domingo, 1 de dezembro de 2013

Tarde sertaneja, by Visconde de Taunay

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Tarefa difícil, para quem tem paixão pelos livros, é ter que abrir espaço em estantes e prateleiras para que novas obras que chegam ocupem o lugar das que devem partir. Nessas horas, parece que não usamos muito a razão e o que determina essa “escolha de Sofia” livresca é mesmo o apego emocional à coleção.

Há certamente os livros que jamais sairão da nossa biblioteca particular, os nossos amores eternos, os que nos acompanham desde a primeira leitura e mesmo que jamais relidos, ficam ali, fazendo-nos felizes pelo simples fato de existirem e estarem pertinho de nós; há os clássicos, evidentemente, que também não podem ser assim descartados por qualquer best-seller da moda, mesmo que você goste mais do Dan Brown do que do Proust. Por isso aprendi a ser prático: livros da moda ou tomo emprestado ou nem leio. Se sair o filme então, melhor ainda, resolvo tudo em duas horas e pronto. Gastar meu tempo de leitura, por hora, só com o que vale a pena.


Há obras que mantenho por questão intelectual, a maioria delas literatura acadêmica, mais voltadas para o estudo e há as que guardo por questão estética mesmo: o texto é ruim, mas as gravuras ou as ilustrações são de primeira, sendo assim, ficam na estante - para os chiques, na mesinha de centro fazendo pose.

Não vão embora nunca as que fazem parte de coleções temáticas: minhas obras de Literatura Odepórica, do Ciclo Arturiano, dos autores beats, coleção cervantina, todas as de poesia, de autores e temas relacionados às Minas Gerais, e as que separo por autores/as queridos/as, que nem vou citar porque poucos não são.

Como se vê, na hora de descartar, não sobra muita coisa, mas ainda assim juntei duas caixas para doação e uma sacolinha com bons títulos que darei à Miss Cely Blues, jornalista araraquarense que ama os livros como ninguém nessa terra. Tô te esperando em Sampa, Cé!


E nesse “vai ou fica” de hoje, salvei de última hora, da caixa dos rejeitados, uma obra misteriosa: sem título, sem autor, sem nota alguma que possa identificá-la, encadernada naquele bonito tom de verde musgo antigo, páginas internas em sépia e com ortografia que remete às primeiras décadas do século passado. Trata-se de uma coletânea, em cuja página inicial destaca-se o título Primeira Parte: Prosa; quatrocentas e cinquenta e tantas páginas adiante, outro título: Segunda Parte: Poesia.


Foi um anjo quem me fez retirar da caixa esse livro; iria perder um pequeno tesouro, que só fui notar ao folhear mais atentamente a obra: um compêndio de todos os mais importantes autores da literatura brasileira do século XIX com notas biográficas e excertos breves de suas principais obras. Como acredito que nada ocorre por acaso, abri o livro na página 37 e encontrei uma pequena joia intitulada Tarde Sertaneja, uma passagem da obra Inocência, do Visconde de Taunay que tem tudo a ver com o universo das viagens.


O Visconde, nascido Alfredo d’Escragnolle Taunay, foi oficial do exército, professor, político, romancista, historiador e compositor musical. A nota primordial, a face principal de sua obra é o seu brasileirismo, não só na escolha dos assuntos e nas descrições e paisagens que pintou, como até na linguagem e na maneira de escrever: caracteristicamente brasileiro no sentimento e na expressão. Tudo indica, numa pesquisa rápida pela web, que o Taunay foi um homem muito bacana e digno.

Você lerá a seguir uma breve passagem de sua obra mais conhecida, Inocência, onde o autor descreve um fim de tarde no sertão, presenciado por um viajante que cruza aquelas áridas terras montado em um cavalo, aventura que o próprio visconde deve ter vivenciado em suas viagens pelo Brasil. No final do post, deixo um link para quem tiver interesse em ler uma narrativa de viagem, na íntegra, do Visconde de Taunay. Até a próxima!
Tarde Sertaneja


Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não criam mais os buritis; gemem, e convulsivamente agitam as flabeladas palmas. É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d’água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e cavalga.


Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!


Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Enegrece o solo; formam os matagais sombrios maciços, e ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.


É a hora em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer ruído nos causa sobressalto; ora, o grito aflito do zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Frequente é também amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.


Quem viaja atento às impressões íntimas, estremece malgrado seu ao ouvir, nesse momento de saudades, o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossível. São insetos ocultos na macega, que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita, que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fora a doudejar e a criar mil fantasias.
Para baixar a obra Cenas de viagem de Visconde de Taunay, clic aqui! 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A caminhada: notas sobre uma imagem romântica, by Jeffrey C. Robinson

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Pode parecer estranho, nos dias que correm, alguém se dispor a escrever sobre um ato simples e até certo ponto banal sobre o ato de caminhar.  Não estou falando sobre a caminhada enquanto exercício físico, aquela que milhares de pessoas mundo afora praticam rotineiramente com o propósito seguro de manter a saúde em dia e ainda de quebra arejar a mente e os pulmões. A caminhada a que me refiro é aquela em desuso, démodé em sua própria essência e romântica por natureza: a caminhada que exercita o corpo, a mente e o espírito.

Partindo dessa premissa romântica da caminhada, no sentido literário da questão, foi que o acadêmico, professor de literatura da Universidade de Glascow, Jeffrey C. Robinson escreveu uma interessante obra intitulada The Walk: notes on a romantic image. (A Caminhada: notas sobre uma imagem romântica). O professor Robinson é um apaixonado pelos poetas e escritores do período romântico (séculos XVIII e XIX) e em suas pesquisas notou que muitos daqueles escritores e poetas românticos eram também bons caminhantes, do tipo que saíam por aí flanando sem pressa, atrás, quem sabe, de inspiração para um próximo poema ou romance.



Pelo que lemos sobre o período romântico europeu, em particular em países como Alemanha, França e Inglaterra, a ênfase do movimento estava na liberdade individual de expressão: sinceridade, espontaneidade e originalidade tornaram-se novos padrões nas artes, substituindo as imitações dos modelos clássicos; os românticos voltaram-se para o caminho da experiência pessoal, da imaginação sem limites e da aspiração individual, valorizando os aspectos mais particulares da vida afetiva.

O próprio autor formula a questão que se segue: Por que a caminhada é uma imagem tipicamente Romântica? Para Jeffrey, a caminhada é de ordem fundamentalmente espiritual e trata essencialmente da conquista da felicidade. Não que isso tenha surgido com o romantismo, mas parece que nesse período houve uma busca nesse sentido, a caminhada como facilitadora desse processo de bem estar, ou, indo ainda mais longe, de transcendência espiritual. A caminhada, opina Jeffrey, “ressalta o drama do confronto entre o mundo interior e o mundo exterior, mundos que coexistem em diferentes graus de compatibilidade”.



Como não poderia deixar de ser, o autor vai calçar as questões básicas de seu texto - a imagem romântica e a caminhada deambulatória - em pensadores, escritores e filósofos que notoriamente curtiam uma boa caminhada; aqui nem importa o ritmo, o local e a distância, de modo que leremos ao longo do ensaio as palavras de um iluminado Bashô, o sábio peregrino japonês, passando por Laurence Sterne, Baudelaire e Rousseau.

Vem desse último, Rousseau, uma das passagens das quais mais apreciei desse ensaio e o capítulo cujo trecho você lerá a seguir intitula-se “O caminhar e a solidão”:



Eu nunca refleti tanto, existi tão vividamente e experienciei tanto, nunca fui tão eu mesmo – se é que posso usar essa expressão – quanto nas jornadas que fiz sozinho e a pé. Há algo sobre a caminhada que estimula e anima meus pensamentos. Quando eu permaneço em um lugar eu mal consigo pensar, meu corpo tem que estar em movimento para que minha mente siga funcionando.

A visão dos campos, a sucessão de vistas agradáveis, o ar puro, o apuro sonoro e a boa saúde que ganho ao caminhar, a atmosfera simples de uma pousada, a ausência de qualquer coisa que me faça sentir dependente de algo, de tudo o que me recorde de minha situação – tudo isso serve para livrar meu espírito, para deixar meus pensamentos mais arrojados, para me jogar, por assim dizer, na vastidão das coisas, de modo que eu possa combiná-las, selecioná-las e torná-las minhas conforme meu desejo, sem medo ou limitação. Disponho de toda a Natureza como mestre.



Pulando páginas, dois capítulos à frente, chegamos no “Caminhante urbano” cujo parágrafo inicial trata de um tema bastante simpático: um homem e seu cachorro. Sua leitura me fez lembrar dos solitários sem-teto, vagamundos que povoam as ruas das cidades grandes, e acredito que São Paulo, cidade de onde escrevo, deva ser uma das que mais alberga esses tipos de cidadãos, quer por opção, por conta de um vício, um problema psiquiátrico ou por total falta de oportunidade. Trouxe essa imagem à mente porque sempre me comovo quando observo os cachorros que acompanham essas pessoas que vivem à margem da sociedade: a fidelidade e o amor incondicional, tão próprio desse animal, em sua máxima expressão. Dizem que os cães são por eles adotados como proteção, mas também acredito que a companhia tem o mesmo peso nessa equação, senão maior.


O Jeffrey diz que muitos viajantes asseguram que a jornada tem que ser solitária: você, um par de botas e o horizonte à frente, nada mais. Mas nessa empreitada, quiçá, o cão pode ser o acordo perfeito entre a severidade da solidão e uma companhia tumultuada, agregando de maneira positiva a liberdade almejada e a companhia de alguém que não perturba. “Sem restringir os pensamentos de quem viaja, o cão conforta o caminhante em sua solidão, refletindo suas atividades, e como a imagem de um espelho, o cão exige do ser caminhante seus próprios movimentos contínuos na jornada; a pessoa e o cachorro compõem uma caminhada idílica.”



Depois disso cita Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (explicando que o alemão muitas vezes agregava um cão em seus romances) que publicou um romance famosíssimo intitulado “Um homem e seu cão” (A Man and His Dog) - até onde pesquisei não publicado por aqui, mas tem lá no site da Amazona (used) e o preço não é nada camarada. Ficamos na vontade mesmo.

Nesse mesmo capítulo – o do caminhante urbano - surge um lance bem interessante, quando o autor começa a divagar sobre obras de arte fotográficas que retratam caminhantes pelas cidades, clicadas por André Kertesz, onde vemos impressas duas delas: “Washington Square, Winter, 1954”



 e “Pont Neuf, Paris, 1931”




Interessante porque ele faz uma leitura comparativa entre o olhar do fotógrafo, que parece gostar de clicar pessoas solitárias andando pelas ruas, e aquilo que outros escritores publicaram sobre os homens, a solidão e as cidades. Diz que, “de um ponto de vista Romântico, a cidade moderna é o lugar do isolamento e da alienação”. Semelhante às telas encantadoras de Edward Hopper, quem melhor no mundo retratou o ser solitário das cidades, com a diferença de que em suas pinturas as pessoas se encontram sempre numa melancólica inércia contemplativa, raramente em movimento e quase sempre sentadas.



Coincidentemente, quando chego ao próximo capítulo, vejo que a arte pictórica é cara ao autor, que escreve sobre uma “jornada através de uma exibição de Degas” no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Um capítulo que mereceria fazer parte do currículo de um bom curso de escrita criativa, uma aula de como observar uma obra de arte para além de sua aparência. E o interessante é que tudo o que ele escreve, cada nota que transcreve de seu bloquinho de anotações, tudo faz parte de um jogo onde o que importa é o proveito que se tira do passeio, a troca entre o sujeito e o objeto por ele observado – e por objeto se entende não só as pinturas de Degas como as pessoas que transitam pelas salas, as molduras penduradas nas paredes e tudo o mais que o cerca dentro daquele espaço-tempo liminar. São suas as palavras a seguir:



Viajando pelo museu eu pude imaginar todos estes Degases acorrentados às paredes, num estado de submissão, enfileirados em corredores em vez de estarem dignamente pendurados nas paredes dos verdadeiros apaixonados, numa sala cheia de personalidade e até mesmo devoção. E mesmo estando todas juntas, elas assumem o poder de uma comunidade ideal, se rivalizam, conversam umas com as outras. De fato, talvez o burburinho geral dos caminhantes pelas galerias é somente um eco dos sussurros entre as próprias pinturas. Pinturas dentro de pinturas; caminhadas dentro de caminhadas; sussurros dentro de sussurros. Essas repetições são de um tom muito mais sutil. 

E antes que o livro termine, o Jeffrey divaga sobre o papel das pontes, um tema fascinante dentro dos estudos simbólicos que ele explora quase que superficialmente, fechando o ensaio com uma breve menção à carta do Louco no Tarô, que alguns estudiosos colocam como sendo a carta zero dos 22 arcanos maiores, e outros como sendo a última, a que fecha o ciclo da jornada. Uma escolha mais do que sugestiva para terminar um ensaio sobre a caminhada. Namastê!



Fonte: The Walk: notes on a romantic image. Jeffrey C. Robinson. Dalkey Archive Press, 1989. London. 144pp.



domingo, 22 de setembro de 2013

O que faço eu aqui? by Bruce Chatwin

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Todo viajante em algum momento da vida, entre chegadas e partidas, um dia se pergunta: O que estou fazendo aqui? Bruce Chatwin, que é um dos grandes da literatura odepórica, tem um livro que leva como título essa indagação: What am I doing here?

Relendo essa obra de Chatwin, um apanhado de artigos publicados em jornais e revistas, percebo como sua escrita era especial; sua prosa e suas narrativas de viagem, que se mesclam indiscriminadamente a ponto de não sabermos quando se trata de ficção ou realidade é uma de suas marcas registradas e ao mesmo tempo uma atitude que o desqualifica perante alguns críticos de sua obra – discussão que já vimos aqui no blog em outro post sobre o autor.


O que temos de bom nessa obra póstuma de quatrocentas páginas do incansável trotamundos Bruce Chatwin? Bom, são muitas páginas e nem tudo é assim tão interessante quanto os momentos em que vemos Chatwin em movimento, coisa que ele soube fazer muito bem, graças a seu perspicaz olhar de viajante e sua rica bagagem cultural.

São onze capítulos e todos eles tratam basicamente das seguintes questões: das amizades, dos encontros, das pessoas, dos lugares e, claro, das viagens; tudo se conecta, afinal que sentido teriam as viagens sem os encontros, as gentes, os lugares e suas geografias? Era exatamente isso o que Chatwin explorava em seus deslocamentos e o que me faz gostar muito de suas obras é o fato dele priorizar o encontro com o outro.


Quando penso sobre isso, a importância dos relacionamentos interpessoais, recordo os textos de Martin Buber, brilhante filósofo austríaco de ascendência judaica conhecido como o “profeta da relação”, para quem o ser humano só é capaz de se realizar na relação com o outro, afirmação esta muito simplificada de um complexo e fascinante estudo sobre a alteridade.


Em sua filosofia da Relação, Buber amplia o conceito de relação que ultrapassa a simples ideia de relacionamento entre os seres humanos, uma vez que Deus também participa do Encontro; para o pensador, o mundo da relação se realiza em três esferas: a vida com a natureza, a vida com os homens e a vida com os espíritos. Essa filosofia encontra ecos nas palavras do sábio hindu, Swami Vivekananda, que diz que “a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens”.


Não tenho a intenção de direcionar meus pensamentos sob um ponto de vista filosófico/espiritual, mas recorro vez ou outra a essas questões por perceber que o estudo das viagens, tanto as nossas quanto as dos outros, pode servir como um instrumento de autoconhecimento. Alguém escreveu um dia - não sei quem, nem onde, e nem quando porque anotei as palavras em um pedaço solto de papel – que a maneira como Buber encara a existência revela-se útil para considerar o modo como encaramos as viagens e o que enfatizamos nela. 

Daí o gancho para a pergunta: o que você enfatiza em suas viagens? Lugares, paisagens, pessoas, compras, diversão, sexo? Pode ser que seja, ao fim e ao cabo, uma soma de tudo isso, mas a verdade é que a balança sempre vai pender para um dos lados e em assim sendo, alguma coisa vai ter um peso maior, justamente aquilo que você enfatiza mais. O ponto aonde quero chegar é precisamente este: o modo como você viaja revela quem você é.


É um exercício interessante, por exemplo, o de decifrar a personalidade de um autor que discorre sobre suas aventuras em alguma narrativa de viagem; para mim os mais sonolentos são os ególatras, para os quais não existe o mundo para além da primeira pessoa: eu, eu e eu; pior que estes são aqueles que viajam e criticam o tempo todo a cultura alheia, comparando-a sempre que possível com a de seu país de origem, coisa que PaulBowles gostava de botar em seus romances: turistas arrogantes disfarçados de viajantes mais nojentos do que latrina entupida de banheiro de rodoviária. Desses há um montão por aí.

Gosto mesmo dos que viajam e não perdem o bom humor nem nas piores situações e em geral são aqueles que a gente escolheria para sentar numa mesa de bar e tomar umas e outras sem pressa de partir, como o Bill Bryson, tomando como exemplo sua deliciosa narrativa em Uma caminhada na floresta. Não são a maioria os desse tipo, pelo menos não dentro do contexto literário odepórico, em geral marcado por autores masculinos (mulheres que viajam não escrevem?) e sérios, no sentido menos interessante do termo. 


Bruce Chatwin, além do fato de escrever muito bem, possuía uma abertura em relação ao outro que nem todo escritor viajante consegue demonstrar. Por que não? Porque a relação é reciprocidade, como diz o Martin Buber, “meu TU atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele”. Em outras palavras: no pensamento buberiano, o homem é um ser de relação – que acontece somente no encontro com o outro.

Essas divagações, que me perdoe o leitor/a se estou sendo fastidioso, surgiram ao reler, como disse lá no comecinho deste texto, a edição lusitana de O que faço eu aqui?. Tudo porque, dentre todos os capítulos, os que mais me cativaram foram os intitulados Encontros, Gente e Viajar, títulos estes que fazem link direto com o pensamento de Martin Buber, sobretudo os dois primeiros.

Dos encontros narrados pelo Chatwin, o mais instigante foi o que ele teve com o cineasta Werner Herzog no Gana, na África Ocidental, em janeiro de 1971. Diz o autor que chegou a voltar àquele país sete anos depois e essas duas investidas foram suficientes para organizar o material que mais tarde serviria de cenário para seu romance O Vice-Rei de Uidá (1980).


Diz o autor que se a história desse romance pudesse ser transformada em filme, somente o Werner Herzog poderia filmá-la. O Herzog, se o leitor/a não o conhece, é um diretor de cinema alemão muito, digamos, “audacioso”, para não dizer maluco mesmo. É dele a produção insana de Fitzcarraldo, filmado na floresta amazonense, cuja história (real) é tão fantástica quanto os bastidores da filmagem. Se você não assistiu, deveria.

Eis que três anos depois da publicação de Vice-Rei, numa viagem à Austrália, os dois acabam se encontrando. É interessante demais o modo como seus destinos se cruzaram, mas vou pular essa parte porque a história é longa. Vou transcrever alguns parágrafos nos quais o Bruce Chatwin fala sobre o Werner Herzog e onde ele cita uma obra literária do diretor alemão:


"(...) Werner era um compêndio de contradições: duro mas vulnerável, afetuoso e distante, austero e sensual, mal adaptado às tensões da vida quotidiana mas eficaz sob condições de pressão.

Era também a única pessoa com quem podia conversar de igual para igual sobre o que eu chamaria o aspecto sacramental da marcha. Partilhávamos a crença de que o andar não é uma simples terapia, mas uma atividade poética capaz de curar o mundo dos seus males, Herzog resume o que pensa do assunto com uma afirmação definitiva: “Andar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Um bom exemplo desta filosofia é a sua peregrinação, todos os invernos, para ver Lotte Eisner.


Lotte Eisner, crítica cinematográfica e colaboradora de Fritz Lang em Berlim, emigrou em princípios dos anos trinta para Paris, onde ajudou a fundar a Cinémathèque. Muito mais tarde, escreveu para Lang, que viveu na Califórnia, depois de ter visto o filme de Werner Sinais de Vida: “Vi a obra de um maravilhoso realizador alemão”. Lang respondeu: “Não. É impossível”.

Lotte tornou-se, em breve, o guia espiritual do novo cinema alemão, proporcionando aos jovens realizadores o benefício da sua enorme experiência e, como era judia, ajudou a restabelecer uma continuidade com a grande tradição cinematográfica destruída por Hitler.

Disseram-me que Werner era seu favorito. Em 1947, ao saber que ela estava a morrer, Werner pôs-se a caminho a pé, de Munique a Paris, convencido de que daquela maneira a poderia curar. Quando chegou ao apartamento de Lotte, ela já se sentia melhor e viveu ainda uma dezena de anos."


A história dessa jornada foi publicada no Brasil pela Editora Paz e Terra, em 2005, com o título Caminhando no gelo. Tenho em mãos uma edição portuguesa (Ed. Tinta da China, 2011), da qual transcrevo uma sucinta amostra:


“No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.”

Depois desse pequeno parágrafo onde Chatwin cita a obra de Herzog, ficamos sabendo enfim que Vice-Rei seria filmado pelo alemão pouco tempo depois, embora com adaptações no roteiro e com o título mudado para Cobra Verde. No elenco, o insano Klaus Kinski e as filmagens aconteceram na África e na Colômbia. Vale muito a pena acompanhar o relato da viagem que Chatwin fez com a equipe de filmagem.

No bloco dedicado às viagens, dois momentos marcantes na literatura odepórica chatwiniana: o primeiro texto, pura diversão, intitula-se Na pista do abominável homem das neves, escrito em 1983 e que começa desse jeito:


"Nesse abril, após ter passado a parte mais quente do ano no deserto central da Austrália, senti a necessidade de sair daquela região vermelha e gasta para ir desanuviar o espírito nas montanhas. Sempre tive vontade de passear nos vales do monte Everest.  Ainda me lembro de ter assistido, em garoto, a uma conferência com diapositivos dos alpinistas Hillary e Tensing e de ter ficado com uma impressão muito viva de rios gelados, pontes de bambu, florestas de rododendros, aldeias de Xerpas e iaques. Queria ver os mosteiros budistas tibetanos que ficam no lado nepalês da fronteira. Quanto ao Yeti, o abominável homem das neves, desejava explorar a nebulosa área da zoologia onde a Besta de Lineu se encontra com a Besta imaginária.

Telefonei à minha mulher e disse peremptoriamente para se encontrar comigo no Nepal.
- Não posso – disse Elizabeth com uma voz desalentada. A sua tia predileta dava uma festa em Boston para festejar os seus noventa anos de idade.
- O meu convite mantém-se – respondi. – Telefona-me se mudares de ideia.
- Já mudei."


Já no outro texto, de 1980, o tom divertido dá lugar a um saudosismo melancólico. São quatro páginas apenas de uma narrativa sobre o Afeganistão repleta de emoção e poesia. Chatwin começa escrevendo sobre os livros de viagem de Robert Byron, escritor e viajante dos anos 1930 por ele muito admirado. A obra mais conhecida de Byron, The road to Oxiana (que Chatwin chama de “texto sagrado”), um clássico da literatura odepórica moderna, trata da viagem que o autor inglês fez ao Oriente Médio.


Chatwin faz uma ode tanto ao escritor quanto à sua obra magna sobre a viagem ao Afeganistão. Evidentemente, um dia nosso trotamundos se viu obrigado a visitar o país (no ano de 1962) no centro asiático e suas impressões foram mágicas, à parte os diversos acidentes de percurso pelo território afegão:

“(...) um soldado atirou uma picareta contra o carro; o nosso caminhão escorregou,. Com doce resignação, por uma ribanceira abaixo (mal tivemos tempo para saltar); fomos chicoteados por termos entrado numa zona militar; apanhamos disenteria, septicemia; houve também aquela vez em que fomos atacados por vespas e por pulgas – mas felizmente não apanhamos hepatite.”

A parte bonita da viagem que Chatwin fez ao Afeganistão fica para o finalzinho da narrativa, onde se percebe todo o saudosismo de uma viagem quase perdida no tempo, de um lugar do mundo que hoje, após tantos conflitos militares/religiosos, nem o próprio autor seria capaz de reconhecer, consequências trágicas em que todos saímos perdendo (escrevo isso tendo em mente a triste lembrança do regime Talibã destruindo as imagens dos budas gigantes de Bamiyan).


“Não mais nos deitaremos no chão, no Castelo Vermelho, para contemplar os abutres a sobrevoar o vale onde o neto de Gengis Khan foi encontrado. Não mais leremos as memórias de Babur no seu jardim em Istalif e veremos o velho cego a farejar o caminho entre as roseiras. Ou nos sentaremos na Paz do Islão com os pedintes de Gazr Gagh.”

“Nunca mais subiremos à cabeça do Buda, em Bamiyan, todo direto no seu nicho como uma baleia em doca-seca. Não dormiremos na tenda do nômade ou escalaremos o Minarete de Jam. E perderemos o gosto do pão quente amargo e rude, do chá verde perfumado de cardamomos, das uvas refrescadas na neve e das nozes e amoras secas que mastigávamos contra as doenças de altitude. Nem reaveremos o cheiro dos campos de feijão, o cheiro doce e resinoso da madeira de cedro a arder, nem o bafo do leopardo-das-neves a cinco mil metros de altitude.”

Leia:
O que faço eu aqui? Bruce Chatwin. Quetzal Editores. Lisboa, 2009.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vem comigo: clics odepóricos, by Murad Osmann


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Cá entre nós, qual o camarada que não gostaria de vagamundear por aí sendo levado pelas mãos por uma belíssima e nada inibida namorada russa? Lugares incríveis como Hong Kong, Moscou, Singapura, Bali e diversas capitais europeias foram assim fotografados por Murad Osmann, um fotógrafo russo que encontrou uma maneira insólita para documentar suas viagens.




Diz que sua namorada, Nataly Zakharova, cansada de esperá-lo em suas longas e incessantes tomadas fotográficas, começou a puxá-lo pelas mãos para que andasse mais depressa e esse gesto simples desencadeou uma ideia: Murad começou a tirar fotografias desde o ponto de vista de sua noiva levando-o pelas mãos pelo mundo afora, começando por Barcelona em outubro de 2011. A série de fotos do casal foi intitulada no aplicativo do Instagram de “Follow me On”, com mais de 290 mil seguidores até o momento. Link no final do post. Namastê!
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Perfil do Murad Osmann no Instagram: clique aqui!
As breves informações desse post foram tiradas do site megaricos.com