quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A caminhada: notas sobre uma imagem romântica, by Jeffrey C. Robinson

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Pode parecer estranho, nos dias que correm, alguém se dispor a escrever sobre um ato simples e até certo ponto banal sobre o ato de caminhar.  Não estou falando sobre a caminhada enquanto exercício físico, aquela que milhares de pessoas mundo afora praticam rotineiramente com o propósito seguro de manter a saúde em dia e ainda de quebra arejar a mente e os pulmões. A caminhada a que me refiro é aquela em desuso, démodé em sua própria essência e romântica por natureza: a caminhada que exercita o corpo, a mente e o espírito.

Partindo dessa premissa romântica da caminhada, no sentido literário da questão, foi que o acadêmico, professor de literatura da Universidade de Glascow, Jeffrey C. Robinson escreveu uma interessante obra intitulada The Walk: notes on a romantic image. (A Caminhada: notas sobre uma imagem romântica). O professor Robinson é um apaixonado pelos poetas e escritores do período romântico (séculos XVIII e XIX) e em suas pesquisas notou que muitos daqueles escritores e poetas românticos eram também bons caminhantes, do tipo que saíam por aí flanando sem pressa, atrás, quem sabe, de inspiração para um próximo poema ou romance.



Pelo que lemos sobre o período romântico europeu, em particular em países como Alemanha, França e Inglaterra, a ênfase do movimento estava na liberdade individual de expressão: sinceridade, espontaneidade e originalidade tornaram-se novos padrões nas artes, substituindo as imitações dos modelos clássicos; os românticos voltaram-se para o caminho da experiência pessoal, da imaginação sem limites e da aspiração individual, valorizando os aspectos mais particulares da vida afetiva.

O próprio autor formula a questão que se segue: Por que a caminhada é uma imagem tipicamente Romântica? Para Jeffrey, a caminhada é de ordem fundamentalmente espiritual e trata essencialmente da conquista da felicidade. Não que isso tenha surgido com o romantismo, mas parece que nesse período houve uma busca nesse sentido, a caminhada como facilitadora desse processo de bem estar, ou, indo ainda mais longe, de transcendência espiritual. A caminhada, opina Jeffrey, “ressalta o drama do confronto entre o mundo interior e o mundo exterior, mundos que coexistem em diferentes graus de compatibilidade”.



Como não poderia deixar de ser, o autor vai calçar as questões básicas de seu texto - a imagem romântica e a caminhada deambulatória - em pensadores, escritores e filósofos que notoriamente curtiam uma boa caminhada; aqui nem importa o ritmo, o local e a distância, de modo que leremos ao longo do ensaio as palavras de um iluminado Bashô, o sábio peregrino japonês, passando por Laurence Sterne, Baudelaire e Rousseau.

Vem desse último, Rousseau, uma das passagens das quais mais apreciei desse ensaio e o capítulo cujo trecho você lerá a seguir intitula-se “O caminhar e a solidão”:



Eu nunca refleti tanto, existi tão vividamente e experienciei tanto, nunca fui tão eu mesmo – se é que posso usar essa expressão – quanto nas jornadas que fiz sozinho e a pé. Há algo sobre a caminhada que estimula e anima meus pensamentos. Quando eu permaneço em um lugar eu mal consigo pensar, meu corpo tem que estar em movimento para que minha mente siga funcionando.

A visão dos campos, a sucessão de vistas agradáveis, o ar puro, o apuro sonoro e a boa saúde que ganho ao caminhar, a atmosfera simples de uma pousada, a ausência de qualquer coisa que me faça sentir dependente de algo, de tudo o que me recorde de minha situação – tudo isso serve para livrar meu espírito, para deixar meus pensamentos mais arrojados, para me jogar, por assim dizer, na vastidão das coisas, de modo que eu possa combiná-las, selecioná-las e torná-las minhas conforme meu desejo, sem medo ou limitação. Disponho de toda a Natureza como mestre.



Pulando páginas, dois capítulos à frente, chegamos no “Caminhante urbano” cujo parágrafo inicial trata de um tema bastante simpático: um homem e seu cachorro. Sua leitura me fez lembrar dos solitários sem-teto, vagamundos que povoam as ruas das cidades grandes, e acredito que São Paulo, cidade de onde escrevo, deva ser uma das que mais alberga esses tipos de cidadãos, quer por opção, por conta de um vício, um problema psiquiátrico ou por total falta de oportunidade. Trouxe essa imagem à mente porque sempre me comovo quando observo os cachorros que acompanham essas pessoas que vivem à margem da sociedade: a fidelidade e o amor incondicional, tão próprio desse animal, em sua máxima expressão. Dizem que os cães são por eles adotados como proteção, mas também acredito que a companhia tem o mesmo peso nessa equação, senão maior.


O Jeffrey diz que muitos viajantes asseguram que a jornada tem que ser solitária: você, um par de botas e o horizonte à frente, nada mais. Mas nessa empreitada, quiçá, o cão pode ser o acordo perfeito entre a severidade da solidão e uma companhia tumultuada, agregando de maneira positiva a liberdade almejada e a companhia de alguém que não perturba. “Sem restringir os pensamentos de quem viaja, o cão conforta o caminhante em sua solidão, refletindo suas atividades, e como a imagem de um espelho, o cão exige do ser caminhante seus próprios movimentos contínuos na jornada; a pessoa e o cachorro compõem uma caminhada idílica.”



Depois disso cita Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (explicando que o alemão muitas vezes agregava um cão em seus romances) que publicou um romance famosíssimo intitulado “Um homem e seu cão” (A Man and His Dog) - até onde pesquisei não publicado por aqui, mas tem lá no site da Amazona (used) e o preço não é nada camarada. Ficamos na vontade mesmo.

Nesse mesmo capítulo – o do caminhante urbano - surge um lance bem interessante, quando o autor começa a divagar sobre obras de arte fotográficas que retratam caminhantes pelas cidades, clicadas por André Kertesz, onde vemos impressas duas delas: “Washington Square, Winter, 1954”



 e “Pont Neuf, Paris, 1931”




Interessante porque ele faz uma leitura comparativa entre o olhar do fotógrafo, que parece gostar de clicar pessoas solitárias andando pelas ruas, e aquilo que outros escritores publicaram sobre os homens, a solidão e as cidades. Diz que, “de um ponto de vista Romântico, a cidade moderna é o lugar do isolamento e da alienação”. Semelhante às telas encantadoras de Edward Hopper, quem melhor no mundo retratou o ser solitário das cidades, com a diferença de que em suas pinturas as pessoas se encontram sempre numa melancólica inércia contemplativa, raramente em movimento e quase sempre sentadas.



Coincidentemente, quando chego ao próximo capítulo, vejo que a arte pictórica é cara ao autor, que escreve sobre uma “jornada através de uma exibição de Degas” no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Um capítulo que mereceria fazer parte do currículo de um bom curso de escrita criativa, uma aula de como observar uma obra de arte para além de sua aparência. E o interessante é que tudo o que ele escreve, cada nota que transcreve de seu bloquinho de anotações, tudo faz parte de um jogo onde o que importa é o proveito que se tira do passeio, a troca entre o sujeito e o objeto por ele observado – e por objeto se entende não só as pinturas de Degas como as pessoas que transitam pelas salas, as molduras penduradas nas paredes e tudo o mais que o cerca dentro daquele espaço-tempo liminar. São suas as palavras a seguir:



Viajando pelo museu eu pude imaginar todos estes Degases acorrentados às paredes, num estado de submissão, enfileirados em corredores em vez de estarem dignamente pendurados nas paredes dos verdadeiros apaixonados, numa sala cheia de personalidade e até mesmo devoção. E mesmo estando todas juntas, elas assumem o poder de uma comunidade ideal, se rivalizam, conversam umas com as outras. De fato, talvez o burburinho geral dos caminhantes pelas galerias é somente um eco dos sussurros entre as próprias pinturas. Pinturas dentro de pinturas; caminhadas dentro de caminhadas; sussurros dentro de sussurros. Essas repetições são de um tom muito mais sutil. 

E antes que o livro termine, o Jeffrey divaga sobre o papel das pontes, um tema fascinante dentro dos estudos simbólicos que ele explora quase que superficialmente, fechando o ensaio com uma breve menção à carta do Louco no Tarô, que alguns estudiosos colocam como sendo a carta zero dos 22 arcanos maiores, e outros como sendo a última, a que fecha o ciclo da jornada. Uma escolha mais do que sugestiva para terminar um ensaio sobre a caminhada. Namastê!



Fonte: The Walk: notes on a romantic image. Jeffrey C. Robinson. Dalkey Archive Press, 1989. London. 144pp.