quinta-feira, 25 de abril de 2013

Road Movies

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Uma câmera na mão e pé na estrada. Essas duas ações, somadas a uma boa ideia podem muitas vezes resultar em grandes películas, aventuras cinematográficas que quando bem produzidas fazem com que tenhamos vontade de sair do cinema e vagamundear planeta afora sem data de retorno.

Na literatura isso aconteceu comigo diversas vezes, a primeira delas quando li Pé na Estrada – tradução do Bivar da obra de Kerouac, On the Road; tinha dezesseis anos e desde então passei a adolescência desejando um dia fazer a rota 66, alugando um carro conversível, enchendo a cara e apertando um baseado sem compromisso algum com o destino, ouvindo um blues bem alto no rádio e de quando em quando parando a caranga para apreciar o por do sol da estrada e botar em dia a leitura do Castañeda, porque também estava nos meus planos provar um peiote básico e ter aquelas experiências místicas que só os viajantes descolados conseguem ter. Quando cansasse, viajaria ao México numa longa jornada de ônibus, até chegar numa cidadezinha de praia, onde alugaria um quarto simples com vista para o mar e escreveria o relato de minha aventura castaño-kerouaquiana. Simples assim.



Tempos depois, em 1988, li uma obra fantástica de um autor estadunidense chamado David Hatcher Childress que tem uma coleção imperdível de textos de uma série intitulada “Lost Cities”, e a primeira que li (um dia escreverei sobre ela aqui) foi Cidades Perdidas e Antigos Mistérios da América do Sul, obra fundamental, imperdível, altamente recomendável para os amantes de viagens com uma pegada mais arqueo-antropológica. O David não é acadêmico, ele simplesmente é um autodidata que ama história, mistérios e arqueologia e vai por conta viajar para os lugares mais bacanas do planeta. Bom, eu adoro esse cara e foi por causa dele que um dia pensei em estudar antropologia e fazer a rota inca, trem da morte, Cochabamba, coisa e tal. Bye bye States!; Hola, South America! , mas não fiz nem uma coisa, nem outra. Ainda.



Esses foram dois exemplos que me fizeram ter vontade de pegar a estrada depois de uma leitura. Outro marcante, e esse sim resultou em grandes aventuras, foi a leitura de o Diário de um mago, do Paulo Coelho. Acho que li a obra em um dia e meio e assim que fechei o livro fui buscar o Atlas Geográfico da Melhoramentos (saudosa era pré-internet) que tinha em casa para ver onde é que ficava o tal do Caminho de Santiago... um dia iria percorrê-lo. Oito anos depois chegava lá, para nunca mais deixar de ir.



Mas o lance desse post é cinema, então falemos de cinema. Não me lembro do primeiro road movie a que assisti, mas me lembro de um que mexeu muito comigo: Thelma e Louise (Ridley Scott, 1991). Lembro-me que fui ao cinema com um amigo, hoje meu compadre, e que saímos de lá tão entusiasmados que começamos a fazer planos e mais planos de viagens que nunca aconteceram, mas que já valeram pelas conversas de boteco, aventuras esquecidas entre rodadas de cerveja. E até nisso as viagens são boas: divertem a gente mesmo quando não acontecem efetivamente (sempre achei o planejamento de uma viagem tão excitante quanto a própria aventura).



Bem antes de Thelma e Louise, agora me recordo, vi um filme que me deixou muito comovido: Paris, Texas (Wim Wenders, 1984). Há três coisas nessa película pelas quais sou apaixonado: o deserto, a Natassja Kinski e a guitarra de Ry Cooder. Aliás, esse fantástico músico californiano flerta muito com o cinema, sendo também dele a trilha de outro clássico road movie dos 80, Crossroads, (A Encruzilhada, 1986).



Boa parte da trama de Crossroads se passa entre caminhos poeirentos do sul dos Estados Unidos, onde o personagem principal (um virtuoso da blues guitar, vivido pelo Ralph Macchio) busca a encruzilhada onde, segundo a lenda, Robert Johnson, mestre do blues, teria feito um pacto com o diabo. Tudo nesse filme é demais e a sequência final é um pega-prá-capá sensacional, nada menos do que um duelo de guitarras entre o mocinho e o demo, vivido pelo, há há há, Steve Vai, só isso. Não viu? Corra e assista.



Antes ainda destes filmes já existia um clássico, talvez o maior representante do gênero filme de estrada de todos os tempos: Easy  Rider (Sem Destino, 1969). Esse você já conhece, mesmo que não tenha assistido ao filme por completo, porque a cena de abertura em que Peter Fonda e Dennis Hopper aparecem montados nas Harleys ao som de Born to be wild do Steppenwolf  faz parte do inconsciente coletivo de todo o mundo. Esse filme, claro, é super datado, como praticamente todos os filmes produzidos no auge da contracultura, mas a mensagem continua atual (você sabe, a tal crítica à sociedade, e aos valores e essas coisas todas). É clássico, por isso tem que ter em casa e pronto.



E agora começo a reparar numa coisa: filme de estrada bom tem que ter uma boa trilha sonora, senão a coisa não decola bem. Vejamos: Conta comigo (Stand by me, Rob Reiner, 1986), filmão e trilha sessentista nota dez; O Céu que nos protege (The Sheltering Sky, Bertolucci, 1990), música de Ryuichi Sakamoto, genial; Priscilla, a rainha do deserto, filme australiano de 1994 que agrada amantes da era disco e da cultura GLBT e afins; Viagem a Darjeeling, de 2007, filme que revi várias vezes tanto por conta da história quanto pela trilha sonora e a imperdível sequência final embalada pela belíssima Play with fire dos Stones, minha banda de cabeceira, sempre.



Eu poderia enumerar muitos outros seguindo esse princípio música/cinema, mas daí a coisa ficaria meio enfadonha para o leitor, então deixa prá lá. E listas, cada um tem a sua, de modo que nem me atrevo a criar um post do tipo “top ten”.(Ok, já que você insiste, então vou listar alguns filmes que têm no enredo a viagem como condutora da trama). Além dos já citados, eu indicaria as seguintes obras cinematográficas:

Coração Selvagem (Wild at Heart, David Lynch, 1990)
Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, Jonathan Dayton, 2006)
Uma história real (The Straight Story,David Lynch, 1999)
Na Estrada (On the road, Walter Salles, 2012)



Via Láctea (La Voie Lactée, Luis Buñuel, 1969)
Sideways, entre umas e outras (Sideways, Alexander Payne, 2004)
Zabriskie Point (Michelangelo Antoniani, 1970)
A grande viagem (Le Grand Voyage, Ismael Ferroukhi, 2004)



Transamerica (Duncan Tucker, 2005)
Deu a louca no mundo (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World, Stanley Kramer, 1963)
A morte pede carona (The Hitcher, Dave Meyers, 1986)
Shirley Valentine (Lewis Gilbert, 1989)
Na natureza selvagem (Into the Wild, Sean Penn, 2007)



Uma vida iluminada (Everything is Illuminated, Live Schreiber, 2005)
Meu irmão, cade você? (O Brother, where art Thou?, Joel e Ethan Coel, 2000)
Rain Man (Barry Levinson, 1988)
A Estrada da Vida (La Strada, Federico Fellini, 1954)



Para Wong Foo, obrigado por tudo, Julie Newmar (To Wong Foo..., Beeban Kidron, 1995)
Um parto de viagem (Due Date, Todd Phillips, 2010)
Bonnie and Clyde, uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, Arthur Penn, 1967)
E sua mãe também (Y tu mamá también, Alfonso Cuarón, 2001)
O Caminho (The way, Emilio Estevez, 2010)
Diários de motocicleta (Motorcycle Diaries, Walter Salles, 2004)



Há também bons filmes de estrada filmados aqui no Brasil: Central do Brasil (1998) dirigido por Walter Salles não fica atrás de nenhum filme estrangeiro e é um road movie por excelência, primoroso; Cinema, aspirinas e urubus (2005) é outro bom representante de filme de estrada brasileiro, assim como O Caminho das nuvens, filmado em 2003, o clássico mambembe Bye bye Brasil (1979), Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), Árido Movie (2005) e Estrada para Ythaca (2010), só para citar alguns.

Achei na internet um site fundamental, completíssimo sobre road movies, da Universidade de Berkeley, que traz uma listagem em ordem alfabética de dezenas de filmes e documentários sobre o gênero. Anote aí:


domingo, 7 de abril de 2013

Deep Travel - Viagem profunda


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Retomando minhas divagações odepóricas, trago um texto que transcrevi de um site literário de alto nível chamado Bookslut, daqueles que você passa horas lendo artigos incríveis e inspiradores. No caso em questão, o que me inspirou a traduzir o texto que você irá ler, assinado por Jessa Crispin, editora e fundadora do Bookslut.com, foi uma expressão que eu ainda não conhecia nesse meio da literatura odepórica: Deep Travel, Viagem Profunda.

O artigo da Jessa é precedido por uma questão: É possível falhar em uma viagem? Bom, pensei, qual o sentido dessa pergunta? É o que eu estou imaginando? De fato, era. Tudo começou quando a autora do artigo leu no blog de viagens Wolrdhum e depois no Vagabondish uma petit polêmica surgida entre os leitores desses sites discutindo acaloradamente o artigo de uma jovem viajante publicado numa revista eletrônica chamada Thougt Catalog. (links no final do post).

A jovem, que se chama Caitlin Rolls, escreveu um texto intitulado “Viajar para a Europa não mudou a minha vida”. E daí? Daí que o povo ficou doido com as afirmações da moça, que nada mais fez do que levantar a questão de que esse papo de que as viagens transformam as pessoas é uma grande balela.

Eu simplesmente adorei o atrevimento da Caitlin, embora não necessariamente concorde com seus argumentos. Diria que concordo em parte, no sentido de que o que ela diz é um fato real: nem todas as viagens, talvez mesmo a maioria delas, são uma experiência transformadora- o que não quer dizer que a possibilidade de transformação interior não exista nunca. É uma autoanálise interessante esta: quantas viagens você fez que verdadeiramente mudaram  a sua vida? E se mudaram, o que foi que mudou efetivamente?

Resposta não tão fácil, porque mexe com coisas como o ego, você sabe disso; ao mesmo tempo, isso tudo envolve doses generosas de subjetividades, afinal quem poderá saber o que significa para você termos como transformação interior, crescimento pessoal, arrebatamento espiritual, quebra de paradigmas e tantos outros associados àquilo que denominamos de experiência transformadora de uma viagem?

O termo Deep Travel, que a Jessa usou no artigo dela foi retirado de uma obra de Tony Hiss (que ela cita ao longo da leitura) e não é muito explorado, embora a ideia esteja explícita no texto de uma maneira geral. Cá entre nós, achei que o fulano nada mais fez do que criar uma expressão de algo que já existia, mas está valendo, pois chama a atenção ao que de fato importa: o que podemos chamar nos dias que correm de Viagem com V maiúsculo? Viagem de viajante, não viagem de turista. Fazer um safári pela África ou subir uma montanha no Tibet, com todas as facilidades modernas, podemos chamar isso de uma grande viagem, ou como diz o gringo, viagem profunda?

Cada um que tire suas próprias conclusões, é o que posso dizer somente. A leitura que se segue valerá a pena se você se interessou pelas questões formuladas acima. Boa viagem.
É possível falhar numa viagem?


Uma garota (ou um rapaz) viaja para a Europa a fim de se descobrir. E a gente sabe o que acontece a seguir. Esse é um enredo firmemente tecido na nossa cultura. Está nos nossos romances, nos nossos filmes e em nossas memórias. De Henry James a Elizabeth Gilbert (Comer, rezar, amar), essa é a história que contamos a nós mesmos e aos outros: o ato de viajar, ou tocar em frente, irá de alguma forma destilar sua essência interior, um entregar-se a si mesmo, de modo que você descerá daquele trem ou sairá do setor de bagagens do aeroporto uma versão mais você de você mesmo.

Uma garota vai para a Europa para se encontrar. Só que isso não acontece. Ela descobre, ao invés disso, que as pessoas de Paris ou de Londres ou de Barcelona reagem frente a uma garota bonita e jovem da mesma maneira que as pessoas nos Estados Unidos. Ninguém a leva a sério o suficiente para lhe dizer qual o sentido da vida, e ela também não é capaz de encontrar a resposta dentro de si mesma.

Ela volta prá casa e escreve um ensaio para um site chamado Thought Catalog (algo como “Catálogo de Reflexões”) afirmando que as pessoas que falam sobre o lance das viagens que mudam suas vidas estão mentindo para si mesmas; essas mesmas pessoas não apreciaram seu ponto de vista. 

Eu descobri esse ensaio no site de viagem World Hum, um site que “explora como a viagem nos transforma, como ela muda a maneira como enxergamos o mundo e como a própria viagem muda o mundo”.  Depois li o mesmo artigo no Vagabondish e em outros blogs de viagem que tratam dessa temática.



“Essa pessoa está obviamente enfastiada ao ponto de não ficar impressionada com nada”, escreveu um leitor no World Hum, e seu comentário foi seguido por diversos outros simpáticos à sua opinião. No próprio site Thought Catalog, a seção dos comentários ficou repleta de afirmações dizendo que a garota era egocêntrica, estúpida, ingênua, que é como as pessoas reagem a uma jovem garota bonita tentando se expressar.

Eu não tenho certeza se concordo com ela ou não, e eu digo isso como alguém que viaja compulsivamente. Obviamente, o simples fato de sair e de voltar de algum lugar não vai revelar o que Caitlin Rolls (a autora do artigo) maravilhosamente chamou de "a abnegada e graciosa deusa Phoenix que habita em mim." Os escritores de viagens gastam uma enorme quantidade de tempo tentando traduzir em palavras a alquimia especial e transcendental que a viagem (supostamente) oferece, de modo que é compreensível que Rolls pensasse que isso é o que deveria acontecer com ela. Há uma grande quantidade disso na obra de Tony Hiss, “In Motion: The Experience of Travel” (Em movimento: A Experiência da viagem), para quem viajar é a "catapulta para levantar as asas do espírito humano." Tais afirmações geralmente marcam o ponto em que eu fecho um livro, para nunca mais reabri-lo. Mas eu estava interessada na desconexão entre o espírito subindo de Hiss, a divindade inexplorada de Rolls, e minha necessidade de ver o máximo que eu pudesse do mundo.



De acordo com Tony Hiss, há um estado de ser chamado de Viagem Profunda. Ela é provocada pela estranheza do mundo em torno de nós. Uma vida inteira de rotina e vendo os mesmos prédios povoados pelas mesmas pessoas é o que nos torna um pouco negligentes. Nós podemos ser despertados de nosso sono pelo inesperado. Esta é uma ideia interessante. Eu estou interessada nela. Mas Hiss é um pouco vago sobre o processo de transformação. Ele vai de uma ciência específica para palavras como "aperfeiçoamento" e "renascimento" e assim por diante demasiadamente rápido. É como uma equação científica com uma escala em letras muito pequenas dizendo "e então a magia ..." Mas isso tem algo a ver com a tomada de mais informações, alterando a maneira de pensar, ser capaz de confiar em nossa própria capacidade. A viagem não é sobre o prazer, tanto quanto é trabalho duro.

Estou quase do seu lado. Eu acredito fortemente na necessidade humana de aventura, como acredito nas qualidades amortecedoras da rotina. É o ângulo de pseudo-espiritual que eu me recuso a seguir, assim como o argumento que surgiu há alguns anos, o de viajantes x turistas. Agora nós podemos adicionar uma nova categoria. "Bem, OK, você pode ser um viajante, mas você é um Viajante Profundo? Você está aberto à experiência?”. Aliás, “estar aberto à experiência” é outra frase que quase me fez deixar o livro no trem.
Fragmentos

Estou em Paris. Meus pais, que nunca tiveram passaportes, pediram-me para lhes enviar fotos de Paris, mas eu estou tendo uma dificuldade tremenda para puxar a câmera para fora da minha bolsa. Tudo parece demasiadamente com Paris. Eu assisti muitos filmes franceses, vi as fotografias românticas de amantes de mãos dadas na calçada, em frente de belos edifícios com janelas abertas, música, eu acho que Ravel, soando suavemente para fora de um apartamento. Eu poderia muito bem enviar a meus pais um cartão postal, eu acho, ou um clipe do YouTube tirado de um filme.



Da mesma forma, eu estou atuando em um verdadeiro roteiro de Paris. Eu estava aqui há dois anos, também, e cada vez que eu estou aqui eu consigo andar por aí sozinha, meio de fossa, um pouco à deriva. Ando pelas ruas com vestido preto e óculos de sol, embriagada às 11 horas e pensando apenas no homem com quem eu não estou. Os homens mais velhos me puxam para o lado e enchem o meu copo de vinho e me dizem coisas em francês que eu não consigo entender, mas acaba sendo perfeito. Eles me contam suas próprias histórias de amor que deram errado, como um consolo e um ato de camaradagem, e enquanto eu enxugo as lágrimas fico divagando e imagino se existe uma equipe de filmagem nas proximidades, ou se a minha vida fosse, de repente,  narrada por Marguerite Duras. Me pergunto se o espírito da cidade já infectou minha vida amorosa e este é o resultado inevitável. Como se houvesse outra maneira possível de estar em Paris.

Estou chateando a mim mesma com esse enredo de Paris. Começo a me perguntar por que eu vim para cá, ao invés de, sei lá, Bratislava. Isso - eu digo a mim mesma – não tem volta.



“O que estou fazendo aqui?" - O mantra fundamental se não a oração de todos os viajantes. Pois é precisamente em uma viagem, pela manhã, em uma cidade estranha, antes da segunda xícara de café começar a fazer efeito, que você experimenta de maneira mais palpável a estranheza de sua existência banal. Viagem não é mais do que uma forma relativamente saudável de narcótico, afinal "Andrzej Stasiuk é um escritor polonês que também conhece a compulsão para viajar, e ele escreve muito bem sobre isso em A Caminho de Babadag: Viagens pela Outra Europa. Ele é mais realista, menos romântico sobre os efeitos finais do que Tony Hiss. Aquela qualidade narcotizante de viajar parece mais precisa do que a revelação espiritual de Hiss. Você pode ver a interconexão de todas as coisas vivas sob o efeito do LSD. Você também pode ver insetos rastejando sob sua pele.

Hiss quer descobrir o que o movimento faz com o cérebro humano. Por que as pessoas odeiam voar e detestam os aeroportos, tendo que tirar os sapatos na segurança, mas amam e romantizam os trens. (Eu estou interessada nisso também, mas Hiss não vai atrás de uma resposta); ele quer saber o que acontece com uma pessoa que se vê rodeada por gente que só fala o idioma polonês, o resultado de uma pessoa perdida em uma cidade estrangeira (outra coisa que não o lance vago da "transformação"). Ele cita Rumi, Pico Iyer, e Albert Camus. Ao ler Hiss, começo a me perguntar se ele quer vender essa ideia de Viagem Profunda. Ele repete essas palavras repetidas vezes, como um mantra.

Acho que o que ele quer dizer com Viagem Profunda é o estranhamento intenso que pode ocorrer a alguém em uma viagem, a maneira com que uma pessoa tem que reconfigurar sua rotina e os mecanismos para enfrentar desafios a partir do zero, uma vez que os antigos não vão funcionar. Mas a melhor descrição da viagem profunda não vem de Hiss, mas Stasiuk:

É bom ir para um país que você praticamente nada sabe, onde tudo deve ser vagarosamente reconstruído. Em um país em que você tudo desconhece, não há nenhum ponto de referência. Você luta para associar as cores, cheiros e lembranças obscuras. Você vive meio como uma criança, ou um animal. Objetos e eventos podem trazer algumas coisas à memória, mas no final, eles permanecem sendo não mais do que o que eles são de fato. Eles começam apenas quando você os experimenta e desaparecem quando outros surgem em seu lugar.



Ele está certo, no entanto, ao tratar de "um país que você praticamente nada sabe a respeito." É tão fácil abrir mão de sua rotina diária em um país que você conhece através da arte, do cinema e da literatura e ficar só com um de seus enredos. Eles praticamente são vendidos e embalados a vácuo no Duty Free,  ao lado da prateleira de bebidas. As capitais europeias mais visitadas, as que mais aparecem nos cartões postais, sofrem com o peso de tantas fotografias, de tantos jovens à espera de sua transformação.

"A observação elimina os objetos e as paisagens", escreve Stasiuk. "A destruição e o declínio vêm a seguir. O mundo é consumido, como um mapa esfolado, por ser demasiadamente observado."

Um desses homens em Paris começou a falar sobre como tudo isso fez com que a narrativa (de viagem) perdesse seu rumo. Ela desconhece sua própria finalidade. Eu ouvi isso através do filtro da viagem. Escrever, este homem me diz, costumava ser sobre a informação. A escrita de viagens tinha como mote trazer à vida os lugares do mundo que ninguém jamais havia visto, como no caso de Mary Wollstonecraft, que prendeu seu bebê ao corpo e saiu para escrever sobre os confins dos países nórdicos, ou Rebecca West, perambulando através dos Balcãs devastados pela guerra. Mas agora há muito pouco ainda não visto.



Há histórias definitivas sobre quase todos os lugares na Terra agora. E com tantas outras maneiras de se obter informações - se você quer saber sobre a Albânia, por exemplo, agora você pode muito mais facilmente consultar os albaneses - o sentido da escrita de viagens se perdeu no caminho.

Eu costumava ler uma grande quantidade de narrativas de viagem, de modo que conheço bem essas histórias. Levava estes livros para casa, mesmo sem saber nada sobre o autor ou a obra, pois o que eu buscava era apenas um pouco de “aventura de poltrona”. Isto parou por volta da época em que resolvi entrar na internet bêbada à procura de tarifas aéreas internacionais (foi a maneira que encontrei de superar a minha inércia com sede em Chicago e sair do país).

Não foi fácil encarar o fato de que eu poderia conhecer esses países sozinha; minhas viagens para fora do país não foram o que você chamaria de transformadoras. Assustadoras, sim; às vezes infernalmente deprimentes, humilhantes e, em seguida, alegres, divertidas, solitárias. Na Irlanda, não fui transformada ao encontrar as raízes da minha família nem saí de lá com um novo sentido de lar; em Buenos Aires, a minha vida não foi transformada através da carne vermelha, tango, e sexo com homens latinos. OK, talvez a carne vermelha, um pouco.
 



Viajar é uma escolha. Ou você vai, ou não. Permanecer em casa oferece igualmente muitas oportunidades de crescimento, de transformação, de conexão cerebral e quaisquer outros termos da moda que você gostaria de usar aqui. Se você é do tipo de pessoa que está com mais medo de ficar em casa do que vagando do lado de fora, talvez pegar a estrada seja a opção mais adequada.
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