sábado, 30 de dezembro de 2017

Peregrinos cibernéticos no Caminho de Santiago

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Vou contar aqui um pouco do que vem acontecendo no ambiente das peregrinações a Santiago. Minha visão é a de um peregrino que aos trancos e barrancos chegou a Santiago de Compostela no inverno de 1995 após completar 28 dias de caminhada. Foi uma viagem muito sofrida fisicamente: bolhas, tendinites, gripe e vários dias sem tomar banho.

Dizem que aprendemos com os erros, não? Nem sempre. Eu que jurei nunca mais pisar em terras espanholas, dois anos depois estava de volta, dessa vez no verão. Sabe o calor do Rio em janeiro? Uma brisa, perto do insano calor que faz nas longas planícies das mesetas no verão espanhol. E mais uma vez, bolhas, tendinites e vários outros incômodos que uma longa viagem a pé acarreta.

Nessas duas aventuras o sofrimento físico foi um fator em comum. Etimologicamente, sofrer deriva do latim sufferre, “sob ferros”, ou seja, acorrentado, carregando peso. Essa dinâmica do sofrer tem uma relação muito estreita com a peregrinação. Em algum momento ela há de aparecer: as dores do corpo, das perdas, das partidas, da saudade de casa, cada um carrega a sua.



Na primeira página de um dos meus diários de viagem, copiei uma frase retirada de uma homilia que diz que “O sofrimento é a escola de simpatia do Espírito Santo”. Gostei dessa afirmação, que em sua simplicidade guarda uma profunda verdade: somente quem já sofreu saberá consolar quem sofre. Isso nos remete não só à figura do Cristo e dos santos, mas a todos os homens e mulheres de diversas tradições religiosas que encontraram a paz através do sofrimento. Sofrer faz parte do mistério da vida.

Toda essa reflexão me levou a meditar sobre a realidade que se vive hoje numa peregrinação milenar como a do Caminho de Santiago, na Espanha. O Caminho que conheci há vinte anos mudou em relação ao Caminho de hoje? Como fica a questão espiritual nessa época onde a rota se encontra, como dizem os espanhóis, saturada de turistas e carente de peregrinos?

Há muito que se discutir aqui. Comecemos com a questão da saturação do Caminho, que é real e que mudou completamente a experiência do caminhar quase solitário das décadas passadas, sobretudo nos meses de baixa temporada. Os refúgios, centros de acolhida de peregrinos (antes paroquiais e municipais, hoje quase todos particulares) converteram-se -salvo poucas exceções- em um lugar para descansar, tomar banho e dormir, como se faz nos hostels espalhados mundo afora.



Antigamente, o peregrino oferecia um donativo e agradecia; hoje, o peregrino exige, porque paga. Muitos hospitaleiros que vivem no Caminho lamentam que a primeira coisa que um peregrino ou uma peregrina perguntam quando chegam a um albergue é: “Tem Wi-Fi”? O acesso à Internet, quem imaginaria, é hoje mais importante do que um chuveiro com água quente e um colchão para descansar o corpo da fadiga da estrada.

Portanto, o cenário que temos é este: trilhas lotadas de turistas e peregrinos, albergues particulares cheios de gente, empresas que transportam sua mochila até a próxima etapa (para que sofrer?) e comerciantes nos povoados se aproveitando da ocasião, cobrando mais e oferecendo menos. O que isso tudo tem a ver com uma peregrinação? Será que existe espaço para a fé, para o Sagrado, para o Mistério?

Certamente há espaço e sempre haverá. Porque a relação do ser humano com a espiritualidade não se mede em Gigabytes; o contato com o Divino não se dá no Ciberespaço; não se acessa o Sagrado através de um Browser e não se conversa com Deus trocando e-mails. Vivemos numa fase de transição onde não sabemos ainda no que tudo isso irá se transformar, o que não nos impede de observar que algumas coisas já mudaram radicalmente nosso comportamento social e, no escopo desse texto, religioso/espiritual.



A peregrinação é em sua essência uma prática religiosa. Os peregrinos caminham em direção a um lugar sagrado, Locus Sanctus, a fim de prestar homenagem a um santo, agradecer uma dádiva recebida ou cumprir uma promessa. Num sentido amplo, é essa a proposta original. O auge das peregrinações a Santiago se deu na Idade Média e foi decaindo após o Renascimento até praticamente serem esquecidas nos séculos posteriores. A partir dos anos 1980, às vésperas de um mundo virtualmente conectado, o Caminho renasce e volta a brilhar como há muito não se via. Desde então, as estatísticas mostram que o número de peregrinos a Santiago aumenta a cada ano, e é indiscutível que a Internet, e mais recentemente as redes sociais, têm uma relação direta com esse enorme afluxo de gente que resolve cruzar a Espanha rumo à Galícia, terra do Apóstolo. Dê um Google em “Camino de Santiago”: mais de 15 milhões de resultados irão aparecer na tela. Não é pouca coisa.
           
Muito se discute hoje entre estudiosos do Caminho de Santiago acerca do perfil dos peregrinos atuais. E um dos hábitos mais criticados é o uso indiscriminado dos smartphones. Se por um lado a tecnologia veio para facilitar a vida de todos, por outro trouxe consigo mudanças que, à primeira vista, enfraqueceram o relacionamento interpessoal (ainda que essa afirmação seja bastante discutível).



Nos albergues, onde antes se dava o encontro de pessoas, as trocas de experiências sobre a jornada, onde antes se repartia o pão, agora se vê uma profusão de gente encasulada, atualizando suas redes sociais e procurando notícias sobre o mundo; a mesma coisa acontecendo nas mesas dos restaurantes, praças e qualquer lugar com Wi-Fi livre. Só o Caminho não basta a si mesmo.

Hoje um peregrino chega ao Caminho de Santiago sabendo tudo o que encontrará pela frente: paisagens, personagens conhecidos, as trilhas, as facilidades e dificuldades de cada etapa, tudo salvo na memória de um aparelho (ou “na nuvem”). Não há mais lugar para a surpresa, para o desconhecido. Não há nada de ruim nessa realidade. O Caminho é uma metáfora da vida; o que se vive na peregrinação a Santiago é uma suspensão da realidade, um rito de passagem, onde cada um encontrará justamente aquilo que procura ou necessita aprender.

Turista ou peregrino? Não importa. Muitos começam como turistas e terminam como peregrinos. Quando trabalhei como hospitaleiro voluntário por seis meses em refúgios paroquiais conheci alguns caminhantes ateus e muitos não católicos que se emocionavam apenas em observar os peregrinos devotos e começaram a frequentar as missas das igrejas dos pequenos povoados por onde passavam, porque isso, segundo eles, lhes trazia um grande sentimento de conforto e paz. 



Um peregrino judeu, norte-americano, me confessou que havia decidido fazer o Caminho porque achava que seria uma grande aventura: caminhar, beber e namorar. Com o tempo, no convívio com outros peregrinos, se sentiu tocado com a manifestação de fé dos colegas de jornada, a ponto de sentir uma grande vontade de comungar! Quando chegou a Santiago (chegamos juntos) não conseguia parar de chorar e abraçou a imagem do Santo no altar (um dos ritos de chegada em Santiago) como seu mais fiel devoto o faria. Coisas do Caminho.

Isso me traz à mente um texto de Martin Buber, filósofo austríaco conhecido como “profeta da relação” (ou do encontro) para quem o ser humano só se realiza na relação com o outro. Buber acreditava na unidade entre Deus, o homem e o mundo: uma comunhão. O outro dessa relação pode ser o homem, Deus, uma obra de arte, uma flor ou qualquer coisa que implique reciprocidade. Toda a vida atual, dirá o filósofo, é encontro; o essencial é vivido na presença:

A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o tu. Pois, no contato com cada tu, toca-nos um sopro da vida eterna.




Em um dos mais belos livros sobre a prática espiritual no Caminho de Santiago, Jose Antonio García-Monge diz que o Caminho nos faz porque nos dá ferramentas para fazermos: Tempo, Solidão, Silêncio, Integração, Encontros, Presença, Amor. A questão da alteridade permeia todo o texto, pelo que gostaria de compartilhar uma das passagens que mais me encantaram nessa obra:

Comecei a caminhar só. Como um longo e quilométrico monólogo, e descobri que sou muito mais do que eu mesmo. Esse encontro foi possível graças aos “tus” que são a base do caminho de minha vida. Graças à necessidade e ao desejo do outro. Graças à solidão sonora que repetia meu nome, não como um eco, mas com um acento novo de outra voz humana. Sou um eu-tu. Graças a ti. O risco vivido em comum, a refeição partilhada, a vista animadora, as marcas indicadoras de outras pessoas para as quais não fui algo, mas alguém, me fizeram aprender a personalizar. Não só as pessoas, mas também as coisas. Um caminho se converteu em um sussurro orientador, uma catedral de pedras em uma voz que me chama pelo nome, um santo em um homem. No fim, sei quem sou, como me chamo, porque pude escutar no silêncio da noite como me chamam. Ao responder, se inaugurou um eu-tu que me fez maior do que eu mesmo, sem deixar de ser quem sou.    



Não são os smartphones e os aparelhos de GPS que vão acabar com a peregrinação. Tampouco o excesso de turistas, a Internet e as redes sociais. Enquanto houver caminhantes, haverá Caminho, como se lê em um poema do século XIII (Codex Calixtinus):

La puerta se abre a todos, enfermos y sanos;
no sólo a católicos, sino aún a paganos,
a judíos, herejes, ociosos y vanos;
y más brevemente, a buenos y profanos.

Devemos, portanto, saudar as novas mudanças que chegam ao Caminho, porque elas fazem parte da vida, da nossa realidade. Conectados e desconectados, tradicionais e modernos, todos fazem parte da mesma busca. Acredito que um pouco da mágica transformadora se perde quando se apela com frequência para as facilidades da vida moderna: carros de apoio, transporte de mochilas, reservas antecipadas em hospedarias e albergues, pular etapas difíceis... a negação total do sacrificium (sacrum facere), o ato de manifestar o sagrado, uma afirmação da vida. Interessante refletir sobre isso, porque o Caminho é um reflexo da existência de cada ser. O que se faz lá, se faz aqui. Do que se foge lá, se foge aqui. Qual o papel do Sagrado em nossas vidas?  Essa é uma questão que cada um deve responder por si.



Sustento a ideia de que ainda há uma forte característica espiritual no ambiente contemporâneo da peregrinação a Santiago, apesar da massificação com a qual o Caminho aparece identificado nas últimas décadas o que, para alguns observadores do fenômeno, estaria acabando com a “essência” da peregrinação. Na realidade, o que parece estar mudando não é de fato a noção de que o Caminho esteja mais aberto ao profano, mas sim o fato de que os peregrinos contemporâneos estão se relacionando de maneira diferente com o sagrado. 

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa - aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa - não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.” (Luiz Carlos Lisboa, Nova Era).



Artigo publicado na Revista CREatividade- Revista da Cultura Religiosa- PUC Rio. Ano 2017, Número 2, edição intitulada CAMINHOS DO CRISTIANISMO HOJE.
Link para o texto original: Espiritualidade conectada no Caminho

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Silêncio e solidão na Grande Cartuxa, by A.J.Cronin

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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se revelar para fora da terra, em direção ao sol.

Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos, pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio foram parte fundamental da experiência.

Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo, ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de tempo.



Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A mente sábia é uma mente quieta.

Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?

Transcrevo aqui no Odepórica um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto publicado em 1960 na Reader’s Digest (Seleções) em uma edição de capa dura, volume 35, intitulado Janelas para o Mundo.  É notável como, passados mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais, como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
O que aprendi na Grande Cartuxa



Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa, depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.

Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.



Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um jirau.


Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.

Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?


- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.

- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.


Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de Antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.


Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno, representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material não somos totalmente ociosos.


Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem inscrição. Fiquei calado por algum tempo.

- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes – disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.


De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá, em todos os continentes, os homens lutavam desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.


Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?


Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando e de fazer uma romaria ao próprio coração. 

Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos nossos próprios pensamentos.


A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.

A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.

Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por outra passado a completo recolhimento.

Então veremos como são de pouca monta as coisas que perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência da nossa própria consciência.
Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo, Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).

Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua experiência, indico o filme Le Grand Silence (em português, O Grande Silêncio). O documentário de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O companheiro amável de viagem, by Irving Tressler

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Há uma expressão em inglês que não encontra tradução à altura na língua portuguesa: belly laugh (belly = barriga; laugh = risada); “morrer de rir” ou “chorar de tanto rir”, expressões bastante comuns, poderiam ser uma opção, mas nem de longe nos levam à imagem gostosa de alguém que ri com as mãos sobre a barriga, lágrimas escorrendo nos cantos dos olhos, bocarra aberta... fui pesquisar e encontrei uma expressão que não conhecia: “rir a bandeiras despregadas”:

“É este o registo da expressão «rir a bandeiras despregadas» do Dicionário de Provérbios e Curiosidades, de R. Magalhães Júnior: «É o mesmo que "rir às gargalhadas", abertamente, ruidosamente; «Bandeiras despregadas» significa «velas (dos navios) ao vento», «bandeiras desfraldadas» ou «bandeiras ao vento». A expressão «rir a bandeiras despregadas» significa «rir aberta e sinceramente como nos dias de festa». É fácil compreender que as bandeiras podem estar atadas antes dos dias festivos para não se rasgarem. Chegado o dia marcado para a festa, as bandeiras são desatadas para serem agitadas pelo vento.”



Colocando em uso o que acabo de aprender com nossos primos lusos, sempre que releio a obra Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas, de Irving D. Tressler, eu rio a bandeiras despregadas. A edição que tenho comigo, folhas soltas e carcomidas, foi editada em 1946 pela Editora Assunção de São Paulo e pertenceu à minha avó materna. Foi numa das férias em Lins que, fuçando os armários da casa, encontrei esse tesouro do humor negro e nunca mais o abandonei.

O Irving já “começa causando” na dedicatória: “Este livro foi dedicado a um homem que não tinha necessidade da sua leitura: ADOLF HITLER”. E tudo piora dali para frente. No bom sentido. O livro de Irving Tressler na verdade é uma paródia da famosa obra de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, publicado um ano antes, em 1936; Tressler resolveu escrever sua obra alegando que o livro de Carnegie estava transformando seus leitores em pessoas muito chatas - e eu concordo com ele (haja em vista o que vivenciamos hoje com a maçante corrente do politicamente correto...).


O livro começa com um “Breve apanhado sobre a impolidez”, escrito por Thomas Lowell (que fez também a introdução da obra de Carnegie) e o legal é que ele entra na brincadeira, escrevendo seu texto dentro dos parâmetros propostos por Tressler quem, em suas palavras, “criou um curso que é um dos mais significativos movimentos na história social dos Estados Unidos, um curso tão real como o mau hálito, e mesmo mais duradouro nos seus resultados.”

Logo depois o autor nos ensina a “Como tirar o máximo proveito deste livro”; só para lhe dar uma ideia: “Para se tirar o máximo proveito deste livro há um requisito indispensável, além do quase lógico de poder ler e compreender as palavras de mais de quatro letras. Qual será este mágico requisito? Apenas isto: um profundo e impulsivo desejo de fazer com que os outros lhe retribuam tanta antipatia quanto a que lhes devota, uma resolução inabalável em reconhecer que a maioria das pessoas é quase tão interessante como um relatório semestral do U.S. Gypsum Co. (Companhia de Gesso dos Estados Unidos)”. “Quem é rico de amigos é pobre de solidão”.



Melhora a cada parágrafo. E o que impressiona é que, embora devamos encarar a leitura como uma sátira, há muitas passagens em que nos pegamos concordando com o que, a princípio, deveria ser tomado como absurdo -  daí a graça. Nos 22 capítulos que compõem a obra, alguns soam disparatados ainda hoje, passados 80 anos de sua publicação: “Como tornar-se antipático à primeira vista”, “Não se esqueça de esquecer nomes”, “Como fazer desistir um hóspede para a noite”, “Encaminhar sempre a conversa de modo que termine em discussão”, só para citar os mais hilários.

E é claro que, dentro da temática do Odepórica, guardo para o final o que de fato me fez escrever essa postagem, porque também das viagens se ocupou Irving Tressler em seu peculiar tratado, no capítulo XI intitulado “O companheiro amável de viagem”, onde aprendemos a lidar com as “pestes-viajeiras” que vez ou outra hão de surgir em nossas deambulações.
O companheiro amável de viagem

Já esteve alguma vez no vestíbulo de um hotel, na poltrona de um Pullman ou no salão de fumar de um navio, e esbarrou com alguém sentado a seu lado que fizesse a observação: “Bem, acho que vamos ter bom tempo na viagem! Prossegue até o ponto final ou vai saltar em...?” Se lhe respondermos, imediatamente ele se agarra a nós para o resto da viagem e qualquer descanso ou distração planejados vão-se como um chapéu em dia de vento. Como nos livrarmos destas sanguessugas viajeiras?

Sempre é possível, quando tais pessoas tentarem apresentar-se-lhe num trem ou navio, apontar para sua boca e ouvidos e fazer sinais com os dedos indicando que é surdo-mudo. Este silêncio, voluntariamente imposto, é sem dúvida difícil de se manter, principalmente quando se dá uma topada na chapa metálica dos degraus da escada que conduz ao refeitório do navio, ou quando a porta do banheiro do Pullman fica fechada durante duas horas.

É um fato muito conhecido que os patos selvagens sempre voam aos bandos e juram proteger uns aos outros contra qualquer outra ave que tente travar conversa com eles. Acredita-se mesmo que a extrema velocidade no voo do pato selvagem seja em parte devida a este desejo perfeitamente natural de fugir das outras aves que sigam o mesmo caminho, já o tendo percorrido uma vez e ansiosas para falar a respeito.

Um amigo meu sempre esfola seu pulso até a carne viva, e besunta-o depois com iodo antes de começar uma viagem. Quando um provável conversador senta-se a seu lado e começa a falar, meu amigo proseia com ele alguns minutos. Depois, casualmente, exibe o pulso com sua chaga hedionda, dizendo com um risinho: “Fico satisfeito por ver que não se impressiona vendo estas coisas. Não posso saber como me aconteceu isto e tem dado um trabalhão para curá-lo!”



Contudo, uma vez esbarrou com um homem que sofria do mesmo mal e que ficou satisfeitíssimo de encontrar alguém com quem pudesse conversar sobre o assunto. Meu amigo viu-se obrigado a deixar o vapor e esconder-se num tambor de óleo que boiou durante dois dias, até que afinal foi interpelado por um homem de Palo, Califórnia, que nadava atrás dele e parou para indagar se se tratava de sua primeira viagem por aquelas bandas, contando depois como se lembrava tão bem da sua, ocorrida em 1897 e... meu amigo afogou-o lentamente e continuou sossegado o seu caminho.

Sempre se pode dizer “Desculpe, mas este lugar está tomado” ou então “Minha tia estava sentada aí e volta já; foi por um momentinho ao toilette”. Isto, é lógico, torna-se pouco plausível quando se está parado em frente à amurada ou lavando as mãos no banheiro.



Conheci um homem que sempre se punha de joelhos e começava a rezar quando via aproximar-se alguém deste tipo, e convidava a pessoa se não se aborrecia de acompanhá-lo nalgumas palavras de agradecimento, isto em geral espantava a léguas, mesmo os mais audaciosos, a menos que, uma vez ou outra, esbarrasse com um devoto verdadeiro. Certa vez teve de rezar uma hora e 35 minutos, até que a peste murmurante resolvesse levantar-se cambaleando e com os membros entorpecidos em consequência do tempo passado de joelhos.

É conveniente saber dizer umas poucas frases nalgum remoto idioma oriental, cuja média das pessoas seja incapaz de entender. Quando interpelado por um estranho, responde-se numa algaravia medonha que acaba por desanimar o que se aproxima.


Na primavera de 1910 fiz uma viagem ao redor do mundo e fui agarrado por uma destas pestes viajeiras logo depois que perdemos a terra de vista. Escapei dele após 18 horas e encafuei-me no compartimento de carvão, onde passei o resto da travessia do Atlântico. No entanto, justamente ao atracarmos em Gibraltar, ele me descobriu outra vez e eu escalei o pico do mastro mais alto. Ali, dentro em pouco ele me desencravou, de modo que tive de deixar o navio em Nápoles e tomar o rápido-expresso para Viena, atravessando depois os Balkans montado em camelo.

Ainda não completara um dia que me achava sobre o sacolejante animal, quando um dos camelos chegou-se para mim, sorriu e com uma tossezinha apresentou-se e perguntou se fazia toda a viagem através dos Balkans, e se se tratava da minha primeira viagem.

Algo na voz do camelo me pôs desconfiado. Reparei mais de perto. Não restava dúvida, era a peste do navio, disfarçado em besta de carga! Imediatamente ele tirou o disfarce e tomamos o navio em Atenas. Tranquei-me na cabine e durante o resto da viagem ele esmurrou regularmente a minha porta com intervalos de meia hora, perguntando se era ou não minha primeira viagem através do mundo, e se estávamos ou não tendo ótimo tempo. Não consegui ver o mundo, mas fiz a sua volta.



Há uma última alternativa neste negócio de peste-viajeira. Sempre se pode, ao iniciar ela o seu amável discursinho de introdução, levantar-se e dizer: “Sim, é minha primeira viagem; não sei onde vou, só sei que desejo ficar só todo o tempo desta excursão; não estou absolutamente interessado em saber de onde vem, quais são as pessoas que conhece na minha cidade, suas experiências de viagem ou suas recomendações para o que se deve fazer quando se tem enjoo de trem, de automóvel ou de mar! Costumo tornar-me extremamente selvagem quando estou de pé e se não sair de minha vizinhança dentro de 10 segundos, não me responsabilizo pelo que lhe poderá acontecer!”.

E o cavalheiro provavelmente começará a rir, dará uma palmada na perna e trovejará: “Amigo, estou vendo que é dos meus – um grande senso de humor! Vamos nos dar muito bem durante esta viagem e vou providenciar para que fiquemos na mesma mesa! É a sua primeira...” Algumas pessoas lançam mão de seixos ou cavilhas espalhados pelo convés; outras empregam apenas os dentes, as unhas e os punhos.

Viajar é alargar as ideias; a maioria dos viajantes é obtusa.
Tome cuidado!


Irving Dart Tresller foi um escritor e jornalista norte-americano nascido em 1908 no estado de Wisconsin. Em 1930 completou seu bacharelado em Artes; de 1934 a 1936 foi co-editor da Life e após esse período teve artigos publicados em diversas revistas. Foi autor de vários livros, mas o que lhe rendeu fama foi seu best-seller de 1937, “Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas”, uma paródia do famoso livro de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, publicado um ano antes.

Encontramos pouquíssimas referências sobre a vida de Irving Tresller. É sabido que sofria de epilepsia, na época considerada uma doença mental. Em 1944, um ano antes da popularização dos medicamentos que controlam essa doença, comete suicídio. Contava com 35 anos de idade.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Viagens, by Luiz Carlos Lisboa

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Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte, de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem surgir em momentos de profunda meditação.

Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem elaborados, como em sua obra Nova Era, já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da Madrugada e O Som do Silêncio, às vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.

Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo seu texto intitulado Viagens, que retiro de seu livro de ensaios A Arte de Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre a experiência da viagem.

Viagens

“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.

A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.


Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana, suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido, apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.

A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade.

Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde.



Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos".

A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.



A palavra de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.

Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos.

Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências.



Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".

Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial.

As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.



Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória.

A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.

E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

Leia: A Arte de Desaprender. Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.