domingo, 23 de dezembro de 2012

Motivos para viajar (ou não), by Michel Laub


O jornal Folha de São Paulo da última sexta-feira, dia 21 de Dezembro, publicou no caderno Ilustrada um artigo do colunista Michel Laub sobre os motivos para viajar (ou não) que li com enorme prazer. Escreve muito bem o gaúcho Michel Laub, cujo blog vale uma visita demorada. Divido com os leitores do Odepórica o artigo acima citado, deixando para refletir a pergunta que o autor do texto marcou em negrito em sua coluna: Existe autenticidade possível em 30 dias de aventuras programadas? Namastê!

Motivos para viajar (ou não). Michel Laub



Millôr Fernandes dizia que um homem pode admitir qualquer fraqueza, inclusive as de cunho sexual, mas jamais se declara um mau motorista. Algo semelhante acontece nesta época do ano, em meio à praga confessional de esperança e tristeza relativa à passagem do tempo: quantas pessoas falam publicamente que não gostam de viajar?

É uma espécie de interdição, que ganhou força de algumas décadas para cá. Algo das premências bélicas e econômicas que motivaram a expansão dos impérios desde sempre, e se intensificaram a partir das navegações do século 15, desaguou na ideia da viagem como descoberta não apenas científica e social, mas também como o que modernamente se chama de autoconhecimento.

Junte-se a isso a noção romântica --e consumista-- de que se deve viver com intensidade, de que a experiência prática e sensorial é mais emocionante que a cultura livresca, e tem-se um modelo de conduta. A exemplo da felicidade, da saúde e da energia para o trabalho, sair de casa nas férias e fins de semana --e fazer o devido relato-- passou a ser quase obrigatório.

Só que há vários tipos de viagem, e nem todas gozam do mesmo prestígio. A vida nômade de um Ryan Bingham, executivo vivido por George Clooney em "Amor sem Escalas", não chega a ser um modelo simpático. Seus prazeres mesquinhos com cartões de milhagem, bagagem compacta e sushi de aeroporto, o que jamais veríamos num livro de Conrad, T.E. Lawrence ou Bruce Chatwin, não são coisas a compartilhar por aí. Menos ainda sua incapacidade, outro tabu de nossa era, de ter as também modernamente chamadas relações afetivas verdadeiras.

Bingham está várias posições abaixo dos exilados, aventureiros e "flaneurs", mas várias acima do turista. Todo mundo parece estar acima do turista. O que é um paradoxo: enquanto o consenso público destaca seu valor no desenvolvimento (nem tão) sustentável, que distribui riqueza sem prejudicar (tanto) o meio ambiente como o agrobusiness e a indústria, ninguém esclarecido quer ser associado a essa figura --cujo modo de vida, definiu David Foster Wallace, é "se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores sem a sua presença".

Num mundo uniformizado, em que quase todas as experiências são acessíveis por cartão de crédito, resta saber se estamos tão distantes desse clichê. Existe autenticidade possível em 30 dias de aventuras pré-programadas? Para viver a fantasia de pairar acima da manada, basta apenas não usar boné e meias até o joelho, trocando as fotos da Disneylândia pela praia sem eletricidade, o show de ingressos esgotados, o "restaurantezinho"?

Clichês podem ser cristalizações de sabedoria, e nada tenho a priori contra eles. Como quase todas as pessoas, gosto de conhecer outras cidades e culturas, e sou tão turista quanto se pode ser. Apenas noto uma segunda contradição: quando tudo o que se busca é a sensação de raridade, de que nesses 30 dias viveremos longe dos padrões do resto do ano, o que talvez seja o grande prazer de viajar, reproduzimos o comportamento mais competitivo e previsível das esferas social e profissional.

Ou seja: a cada vez que postamos fotos de paisagens, pratos, drinks e sorrisos, sugerindo que nossos dias de pausa espiritual vêm sendo tão surpreendentes e radiantes, trocamos a fruição direta da experiência, com seu risco de tédio e fracasso, por uma demonstração burocrática de status. Não há autoconhecimento sem uma dose de introspecção, angústia, decepção e acaso, e a tarefa de fazer e exibir o oposto é mais familiar ao trabalho e à autoajuda.

Nesse sentido, e se o critério for mesmo o de originalidade, há alternativas melhores para as férias. Em seu clássico "Viagem à Roda do Meu Quarto", Xavier de Maistre mostra que "dilatar a existência" é possível tanto em terras distantes quanto sobre a própria cama --o "móvel prazeroso" onde "esquecemos durante metade da vida as tristezas da outra metade". A questão, saindo ou não de casa, com ou sem companhia, é o quanto se está disposto a isso.
O texto acima foi retirado do site da Folha. Acesso em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/1204357-motivos-para-viajar-ou-nao.shtml

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Brasil no olhar dos viajantes - documentário TV Senado

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Repasso aqui o release de um programa que tem tudo a ver com a temática do Odepórica.




O BRASIL VISTO POR ELES

No dia 22 de dezembro, a TV Senado estreia o primeiro episódio da série Brasil no olhar dos viajantes, um documentário sobre os relatos das primeiras viagens feitas ao país e a influência que eles tiveram na construção da nossa imagem perante o mundo e entre os próprios brasileiros. No momento em que vários países voltam o olhar para o Brasil, seja por sua atuação no cenário econômico, seja pela preparação dos eventos grandiosos que estão por vir, Brasil no olhar dos viajantes retoma a questão da identidade nacional a partir dos relatos daqueles que primeiro tentaram decifrar este país.

O primeiro documentário percorre o período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. Apesar da restrição imposta por Portugal para a vinda de outros navegantes europeus após o descobrimento, franceses e holandeses, em suas tentativas de colonização no território brasileiro, bem como os ingleses e alguns aventureiros, entre eles o alemão Hans Staden, deixaram registros de sua passagem por estas terras.

Pelos relatos de viagem, é possível entender a atmosfera criada pela descoberta do Novo Mundo. Navegadores, aventureiros, comerciantes e religiosos enfrentaram todo tipo de percalço e cruzaram o Atlântico em busca do “paraíso terrestre”. Lançaram-se mar adentro meses e meses rumo às terras ainda desconhecidas e se depararam com um mundo completamente diferente de tudo o que se sabia. Um cenário composto por uma paisagem exuberante e ameaçadora, “cheia de todo gênero de feras”, e por homens que viviam “como animais irracionais”, sem nenhum traço de civilidade, como eles próprios descreviam.

Brasil no olhar dos viajantes resgata esse contexto histórico e mostra como as narrativas de viagem produzidas lá fora influenciaram de modo significativo a formação da nossa identidade. O olhar estrangeiro sobre a forma de exploração desse imenso território e de suas riquezas naturais; o entendimento da relação entre exploradores e nativos; o olhar crítico sobre os costumes dos índios, dos colonos e sobre o comportamento lascivo das mulheres dos trópicos podem ser lidos em vários textos desses viajantes. Textos que circulavam pela Europa da época e acabaram tornando-se referências para nossos intelectuais séculos depois na construção da nacionalidade brasileira.

Com a participação de historiadores, sociólogos e pesquisadores, o documentário Brasil no Olhar dos Viajantes mostra os testemunhos de homens que viram um país ainda desconhecido, primitivo e exótico tecer as bases de sua sociedade e de sua história.


Brasil no olhar dos viajantes, 2012
Estreia: dia 22 de dezembro, às 21h30
Direção: João Carlos Fontoura
Duração (episódio): 60min
Reprises: sábado, 22 – 21h30 / domingo, 23 – 12h30 / segunda, 24 – 19h00
terça, 25 – 17h00 / sábado, 29 – 14h30/ domingo, 30 – 20h30/ segunda, 31 – 23h00


Sinopse: Documentário investiga os relatos dos estrangeiros que estiveram no Brasil entre os séculos XVI e XIX e mostra como eles contribuíram para consolidar a imagem do Brasil no exterior e entre os próprios brasileiros.

Assista às chamadas no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=MdmH0j9_sgU

https://www.youtube.com/watch?v=972Zw12pFRI

https://www.youtube.com/watch?v=abDPQIKrbic&list=UULgti7NuK0RuW9wty-fxPjQ&index=1




COMO SINTONIZAR A TV SENADO:

Canais: 07 NET, 118 SKY, 183 TVA, 903 Oi e 121 Via Embratel.
Em operação: Brasília Canal 51 UHF (Geradora da Rede) e 50.1 digital UHF; Gama (DF) Canal 36 UHF; São Paulo (SP) Canal 61.3 digital UHF; Salvador (BA) Canal 53 UHF; João Pessoa (PB) Canal 40 UHF; Recife (PE) Canal 55 UHF; Manaus (AM) Canal 57 UHF; Natal (RN) Canal 52 UHF; Macau (RN) TV Litorânea - canal 22- emissora de TV afiliada a TV Senado; Cuiabá (MT) Canal 55 UHF; Fortaleza (CE) Canal 43 UHF; Rio Branco (AC) Canal16 UHF; Rio de Janeiro (RJ) Canal 49 UHF (Zona Oeste).
Entrevistados da série

Jean Marcel Carvalho França
Professor de História do Brasil Colonial - Unesp

Sheila Moura Hue
Professora Visitante de Literatura da UERJ

Carmen Lícia Palazzo
Pesquisadora e Doutora em História pela UnB

Ronaldo Vainfas
Professor Titular de História Moderna da UFF

Evaldo Cabral de Melo
Historiador

Pedro Alvim
História da Arte

Paulo Knauss
Professor de História da UFF e Diretor-geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Carlos Martins
Museólogo e pesquisador da Pinacoteca - SP

Victor Leonardi
Escritor e historiador

Dirceu Franco
Historiador do Instituto Hercule Florence

Karen Macknow Lisboa
Professora de História do Brasil da USP

Lacê Medeiros
Professor e pesquisador de Biologia da UnB.

Maria Angélica Madeira
Professora do Instituto Rio Branco e pesquisadora da UnB.

Mariza Veloso
Socióloga e professora do Instituto Rio Branco e da UnB.