domingo, 11 de janeiro de 2015

Wabi-sabi, a arte da impermanência, by Juniper/Koren

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Numa passagem clássica da obra A Prisioneira (vol 5, Em Busca do Tempo Perdido), Marcel Proust escreve que a única viagem verdadeira não seria partir em demanda de novas paisagens, “mas em ter novos olhos, ver o universo com olhos de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é...”

Acredito que a experiência de viajar facilita a prática dessa atitude proustiana de exercitar o olhar, de enxergar as coisas de uma maneira diferente, o que poderia efetivamente ser feito sem a necessidade de sair de casa, pelo que não deixa de ser interessante descobrir novas maneiras de observar o mundo no dia a dia, o que em tese também faz com que amadureçamos nossa maneira de viajar, para assim aproveitarmos plenamente o tempo gasto nas deambulações.


Terminei há pouco a leitura de duas obras que me fizeram pensar muito sobre essas coisas, especialmente no que se refere ao olhar e à estética das coisas que nos cercam, que podem ser os objetos e utensílios que guardamos em casa, a decoração de uma loja, um arranjo de flores, a beleza ou a feiura de uma obra de arte, o impacto de um muro grafitado numa esquina da cidade, e qualquer outra coisa que nos chame a atenção, que capte nosso olhar por um tempo maior do que o de costume.  

Vamos aos livros: Wabi-Sabi: the Japanese Art of Impermanence, de Andrew Juniper e Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers, de Leonard Koren. Os títulos são pomposos, mas a temática do Wabi-Sabi é de uma simplicidade tocante, poética e muito sutil, como tudo que costuma vir das tradições do Oriente.


Antes de explicar o significado do termo wabi-sabi vou transcrever o prefácio do Andrew Juniper para sua obra sobre a arte japonesa da impermanência. É bem singela, mas vai direto ao ponto:

Quando me vi pechinchando por uma velha cumbuca em um restaurante turco, me dei conta de que os anos passados no Japão mudaram radical e irreversivelmente minhas perspectivas sobre a arte e a beleza. A pequena tigela escura que tanto me chamou a atenção não possuía um design que se pudesse qualificar, sua superfície era áspera e impregnada por anos de cozinha turca... mas mesmo assim havia algo nela que era sedutoramente atrativo.

A superfície esmaltada ganhara uma tonalidade visualmente rica e sua forma simples e nada refinada era pura e sem quaisquer considerações artísticas – uma entre milhares de tigelas semelhantes, mas sua rusticidade e ausência de arte eram extraordinariamente expressivas e ressonantes com as imperfeições e impermanência da vida. A vasilha que nós tanto admiramos tinha aquilo que os japoneses se referem como wabi-sabi.



Achei que o autor foi muito feliz ao tentar explicar o espírito do wabi-sabi sem ter que apelar para nada além de uma experiência corriqueira por ele vivida em um restaurante turco. De fato, ele sequer explicou o significado do termo wabi-sabi, lembrando, duas páginas à frente, de que os japoneses possuem uma admirável tendência de deixar o inexplicável inexplicado, como é o caso do Zen, cujos significados mais profundos não podem ser comunicados através de explanações verbais.

“Na filosofia Zen, as palavras são o obstáculo fundamental à clareza da compreensão; os monges buscam atingir seu objetivo de iluminação não através do aprender senão do desaprender todas as noções preconcebidas da vida e da realidade”, afirma o Andrew, que muito coerentemente nos lembra de que isso não funciona, regra geral, para um ocidental que queria mergulhar na cultura do antigo Oriente; até chegar nesse ponto, nós aqui precisamos comer muito arroz, de modo que recorremos àqueles que se propõem a esclarecer ou mesmo introduzir a cultura e o modo de pensar oriental que tanto nos fascina.



Então, sejamos práticos: o que é o wabi-sabi? O autor de “Wabi-Sabi para artistas, designers, poetas e filósofos”, Leonard Koren, diz que wabi-sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas; a beleza das coisas modestas e humildes; a beleza das coisas não convencionais. O Leonard, assim como o Andrew, também abre o livro narrando uma cena de viagem. Diz que estava no Japão e que foi convidado a participar de uma autêntica cerimônia do chá (que tem tudo a ver com o wabi-sabi), muito divulgada na época e que prometia ser uma experiência inolvidável.

Que nada. No afã de querer impressionar os convivas (isso sou eu quem imagina), foram chamados três dos melhores arquitetos do país para dar um “up” nos locais que presidiriam a cerimônia, ambientes distribuídos no terreno de uma antiga residência imperial. Assim diz o autor:

“Depois de mais de três horas de viagem de trem e de ônibus desde o meu escritório em Tóquio, cheguei ao local do evento e para minha consternação encontrei uma celebração de deslumbramento, grandiosidade e de elegante encenação, mas dificilmente um traço de wabi-sabi. Uma cabana toda lisinha de papel, que parecia e cheirava como um guarda-chuva branco de plástico; adjacente a ela, uma estrutura de vidro, aço e madeira tão íntima quanto uma torre de escritórios e a única casa de chá que poderia resguardar algum indício de wabi-sabi estava gratuitamente enfeitada com penduricalhos pós-modernos”.


Deve ter sido um choque para o Mr. Koren, que após a decepção daquele evento sentou e resolveu escrever sobre o wabi-sabi - para nosso deleite, porque o livro dele é uma pequena joia de noventa e cinco páginas editada com um cuidado que pouco se vê por aí (papel reciclado, lindas fotos em p&b, tudo muito wabi-sabi). 

Diz o autor que, originalmente, as palavras japonesas “wabi” e “sabi” possuíam significados bem diferentes; “sabi” originalmente significava “frio”, “friagem”, “enxuto”, “esbelto” ou “embranquecido”; “wabi” originalmente tinha relação com a miséria de viver sozinho na natureza, longe da sociedade, sugerindo um estado emocional desanimado e triste.

A partir do século XIV os significados de ambas as palavras ganharam outro sentido, se aproximando de um contexto ligado a valores estéticos mais positivos. Por que isso? Porque a pobreza voluntária dos ermitões e ascetas eram tidas como oportunidades para a riqueza espiritual. Para aqueles com inclinação poética, este tipo de vida encorajava uma apreciação dos mínimos detalhes da vida diária, curtindo a beleza das coisas modestas e discretas e a observação da natureza. Por sua vez, essa simplicidade desencanada deu um novo sentido para a apreciação de um novo tipo de beleza, mais pura em sua essência.


Com o passar dos séculos, os significados de “wabi” e “sabi” foram se transformando/interligando tanto que a linha que os separava ficou tão sutil que hoje, no Japão, se convencionou que “wabi” e “sabi” são a mesma coisa, portanto, wabi-sabi e pronto, porque simplificar é sempre uma boa opção. Mas, se fôssemos caracterizar suas diferenças, como se tratássemos de entidades separadas, então faríamos assim, de acordo com o que apregoa o Leonard Koren:

Wabi: um modo de vida, uma senda espiritual;
Sabi: objetos materiais, arte e literatura.

Wabi: o íntimo, a parte interior, o subjetivo;
Sabi: o exterior, o que se mostra, o objetivo.

Wabi: uma construção filosófica;
Sabi: um ideal estético.

Wabi: eventos regionais;
Sabi: eventos temporais.

Lembra muito aqueles quadros e tabelas taoístas que elencam as diferenças entre o yin e o yang (claro/escuro, úmido/seco, doce/salgado, frio/calor, etc...), e daí a gente se pega pensando em como tudo se relaciona quando botamos a cuca prá pensar um pouco... dá prá viajar um bocado nessas ideias, o Oriente é tudo de bOM.


Voltando aos livros, ainda lendo o já querido Leonardo Koren, veremos que ele facilita nossa vida fazendo outra tabelinha, agora comparando as diferenças entre o Modernismo e a tradição do Wabi-Sabi, superinteressante e esclarecedor, mas isso vou pular, assim como também não falarei da metafísica, dos aspectos históricos e dos preceitos morais do Wabi-Sabi, capítulos curtos que renderiam muitas divagações e quem tiver interesse que corra atrás.

Se pudesse resumir tudo o que os autores escreveram sobre o wabi-sabi em uma única ideia, eu diria que wabi-sabi é aquilo que se encontra na essência das coisas simples; simplicidade é a palavra chave para o wabi-sabi, mas como bem lembra o Leonard Koren, a simplicidade não é tão simples, tome como exemplo a filosofia zen, a cerimônia do chá, o ikebana, a arte da caligrafia japonesa, o teatro Nô, a poesia enxuta do haikai... o wabi-sabi está em tudo isso e em infinitas outras coisas, basta abrir os olhos, os de fora e o de dentro, que você verá e assimilará o wabi-sabi cada vez mais facilmente.

É importante lembrar que o wabi-sabi não é apenas o valor que se dá ao design rústico de um objeto; é algo que captura o teu olhar, que te faz olhar para dentro de ti mesmo e que de alguma forma mexe com tuas emoções. O Andrew Juniper afirma que são nos detalhes mais imperceptíveis que se encontra o coração do wabi-sabi e que é através deles que se pode conseguir vislumbrar a serena melancolia que eles sugerem.



Acredito que você consegue se recordar de momentos em sua vida em que tenha tido contato com essa perspectiva “wabi-sabiana” da vida... Provavelmente muitos, basta olhar para alguns objetos espalhados pela casa, uma pedra catada em leito de rio, uma concha de formato exótico trazida de uma viagem, um artesanato indígena, um vasinho de arte rupestre, uma caixinha de madeira, uma taça garimpada numa feirinha de antiguidades... Exemplos não faltam, vivências idem.

Enquanto termino essa postagem, que pode ser a última, minha despedida desse blog, vejo com carinho e um pouco de saudosismo um pequeno sino de latão, rústico e meio enferrujado, que comprei numa viagem que fiz ao sul de Minas Gerais. Não sei explicar o motivo que me levou a comprar o sininho, mas quando o vi senti que tinha que ser meu, como se alguém me tivesse levado até ele por algum motivo oculto.

No ano seguinte fiz uma viagem, onde caminhei muitos quilômetros por dia durante algumas semanas. Ao preparar a bagagem, lembrei-me de levar o pequeno sino de latão, que foi preso do lado de fora, numa das correias laterais da mochila. A cada passo que dava, ouvia o tilintar baixinho do sino, do meu lado direito, marcando suavemente o ritmo de minha caminhada. E em nenhum momento me senti sozinho.
Leia:


Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers. Leonard Koren. Imperfect Publishing, USA. 1994 and 2008. (disponível no site brasileiro da Amazon)



Wabi sabi: the Japanese art of impermanence. Andrew Juniper.Tuttle Publishing, USA. 2003. (disponível na versão e-book para Kindle)