para colher imagens, ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista, a olhar em frente, como se tivesse desligado de tudo. Ia gritar-te, buzinar-te, quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto, qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, o cabelo varrido pelo vento, me fez ficar quieto ao volante. E fiquei assim a observar-te até que tu virasses e visses que estava à tua espera. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Se não fosse para isso, por que teríamos nós vindo ao deserto?

Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto o deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar.

E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era todo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.


Leia: No teu deserto. Miguel Sousa Tavares. 1ª ed. – São Paulo, 2012. Coleção Folha Literatura Ibero-Americana. MEDIAfashion.

Sul: Viagens. Miguel Sousa Tavares. Publicado em Portugal pela Editora Oficina do Livro. O capítulo final, intitulado “A pista para Tamanrasset” trata da mesma viagem relatada pelo escritor em No teu deserto e acrescenta detalhes pormenorizados da rotina da caravana pelo Saara. Para amantes desse tipo de aventura, vale a pena a leitura.

sábado, 3 de novembro de 2012

Brasileza, by Patrick Corneau


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Minhas caçadas literárias odepóricas têm rendido bons frutos. Um deles, grata surpresa: Brasileza- suítes brasileiras, deliciosa leitura que retrata de maneira muito simpática e honesta nosso povo brasileiro. O autor se chama Patrick Corneau, um professor universitário francês que andou perambulando pelas bandas de cá, imagino eu, na década passada, já que ele não informa a data, mas cita em notas de rodapé eventos desse período. Também não importa, o que interessa é que o Patrick conseguiu publicar um livro que traça um perfil surpreendentemente real daquilo que podemos chamar de ethos brasileiro – o conjunto de costumes e hábitos de um povo que acabam por conferir a ele uma identidade própria, que o diferencia de outras culturas.

E qual a melhor maneira de conhecer o caráter de um povo senão viajando e convivendo com os locais? Foi seguindo esse princípio que o professor e escritor francês Patrick Corneau, botou o mochilão às costas e se jogou pelos quatro cantos desse imenso país.


Seu livro apresenta três capítulos e confesso que não entendi bem a conexão com o termo “Suíte”- talvez tenha a ver com o significado do termo em francês (série, conexão) e que nós logo associamos ao jargão musical. Não entendi, mas achei bonito. Na Suíte Brasileira I (Aqui e Agora) é onde acontece a narrativa de viagem propriamente dita, onde conhecemos os deslocamentos do viajante francês.

O relato se costura entre cidades conhecidas, grandes capitais e depois o matão amazônico. Assim, a aventura começa por São Paulo, e passa nessa ordem pelas seguintes localidades: Rio, Parati, Salvador, Brasília, Iguaçu (com esticadinha ao Paraguai), Belo Horizonte, Ouro Preto, Fordlândia, Manaus, Belém e, finalmente, São Luiz do Maranhão.


Surpreende a qualidade das observações do Patrick sobre a cultura e os fatos históricos dos locais que ele visita; não há futilidade nem nas coisas fúteis como provar uma tigela de açaí, por exemplo; nenhum comentário surge sem que dele se aprenda alguma coisa interessante, sem que se agregue algo que nos ajude a construir pouco a pouco a imagem do povo dos trópicos formado de culturas tão diferentes e por isso mesmo tão complexo em sua própria compreensão. É possível, por conta disso, que ao estrangeiro seja mais fácil construir essa identidade brasileira, porque o olhar do outro vê coisas que nós, de tão habituados, já não mais conseguimos enxergar e, pior que isso, saibamos valorizar.

A empatia é imediata: o autor ama o Brasil e os brasileiros, e nós adoramos aqueles que nos amam e admiram, porque brasileiro de verdade tem o ego inflado que só. Mas nem vamos entrar nesse assunto, que é muito instigante mas que foge do nosso tema. Voltemos ao livro e às viagens. O Patrick deve ser muito organizado, além de inteligente e culto. Faz links interessantíssimos entre aquilo que vê e aquilo que leu e pesquisou. Leu bem, aliás; cita bons mestres que ainda hoje são referência nos estudos sobre o povo brasileiro, como Gilberto Freyre, Claude Lévi-Strauss e Sérgio Buarque de Holanda. E cita Clarice, duas vezes, porque tem bom gosto ou porque foi bem assessorado, disso não sei.


Como disse, sua viagem começa por São Paulo, cidade caótica, de trânsito indomável e à mercê da violência. A poluição e a falta de horizonte são fatores que obrigam o paulistano a buscar alternativas para sobreviver à falta de beleza e de espaço, numa cidade onde tudo acontece em direção ao céu, onde “tudo se apresenta sobre um único plano vertical como uma espécie de muro contínuo e cinzento de concreto”, observa muito bem o autor.

Diz o viajante que o que choca o olhar europeu, ao visitar São Paulo, não é a novidade, mas a precocidade das devastações do tempo. “O Novo Mundo é sempre novo, tanto que vestígios sucedem vestígios sem que o tempo traga uma valorização. Assim que um bairro é edificado às pressas – portanto mal na maioria das vezes -, o ciclo da degradação começa: as fachadas se descascam, a chuva e a poluição deixam manchas e sulcos, o estilo cai de moda, a ordem primitiva desaparece sob um novo frenesi de demolições.”


As observações e os comentários do Patrick ensinam a enxergar além das aparências, algo que se deve tentar praticar nos deslocamentos. Por exemplo, dizer que São Paulo é uma cidade feia é algo óbvio, ainda mais se no contexto houver uma comparação com outra cidade, como o Rio de Janeiro, cartão postal do país. Diz o autor que os que declaram que São Paulo é feia são vítimas de uma ilusão, uma vez que sua beleza selvagem não nasce de sua natureza urbana, e que somente a estética do caos pode nos ajudar a apreender esse monstro.

“Não, São Paulo nunca me pareceu feia, mas indomável, delirante e profética como o cenário de um filme-catástrofe e ébria de movimento, atarefada, ofegante... Finalmente, o que fascina nessa cidade, tão irritante para nossos hábitos de temperança, é essa surpreendente capacidade de fazer misturas, mestiçagens entre o primitivismo e a modernidade, ligando o que nós separamos.”


“Nessa turbulência, essa efervescência cuja razão não distinguimos claramente – uma espécie de condição natural -, mistura complexa de doçura e violência, de vida pública e de vida privada, de razão e afetividade, de individualismo e de clãs há uma ordem sutil que nos conduz necessariamente – se quisermos compreendê-la – a afinar nossa sensibilidade e nossa inteligência.”


Próxima parada: Rio de Janeiro. Mais uma vez, o óbvio, mas não há como não falar do Rio e dos cariocas sem falar da praia, a praia brasileira que “é um espetáculo terrestre luminoso, ensolarado, atmosférico, natal, (...) onde nosso corpo se esparrama, se dilata".

“Diz-se que Ipanema destronou Copacabana nos desfiles de tecidos minúsculos. Mas nada de seios de fora. Mal visto, esse gesto caracterizava outrora as escravas. (...) No ano passado, numa praia de Fortaleza, fui surpreendido pelo gesto de uma bela Lolita que, saindo da água, jogara com pudor sobre si uma saída de banho ligeiramente transparente como para esconder o esplendor de suas formas no espelho parabólico da concupiscência. Jean Baudrillard, fino observador, disse tudo: Os brasileiros (as) têm uma maneira de estar mais nus do que nós, pois eles estão nus por dentro. Nós apenas tiramos a roupa”.


Passagens interessantes sobre o Rio de Janeiro, numa delas me veio à memória velha canção dos Paralamas, aquela que diz – referindo-se à capital fluminense - “cidade que tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real”, e o Rio me parece ser bem isso, realidade que se projeta país afora, com certeza, pois mudam as paisagens, os sotaques, mas o povo continua sendo o mesmo, compartilhando desde sempre as desigualdades sociais terceiromundistas.

É possível, tanto no Rio quanto em São Paulo enxergar a beleza implícita no contraste dessas desigualdades, e o jogo na verdade desse relato de viagem é esse, talvez a mensagem que o autor quis passar, a de que o Brasil continua a ser uma terra de contrastes, como sempre foi. Toque de poesia do autor:



“Rio, noite lá fora, jantar num clube chique na Urca. Beleza das favelas que se transformam em constelações de luzes multicolores, e escorrem dos morros para o mar como um diadema colocado sobre a cidade. Unidade sideral que se procuraria em vão durante o dia, emblema de inversões com as quais não se cessa de brincar aqui: é a miséria diurna que produz a maior beleza noturna, como se a injustiça social pudesse ser compensada, mesmo ‘esteticamente’.”

Em Parati o viajante encontra as portas das igrejas escancaradas...vem daí a deixa para falar de algo que me interessa particularmente, a religiosidade popular brasileira. Pela narrativa, imagino que o autor entrou naquela igreja de Parati no momento em que acontecia uma missa carismática, do tipo em que o povo se solta mais, cantando e até dançando, dependendo da maior ou menor exaltação do pároco. Se aqui já começamos a nos acostumar com a “performance” carismática, lá fora o lance ainda parece bem peculiar:



“Assistimos a uma pregação interativa: o padre interpela os fiéis, cita os Evangelhos, questiona, manda levantar a mão. Ele entoa em seguida um cântico, uma pequena orquestra o acompanha, a assembleia bate palmas e entra no embalo. O padre parece feliz com o ambiente, ele se volta para o fundo do coro e lança (em francês): ‘Então padre, você canta conosco?’. Sentado ao lado das crianças do coro, um velho padre francês balança timidamente a cabeça grisalha, com ar incomodado, embaraçado, sem dúvida por esse fervor bastante (demais) tropical. Esse catolicismo convivial explica-se em grande parte pelo caráter intimista que pode revestir no Brasil a devoção. Mais religiosidade do que religião, é um culto amável, quase fraterno, que não cabe bem no cerimonial e suprime as distâncias. Diz-se que mesmo a ponta do Vaticano, se se instalasse no Brasil, não resistiria à irreverência local e que em alguns dias o papa teria um apelido de camarada.” 


Em Salvador o viajante se pega olhando para o céu noturno em busca do Cruzeiro do Sul e a Bahia tem as noites mais lindas que alguém pode ver na vida.... isso quem diz sou eu, mas não são as estrelas do céu de Salvador que impressionam o viajante francês, senão os tambores do Olodum, os de lá do Pelourinho, “num ambiente superaquecido, apimentado pelo cheiro de suor, os rostos hesitando entre furor dionisíaco e terror místico, os dançarinos, em frente à orquestra, avançavam por ondas sucessivas, como imantados pela energia radiante das percussões”. Diz o Patrick que não é o rumor do trânsito que ritma Salvador, mas o bater incessante dos tambores que, de quando em quando e onde quer que se esteja, marca as horas. Impossível discordar dele.



Brasília, BSB, “asfalto e concreto demais, cidade matemática onde se sente que um samba não pode nascer”, escreve ele. Fiquei surpreso ao ler o que vem a seguir, uma passagem que tem muita afinidade com uma das canções mais marcantes e idolatradas da Legião Urbana, Faroeste Caboclo: “Uma cidade de faroeste, humana e suja, miserável e cheia de vida, com suas reverberações, seus ônibus, suas mães de família, trombadinhas... enfim, um repouso benfeitor para os aventureiros e para o olhar do visitante, uma cidade perfeita!”


Falar de Brasília é também falar de Niemeyer, evidentemente. Pois não há neste país cidade onde a arquitetura seja mais discutida do que na capital. Ame ou odeie (seu trabalho), Oscar Niemeyer é um gênio, mas nem por isso temos que gostar do seu estilo, de sua marca. Embora suas obras nem sempre agradem (como aquela pavorosa mão sangrenta no Memorial da América Latina, em Sampa), jamais alguém fica indiferente à presença de algum de seus inúmeros e representativos trabalhos. Tudo bem, nem Gaudí consegue agradar todo mundo sempre, então não tem problema.

E a questão é que a arquitetura brasiliense vai muito além das aparências, cheia de simbolismos que só. Curiosamente, o autor não se prende à arquitetura da capital, mas à imensidão mágica do céu do planalto central:


“Na Praça do Três Poderes, desesperado por não ter nada que se pudesse fotografar, entendo que ali estou pelo ‘amor ao céu’. Para o céu imenso de Brasília, ‘The Big Sky’ – diriam os americanos-, céu cuja doçura caída sabe-se lá de onde parece quase nos fazer esquecer a terra. Era então essa a finalidade da viagem? Seu oriente? A imensidão, simplesmente. Imantada pela visão nostálgica dessas nuvens de altitude ao mesmo tempo tão longe e tão perto, suspensas na vastidão de um céu original que parece ter sido pintado por Dalí ou Tanguy, entrevistas outrora em algum documentário e que me acenavam. O que havíamos esquecido não nos esquece. Sonhar, viajar, têm por base um sous-venir que não cessa, que persiste em sobrevir ao seio de tudo. Já que no mundo falta espaço, a dimensão é a atração dos turistas que nos tornamos. Só a Sibéria, a Antártida e o Saara podem rivalizar com a imensidão brasileira, mas o clima naqueles lugares é desastroso. É por isso que o governo brasileiro, em sua sabedoria, construiu Brasília e cravou suas florestas virgens de estradas...”

Por mais que tenha vontade de compartilhar cada passagem dessas suítes brasileiras, sinto que já escrevi mais do que deveria; já li muitos artigos e algumas obras de visitantes estrangeiros escrevendo sobre o Brasil, mas nenhum escritor me pareceu captar tão bem o ethos brasileiro quanto o Patrick Corneau.

Gostei demais de sua obra, que segue o estilo da escrita fragmentária, tipo de literatura onde “o narrador viajante desloca-se, com frequência sem transição, da nota histórica, lendária ou própria do guia do viajante para o devaneio poético, da descrição da monumentalidade ou da paisagem humana para uma micro-narrativa de enredo sentimental ou aventuroso, sempre fiel a uma estratégia da alternância, potenciando o caráter dinâmico de uma escrita fragmentária e de algum modo adotando a técnica do patchwork” (Maria de Fátima Outeirinho, “Fragmento e Narrativa de Viagem” em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6712.pdf).

Viajar é responder a um chamado, escreve o Patrick Corneau, já finalizando seu texto na estimulante Suíte Brasileira III (Travelogue). O trecho que transcreverei abaixo é das coisas mais bonitas e mais profundas que já li sobre a arte de viajar, algo que eu adoraria ter escrito algum dia. Brasileza é uma obra para ser lida e relida com imenso prazer. Merci, Patrick!



Que proveito tirar da viagem senão o de assumir totalmente a condição de estrangeiro? A estranheza dos estrangeiros, mas também nossa própria estranheza? Um idioma que não compreendemos, uma sociedade e um cotidiano que parecem nos rejeitar, céus que não nos viram nascer. Nada para nos confortar. A viagem quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível dissimular: eis-nos desnudos. A cortina dos hábitos, a tessitura confortável dos gestos e das palavras em que o espírito se apazigua se ergue lentamente e desvela a face pálida da inquietude.

Ficamos reduzidos ao osso das coisas, e cada coisa nos remete a nossa angústia, a qual lhe dá sorrateiramente seu preço. O homem está face a face consigo mesmo. E é, no entanto, por aí que a viagem o ilumina. Um grande desacordo acontece entre ele e as coisas. Entre ele e essa parte de si mesmo à qual era acostumado e que não reconhece mais. Nessa falha, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse despojamento de si, a menor árvore e o sorriso mais leve se tornam a mais terna e a mais frágil das imagens. De novo se aprofunda em nós, com que uma fome da alma, um fervor reencontrado: não estamos prestes a acolher os rostos dos homens enraizados em sua terra, os monumentos nos quais séculos se resumem. Por último, essa fração de nós mesmos desprendida da vida trivial onde rastejamos.


Para dar a cada ser e a cada objeto seu valor de milagre, foi-nos preciso pagar o imposto de um curto abandono. É um de meus exercícios favoritos quando viajo: mudar de pele, pegar um destino-minuto, entrar na vida de um outro e trocar sua opacidade pela minha. As oportunidades são múltiplas para quem não se resigna em ser si mesmo e que, como o Zelig de Woody Allen, entra no molde ou no papel que lhe propõem. Os restaurantes, principalmente quando o serviço demora, são perfeitos observatórios da diversidade humana e favorecem esse exercício de compaixão.

Assim era aquela pizzaria no centro de Manaus, onde parecia ter encalhado uma clientela de viajantes que não queriam se afastar de seus hotéis. As pessoas sozinhas são sempre mais interessantes: não solicitadas por uma conversação ou a presença de outrem, parecem menos protegidas. Um olhar que vagueia pelo salão diz mais do que uma conversa educada. Um gesto ligeiramente inesperado revela de repente uma existência com seu peso de fatalidade, suas dificuldades, suas falhas secretas. (...)


“A finalidade da viagem é a de sentir-se próximo dos Longínquos e consanguíneo dos Diferentes. Sentir-se em casa na concha dos outros. Como um bernardo-eremita. Mas um bernardo-eremita planetário. (citando Jacques Lacarriere, escritor viajante)”.
Saudades do Brasil...



No vôo noturno São Paulo/Paris, dois franceses se jogam pesadamente nos bancos à esquerda e à direita do meu. Com roupas de “mochileiros em férias”, eles começam tirando os sapatos, enrolando-se nas cobertas e botando os pés descalços na divisória entre nossos assentos. Um deles inclinou a poltrona antes da decolagem e passou os braços para trás do encosto, o que parecia incomodar o passageiro de trás. Apoderando-se de minhas duas braçadeiras (“é ‘meu’ lugar”), eles vão passar uma parte do vôo falando por cima de minha cabeça, passando revistas sem emitir o mínimo “com licença”.

Volta à França. Acabaram-se gentileza, sorrisos e boas maneiras. Bem-vindo ao mundo moderno da indelicadeza e da pangrosseria. Desgraça. Saudades do Brasil.
Leia: Brasileza: Suítes Brasileiras. Patrick Corneau. (trad. Mônica Cristina Corrêa). São Paulo: Perspectiva, 2007