domingo, 22 de setembro de 2013

O que faço eu aqui? by Bruce Chatwin

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Todo viajante em algum momento da vida, entre chegadas e partidas, um dia se pergunta: O que estou fazendo aqui? Bruce Chatwin, que é um dos grandes da literatura odepórica, tem um livro que leva como título essa indagação: What am I doing here?

Relendo essa obra de Chatwin, um apanhado de artigos publicados em jornais e revistas, percebo como sua escrita era especial; sua prosa e suas narrativas de viagem, que se mesclam indiscriminadamente a ponto de não sabermos quando se trata de ficção ou realidade é uma de suas marcas registradas e ao mesmo tempo uma atitude que o desqualifica perante alguns críticos de sua obra – discussão que já vimos aqui no blog em outro post sobre o autor.


O que temos de bom nessa obra póstuma de quatrocentas páginas do incansável trotamundos Bruce Chatwin? Bom, são muitas páginas e nem tudo é assim tão interessante quanto os momentos em que vemos Chatwin em movimento, coisa que ele soube fazer muito bem, graças a seu perspicaz olhar de viajante e sua rica bagagem cultural.

São onze capítulos e todos eles tratam basicamente das seguintes questões: das amizades, dos encontros, das pessoas, dos lugares e, claro, das viagens; tudo se conecta, afinal que sentido teriam as viagens sem os encontros, as gentes, os lugares e suas geografias? Era exatamente isso o que Chatwin explorava em seus deslocamentos e o que me faz gostar muito de suas obras é o fato dele priorizar o encontro com o outro.


Quando penso sobre isso, a importância dos relacionamentos interpessoais, recordo os textos de Martin Buber, brilhante filósofo austríaco de ascendência judaica conhecido como o “profeta da relação”, para quem o ser humano só é capaz de se realizar na relação com o outro, afirmação esta muito simplificada de um complexo e fascinante estudo sobre a alteridade.


Em sua filosofia da Relação, Buber amplia o conceito de relação que ultrapassa a simples ideia de relacionamento entre os seres humanos, uma vez que Deus também participa do Encontro; para o pensador, o mundo da relação se realiza em três esferas: a vida com a natureza, a vida com os homens e a vida com os espíritos. Essa filosofia encontra ecos nas palavras do sábio hindu, Swami Vivekananda, que diz que “a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens”.


Não tenho a intenção de direcionar meus pensamentos sob um ponto de vista filosófico/espiritual, mas recorro vez ou outra a essas questões por perceber que o estudo das viagens, tanto as nossas quanto as dos outros, pode servir como um instrumento de autoconhecimento. Alguém escreveu um dia - não sei quem, nem onde, e nem quando porque anotei as palavras em um pedaço solto de papel – que a maneira como Buber encara a existência revela-se útil para considerar o modo como encaramos as viagens e o que enfatizamos nela. 

Daí o gancho para a pergunta: o que você enfatiza em suas viagens? Lugares, paisagens, pessoas, compras, diversão, sexo? Pode ser que seja, ao fim e ao cabo, uma soma de tudo isso, mas a verdade é que a balança sempre vai pender para um dos lados e em assim sendo, alguma coisa vai ter um peso maior, justamente aquilo que você enfatiza mais. O ponto aonde quero chegar é precisamente este: o modo como você viaja revela quem você é.


É um exercício interessante, por exemplo, o de decifrar a personalidade de um autor que discorre sobre suas aventuras em alguma narrativa de viagem; para mim os mais sonolentos são os ególatras, para os quais não existe o mundo para além da primeira pessoa: eu, eu e eu; pior que estes são aqueles que viajam e criticam o tempo todo a cultura alheia, comparando-a sempre que possível com a de seu país de origem, coisa que PaulBowles gostava de botar em seus romances: turistas arrogantes disfarçados de viajantes mais nojentos do que latrina entupida de banheiro de rodoviária. Desses há um montão por aí.

Gosto mesmo dos que viajam e não perdem o bom humor nem nas piores situações e em geral são aqueles que a gente escolheria para sentar numa mesa de bar e tomar umas e outras sem pressa de partir, como o Bill Bryson, tomando como exemplo sua deliciosa narrativa em Uma caminhada na floresta. Não são a maioria os desse tipo, pelo menos não dentro do contexto literário odepórico, em geral marcado por autores masculinos (mulheres que viajam não escrevem?) e sérios, no sentido menos interessante do termo. 


Bruce Chatwin, além do fato de escrever muito bem, possuía uma abertura em relação ao outro que nem todo escritor viajante consegue demonstrar. Por que não? Porque a relação é reciprocidade, como diz o Martin Buber, “meu TU atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele”. Em outras palavras: no pensamento buberiano, o homem é um ser de relação – que acontece somente no encontro com o outro.

Essas divagações, que me perdoe o leitor/a se estou sendo fastidioso, surgiram ao reler, como disse lá no comecinho deste texto, a edição lusitana de O que faço eu aqui?. Tudo porque, dentre todos os capítulos, os que mais me cativaram foram os intitulados Encontros, Gente e Viajar, títulos estes que fazem link direto com o pensamento de Martin Buber, sobretudo os dois primeiros.

Dos encontros narrados pelo Chatwin, o mais instigante foi o que ele teve com o cineasta Werner Herzog no Gana, na África Ocidental, em janeiro de 1971. Diz o autor que chegou a voltar àquele país sete anos depois e essas duas investidas foram suficientes para organizar o material que mais tarde serviria de cenário para seu romance O Vice-Rei de Uidá (1980).


Diz o autor que se a história desse romance pudesse ser transformada em filme, somente o Werner Herzog poderia filmá-la. O Herzog, se o leitor/a não o conhece, é um diretor de cinema alemão muito, digamos, “audacioso”, para não dizer maluco mesmo. É dele a produção insana de Fitzcarraldo, filmado na floresta amazonense, cuja história (real) é tão fantástica quanto os bastidores da filmagem. Se você não assistiu, deveria.

Eis que três anos depois da publicação de Vice-Rei, numa viagem à Austrália, os dois acabam se encontrando. É interessante demais o modo como seus destinos se cruzaram, mas vou pular essa parte porque a história é longa. Vou transcrever alguns parágrafos nos quais o Bruce Chatwin fala sobre o Werner Herzog e onde ele cita uma obra literária do diretor alemão:


"(...) Werner era um compêndio de contradições: duro mas vulnerável, afetuoso e distante, austero e sensual, mal adaptado às tensões da vida quotidiana mas eficaz sob condições de pressão.

Era também a única pessoa com quem podia conversar de igual para igual sobre o que eu chamaria o aspecto sacramental da marcha. Partilhávamos a crença de que o andar não é uma simples terapia, mas uma atividade poética capaz de curar o mundo dos seus males, Herzog resume o que pensa do assunto com uma afirmação definitiva: “Andar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Um bom exemplo desta filosofia é a sua peregrinação, todos os invernos, para ver Lotte Eisner.


Lotte Eisner, crítica cinematográfica e colaboradora de Fritz Lang em Berlim, emigrou em princípios dos anos trinta para Paris, onde ajudou a fundar a Cinémathèque. Muito mais tarde, escreveu para Lang, que viveu na Califórnia, depois de ter visto o filme de Werner Sinais de Vida: “Vi a obra de um maravilhoso realizador alemão”. Lang respondeu: “Não. É impossível”.

Lotte tornou-se, em breve, o guia espiritual do novo cinema alemão, proporcionando aos jovens realizadores o benefício da sua enorme experiência e, como era judia, ajudou a restabelecer uma continuidade com a grande tradição cinematográfica destruída por Hitler.

Disseram-me que Werner era seu favorito. Em 1947, ao saber que ela estava a morrer, Werner pôs-se a caminho a pé, de Munique a Paris, convencido de que daquela maneira a poderia curar. Quando chegou ao apartamento de Lotte, ela já se sentia melhor e viveu ainda uma dezena de anos."


A história dessa jornada foi publicada no Brasil pela Editora Paz e Terra, em 2005, com o título Caminhando no gelo. Tenho em mãos uma edição portuguesa (Ed. Tinta da China, 2011), da qual transcrevo uma sucinta amostra:


“No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.”

Depois desse pequeno parágrafo onde Chatwin cita a obra de Herzog, ficamos sabendo enfim que Vice-Rei seria filmado pelo alemão pouco tempo depois, embora com adaptações no roteiro e com o título mudado para Cobra Verde. No elenco, o insano Klaus Kinski e as filmagens aconteceram na África e na Colômbia. Vale muito a pena acompanhar o relato da viagem que Chatwin fez com a equipe de filmagem.

No bloco dedicado às viagens, dois momentos marcantes na literatura odepórica chatwiniana: o primeiro texto, pura diversão, intitula-se Na pista do abominável homem das neves, escrito em 1983 e que começa desse jeito:


"Nesse abril, após ter passado a parte mais quente do ano no deserto central da Austrália, senti a necessidade de sair daquela região vermelha e gasta para ir desanuviar o espírito nas montanhas. Sempre tive vontade de passear nos vales do monte Everest.  Ainda me lembro de ter assistido, em garoto, a uma conferência com diapositivos dos alpinistas Hillary e Tensing e de ter ficado com uma impressão muito viva de rios gelados, pontes de bambu, florestas de rododendros, aldeias de Xerpas e iaques. Queria ver os mosteiros budistas tibetanos que ficam no lado nepalês da fronteira. Quanto ao Yeti, o abominável homem das neves, desejava explorar a nebulosa área da zoologia onde a Besta de Lineu se encontra com a Besta imaginária.

Telefonei à minha mulher e disse peremptoriamente para se encontrar comigo no Nepal.
- Não posso – disse Elizabeth com uma voz desalentada. A sua tia predileta dava uma festa em Boston para festejar os seus noventa anos de idade.
- O meu convite mantém-se – respondi. – Telefona-me se mudares de ideia.
- Já mudei."


Já no outro texto, de 1980, o tom divertido dá lugar a um saudosismo melancólico. São quatro páginas apenas de uma narrativa sobre o Afeganistão repleta de emoção e poesia. Chatwin começa escrevendo sobre os livros de viagem de Robert Byron, escritor e viajante dos anos 1930 por ele muito admirado. A obra mais conhecida de Byron, The road to Oxiana (que Chatwin chama de “texto sagrado”), um clássico da literatura odepórica moderna, trata da viagem que o autor inglês fez ao Oriente Médio.


Chatwin faz uma ode tanto ao escritor quanto à sua obra magna sobre a viagem ao Afeganistão. Evidentemente, um dia nosso trotamundos se viu obrigado a visitar o país (no ano de 1962) no centro asiático e suas impressões foram mágicas, à parte os diversos acidentes de percurso pelo território afegão:

“(...) um soldado atirou uma picareta contra o carro; o nosso caminhão escorregou,. Com doce resignação, por uma ribanceira abaixo (mal tivemos tempo para saltar); fomos chicoteados por termos entrado numa zona militar; apanhamos disenteria, septicemia; houve também aquela vez em que fomos atacados por vespas e por pulgas – mas felizmente não apanhamos hepatite.”

A parte bonita da viagem que Chatwin fez ao Afeganistão fica para o finalzinho da narrativa, onde se percebe todo o saudosismo de uma viagem quase perdida no tempo, de um lugar do mundo que hoje, após tantos conflitos militares/religiosos, nem o próprio autor seria capaz de reconhecer, consequências trágicas em que todos saímos perdendo (escrevo isso tendo em mente a triste lembrança do regime Talibã destruindo as imagens dos budas gigantes de Bamiyan).


“Não mais nos deitaremos no chão, no Castelo Vermelho, para contemplar os abutres a sobrevoar o vale onde o neto de Gengis Khan foi encontrado. Não mais leremos as memórias de Babur no seu jardim em Istalif e veremos o velho cego a farejar o caminho entre as roseiras. Ou nos sentaremos na Paz do Islão com os pedintes de Gazr Gagh.”

“Nunca mais subiremos à cabeça do Buda, em Bamiyan, todo direto no seu nicho como uma baleia em doca-seca. Não dormiremos na tenda do nômade ou escalaremos o Minarete de Jam. E perderemos o gosto do pão quente amargo e rude, do chá verde perfumado de cardamomos, das uvas refrescadas na neve e das nozes e amoras secas que mastigávamos contra as doenças de altitude. Nem reaveremos o cheiro dos campos de feijão, o cheiro doce e resinoso da madeira de cedro a arder, nem o bafo do leopardo-das-neves a cinco mil metros de altitude.”

Leia:
O que faço eu aqui? Bruce Chatwin. Quetzal Editores. Lisboa, 2009.