quinta-feira, 2 de julho de 2015

Credo de um guerreiro. Samurai anônimo, Séc. XIV

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Encontrei num albergue de peregrinos um pedaço de papel pregado em um quadro de avisos um texto muito bonito de autoria de um samurai anônimo do século XIV. Embora tenha sido escrito visando, imagino eu, a educação moral de um guerreiro samurai, nesse texto estão condensadas afirmações que servem como inspiração a todos os tipos de guerreiros, numa compreensão arquetípica do termo. Em viagens onde a dor, o medo e a solidão se fazem presentes, onde a busca espiritual, com todas as suas dificuldades e provações é uma possibilidade, não soa exagerado chamar o viajante de guerreiro. Acredito que a pessoa que pregou essa mensagem no quadro daquele albergue também deva pensar assim. Ultreya y Sueseya!

CREDO DE UM GUERREIRO



Não tenho país: Fiz do céu e da terra o meu país.
Não tenho lar: Fiz da percepção o meu lar.
Não tenho vida ou morte: Fiz do fluir e refluir da respiração a minha vida e a minha morte.
Não tenho poder divino: Fiz da honestidade o meu poder divino.
Não tenho recursos: Fiz da compreensão os meus recursos.
Não tenho segredos mágicos: Fiz do caráter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Fiz da resistência o meu corpo.
Não tenho olhos: Fiz do relâmpago os meus olhos.
Não tenho ouvidos: Fiz da sensibilidade os meus ouvidos.
Não tenho membros: Fiz da diligência os meus membros.
Não tenho estratégia: Fiz da mente aberta a minha estratégia.
Não tenho perspectivas: Fiz de “agarrar a oportunidade por um fio” as minhas perspectivas.
Não tenho milagres: Fiz da ação correta os meus milagres.
Não tenho princípios: Fiz da adaptabilidade a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho táticas: Fiz do pouco e do muito as minhas táticas.
Não tenho talentos: Fiz da agilidade mental os meus talentos.
Não tenho amigos: Fiz da minha mente o meu amigo.
Não tenho inimigos: Fiz do descuido o meu inimigo.
Não tenho armadura: Fiz da benevolência e da imparcialidade a minha armadura.
Não tenho castelo: Fiz da mente imutável o meu castelo.
Não tenho espada: Fiz da ausência do ego a minha espada.



quinta-feira, 18 de junho de 2015

Viagens sagradas: relato de uma peregrinação a Meca

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Quando estudei religião na faculdade, num curso de pós-graduação na PUC aqui de São Paulo, aprendi muita coisa interessante sobre as mais diversas manifestações religiosas. Das aulas que tive, nos três anos em que me vi cercado de excelentes mestres que me apresentaram autores que provavelmente jamais teria tido a chance de conhecer e que hoje considero fundamentais em minha formação, guardo com carinho as do professor Fernando Torres-Londoño, que nos apresentou o Islamismo.

Sempre tive uma simpatia enorme pelo Islã por conta da face mística da religião representada pelo Sufismo, ainda que só tenha lido textos introdutórios sobre o tema e visto alguns documentários na TV sobre os dervixes da ordem Mevlev, aqueles que rodopiam lindamente num ato devocional de entrega e busca divinos. Aparece lá no Baraka, um documentário espetacular do Ron Fricke, uma cena linda que encanta a todos que assistem ao filme pela primeira vez, dos dervixes rodando numa sala de braços abertos, vestes brancas, flutuando em êxtase... coisa mais bela não há.


Gostar dos mistérios é fácil, mas eis que me pego fascinado pela história do Islã, pela vida do Profeta, pela beleza encontrada no livro sagrado dos muçulmanos, me surpreendendo ao saber que Maria, mãe de Jesus Cristo é mais citada no Alcorão do que na própria Bíblia, você sabia disso? (mais precisamente 34 vezes, fui pesquisar); aliás, Maria é a única mulher citada pelo nome próprio no livro sagrado dos muçulmanos e por eles muito reverenciada.

Não irei me estender muito sobre o islamismo, porque nosso interesse aqui é outro, mas gostaria de acrescentar que para o Islã existem cinco pilares que formam a estrutura de vida dos muçulmanos, a saber: O Testemunho de fé, a Oração, a Caridade compulsória (o zakat), o Jejum no mês de Ramadã e a Peregrinação à Meca (Hajj).


Já li muitos textos sobre o Hajj, porque esse tipo de experiência religiosa é um tema que me atrai em particular; entretanto, nunca havia lido um relato não acadêmico ou que não tivesse sido escrito de maneira a exaltar exclusivamente a religião. Sentia falta de ler uma narrativa com um olhar mais antropológico, sobre o comportamento das pessoas que participam do Hajj, a ambientação, os lugares, os ritos... e encontrei um texto que vai direto ao ponto, escrito há quase 60 anos por um norte-americano de origem muçulmana chamado Ahmad Kamal para a Revista Reader’s Digest, (Seleções, no Brasil), intitulado "Eu vi a cidade proibida".

É um relato cru, emocionante e imparcial, sobre uma das experiências mais transformadoras que alguém pode viver na vida. Se você tiver um pouco de curiosidade, convido-o a ler a narrativa do Ahmad que resgato com alegria de um velho livro que tive a sorte de encontrar largado no chão de um sebo. Salaam Aleikum! (Que a Paz esteja com você)


Eu vi a cidade proibida, by Ahmad Kamal

Eu me encontrava em Java escrevendo um livro quando resolvi fazer a peregrinação sagrada à mais secreta e proibida de todas as cidades – Meca, o lugar onde nasceu Maomé, na Arábia.

Muitos aventureiros não muçulmanos já tentaram entrar furtivamente nessa cidade que, no ano 630 da era cristã, o Profeta Maomé fechou para sempre para o mundo exterior. Muitos voltaram antes de por o pé no solo sagrado, aniquilados pelo calor. Outros prosseguiram, penetrando cada vez mais nos mistérios da peregrinação, até que cometeram algum erro no ritual. Desmascarados, foram então massacrados pelos fanáticos ou morreram sob a espada do carrasco.

Um rosto claro como o meu não podia deixar de despertar suspeitas; meu cabelo é louro, minha feição nórdica. Além disso, sou americano cem por cento, pois nasci numa estância de gado no Colorado. Sou, porém, de origem maometana, descendente dos turcos setentrionais da Rússia e, em criança, aprendi muitas das preces maometanas. Para ajudar-me ainda mais, em muitos anos de viagem pelo Médio e Extremo Oriente, acrescentei várias línguas ao inglês e ao turco que aprendi quando menino. Por fim, um amigo javanês chamado Amir Izzet, que já estivera em Meca, decidiu acompanhar-me. Seria um companheiro inestimável.


Em fins de agosto de 1952, eu e Amir Izzet tomamos um avião em Jacarta, recostamo-nos nas poltronas e murmuramos baixinho: “Sejam em nome de Deus a viagem e a chegada”. Era a primeira prece do ritual da peregrinação e eu estava procurando decorar todas elas.

Quando chegamos a Dharan, Na Saudi-Arábia, a temperatura marcava 46 graus. No dia anterior, 14 peregrinos haviam morrido de insolação. Eram muitos os que trocavam ali os seus trajes nacionais pelo vestuário da peregrinação. Reunidos em torno das bicas de água fora do aeroporto, procediam às abluções do cerimonial e envolviam-se em simples mantos brancos, sinal de que renunciavam, entre outras coisas, à violência, às relações conjugais, ao uso de perfume, joias e adornos pessoais, até haverem cumprido os ritos que havia para cumprir.


Nobres e plebeus, todos usavam mantos idênticos; alguns mais previdentes abriam guarda-sóis. Uma vez feitos os votos e envergadas as vestes sagradas, ninguém pode cobrir a cabeça antes do término da peregrinação.

Quando partimos de avião para Jidá, o porto de Meca no Mar Vermelho, a temperatura subira a 52 graus. Convergiam para aí aviões de transporte da Somália, Etiópia, do Sudão, do Egito, da Síria, do Iraque, da Indonésia, todos levando peregrinos. O aeroporto era um verdadeiro pandemônio. Centenas de peregrinos de todas as cores andavam, suados, de um lado para outro, à procura das suas bagagens, que eram quase sempre embrulhos amarrados com corda, difíceis de distinguir uns dos outros. Não havia sistema, nem organização, nem língua comum. Mulheres egípcias, habituadas a soltar gritos agudos quando zangadas ou aflitas, enchiam a noite com o seu berreiro.

Um manto de umidade incrivelmente opressivo cobre Jidá. Em vez de se evaporar e refrescar o corpo, a transpiração fica aderida à pele como um ácido, infetando quase todos com brotoejas que coçam terrivelmente. Amir Izzet já tremia todo sob aquele tormento sem alívio.

Um árabe examinou o meu passaporte americano. Esperava ter na sua frente mais um técnico em petróleo... e descobriu um visto de peregrino. Mais que depressa convocou outros funcionários. Interrogado no meio da confusão, expliquei a minha origem racial. Houve uma pausa sinistra e vazia. Vi-me cercado de olhares desconfiados e frios.

Apareceu o Dr. Fahmi Murat, o médico da quarentena, que era de origem turco-tártara; falava o mesmo dialeto turco que eu. Assegurou que eu não era um impostor e, assim, pude respirar.

Conseguimos alojamento no Hotel Al-Taysir. Havia mais seis peregrinos em nosso quarto, jornalistas maometanos do Cairo, de Tunes e de Teerã. Todos nós teríamos preferido a terra dura àquelas camas imundas; mas os peregrinos, mais de 300.000, tinham transformado as ruas de Jidá e o deserto em volta numa vasta estrumeira.


Os habitantes de Jidá e de Meca consideram os fiéis uma presa enviada por Deus. O Al-Taysir, inferior a qualquer hotel de última classe, cobrou-nos o equivalente a 200 cruzeiros por noite. Ali não circula dinheiro em papel e os peregrinos que chegavam tinham de comprar, com prejuízo, moedas de ouro e de prata dos cambistas de Jidá. Os transportes eram uma concessão particular do ministro das Finanças, que aumentava os preços das passagens à medida que os navios despejavam gente.

Em Jidá, a 72 km de Meca, todos os peregrinos têm de trocar os seus passaportes por salvo-condutos. Tentar passar pelos postos de fiscalização da estrada de Meca sem esse documento seria morte certa. Disseram-nos que dois incréus de Jerusalém haviam sido descobertos e mortos a pedradas na estrada de Meca. “Foi tudo muito rápido”, disse um árabe muito naturalmente. “Depois que eles morreram, descobriu-se que os salvo-condutos de ambos estavam em ordem; mas eram louros e levavam máquinas fotográficas. Se morreram como mártires, devem estar no Paraíso. Deus seja louvado!”


Amir Izzet e eu passamos três dias esperando nervosamente o meu salvo-conduto. “Os funcionários estão assoberbados de serviço”, disse o velho agente que aparentemente estava tratando de nossos papéis. No quarto dia pela manhã, cada vez mais inquieto, meti, em dado momento, a mão no bolso para coçar a coxa, pois também estava atacado de brotoejas – e vi os olhinhos do agente cintilarem de avidez. Tirei do bolso uma libra de ouro, e daí a uma hora estava com o salvo-conduto na mão.

Partimos pela estrada de Meca ao escurecer, com o calor ainda fortíssimo. Peregrinos em êxtase fluíam para o interior através daquela desolação de fornalha, em automóveis, caminhões e ônibus desmantelados; em lombo de camelo e de burro; e a pé. Algumas famílias caminhavam havia dois anos, tendo atravessado todo o continente africano. Eram pretos pobres de Serra Leoa e de Gana. Três vezes naquela congestionada estrada fomos detidos em sujos postos de guarda e examinados pela polícia árabe armada. E então, subitamente, as portas da cidade de Meca surgiram no meio da noite empoeirada.


A luz dos faróis dos carros rendilhava a sufocante escuridão; árabes com odres cheios de água ofereciam-se para matar a sede em troca de moedas de prata. O calor pesava sobre nós como um animal arquejante, mas a noite estava cheia de preces delirantes. Os peregrinos não se lembravam nem se importavam de terem sido explorados a cada passo de sua jornada.

Buzinando forte, passou por nós rapidamente uma caravana de carros de luxo. Era um potentado árabe com suas mulheres, escoltado à frente e à retaguarda por jipes cheios de escravos armados... atravessamos uma  rampa cheia de buracos e descemos para as dispersas luzes amarelas de Meca. Senti os cabelos arrepiarem-se. Estávamos na cidade secreta.


Todos os peregrinos que chegam a Meca correm para a Mesquita do Santuário. Ali, no grande pátio interno, fica a Caaba, construção de pedra coberta de panos azuis, sem janelas e apenas com uma porta – “o edifício mais antigo do mundo, o templo junto ao qual Adão, aflito, rendeu culto a Deus depois da sua expulsão do Paraíso”. Esse é o lugar mais sagrado do Islã; onde quer que se ajoelhem para orar, os maometanos voltam-se na direção de Meca e da Caaba, de onde, segundo se crê, as preces, pronunciadas em uníssono, convergem de todos os cantos da Terra e sobem verticalmente à atenção de Deus.

Encontramos um lugar em frente à porta da Caaba para dizer a prece preparatória. Graças a um claro momentâneo no turbilhão de gente, avistei a sagrada pedra preta, meteorito erguido sobre um altar a um canto da Caaba – a pedra que, segundo a tradição sagrada, foi levada a Abraão e Ismael pelo Arcanjo Gabriel durante a reconstrução do templo depois do Dilúvio.


O alarido da multidão rezando constituía como que um trovão antifônico para os relâmpagos de calor que riscavam as trevas. Muita gente chorava. Terminadas as nossas preces, tínhamos, antes de dormir, de percorrer sete vezes o itinerário sagrado entre os montes As-Safa e Al-Marwah. Fora ali que Agar, a serva egípcia de Abraão, andara correndo desorientada atrás de miragens e à procura de água para si e para o pequeno Ismael.

Lutamos para romper o refluxo humano, tentando correr por onde Agar havia corrido. No mínimo 50 mil pessoas se moviam incessantemente entre os dois montes, entoando as preces rituais. Um moribundo observava o rito do fundo de uma vacilante liteira levada à cabeça de carregadores.


As nossas acomodações para o resto daquela noite, partilhadas com peregrinos javaneses, foram uns catres no quinto andar de uma estrutura de pedra com séculos de idade e que parecia uma masmorra. Às 10 horas da manhã seguinte, numa temperatura de 46 graus (160 peregrinos haviam morrido nas 24 horas anteriores), fomos ao coberto Mas’a para fazer uma visita às barracas do bazar; havia ali toneladas de rosários de âmbar, de pedras preciosas e de madeira perfumada. Havia sedas e almíscar, incenso, essências, água de rosas e bebidas refrigerantes.

Na rua escaldante um mercador vendia água suja açucarada aos passantes. Aproximou-se um paquistanês de olhos fundos, mostrando a bolsa vazia e a língua grossa e pedindo a caridade de um gole. No momento em que o vendedor enxotava o homem, apressamo-nos e pagamos-lhe um copo da beberagem. Isso provocou um protesto indignado do vendedor.

- O Alcorão diz que quem não tiver recursos para a viagem não deve fazer a peregrinação. Vocês aumentaram o sofrimento desse homem prolongando-lhe a agonia!


Alguns dos ritos mais importantes da peregrinação têm lugar no deserto, no Vale de Arafat. À tardinha, os caminhões que haviam transportado tendas e provisões para lá voltavam com os cadáveres daqueles que, já não dispondo de dinheiro para o transporte, tinham partido a pé para aquele inferno.

Ao pôr do sol a cidade secreta estremeceu e, em meio de uma vasta cortina de poeira, despejou no deserto quase todos os seres humanos que a enchiam. Eu e Amir viajamos no alto de um ônibus desconjuntado, juntamente com 20 javaneses e dois novilhos amarrados e destinados ao sacrifício de sangue.

A uma hora e um quarto de Meca entramos no Vale de Arafat. Mais de 80 mil tendas estavam armadas no chão pedregoso do árido vale em torno de uma montanha isolada de rocha nua que se projetava do centro.


“Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso ficaram separados. Durante 200 anos se procuraram através da terra, sem descansar, até que os próprios céus se comoveram diante de tanto amor. Foi aí que eles se encontraram. Do alto desta montanha, Eva viu ao longe Adão vindo ao seu encontro”.

Acima do rugido dos motores e do balir dos carneiros condenados ao sacrifício, reboava o imenso marulho das vozes recitando o zikr, a hipnótica repetição de louvor a Deus.

Uma hora depois do nascer do sol, o termômetro marcava 53 graus; um egípcio tropeçou nas cordas da nossa tenda e teve um colapso. Um sírio morreu, esguichando sangue do nariz. Um aguadeiro árabe descansou no chão, com gestos vacilantes, as latas de querosene que carregava num varal e caiu junto delas.


Apesar de tudo, os crentes continuavam a chegar, pois quem não estivesse no vale à passagem do sol pelo seu meridiano perderia a peregrinação. Era o Dia da Absolvição, quando Deus se revelaria aos Seus servos.

Ao meio-dia em ponto, todos os que não estavam mortos se levantaram e se voltaram para a montanha, que flutuava num lago mercuriado – uma miragem. As preces começaram, elevando-se da multidão qual imensa sinfonia, acorde após acorde, e continuaram durante horas.


Os peregrinos capazes fisicamente permaneceram de pé nas suas tendas escaldantes até que o sol desapareceu atrás do horizonte. Então, de repente, a grande multidão fugiu do vale sagrado. Também isso faz parte do ritual, embora não se saiba mais a sua significação.

A multidão nos arrastou para um caminho mais baixo, onde fomos obrigados a ficar à margem enquanto passava uma coluna de caminhões, tão lotados de soldados que os fuzis eram levados suspensos acima da cabeça. Depois passou o rei numa limusine veloz, seguido de uma escolta.


Agarrados à coberta do nosso arquejante ônibus, seguimos para a arruinada aldeia de Mina, ponto final da peregrinação, numa torrente homicida de tráfego. Vimos dois carros se chocarem, saltarem cada um para um lado e correrem desgovernados pelo deserto, onde se arrebentaram nas pedras, capotando e jogando longe os passageiros. Ninguém parou. Quem o fizesse, seria esmagado pela onda que vinha atrás.

Foi em Mina que Abraão se preparou para sacrificar o filho (Gênese, XXII) quando, por intercessão divina, um carneiro apareceu para tomar o lugar do menino. Ali, na manhã escaldante, o mar humano invadiu a rua onde se veem três monumentos de pedra e cal que marcam os lugares onde Satanás apareceu três vezes ao filho de Abraão, tentando o menino a fugir, e por três vezes foi afugentado a pedradas. Durante a marcha desde Arafat todos os peregrinos se haviam munido de pedras com as quais durante três manhãs apedrejariam ritualmente as colunas.


Passamos quase todo o segundo dia deitados em nosso acampamento, arfando com falta de ar. Só saímos à noite, vindo então a saber que 4.411 peregrinos haviam morrido desde o amanhecer; ás 11:20 da manhã, o mercúrio do termômetro subira a 61 graus centígrados!

Nessa noite acordei sacudido por Amir Izzet. As brotoejas o martirizavam tanto que ele respirava com soluços e gemidos involuntários. Acima de nós, num muro arruinado, jaziam dos cadáveres em começo de putrefação. Não suportamos mais.

Cobrindo o nariz com o manto, passamos por cima dos peregrinos javaneses adormecidos e atravessamos às pressas a aldeia; atiramos as pedras que nos restavam nas três colunas de Satanás para cumprir o ritual.


Além do cimo do vale, compramos passagem num carro e daí a uma hora estávamos em Meca. Uma semana depois eu me encontrava em Nova Iorque. Tinha assistido à mais antiga cerimônia religiosa do mundo – um ritual milênios mais velho do que a religião que o adotou.

Texto extraído da coleção Janelas para o Mundo, vol 35, Seleções do Reader's Digest . 1a edição. São Paulo. Editora Ypiranga S/A, 1960. 


Para ir mais longe, Karen Armstrong:

O Islã. Ed Objetiva.


Maomé: uma biografia do Profeta. Companhia das Letras.  

  

terça-feira, 14 de abril de 2015

O farol de La Jument, by Paco Nadal

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Não sou muito de mar, confesso, porque amo as montanhas e a segurança dos meus pés no chão. Mas um lado meu ama as histórias de aventuras marítimas, sobretudo as de naufrágios e de bravos sobreviventes que acabam indo parar em uma ilha perdida desses mares sem fim. 

Também adoro a imagem dos faróis, tão simbólicos em suas estruturas salvadoras, sua solidão imponente, quem não se encanta? E temos a impressão, nós que vivemos longe do mar, que parecem nem existir os tais faróis que vemos reproduzidos por aí, em pôsteres e quadrinhos mal pintados das lojinhas de souvenir de cidades litorâneas. E foi assim, lembrando de uma imagem, a mesma que você vê aí abaixo, que Paco Nadal se inspirou, durante uma viagem, para escrever sobre uma foto, que é linda e fantástica e cuja história merece ser contada. 
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Como foi feita essa foto? O faroleiro morreu ao ser atingido por uma onda? Eu me fiz essa pergunta quando vi pela primeira vez essa imagem impactante em um pôster já nem me recordo onde. Depois a vi centenas de vezes em lugares diferentes, como você também provavelmente já deve ter visto: é um dos pôsteres mais vendidos em lojas de lembranças e recordações.

E olha onde me encontro hoje: na ilha francesa de Ouessant, na Finisterre da Bretanha, quando tropeço sem querer com a história dessa foto e do faroleiro que a protagoniza.

O farol se chama La Jument e é uma das lanternas de mar mais espetaculares da costa francesa; está a dois quilômetros mar adentro da ilha de Ouessant e foi construído entre 1904 e 1911 para sinalizar um ponto perigosíssimo onde antes houve muitos naufrágios.

A história da foto aconteceu em 21 de dezembro de 1989. O fotógrafo francês especializado em imagens de faróis, Jean Guichard, sobrevoava de helicóptero La Jument em um dia de forte tormenta buscando a foto perfeita dessas ondas gigantes do Atlântico golpeando a estrutura do farol. Dentro, o faroleiro Theophile Malgorn, que naquela época rondava os trinta anos, escutou as repetidas passagens do helicóptero e pensou que algo estranho estivesse acontecendo; podia ser que o piloto estivesse tentando entrar em contato com ele por conta de um naufrágio ou por algum acidente. E em uma atitude insana, abriu a porta para ver o que se passava.

A ação completa durou apenas dois segundos. Guichard viu aquele homem na porta e seu instinto de fotógrafo lhe disse que ali havia uma composição perfeita: o homem e a força da natureza. Pôs-se a disparar sua câmera alucinadamente até quase o momento em que uma onda gigantesca começava a abraçar com toneladas de água embravecida a estrutura do farol. Nesse mesmo instante, o faroleiro Malgorn – assomado junto à porta do farol, escutou uma trovoada seca, como um estampido brutal (o impacto da onda contra a frente do farol) e soube que havia cometido um erro tremendo. Tão rápido como abriu voltou a fechar a porta, apenas um milésimo de segundo antes que a onda arrasasse tudo. Estava vivo por um milagre.

No carretel da câmera fotográfica de Guichard ficaram impressas 9 imagens – as que deram tempo de serem disparadas pelo motor do equipamento e que fariam o fotógrafo famoso por toda sua vida e com as quais, em 1990, conquistaria o segundo lugar na premiação da World Press Photo (o primeiro foi para a célebre imagem de um manifestante chinês parando sozinho uma coluna de tanques de  combate em Tianammen).

O faroleiro Theophile Malgorn continua vivendo na ilha de Ouessant e não quer que ninguém lhe volte a perguntar sobre a maldita foto. Seus amigos me contaram que ele se aborreceu muito naquele momento porque o haviam colocado em uma situação mortal de maneira irresponsável e além do mais por um motivo comercial; ele saiu para ver o que estava acontecendo por profissionalismo e isso quase lhe custou a vida. Mas pouco tempo depois Guichard o visitou em sua casa, presenteou-lhe com uma foto autografada daquele “momento decisivo” – como diria Cartier Bresson – e acabaram ficando muito amigos.

O último faroleiro abandonou La Jument em 26 de julho de 1991, desde então convertido em um farol automático. Theophile é agora um telecontrolador do farol de Creac’h, também em Ouessant. Os vizinhos costumam vê-lo passear com seus cães pelo sendeiro que margeia a costa da ilha, com o olhar perdido no mar bravio batendo nas falésias, observando a silhueta escura dos faróis onde, quando jovem, passou grandes momentos de solidão em um quarto úmido e escuro.

Os faroleiros são (ou eram) gente muito especial. Seres solitários e pouco falantes, artistas com todo o tempo do mundo para escrever, pintar ou esculpir. Filósofos de uma vida que muito poucos teriam sido capazes de suportar.


É por isso que eles acham difícil adaptar-se a uma vida sedentária, controlando um farol diante de um computador em uma sala limpa e aquecida depois de haverem sido os últimos românticos do mar; filósofos solitários que a cada noite acendiam luzes que salvariam vidas de navegantes anônimos que nunca lhes conheceriam nem encontrariam ocasião de agradecê-los. Como Theophile Malgorn. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Arquétipo do Caminho, by Vera Lucia Paes de Almeida

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Encontrei em meus arquivos um texto que li há alguns anos e que gostaria de compartilhar aqui no blog com os leitores que, assim como eu, curtem esse lance de viagem como processo de transformação interior. Tem uma leve pegada acadêmica, mas a Vera Lucia soube transmitir suas ideias de uma maneira muito clara e gostosa de ler, mesmo para quem não está acostumado com as teorias de Jung ou Campbell, autores que brilham nessa área fascinante do conhecimento interior. Para quem não está familiarizado com o tema, sugiro ler no final do post a definição de arquétipo antes de começar a leitura. Boa viagem.

O Arquétipo do Caminho


“Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.” (Dante Alighieri, A Divina Comédia)


O Arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida que avançamos na nossa caminhada. Geralmente é por volta da metade da vida que entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque já percorremos um bom pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais abrangentes e diferenciados.

É o momento ideal para se fazer um “balanço”, uma avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos e pontos de vista.
Aqui vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência desse arquétipo e dos símbolos correlatos.

O Jardim das Delícias. A Expulsão do Paraíso.



Esse é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição judaico-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância, plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não há escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar.

Efetivamente todos nós já experienciamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá onde a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada.

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que portanto pode ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada “luz no fim do túnel” e ser nossa guia rumo à saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A “Mãe Amorosa” se revela então como a “Deusa Destruidora”, os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho.

O Início da Jornada. O Labirinto.



Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto, já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período muito difícil. Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o que procurar. Temos que ir andando às apalpadelas, tateando, caindo e levantando. É um período perambulação, mas também de grandes possibilidades de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o “novo” surgir.

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para acertos e erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e paz do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de volta também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos leva à próxima característica simbólica da nossa jornada.

As Tarefas do Percurso. O Herói.


Ao aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõe, começamos a vivenciar outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói. Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.

É preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos vencido nossos medos, fragilidades e limitações e termos cumprido com as tarefas que a vida nos propõe, começa outra etapa que é o aprendizado da humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar preso na armadilha da sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa, ao paraíso perdido.

O Retorno ao Centro.



Estar no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio perdido. É a volta a casa, à experiência de plenitude original só que agora não mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de uma busca consciente e voluntária.

A caminhada no labirinto se transforma em “circum-ambulação”, ou seja, caminhamos agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do numinoso e finalmente exercer sua totalidade.



Depois de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas de areia tibetanas.

E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grandes e pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.

“A senda é a companheira que desposei.
Ela me fala debaixo de meus pés o dia todo,
e a noite inteira canta para os meus sonhos.
O meu encontro com ela não teve início.
Ele começa infinitamente ao raiar de cada dia,
renovando o seu verão em novas flores e canções,
e cada novo beijo dela é o seu primeiro beijo para mim.
A senda e eu somos amantes.
A cada noite eu troco de veste por sua causa,
e a cada amanhecer eu deixo nas pousadas do caminho
o estorvo dos velhos farrapos.”
(R. Tagore, Presente de Amante e Travessia)
Nota: Arquétipo é descrito pelo psicólogo Carl Gustav Jung como um conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo que seria a parte mais profunda do inconsciente humano. Os arquétipos são herdados geneticamente dos ancestrais de um grupo de civilização, etnia ou povo. Os arquétipos não são memórias coesas e "palpáveis" no contexto ou definição clássica de memória, mas são o conjunto de informações inconscientes que motivam o ser humano a acreditar ou dar crédito a determinados tipos de comportamento. Os arquétipos correspondem ao conjunto de crenças e valores comportamentais básicos do ser humano e podem se manifestar nas crenças religiosas, mitológicas ou no comportamento inconsciente do indivíduo.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Wabi-sabi, a arte da impermanência, by Juniper/Koren

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Numa passagem clássica da obra A Prisioneira (vol 5, Em Busca do Tempo Perdido), Marcel Proust escreve que a única viagem verdadeira não seria partir em demanda de novas paisagens, “mas em ter novos olhos, ver o universo com olhos de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é...”

Acredito que a experiência de viajar facilita a prática dessa atitude proustiana de exercitar o olhar, de enxergar as coisas de uma maneira diferente, o que poderia efetivamente ser feito sem a necessidade de sair de casa, pelo que não deixa de ser interessante descobrir novas maneiras de observar o mundo no dia a dia, o que em tese também faz com que amadureçamos nossa maneira de viajar, para assim aproveitarmos plenamente o tempo gasto nas deambulações.


Terminei há pouco a leitura de duas obras que me fizeram pensar muito sobre essas coisas, especialmente no que se refere ao olhar e à estética das coisas que nos cercam, que podem ser os objetos e utensílios que guardamos em casa, a decoração de uma loja, um arranjo de flores, a beleza ou a feiura de uma obra de arte, o impacto de um muro grafitado numa esquina da cidade, e qualquer outra coisa que nos chame a atenção, que capte nosso olhar por um tempo maior do que o de costume.  

Vamos aos livros: Wabi-Sabi: the Japanese Art of Impermanence, de Andrew Juniper e Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers, de Leonard Koren. Os títulos são pomposos, mas a temática do Wabi-Sabi é de uma simplicidade tocante, poética e muito sutil, como tudo que costuma vir das tradições do Oriente.


Antes de explicar o significado do termo wabi-sabi vou transcrever o prefácio do Andrew Juniper para sua obra sobre a arte japonesa da impermanência. É bem singela, mas vai direto ao ponto:

Quando me vi pechinchando por uma velha cumbuca em um restaurante turco, me dei conta de que os anos passados no Japão mudaram radical e irreversivelmente minhas perspectivas sobre a arte e a beleza. A pequena tigela escura que tanto me chamou a atenção não possuía um design que se pudesse qualificar, sua superfície era áspera e impregnada por anos de cozinha turca... mas mesmo assim havia algo nela que era sedutoramente atrativo.

A superfície esmaltada ganhara uma tonalidade visualmente rica e sua forma simples e nada refinada era pura e sem quaisquer considerações artísticas – uma entre milhares de tigelas semelhantes, mas sua rusticidade e ausência de arte eram extraordinariamente expressivas e ressonantes com as imperfeições e impermanência da vida. A vasilha que nós tanto admiramos tinha aquilo que os japoneses se referem como wabi-sabi.



Achei que o autor foi muito feliz ao tentar explicar o espírito do wabi-sabi sem ter que apelar para nada além de uma experiência corriqueira por ele vivida em um restaurante turco. De fato, ele sequer explicou o significado do termo wabi-sabi, lembrando, duas páginas à frente, de que os japoneses possuem uma admirável tendência de deixar o inexplicável inexplicado, como é o caso do Zen, cujos significados mais profundos não podem ser comunicados através de explanações verbais.

“Na filosofia Zen, as palavras são o obstáculo fundamental à clareza da compreensão; os monges buscam atingir seu objetivo de iluminação não através do aprender senão do desaprender todas as noções preconcebidas da vida e da realidade”, afirma o Andrew, que muito coerentemente nos lembra de que isso não funciona, regra geral, para um ocidental que queria mergulhar na cultura do antigo Oriente; até chegar nesse ponto, nós aqui precisamos comer muito arroz, de modo que recorremos àqueles que se propõem a esclarecer ou mesmo introduzir a cultura e o modo de pensar oriental que tanto nos fascina.



Então, sejamos práticos: o que é o wabi-sabi? O autor de “Wabi-Sabi para artistas, designers, poetas e filósofos”, Leonard Koren, diz que wabi-sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas; a beleza das coisas modestas e humildes; a beleza das coisas não convencionais. O Leonard, assim como o Andrew, também abre o livro narrando uma cena de viagem. Diz que estava no Japão e que foi convidado a participar de uma autêntica cerimônia do chá (que tem tudo a ver com o wabi-sabi), muito divulgada na época e que prometia ser uma experiência inolvidável.

Que nada. No afã de querer impressionar os convivas (isso sou eu quem imagina), foram chamados três dos melhores arquitetos do país para dar um “up” nos locais que presidiriam a cerimônia, ambientes distribuídos no terreno de uma antiga residência imperial. Assim diz o autor:

“Depois de mais de três horas de viagem de trem e de ônibus desde o meu escritório em Tóquio, cheguei ao local do evento e para minha consternação encontrei uma celebração de deslumbramento, grandiosidade e de elegante encenação, mas dificilmente um traço de wabi-sabi. Uma cabana toda lisinha de papel, que parecia e cheirava como um guarda-chuva branco de plástico; adjacente a ela, uma estrutura de vidro, aço e madeira tão íntima quanto uma torre de escritórios e a única casa de chá que poderia resguardar algum indício de wabi-sabi estava gratuitamente enfeitada com penduricalhos pós-modernos”.


Deve ter sido um choque para o Mr. Koren, que após a decepção daquele evento sentou e resolveu escrever sobre o wabi-sabi - para nosso deleite, porque o livro dele é uma pequena joia de noventa e cinco páginas editada com um cuidado que pouco se vê por aí (papel reciclado, lindas fotos em p&b, tudo muito wabi-sabi). 

Diz o autor que, originalmente, as palavras japonesas “wabi” e “sabi” possuíam significados bem diferentes; “sabi” originalmente significava “frio”, “friagem”, “enxuto”, “esbelto” ou “embranquecido”; “wabi” originalmente tinha relação com a miséria de viver sozinho na natureza, longe da sociedade, sugerindo um estado emocional desanimado e triste.

A partir do século XIV os significados de ambas as palavras ganharam outro sentido, se aproximando de um contexto ligado a valores estéticos mais positivos. Por que isso? Porque a pobreza voluntária dos ermitões e ascetas eram tidas como oportunidades para a riqueza espiritual. Para aqueles com inclinação poética, este tipo de vida encorajava uma apreciação dos mínimos detalhes da vida diária, curtindo a beleza das coisas modestas e discretas e a observação da natureza. Por sua vez, essa simplicidade desencanada deu um novo sentido para a apreciação de um novo tipo de beleza, mais pura em sua essência.


Com o passar dos séculos, os significados de “wabi” e “sabi” foram se transformando/interligando tanto que a linha que os separava ficou tão sutil que hoje, no Japão, se convencionou que “wabi” e “sabi” são a mesma coisa, portanto, wabi-sabi e pronto, porque simplificar é sempre uma boa opção. Mas, se fôssemos caracterizar suas diferenças, como se tratássemos de entidades separadas, então faríamos assim, de acordo com o que apregoa o Leonard Koren:

Wabi: um modo de vida, uma senda espiritual;
Sabi: objetos materiais, arte e literatura.

Wabi: o íntimo, a parte interior, o subjetivo;
Sabi: o exterior, o que se mostra, o objetivo.

Wabi: uma construção filosófica;
Sabi: um ideal estético.

Wabi: eventos regionais;
Sabi: eventos temporais.

Lembra muito aqueles quadros e tabelas taoístas que elencam as diferenças entre o yin e o yang (claro/escuro, úmido/seco, doce/salgado, frio/calor, etc...), e daí a gente se pega pensando em como tudo se relaciona quando botamos a cuca prá pensar um pouco... dá prá viajar um bocado nessas ideias, o Oriente é tudo de bOM.


Voltando aos livros, ainda lendo o já querido Leonardo Koren, veremos que ele facilita nossa vida fazendo outra tabelinha, agora comparando as diferenças entre o Modernismo e a tradição do Wabi-Sabi, superinteressante e esclarecedor, mas isso vou pular, assim como também não falarei da metafísica, dos aspectos históricos e dos preceitos morais do Wabi-Sabi, capítulos curtos que renderiam muitas divagações e quem tiver interesse que corra atrás.

Se pudesse resumir tudo o que os autores escreveram sobre o wabi-sabi em uma única ideia, eu diria que wabi-sabi é aquilo que se encontra na essência das coisas simples; simplicidade é a palavra chave para o wabi-sabi, mas como bem lembra o Leonard Koren, a simplicidade não é tão simples, tome como exemplo a filosofia zen, a cerimônia do chá, o ikebana, a arte da caligrafia japonesa, o teatro Nô, a poesia enxuta do haikai... o wabi-sabi está em tudo isso e em infinitas outras coisas, basta abrir os olhos, os de fora e o de dentro, que você verá e assimilará o wabi-sabi cada vez mais facilmente.

É importante lembrar que o wabi-sabi não é apenas o valor que se dá ao design rústico de um objeto; é algo que captura o teu olhar, que te faz olhar para dentro de ti mesmo e que de alguma forma mexe com tuas emoções. O Andrew Juniper afirma que são nos detalhes mais imperceptíveis que se encontra o coração do wabi-sabi e que é através deles que se pode conseguir vislumbrar a serena melancolia que eles sugerem.



Acredito que você consegue se recordar de momentos em sua vida em que tenha tido contato com essa perspectiva “wabi-sabiana” da vida... Provavelmente muitos, basta olhar para alguns objetos espalhados pela casa, uma pedra catada em leito de rio, uma concha de formato exótico trazida de uma viagem, um artesanato indígena, um vasinho de arte rupestre, uma caixinha de madeira, uma taça garimpada numa feirinha de antiguidades... Exemplos não faltam, vivências idem.

Enquanto termino essa postagem, que pode ser a última, minha despedida desse blog, vejo com carinho e um pouco de saudosismo um pequeno sino de latão, rústico e meio enferrujado, que comprei numa viagem que fiz ao sul de Minas Gerais. Não sei explicar o motivo que me levou a comprar o sininho, mas quando o vi senti que tinha que ser meu, como se alguém me tivesse levado até ele por algum motivo oculto.

No ano seguinte fiz uma viagem, onde caminhei muitos quilômetros por dia durante algumas semanas. Ao preparar a bagagem, lembrei-me de levar o pequeno sino de latão, que foi preso do lado de fora, numa das correias laterais da mochila. A cada passo que dava, ouvia o tilintar baixinho do sino, do meu lado direito, marcando suavemente o ritmo de minha caminhada. E em nenhum momento me senti sozinho.
Leia:


Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers. Leonard Koren. Imperfect Publishing, USA. 1994 and 2008. (disponível no site brasileiro da Amazon)



Wabi sabi: the Japanese art of impermanence. Andrew Juniper.Tuttle Publishing, USA. 2003. (disponível na versão e-book para Kindle)