terça-feira, 14 de abril de 2015

O farol de La Jument, by Paco Nadal

.



Não sou muito de mar, confesso, porque amo as montanhas e a segurança dos meus pés no chão. Mas um lado meu ama as histórias de aventuras marítimas, sobretudo as de naufrágios e de bravos sobreviventes que acabam indo parar em uma ilha perdida desses mares sem fim. 

Também adoro a imagem dos faróis, tão simbólicos em suas estruturas salvadoras, sua solidão imponente, quem não se encanta? E temos a impressão, nós que vivemos longe do mar, que parecem nem existir os tais faróis que vemos reproduzidos por aí, em pôsteres e quadrinhos mal pintados das lojinhas de souvenir de cidades litorâneas. E foi assim, lembrando de uma imagem, a mesma que você vê aí abaixo, que Paco Nadal se inspirou, durante uma viagem, para escrever sobre uma foto, que é linda e fantástica e cuja história merece ser contada. 
♣ 



Como foi feita essa foto? O faroleiro morreu ao ser atingido por uma onda? Eu me fiz essa pergunta quando vi pela primeira vez essa imagem impactante em um pôster já nem me recordo onde. Depois a vi centenas de vezes em lugares diferentes, como você também provavelmente já deve ter visto: é um dos pôsteres mais vendidos em lojas de lembranças e recordações.

E olha onde me encontro hoje: na ilha francesa de Ouessant, na Finisterre da Bretanha, quando tropeço sem querer com a história dessa foto e do faroleiro que a protagoniza.

O farol se chama La Jument e é uma das lanternas de mar mais espetaculares da costa francesa; está a dois quilômetros mar adentro da ilha de Ouessant e foi construído entre 1904 e 1911 para sinalizar um ponto perigosíssimo onde antes houve muitos naufrágios.

A história da foto aconteceu em 21 de dezembro de 1989. O fotógrafo francês especializado em imagens de faróis, Jean Guichard, sobrevoava de helicóptero La Jument em um dia de forte tormenta buscando a foto perfeita dessas ondas gigantes do Atlântico golpeando a estrutura do farol. Dentro, o faroleiro Theophile Malgorn, que naquela época rondava os trinta anos, escutou as repetidas passagens do helicóptero e pensou que algo estranho estivesse acontecendo; podia ser que o piloto estivesse tentando entrar em contato com ele por conta de um naufrágio ou por algum acidente. E em uma atitude insana, abriu a porta para ver o que se passava.

A ação completa durou apenas dois segundos. Guichard viu aquele homem na porta e seu instinto de fotógrafo lhe disse que ali havia uma composição perfeita: o homem e a força da natureza. Pôs-se a disparar sua câmera alucinadamente até quase o momento em que uma onda gigantesca começava a abraçar com toneladas de água embravecida a estrutura do farol. Nesse mesmo instante, o faroleiro Malgorn – assomado junto à porta do farol, escutou uma trovoada seca, como um estampido brutal (o impacto da onda contra a frente do farol) e soube que havia cometido um erro tremendo. Tão rápido como abriu voltou a fechar a porta, apenas um milésimo de segundo antes que a onda arrasasse tudo. Estava vivo por um milagre.

No carretel da câmera fotográfica de Guichard ficaram impressas 9 imagens – as que deram tempo de serem disparadas pelo motor do equipamento e que fariam o fotógrafo famoso por toda sua vida e com as quais, em 1990, conquistaria o segundo lugar na premiação da World Press Photo (o primeiro foi para a célebre imagem de um manifestante chinês parando sozinho uma coluna de tanques de  combate em Tianammen).

O faroleiro Theophile Malgorn continua vivendo na ilha de Ouessant e não quer que ninguém lhe volte a perguntar sobre a maldita foto. Seus amigos me contaram que ele se aborreceu muito naquele momento porque o haviam colocado em uma situação mortal de maneira irresponsável e além do mais por um motivo comercial; ele saiu para ver o que estava acontecendo por profissionalismo e isso quase lhe custou a vida. Mas pouco tempo depois Guichard o visitou em sua casa, presenteou-lhe com uma foto autografada daquele “momento decisivo” – como diria Cartier Bresson – e acabaram ficando muito amigos.

O último faroleiro abandonou La Jument em 26 de julho de 1991, desde então convertido em um farol automático. Theophile é agora um telecontrolador do farol de Creac’h, também em Ouessant. Os vizinhos costumam vê-lo passear com seus cães pelo sendeiro que margeia a costa da ilha, com o olhar perdido no mar bravio batendo nas falésias, observando a silhueta escura dos faróis onde, quando jovem, passou grandes momentos de solidão em um quarto úmido e escuro.

Os faroleiros são (ou eram) gente muito especial. Seres solitários e pouco falantes, artistas com todo o tempo do mundo para escrever, pintar ou esculpir. Filósofos de uma vida que muito poucos teriam sido capazes de suportar.


É por isso que eles acham difícil adaptar-se a uma vida sedentária, controlando um farol diante de um computador em uma sala limpa e aquecida depois de haverem sido os últimos românticos do mar; filósofos solitários que a cada noite acendiam luzes que salvariam vidas de navegantes anônimos que nunca lhes conheceriam nem encontrariam ocasião de agradecê-los. Como Theophile Malgorn.