segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Os monges e eu, by Mary Paterson

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Mary Paterson é uma bonita canadense de olhos grandes que por muitos anos foi instrutora de yoga em Toronto. Mulher viajada pelas bandas do Oriente, publicou um livro muito interessante: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich Nhat Hanh transformaram minha vida.

Para quem não conhece, Thich Nhat Hanh é um monge budista vietnamita que por suas boas ações já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz; prolífico escritor, poeta e pacifista, fundou um movimento denominado “budismo engajado”, que nada mais é do que a aplicação dos princípios budistas no dia-a-dia, seja para os que vivem a vida monástica ou para os leigos simpáticos à filosofia budista.


O bom homem continua ativo aos 90 anos, vivendo na comunidade que fundou em 1982 no interior da França, chamada de Plum Village – Vila das Ameixeiras. Foi para esse local que Mary Paterson, em busca de uma mudança em sua vida, se dirigiu para viver um retiro monástico de 40 dias, e seu livro é um testemunho dessa jornada física e espiritual.

Entre a entrada e a saída de Mary do monastério, temos 40 capítulos relativamente curtos, que correspondem a cada um dos dias de sua permanência nas Ameixeiras. Em cada capítulo, um ensinamento budista que a autora, na medida do possível, se esforça por colocar em prática, seguindo sempre que pode os preceitos do budismo engajado.

Desse modo, iremos aprender com Miss Paterson um pouco sobre como funciona um retiro espiritual no sul da França, que não difere muito da dinâmica dos retiros que temos aqui mesmo pertinho de nós. O foco do livro é mostrar como os ensinamentos do mestre Thich Nhat, em sua essência simples, podem mudar a vida de uma pessoa quando colocados em prática. É o que Mary se propõe a fazer em sua peregrinação.


Em cada capítulo/ dia de jornada aparece um ensinamento budista que a autora se esforça por encaixar em sua rotina diária, nem sempre com sucesso: mente concentrada, ética, silêncio, fé, gentileza, impermanência, transcendência, gratidão... tudo o que, de uma maneira ou de outra, guia as nossas vidas, tenhamos ou não um comprometimento religioso.

A leitura é agradável e equilibradamente didática; aprende-se um pouco sobre os ensinamentos do monge vietnamita, sobre a vida monástica, e também sobre o comportamento humano, com direito a vergonha alheia quando a autora descreve a conduta questionável de uma peregrina brasileira, Rita, “irascível, que gera um certo incômodo à sua volta”.

Recolhi do texto da Mary algumas passagens que me encantaram durante a leitura e que agora divido com você. Os títulos não fazem parte do texto original, servem apenas para apontar um pensamento que se encontra dentro de um contexto maior.
A ação no Caminho


Há muito tempo, havia um velho monge que, com prática diligente, atingira certo grau de sabedoria espiritual. Esse monge tinha um jovem noviço de 8 anos de idade. Um dia, olhando para o rosto do garoto, o monge viu que este morreria em poucos meses. Entristecido, o monge lhe disse que tirasse umas longas férias e fosse visitar os pais. “Não se apresse”, disse o monge. “Não precisa ter pressa para voltar”. Ele acreditava que o garoto deveria estar com a família quando morresse. Três meses depois, para seu espanto, o monge viu o garoto voltar, subindo a montanha. Quando este chegou, o monge olhou atentamente para seu rosto e viu que ele agora viveria longos anos. “Conte-me tudo que aconteceu quando você estava fora”, disse o monge.

O garoto falou-lhe da viagem descendo a montanha, das vilas por que passara, dos rios que atravessara e das montanhas que havia escalado. Então o garoto contou ao monge que um dia chegou a um riacho que transbordara. Enquanto tentava atravessá-lo, percebeu que uma colônia de formigas tinha ficado presa em uma ilhota formada na enchente.

Por compaixão das pobres criaturas, o garoto pegou um galho de árvore e o deitou sobre uma parte do riacho até que chegasse à ilhota. As formigas começaram a atravessar, e ele segurou o galho até que todas tivessem escapado para a terra.

“Então”, pensou o velho monge, “é por isso que os deuses prolongaram-lhe os dias”.

No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh frisa que “a qualidade de sua ação depende da qualidade de seu ser”. Se você não estiver feliz, por exemplo, não conseguirá oferecer a verdadeira felicidade a nenhum outro ser. “Portanto, há um vínculo entre fazer e ser. Se não conseguir ser, você não conseguirá fazer”.

Um mestre no Caminho



Hoje mais cedo, durante a palestra de Dharma, Thây comentou detalhadamente como havia lavado o rosto esta manhã. O semblante sereno do monge estava cheio de autêntica gratidão ao descrever minuciosamente a maravilhosa sensação da água no rosto e a grande alegria ao reconhecer a fonte profunda do milagre que é a água:

Meus dedos tocaram essa água que veio de tão longe, de montanhas distantes ou das profundezas da terra, e milagrosamente, estava ali em minhas mãos, em meu rosto, com o simples abrir de uma torneira. Enquanto espalhava devagar essa dádiva no rosto, pensei em toda a vida terrestre que existe graças à água. Ela estava tão fria e fresca. E eu fiquei feliz. Minha atenção me fez feliz.

Depois de descrever a experiência transcendental da lavagem do rosto, Thây contou-nos uma história de sua infância no Vietnã. Numa excursão escolar, centenas de crianças, em pequenos grupos, aventuraram-se a subir uma montanha para apreciar do alto a paisagem.

O jovem Thây ficou animado com a aventura porque ouvira dizer que um eremita, um budista misterioso, vivia e meditava em solidão naquelas montanhas. Na animação, Thây e as demais crianças de seu grupo subiram a montanha depressa e, a meio caminho, já haviam bebido toda a água que levavam. E depois, para decepção de Thây, esse fugidio eremita, um ser quase semelhante ao Buda, não se encontrava em lugar nenhum.


Quando as crianças se sentaram para comer seus lanches, Thây resolveu explorar um pouco mais e entrou sozinho no bosque. Não demorou muito e o escolar ouviu o som de água correndo. Seguiu-o e encontrou uma nascente de água.  Por estar com muita sede, o futuro mestre zen ficou encantado ao ver a nascente.

Ao levar à água as mãos em concha, Thây caiu em sono profundo ao lado da nascente e, ao acordar, não sabia onde estava. Porém uma coisa o futuro mestre zen sabia; havia bebido a água mais deliciosa do mundo.

O jovem Thây nunca contou aos colegas a sua descoberta da nascente, por achar que isso poderia diluir a poderosa experiência espiritual que ela representara para ele. Mas, após muitos anos e muito estudo, o monge acabou contando a história do eremita e da nascente por desejar ardentemente que todos encontrassem seu próprio eremita em sua própria vida.

Como disse Thich Nhat Hanh: “Você já pode ter visto seu eremita sem o reconhecer. Talvez seu eremita não seja uma nascente. Ele pode ser uma rocha, uma árvore, uma criança ou uma montanha. Mas quando tiver encontrado seu eremita, você saberá aonde ir. E encontrará paz”.
Sobre viajantes e malas: uma reflexão


Para minha viagem à França, levei duas malas grandes com todas as coisas de que eu precisaria nos quatro meses de minha estadia. Nelas estavam minhas roupas favoritas para todos os tipos de ocasião, livros, os produtos orgânicos para o corpo de que mais gosto e várias outras coisas. E o que aconteceu foi isto: ambas as malas ficaram pesadas demais, obrigando-me a pagar as altas taxas por excesso de bagagem no aeroporto.

Depois, arrastar essas malas pelas escadas do metrô de Paris revelou-se uma coisa praticamente impossível. Dizer que eu fiquei sobrecarregada é um eufemismo. Por sorte, um mês depois de minha chegada, surgiu uma luz: uma amiga canadense veio visitar-me em Paris e concordou em levar consigo para Toronto uma de minhas malas. Minha salvadora!

Mas a mala que ficou estava cheia a ponto de arrebentar, e eu logo percebi que meus pertences haviam se tornado mais que uma carga meramente física. Quando afinal fui para a Vila das Ameixeiras, aquela mala inchada já tinha me deixado mentalmente perturbada.

“Abrir mão de posses materiais é uma boa prática para abrir mão de ideias”. Quem me dera ter ouvido esse sábio conselho enquanto estava fazendo aquelas malas. O Buda disse: “Apego a opiniões, apego a ideias, apego a percepções é o maior obstáculo à verdade”. No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh explica:

É como subir uma escada. Quando chega ao quarto degrau, você pode pensar que está no degrau mais alto, que não pode subir mais, e se prende a esse degrau. Mas na verdade há um quinto degrau; se quiser chegar a ele, você precisa se dispor a abandonar o quarto. Ideias e percepções são coisas que devemos abandonar o tempo todo, para dar lugar a ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por isso que precisamos sempre nos perguntar: “Estou certo disso?”.

Leia: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich
Nhat Hanh transformaram minha vida. Mary Paterson. Editora Pensamento, 2013. 

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