quarta-feira, 19 de março de 2014

O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher

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Terminei de ler uma obra estimulante - uma biografia – da Karen Armstrong, famosa escritora britânica especialista na temática da religião. Eu conhecia os textos da Karen apenas sob o ponto de vista acadêmico, quando li na faculdade uma obra dela que versava sobre o islamismo, O Islã, merecedora de muitos elogios e sem dúvida uma excelente porta de entrada para o universo dessa religião ainda muito mal compreendida.

Em A escada espiral, seu livro de memórias, Karen Armstrong escreve sobre a sua vida desde o momento em que decide, ainda muito jovem, entrar para um convento com a firme convicção de encontrar Deus e viver a sua fé nele de maneira integral, junto a seus pares, por los siglos de los siglos, amém.  Mas nada disso acontece e, além de não encontrar Deus na clausura, a moça deixa a ordem menos crente do que quando havia ingressado. Daí em diante você terá que ir atrás por conta própria, porque a vida da Karen realmente merece um livro. Ou vários.


Não é propriamente sobre a Karen Armstrong que vou escrever, mas foi uma passagem de suas memórias espiraladas que me fez querer escrever sobre outra obra que li também recentemente e que fala sobre uma viagem, mas uma viagem no sentido mais simbólico do termo. Trata-se de um pequeno livro intitulado O cavaleiro preso na armadura, que ganhei de um grande amigo peregrino e que li de uma tirada só, comendo páginas feito traça de papel.

A história, escrita por Robert Fisher, é uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade (subtítulo da obra). Como todas as fábulas, você tem a impressão de estar diante de uma leitura voltada para o público infanto-juvenil. Mas, assim como o herói dessa história, é preciso enxergar o mundo para além das aparências- o que parece ser apenas um discurso bonito, mas na verdade nada mais é do que um grande ensinamento que implica, sobretudo, no confronto desconfortável com o próprio ego, uma dura batalha em se tratando de uma sociedade narcisista e ególatra como a atual.


Em poucas linhas, a narrativa gira em torno de um cavaleiro desses de conto de fadas que percorre caminhos em busca de aventuras: matar dragões, lutar contra inimigos, resgatar donzelas em apuros, tudo o que faz parte de nosso imaginário medieval. Para além de suas destrezas, o cavaleiro era conhecido mesmo por conta de sua armadura, tão linda e brilhante que, quando partia para a batalha, “os aldeões podiam jurar que tinham visto o sol nascer no norte ou se pôr no leste”.


O cavaleiro tinha uma esposa, um filho e um castelo bacana, mas andava sempre tão ocupado em estar pronto para lutar em alguma batalha que mal conseguia dar atenção à sua família; sua fixação em estar sempre pronto para partir o levou a viver constantemente vestido com sua armadura até que chegou um dia em que não mais conseguia tirá-la. Como sua esposa já não mais aceitava conviver com essa situação, acreditando que o marido não tirava a armadura porque não queria - e não porque não conseguia -, o cavaleiro resolveu partir e só voltaria ao castelo depois que conseguisse se livrar da prisão de sua própria armadura.

O chamado da busca, portanto, fica claro no conto: é preciso partir para encontrar uma solução, uma vez que a “cura” só é alcançada no exílio; é o afastamento que promove a transformação, que facilita a busca de uma solução que só chega quando nos encontramos distanciados daquilo que nos faz sofrer ou que nos impede de enxergar, que é bem o caso do cavaleiro dessa fábula.


É aqui que entra a Karen Armstrong, fazendo a ponte que une o conto do cavaleiro com o mito do herói, bem ao estilo do Joseph Campbell. Diz a Karen que os grandes mitos mostram que quem segue rumo alheio acaba se perdendo. E prossegue:

“O herói tem de partir sozinho, abandonando o velho mundo e os velhos hábitos. Tem de aventurar-se na escuridão do desconhecido, onde não existe mapa nem caminho visível. Tem de combater seus próprios monstros – não os monstros de outrem -, explorar seu próprio labirinto, sofrer sua própria provação para poder encontrar o que lhe falta. Assim transfigurado, pode levar algo de valor para o mundo que ficara para trás.”


“Todavia, se o cavaleiro percorre uma rota já estabelecida, está apenas seguindo pegadas alheias e não viverá uma aventura. Se quer triunfar, tem de entrar na floresta, diz o texto, em francês arcaico, de A busca do Santo Graal, ‘num ponto em que ele mesmo escolheu, onde a escuridão era maior e não havia caminho’. Na terra árida da lenda do Graal, as pessoas levam vidas inautênticas, cumprindo cegamente as normas da sociedade e fazendo só o que os outros esperam delas.”

Voltando ao conto, o cavaleiro decide procurar o rei antes de entrar na floresta, mas este se encontrava ausente, participando de uma nova cruzada; quem lhe informa isso é um bobo da corte, que estava sentado junto à ponte levadiça do castelo. No breve diálogo que se segue entre os dois, o cavaleiro descobre que a única pessoa que pode lhe ajudar é o Mago Merlin, que o bobo garante estar vivo, morando “nas florestas além”. E tudo isso acontece no primeiro dos sete capítulos do livro.


Só vou adiantar, para não estragar a surpresa, de que o cavaleiro de fato encontra Merlin na floresta, depois de muito tempo buscando seu rastro; é o mago quem lhe oferecerá a chave que o libertará de sua armadura, mas toda liberdade tem um preço. A incumbência que Merlin dá ao cavaleiro é a seguinte: ele terá que trilhar, a pé, o Caminho da Verdade, tendo como companhia um esquilo e um pássaro; nesse caminho terá de atravessar três castelos que bloqueiam seu passo: o primeiro castelo chama-se Silêncio, o segundo Conhecimento e o terceiro, Vontade e Ousadia.

O conto se desenrola à maneira das fábulas de antigamente, que dizem muito além daquilo que se percebe na aparência superficial dos lugares comuns e finais felizes; estão lá os velhos chavões, os mesmos vícios de linguagem dos contos infantis, as mesmas morais revestidas de autoajuda, mas nada disso importa. A mensagem é mais forte do que qualquer uma dessas convenções e quem não liga para isso se diverte muito mais.


A fábula de Robert Fisher tem força suficiente para comover o leitor que busca uma leitura singela, sem grandes pretensões literárias – mesmo porque a intenção do autor seguramente foi a de fazer com que sua história tocasse o leitor num nível mais profundo, fazendo-o pensar em sua própria condição de “cavaleiro preso em uma armadura”, metáfora apropriada que cabe, em algum momento, na experiência de vida de todos nós.

De fato, cada pessoa fará sua própria interpretação do texto, uma vez que a linguagem metafórica possui essa liberdade interpretativa. O que representa uma armadura para você? O que você entende por liberdade? Qual a importância do amor em sua vida? Qual a sua busca? São questões como estas que o autor se propõe a responder nessa fábula, na verdade um apanhado sucinto dos ensinamentos do grande estudioso Joseph Campbell, que dedicou toda sua vida à compreensão da busca humana tendo como chave de interpretação os mitos das mais diversificadas culturas e religiões do planeta.


A Karen Armstrong, ao se recordar de seus estudos religiosos, disse que estes lhe mostraram que a busca (religiosa) não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, de maneira mais intensa possível, no aqui e agora; não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano. Essa ideia casa-se perfeitamente com o cavaleiro preso na armadura, daí a minha surpresa ao pegar-me lendo ao mesmo tempo duas obras tão distintas e encontrar em uma delas passagens que afirmam e amplificam a linguagem simbólica da outra. Uma coincidência muito bem-vinda.

Finalizo com a Karen, que em poucas palavras dá uma aula de como uma obra como a do cavaleiro de Robert Fisher pode nos ajudar a reinterpretar a vida e, quem sabe, colocar em prática as tarefas necessárias para uma mudança integral que nos leve em direção ao equilíbrio e à paz interior.


“Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos do herói, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.”
Leia:

O cavaleiro preso na armadura: uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Robert Fisher. Ed Record, 2012.


A escada espiral: memórias. Karen Armstrong. Companhia das Letras, 2005.