segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhando, by Linda Hogan

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Finalizei há pouco a leitura de uma coletânea de textos sobre caminhadas, ou melhor, sobre a experiência do caminhar. A obra The Walker’s Literary Companion, (O Companheiro Literário do Caminhante) foi editada por três professores universitários que têm em comum a paixão pela caminhada e pela literatura de caminhada (usam o termo Walking Literature) e todos publicaram livros dentro dessa temática. Há de tudo um pouco nessa coletânea: ensaios, poemas, contos e excertos de romances. Muita coisa boa para garimpar.

Dos textos que li, me chamou a atenção o de uma autora desconhecida aqui no Brasil: Linda Hogan.  Linda é poeta, romancista, acadêmica e ambientalista e seu trabalho tem uma relação muito estreita com os povos nativos americanos, sendo ela mesma descendente, por parte de pai, dos índios Chickasaw.

O texto que traduzi abaixo carrega essa energia dos povos nativos, essa conexão que possivelmente só os índios, nos dias de hoje, são capazes de vivenciar. Mas nem tudo está perdido: as divagações da autora, que descobre uma nova maneira de observar o mundo depois de se deparar com um girassol numa caminhada na montanha, mostram que se estivermos abertos às coisas que nos rodeiam, ainda podemos resgatar, nem que seja por um breve momento, essa conexão com a natureza que tanto estimamos. Basta exercitar o olhar, abrir o coração e seguir os passos dos nossos ancestrais. 

Teve início em um ambiente escuro e subterrâneo, um ser faminto se movendo lentamente em direção à luz. Ela cresceu em um barranco seco ao lado da estrada de onde eu vivo, um lugar onde as encostas às vezes ficam amarelas, por conta das esvoaçantes marés de girassóis. Mas essa planta era diferente.  Estava sozinha e era maior do que as inúmeras outras situadas na parte de cima da colina. Essa planta era uma viajante, uma colonizadora, e como um sonho que nasce do conflito, ela cresceu onde a terra havia sido perturbada.  

Eu a vi primeiro no começo do verão, um broto verde adormecido, erguendo-se em direção ao sol. Formigas trabalhavam ao redor do botão de flor fechado, reunindo pulgões e seiva. Alguns dias mais tarde, ela se transformou em uma flor delicada e jovem, com um centro verde pálido e uma tropa de insetos cinza-prateados subindo e descendo seu caule. 

Durante o verão esse girassol se tornou uma planta de incrível beleza, voltando sua face diariamente em direção ao sol nas maneiras mais sutis, seu centro negro escuro e vivo com uma luz azul profunda, como se uma pederneira houvesse provocado uma faísca de fogo elementar lá dentro, em comunhão com a chuva, os minerais, o ar da montanha e a areia.


Com o verão mudando o cenário do verde para o amarelo, novos visitantes chegavam diariamente; os insetos de asas rendadas, as abelhas com pernas gordas de pólen, e os gafanhotos com suas asas tagarelas e fome desesperada. Sentia falta de outras formas de vida, aquelas muito pequenas ou escondidas da vista. Era como se essa planta, uma anfitriã de vidas, formasse uma sociedade em que, a cada momento, dependendo da luz e da umidade, acontecia uma grande e diversa mudança.

Havia mudanças no mundo próximo ao redor da planta igualmente. Um dia eu entrei em uma curva na estrada para encontrar um sinal perturbador de um cavalo morto, negro e ainda largado junto à encosta, seus olhos voltados para trás; num outro dia eu quase fui levada pelo vento e por uma tempestade de areia tão impetuosa que tive que esperar que passasse antes de poder voltar para casa. Nesse dia, as pétalas murchas do girassol foram varridas em direção à terra. Foi quando os pássaros chegaram para carregar as novas sementes para um outro futuro.

Nessa única planta, em uma estação de verão, aconteceu um drama de necessidade e sobrevivência. Os famintos foram satisfeitos. Insetos copularam. Houve fuga, exaustão e morte. Vidas surgiram e depois se foram.



Eu fui uma forasteira. Eu apenas olhei. Nunca aprendi a linguagem dourada do girassol ou a língua de seus cidadãos. Tive uma pequena compreensão, nada mais do que uma observação superficial da flor, dos insetos e dos pássaros. Mas eles sabiam o que fazer, como viver. Uma velha voz de algum lugar, gene ou célula, disse à planta como iludir a força da gravidade e encontrar seu caminho para o alto, seu desabrochar. Foi instinto, intuição, necessidade. Um certo conhecimento guiou os pássaros sementeiros por caminhos ancestrais que eles nunca haviam visto. Eles acreditaram. Eles seguiram.   

Existem outras intimações e chamados, alguns até mais misteriosos do que aqueles comandados aos pássaros ou às viagens de sobrevivência dos insetos. Os bambus, por exemplo, com suas finas copas verdes e caules dourados que rangem ao vento. Uma vez a cada século, todos os bambus de uma certa espécie florescem no mesmo dia. Nem a localidade da planta, na Malásia ou em uma estufa no Minnesota, nem sua idade ou tamanho faz diferença.  Eles florescem. Alguma corrente de linguagem interna passa entre eles, através do espaço e da separação, de uma maneira que nós não conseguimos explicar em nossa língua. Todos são, de algum modo, uma mesma planta, cada qual compartilhando um conhecimento comunal.



John Hay, em The Immortal Wilderness, escreveu: “Há ocasiões onde você consegue ouvir a linguagem misteriosa da Terra, da água, ou atravessando as árvores, emanando dos musgos, escorrendo pelas correntes subterrâneas do solo, mas você tem que estar disposto a esperar e receber”.

Às vezes eu escuto a natureza falar. A luz do girassol era uma linguagem, mas existem outras mais audíveis. Uma vez, na floresta das sequoias vermelhas, eu ouvi uma batida, algo como um tambor ou um coração vindo do chão, das árvores e do vento. Aquela corrente subterrânea remexeu um tipo de conhecimento dentro de mim, um parentesco e uma saudade, um sonho mal lembrado que desapareceu de volta ao corpo.



Uma outra vez, havia a voz crescente de uma tempestade oceânica que acontecia ao longe no mar, contando sobre o que vivia na distância, sobre a violenta água que iria chegar, onda após onda revelando a agitação no centro.

Hoje à noite eu caminho. Estou olhando o céu. Penso nas pessoas que vieram antes de mim e em como elas sabiam das posições das estrelas no céu, como observaram o movimento do sol por um tempo tão grande a ponto de poder testemunhar como um certo ângulo de luz tocaria uma pedra uma vez ao ano. Sem registros escritos, elas conheciam os deuses de cada noite, dos pequenos e mínimos detalhes do mundo que as cercava e da imensidão acima delas.



Caminhando, eu quase consigo ouvir o pulsar, a vibração das sequoias vermelhas. E os oceanos estão acima de mim aqui, nuvens rolantes, pesadas e escuras, trazendo a neve. Na estrada seca e vermelha, passo pelo lugar do girassol, aquela localidade escura e secreta onde ocorreu a criação. Imagino se ele irá retornar nesse verão, se irá se multiplicar e mudar para outro local numa luta de sobrevivência territorial.

É inverno e há fumaça nas chaminés. As janelas quadradas e iluminadas das casas estão embaçadas. É um mundo de atenção elementar, de todas as coisas trabalhando juntas, ouvindo seus ancestrais. Seja qual for a estrada que eu siga, eu ando pela terra de muitos deuses, e eles amam e comem uns aos outros. Caminhando, estou ouvindo de uma maneira mais profunda. Repentinamente, todos os meus ancestrais estão atrás de mim. Fique quieta, eles dizem. Observe e ouça. Você é o resultado do amor de milhares.
The Walker’s Literary Companion. Edited by Roger Gilbert, Jeffrey Robinson, Anne Wallace. Breakaway Books, 2000. First Edition.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Clics odepóricos: o trabalho de Eydís Einarsdóttir

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No último post, sobre a arte da quietude, comentei sobre as imagens que ilustram o texto do Pico Iyer, trabalho da fotógrafa Eydís Einarsdóttir que muito enriquecem a leitura desse bonito texto sobre as aventuras rumo a lugar nenhum. No final da obra há uma pequena introdução à arte da fotógrafa islando-canadense:

“Einarsdóttir começou sua viagem fotográfica na infância, por influência do pai – um fotógrafo notável -, da mãe, artista, e da iluminada paisagem da Islândia. As palavras que melhor descrevem seus trabalhos são detalhe, contraste e simplicidade. Seu domínio sutil das cores e o talento com a iluminação criam um efeito visualmente diferenciado e sedutor.”



De fato, há uma beleza peculiar nas imagens capturadas pela fotógrafa que fazem da leitura dessa pequena obra de Pico Iyer uma experiência quase sensorial, como se imagem e texto se fundissem numa única linguagem, um casamento perfeito entre literatura e arte fotográfica.

Transcrevo a seguir um texto sucinto escrito por Eydís Einarsdóttir, onde percebemos o papel fundamental da viagem em sua produção artística. As imagens são as mesmas que compõem a obra supra citada.



Quietude ou, em islandês, kyrrô  – a palavra em si já me transporta para um dos poucos lugares onde encontrei a quietude perfeita de corpo e mente: a Islândia.

Todo ano viajo da minha casa, em Vancouver, no Canadá, para a Islândia, onde nasci. Não fico muito na cidade. Costumo me instalar no silencioso chalé dos meus pais, ao lado de um lago, para eliminar o estresse e experimentar kyrrô og ró (paz e quietude).



Depois de alguns dias de descanso, faço excursões com meus pais ao redor da ilha. Para mim, essas viagens são menos uma exploração fotográfica do que um momento para visitar meu “velho” país; a câmera simplesmente vai junto. No entanto, como a Islândia oferece tantas vistas e luzes de tirar o fôlego, inevitavelmente acabo parando aqui e ali.

Assim que pego a máquina, encontro essa quietude dentro de mim, o sentimento profundo de paz que busco todo dia. Fico tão maravilhosamente perdida que é difícil descrever. É como se tivesse encontrado um pedaço de mim que perdi, sem saber que tinha perdido.



Quando fico imóvel olhando pela lente do visor, meus sentidos se apuram. O cheiro da terra faz com que em me sinta enraizada, o som das ondas quebrando, da grama farfalhando ao vento ou do balido distante de uma ovelha solitária me dão a sensação de estar viva.




A vastidão de tudo o que vejo me torna expansiva. Isso é estar no Agora, que, na verdade, é estar quieto de corpo e mente. Minhas fotos vêm de um lugar de emoção. Não tento captar imagens perfeitas, mas sim o sentimento que vivi ao testemunhar as coisas que estavam à minha frente.


Saiba mais sobre o trabalho da Eydís Einarsdóttir no blog da fotógrafa:

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, by Pico Iyer

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Já escolhi a melhor leitura que fiz nesse semestre: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, do Pico Iyer. Para quem não o conhece, já escrevemos sobre esse autor aqui no Odepórica, num post duplo intitulado Por que viajamos, um texto que merece a leitura.

Dessa vez, a viagem é outra, mas também tem tudo a ver com nossas aventuras, deambulações, perambulações, passeios e perdições; como diz o Pico, a aventura a lugar nenhum.

Vão dizer que está na moda esse lance de meditar, aquietar a mente, sentar em silêncio, observar a respiração... inspira, expira, relaxa e viaja. Sim, uma moda com mais de cinco mil anos, dirão os entendidos, mas o que importa? Sempre é hora de aprender uma coisa nova, mesmo que essa coisa nova seja muito antiga.



Foi o que o Pico Iyer fez e é o que ele nos conta nesse breve relato de viagem que na verdade é um aprofundamento de uma palestra que ele proferiu na plataforma do TED, uma entidade sem fins lucrativos que se destina a divulgar ideias e que dispõe online centenas de palestras sobre tudo o que se possa imaginar.

Voltemos ao livro. São noventa páginas, capa dura, 6 capítulos curtos, gostosos de ler, o que nos dá tempo para refletir sobre cada passagem ou frase que toca fundo em algum lugar dentro de nós. Coisas que já sabíamos, na maior parte do tempo, mas que nos reconfortam porque percebemos que, sim, há outras pessoas que pensam e sentem como nós, há algo mais além daquilo que temíamos ser apenas uma bobagem, uma visão tola e romântica da vida...



No final de cada capítulo, uma surpresa: uma fotografia de natureza que toma duas páginas e que tem o poder de nos transportar para aquele cenário por alguns segundos, um feitiço imagético-literário. As imagens são de autoria de uma fotógrafa islando-canadense, Eydís Einarsdóttir, sobre quem escreverei no próximo post.

O texto começa em grande estilo. Pico dirige por montanhas da Califórnia rumo aos desertos do oeste; chega a um conjunto de chalés espalhados ao longo de uma encosta e um homem de pequeno porte, curvado e de cabeça raspada o espera em um estacionamento improvisado. Esse homem era Leonard Cohen. 



Foi Cohen, nome monástico Jirkan (uma referência ao silêncio entre dois pensamentos), quem parece ter aberto os olhos de Pico para a beleza e a felicidade que se pode encontrar quando se viaja a lugar nenhum.

“Sentar em silêncio era uma forma de se apaixonar pelo mundo e por tudo o que há nele. Eu nunca havia pensado nisso. Ir a lugar nenhum era uma maneira de atravessar o ruído e encontrar tempo e energia renovados para compartilhar com os outros. Algumas vezes eu me aproximara dessa ideia, mas nunca a compreendera tão claramente como no exemplo daquele homem que, embora parecesse ter uma vida completa, desistiu de tudo e foi procurar a felicidade e a liberdade. (...) Viajar para lugar nenhum, como Cohen havia me mostrado, não tinha a ver apenas com austeridade; era uma forma de se aproximar dos sentidos.” 



Depois dessa introdução, Pico começa a rememorar sua juventude e volta ao ano de 1986 quando, já tendo a vida feita, carreira, casa, esposa e prestes a completar 30 anos, abandona a rotina e vai viver um ano numa ruela de Quioto, a antiga capital japonesa.

“Ir a lugar nenhum, como Leonard Cohen enfatizaria mais tarde, não era virar as costas para o mundo, mas sim sair de fininho de vez em quando para poder enxergá-lo de forma mais clara e amá-lo mais profundamente”. 



Todo o resto da obra é uma reflexão mais aprofundada sobre esse pensamento acima. É importante notar que o autor, notório viajante, não quis passar a mensagem de que viajar, no sentido comum da palavra, seja algo obsoleto, ultrapassado; na verdade, só depois de muita estrada percorrida é que seremos capazes de entender a importância fundamental da quietude e dos momentos solitários.

Separei algumas passagens que me tocaram e deixei muitas outras, tão boas quanto, de fora dessa pequena seleção, na esperança de que você depois de ler essa breve resenha, compre o livro e se inspire o tanto quanto eu me inspirei ao lê-lo. 

Toda vez que faço uma viagem, a experiência só adquire significado para mim depois que volto para casa e, sentado em silêncio, transformo as paisagens que vi em revelações permanentes.




(...) é bom lembrar que o espírito pode nos levar tão longe quanto o movimento físico. Henry David Thoreau, um dos grandes exploradores do século XIX, relata em seu diário de viagens: “O mais importante não é a distância para onde você viaja – em geral quanto mais longe, pior -, mas sim quão vivo está”.



Em minhas viagens pelo mundo, uma das maiores surpresas que tive foi ver que as pessoas mais interessadas em por limites no avanço das novas tecnologias são justamente as que ajudaram a criá-las, derrubando muitos dos limites antigos. As pessoas que trabalharam para acelerar o mundo são as que estão hoje mais empenhadas em desacelerá-lo.



Programara viagens longas e emocionantes pelo Vietnã e pela Islândia e me sentia feliz com a escolha, que me permitiria reforçar meu engajamento com o mundo em poucas semanas. No entanto, a certa altura, todas essas viagens horizontais mundo afora não conseguiam mais suprir minha necessidade de ir além, rumo a um lugar desafiador e surpreendente. O movimento adquire um sentido mais rico quando baseado na quietude.



Leonard Cohen tornou-se o poeta predileto dos viajantes, recusando-se a criar raízes em qualquer lugar, um “garoto cigano” que não admitia que tivessem nenhum tipo de expectativa em relação a ele. Entretanto, como muitos viajantes sem destino, ele parecia saber que é somente quando paramos que podemos despertar em nível muito mais sutil e profundo. (...) Quando ele falava sobre si mesmo, reconhecia que suas viagens mais impressionantes foram as interiores.



No mundo de hoje, onde impera a velocidade, nada é mais revigorante do que ir devagar.
Numa época de distração, nada é mais enriquecedor do que prestar atenção.
E numa época de movimento constante, nada é mais urgente do que permanecer parado, sentado em silêncio.

Leia: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum. Pico Iyer. Editora Alaúde. São Paulo, 2016 (Ted Books)
Assista: Pico Iyer no TED:  The Art of Stillness (com legenda para o português)

domingo, 21 de maio de 2017

Uma palavra: Komorebi

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Gosto de colecionar palavras bonitas, estranhas, que causam surpresa quando descobrimos seus significados. Algumas destas palavras nem mesmo têm tradução literal para outras línguas, o que aumenta seu encanto. Escrevo-as em pedaços soltos de papel que guardo numa caixinha de madeira, na esperança de um dia usá-las em algum texto.

Quando busco inspiração para escrever, vez ou outra abro a caixinha velha de tabaco e leio os recortes de papel; acredito que essas palavras servem como um gatilho de ideias, um exercício que ajuda a ordenar os pensamentos.


Hoje pensei em buscar palavras que nos conectam com o ato de caminhar, viajar, peregrinar, passear na natureza... há uma relação enorme de palavras-conceito que pensei em tirar da minha caixinha e dividir com os leitores aqui no Odepórica. A escolhida de hoje, para abrir nosso “Pequeno dicionário de palavras odepóricas” vem do Japão: 木漏れ日- komorebi.

Uma das coisas mais bonitas de se ver numa caminhada em um bosque ou numa floresta é o momento em que o sol atravessa as folhas das árvores criando um espetáculo de luzes e sombras a que os japoneses dão o nome de komorebi.


Tal como diversos outros termos da língua japonesa, komorebi destaca a influência da natureza e da estética que é própria da cultura do Japão; não se trata diretamente do efeito da luz que passa através das folhas, senão da captura de um componente estético envolvido no komorebi.

A beleza dos raios de sol filtrados pelas folhas das árvores nos aproxima de uma experiência de comunhão íntima com a natureza, um lampejo de epifania. O escritor cristão C.S. Lewis conseguiu capturar a essência do komorebi numa passagem de sua obra Oração: Cartas a Malcolm, em que escreve a um amigo meditando sobre as várias questões entre o homem e Deus, e o papel da oração nessa relação com o divino.



“Qualquer fragmento de luz solar em uma madeira irá lhe mostrar algo sobre o sol que você nunca conhecerá lendo livros de astronomia; esses prazeres puros e espontâneos são fragmentos de luz divina nos bosques de nossa experiência.”



Para finalizar, encontrei na revista do The New York Times um poema que também captura essa beleza do komorebi, autoria da poeta irlandesa Caitríona O’Reilly, que traduzo livremente a seguir:

Komorebi
Entre o mundo e a palavra
São três formas pequenas,
Os sinais de ''árvore'', '' escape'' e ''sol''.

Eu vejo como a luz escapa através deles,
Moldando uma sombra em ambas as direções
No final do ano, na trilha castanho-avermelhada

Barrado pelas sombras das árvores.
Adoro como exulta, como qualquer fugitivo,
No lento reflexo das ondas no lago,

Em faixas radiantes ascendendo os troncos de bétula
De acordo com uma frequência desconhecida,
E no corvo-marinho estendendo-lhe suas asas molhadas 

Em um gesto messiânico,
Como se deslumbrado frente ao absoluto
Pela palavra e pela beleza do mundo.





domingo, 30 de abril de 2017

Cadernos de viagem: a arte da descoberta e da aventura

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Em um recente artigo publicado no periódico El País, em que o autor discute o impacto do turismo de massa sobre a produção de literatura de viagem, havia algumas indicações de literatura odepórica muito relevantes, sendo que uma delas fez meus olhos brilharem: Explorer’s Sketchbooks: the Art of Discovery & Adeventury.

Tenho uma caixa de arquivo com uma dezena de sketchbooks, que são aqueles pequenos caderninhos de rascunhos, objetos simpáticos que usamos quando queremos ditar um ritmo mais contemplativo ao ofício da escrita, em contraste com os sempre impessoais aparelhos eletrônicos, necessários e tediosos na mesma proporção.



Esses cadernos de anotações também são muito usados para esboços de desenhos e pinturas. Eu que não consigo desenhar um ovo, sempre morri de inveja dos solitários desenhistas de museus, aqueles que vivem alheios à multidão, num cantinho da sala, tentando capturar detalhes de uma tela, as mãos e os pés de uma dama renascentista, a fruta de uma natureza morta, o sorriso pétreo de uma criança esculpida em mármore... tão poética a cena quanto o resultado que vai aparecendo no contato do grafite com o papel.



Uma das coisas que me fascinam quando leio sobre a vida dos grandes escritores e viajantes, é que todos eles carregavam esses cadernos de notas e não há como não se entusiasmar quando se tem a oportunidade de admirar o conteúdo desses pequenos objetos de prazer. Não é exagero meu: o Huw Lewis-Jones e a Kari Herbert também pensam assim, tanto que pesquisaram bastante e publicaram uma obra de encher os olhos: trezentas páginas, setenta exploradores/as e mais de uma centena de pinturas, bosquejos e páginas de diários de viagem que fazem a alegria de qualquer apaixonado pelo tema.



Livro gostoso de folhear, daqueles que abrimos aleatoriamente, pulando páginas, namorando ilustrações, escaneando frases com o olhar, um ato de prazer. Corri os olhos pelo índice em busca de um nome e ele estava lá: Bruce Chatwin, de quem já falamos aqui no blog, escritor e aventureiro que muito admiro e quem praticamente tornou os moleskines um objeto de desejo. O Bruce fazia estoque desses caderninhos e me recordo que foi depois que li O Rastro dos Cantos que soube da existência deles. Fui conferir, meu exemplar todo grifado na página 223:





“Na França, esse tipo de caderno é conhecido como carnet moleskine: sendo moleskine, neste caso, a tela preta que cobria a encadernação. Cada vez que ia a Paris, comprava uma nova leva (...) As páginas eram quadriculadas, e a capa e a contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha numerados em série. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das preocupações; perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.




Concordo com o Chatwin: alguns desses moleskines, hoje, valeriam alguns milhares de dólares. Para além da importância literária e documental dessas cadernetas, há a questão do fetiche; ter em mãos um manuscrito de um autor admirado é estar o mais próximo possível de sua essência, talvez o mesmo sentimento de um religioso ao tocar as relíquias de um santo de devoção. Para muitos leitores e escritores, tal afirmação não é um exagero.

Voltemos à obra, página 86, Bruce Chatwin:




“Os cadernos de capa negra que Chatwin regularmente comprava em Paris tornaram-se lendários hoje. Eles são preenchidos com breves apontamentos, rascunhos de parágrafos, linhas de poesia, descrições fugazes de pessoas, encontros fortuitos, e são difíceis de decifrar. Quando ele saía para uma jornada, frequentemente pegava qualquer caderneta que estivesse à mão; não é incomum um único moleskine incluir trechos de muitas jornadas: América do Sul, Austrália, Rússia, África – tudo junto, e ele raramente datava suas entradas. (...) Chatwin sempre disse que havia se tornado um escritor ‘para justificar sua própria inquietação’.”

Volto algumas páginas e encontro Franz Boas, nome que conheci numa aula de antropologia e a quem devo algumas boas inspirações em meu projeto de mestrado. Boas foi agraciado com uma vida longa e próspera, e Gilberto Freyre foi seu aluno na Universidade de Columbia nos anos 1920.



Franz Boas foi também um bom viajante. Entre 1883 e 1884, aos vinte e cinco anos, foi viver com os esquimós na Colúmbia Britânica, viagem que foi determinante em sua carreira na antropologia:

“Boas chegou no final de agosto de 1883 e estabeleceu sua base numa estação  escocesa de caça às baleias na ilha de Kekerten. Dali, fez extensas viagens com os Inuit, de trenó puxado por cães e de barco, mapeando a costa e registrando os locais com os nomes indígenas. Essa imersão na cultura Inuit durou um ano. Ele vestiu as roupas dos esquimós, comeu de sua comida e viveu em casas de gelo; aprendeu sua língua e seus modos de fazer as coisas, e ouviu atentamente as suas histórias, crenças e lendas.”



“Ao deixar a região gelada, Boas concluiu que se fazia necessária uma abordagem antropológica totalmente nova. Ele viria a se tornar uma figura distinta e muito influenciadora em seu meio, pioneiro no ‘campo das quatro abordagens’ – uma disciplina de metodologia combinando arqueologia, linguística, antropologia física e antropologia cultural – ao mesmo tempo defendendo os valores da pesquisa exaustiva, do trabalho de campo e do conhecimento folclórico.”

Franz Boas foi um ardente opositor ao racismo e ao fascismo e por sua abordagem holística no estudo do comportamento humano, ficou conhecido como o pai da antropologia moderna. Nos tempos livres, enquanto se encontrava preso no barco, esperando o gelo derreter para poder navegar adiante, gostava de desenhar icebergs e mapas dos territórios mapeados:



Outra figura fascinante documentada na obra de Lewis-Jones e Kari Herbert é Freya Stark. Sua vida foi literalmente uma grande aventura e é inacreditável que não tenhamos uma obra de sua vasta produção literária publicada no Brasil.



Nascida em Paris, Freya Stark passou grande parte da infância no norte da Itália. Criança doente, sua válvula de escape era a leitura das Mil e Uma Noites. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela se voluntariou como enfermeira no front italiano e se virou como contrabandista para poder pagar suas despesas.

A todo o momento o Oriente lhe chamava. Ao chegar a Beirute em 1927, em sua primeira viagem pelo deserto, ela já conseguia conversar em árabe e estava aprendendo o persa. Devia aprontar muito em suas deambulações e dizem que foi uma mulher divertida, com um senso de humor peculiar, também presente em suas narrativas de viagem. Dizia que acordar sozinha em uma cidade estranha era uma das sensações mais prazerosas do mundo, um chamado à aventura.




Conheceu líderes de rebeliões, foi presa pelas autoridades francesas por suspeita de espionagem, mas jogou um charme e conseguiu se livrar da cadeia, antes de se aventurar pelo interior do Líbano e da Síria, onde nenhum ocidental havia ido antes dela. Atravessou o desfiladeiro de Chala, no Afeganistão e seguiu o rio Alamut através do Iran, corrigindo mapas já existentes da região por onde passava, enquanto sobrevivia à malária, dengue, disenteria e sarampo.

Nas selvas de Lamiasar ela descobriu a fortaleza da famosa seita ismaelita da Ordem dos Assassinos, escalando a escarpa de meias porque o caminho era muito escorregadio para seus calçados. Seus mapas precisos e a narrativa de sua viagem renderam-lhe medalhas da Royal Geographical Society e da Royal Asiatic Society.




Freya escrevia sobre suas andanças nas cartas que enviava à sua mãe e ao seu editor, escritas sob a sombra de árvores e de ruínas, em viagens que duraram décadas e renderam mais de vinte livros, muitos dos quais hoje considerados clássicos da literatura odepórica. Excêntrica, sem rodeios e segura de si, Freya foi uma mulher à frente de seu tempo.




Depois da Segunda Guerra, visitou a Ásia Central, o Afeganistão, a China e os Himalaias; aos 60 anos ela retraçou a rota de Alexandre, o Grande, percorrendo o sul da Turquia; aos 80, desceu o Eufrates de jangada. Continuou a viajar até os 92 anos. Faleceu em sua casa, na Itália, aos cem anos de idade. Em seu tributo, os jornais italianos nomearam-na rainha nômade; na Bretanha, o escritor Lawrence Durrell declarou que ela foi a “poeta da viagem”, uma das mulheres mais memoráveis de nosso tempo. Entretanto, Freya se enxergava em termos mais modestos: “vejo-me uma peregrina, mera residente temporária nesse mundo”. Palmas prá ela.


Cada um destes três personagens citados acima, tão diferentes entre si, assim como os outros sessenta e sete retratados, têm em comum o fato de que, em um determinado estágio de suas vidas, tiveram que assumir riscos. O texto introdutório, escrito a quatro mãos pelos autores, foi escrito com maestria e traz muitas passagens dignas de reflexão; costuram suas palavras colhendo notas peculiares dos exploradores que aparecerão nas páginas adiante.



Tudo, afinal, se entrelaça, porque a vida sempre foi e sempre será uma aventura, cada qual com sua jornada cheia de surpresas. Muitos morreram na estrada, muitos sucumbiram à jornada, mas, lembram os autores, o maior risco sempre será o de não sair de casa. Em outras palavras, não ouvir o chamado à aventura.



“A justificativa de Ernest Shackleton para sua vida instável, era simples: ‘Eu escolhi a vida acima da morte para mim e para meus amigos. Creio que está em nossa natureza explorar, lançar-se ao desconhecido. A única falha verdadeira seria não buscar, não explorar.’ E para muitos, mais do que ser um registro do desespero ou de angústia, escrever em um caderno de  notas era um momento de pura alegria: uma chance de descrever a beleza vista ou rascunhar algo memorável, como tirar uma fotografia, uma imagem para a posteridade,  uma descoberta para ser visualizada e compartilhada.”




O ponto alto dessa obra eclética talvez esteja no fato de que nem todos os viajantes são pessoas conhecidas ou famosas; alguns nunca foram publicados e nesse compêndio encontraremos exploradores pioneiros, topógrafos, botânicos, artistas, caçadores de plantas, ecologistas, antropólogos, escritores, visionários, mulheres e homens curiosos em enxergar e registrar o que poderia existir além do horizonte.



A riqueza desses registros nos cadernos de viagem é imensurável: há notas sobre a chegada ao cume do Monte Everest, a primeira visão do Polo Sul, os primeiros relatos das Cataratas de Vitória, do coração dos grandes desertos e do interior da tumba de Tutankhamun. Também veremos os primeiros desenhos dos icebergs, de borboletas e insetos raros, monumentos sagrados e de antigas inscrições, e das primeiras representações dos nativos americanos, caçadores esquimós e reis africanos.



Como dizem os autores, o processo de criação dessa obra foi em si uma exploração, uma caça ao tesouro. Quanto mais avançamos na leitura, mais desejamos cair na estrada, sair de casa, não importando a distância, mas sim a mudança do olhar, porque a aventura pode estar logo ali no próximo quarteirão. Temos que voltar a seguir nossos instintos, nossos impulsos, para conseguir ouvir o chamado.



“Na próxima vez que você programar uma viagem, leve um pequeno bloco de notas junto com seus equipamentos eletrônicos na mochila, ou melhor ainda, deixe esses aparatos em casa. Preencha as páginas  dos seus cadernos com aventuras e experiências. Siga a sua curiosidade. E apenas certifique-se de voltar para casa e compartilhar a sua história.”

Leia: Explorers´Sketchbooks: The Art of Discovery & Adventure. Huw Lewis-Jones and Kari Herbert. Chronicle Books, 2017.