domingo, 12 de março de 2017

A cozinha das escritoras, by Stefania Barzini

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Os primeiros livros que li na vida, após os clássicos infanto-juvenis que toda criança costumava ler na época, foram os de Agatha Christie - a Rainha do Crime - famosa alcunha da escritora inglesa. Jamais esquecerei da emoção que seus livros me causavam,  a maneira genial como ela conduzia a trama mantendo o suspense até o último capítulo, sem que nunca conseguíssemos descobrir a identidade do criminoso.

Afora a paixão pelo suspense e terror de suas novelas, havia outra coisa que me atraía nos livros de Agatha: as viagens aos lugares exóticos aos quais éramos transportados: Egito, Amã, Grécia, o Caribe... As viagens de trem e de navio, que duravam semanas, sem contar os aristocráticos vilarejos ingleses cheios de frescuras com seus hábitos ainda hoje mantidos, como o tradicional chá das cinco.


Não há um livro de Agatha Christie em que o chá não esteja presente. E não só isso: os biscoitos amanteigados, os ovos quentes, os bolos, sanduíches e lautos jantares com direito a assassinato aqui e acolá. Um veneninho no licor? Why not? Agatha tinha muito senso de humor, ninguém há de discordar.

Foi pegando essa linha que uma escritora italiana decidiu pesquisar o papel da comida na literatura feminina e publicou uma obra que merece ser lida por quem gosta de... comida, claro, mas também de literatura: A cozinha das escritoras: sabores, memórias e  receitas de 10 grandes autoras, de Stefania Aphel Barzini.



O que isso tem a ver com literatura odepórica? Tem tudo a ver, uma vez que a comida de um lugar é parte fundamental de sua cultura e suas origens. Tanto que, ao ler a obra da Stefania Barzini, pincelei muitas passagens que mostram exatamente isso, a importância das viagens na vida dessas escritoras.

São dez autoras as que aparecem nesse ensaio da autora italiana, das quais eu só conhecia metade, mas isso não diminuiu em nada meu interesse pela leitura, que flui bem do início ao final, com direito a algumas receitas das famosas literatas, uma bobeirinha dispensável.



O livro abre bem: Virginia Wolf. Suspeito que essa é uma das autoras que muitos conhecem, mas poucos leem. Confesso que tentei e não me entusiasmei muito com a Virginia e sua narrativa usando a técnica do “fluxo de consciência”, mas algo nela me atrai, talvez mais a sua vida do que a sua obra.

Virginia, diz a autora, valorizava em seus romances e contos a comida, as cozinheiras, os pratos e as receitas, a ponto de narrar paisagens usando palavras do universo da comida. O resultado é genial:



“Dessa maneira, os vendedores de fogaças têm os olhos cinzentos como os de peixe cozido. O corpo de uma garota é semelhante a um toucinho fofo, outra tem olhos cor de amora, e um homem se parece com uma couve-flor cozida. Uma senhora tem o rosto branco e grande como um muffin, e o de outra tem a forma de uma pera.

St. Ives, o lugar de sua infância, tem a cor dos mexilhões e dos moluscos, como um punhado de ásperos crustáceos cravados em um muro cinza. Observando os campos de trigo pela sua janela, pensa que ‘o grão, então, está disposto em filas de três, quatro ou cinco sólidas fogaças amarelas, ricas, parece, de ovos e de aromas; boas para comer’.



Na Grécia, as pedras vistas do alto se assemelham, segundo ela, a uma pera mal descascada, e durante um temporal ‘as árvores ao vento têm cor de chocolate, e as pequenas folhas parecem batatas cortadas’. Um dia, Virginia imagina estar sob uma parreira. No outro, vive como inseto em um biscoito. Em outro, sente-se maleável como um pedaço de macarrão.”



A próxima escritora, Gertrude Stein, aparece como uma amante da mesa e dos livros, assim como AliceToklas, sua amante, secretária, doméstica, editora e, acima de tudo, musa. A autora nos revela que as duas eram grandes gourmets, para quem a comida era não somente um prazer, mas um modo de conhecer o mundo e uma terra rica em tradições apetitosas.

Viajam muito, não só pela França, onde viviam, mas também atravessam o mar e voltam aos Estados Unidos, terra natal, convidadas para algumas conferências por conta do sucesso de Autobiografia de Alice B Toklas (escrito por Stein). Gertrude quase declina do convite porque não sabe se gostará da comida, numa terra “onde a comida parece mais bizarra que as pessoas, as casas e o modo de viver”.



Um amigo que acabara de voltar dos EUA diz que nunca na vida tinha visto uma quantidade tão grande de frutas e verduras enlatadas. “Mas você não era obrigado a comer esse tipo de coisa, não? – pergunta Gertrude ao amigo. “Era, sim” – responde. “Se você é convidado, não pode recusar”. O incrível é que essa cena se passa nos anos 30 do século passado.

Entretanto, a viagem acaba sendo um sucesso. “O país é grande, e as duas mulheres voam, endiabradas, de um estado para outro”. A autora prossegue:

“Em Baltimore, encontram Francis Scott Fitzgerald e tomam chá com uma infinidade de canapés, para não se esquecerem de Paris. A cidade lhes oferece a oportunidade de gozar da famosa hospitalidade das pessoas do Sul. São almoços e jantares ricos em tortas, sanduíches, sorvetes e ponche, sempre preparados por cozinheiras negras em total harmonia com seu reino: as imensas cozinhas daquelas casas.



Mas a descoberta mais prazerosa é, certamente, a Califórnia, estado de origem das duas, ‘o país abençoado por Deus’, como a chamam. Há sol, mar, uma terra incrivelmente fértil, plantações de azeitonas e de laranjas.

Em Pasadena, subúrbio elegante de Los Angeles, veem os primeiros abacateiros, cujas frutas são vendidas na beira da estrada, empilhadas em grandes pirâmides. Há também outras árvores frutíferas e as alcachofras de Monterey, cidadezinha ao sul de San Francisco que Steinbeck tornou famosa em seus romances.



(...) Sete meses depois, quando chega a hora de deixar o país, as duas mulheres ficam tristíssimas: no fundo é a terra delas, e lá elas tiveram uma revelação, até mesmo do ponto de vista gastronômico. Quando estão no voo que as levará de Atlanta, na Geórgia, para Nova York, onde embarcam para a Europa, leem um grande cartaz com os dizeres ‘Compre carne ou grãos na Geórgia’. Estiveram a ponto de querer ficar.”

No capítulo seguinte, Simone de Beauvoir, que tem fama de chata e, se tudo o que dizem dela for verdade, devia ser mesmo. Mas o texto a ela dedicado é uma delícia de ler, já que estamos falando de comida.



Simone viveu em hotéis muito tempo e nunca cozinhava: não sabia e nem gostava. Mas amava comer bem, embora nunca admitisse e dizia que cozinhar era opressor. Simone, a tonta arrogante, “que encara com gravidade quem cozinha, culpado do pecado que ela considera mais grave – dedicar-se a uma humilhante atividade pequeno-burguesa -, mas não consegue ocultar a fome e o apetite.”

No final da Segunda Guerra, viaja a Portugal para visitar a irmã e se espanta com a fartura de comida que ali encontra. Fica indignada na Espanha, com os brioches, as azeitonas, os ovos fritos, chocolates e vinho, comida a que só os ricos, a quem tanto despreza, podiam ter acesso. Indigna-se, mas enche o bucho e desembarca em Paris cheia de presunto, salames, café, chocolate, bananas, 50 quilos de provisões que serão distribuídos aos amigos.



“Paz também significa voltar a viajar, algo que Simone aprecia quase tanto como comer. A primeira viagem é para a Suíça, para uma rodada de conferências. O país, intocado pela guerra, marca a escritora por sua opulência e a faz exclamar: ‘ Uma das coisas mais prazerosas, à qual não estou mais habituada, é poder comer qualquer coisa a qualquer momento’.

(...) Para Simone, as viagens são sinônimo de libertação. Quando viaja, ela pode abandonar por um instante o compromisso mais opressivo de sua existência, a incansável construção, dia após dia, do monumento dedicado a si mesma, sozinha ou em casa com Sartre, uma obrigação que, com o passar dos anos, torna-se mais extenuante, a um ponto em que, no final, não será capaz nem mesmo de distinguir a realidade do mito criada por si mesma.



Nas viagens, a escritora pode se permitir baixar a guarda, sorver mais livremente os prazeres da vida, as cores do tempo, os passeios, as amizades, as conversas, conhecer, ver. Comer e escrever sobre o que se come, ao menos uma vez, sem reticências ou vergonha.”

Simone e Sartre viajam ao Brasil, “onde Jorge Amado lhes oferece um suco amarelo-pálido extraído do caju e eles comem feijoada, algo como uma sopa de feijão preto, densa e perfumada”.



“A Bahia, com suas batidas, seus mercados perfumados de verduras frescas, de abacaxi, de peixe, de carne já passada, de feijão-vermelho, de mandioca, de pepino, batata-doce e tabletes de açúcar mascavo que parecem sabão negro.

Onde o aroma de azeite de dendê se mistura ao cheiro de salmoura. Sartre, tão menos aventureiro em matéria de gastronomia, recusa-se a degustar os ragus, enquanto ela é conquistada pelo suflê de siri. Amado, convencido de que, para conhecer um país, deve-se antes de tudo saber o que se come, leva os dois franceses para almoçar numa churrascaria, onde o ar exala a lenha queimada.



Diante do fogo, em longos espetos de ferro, estão enfileirados pedaços de porco, carneiro, boi. Em nenhum outro lugar do mundo Simone comeu carne assim tão suculenta. (...) Dessa forma a viagem é uma experiência libertadora, um momento de prazer.”




Agatha Christie, escreve a autora, fazia na vida o que mais gostava: escrever, viajar e comer. E fazia as três coisas muito bem. Ao contrário de Simone de Beauvoir, estamos diante de uma mulher simpática e divertida. Certa feita ganhou de uma jornalista eslovena um livro de culinária do seu país. Ficou muito entusiasmada: “Que livro lindo! Só de folheá-lo me dá fome! Gosto de cozinhar. É a mesma coisa que escrever, um ato criativo!”



São inúmeras as viagens de Agatha Christie e o primeiro cruzeiro ao redor do mundo acontece nos anos 1920, logo após o nascimento de sua filha:

“E como sempre acontece nas viagens, o amor pela comida e a paixão pelo exótico se misturam, ainda mais no caso de Agatha, que, como sabe quem a conhece, seja por distorção profissional, seja por obsessão pessoal, lê o mundo ao redor por meio da comida, da cozinha, do ato de comer. Por isso, as anotações e as lembranças daquela viagem são sobretudo gastronômicas.



Ela se recorda de aguentar os almoços e jantares a bordo à base de caldo de carne Liebig. Ou fala sobre as ilhas Fiji e o Havaí, onde colhe abacaxis e bananas nas margens da estrada. Entre todas as maravilhas descobertas ao longo daquele ano ao redor do mundo, nada a deixa mais excitada e estupefata do que seu último dia em Nova York, quando vai ao Horn & Hardart Automat, próximo à Union Square.

(...) A fama dessa companhia, em que tudo era automatizado – a comida estava exposta em vitrines e, para comprá-la, bastava inserir moedas e girar manivelas – era tanta que Edward Hopper, o pintor da alienação americana, ambientou em um estabelecimento da rede uma mulher sentada sozinha em uma mesinha, olhando fixamente para sua xícara de café, como se fosse o uma espécie de tábua de salvação ou o último café de sua vida.



Em resumo, um ambiente nada alegre – embora, comparada com as atuais lojas de fast-food, a decoração pareça o máximo do refinamento.

Agatha, por sua vez, tem hábitos simples e não é esnobe, então contará essa experiência como a aventura mais divertida de sua viagem aos Estados Unidos, lembrando que foi à lanchonete vestida com roupa de festa, quase como se fosse jantar no restaurante mais sofisticado da cidade...”.



Depois da longa viagem marítima, a escritora se separa do marido e some misteriosamente por dez dias, causando um verdadeiro clamor no país. É dito que ela se registrou com nome falso em um elegante spa e sua depressão “é derrotada a golpes de ovos fritos”. Barriga cheia, coração feliz, é hora de voltar a viajar.

“Agatha decide ir para o Oriente Médio e viaja no Simplon Orient Express, o trem que aparecerá futuramente em um dos seus mais famosos e bem-sucedidos romances. A marcha para a Ásia é lenta. Agatha escolheu aquela viagem atraída também pelo apetitoso anúncio do vagão-restaurante do comboio, mas quanto mais se aproxima do Oriente, mas a sofisticada cozinha europeia se transforma em um desagradável mix de comida insossa picante, oleosa e sem sabor.



Não será isso a desanimá-la. Agatha Christie – nunca mudará de nome – chega ao atual Iraque, dorme no deserto em um saco de dormir, coisa de fato temerária para uma refinada senhora inglesa da época, e devora salsicha enlatada, cozida em um fogãozinho Primis, acompanhada de chá-preto.

Além de não se lamentar, ela anota em seu diário: ‘É maravilhoso, aquilo mesmo que eu queria: a ausência dos passarinhos, a areia que corre pelos dedos, o sol nascente e o sabor da salsicha e do chá’. Realmente indomável.”


Foi nessa viagem ao Oriente que Agatha conheceu seu segundo marido, arqueólogo, o grande amor de sua vida.  Por conta de seu trabalho em campo, viajarão toda uma vida e serão para sempre felizes.

Sobre as outras escritoras não há no livro menções a viagens, embora há muitas passagens que valeriam ser destacadas, como no texto dedicado à escritora italiana Grazia Deledda, Nobel de Literatura em 1926, que no final da vida, com a saúde já muito debilitada, escreve que  seus pensamentos “são constelações de ervas que se movem ao vento, o meu coração bate no ritmo das folhas das árvores de alfarroba que se destacam uma a uma dos ramos”.



A beleza das palavras dessa escritora nascida na Sardenha merece ser mais conhecida, uma pena sua obra ser tão pouco divulgada por aqui. Só o capítulo dedicado a ela no livro de Stefania Barzini já vale a compra. Assim como descobrimos ao acaso um lugar mágico ao dobrar uma esquina numa viagem qualquer, também descobrimos autores há muito esquecidos que, também por conta do acaso, enchem nossa alma de alegria. E com as palavras de Grazia termino esse post sobre viagens, paisagens, comida e... escritoras.



“Vivi em contato com o povo e com as paisagens mais belas e selvagens com as quais minha alma se identificou (...). Vivi com o vento, com os bosques, com as montanhas; olhei por dias, meses e anos o lento movimento das nuvens do céu sardo; apoiei mil vezes a cabeça no tronco das árvores, nas pedras, nas rochas, para escutar a voz das folhas, o que diziam os passarinhos, o que contava a água corrente, vi a alvorada, o pôr do sol, o surgir da Lua na imensa solidão das montanhas”.
Leia: A cozinha das escritoras: sabores, memórias e receitas de 10 grandes autoras. Stefania Aphel Barzini. Editora Saraiva - Coleção Benvirá, 2013.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Como se tornar um escritor de viagem, by Gary Shteyngart

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É sempre instigante ler sobre o processo criativo dos escritores e descobrir um pouco mais sobre a maneira como eles enxergam o mundo. Foi por um acaso que encontrei no site da Travel and Leisure um artigo assinado pelo escritor e viajante Gary Shteyngart, onde ele fala um pouco sobre a escrita de viagem, sobre suas andanças e como isso tudo afeta seu trabalho e sua vida.
How to become a travel writer
gary shteyngart



Há alguns anos saí com um amigo para comer acompanhado de alguns estudantes de graduação recém-ingressos na faculdade. Tão logo fui apresentado como romancista, a alegre mesa embriagada de sangria silenciou-se, como se meus novos amigos tentassem digerir exatamente o que aquilo significava. “Então...você...escreve...livros.”

Isso me lembrou de uma das primeiras perguntas levantadas numa leitura que fiz quando publiquei meu primeiro livro: “Qual a diferença entre, por exemplo, ficção e romance?” Uma vez que aquele evento ocorreu em Los Angeles, a próxima questão já era esperada: “E então, quem dirigiu o seu livro?”

Naquele tempo eu já sabia desviar do assunto rapidamente. “Eu também escrevo sobre viagem”, disse, em meio a um coro de “Uau!” e “Demais!” e “Qual foi o último lugar que você visitou?” e “O novo aeroporto de Bancoc não é mesmo um show?”



A ascensão da escrita de viagem como um trabalho sério não é exatamente uma novidade. É possível pensar em Dom Quixote como um extenso diário de viagem, e, se você tiver inclinação religiosa, também o Livro do Êxodo. Como professor de escrita ficcional na Universidade de Columbia, não mais me surpreendo quando meus alunos aparecem na minha sala com a seguinte questão: “Como faço para começar na literatura de viagem?” 

Escrever bem sobre viagem requer uma ligação emocional com a ideia de que a vida é composta de uma série de trocas. Ser um imigrante, ou alguém com raízes em mais de uma cultura, ajuda. Mas realmente, tudo o que é preciso é ser um imigrante emocional. O próximo lugar em que você aterrissar deve ser visto como real por você, senão mais real, do que o lugar que você deixou para trás.



Quando eu tinha seis anos, minha família deixou Leningrado para uma estadia de uma semana em Viena, seguida por seis meses em Roma, e mais um curto período no Queens, Nova Iorque. Nossa existência era uma interminável trilha de estações de trens e aeroportos, homens de chapéus carregando pesados carimbos de passaporte, o rangido autoritário contra os documentos de viagem.

E como eu era criança, sem noção de qualquer senso de tragédia – a tragédia de se deixar para trás sua língua e sua cultura – qualquer atraso de trem, cada decolagem de avião com tempo fechado era emocionante.

Quando nos abrigamos no Queens por dez anos de relativa pobreza e nenhuma viagem de avião, fiquei arrasado. Por que não estávamos nos mudando mais? Passei grande parte da minha infância na saída de incêndio da casa de minha avó olhando os aviões da TWA aterrissando no aeroporto de La Guardia.



O viajante de hoje é frequentemente confrontado com os recém-chamados turistas da Rússia e da China. Alguns lamentam suas faltas de modo, mas eu fico sempre contente em ver pessoas de lugares reprimidos deixarem seus recintos, mesmo que por poucas semanas.

Minha tia deixou a União Soviética no final da era Gorbachev e usou seu apertado salário para viajar a lugares tão longes quanto a Suíça e o Japão, vivendo no ar e na água, por vezes apenas no ar. Muitos de nós, ex-soviéticos, crescemos com a ideia de que o melhor que você podia fazer com a sua vida era arrumar as malas e correr para o aeroporto.



Há diferenças em como o Grand Tour (viagens longas, um termo que remete às grandes viagens pela Europa em busca das raízes da civilização ocidental que funcionava como uma espécie de rito de passagem de jovens ricos e aristocráticos, geralmente com a companhia de um guia ou tutor) é feito nos dias de hoje.

Viajantes chineses e russos, seja em grupos ou sozinhos, parecem passar batido pelos museus e templos; quando eu volto a São Petersburgo, mesmo que por poucos dias, presto minha homenagem ao Hermitage (museu), num misto de tarefa cultural com lembranças de infância.  Mas não sou capaz de lembrar da última vez que um museu tenha realmente mexido comigo, ou radicalmente mudado a maneira de enxergar um lugar.





Pode ser que o Leeum, o Museu Samsung de Arte, em Seul, tenha sacado o truque, com o brilho da céladon (cerâmica verde esmaltada coreana) contrastando tão bem com a agitação dos eletrônicos do lado de fora. O fato de o museu carregar o nome da Samsung faz com que isso tenha um duplo sentido.

Mas a maioria de nós hoje quer mais do que a chance de enxergar nossas caras amassadas refletidas na vitrine de um museu. O viajante ocidental contemporâneo quer ver a vida dos outros – talvez até vivê-las (via Airbnb). Surpreendido por Shangai, triste porque só teria poucos dias na cidade, vi-me petrificado pelos cartazes do lado de fora de um escritório imobiliário.




Minha mente lampejava com as imagens. Se um residente comum de Shangai ganha X por ano, como poderá comprar um apartamento que custa Y? Os preços imobiliários, a caçada insana pela melhor sopa típica da cidade, a emoção de quase ter a sua perna raspada por algum tipo de carroça motorizada – tudo isso ao mesmo tempo forma as nossas impressões sobre um lugar; cada uma delas pode ser o começo ou o final do fragmento de uma viagem.

Fazer amizades é uma das chaves para escrever sobre viagens. Como um membro da CIA que cultiva novos agentes, creio que metade do motivo de eu frequentar festas é para ter certeza de que quando eu voar para Bancoc ou Hong Kong, ou mesmo Atlanta, terei alguém no chão que conhece o lugar melhor do que eu conheço a minha própria cidade.




Eu não procuro saber tanto sobre os pontos turísticos, ou as lojas, ou mesmo as barracas de comida (ok, talvez as barracas de comida) quanto pelas opiniões da gente local. Quero sair do avião e começar a conversar com meus amigos imediatamente, vendo a paisagem através de seus olhos experientes, e teclando “Os Emirados estão realmente interessados em decoração” em meu celular.

Eu quero ouvir não somente as exaltações sobre o melhor frango frito do planeta e a segunda melhor opção de viagem pela Itália, mas também os grandes desapontamentos e arrependimentos; plagiando Tolstoi: todos os países alegres (e enfadonhos, eu acrescentaria) são semelhantes; todos os países tristes são tristes a seu modo.



Eu sei que acertei algo quando, tarde da noite, ao apagar das luzes dos novos arranha-céus cintilantes, alguém me sussurra alguma versão do “Por favor, não cite meu nome, ok? Mas tudo aqui é uma mentira.”

Às vezes eu sinto medo. Não tanto pela minha vida, mas medo de não fazer a coisa certa. De voltar com muitos preconceitos. De não conseguir enxergar as mentiras. Quando meu avião aterrissa em Beijing, uma cidade de 20 milhões de habitantes, eu sei que tenho somente oito dias para partir com algo original e instigante sobre o lugar.

Sim, eu já avisei meus contatos antes de embarcar em Newark e hoje à noite vou encontrar uma ex-estrela do rock sino-americana que, caso suas reflexões na Internet sejam verdadeiras, deve ser uma das pessoas mais engraçadas da República Popular da China.



E assim, cansado do voo mas cheio de atitude, carregando minha mala prá cima e prá baixo, deixando prá trás aquele casal belga cujo bebê babou em cima de mim por vinte horas, correndo em direção à amargurada palavra imigração, com o símbolo internacional de um homem com chapéu examinando um livro aberto, dou início à minha nova vida.

Texto original pode ser acessado no site da Travel and Leisure

A Rocco publica os livros de Gary Shteyngart no Brasil. Retiro do site da editora uma breve biografia do autor:


Gary Shteyngart nasceu na Rússia, em 1972, e foi para os Estados Unidos aos sete anos. Seu primeiro livro, O pícaro russo, ganhou o Stephen Crane Award na categoria para estreantes e o National Jewish Book Award na categoria ficção. Seus outros dois romances são Absurdistão, considerado o livro do ano pela revista Time, e Uma história de amor real e supertriste, eleito um dos dez melhores do ano pelo The New York Times, ambos publicados pela Rocco. Shteyngart foi indicado pela revista Granta como um dos melhores jovens romancistas americanos e fez parte da lista de 20 escritores notáveis com menos de 40 anos publicada pela The New Yorker.