sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre o silêncio e a solidão e um poema: El cielo dentro de mí, por Atahualpa Yupanqui y Pablo del Cerro

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Tenho verdadeiro fascínio por textos que tratam dos temas que envolvem o silêncio e a solidão e já disse aqui uma vez que sou apaixonado pela história e lições dos padres do deserto, cenobitas embriagados de Deus que buscaram no silêncio e na solidão o caminho para a comunhão divina.

 Diz Ramakrishna (na obra Liberte-se do passado, Ed Cultrix) que

“Ter silêncio e espaço interiores é muito importante, porque implica liberdade para existir, mover-se, atuar, voar. Afinal de contas, a bondade só pode florescer onde há espaço, assim como a virtude só pode medrar quando há liberdade. Podemos ter liberdade política, mas, interiormente, não somos livres e, por conseguinte, não há espaço. Nenhuma virtude, nenhuma qualidade valiosa, pode funcionar ou medrar sem esse vasto espaço interior. E o espaço e o silêncio são necessários, pois apenas a mente que está só, livre de influências, de disciplinas, do controle de uma infinita variedade de experiências, é capaz de encontrar-se com algo totalmente novo.”

Partindo desse princípio, tão bem colocado por Ramakrishna, busco sempre ler e reler as obras de autores que sabem valorizar a importância desses momentos de silêncio e solidão; de Paul Brunton a Kerouac, de Fernando Pessoa a Paul Bowles, de Hermann Hesse a Hemingway todos eles em maior ou menor grau souberam da importância de se estar só, talvez pelo simples motivo de que tanto a solidão quanto o silêncio fazem parte da aventura do escrever.

Mas acompanhando de perto esses mestres, sei que não era só isso. Todos eles adoravam longas caminhadas, viagens sem pressa de voltar, e o reconfortante contato com a natureza para repor as energias. As viagens, assim como as longas caminhadas, se mostram muito úteis nesse processo transformador e revelador que nos faz enxergar a vida sob novas e diferentes perspectivas e possibilidades.

Hoje eu compartilho com você uma poesia, que tem tudo a ver com o que acabei de escrever e que me chegou pelas mãos de um poeta lá do Sul, o Ulisses Borges, que além de escrever muito bem tem um ótimo sexto sentido para as coisas boas que pintam por aí. Valeu, Ulisses! Buen camino!     

El cielo dentro de mí


en lo alto de la sierra
me detuve a descansar
pero sentí que me iba
sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron
en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo
tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado
la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo
y yo respondí quizás

el cielo está dentro de uno
y está el infierno también
el alma escribe sus libros
pero ninguno los lee

a veces uno camina
entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa
y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo
que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo
pues hay mucho que luchar

por caminos solitarios
yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba
pero por dentro quizás

(Atahualpa Yupanqui/ Pablo del Cerro)

Leia e ouça o poema no blogue do Ulisses:
http://ulisses-borges.blogspot.com.br/2014/11/el-cielo-esta-dentro-de-mi.html