segunda-feira, 6 de março de 2017

Como se tornar um escritor de viagem, by Gary Shteyngart

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É sempre instigante ler sobre o processo criativo dos escritores e descobrir um pouco mais sobre a maneira como eles enxergam o mundo. Foi por um acaso que encontrei no site da Travel and Leisure um artigo assinado pelo escritor e viajante Gary Shteyngart, onde ele fala um pouco sobre a escrita de viagem, sobre suas andanças e como isso tudo afeta seu trabalho e sua vida.
How to become a travel writer
gary shteyngart



Há alguns anos saí com um amigo para comer acompanhado de alguns estudantes de graduação recém-ingressos na faculdade. Tão logo fui apresentado como romancista, a alegre mesa embriagada de sangria silenciou-se, como se meus novos amigos tentassem digerir exatamente o que aquilo significava. “Então...você...escreve...livros.”

Isso me lembrou de uma das primeiras perguntas levantadas numa leitura que fiz quando publiquei meu primeiro livro: “Qual a diferença entre, por exemplo, ficção e romance?” Uma vez que aquele evento ocorreu em Los Angeles, a próxima questão já era esperada: “E então, quem dirigiu o seu livro?”

Naquele tempo eu já sabia desviar do assunto rapidamente. “Eu também escrevo sobre viagem”, disse, em meio a um coro de “Uau!” e “Demais!” e “Qual foi o último lugar que você visitou?” e “O novo aeroporto de Bancoc não é mesmo um show?”



A ascensão da escrita de viagem como um trabalho sério não é exatamente uma novidade. É possível pensar em Dom Quixote como um extenso diário de viagem, e, se você tiver inclinação religiosa, também o Livro do Êxodo. Como professor de escrita ficcional na Universidade de Columbia, não mais me surpreendo quando meus alunos aparecem na minha sala com a seguinte questão: “Como faço para começar na literatura de viagem?” 

Escrever bem sobre viagem requer uma ligação emocional com a ideia de que a vida é composta de uma série de trocas. Ser um imigrante, ou alguém com raízes em mais de uma cultura, ajuda. Mas realmente, tudo o que é preciso é ser um imigrante emocional. O próximo lugar em que você aterrissar deve ser visto como real por você, senão mais real, do que o lugar que você deixou para trás.



Quando eu tinha seis anos, minha família deixou Leningrado para uma estadia de uma semana em Viena, seguida por seis meses em Roma, e mais um curto período no Queens, Nova Iorque. Nossa existência era uma interminável trilha de estações de trens e aeroportos, homens de chapéus carregando pesados carimbos de passaporte, o rangido autoritário contra os documentos de viagem.

E como eu era criança, sem noção de qualquer senso de tragédia – a tragédia de se deixar para trás sua língua e sua cultura – qualquer atraso de trem, cada decolagem de avião com tempo fechado era emocionante.

Quando nos abrigamos no Queens por dez anos de relativa pobreza e nenhuma viagem de avião, fiquei arrasado. Por que não estávamos nos mudando mais? Passei grande parte da minha infância na saída de incêndio da casa de minha avó olhando os aviões da TWA aterrissando no aeroporto de La Guardia.



O viajante de hoje é frequentemente confrontado com os recém-chamados turistas da Rússia e da China. Alguns lamentam suas faltas de modo, mas eu fico sempre contente em ver pessoas de lugares reprimidos deixarem seus recintos, mesmo que por poucas semanas.

Minha tia deixou a União Soviética no final da era Gorbachev e usou seu apertado salário para viajar a lugares tão longes quanto a Suíça e o Japão, vivendo no ar e na água, por vezes apenas no ar. Muitos de nós, ex-soviéticos, crescemos com a ideia de que o melhor que você podia fazer com a sua vida era arrumar as malas e correr para o aeroporto.



Há diferenças em como o Grand Tour (viagens longas, um termo que remete às grandes viagens pela Europa em busca das raízes da civilização ocidental que funcionava como uma espécie de rito de passagem de jovens ricos e aristocráticos, geralmente com a companhia de um guia ou tutor) é feito nos dias de hoje.

Viajantes chineses e russos, seja em grupos ou sozinhos, parecem passar batido pelos museus e templos; quando eu volto a São Petersburgo, mesmo que por poucos dias, presto minha homenagem ao Hermitage (museu), num misto de tarefa cultural com lembranças de infância.  Mas não sou capaz de lembrar da última vez que um museu tenha realmente mexido comigo, ou radicalmente mudado a maneira de enxergar um lugar.





Pode ser que o Leeum, o Museu Samsung de Arte, em Seul, tenha sacado o truque, com o brilho da céladon (cerâmica verde esmaltada coreana) contrastando tão bem com a agitação dos eletrônicos do lado de fora. O fato de o museu carregar o nome da Samsung faz com que isso tenha um duplo sentido.

Mas a maioria de nós hoje quer mais do que a chance de enxergar nossas caras amassadas refletidas na vitrine de um museu. O viajante ocidental contemporâneo quer ver a vida dos outros – talvez até vivê-las (via Airbnb). Surpreendido por Shangai, triste porque só teria poucos dias na cidade, vi-me petrificado pelos cartazes do lado de fora de um escritório imobiliário.




Minha mente lampejava com as imagens. Se um residente comum de Shangai ganha X por ano, como poderá comprar um apartamento que custa Y? Os preços imobiliários, a caçada insana pela melhor sopa típica da cidade, a emoção de quase ter a sua perna raspada por algum tipo de carroça motorizada – tudo isso ao mesmo tempo forma as nossas impressões sobre um lugar; cada uma delas pode ser o começo ou o final do fragmento de uma viagem.

Fazer amizades é uma das chaves para escrever sobre viagens. Como um membro da CIA que cultiva novos agentes, creio que metade do motivo de eu frequentar festas é para ter certeza de que quando eu voar para Bancoc ou Hong Kong, ou mesmo Atlanta, terei alguém no chão que conhece o lugar melhor do que eu conheço a minha própria cidade.




Eu não procuro saber tanto sobre os pontos turísticos, ou as lojas, ou mesmo as barracas de comida (ok, talvez as barracas de comida) quanto pelas opiniões da gente local. Quero sair do avião e começar a conversar com meus amigos imediatamente, vendo a paisagem através de seus olhos experientes, e teclando “Os Emirados estão realmente interessados em decoração” em meu celular.

Eu quero ouvir não somente as exaltações sobre o melhor frango frito do planeta e a segunda melhor opção de viagem pela Itália, mas também os grandes desapontamentos e arrependimentos; plagiando Tolstoi: todos os países alegres (e enfadonhos, eu acrescentaria) são semelhantes; todos os países tristes são tristes a seu modo.



Eu sei que acertei algo quando, tarde da noite, ao apagar das luzes dos novos arranha-céus cintilantes, alguém me sussurra alguma versão do “Por favor, não cite meu nome, ok? Mas tudo aqui é uma mentira.”

Às vezes eu sinto medo. Não tanto pela minha vida, mas medo de não fazer a coisa certa. De voltar com muitos preconceitos. De não conseguir enxergar as mentiras. Quando meu avião aterrissa em Beijing, uma cidade de 20 milhões de habitantes, eu sei que tenho somente oito dias para partir com algo original e instigante sobre o lugar.

Sim, eu já avisei meus contatos antes de embarcar em Newark e hoje à noite vou encontrar uma ex-estrela do rock sino-americana que, caso suas reflexões na Internet sejam verdadeiras, deve ser uma das pessoas mais engraçadas da República Popular da China.



E assim, cansado do voo mas cheio de atitude, carregando minha mala prá cima e prá baixo, deixando prá trás aquele casal belga cujo bebê babou em cima de mim por vinte horas, correndo em direção à amargurada palavra imigração, com o símbolo internacional de um homem com chapéu examinando um livro aberto, dou início à minha nova vida.

Texto original pode ser acessado no site da Travel and Leisure

A Rocco publica os livros de Gary Shteyngart no Brasil. Retiro do site da editora uma breve biografia do autor:


Gary Shteyngart nasceu na Rússia, em 1972, e foi para os Estados Unidos aos sete anos. Seu primeiro livro, O pícaro russo, ganhou o Stephen Crane Award na categoria para estreantes e o National Jewish Book Award na categoria ficção. Seus outros dois romances são Absurdistão, considerado o livro do ano pela revista Time, e Uma história de amor real e supertriste, eleito um dos dez melhores do ano pelo The New York Times, ambos publicados pela Rocco. Shteyngart foi indicado pela revista Granta como um dos melhores jovens romancistas americanos e fez parte da lista de 20 escritores notáveis com menos de 40 anos publicada pela The New Yorker.

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